Ondjaki - memórias e contrastes

Ondjaki - foto: Nuno Elias

"Às vezes numa pequena coisa pode-se encontrar todas as coisas grandes da vida, não é preciso explicar muito, basta olhar..."
- Ondjaki, em "Bom dia camaradas". Rio de Janeiro: Agir, 2006.


Ondjaki* pseudónimo literário de Nadalu de Almeida nasceu em Luanda, Angola, em 1977, filho de um engenheiro e de uma professora. Prosador e poeta, com aventuras de artista plástico e de cineasta. Faz parte da primeira geração de angolanos que cresceu em um país independente, embora em guerra. Sua literatura, no entanto, não é exatamente um eco dessa guerra. É um diálogo entre memórias e questões sócio-políticas. Uma história na voz de uma criança repleta de recordações. E que fala de esperança e encantamentos, vividos numa terra sofrida. 
Estudou em Luanda e concluiu licenciatura em sociologia em Lisboa, Portugal. Fez doutoramento em "estudos africanos" (Itália, 2010). Em 2000, obtém o segundo lugar no prêmio António Jacinto realizado em Angola, e publica o primeiro livro "Actu Sanguíneu". 
Depois de estudar por seis meses em Nova Iorque na Universidade de Columbia, co-realiza com Kiluanje Liberdade o documentário "Oxalá cresçam pitangas - histórias da Luanda".
Em 2012, o jornal britânico The Guardian considerou-o um dos cinco melhores escritores africanos.
Foi laureado com vários prémios, entre eles: O Grande Prêmio de Conto Camilo Castelo Branco em 2007, pelo seu livro "Os da minha rua". Recebeu, na Etiópia, o prémio Grinzane por melhor escritor africano de 2008. Em Outubro de 2010 ganhou, no Brasil, o Prêmio Jabuti de Literatura, na categoria Juvenil, com o romance "AvóDezanove e o segredo do Soviético". Em 2013, recebeu o Prémio Literário José Saramago por seu romance "Os transparentes". 
É membro da União dos Escritores Angolanos, membro honorário da Associação de Poetas Húngaros e membro fundador mas não permanente da Associação Protectora do Anonimato dos Gambuzinos. Está traduzido para francês, espanhol, italiano, alemão, inglês, sérvio, sueco, chinês, swahili e polaco.
Ondjaki seu nome literário “é uma palavra umbundu”, língua do sul de Angola, que tem vários significados, desde “guerreiro” a “traquinas”, e pode significar também “aquele que enfrenta desafios”.
O escritor  venceu o Prix Littérature-Monde 2016, pela obra "Os Transparentes", na categoria literatura não francesa.
:: Fonte: KazukutaNetescrit@ - Ondjaki  /atualizado pelas editoras do site (acessado em 24.8.2016).



"Depois de Língua conquistadora, a Língua conquistada virou raiz reprodutora - arma e fogo artificial; embrião e simultânea gravidez. E é sabido pelos mais-velhos que uma Língua grávida pode parir culturas, cores novas e contornos imprevistos em pessoas humanas. E todas as grávidas levadas, e todos os séculos extraídos e a terra sangrando em lágrimas de saudade, e todos os navios idos haviam de levar, além de fomes e músculos, sementes de uma flor mestiça com condimentos de diferença e criativa ramagem. Na fogueira do tempo, as chamas cercaram o lacrau, o lacrau picou o próprio corpo, e o veneno circulou feito febre nova, nova temperatura, temperatura de uma nova errância."
- Ondjaki, em "Outras margens da mesma Língua". Comunicação lida na conferência 'A Língua Portuguesa: Presente e Futuro, Lisboa', Fundação Calouste Gulbenkian, 10 dez 2004.


"Eu não ando sozinho, faço-me acompanhar dos materiais que me passaram os mais velhos. Na palavra 'cantil' guardo a utopia, para que durante a vida eu possa não morrer de sede."
- Ondjaki, em discurso de agradecimento ao Prémio Literário José Saramago 2013, pelo romance "Os transparentes". (trecho publicado em publico.pt - 5.11.2013).

