João Maimona - universos poéticos

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João Maimona (poeta e médico veterinário) nasceu a 8 de Outubro de 1955, em Kobokolo, Maquela do Zombo, província do Uíge. Estudou Humanidades Científicas no ex-Zaire, actual República Democrática do Congo (RDC). Em 1985, licenciou-se em Medicina Veterinária, pela Faculdade de Ciências Agrárias da Universidade Agostinho Neto (UAN), na província do Huambo.
João Maimona é diplomado em estudos superiores especializados de Virologia Médica e Epidemiologia Animal, pelo Instituto Pasteur de Paris e pela École Nationale Vétérinaire d'Alfort, em França.
Ex-deputado à Assembleia Nacional, de 1993 a 2000, foi membro fundador da Brigada Jovem de Literatura Alda Lara do Huambo. Poeta, dramaturgo e ensaísta, é membro da União dos Escritores Angolanos (UEA).
Com a obra “Trajectória Obliterada (1984)” e Idade das Palavras (1996) foi laureado duas vezes com o Prémio Sagrada Esperança.
Com um conjunto de textos que integram o livro “As Abelhas do Dia” (1987), foi distinguido com a medalha de bronze no Concurso Internacional de Poesia, organizado pela Academia Brasileira de Letras, na Cidade do Rio de Janeiro.
Figura em várias antologias publicadas na Bélgica, Brasil, Espanha, França, Inglaterra, Macedónia e Portugal.
João Maimona tem na sua bibliografia 11 livros poéticos, dentre os quais “ Trajectória Obliterada (1985), Traço de União (1987), Idade das Palavras (1997) e “Festa de Monarquia”(2001), dois de teatro designadamente “Diálogo com Peripécia (1987) e " As Colheitas do Senhor Governador"(2010), bem como dois ensaios, nomeadamente “As vias poéticas da esperança em Agostinho Neto (1989) e Desejo de liberdade e humanização em Agostinho Neto (2002). 

:: Fonte:  Angop - Agência Angola Press (acessado em 11.2.2016).


"O testemunho da degradação ou de ruína reencontra seu lugar na linguagem do olhar. As outras linguagens (a dos valores, da acção, do espírito e do desejo) dispõem de imagens para tonificar a démarche susceptível de debelar o estado de degradação e de ruína."
- João Maimona, em "O sentido do regresso e a alma do barco". Luanda: Kilombelombe, 2007, p. 91.

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OBRA DE JOÃO MAIMONA
Poesia
:: Trajectória obliterada. Luanda: INALD, 1985, 69p.; Lisboa: Editora Ulisseia, 1985; 2ª ed., Luanda: Instituto  Nacional  das  Indústrias Culturais - INIC, 2001.
:: Lês Roses perdues de Cunene. Lausanne, 1985.
:: Traço de união. (parte I - Esperança dos passos; parte II - Canto vernacular). Luanda: União dos Escritores Angolanos - UEA, 1987, 38p.
:: As abelhas do dia. Luanda: União dos Escritores Angolanos - UEA, 1990.
:: Quando se ouvir o sino das sementes. Luanda: União dos Escritores Angolanos - UEA, 1993. 
:: Idade das palavras. Luanda: INALD, 1997.
:: Festa de Monarquia. (parte I - Retrato das mãos [prefácio Inocência Mata] - Parte II - Epilepsia do planeta [prefácio Xosé Lois García].). Luanda: Kilombelombe, 2001.
:: No útero da noite. Luanda: Editorial Nzila, 2001.
:: Lugar e origem da beleza. [prefácio Jorge Macedo]. Luanda: Kilombelombe, 2003.
:: O sentido do regresso e a alma do barco. Luanda: Kilombelombe, 2007.

:: Memória de sombra. Luanda: Editora Nós Somos, 2012, 170p.
 
 Teatro
 :: Diálogo com peripécia. Luanda: INALD, 1987.
:: As colheitas do senhor governador. Luanda: Kilombelombe, 2010.

