Agostinho Neto - o espírito de Kilamba

Agostinho Neto - foto: (...)
António Agostinho Neto, primeiro presidente da República de Angola, era médico de profissão, poeta por vocação e um líder por natureza. Nascido a 17 de Setembro de 1922, na aldeia de Kaxicane, no município de Icolo e Bengo, na província de Luanda, era filho do pastor metodista, Agostinho Neto, e da professora Maria da Silva Neto.
Após concluir o ensino primário, entrou para o Liceu Salvador Correia, em Luanda, onde terminou o 7º ano em 1944. Depois, partiu para Portugal para frequentar a Faculdade de Medicina. Foi em Portugal onde Agostinho Neto iniciou a sua acção política.
Em 1947, integrou o Movimento dos Jovens Intelectuais de Angola sob o lema “Vamos Descobrir Angola”. Em Coimbra, com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque, colaborou nas revistas “Momento” e “Mensagem”, órgãos da Associação dos Naturais de Angola.
Os seus poemas e artigos, aliados ao seu engajamento político fizeram com que fosse perseguido e preso pela PIDE - Polícia Internacional de Defesa do Estado, órgão repressor da ditadura Salazarista que combatia os movimentos nacionalistas das colónias portuguesas de então.
Posto em liberdade, retoma a actividade política e intelectual, fundando em Lisboa, em parceria com Amilcar Cabral, Mário de Andrade, Marcelino dos Santos e Francisco José Tenreiro, o Centro de Estudos Africanos, orientado para a afirmação da nacionalidade africana.
Em 1951, é indicado como representante da Juventude das colónias portuguesas junto do MUD - Juvenil (Movimento de unidade democrática-Juvenil) português.
Pela sua participação em actividades anticoloniais é novamente preso pela PIDE, em Fevereiro de 1955, e condenado a dezoito meses de prisão.
Preso em Lisboa, Agostinho Neto não participa, em 10 de Dezembro de 1956, no acto de fundação do MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola.
Em 1957, é libertado pela PIDE e, uma ano depois, licencia-se em Medicina pela Universidade de Lisboa e casa-se com Maria Eugénia Neto.
Participa da fundação do Movimento Anticolonialista (MAC). Que congregava patriotas das diversas colónias portuguesas para uma acção revolucionária conjunta nas cinco colónias portuguesas: Angola, Guiné, Cabo Verde, Moçambique e S. Tomé e Príncipe.
Pouco antes do Natal de 1959, Agostinho Neto, acompanhado da mulher e do filho, deixa Lisboa de regresso à Luanda, onde abre um consultório médico. Em paralelo com a sua actividade clínica, continua a sua militância a favor da independência e é eleito, em 1960, Presidente Honorário do MPLA.
Preso pela terceira vez, em Luanda, Agostinho Neto é transferido para diversas prisões em Portugal e Cabo Verde.
O assalto às cadeias de Luanda, em Fevereiro de 1961, desencadeia a luta armada pelo MPLA, seguindo-se uma forte repressão colonial. Preso na cidade da Praia, em em Cabo Verde, Agostinho Neto é transferido para a prisão de Aljube, em Portugal, onde permanece até Março de 1963.
Libertado, em 1963, foge clandestinamente para Léopoldville (Kinshasa), e junta-se ao MPLA. Neste mesmo ano é eleito presidente do MPLA durante a Conferência Nacional do Movimento. A luta armada contra o domínio colonial se intensifica até que, em Fevereiro de 1975, regressa a Luanda.
Em representação do MPLA, Agostinho Neto participa em Alvor, Portugal, na assinatura do acordo para a constituição do “governo de transição”. A 11 de Novembro de 1975, Agostinho Neto proclama a independência de Angola.
Dirige o MPLA e Angola durante os primeiros anos de independência, mas, doente, morre a 10 de Setembro de 1977, em Moscovo, na União Soviética. Agostinho Neto deixou como legados, a independência e a liberdade do povo angolano.
:: Fonte: MPLA / ver biografia completa em: Fundação Antonio Agostinho Neto (acessado em 25.8.2015)

PRÊMIOS
:: Prémio Lótus, 1970.
:: Prémio Nacional de Literatura, 1975.


OBRAS DE AGOSTINHO NETO
Agostinho Neto, por Fabiana Miraz de Freitas Grecco
Poesia
:: Náusea. 1952.
:: Quatro poemas de Agostinho Neto. Póvoa do Varzim, e.a., 1957.
:: Poemas. Lisboa: Casa dos Estudantes do Império, 1961.
:: Com os olhos secos. edição bilingue português-italiano, 1963.
:: Sagrada esperança. Lisboa, Sá da Costa, 1974. 
:: A renúncia impossível. [organização Manuel Ferreira].. (edição póstuma). Luanda: INALD, 1982.
:: Poesia(edição póstuma). 1998. 
:: Amanhecer(edição póstuma). Luanda: Fundação Antonio Agostinho Neto, ?.

Política
:: Quem é o inimigo… qual é o nosso objectivo?, 1974. 
:: Destruir o velho para construir o novo. 1976.
:: Ainda o meu sonho. 1980.

Antologias (participação)
:: Poetas africanos contemporâneos. [organização e tradutores Fayada Jamis, Virgilio Piñera, Armando Álvarez Bravo, Manuel Cabrera y David Fernándes]. Madrid: Biblioteca Jucar, 1975. 