PRÉMIOS 
Ondjaki - foto: Walter Craveiro /divulgação
2000 - Menção Honrosa no prémio António Jacinto [Angola]com o livro "Actu Sanguíneu" (poesia);
2004 - Prémio Sagrada Esperança [Angola], com o livro "E se amanhã o medo" (contos);
2005 - Prémio António Paulouro [Portugal], com o livro "E se amanhã o medo" (contos);
2007 Grande Prémio de Conto Camilo Castelo Branco, da Associação Portuguesa de Escritores - APE [Portugal], com o livro "Os da minha rua" (contos);
2008Grinzane for Africa Prize - Young Writer 'melhor escritor africano de 2008" [Etiópia];
2010 - Prémio FNLIJ  'literatura em Língua Portuguesa' [Brasil],  com o livro “AvóDezanove e o segredo do soviético”;
2010 - Prémio JABUTI, categoria ‘juvenil’ [Brasil], com o livro “AvóDezanove e o segredo do soviético”;
2011 - Prémio Caxinde do Conto Infantil [Angola], com “Ombela, a estória das chuvas”;
2012 - Prémio Bissaya Barreto [Portugal], com o livro “A bicicleta que tinha bigodes”;
2013 - Prémio FNLIJ 'literatura em Língua Portuguesa'  [Brasil], com o livro “A bicicleta que tinha bigodes”;
2013 - Prémio José Saramago, da Fundação Circulo de Leitores [Portugal], com o livro "Os transparentes";
2014 - Prémio FNLIJ  'literatura em Língua Portuguesa' [Brasil], com “Uma escuridão bonita".



“a beleza às vezes é um lugar
onde o olhar já sabe aquilo que não quer esquecer...”
- (velha muito velha que destrói as palavras), em "Uma escuridão bonita", de Ondjaki 2013.


Ondjaki - foto: Daniel Mordzinski

OBRA DE ONDJAKI - PRIMEIRAS EDIÇÕES (PORTUGAL)
Romance
:: Momentos de aqui. Lisboa: Editorial Caminho, 2001.
:: Quantas madrugadas tem a noite. Lisboa: Editorial Caminho, 2004.
:: AvóDezanove e o segredo do soviéticoLisboa: Editorial Caminho, 2008.
:: Os transparentes.  Lisboa: Editorial Caminho, 2012.

Novela
:: O assobiadorLisboa: Editorial Caminho, 2002.

Estórias
:: Os da minha ruaAlfragide: Leya, 2008.

Contos
:: Momentos de aquiLisboa: Editorial Caminho,  2001.
:: E se amanhã o medoLisboa: Editorial Caminho, 2005.
:: Sonhos azuis pelas esquinasLisboa: Editorial Caminho, 2014.

Poesia
:: Actu sanguíneuLuanda/Angola: INALD, 2000.
:: Há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma & outras descoisas). Lisboa: Editorial Caminho, 2001.
:: Materiais para confecção de um espanador de tristezas. Lisboa: Editorial Caminho, 2009.
:: Dentro de mim faz sul, seguido de Acto sanguíneoLisboa: Editorial Caminho, 2010.  

Infanto-juvenil
Capa do livro "O voo do golfinho", de Ondjaki
ilustração Danuta Wojciechowska
:: Ynari: a menina das cinco tranças [ilustrações Danuta Wojciechowska]Lisboa: Editorial Caminho, 2004.
:: O leão e o coelho saltitão [ilustrações Rachel Caiano]. Lisboa: Editorial Caminho, 2008.
:: O voo do golfinho [ilustrações Danuta Wojciechowska]. Lisboa: Editorial Caminho, 2009.
:: A bicicleta que tinha bigodesLisboa: Editorial Caminho, Lisboa: Editorial Caminho, 2011.
:: Uma escuridão bonita [ilustrações António Jorge Gonçalves]. Lisboa: Editorial Caminho, 2013.
:: Ombela, a origem das chuvas [ilustrações Rachel Caiano]. Lisboa: Editorial Caminho, 2014.

Teatro
:: Os vivos, o morto e o peixe-frito. Lisboa: Editorial Caminho, 2014.

Outros textos
:: Oralidade e escrita: dançar com as palavras quietas. In.: Conferência do autor no Rhode Island College, EUA, abril, 2006. 
:: Outras margens da mesma Língua. Comunicação lida na conferência 'A Língua Portuguesa: Presente e Futuro', Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 10 dez 2004. Disponível no link. (acessado em 17.5.2015).
:: O carnaval da kissonde aos Leigos para o Desenvolvimento* [ilustrações Vânia Medeiros]. Lisboa: Leigos para o Desenvolvimento, 2014. 
*Leigos para o Desenvolvimento.