Ensaio
:: As vias poéticas da esperança em Agostinho Neto. Porto: Fundação Engenheiro António de Almeida, 1989.
:: Desejo de liberdade e humanização em Agostinho Neto. 2002. 

Antologia (participação)
FEIJOÓ, Lopito (org.). No caminho doloroso das coisas: antologia panorâmica de jovens poetas angolanos. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 1988, 148p. 
LARANJEIRA, Pires (org. e pref.). Antologia literária de língua portuguesa / Sextas Jornadas Universitárias Lusófonas. Coimbra: A Mar Arte, 1996. 
SECCO,  Carmen  Lucia Tindó. (Coord.). Antologia do mar na poesia africana de  língua portuguesa  do  Século XX. Vol. I: Angola. 2ª  ed., Rio  de  Janeiro:  Faculdade de Letras/ UFRJ, 2002.
SOARES, Francisco (sel. e pref.). Antologia da nova poesia angolana (1985–2000). Lisboa: Imprensa Nacional- Casa da Moeda, 2001. 
TRIGO, Salvato (org.). Matrilíngua.  vol. II. Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo, 1997. 
VASCONCELOS, Adriano Botelho de (org.) Todos os sonhos. Antologia da Poesia Moderna Angolana. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005, 593p.
 


João Maimona
POEMAS ESCOLHIDOS DE JOÃO MAIMONA

[a infância do mendigo e a promessa do poema]
a infância do mendigo e a promessa do poema.
imensas interrogações sobre a sintaxe da felicidade.
a chuva como resposta tardia quando
a benevolência do império dispersa seu esplendor.
há na calçada do mendigo o mar e o poema.
na espuma azul do novo dia há milhares
de candeeiros desenhado a arquitectura
da convalescência com letras maíusculas.
são janelas misteriosas. anunciados
crepúsculos em cartas de Deus dispersas
por colinas ensoleiradas. de súbito
o coração do mendigo alegra-se
por ler cartas com suspiros de liberdade
e a fome de outros mendigos dedica
uma noite de amor aos loucos do palácio
de exílio quando a chuva se despede da catedral.
 

- João Maimona, em "O sentido do regresso e a alma do barco". Luanda: Kilombelombe, 2007.

§ 

A palavra e seu vôo
a pureza do vôo: a humidade da conversa
e o ruído inhabituel da escuridão.

as cartas que a noite reunia não possuíam
invólucro. interrogações mudas e o
desdobramento da memória. a fadiga
do barco apenas obedecia ao dia
e seus tijolos. a emoção procurava
a palpitação da escrita. o paraíso útil,
a desenhada frase e o dilacerado horizonte
esclarecem a magra fertilidade da conversa.

ao longo da lírica cadeia contemplativa
não havia percepções para a escuridão.
e instantes para a fissura da escrita.
janela milenária.
o horizonte da escrita preocupava-se
em incorporar na doçura da medalha
fraccionada a emoção da inarticulação
de interrogações mudas.

inclinadas células. o declínio da amostra
figurada. contra a ruptura do limiar da
metamorfose estava a plenitude do
equinócio oferecendo a transparência
da memória. a indiferente substância
das músicas na excessiva dilatação
da lucidez e silenciosa arquitectura:

e a língua activa limitava-se
a brilhar entre expressões atrofiadas.
 
- João Maimona, em "Lugar e origem da beleza". Luanda: Kilombelombe, 2003, p. 42-43.

§ 

Acalmia ruidosa. Em quatro sinos
1. instante inicial
eis a história das sílabas igualando
os confins das linhas de água.
a alegria peregrina percorre cidadelas
como as sentinelas do mar: as águas
vêm dar à beleza das sílabas
como se houvesse um luminoso
reencontro: era o instante inicial.