POEMAS DE AGOSTINHO NETO

À reconquista
Não te voltes demasiado para ti mesma
Não te feches no castelo das lucubrações  infinitas
Das recordações  e sonhos que podias ter vivido

Vem comigo África de calças de fantasia
desçamos à rua
e dancemos a dança fatigante dos homens 
o batuque simples das lavadeiras
ouçamos o tam-tam angustioso
enquanto os corvos vigiam os vivos
esperando que se tornem cadáveres

vem comigo África dos palcos acidentais
descobrir o mundo real
onde os milhões se irmanam na mesma miséria
atrás das fachadas de democracia de cristianismo de igualdade

Vem comigo África de colchões de molas
e reentremos na casinha de latas esquecidas no musseque da Boavista
até onde já nos empurram
ao nos quebrarem as casas de meia água de Cayette
e à volta de fogo consolador das nossas aspirações mais justas
examinaremos a injustiça inoculada no sistema vivo em que giramos.

Vem comigo África de colchões de esmola
regressemos à nossa África
onde temos um pedaço da nossa carne calcado sob as botas dos magala
- a nossa África

Vem comigo África do jitterburg
até a terra até o homem até o fundo de nós
ver quando de ti e de mim faltou
quanto da África esqueceu
e morreu na nossa pele mal coberta sob o fato emprestado
pelo mais miserável dos ex-fidalgos

Não chores África dos que partiram
olhemos claros para os ombros encurvados do povo que desce a calçada
negro negro de miséria negro de frustração negro de ânsia

e dêmos-lhes o coração 
entreguemo-nos

através da fome da prostituição das cubatas esfuracadas
das chanfalhadas dos cipaios
através dos muros das prisões através da Grande Injustiça

Ninguém nos fará calar
Ninguém nos poderá impedir
O sorriso dos nossos lábios não é agradecimento pela morte
com quem nos matam.

Vamos com toda a Humanidade
Conquistar o nosso mundo e a nossa Paz.
- Agostinho Neto (1953), em "Sagrada esperança".


A voz igual
Neste amanhecer vital
para os acontecimentos extraordinários
por montes e rios, por anharas e preconceitos
caminhamos já vitoriosos
sobre a condição moribunda

Um amanhecer vital
em que se transforma as sensações orgânicas
sobre o solo pátrio

As flores apenas pétalas e aroma
os homens apenas homens
o lavrador possuindo a terra em associação perene
o operário da fábrica consciencializado a máquina
e a nossa voz gritando igual no seio da Humanidade
na mesma hora em que a mentira
se esconde na covarde violência

Os homens saídos dos cemitérios da ignorância
das ossadas insepultas dos arrabaldes das cidades
nas sanzalas e nas terras estéreis
são os eleitos
os participantes efectivos no festim da nova vida
e das suas vicissitudes

Os homens
cuja voz descansou sob a condição e sob o ódio
e construíram os impérios do Ocidente
as riquezas e as oportunidades da velha Europa
mantendo os seus pilares sobre a angústia pulsátil dos braços
sobre a indignidade e a morte dos seus filhos
os homens sacrificados nos traços paralelos das vias férreas
cujo sangue se encontra nas argamassas
lançado com pontes e estradas
também prenderam as águas nas barragens
com as suas mãos formidáveis e com os seus mortos
deram ao brilho das metrópoles ouro e diamantes
e das entranhas da terra mungiram óleos e farturas
para os sorrisos ingratos
e na sua bondade na sua visionária esperança
pediram às estrelas
apenas o complemento espiritual do dia escravo
Povo genial heroicamente vivo
onde outros pereceram
de vitalidade inultrapassada na História
alimentou continentes e deu ritmos à América
deuses e agilidade nos estádios
centelhas luminosas na ciência e na arte

Povo negro
homens anónimos no espírito da triste vaidade branca
agora construindo a nossa pátria
a nossa África
e no traço luminoso dos dias magníficos de hoje
definem a África solidária e esforçada
contra os desvarios duma natureza incongruente
na independência
num mundo novo com a voz igual

chegada a hora das transformações cósmicas
que atingem a terra e catalisam os fenómenos
o raio mortífero da revolução
pulveriza a submissão do homem
e na força da amizade se encontram as mãos
se beijam as faces

Na hora das transformações humanas
o chilreio infantil da mocidade feliz
cantando em rodas ensaiadas pelos avós
falando nas nossas línguas a tradição da nossa terra
harmonizando as vozes na hora da independência
reconquistando o solo pátrio
para o nosso homem
preenche-lhe o vazio
Cantam nas praças e nos templos da sabedoria
as raparigas os poetas o brilhos das estrelas
mergulhadas as raízes no húmus ancestral da África

Chegados à hora
fervilha a impaciência nos corações que lutam
pelo fumegar das fábricas e chiar dos guindastes
homens e rodas, suor e ruido
conjugados na construção da pátria libertada
conscientemente na construção da pátria
sem que o germe da exploração lhe penetre
sem que a voz nauseabunda do capataz
anuncie o cair do chicote
e os homens felizes na incomodidade de hoje
nos campos de batalha, nas prisões, no exílio
construindo o amanhã, para uma terra nossa uma pátria nossa
independente
Construção

       e
       reencontro

Chegados à hora
caminha o povo infatigável para o reencontro
para de novo se descobrir e fazer
nas melodias e nos cheiros ancestrais
na modificação progressiva dos sacrifícios aos deuses
nas violências sagradas e nos ritos sociais
na revivificação e na carinhosa adoração dos mortos
no respeito do vivos
nas orgíacas práticas do nascimento e da morte
na iniciação da vida e do amor
no milagroso pacto entre o homem e o cosmos

Reencontrar a África no sorriso
no choque diário com os fantasmas da vida
na consagração da sabedoria e da paz
livres do constrangimento livres da opressão livres

