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Allen Ginsberg - a saga de um poeta, expoente da geração Beat

Allen Ginsberg - poeta beat 

"Siga seu luar interno — não esconda a loucura." 
Allen Ginsberg


© Pesquisa, seleção, edição e organizaçãoElfi Kürten Fenske

Em memória, publicação dedicada ao meu amigo
José Alexandre da Silva e ao poeta e tradutor Claudio Willer 
 

Allen Ginsberg - poeta beat - nascido em Newark, Nova Jersey/EUA, 3 de junho de 1926 - East Village, Nova Iorque/EUA, 5 de abril de 1997)

Allen Ginsberg - não foi apenas o poeta norte-americano de maior prestígio da segunda metade do século XX, como também o grande rebelde romântico e poeta-anarquista contemporâneo. Promoveu, em parceria com Ke­rouac, Burroughs, Corso, Ferlinghetti, Snyder e outros uma revolução na linguagem e nos valores literários que se transformou em rebelião coletiva, na série de acontecimentos revolucionários que foi o ciclo da Geração beat na década de 50, e da contracultura e rebeliões juvenis dos anos 60 e 70. Consequências do impacto provocado pelo lançamento de Howl and other poems, em 1956, e, logo em seguida, de On the Road, de Kerouac, em 1957, e de outras obras representativas da literatura beat, como Kaddish and other poems, do próprio Ginsberg, e Naked Lunch, de Burroughs.

Expressões da liberdade de criação, tais obras romperam com o beletrismo, o exacerbado forma­lismo que dominava a criação poética e o ambiente acadêmico, e com seu correlato, o bom-mocismo da sociedade. Arejaram um mundo sufocado pela polarização entre o macarthismo e o stalinismo, abrindo perspectivas, não só literárias, mas existenciais e políticas. Alusivas a acontecimentos reais, escritas na primeira pessoa, a partir do “eu” de seu criador, e não de um mundo de abstração formal, promoveram uma nova relação entre poesia e vida.

Um de seus livros mais conhecidos, Uivo, conquistou milhões de leitores. Publicado em 1956, valeu um processo por pornografia contra seu editor, Ferlinghetti, no ano seguinte. O escândalo, associado ao impacto do lançamento de On the Road de Kerouac, contribuiu para promover mundialmente a Geração Beat e trans­formá-la em mito moderno e movimento social.

Como bem observaram seus tradutores e divulgadores franceses, Alain Jouffrouy e Jean-Jacques Lebel, até então, mesmo obras inovadoras, como as de Breton, Artaud e Michaux, resultavam em tiragens de uns poucos milhares de exemplares. Por isso, ao tornar-se fenômeno editorial, Ginsberg também se tornou emblema da rebelião, no plano da criação literária, da conduta individual e do conjunto das relações sociais.

Na perspectiva atual, é até difícil avaliar o quanto a rebelião beat foi importante, e qual a extensão de sua contribuição para a formação de uma nova ideologia, uma percepção do mundo e do homem da qual fazem parte a ampliação e o enriquecimento da liberdade individual, e a superação de divisões e mo­dos de repressão.

Um dos méritos de Gins­berg, Burroughs e especialmente de Ferlinghetti foi terem feito a ponte entre o modernismo anglo-ame­ri­cano, de Ezra Pound e William Carlos Williams, e a vanguarda francesa, principalmente o surrealismo. Em um grau enorme de atualização literária, Ginsberg e Carl Solomon, internados em um hospício em 1948/49 (episódio decisivo para a criação de Uivo), escreveram uma carta delirante para o surrealista Malcolm de Chazal, autor de exceção até hoje, cujo Sens Plastique acabara de sair. Palestras e ensaios de Ginsberg demonstram sua vinculação à vertente objetivista, de Pound e Williams, e do fluxo de consciência, de Gertrude Stein e James Joyce, e mostram como seu trabalho com a prosódia, os valores sonoros da linguagem, é consistente e complexo.

O conjunto dos textos escritos entre o final dos anos 40 e o início dos 60 reflete algo como uma experiência iniciática, resultando em uma nova consciência e uma nova cor­poreidade depois desse confronto com a morte. A seu modo, Ginsberg reproduziu a viagem órfica, a descida de Orfeu, arquétipo dos poetas, ao inferno, e a trajetória do xamã, do bruxo-sacerdote tribal. Emergiu dela, após aderir ao budismo tibetano, como líder de movimentos sociais dos anos 60 em diante, e um permanente animador cultural, à frente do Naropa Institute, a universidade alternativa que criou e dirigiu até o fim da sua vida.