2. primeiro instante intermédio
esperava que a paisagem pintasse
noites vizinhas. E insígnias rebuscando
cacimbos numa desconhecida povoação.
Porém, apareceram riozinhos esverdeados
Iluminando armadilhas, angústias
E telas infernais: nascia a nação comum
Encerrando torturas sobre as lágrimas.


3. segundo instante intermédio
parecia um reino de passo fascinante
suficiente para enriquecer estômagos estranhos.
precioso? os rios não diziam o contrário.
e desfilava maldita miséria insuficiente
para desencantar a plenitude humana.
em reino que raspava a fortuna
crescia a flor do dia freqüentando
abraços virgens. ricos em sonhos enfeitiçados.


4. instante final
teria o solo da eternidade outras cinzas?
onde adormece o abrigo crescem
um insondável silêncio e delicadas
folhas cuja cor saúda a origem da sombra:
todas as cinzas pronunciavam a eternidade.
Era a repetição dos passos e imagens.
Imagens do milênio anterior.

- João Maimona, em 'Retrato das mãos' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001.

§ 

Água de hipocrisia
linhas tranqüilas crescendo como
evoluídas distâncias. tudo o que procura
o triunfo das estrelas é porventura
uma constelação de dúvidas:
as manhãs vazias levadas
pela fonte da indizível música.
imerecida era a prematura
felicidade na permanente hipocrisia.

- João Maimona, em "Lugar e origem da beleza". Luanda: Kilombelombe, 2003, p. 69.

§ 

Alegria dos sentidos
(não são estranhas estas sementes soprando sobre chuvas 

solitárias.
luzes embaladas que conservam celas palpitantes. saberei as
imagens perversas como os mistérios de uma refrescada história.
harmoniosa angústia: o que dizem as mensagens que nascem
como
perfume colossal: que imagens ou símbolos indiferentes quando
brilha o levantar de raios de signos?

se a música da noite pudesse poisar em minhas mãos: tranqüilas
e eternas. visíveis e ardentes as mãos que não cultivam palavras
silvestres. lexemas caseosos. trevas e calçadas purulentas. saberei recriar as palavras do dia anterior para a alegria dos sentidos.
tão interior e coberta de árvore estável. Antes da festa d’água se
despedir de meu penetrável discurso)
 
- João Maimona, em "No útero da noite". Luanda: Editorial Nzila, 2001, p. 45.

§

Epilepsia do planeta
que destino teria sido dado à terra?
teremos árvores crescidas à beira do naufrágio?
mas há dez anos testemunhei a epilepsia
do planeta. e da terra vestida de vespas
vinham aves amarelas, brancas e pretas.
lembravam que a terra oferecia
em cada instante noites diárias. e diariamente
as árvores cantavam quando o planeta
se aproximasse da tenda: em transumância
estava o destino da terra vestida de vespas.

- João Maimona, em 'Epilepsia do planeta' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001, p. 112.

§

Festa de monarquia
não seria útil olhar de novo para o sol?
a mão que ofereci ao relevo do tempo
canta com as monarquias que dançam.
da música as sílabas fazem
imenso dezembro não anunciado.
na noite de ontem no centro
da lagoa entre dois barcos
estava um verde incêndio
anunciando a grande avenida
onde as palmeiras procuravam
saber se não seria útil
a pedra olhar ainda para o sol.
era a festa que se transformava
em festa.

- João Maimona, em 'Epilepsia do planeta' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001, p. 110.

§

Generosidade 
delírio de tumultos. abismos magros.
em calçadas inextinguíveis cresce
o lugar de ruínas. com passos solenes
ostentam turbulenta saudação.

e folhas fazem campanha
em torno de uma colecção de epopéias
vegetais. rústicas descem ladeiras.
a passos com ímpetos de músicas
desqualificadas na grandíssima festa
de monarquia. e nasce vistosa
temporada acima das plantações.
um grão espesso: um continente
que é lugar de carícia. ensebado
espaço preservando deslumbrante
perdão de quem por todas as epopéias
assinou tumultos e magros abismos.

em imensa eternidade da generosidade
como o oráculo do sol a fadiga do barco
falava da véspera da cicatriz.