Antologias [participação]
:: Agua en el tercer milenio. Edições Pilar e Bianchi Editores, 2000;
:: Letras de Babel. Edições Pilar e Bianchi Editores, 2000;
:: Angola – a festa e o luto. Edições Vega, 2000.
:: Jovens Criadores 2000. Ed. Íman, 2001.
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* Traduções da obra. Acesse AQUI. (acessado em 15.5.2015).

“o escuro às vezes não é falta de luz
mas a presença de um sonho...”
- (velho muito velho que inventa as palavras), em "Uma escuridão bonita", de Ondjaki 2013.


PUBLICAÇÕES DA OBRA DE ONDJAKI EM ANGOLA
:: Bom dia camaradas. Luanda: Edições Chá de Caxinde, 2000.
:: Actu sanguíneuLuanda: INALD, 2000.
:: Momentos de aqui. Luanda: Nzila, 2001.
:: Há prendisajens com o xão (o segredo húmido da lesma & outras descoisas). Luanda: Nzila, 2001.
:: O assobiador. Luanda: Nzila, 2002.
:: Ynari: a menina das cinco tranças. Luanda: Nzila, 2004.
:: E se amanhã o medo. Luanda: INALDI, 2004.
:: Os da minha rua. Luanda: Nzila, 2007.
:: AvóDezanove e o segredo do soviético. Luanda: Nzila, 2008.
:: O leão e o coelho saltitão. Luanda: Nzila, 2008.
:: Materiais para confecção de um espanador de tristezas - poesia. Luanda: Nzila, 2008.
:: Dentro de mim faz sul, seguido de Acto sanguíneoLuanda: Texto, 2010.
:: Ombela, a origem das chuvas [ilustrações Rachel Caiano]. Luanda: Plural Editores, 2013.


"O que mais me surpreendeu foi a paixão e o calor que impregnavam a melodia. Não sabia que nome dar-lhe, e ainda hoje não sei; ou melhor, não consegui compreender se se tratava unicamente da voz ou de alguma outra coisa mais importante, que parte da alma de uma pessoa, algo capaz de despertar nos outros a mesma emoção, e convocar os pensamentos mais recônditos."
- (tchinguiz aitmatov, djamila). O assobiador, de Ondjaki, 2002.


Ondjaki - foto: Wilton Junior/ Estadão Conteúdo

PUBLICAÇÕES DA OBRA DE ONDJAKI NO BRASIL
Editoras diversas
:: Bom dia camaradas [romance]. Rio de Janeiro: Agir, 2006.
:: O leão e o coelho saltitão. Rio de Janeiro: Língua Geral, 2008.
:: Os da minha rua. (Coleção Ponta de Lança). Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007, 180p.
:: Os vivos, o morto e o peixe frito [teatro] Terezina: Grupo de Teatro Harém, 2009.
:: E se amanhã o medo [contos]. Rio de Janeiro: Lingua Geral, 2010, 120p.
:: Quantas madrugadas tem a noite. São Paulo: Leya Brasil, 2010, 200p.
:: O céu não sabe dançar sozinho [contos]. Rio de Janeiro: Lingua Geral, 2014.

Pallas Editora
:: Há prendisajens com o xão - o segredo húmido da lesma & outras descoisas [poesia]. Rio de Janeiro: Pallas, 2011, 72p.
:: A bicicleta que tinha bigodes. Rio de Janeiro: Pallas, 2012, 92p.
:: Uma escuridão bonita (ilustrações António Jorge Gonçalves).. [infanto-juvenil]. Rio de Janeiro: Pallas, 2013, 112p.
:: Ombela, a origem das chuvas (ilustrações Rachel Caiano).. [infanto-juvenil]. Rio de Janeiro: Pallas, 2014, 36p.
:: Os vivos, o morto e o peixe-frito (ilustrações Vânia Medeiros).. [infanto-juvenil]. Rio de Janeiro: Pallas, 2014, 136p.

Companhia das Letras
:: Avódezanove e o segredo do soviético [romance]. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, 192p.
:: Ynari [infanto-juvenil]São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2010, 48p.
:: O voo do golfinho [infanto-juvenil]São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2012, 32p.
:: Os transparentes [romance]São Paulo: Companhia das Letras, 2013, 408p.
:: Bom dia camaradas [romance]São Paulo: Companhia das Letras, 2014, 136p.