Morto aos 70 anos, fará falta, mesmo com a permanência de sua obra. Em uma admirável síntese do poeta olímpico, a celebridade mundial, e do poeta maldito, o marginal, jamais abriu mão do senso crítico e da busca do novo, tão evidente na permanente transformação de sua obra desde a fase heróica da Beat, nos anos 40-50. Enfrentou crises pessoais como a de 1960 a 63, interrupções do seu processo criativo, mas nunca se tornou um repetidor, um epígono de si mesmo. Não soará estranho, atualmente, afirmar que alguém como ele, um rebelde com um comportamento extravagante e desregrado, foi um exemplo de integridade, de uma elevada ética da poesia. 
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* Trecho do texto do tradutor e poeta Cláudio Willer, autor da introdução, das notas e da tradução de Uivo para a L&PM Editores.

Allen Ginsberg in 1976. (foto: Binder-ullstein bild /via Getty Images)


OBRA DE ALLEN GINSBERG PUBLICADA EM PORTUGUÊS

--------- poesia 
:: Uivo, Kaddish e outros poemasAllen Ginsberg  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket, v. 188 / Série Beats. Porto Alegre: L&PM, 1ª edição - Inverno de 1984;  Porto Alegre: L&PM, 2010 
:: Uivo: a graphic novel. Allen Ginsberg.  [ilustrada por Eric Drooker; tradução de Luis Dolhnikoff]. São Paulo: Globo, 2011.
:: A queda da américa: poemas. Allen Ginsberg. [tradução Paulo Henriques Britto]. Coleção L&PM Pocket Beats. Porto Alegre: L&PM, 1985.
:: Consultando o I Ching Fumando maconha Ouvindo The Fungs cantar Blake. Allen Ginsberg. [tradução  Ésio Macedo Ribeiro]. Bilíngue. Londrina: Galileu Edições, 2024

--------- cartas
:: Cartas do Yage / The Yage letters. William Burroughs & Allen Ginsberg. [tradução Bettina Becker]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2008.
:: Jack Kerouac e Allen Ginsberg: As Cartas. Jack Kerouac e Allen Ginsberg. [organização Bill Morgan e David Stanford; tradução Eduardo Pinheiro de Souza]. Porto Alegre: L&PM, 2012
:: Negócio de Família: Cartas selecionadas de pai e filho. Allen Ginsberg e Louis Ginsberg [organização Michael Schumacher; tradução Camila Lopes Campolino]. Editora Peixoto Neto, 2011

--------- entrevistas 
:: Mente espontânea: entrevistas selecionadas 1958-1996. Allen Ginsberg. [organização David E. Carter; tradução Eclair Antonio Almeida Filho]. Barueri, SP: Novo Século, 2013


Em Portugal

--------- poesia 
:: Uivo e outros poemas. Allen Ginsberg. [tradução  José Palla e Carmo]. Coleção Poesia Século XX. Lisboa: Cadernos de Poesia da Dom Quixote, In-8º de 69 (3) 1973
:: Uivo seguido de Kadish / Howl and Kaddish. Allen Ginsberg. [tradução e prefácio Paula Ramalho Almeida]. Edição bilingue. Vila Nova de Famalicão: Quasi, 2002
:: Uivo e outros poemas. Allen Ginsberg. [tradução  e notas Margaria Vale de Gato]. Lisboa: Relógio D'Agua, 2014
:: Poemas de Allen Ginsberg. [selecção, tradução e prefácio de Paula Ramalho Almeida e Joana Matos Frias]. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026).

--------- Em antologias
:: Geração Beat Antologia. [apresentação e compilação Seymour Krim; tradução Marcello Corção]. São Paulo: Brasiliense, 1968 / Poema 'Morte para a orelha de Van Gogh/ Death to Van Gogh's Ear' Allen Ginsberg
:: Nova poesia norte-americana Quingumbo. [vários tradutores]. São Paulo: Escrita, 1980 / Allen Ginsberg em tradução de Afonso Félix de Sousa (4 poemas).
:: Poesia alheia. 124 poemas traduzidos. vários autores. [organização, tradução e prefácio Nelson Ascher; orelhas do livro Arthur Nestrovski]. Coleção Lazuli. Rio de Janeiro: Imago, 1998 / Poema 'Algum Amor'/'Some Love' Allen Ginsberg
:: Geração Beat. Claudio Willer. Encyclopaedia. Beat/ Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2009