- João Maimona, em "No útero da noite". Luanda: Editorial Nzila, 2001, p. 82.

§

Impulsos
inquinados eram os verbos por solidificar:
veio a idade das inundações. junta as
sílabas partilham telhas distantes.

renasce uma súbita respiração:
é o instante de saudar fatias
de esperança: associam-se os verbos
que os navios libertam.

posso reanimar palavras extintas
na doçura do caminho. e escrever
a lucidez dos limites. obsessiva cresce
a conivência onde adormecem
a flexível interrogação e o espaço corrente.

e regressam estilhaços sem chancela.

que fronteiras poderei inventariar
por franquear sacrifícios
e oferecê-los ao céu?
a cidade não sabia onde encontrar
a inesperada flor. à face da catedral
multiplicam-se estilhaços que regressam
com chancela: eram favas contadas
os impulsos da noite subtil.

- João Maimona, em "No útero da noite". Luanda: Editorial Nzila, 2001, p. 81.

§

Mãos e coisas
visitamos secreto rio de meio-dia
onde pela primeira vez
se vendia peixe.
E ao lado retratos de reis
De velhos reis reformados
Que depois escreviam memórias.
      Estava-se a duas horas
      do meio-dia.
Minha voz que havia
De dilatar dizia: estão de volta
Os meses passados na ilha da vitória.
Tudo era página aberta
em nossas mãos. de novo
o sol silenciosamente despertou
o sossego de nossos passos
em nome do anel da noite.

- João Maimona, em 'Retrato das mãos' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001, p. 41.

§ 

Maturação
entre planetas austrais republicas oscilantes
lêem páginas que a pátria reescreve.
ferida a estrela em regresso de janeiro
parecia a segunda província da viagem:
nesta terra de bandeiras lineares
meus pés desejavam ser raízes de solos
reconstruídos.
e a noite se veste do mar
regenerado:
inumeráveis estrelas feridas
regressam de janeiro
desmoronado.

- João Maimona, em 'Retrato das mãos' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001.

§

Meus edifícios
estão os meus edifícios a chegar
na última noite do século.
são aldeias com crianças.
semeiam flores junto à chama
efêmera. e são aldeias
com crianças e à chegada
tudo se despede da chama.
aproximam-se os me
us edifícios
da árvore da terra.
e os homens calçam as botas.
e as cadeiras se afastam.
e os meus edifícios de ferro
trazem os meus edifícios.
eu vi um sonho em meus edifícios.

- João Maimona, em "No útero da noite". Luanda: Editorial Nzila, 2001, p. 60.
 

§

Meus versos
os meus versos são línguas do mar:
cantam os dedos que dormem com a brisa da rua:
falam tão bem das espadas que dissecam a noite
e tão felizmente versificados
os meus versos são línguas do mar:
estendem-se no rio da cidade:
vigiam os partos da miséria contagiosa.

os meus versos são lagoas de flores
pintadas com a luz d’aurora. são
janelas do campo que cresce em meus olhos.

e na minha língua ansiosa são o lugar
onde o rebanho de palavras
nesses dias de cansaço do mar
vem sugar os dias do homem
atirado ao incêndio do mar.

os meus versos são línguas do mar.

- João Maimona, em "No útero da noite". Luanda: Editorial Nzila, 2001, p. 67.
 

§

Noite aberta
matriz das músicas
desenlaçadas:
eras o corpo das festas
que me eram destinadas.
a vista estupefacta dos
momentos, a memória
transfigurada, a língua
latente em todo o percurso
dizem que só a cinza
é imóvel no seio da ascensão
dos teus olhares.
como um só reflexo procurei
nomear-te noite aberta
adolescente agosto brilhando
sobre palavras bailando
entre nós. também havia retrato
para risos e traços de memória.
como a luz entre germinações
vejo uma noite aberta
se perdendo inteira
abraçando ervas verdes
de corpos nossos
inaugurando plantas velozes.