Reencontrar-se nos campos de trabalho
na socialização
na entreajuda gloriosa nos campos
nas construções
nas caçadas
na colectivização das catástrofes e alegrias
na congregação dos braços para o trabalho
reencontrar-se nas tradições e nos caminhos feiticeiros
no medo no furor dos rios e cataratas
na floresta na religião na filosofia
a essência para a nova vida de África

Ressuscitar o homem
nas explosões humanas do dia a dia
na marimba no chingufo no quissange no tambor
no movimento dos braços e corpos
nos sonhos melodiosos da música
na expressão do olhar
e no acasalamento sublime da noite com o luar
da sombra com o fogo do calor com a luz
a alegria dos que vivem com o sacrifício gingado dos dias

Reencontrar
nos sagrados refúgios das horas de angústia
os homens perdidos nos labirintos alcoólicos
vícios da escravidão
e socorro extremo para a fome crónica
dos dias de frio e de calor de tristeza e de alegria
dos dias de farra e dos dias de rusga
dos minutos importantíssimos da existência imediata
imprevisível indispensável
com ódios amizades traições riso choro força
fadiga energia ânimo desânimo silêncio
ruídos de terramoto soltos pelas mãos
ansiosas de êxito e de esquecimento
e de sonoras palavras nas letras das músicas desesperadas
lançadas nos bailes de sábado sobre as poeiras dos quintais
e o desejo incontido de se realizar
de ser homem
de encontrar o calor supremo na superfície carnal do outro
a voz amiga na laringe longínqua do outro
afagando um pouco a vida
num artifício monstro da liberdade ansiada

Reencontrar nos álcoois
No sangue demoníaco das entranhas feiticistas da terra
onde se espelham os horizontes infernais da morte
e se cruzam razão e loucura
bílis amaríssima no encarceramento da prudência
e da capacidade
buscar nos álcoois
o amor à cultura à investigação à criação
à explicação do cosmos
o domínio da seta veloz sobre a vida do antílope
da água sobre as chamas ateadas pelo raio
a forma e o âmago
do estilo africano de vida

Do caos para o reinício do mundo
para o começo progressivo da vida
e entrar no concerto harmonioso do universal
digno e livre
povo independente com voz igual
a partir deste amanhecer vital sobre a nossa esperança.
- Agostinho Neto (Arquipélago de Cabo Verde - Ponta sol, Dezembro de 1960), em "Sagrada esperança".


Agostinho Neto, poeta e primeiro presidente de
Angola. foto (DR)
Adeus à hora da largada
Minha mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós 
os teus filhos
partidos  para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areias ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz eléctrica
os homens bêbedos a cair 
abandonados ao ritmo dum batuque de morte 
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas 
com medo dos homens
nós mesmos

Amanha
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
vão em busca de vida.
- Agostinho Neto, em "Sagrada esperança".


Amanhecer
Há um sussuro morno
sobre a terra;
degladiam-se
luz e trevas 
pela posse do Universo;
sente-se a existência
a penetrar-nos nas veias
vinda lá de fora
através da janela;

cresce a alegria na alma
a Vida murmura-nos doces fantasias.

Tangem sinos na madrugada
vai nascer o sol.
- Agostinho Neto, em "Amanhecer".


Aspiração
Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo na Geórgia no Amazonas

Ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar

Ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
e a alma entregue à fé
ainda a dúvida

E sobre os meus cantos 
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado

Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

Ainda a minha vida 
oferecida à Vida
ainda o meu Desejo

Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer

E nas sanzalas
nas casas
nos subúrbios das cidades
para lá das linhas 
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram:ainda

O meu Desejo
transformando em Força
inspirando as consciências desesperadas.
- Agostinho Neto (1949), em "Sagrada esperança".


As terras sentidas
As terras sentidas de África
nos ais chorosos do antigo e do novo escravo
no suor aviltante do batuque impuro
de outros mares
sentidas

As terras sentidas de África
na sensação infame do perfume estonteante da flor
esmagada na floresta do ferro e do fogo
as terras sentidas

As terras sentidas de África 
no sonho logo desfeito em tinidos de chaves carcereiras
e no riso sufocado e na voz vitoriosa dos lamentos
e no brilho inconsciente das sensações escondidas
das terras sentidas de África

Vivas
em si e connosco vivas

Elas fervilham-nos em sonhos 
ornados de danças de embondeiros sobre equilíbrios
de antílope
na aliança perpétua de tudo quanto vive

Elas gritam o som da vida 
gritam-no
mesmo nos cadáveres devolvidos pelo Atlântico
em oferta pútrida de incoerência e morte 
e na limpidez de rios

Elas vivem
as terras sentidas de África
no som harmonioso das consciências
incluída no sangue honesto dos homens
no forte desejo dos homens 
na sinceridade dos homens 
na razão pura e simples da existência das estrelas

Elas vivem 
as terras sentidas de África
porque nós vivemos
e somos as partículas imperecíveis
das terras sentidas de África.
- Agostinho Neto, em "Sagrada esperança".


Campos verdes
Os campos verdes, longas, serras, ternos lagos
estendem-se harmoniosos na terra tranquila
onde os olhos adormecem temores vagos
aceso mornamente sob a dura argila,

seca, como outrora mingou a doce esperança
quente, imperecível como sempre o amor
sacrificada, sangrada na lembrança
do esforço bestial do látego opressor.

Em campos verdes, longa serras, ternos lagos
vefulgem ígneas chamas, rubros rugem mares
cintilados de ódio, com sorriso em mil afagos

São as vozes em coro na impaciência
buscando paz, a vida em cansaços seculares
nos lábios soprando uma palavra: independência!

- Agostinho Neto (Cadeia de aljube de Lisboa, Setembro de 1960), em "Sagrada esperança".