--------- Outras traduções em revistas, jornais e blogs
:: Ginsberg, Allen. Uma profecia / A prophecy. tradução Paulo Henriques Britto. In: Azougue, n°.04, 1997
:: Ginsberg: Rain-wet asphalt heat, garbage curbed cans overflowing. tradução Adriano Scandolara. In: escamandro, 10.10.2011. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026)
:: Uma tradução de Allen Ginsberg: a “Canção da vovó Terra”, “Grandma Earth’s Song” / tradução Claudio Willer. In: Blog de Claudio Willer, 21.3.2013. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026) 
:: Ginsberg e LSD – um poema / tradução Claudio Willer. In: Blog de Claudio Willer, 24.5.2013. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026)
:: Improviso em Beijing - Allen Ginsberg / Tradução de Reuben da Cunha Rocha. In: Poesias Preferidas, 4 de junho 2013. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026)
:: Ginsberg por Kiraly, (Allen Ginsberg, tradução de Cesar Kiraly). In: escamandro, 20.7.2015. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026)
:: Um poema de Allen Ginsberg traduzido do inglês por Felipe Nascimento. In: Ruído Manifesto, 20.8.2024. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026)
:: “Entenda que isto é um sonho” — um poema de Allen Ginsberg. traduzido por Pedro Augusto Luz. In: Coluna Travalínguas / Revista Sucuru, 5 de julho 2025. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026)

Allen Ginsberg - poeta beat


UMA SELETA DE POEMAS DE ALLEN GINSBERG EM EDIÇÃO BILÍNGUE


Algum Amor
Após 53
anos ainda choro
ainda amo ainda
aos beijos revigoro

minha arte o o coração
com júbilo ainda agem
meus dedos massageando
garotos na garagem

garotos sob o jugo
garotos no jazigo
do emprego ou dos estudos
ainda vêm comigo

não posso me queixar
se o amor chove do céu
na terra em minha mão
cabeça peito ou meu

sapato e qual notícias
de fora os beijos vêm
chupam meu pau as bocas
guris me querem bem

quanto é que vou durar
passado o amor que existe
tanto há por vir até
que eu seja um caco triste

virá menos e menos
a mim qualquer garoto
mais e mais velho o amor
se torna mais afoito

mais suave mas rugosa
qual mar que se escapele
(ágeis ainda os dedos)
me freme ainda a pele


Some Love
After 53 years
I still cry tears
I still fall in love
I still improve

My art with a kiss
My heart with bliss
My hands massage
Kids from the garage

Kids from the grave
Kids who slave
At study or labor
Still show me favor

How can I complain
When love like rain
Falls all over the land
On my head or my hand

On my breast on my shoes
Kisses arrive like foreign news
Mouths suck my cock
Boys wish me good luck

How long can I last
Such love gone past
So much to come
Till I get dumb

Rarer and rarer
Boys give me favor
Older and older
Love grows bolder

Sweeter and sweeter
Wrinkled like water
My skin still trembles
My fingers nimble
- Allen Ginsberg, ('Algum Amor'/'Some Love'). no livro 'Poesia alheia: 124 poemas traduzidos'. [tradução Nelson Ascher]. Coleção Lazuli. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