"O mundo tinha aquele cheiro da terra depois de chover e também o terrível cheiro das despedidas. Não gosto de despedidas porque elas têm esse cheiro de amizades que se transformam em recordações molhadas com bué de lágrimas, Não gosto de despedidas porque elas chegam dentro de mim como se fossem fantasmas mujimbeiros que dizem segredos do futuro que eu nunca pedi a ninguém para vir soprar no meu ouvido de criança."
- Ondjaki, em "Os da minha rua". Rio de Janeiro: Língua Geral, 2007, p.146.

Ondjaki - foto:(...)
POEMAS ESCOLHIDOS DE ONDJAKI


A Borboleta no Úcua
(para o Mário B. Coelho)

uma borboleta acordou a manhã
e a manhã ficou lilás.
a manhã contaminou o imbondeiro de lilás
e o imbondeiro quiz ser uma borboleta.
só as raízes do imbondeiro não aceitaram a brincadeira.
as raízes são muito terra-a-terra
-são uma cauda teimosa.
a borboleta fugiu.
a manhã aqueceu-derretendo o lilás.

e foi então:
o imbondeiro* pôs no mundo
múcuas tristes.

*no úcua, os imbondeiros tristes vertem lágrimas lilases.isto tem o seu quê de borboletismo...
- Ondjaki (30.02.03), em "Materiais para a confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009.


A garça e as tardes
encontrei uma garça gaga.
atropelava-se a si própria enquanto voava
com isso considerava-se aleijada.
pedi-lhe emprestada a gaguez.

hoje a garça é feliz.

eu ganhei o hábito

de gaguejar tardes.
- Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009.


À noite ser [materiais para...]
dedos quietos que crescem
pele nua
brincadeiras com o amor
pêndulo solto de sonhos
lógicas sacudidas
olhar de só-assim
modos de chegar como sementes
manobras de artesão contra o ego
desafio do «eu»
nudez de pele
de mãos
e (sob os teus olhos)
invenção de um sólido espanador de tristezas.
- Ondjaki (1.4.2003), em "Materiais para a confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009, p. 39.


Adeus
no jardim da minha casa encruzilhei-me com uma lesma.
ela ofereceu um olhar. vi o mundo pela sedução da lesma:
tudo ardilhado de simplicidade.
ofereci uma tristeza: ela quase cedeu a transparências.
aprendi com a lesma: uma tristeza não deve ser
emprestada.
o mundo, mesmo partilhado,
é muito a pele de cada qual.
na falta de dedos
a lesma fez adeus com o corpo.
e veio a chuva.
reaprendemos assim o lugar das nossas almas.
- Ondjaki, em "Materiais para a confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009.


Apalpar manhãs
sonhei que estava enamorado pela palavra antigamente.
eu sorria muito nesse sonho – fossem gargalhadas. aproveitei a ponta desse sorriso e fiz um escorrega. deslizei. tombei no início de uma manhã.
pensei ver duas borboletas mas [riso] eram duas ramelas. peguei nas duas: o peso delas dizia que eu estava acordado. [a partir do tom amarelado das ramelas é possível apalpar manhãs].
então vi: nos dedos, na pele do corpo por acordar, estavam manchas muito enormes: eram manchas de infância
gosto muito desse tipo de varicela.
- Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009.


Arve jánãoélógica
ser folha é
nem sempre estar para sol.
a outra folha
lém de nossa vizinha
pode ser nossa irmã de sombras.
a folha
enquerendo ser lago
acontinenta o galho.
o galho
ensendo fio de cabelo
gentifica a arve.
a arve
de tanto ser ela
lembra um sorriso quieto.
lém de transpirar
bonito é que ela respira.
- Ondjaki, em "Há prendisajens com o xão (O segredo húmido da lesma & outras descoisas)". Rio de Janeiro: Pallas, 2011.


Chão
palavras para Manuel de Barros

apetece-me des-ser-me;
reatribuir-me a átomo.
cuspir castanhos grãos
mas gargantadentro;
isto seja: engolir-me para mim
poucochinho a cada vez.
um por mais um: areios.
assim esculpir-me a barro
e re-ser chão. muito chão.
apetece-me chãonhe-ser-me.
- Ondjaki, em "Há prendisajens com o xão (O segredo húmido da lesma & outras descoisas)". Lisboa: Editorial Caminho, 2001.