- João Maimona, em 'Retrato das mãos' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001, p. 88.

§

[outra vez a lenda das árvores]
outra vez a lenda das árvores.
o mar débil perturbava os segredos
de Desafio. os sentidos.
nasce primeiro a forma suprema
da transparência.
segundo veio a felicidade de cantar
o fomento do desejo.
todas as luzes iluminavam a
sombra dos seios.
as mãos querem salvar o amor
em ruínas. Breve sede masculina.
os beijos em lábios de transição
desenham o silêncio de uma estrada em escombros.
e o feminino exercício da eternidade
interpela a jovem paisagem
dos caminhos interditos.
 
- João Maimona, em "O sentido do regresso e a alma do barco". Luanda: Kilombelombe, 2007, p. 31.

§

Passos da enxada
enxada para o centro da lavra.
estava celebrada a cicatriz
da folha. em harmonia silvestre.

linhas de passos. curvas de memória.
aldeia receptiva à alegria florescente.
ao pé da capela aglutinada.

a ternura do segundo sol.
a infância do dia.
numa sombra vegetal.
estavam reunidas.
em harmonia silvestre.

- João Maimona, em 'Epilepsia do planeta' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001, p. 111.

§  

Pintura
nesta pintura d’aurora
a fissura pela qual o nascimento
é a entusiasmada solidão
articulo o oceano imperial
ilhado de ferro mudo  e surdo:
na beira do exílio procuro repicar
ardentes ancas do crepúsculo
porque de tanga estão os dias
que a aurora oferece às veias.

- João Maimona, em 'Retrato das mãos' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001, p. 74.

§
 
Prelúdio
deixem os pássaros se multiplicarem em
quartos sólidos entre flores da
vala pública e erguerem na escuridão
um amor errante e benigno
deixam os pássaros chegarem às fronteiras
da sombra onde a memória
salvaguarda o frio dos séculos
enquanto mulheres esquecidas
ondulam em camas ossificadas

mas não deixem os pássaros se estenderem
no pó azul que espreita
as pálpebras do dia mais débil da
planície solitária e escura
e agora deixem os meus dedos apontarem
entre avenidas experimentando
madrugadas diante do sol crianças
peregrinas que deslizam nos
lábios do planeta
.

- João Maimona, (auto-epígrafe) em 'Retrato das mãos' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001, 34.

§ 

Quadro actual
quem poderia assumir
a monstruosa página submetida
a secretos desafios
de uma aldeia devassada?
o peristaltismo era uma linguagem
persistente. iminente raiva.
adormecida costa eminente
superfície transparente amadurecendo
entre percepção de corpos calcinados
e água invisível que permanece
taciturna nos jardins da realidade.
o presente e a incandescência
da semente. migração para o cimo
da substância sem alegria.
as mãos que a aldeia desenhava
eram objectos amantes da interminável
noite e memória sobrevivente
da monstruosa página submetida
a secretos desafios
de uma aldeia devassada.

- João Maimona, em 'Epilepsia do planeta' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001, p. 113.

§ 

Salvação no canto
           desejava que a lavra cantasse antes
da noite se despedir do corpo da sentinela
           não imagino o que dele espera a planície.
estava entre duas palmeiras atravessando
a corda da minha infância.


            quem me dera descobrir
                                    por um instante
as portas do ilegível amor que me anunciaram
estar a sete passos do meu jardim.


            à volta da minha cama
estavam duas estranhas
cidades cantando.
            e o que via diante de mim era o dia solene
sobrevoando meu jardim.


enorme espetáculo pelas sete horas
              do dia cinzento isento do canto da lavra.
              discretamente cheguei à idade
de soletrar a alegria de cantar meu hemisfério.

- João Maimona, em 'Retrato das mãos' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001, p. 37.