§§

DE "UIVO"
II

Que esfinge de cimento e alumínio arrombou seus crânios e devorou seus cérebros e imaginação? Moloch! 167 Solidão! Sujeira! Fealdade! Latas de lixo e dólares inatingíveis! Crianças berrando sob as escadarias!
Garotos soluçando nos exércitos! Velhos chorando nos parques!
Moloch! Moloch! Pesadelo de Moloch! Moloch o mal-amado! Moloch mental! Moloch o pesado juiz dos homens!
Moloch a incompreensível prisão! Moloch o presídio desalmado de tíbias cruzadas e o Congresso dos sofrimentos! Moloch cujos prédios são julgamento! Moloch a vasta pedra da guerra! Moloch os governos atônitos!
Moloch cuja mente é pura maquinaria! Moloch cujo sangue é dinheiro corrente! Moloch cujos dedos são dez exércitos! Moloch cujo peito é um dínamo canibal! 168 Moloch cujo ouvido é um túmulo fumegante!
Moloch cujos olhos são mil janelas cegas! Moloch cujos arranha-céus
jazem ao longo das ruas como infinitos Jeovás! Moloch cujas fábricas sonham e grasnam na neblina! Moloch cujas colunas de fumaça e antenas coroam as cidades!
Moloch cujo amor é interminável óleo e pedra! Moloch cuja alma é eletricidade e bancos! Moloch cuja pobreza é o espectro do gênio!
Moloch cujo destino é uma nuvem de hidrogênio sem sexo! Moloch cujo nome é a Mente!
Moloch em quem permaneço solitário! Moloch em quem sonho com anjos! Louco em Moloch! Chupador de caralhos em Moloch! Mal-amado e sem homens em Moloch!
Moloch que penetrou cedo na minha alma! Moloch em quem sou uma consciência sem corpo! Moloch que me afugentou do meu êxtase natural! Moloch a quem abandono! Despertar em Moloch! Luz
escorrendo do céu!
Moloch! Moloch! Apartamentos de robôs! subúrbios invisíveis! tesouros de esqueletos! capitais cegas! indústrias demoníacas! nações espectrais!
invencíveis hospícios! caralhos de granito! bombas monstruosas!
Eles quebraram suas costas levantando Moloch ao Céu! Calçamentos, árvores, rádios, toneladas! Levantando a cidade ao Céu que existe e está em todo lugar ao nosso redor!
Visões! profecias! alucinações! milagres! êxtases! descendo pela correnteza do rio americano!
Sonhos! adorações! iluminações! religiões! o carregamento todo de bosta sensitiva!
Desabamentos! sobre o rio! saltos e crucifixões! descendo a correnteza!
Ligados! Epifanias! Desesperos! Dez anos de gritos animais e suicídios! Mentes! Amores novos! Geração louca! jogados nos
rochedos do Tempo!
Verdadeiro riso santo no rio! Eles viram tudo! o olhar selvagem! os berros sagrados! Eles deram adeus! Pularam do telhado! rumo à solidão!
acenando! levando flores! Rio abaixo! rua acima!

*

OF 'HOWL'
II

What sphinx of cement and aluminum bashed open their skulls and ate up their brains and imagination?
Moloch! Solitude! Filth! Ugliness! Ashcans and unobtainable dollars! Children screaming under the stairways! Boys sobbing in armies! Old men weeping in the parks!
Moloch! Moloch! Nightmare of Moloch! Moloch the loveless! Mental Moloch! Moloch the heavy judger of men!
Moloch the incomprehensible prison! Moloch the crossbone soulless jailhouse and Congress of sorrows! Moloch whose buildings are judgment! Moloch the vast stone of war! Moloch the stunned governments!
Moloch whose mind is pure machinery! Moloch whose blood is running money! Moloch whose fingers are ten armies! Moloch whose breast is a cannibal dynamo! Moloch whose ear is a smoking tomb!
Moloch whose eyes are a thousand blind windows! Moloch whose skyscrapers stand in the long streets like endless Jehovahs! Moloch whose factories dream and croak in the fog! Moloch whose smoke-stacks and antennae crown the cities!
Moloch whose love is endless oil and stone! Moloch whose soul is electricity and banks! Moloch whose poverty is the specter of genius! Moloch whose fate is a cloud of sexless hydrogen! Moloch whose name is the Mind!
Moloch in whom I sit lonely! Moloch in whom I dream Angels! Crazy in Moloch! Cocksucker in Moloch! Lacklove and manless in Moloch!
Moloch who entered my soul early! Moloch in whom I am a consciousness without a body! Moloch who frightened me out of my natural ecstasy! Moloch whom I abandon! Wake up in Moloch! Light streaming out of the sky!
Moloch! Moloch! Robot apartments! invisible suburbs! skeleton treasuries! blind capitals! demonic industries! spectral nations! invincible madhouses! granite cocks! monstrous bombs!
They broke their backs lifting Moloch to Heaven! Pavements, trees, radios, tons! lifting the city to Heaven which exists and is everywhere about us!
Visions! omens! hallucinations! miracles! ecstasies! gone down the American river!
Dreams! adorations! illuminations! religions! the whole boatload of sensitive bullshit!
Breakthroughs! over the river! flips and crucifixions! gone down the flood! Highs! Epiphanies! Despairs! Ten years’ animal screams and suicides! Minds! New loves! Mad generation! down on the rocks of Time!
Real holy laughter in the river! They saw it all! the wild eyes! the holy yells! They bade farewell! They jumped off the roof! to solitude! waving! carrying flowers! Down to the river! into the street!
- Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 