Desnoções e algibeiras
para ser grilo
há que ter algibeiras
onde também caibam silêncios.
ser sorrateiro
espreitando entre dois fios de relva.
saber fazer uma teia invisível
onde o infinito se armadilhe.
encarar o universo com
demasiada intimidade,
a modos que quintal.
[saber que:]
as estrelas encarecem
de carinho
e brilham para mais desanonimato.
sonetar com roncos de garganta
mas desminar rebentamentos no coração.
para ser grilo
há que ter desnoções:
[viver que:]
há só uma distanciaçãozinha
entre apalmilhar um quintal
e acomodar estrelas num abraço.
- Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009.


Escrevo a palavra Luanda

veio a melodia e me soprou a noite pelas entranhas adentro
– eu era um peixe-lua solto nos acordes dessa viola
tonta. sorri com os dedos da mão. quase matei um mosquito
que passava [mosquito tem quantas vidas...?]

a cidade está dormir a esta hora

[a cidade sonha...?]
todas pessoas
muitas

todas estórias bonitas

amanhã
vão acontecer de novo
[a beleza das estórias, gasta?]

luanda


és uma palavra deitada

nas cicatrizes
de uma guerreira bela. 
- Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009.


Fios de tarde
rasgava a pele – quase um arrepio.
julguei estar a lembrar, na pele, beijinhos de alforreca.
arrepiava o dorso e me desertificava todo para a passagem
de camelos, formigas ou piolhos. até viajei no atiga-
mente, na infância: banho para mim era um grande peri-
go. quase representava travessia de ego. a minha mãe era
guia e carrasca – sorriso dela.
rasgava a pele – quase um prazer.
espreitei a sensação
com os olhos cegos
e vi:
não era de rede, não era de teia,
era um fio de tarde empanturrado de brandura.
- Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009, p. 17.


Infâncias
gosto de mãos rupestres
- de infâncias,
de me dobrar e tombar
em risos e estigas que a minha rua já não tem.
chorar – escrevendo um livro depois apagado.
rir – lendo memórias apagadas.

a sujidade de infância tem um cheiro
de barro
e trepadeiras poerentas.
quando me sujo de infâncias
espirro
um sardão enorme
- e um gato dançado
pelo tiro da minha pressão de ar.

não quero apenas carícias
nas cores desse sardão ensolarado
sujo de infância
quero pôr pedido-desculpa
na vida do gato vesgo...
- Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009 p. 35.



Ondjaki (Ndalu de Almeida) - foto: Jordi Burch/Kameraphoto
Inscrição
o inchaço do coração
facilita o despalavrear.
a liberdade pode advir
de uma veia.
com sangue também
se reescreve a vida.
o suicidado foi um apressado
para desconhecimentos.
a morte
ela é que espera por nós.
na vida pedincho
reindagação de cheirares:
em continuado aquestionamento.
a despalavreação
pode acrescer de uma vida.
- Ondjaki, em "Há prendisajens com o xão (O segredo húmido da lesma & outras descoisas)". Rio de Janeiro: Pallas, 2011.


Intimidar o poema a ser raiz
era um poema lateral aos sentidos.
ganhava formato ébrio
ao nem ser escrito.
longe dos pensamentos
imitava uma pedra
[aí as palavras drummondeavam].
longe das lógicas
– com tendência vagabunda –
o poema driblava lados avessos
de noites
e animais
[aqui as sílabas manoelizam, barrentas].
mas uma estrela nunca brilha
tão solitária;
encarece-se também de luuandinar,
miar à couto,
esvair-se para guimarães...
era um poema carente de afectar-se
a ramos gracilianos.
assim alcançava
o estatuto
de raiz.
- Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009, p. 34.


Para pôr paz
libélulas avoam danças
aranhas cospem tranças;
morcegos ralham noites
ursos linguam potes;
rapozas agalinham-se
ondas engolfinham-se;
carochinha avoa voa
preguiça dorme à toa;
toupeiras entunam-se
grilos estrelam-se;
noites adescaem
estrelas agrilam-se
eu libelizo-me
- Ondjaki, em "Há prendisajens com o xão (O segredo húmido da lesma & outras descoisas)". Lisboa: Editorial Caminho, 2001.