Comboio africano
Um comboio
subindo de difícil vale africano
chia que chia
lento e caricato

Grita e grita

quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou

Muitas vidas
ensoparam a terra
onde assenta os rails
e se esmagam sob o peso da máquina
e no barulho da terceira classe

Grita e grita

quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou

Lento caricato e cruel
o comboio africano…
- Agostinho Neto, em "Sagrada esperança".


Confiança
O oceano separou-me de mim
enquanto me fui esquecendo nos séculos
e eis-me presente
reunindo em mim o espaço
condensando o tempo

Na minha história
existe o paradoxo do homem disperso

Enquanto o sorriso brilhava
no canto de dor
e as mãos construíram mundos maravilhosos

John foi linchado
o irmão chicoteado nas costas nuas
a mulher amordaçada
e o filho continuou ignorante

E do drama intenso
duma vida imensa e útil
resultou certeza

As minhas mãos colocaram pedras
nos alicerces do mundo
mereço o meu pedaço de pão.
- Agostinho Neto (1949), em "Sagrada esperança".


Criar
Criar criar
criar no espírito criar no músculo criar no nervo
criar no homem criar na massa
criar
criar com olhos secos

Criar criar
sobre a profanação da floresta
sobre a fortaleza impudica do chicote
criar sobre o perfume dos troncos serrados
criar
criar com olhos secos

Criar criar
gargalhas sobre os escárnio da palmatória
coragem nas pontas das botas do roceiros
força  no esfrangalhado das portas violentas
firmeza no vermelho sangue da insegurança
criar
criar com olhos secos

Criar criar
Estrelas sobre o camartelo guerreiro
paz sobre o choro das crianças
paz sobre o suor sobre a lágrima do contrato
paz sobre o ódio
criar
criar com olhos secos

Criar criar
liberdades nas estradas escravas
algemas de amor nos caminhos paganizados do amor
sons festivos sobre o balanceio dos corpos em força simuladas

criar
criar amor com os olhos secos.
- Agostinho Neto, em "Sagrada esperança".


Desfile de sombras
Por milhentos caminhos
Do meu Desejo
Passam sombras a tactear o Nada;

Vão 
esforçadas na incerteza
por abraçar
os pontos de interrogação da existência.

Atravessam-me 
Arrastando
à laia de gloria
grilhetas e cadeias
com estúpidos sorrisos.

São os homens
que chegaram
e se não acharam

e os angustiados
que ultrapassaram na Vida
e se perderam na confusão;

e os que estão vindo
titubeantes
para este mundo
desconhecido
dos que já chegaram

passam por mim
e eu sigo-os através de mim.

Lá vamos nós!

As sombras sem querer
com os sentidos anestesiados
como a praia que quer ser onda
alar-se em vida
na imensidade 
sentir no peito
a violência das quilhas dos navios
recolher a angústia
e os últimos suspiros dos náufragos
e ficou apenas praia
a sorver ondas
e a contemplar estática
o movimento de além.

As sombras
que se esvaíram no tempo
deixaram-me
esta ânsia
e o eco múltiplo
do tilintar das suas cadeias; 
às que hão-de vir
mostrarei essas cadeias quebradas
e com elas repartirei
o meu desejo de ser onda
neste desfile dos tristes
que se perdem.

Seguem
rojando-se em esperanças
interrogando à morte
o que é a vida

Elas vão longe
ainda vêm longe
e eu sigo-me através de mim.

- Agostinho Neto (1948), em "Sagrada esperança".


Docemente
Num dia em que um sorriso
me pareceu amor.
Eu acredito no amor.

Um sol nasceu num dia qualquer 
Dia de amor
Dia de alegria
E todas as aves cantaram no céu
Esse dia alegre de amor.

Um ser de andar leve sorriu
Sorriu para mim
Sorriu para o meu mundo
E todas as portas do optimismo se abriram
Nesse doce sorriso de amor.

Duas mãos se apertaram confiantes
Dois caminhos fundidos
Um Desejo em dois desejos
E todo o Universo se condensou
No sentir das mãos unidas em amor.

Docemente o sol nasceu
Docemente o amor brilhou
E o mundo
Se tornou também o nosso mundo.
- Agostinho Neto (4 de Setembro de 1951), em "Amanhecer".


Eu - mistério
Sou um mistério.

Vivo as mil mortes
que todos os dias
morro
fatalmente.

Por todo mundo
o meu corpo retalhado
foi espalhado aos pedaços
em explosões de ódio
e ambição
e cobiça de glória.

Perto e longe
continuam massacrando-me a carne
sempre viva e crente
no raiar dum dia
que há século espero.

Um dia
que não seja angustia
nem já esperança.

Dia
dum eu – realidade.
- Agostinho Neto (1947), em "Renuncia impossível".


Fogo e ritmo
Sons de grilhetas nas estradas 
cantos de pássaros 
sob a verdura húmida das florestas 
frescura na sinfonia adocicada 
dos coqueirais 
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte

Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
cheios de gente 
em êxodo de toda a parte 
caminhos largos para os horizontes fechados 
mas caminhos
caminhos abertos por cima 
da impossibilidade dos braços.

 Fogueiras
    dança
      tamtam
        ritmo

Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no som
ritmo no movimento 
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços 
ritmo nas unhas arrancadas
Mas ritmo
ritmo

Ó vozes dolorosas de África!
- Agostinho Neto, em "Sagrada esperança".