§§

Sutra do girassol [1]
Caminhei pela beira do cais de bananas e latarias e me 
    sentei à sombra enorme de uma locomotiva da 
    Southern Pacific para olhar o sol que se punha entre 
    as colinas de casas como caixotes e chorar.
Jack Kerouac sentou-se a meu lado sobre um poste de 
    ferro quebrado e enferrujado, companheiro, 
    pensávamos os mesmos pensamentos da alma, chapados e 
    de olhos tristes, cercados pelas retorcidas raízes de 
    aço das árvores da maquinaria,
A água oleosa do rio refletia o rubro céu, o sol naufragava 
    nos cumes dos últimos morros de Frisco, [2] nenhum 
    peixe nessas águas, nenhum ermitão nessas montanhas, 
    só nós dois com nossos olhos embaçados e ressaca 
    de velhos vagabundos à beira-rio, malandros cansados.
Olha o Girassol, disse ele, lá estava a sombra cinzenta e 
    morta contra o céu, do tamanho de um homem, encostada 
   ressecada no topo do montão de serragem velha –
– Ergui-me encantado – meu primeiro girassol, recordações 
    de Blake – minhas visões – Harlem
e infernos dos rios do Leste, pontes com o clangor dos 
    Sanduíches Gordurosos de Joe, [3] carrinhos de bebês
    mortos, negros pneus carecas largados lá, o poema 
   do cais à beira-rio, preservativos & penicos, facas 
   nada inoxidáveis de aço, só o lixo úmido e os artefatos 
   de afiados gumes passando para o passado –
e o Girassol cinzento reclinado contra o crepúsculo, 
   desoladamente rachado e ressecado pela fuligem e a 
   fumaça e o pó de velhas locomotivas em seu olho –
corola de turvas pontas retorcidas e partidas como uma 
   coroa arrebentada, sementes roladas do seu rosto, 
   boca em breve desdentada ao ar ensolarado, raios de 
   sol se apagando na cabeça cabeluda como uma teia 
   de fios secos,
folhas tesas como ramos presos ao tronco, gesto enraizado 
   na serragem, pedaços de estuque caídos dos negros 
   galhos, mosca morta na orelha,
Ímpia coisa velha destroçada, você, meu girassol, Ó minha 
   alma, como então te amei!
A fuligem não era uma fuligem humana porém morte e 
   locomotivas humanas,
toda essa roupagem de pó, esse véu de pele escurecida 
   da estrada, essa fumaça da face, essa pálpebra de negra 
   miséria, essa fuliginosa mão ou falo ou protuberância 
   de algo artificial pior que a própria sujeira – 
   industrial – moderna – toda a civilização maculando 
   sua louca coroa dourada –
e todos esses torvos pensamentos de morte e olhos 
   empoeirados do desamor e tocos e raízes retorcidas 
   embaixo, dentro do seu montão de areia e serragem, 
   notas falsas de borracha de dólar, pele de maquinaria, 
   as entranhas e vísceras do carro que tosse e chora, as 
   latas vazias e abandonadas com suas enferrujadas línguas 
   de fora, o que mais poderia eu nomear, a cinza 
   queimada de algum cigarro do caralho, bocetas dos 
   carrinhos e os túrgidos seios dos carros, bundas gastas 
   dos bancos e esfíncteres dos dínamos – todo esse
emaranhado nas suas raízes mumificadas – e você aí postado 
   a minha frente ao sol poente, toda a sua glória 
   em sua forma!
Beleza perfeita de um girassol! excelente existência perfeita 
   de um adorável girassol! doce olho natural voltado 
para a lua nova “hip”, desperto vivaz e excitado 
   respirando a dourada brisa da luz do sol poente!
Quantas moscas zumbiram a seu redor ignorando sua fuligem, 
   enquanto você amaldiçoava os céus da ferrovia 
   em sua alma em flor?
Pobre flor morta? Quando foi que você esqueceu que era 
   uma flor? quando foi que você olhou para sua pele e 
   resolveu que era uma suja e impotente locomotiva 
   velha? o espectro da locomotiva? a sombra e vulto de 
   uma outrora poderosa locomotiva americana louca?
Você nunca foi uma locomotiva, Girassol, você é um girassol!
E você, Locomotiva, você é uma locomotiva, não se esqueça!
E assim agarrei o duro esqueleto do girassol e o finquei a 
    meu lado como um cetro,
e faço meu sermão para minha alma, e também para a 
    alma de Jack e para quem mais quiser me escutar.
– Nós não somos nossa pele de sujeira, nós não somos 
    nossa horrorosa locomotiva sem imagem empoeirada 
    e arrebentada, por dentro somos todos girassóis maravilhosos, 
    nós somos abençoados por nosso próprio 
    sêmen & dourados corpos peludos e nus da realização 
    crescendo dentro dos loucos girassóis negros e formais 
    ao pôr do sol, espreitados por nossos olhos à sombra 
    da louca locomotiva do cais na visão do poente de 
    latas e colinas de Frisco sentados ao anoitecer.