Para vivenciar nadas
para e com chiara, bea, valérie

borboleta é um ser irrequieto.
para vestes usa pólen
tem um cheiro colorido
e babas de amizade.
desloca por ventos
e facilmente aterriza em sonhos.
borboleta tem correspondencia directa
com a palavra alma.
para existir usa liberdades.
desconhece o som da tristeza
embora saiba afogá-la.
usa com afinidades
o palco da natureza.
nega maquilhagens isentas
de materiais cósmicos. como digo:
pó-de-lua, lápis solar
castanho-raiz, cinzento-nuvem.
borboleta dispõe de intimidades
com arco íris
a ponto de cócegas mútuas.
para beijar amigos e vidas usa olhos.
borboleta é um ser
de misteriosos nadas.
- Ondjaki, em "Há prendisajens com o xão (O segredo húmido da lesma & outras descoisas)". Lisboa: Editorial Caminho, 2001, p. 38-39.


Penúltima vivência
quero só
o silêncio da vela.
o afogar-me
na temperatura
da cera
quero só
o silêncio de volta:
infinituar-me
em poros que hajam
num chão de ser cera.
- Ondjaki, em "Há prendisajens com o xão (O segredo húmido da lesma & outras descoisas)". Rio de Janeiro: Pallas, 2011.


Prendisajem
o tomate avermelha mundos.
o cheiro da terra perdoa constipações.
folha é parede verde
para sol chegar.
flor é uma outra narina de abelha.
alcunha de qualquer jardim
é biolabirinto.
a exagera em
amizades com a merda.
o pirilampo é a lanterna do poeta.
o porco-espinho exagera em
modos de precaução e
a mandioca tuberculiza o chão.
...
o cheiro da terra rejuvenesce a humanidade.
- Ondjaki, em "Há prendisajens com o xão (O segredo húmido da lesma & outras descoisas)". Rio de Janeiro: Pallas, 2011.



Sem trémulos barulhares a chuva
convidei uma chuva silenciosa
a fazer aparição num poema. 
[tive que pedir licença ao assobiador. ele acedeu].
era uma chuva quase triste,
vivia consumida de se esvair.
"chego sem fazer barulho pra ninguém
se lembrar de me evitar".
era uma chuva quase bonita.
tinha muita tendência poética
-isto me parecia óbvio.
tinha também alguma incapacidade para entender
o desejo humano
de pisar um chão seco.
depois de o assobiador eixar aquela aldeia
calculei que ninguém mais fosse acariciar
aquela chuva.
era uma chuva carente
-isso me pareceu óbvio também.
lhe atribui este lar provisório
e logo se verá
o daqui pra frente.
isso me espanta nas coisas
que não pertencem ao foro das pessoas:
a chuva aceitou ficar.
vive actualmente
na leitura [mesmo que desatenta]
de um poema.

o barulhar dessa chuva
é uma espécie de pequena mentira.

dizem que as crianças lhe conseguem escutar.
dizem que os gambozinos lhe pressentem
e nela, por vezes,
se deixam vislumbrar.

dizem. 
- Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009.


Sita
estava sentado aberto a um poema
e apareceu a minha mãe.
eu apareci ao lado dela.
acho que foi com a minha mãe que aprendi a olhar
o olhar dos velhos
as mãos bonitas dos velhos
dar beijinhos nas bochechas
das pessoas que chegavam
-foi a minha mãe.
bater à máquina e apreciar
o sino
no fim da frase,
poupar a fita, recuar a fita
bater as provas dela da quarta classe
gostar do cheiro da fita
construir textos na máquina-de-escrever
-foi ela
[um dia vieram as alforrecas picar-me o corpo todo
incluindo o pirilau – dancei bungula!]
a respeitar os medos dela
e os meus
e os barulhos
e os sonhos
- foi a minha mãe que me ensinou.
a manejar a língua portuguesa
fazer redacções bonitas
-foi ela.
isso da simplicidade de dentro e de fora
ela me transmitiu
nas bordas do dia-a-dia
o gosto do café encontrei na chávena dela;
whisky também.
só não aprecio o modo de ela devorar
cabeças e olhos de peixe.
antigamente como agora
autorizo qualquer bitacaia
a tentar residência nos meus pés
mas só quero a minha mãe
para fazer o despejo
[há qualquer coisa de ritual no episódio das bitacaias,
comichão e tintura d‟iodo incluídas...]
uma tarde quis fazer um poema
para a minha mãe – e fiz.
agora só preciso de uma bitacaia
para celebrar o acontecimento.
- Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa: Editorial Caminho, 2009, p. 46.


há o bigode caído e...
(a joão ubaldo ribeiro)

há o bigode caído e
redondo dos lados;
o teu olhar achinesado
compreensivo, escuro
azulado
esperançoso.
há o brilho pátrida
na tua testa;
dentes (os) sorrindo para aqui.
o pescoço reptilizante
a camisa que foi azul.

teus cabelos escasseiam;
teu sorriso - em letras -
talvez se eternize...
- Ondjaki, no livro "Dentro de mim faz sul, seguido de Acto sanguíneo". Lisboa: Editorial Caminho, 2010. 