§

Segunda noite
que silêncio requintado desenhado à mão livre
em absoluta linha de terra teria convergido
para a noite auxiliar? ou estaria a tornar-se
impróprio para a absorção virtual? de entre
as linhas da terra pressentia-se a matéria
infinita. enorme instante cintilante:
engendrava as muralhas da segunda noite.

- João Maimona, em "Lugar e origem da beleza". Luanda: Kilombelombe, 2003, p. 70.

§

Seqüência
a pequena máscara envolve a cidade.
calçadas surdas. canções divididas e
o rosto do meio-dia afixam pálidas
na última mão da multidão a crueldade
das águas. era deste rio que vinha
a nova madrugada.

- João Maimona, em "Lugar e origem da beleza". Luanda: Kilombelombe, 2003, p. 68. 

§

Testemunho
novamente madrugada.
uma mão infantil pinta
mil catedrais.
outra adulta contempla o desfile
nocturno. imenso. buscando
as vítimas da gota
que terra sobre terra
lágrimas desperta:
sobre a palma da primeira
sobram pétalas d’alegria.
parcelas de cinzas sobram
sobre a palma da segunda.
é madrugada novamente.

- João Maimona, em "No útero da noite". Luanda: Editorial Nzila, 2001, p. 50. 

§

Vias do alcançável
entre as luzes da semana
na extremidade da palma do dia
uma palavra unida à outra atravessam
um mar de palmeiras.
calçadas ouvidas com a sílaba sinuosa.
vias do alcançável: uma e talvez várias.
inerte a árvore que respira
a infinita liberdade.
noites adoptivas e fórmulas
mediatas entre sol e poema inacabados.
e o mar pretendia um dia
cantar a música do alcançável.

- João Maimona, em 'Epilepsia do planeta' - no livro "Festa de Monarquia". Luanda: Kilombelombe, 2001, p. 123. 

§

I - O que há-de ser meu
Hei-de perder o meu sonho
nos sonhos da sombra

onde as lágrimas d’árvore
espreitam a minha pele

Hei-de juntar o meu passo
aos passos do mar

que apenas inspira os aromas
da dor e do frio da memória

Hei-de desenhar o meu perfil
nos perfis do céu

onde sou a folha do mundo
que o mundo prometeu par’árvore da sombra.

- João Maimona
, em 'Esperança dos passos', no livro "Traço de união". Luanda: União dos Escritores Angolanos - UEA, 1987, p.11. 

§ 

VII - Luz
Não atirem para o meu peito
palavras sórdidas palavras velhas
para o meu peito não atirem
palavras velhas palavras sórdidas

inventarei as minhas
no piso da cidade
no chão do campo
na escuridão da solidão.

Para o meu caminho não atirem
palavras velhas palavras sórdidas
irei à busca da palavra
onde os homens desconhecem o grito
irei à busca da palavra
onde os homens cultivam no peito
as palavras que hão de ser ditas:
ditas à janela da cidade
irei à busca da palavra
 e direi o que se diz entre as paredes
para que da palavra nasça a luz.

Não me atirem palavras sórdidas
palavras velhas
inventarei as minhas
e serei um pedaço de palavra.

- João Maimona, em 'Esperança dos passos', no livro "Traço de união". Luanda: União dos Escritores Angolanos - UEA, 1987, p.17.

§ 

VIII - Poema para Carlos Drummond de Andrade
         No meio do caminho tinha uma pedra.
            C.D.A.


É útil redizer as coisas
as coisas que tu não viste
no caminho das coisas
no meio do teu caminho.

Fechaste os teus dois olhos
ao bouquet  de palavras
que estava a arder na ponta do caminho
o caminho que esplende os teus dois olhos.

Anuviaste a linguagem de teus olhos
diante da gramática da esperança
escrita com as manchas de teus pés descalços
ao percorrer o caminho das coisas.

Fechaste os teus dois olhos
aos ombros do corpo do caminho
e apenas viste uma pedra
no meio do caminho.