Havemos de voltar
Às casas, às nossos lavras
às praias, aos nossos campos
havemos de voltar

Às nossos terras
vermelhas de café
brancas de algodão
verdes dos milharais 
havemos de voltar

às nossas minas de diamantes
ouro, cobre, de petróleo
havemos de voltar

Aos nossos rios, nossos lagos
às montanhas, às florestas
havemos de voltar

À frescura da mulemba
às  nossas tradições
aos ritmos e às fogueiras
havemos de voltar

À marimba e ao quissangue
ao nosso carnaval
havemos de voltar

À bela pátria angolana
nossa terra, nossa mãe
havemos de voltar

Havemos de voltar
À Angola libertada
Angola independente
- Agostinho Neto (Cadeia de aljube de Lisboa, Outubro de 1960), em "Sagrada esperança".



Agostinho Neto
Kalunga
Ela veio do mato
e confundiu
as estrelas com as luzes da cidade

Na cidade
os seus olhos eram duas estrelas

E no coração de muitos homens
não brilhou outro sol
senão a linda filha de soba
que viera das terras da Lunda
e morava no muceque Sambizanga

Mas os seus olhos confusos
descobriram na cidade 
um mundo diferente
onde a sua alma era aferrolhada
nos navios que levaram do Congo
os homens sobre o mar 
Kalunga! Morte

Aquela cidade era um mar
era a sua morte

E na cidade brilhante
que é um mundo, um mar
Kalunga!
onde em cada rua partem navios
para longe de cada  homem
perdeu duas estrelas-
Os olhos
da linda filha dum soba da Lunda.
- Agostinho Neto, em "Renuncia impossível".


Mãos esculturais
Além deste olhar vencido
cheios dos mares negreiros
fatigado
e das cadeias aterradores que envolvem lares
além do silhuetar mágico das figuras
nocturnas
após cansaços em outros continentes dentro de África

Além desta África
de mosquitos
e feitiços sentinelas
de almas negros mistérios orlado de sorrisos brancos
adentro das caridade que exploram e das medicinas que matam

Além África dos atrasos seculares
Em corações triste

Eu vejo
as mãos esculturais
dum povo eternizado nos mitos
inventados nas terras áridas da dominação
as mãos esculturais dum povo que construi
sob o peso do que fabrica para se destruir

Eu vejo  além África
amor brotando virgem em cada boca
em lianas invencíveis da vida espontânea 
e as mãos esculturais entre si ligadas
contra as catadupas demolidoras do antigo

Além desde cansaço em outros continentes
a África viva  
sinto-a nas mãos esculturais dos fortes que são povo
e rosas e pão
e futuro.
- Agostinho Neto, em "Sagrada esperança".


Na pele do tambor
As mãos violentas insidiosamente batem
no tambor africano
e a pele percutida solta-me tam-tams gritantes
de sombras atléticas
à luz vermelha do fogo de após trabalho

Esmago-me da pele batida do tambor africano
vibro em sanguinolentas deturpações de mim mesmo
à vontade das percussões alcoólicas
sobre a pele esticada do meu cérebro

Onde estou eu? quem sou eu?

Vibro no couro pelado do tambor festivo
em europas  sorridentes de farturas e turismo
sobre a fertilização do suor negro
nas áfricas renovadas do brilho firme do sol e da transformação 
sedosa e explosiva do universo
dentro do movimento de mim mesmo na vibração ritmada 
da pele cerebral do tambor africano 
ritmada para o esforço de dançar a dança suave das palmeiras

Vibro
em africas humanas de sons festivos e confusões 
(que línguas pronunciais em mim irmãos
que não vos entendo neste ritmo?)

Nunca me pensei tão pervertido
ó impureza criminosa dos séculos coloniais
(que história é essa da lebre e da tartaruga
que contas neste novo ritmo de fogueira 
à noite
minha avozinha de pele negra de África?)

Mas não tão longe nem tão pervertido
quanto as vibrações
da pele do meu cérebro
esticada no tambor das minhas mãos 
pela África humana

As mãos entrelaçadas sobre mim
em gozo de vida em gargalhadas em alegrias
de lagos libertados por amplo verdes
para os mares
dão-me o tom da minha áfrica 
dos povos negros do continente que nasce
fora dos abismos escurecidos da negação
ao lado de ritmos de dedos congestionados
sobre a pele envelhecida do tambor 
dentro do qual vivo e vibro e calmo:
                                   AVANTE!
- Agostinho Neto, em "Sagrada esperança".


Não me peças sorrisos
Não me exijas glórias
que ainda transpiro
os ais
dos feridos nas batalhas

Não me exijas glórias
que sou eu o soldado desconhecido
da humanidade

As honras cabem aos generais

A minha glória
é tudo o que padeço
e que sofri
Os meus sorrisos
tudo o que chorei

Nem sorrisos nem glória

Apenas um rosto duro
de quem constrói a estrada
pedra após pedra
em terreno difícil

Um rosto triste
pelo tanto esforço perdido
- o esforço dos tenazes que se cansam
á tarde
depois do trabalho

Uma cabeça sem louros
porque não me encontro por ora
no catálogo das glórias humanas

Não me descobri na vida
e selvas desbravadas
escondem os caminhos
por que hei-de passar

Mas hei-de encontrá-los
e segui-los
seja qual for o preço

Então
num novo catálogo
mostrar-te-ei o meu rosto
coroado de ramos de palmeira

E terei para ti
os sorrisos que me pedes.
- Agostinho Neto (1949), em "Sagrada esperança".



Nas curtas horas
Nas curtas horas realmente longas
cada minuto um porquê da tua ausência
cada instante o desejo visceral da tua presença

Nas curtas horas realmente longas
ao afagar o sussurro da tua voz suave 
ela ribomba como o trovão
como ondas iradas sob tempestade
aos ouvidos impacientes da ânsia.