Ondjaki - foto: (site Prêmio José Saramago)

FORTUNA CRÍTICA DE ONDJAKI
[Estudos acadêmicos - teses, dissertações, ensaios, artigos e livros]
ALVES, Márcio Miranda. É preciso mais pontes culturais (entrevista com Ondjaki). Diário Catarinense, Florianópolis, p. 3 - 3, 29 ago. 2006.
ASSIS, Roberta Guimarães Franco Faria de. Memórias em trânsito: deslocamentos distópicos em três romances pós-coloniais. (Tese Doutorado em Literatura Comparada). Universidade Federal Fluminense, UFF, 2013.
ASSIS, Roberta Guimarães Franco Faria de. Descortinando a inocencia - infância e violência em três obras da literatura angolana. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal Fluminense, UFF, 2008. Disponível no link. (acessado em 16.5.2015).
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Ondjaki - foto: Daniel Mordzinski
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Ondjaki - foto:  (...)
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SANTANA, Paula Manuella Silva de. Um cineminha, algumas birras e muitos causos: uma visita à hibridez em Ondjaki. Estudos de Sociologia, v. 2, p. 1-100, 2014.
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DOCUMENTÁRIO
Capa do DVD 'Oxalá cresçam pitangas'
Filme: Histórias de Luanda - Oxalá cresçam pitangas
sinopse: Angola: trinta anos de independência, três anos de paz. Capital, Luanda. Cidade construída para 600 mil habitantes, actualmente com quatro milhões. Cruzamento de várias realidades e gente de todas as províncias, elo de ligação com o resto do mundo. Através de dez personagens descobrimos formas diferentes de viver e interpretar a cidade.
Ficha técnica
Ano/país: 2006 - Angola/Portugal
Duração: 62 min.
Formato: Beta digital, cor
Direção e roteiro: Ondjaki e Kiluanje Liberdade
Fotografia: Inês Gonçalves
Som: Inês oliveira e Elsa Ferreira
Edição e montagem: Maria Joana
Música: Helvio
Realização: Kiluanje Liberdade - KLIG e Ondjaki
Produção: Noland Films
Idioma: Português (legendas em Inglês e Francês)
Site: Kazukuta.



"tinha aprendido que era muito importante criar desobjectos.
certa tarde, envolto em tristezas, quis recusar o cinzento. não munido de nenhum artefacto alegre, inventei um espanador de tristezas.
era de difícil manejo – mas funcionava."
- Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas - poesia". Lisboa: Editorial Caminho, 2009.