No caminho doloroso das coisas.

- João Maimona, em 'Esperança dos passos', no livro "Traço de união". Luanda: União dos Escritores Angolanos - UEA, 1987, p.19. 

§ 

XIV - Se as nossas almas juntassem seus vértices
I
Diz o que pensas do meu aroma.
Azul, verde, branco, estranho:
é o aroma d’árvore
que alumia o teu campo.

II
Sou mais uma árvore do campo
que cresce à tua volta. E penetra o teu coração.
Nele brilha o meu olhar.
Nos meus olhos que os teus olhos não querem atravessar
nos meus ouvidos que os teus ouvidos não querem cruzar
sinto as dores da distância
que vais criando na noite dos teus vôos.

III
Queria tanto ver o sol da tua pele penetrar
os meus pés. Os meus braços. Os meus olhos.
Queria tanto ouvir a tua tempestade bater
à janela dos meus desejos. Dos meus sentimentos.
Queria. Queria ver o teu corpo sentado
nas minhas mãos. Ver a tua fronte na minha trajectória.
E abraçar os pontos de vista do teu sangue.

IV
Olha, quando passares pela boca da multidão
deita tua mão nos gritos d’ervas.

- João Maimona, em 'Esperança dos passos', no livro "Traço de união". Luanda: União dos Escritores Angolanos - UEA, 1987, p. 26-27. 

§ 

XV - O pobre que estende a sua pobreza
Quando em mim procuro identificar
as veias dilaceradas
o sangue deixa o lúmen
entricheira-se na parede das veias.

Quando em redor de mim procuro ver
o quadro sombrio da última avenida
debaixo da sombra vejo corpos cegos
pedirem esmolas mudas.

Para enriquecer o bolso esburacado.

- João Maimona, em 'Esperança dos passos', no livro "Traço de união". Luanda: União dos Escritores Angolanos - UEA, 1987, p. 28. 

§ 

I - Esperança dos passos
Ó Angola meu berço do Infinito
        meu rio da aurora
        minha fonte do crepúsculo
Aprendi a angolar
        pelas terras obedientes de Maquela
        (onde nasci)
        pela árvores negras de Samba - Caju
        pelos jardins perdidos de Ndalatandu
        pelos cajueiros ardentes do Catete
        pelos caminhos sinuozos de Sambizanga
        pelos eucaliptos das Cacilhas
Angolei contigo nas sendas do incêndio
        onde os teus filhos comeram balas
        e
        regurgitaram sangue torturado
        onde teus filhos transformaram a epiderme
                                      [em cinzas
        onde das lágrimas de crianças crucificadas
        nasceram raças de cantos de vitória
        raças de perfumes de alegria
E hoje pelos ruídos das armas
que ainda não se calaram pergunto-me:
Eras tu que subias montanhas de exploração?
    que a miséria aterrorizava?
    que a ignorância acompanhava?
    que inventariavas os mortos
    nos campos e aldeias arruinados
    hoje reconstituídos nos escombros?
A resposta está no meu olhar
e
nos meus braços cheios de sentidos
(Angola meu fragmento de esperança)
deixa-me beber nas minhas mãos
a esperança dos teus passos
nos caminhos de amanhã
e
na sombra d’árvore esplendorosa.)

- João Maimona em 'Canto vernacular', no livro "Traço de união". Luanda: União dos Escritores Angolanos - UEA, 1987, p. 35.


FORTUNA CRÍTICA DE JOÃO MAIMONA
João Maimona - foto: ANGOP
AMÂNCIO, Iris Maria da Costa. Diálogo angolanos: a poesia moderna e a (re)construção do passado. (Dissertação Mestrado em Letras). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais - PUC Minas, 1996.
CAVACAS, Fernanda; GOMES, Aldónio. Dicionário de Autores de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. Lisboa: Editorial Caminho, 1997.
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FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). João Maimona - universos poéticos. Templo Cultural Delfos, fevereiro/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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