Ânsia de rasgar o ventre grávido da fera
de arrebatar das mãos do medo
o germe implacável da semente portentosa
da chegada

Nas curtas horas realmente longas
a jornada insana das lutas vitoriosas 
o grito a caminho firme para a vida
o meu grito na tua voz
o meu desejo nos teus olhos.
- Agostinho Neto, em "Renuncia impossível".


Noites de cárcere
Em tardes cálidas
quando olhares e vozes enchem a estrada da Cuca
e lá para a Lixeira
ou nos morros da Maianga
desta terra empobrecida de tudo pelo medo
e enriquecida pela certeza
ressuscitam fogo e magia
e palavra quentes de impaciência

Nessas tarde cálidas
e nas noites de luar
-    quando num óbito o tambor chora um cadáver
e as raparigas cantam –
há uma cela de chumbo sobre os ombros do nosso irmão
nosso sangue nosso espírito
dikamba dietu

O seu nome coração bate
Como estrondo de bomba
e há quem tem medo do seu amor
erguido eternamente
sobre um corpo fatigado de prisões
de noite de vigília
dos sofrimentos alheios
do ódio escarrado no rosto pela hipocrisia

Ao lado
alguém geme
com os dedos debruçados de sangue
que corre das unhas rebentadas pela palmatória

Pensa na vitória
e não há sono que chegue para os seu dias de cárcere
ou sonhos que lhe preencham a solidão

Há minutos em que o mundo
Se resume na sala de tortura

Oh!
quem dormirá
quando ao lado há os gritos do louco
quem pulam da janela para lhe apunhalar a carne
sobre o cansaço de insónias angustias e expectativa?

Quem dormirá
quando assiste ao enlouquecer do melhor amigo
ali na cela ao lado
morto o espírito pelo tortura?

Por vezes
lembra-se desse magnífico sorriso de Marina
e também do olhar ingénuo
do jovem barbado à Fidel
que fala com banga para as nuvens

É nossa! É nossa!
Xi ietu manu
kolokota
kizuua a ndo tu bomba
kolokotenu ...

No silêncio sepulcral 
das quatros paredes
sem sol
lê na Bíblia
oferta de esperança de sua mãe:

“Bem aventurados os que têm fome
e sede de justiça...”

Porque deles será a pátria
e o amor do seu povo.
- Agostinho Neto (Cadeia da PIDE de Luanda, Julho de 1950), em "Sagrada esperança".


Noite
Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos 
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambulhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

Também a noite é escura.
- Agostinho Neto, em "Sagrada esperança".


Novo rumo
Na alta noite dos caminhos
sem nome
o nosso nome é ritmo
o nosso destino é vida

O ritmo
dos passos incertos dum filho pródigo
que por herança teve azorragues
e se esbanjou em fé
em hesitações em amor
e regressa desiludido
mas ainda crente
procurando em si
o homem que perdeu

O destino
é a própria História
o Início
a Concordância

Somos o ritmo construtivo
do novo
na alta noite
dos caminhos sem nome.

- Agostinho Neto (1950), em "Renuncia impossível".


O caminho das estrelas
Seguindo
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
sobre a onda
sobre a nuvem
com as asas primaveris da amizade

Simples nota musical
indispensável átomo da harmonia
partícula
germe
cor
na combinação múltipla do humano

preciso e inevitável
como o inevitável passado escravo
através das consciências
como o presente

Não abstracto
incolor entre  ideias sem cor
sem ritmo entre as arritmias do irreal 
inodoro
entre as selvas desaromatizadas
dos troncos sem raiz



Mas concreto 
vestido do verde
do cheiro novo das florestas depois da chuva
da seiva do raio do trovão 
as mãos amparando a germinação do riso
sobre os campos da esperança

A liberdade nos olhos 
o som nos ouvidos
das mãos ávidas sobre a pele do tambor
num acelerado e claro ritmo
de Zaires Calaáris montanhas luz
vermelha de fogueiras infinitas nos capinzais violentados
harmonias spiritual  de vozes tamtam
num ritmo claro de África

Assim
o caminho das estrelas
pela curva ágil do pescoço da gazela
para a harmonia do mundo.
- Agostinho Neto (1953), em "Sagrada esperança".


Ópio
Casaram-me com a tristeza!

A minha terra 
negra de sol
-a minha Mãe-
que entoa magoadas melodias
em noites de festa 
quando a lua ri
e a enigmática floresta
farfalha ritmos de jazz,
-a minha Mãe-
deu-me tristeza em casamento
quando nasci.

Não tive infância
nem mocidade
não tive a alegria
da primeira idade
por causa deste noivado prematuro 
e senil.

Meus pesados dias são ilusões
meus prazeres amarguras
a felicidade e a vida
sonhos.

Eu próprio sou uma ilusão
Sou a irrealidade
sou sonho.

Porque a realidade é a tristeza
e não a quero assim

Para a esquecer
e olvidar meus amores
os meus ideias
fumo ópio.

Para a esquecer
e olvidar meus amores
os meus ideias
fumo ópio.

-Eu sensualizo a vida:
belo o brilho da luz
quando trabalho o sol
queimando os ombros nus
gozo o sadismo do fogo
quando danço à fogueira
e a lenha contorce
sofrendo
como o meu sofrimento
amarfanha a alma.

Gozo
gozo ingenuamente
a fingir que não sofro;
choro como quem ri!

Fumo o meu ópio
Para sonhar
- Agostinho Neto (Coimbra, 1947), em "Renuncia impossível".


Para além da poesia
Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas dos embondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Poesia africana

Na estrada
A fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha de olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó-de –arrroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo do fogo
e as silhuetas dos homens negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marinbas

Poesia africana

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem das marinbas

os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.
- Agostinho Neto, em "Sagrada esperança".