Ondjaki, Paulina Chiziane, Luuandino Vieira,
Pepetela - foto: Daniel Mordzinski

Pequeno espanador de tristezas [a derradeira confissão?]
Há qualquer coisa de lágrima numa celebração minha.
se soubesse aceitar a beleza das lágrimas não tinha que [me] explicar a origem delas e podia sorrir com as bochechas molhadas mais vezes sem as rugas.
às vezes uma celebração minha é uma timidez – um dia tenho que conseguir abandonar isso e elevar-me a lesma, gambozino, helibélula. acreditar no fio que o grilo ata às estrelas lá longe no universo vincado de negrume; emprestar a minha pele numa jangada quase a afundar; afastar nuvens que dançam nas peles do mar; soprar uma madrugada pra ela voltar a mim [ainda gostava de ter uma crise de asma por excesso de nuvens nos pulmões respiratórios].
Ndalu de Almeida ou Ondjaki - foto: (...)
sem ser só nas palavras vividas em poesia, pra mim a morte devia ser um voo dançado por um papagaio-pipa – eu quero ser a aragem desse voar. se morrer um dia vou celebrar a palavra morte com incensos e música cantada por andorinhas – a morte anda por aí à solta e a vida afinal parece é uma máscara...
«a palavra vida é maior que a palavra morte», disse-me o meu sobrinho tchiene hoje que ainda faltam dezasseis dias pra ele nascer.
quando ele chegar ao mundo vou mostrar-lhe uma garça gaga que encontrei num poema e me passou a gaguez dela. eu passei a gaguez toda pra uma tarde e foi bonito ver a tarde esticar-se porque não sabia bem como pronunciar o definitivo pôr-do-sol. a noite ficou extenuada – à espera de chegar.
há qualquer coisa de adélia na palavra fé. talvez porque ela seja uma mulher de palavras pesadas com tanta leveza e saiba cavalgar medos selvagens. há na obra dela manchas leves de infância – essa varicela foi muito manuseada por luuandino [o que viajava com intimidade pelas ruas de antigamente, passando por tetembuatubia, kinaxixi, makulusu, olhos das crianças, pássaros e peixes]. certa noite, no lubango, vi o joão vêncio pendurado numa estrela; ao pé da casa onde sonhei nesse serão havia uma represa que era doadora de ruídos bons – apadrinhados por sapos gordos. espreitei pela janela fechada e quase cometi o erro de olhar um gambozino nos olhos. fechei os olhos e abri a janela, limitei-me a olhar assim as estrelas brilhantes numa ternura interna que eu lembro pouco de frequentar [no lubango a ternura brota em mim sem cerimónias].
às vezes uma chuva molhada é uma coisa boa para escorregar momentos em direcção a mim. quando uma chuva molhada cai sobre o mundo redondo, as coisas da vida e a vida das coisas encontram-se num quintal vasto. foi sob uma chuva molhada em canduras que encontrei as barbas do meu pai num poema e o sorriso da minha mãe noutro. foi nas entrelinhas dum poema ensopado que encontrei, várias vezes, a autorização interna pra falar a palavra amor [vou tentar não apagar isto: eu tenho certo receio da palavra amor, espero só que ela não me tenha receios também; seria triste].
foi com as mãos sujas de restos de amor que estiquei uma madrugada. quando digo a palavra madrugada também sinto um esticão no coração. se agora abuso muito das madrugadas é porque cada uma delas tem restos de amor que eu sempre vou perdendo. qualquer dia acumulo esses restos todos e faço uma construção de amor [talvez chame uma mulher pra se encostar ao outro lado dessa construção]. a palavra amor pode ser um labirinto com mais de catorze lados avessos. depois de esticar uma madrugada encosto a madrugada na minha pele e espero. a pele gosta de ser esculpida de novo muitas vezes na vida.
se puser um «v» na palavra esticar, poderei estivar uma madrugada. aí elevo-me a estivador de madrugadas e posso pensar num caixote com luar, um caixote com geada, caixotes pesados de estrelas, caixotes de nuvens carregadas de pingos, um caixote hermético com lágrimas, uma caixinha de costura com restos concretos de amor.
as palavras são muito bonitas também porque têm significados cicatrizados nelas – falo a palavra kwanza e sou invadido pelas belezas de um rio e o sol todo a bater-lhe nas peles da água escura que ele tem. o rio transporta o barro e os peixes e nunca ninguém se queixou de cócegas. há qualquer coisa de jangada na palavra rio. liberdade seria abraçar um jacaré sem lhe apetecer provar-me. eu queria fazer festinhas na carcaça antiga de um jacaré mas se ele me fizer festinhas magoa-me. vou olhar o jacaré de longe e o rio de perto – provar as minhas mãos nele. a pele do rio tem mais espelho que a minha e que a do jacaré. o céu e o sol gostam de verter reflexos nas peles paradas do rio kwanza e eu gosto de saber isso com os meus olhos atónitos de humidade. ali onde o mar beija o rio a espuma celebra o evento com pássaros que perseguem peixes. assim a poesia seja salobra ou salgada.
seria bonito ver os mangais depositarem raízes num poema meu – era a minha maior alegria fluvial.

há qualquer coisa de sapiência na palavra tristeza. e algumas tristezas não são de espanar – um dia posso descobrir que elas me fazem falta e ter que ir buscá-las na lixeira da catin ton.
vou encher-me de silêncios e imitar as pedras. adormecer entre as pedras pode ser que me contagie delas. depois de conseguir ser pedra vou exercitar o sorriso dessa pedra que eu for. com esse sorriso vou iniciar uma construção...

uma construção pode bem ser o lado avesso de uma certa tristezura.
- Ondjaki, em "Materiais para confecção de um espanador de tristezas". Lisboa Editorial Caminho, 2009.


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Ndalu de Almeida ou Ondjaki - foto: (...)


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2 comentários:

  1. Olá!
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