Paredes velhas
Os velhos monumentos
erguidos  para serem por mim venerados
hei de derrubá-los

Essas paredes velhas
construídas por egoístas
e que nos não lembram de mim
hei-de destruí-las

Levantaremos novos monumentos 
paredes novas
que dirão aos nossos filhos 
o que nós juntos 
vamos edificando.

Juntos serão lembrados 
os nossos nomes
como juntos nos temos oferecido
em holocaustos à vida

E os filhos de nossos filhos
de mãos dadas
orgulhar-se-ão de nós.
- Agostinho Neto, em "Amanhecer".


Pausa
Há esta angústia de ser humano
quando os répteis se entrincheiram no lodaçal
e os vermes se preparam para devorar uma linda criança
em indecorosa orgia de crueldade

E há esta alegria de ser humano
quando a manhã avança suave e forte 
apavorando vermes e répteis

E entre a angústia e a alegria
um trilho imenso do Níger ao Cabo
onde marimbas e braços tambores e braços vozes e braços
harmonizam o cântico inaugural da Nova África
- Agostinho Neto (1951), em "Sagrada esperança".


Sinfonias
A melodia crepitante das palmeiras
lambidas pelo furor duma queimada

Cor
estertor
angústia

E a música dos homens 
lambidos pelo fogo das batalhas inglórias

Sorrisos
dor
angústia

E a luta gloriosa do povo

A música
que a minha alma sente.
- Agostinho Neto (1948), em "Sagrada esperança".



Agostinho Neto
Velho negro
Vendido
e transportado nas galeras
vergastado pelos homens
linchado nas grandes cidades
esbulhado até ao ultimo tostão 
humilhado até ao pó
sempre sempre vencido

É forçado a obedecer
a Deus e aos homens
perdeu-se

Perdeu a pátria
e a noção de ser

Reduzido a farrapo
macaquearam seus gestos e a sua alma
diferente

Velho farrapo
negro
perdido no tempo
e dividido no espaço!

Ao passar de tanga
com o espírito bem escondido
no silencio das frases cõncavas
murmuram eles:
pobre negro!

E os poetas dizem que são seus irmãos.
- Agostinho Neto (1948), em "Sagrada esperança".


Voz do sangue
Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado
do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South

Ó negro da África
negros de todo o mundo

eu junto
ao vosso magnífico canto
a minha pobre voz
os meus humildas ritmos.

Eu vos acompanho
pelas emaranhadas africas
do nosso Rumo.

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a nossa história
meus irmãos.
- Agostinho Neto (1948), em "Renuncia impossível".


Agostinho Neto, por Nelson Paim

FORTUNA CRÍTICA DE AGOSTINHO NETO
ABDALA JUNIOR, Benjamin. Agostinho Neto. Angolê, Porto - Portugal, p. 11-15, 1991.
ABDALA JUNIOR, Benjamin. Agostinho Neto. In: Rector, Monica; Vernon, Richard. (Org.). African Lusophone Writers. Chicago, IL - Estados Unidos: GALE - A Bruccoli Clarck Layman Book, 2012, v. 367, p. 120-125.
ABDALA JUNIOR, Benjamin. Agostinho Neto e a poética subjacente ao caderno poesia negra de expressão portuguesa. In: Organizadores. (Org.). A voz de igual. Porto: Fundação Antonio de Almeida, 1990, v. , p. 11-21.
AA.VV., Agostinho Neto: libertador e homem de cultura. Luanda: Centro Cultural Agostinho Neto, 2003.
BARRADAS, Acacio (org.). Agostinho Neto uma vida sem tréguas - 1922 - 1979. Lisboa; Luanda: Edições NI, 2005.
CAETANO, Marcelo José. O Eu e O Outro: Sagrada Esperança (Inautenticidade na Poesia de Agostinho Neto).. (Dissertação Mestrado em Letras). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. PUC Minas, 1995.
CARREIRA, Iko. O pensamento político de Agostinho Neto. Lisboa: D. Quixote, 1996.
CASTRO, Léo Mackellen Gonçalves de.. Identidades imaginadas ou Agualusa vs. Agostinho Neto: a falência do projeto original da identidade nacional angolana. (Dissertação Mestrado). Universidade de Brasília, 2011. Disponível no link. (acessado em 25.8.2015).
AgostinhoNeto (selo)
COSME, Leonel. Agostinho Neto e seu tempo. Porto: Campo das Letras, 2004.
FERREIRA, Elio.. Negritude e invenção estética: Agostinho Neto, Aimé Césaire, Luís Gama e L. G. Damas. Diário do Povo, Teresina - PI, p. 10 - 10, 17 maio 1992.
FLORES, Elio Chaves. História e poesia no mundo atlântico: Agostinho Neto e Oliveira Silveira (1941-1979).. In: ENLIJE Encontro Nacional de Literatura Infanto-Juvenil e Ensino., 2012, Campina Grande. Anais ENLIJE Encontro Nacional de Literatura Infanto-Juvenil e Ensino.. Campina Grande: Editora Realize, 2012. v. 1.
KANDJIMBO, Luís. Apuros de vigília. Luanda: UEA, s/d. 
LARANJEIRA, Pires (org). Negritude africana de língua portuguesa. texto de apoio (1947-1963). Braga: Angelus Novus, 2000.
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MOURAO, Fernando Augusto Albuquerque. A sociedade angolana através da literatura. (Dissertação  Mestrado em Sociologia). Universidade de São Paulo, USP, 1969.
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VECCHI, Roberto. Agostinho Neto, uma poesia perfomativa. Rivista Di Studi Portoghesi e Brasiliani, Pisa, v. V, p. 76-80, 2003.



Poema
Agostinho Neto 
Apetece-me escrever um poema.

Um poema fechado dentro de si
para ser compreendido
apenas
pelos passarinhos que chilreiam lá fora
sobre as três árvores
da minha única paisagem;
para ser sentido
na canção da seiva
circulante no verde das ervas
do caminho áspero da encosta;
e pelo brilho do sol
e pelo carácter integro dos homens.

Um poema que não sejam letras
mas sangue vivo
em artérias pulsáteis dum universo matemático
e sejam astros cintilantes
para calmas noites
de Invernos chuvosos e frios
e seja lume para acolher as gazelas
que pastam inseguras
nos campos acolhedores da imensa vida;
amizade para corações odientos;
motor impelindo o impossível
para a realidade das horas;
cântico harmonioso para formosura dos homens.

Um poema -
(ah! quem comparou a África a uma interrogação
cujo ponto é Madagáscar?)

Um poema solução
resolvendo a curva interrogativa da imagem
em linha recta de afirmação;
a beleza das florestas virgens
e a precisão da engrenagem da existência;

o som fantástico do trovejar sobre pedras;
os cataclismos fluviais
pendentes sobre as frágeis canoas do rio Zaire;
a obnubilação ansiosa das almas da penumbra
o claro arrebol no olhos dos homens.

Um poema traçado sobre aço
escrito com as flores da terra
e com os braços erguidos da podridão;
esculpido no amor
que exala a esperança daquele meu amigo
a esta hora com a tanga ensopada
no suor do seu dorso;
com as canções adocicadas dum quissange ao luar;
das gargalhadas infantis para a minha amada;
do calor simpático
do corpo sangrento dos homens

Um poema fechado
– longo e imperceptível –
em que amor e ódio entrelaçados
sejam a síntese da discordância
para ser cantado em todas as línguas
guiado pelo som da marimba e do piano;
ritmo de batuque enxertado sobre as valsas
da outra mocidade;
harmonia de xinguilamentos
sobre o bárbaro matraquear das máquinas de escrever;
grito aflitivo no vácuo
debatendo-se para encontrar a vibração da matéria
e a aspiração dos homens.

Mas não escreverei o poema.

Em que subterrâneos circularia
o ar irrespirável da violência?
Nas cavernas dos teus pulmões
ò caften das vielas sórdidas
do conformismo?
Ou na avidez dos quilométricos intestinos
dos chacais?
Ou nas cavidades prostituídas do coração
infame do esclavagismo?
Ou nas goelas
da desonestidade inconsciente?

Não escreverei o poema.

Escreverei cartas à minha amada
preencherei os espaços claros dos impressos
com letra impecável
e nos intervalos
cantarei canções afro-brasileiras.
Sonharei.
Sonharei com os olhos do amor
encarnados nas tuas maravilhosas mãos
de suavidade e ternura.
Sonharei com aqueles dias de que falavas
quando te referias à primavera;
sonharei contigo
e com o prazer de beber gotas de orvalho
na relva
deitado ao teu lado,
ao sol – uma praia furiosa lá ao longe.

E ficará dentro de mim
a amargura por não escrever o poema.

Ele há tantas amargura!

Não esceverei o poema.

Direi simplesmente
que o colosso de certeza na humanidade do Universo
é inapagável
como o brilho das estrelas
como o amor dos teus olhos
com a força na harmonia dos braços
como a esperança nos corações dos homens.
Inapagável
como a sensual beleza
da agilidade das feras sobre o campo
e o terror transmitido dos abismos.

Direi simplesmente sim
sempre sim
à honestidade dos homens
ao viço juvenil da sinfonia das árvores;
ao odor inesquecível da natureza
que apaga todos os possível cheiros amargos.

Sim!
à interrogação mágica de Talamungongo
do Cunene ou do Maiombe,
ao sonoro cântico de ritmo subterrâneo
e dos chamamentos telúricos;
aos tambores
apelando para o fio da ancestralidade
esbatida aqui e além;
ao ponto interrogativo de Madagáscar.

Sim!
às solicitações místicas à musculatura dos membros
ao quente das fogueiras endeusadas
na lenha das sanzalas
às expressões magníficas das faces
esculpidas no alegre sofrimento das quitandeiras
e no ritmo febril das sensações tropicais;
à identidade
com a filosofia do embondeiro
ou com a condição dos homens,
ali onde o capim os afoga em confusão.
Sim!
À África-terra, à África humana.

Direi sim
em qualquer poema.

E esperemos que a chuva passe
e deixe de molhar os chilreantes passarinhos
sobre as três árvores da minha única paisagem.

Isso passa.
- Agostinho Neto (Cadeia de Caxias, 25 de Fevereiro de 1955), em "Sagrada esperança".


ICONOGRAFIA (FOTOS E IMAGENS)
Agostinho Neto com os pais e irmãos (último em pé do lado direito).

Frontière Maroc, Julho de 1962. Agostinho Neto, Africano Neto, Mário Pinto
 de Andrade e Hoji Ia Henda - fundo: Arquivo Mário Pinto de Andrade

Agostinho Neto e militantes do MPLA recebem a visita de Che Guevara

Agostinho Neto, chegada em Luanda

Agostinho Neto, Holden Roberto, Jonas Savimbi e um caramelo.

Agostinho Neto com os Sobas, durante a célebre visita a Malanje. (Foto D.R.)

Alberto Neto com Agostinho Neto, na casa onde nasceu Kim Il-sung, na
República da Coreia do Norte em Agosto de 1971.


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Agostinho Neto, por Fernando Campos


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