--------- Berkeley, 1955

*

                           Sunflower Sutra  
I walked on the banks of the tincan banana dock and sat down 
   under the huge shade of a Southern Pacific locomotive to 
   look at the sunset over the box house hills and cry.
Jack Kerouac sat beside me on a busted rusty iron pole, 
   companion, we thought the same thoughts of the soul, 
    bleak and blue and sad-eyed, surrounded by the gnarled 
    steel roots of trees of machinery.
The oily water on the river mirrored the red sky, sun sank on top 
   of final Frisco peaks, no fish in that stream, no hermit in 
   those mounts, just ourselves rheumy-eyed and hung-over 
    like old bums on the riverbank, tired and wily.
Look at the Sunflower, he said, there was a dead gray shadow 
    against the sky, big as a man, sitting dry on top of a pile of 
    ancient sawdust—
—I rushed up enchanted—it was my first sunflower, memories 
    of Blake—my visions—Harlem
and Hells of the Eastern rivers, bridges clanking Joes Greasy 
    Sandwiches, dead baby carriages, black treadless tires 
    forgotten and unretreaded, the poem of the riverbank, 
    condoms & pots, steel knives, nothing stainless, only the 
    dank muck and the razor-sharp artifacts passing into the 
     past—
and the gray Sunflower poised against the sunset, crackly bleak 
     and dusty with the smut and smog and smoke of olden 
     locomotives in its eye—
corolla of bleary spikes pushed down and broken like a battered 
     crown, seeds fallen out of its face, soon-to-be-toothless
     mouth of sunny air, sunrays obliterated on its hairy head 
     like a dried wire spiderweb,
leaves stuck out like arms out of the stem, gestures from the 
     sawdust root, broke pieces of plaster fallen out of the black 
     twigs, a dead fly in its ear,
Unholy battered old thing you were, my sunflower O my soul, 
      I loved you then!
The grime was no man’s grime but death and human 
      locomotives,
all that dress of dust, that veil of darkened railroad skin, that 
     smog of cheek, that eyelid of black mis’ry, that sooty hand 
     or phallus or protuberance of artificial worse-than-dirt—
     industrial—modern—all that civilization spotting your 
     crazy golden crown—
and those blear thoughts of death and dusty loveless eyes and ends 
    and withered roots below, in the home-pile of sand and 
    sawdust, rubber dollar bills, skin of machinery, the guts and 
    innards of the weeping coughing car, the empty lonely 
    tincans with their rusty tongues alack, what more could I 
    name, the smoked ashes of some cock cigar, the cunts of 
    wheelbarrows and the milky breasts of cars, wornout asses 
   out of chairs & sphincters of dynamos—all these
entangled in your mummied roots—and you there standing before
    me in the sunset, all your glory in your form!
A perfect beauty of a sunflower! a perfect excellent lovely 
    sunflower existence! a sweet natural eye to the new hip 
    moon, woke up alive and excited grasping in the sunset 
    shadow sunrise golden monthly breeze!
How many flies buzzed round you innocent of your grime, while 
     you cursed the heavens of the railroad and your flower soul?
Poor dead flower? when did you forget you were a flower? when 
    did you look at your skin and decide you were an impotent 
    dirty old locomotive? the ghost of a locomotive? the 
    specter and shade of a once powerful mad American 
    locomotive?
You were never no locomotive, Sunflower, you were a sunflower!   
And you Locomotive, you are a locomotive, forget me not!
So I grabbed up the skeleton thick sunflower and stuck it at my 
    side like a scepter,
and deliver my sermon to my soul, and Jack’s soul too, and anyone 
    who’ll listen,
—We’re not our skin of grime, we’re not dread bleak dusty 
    imageless locomotives, we’re golden sunflowers 
    inside, blessed by our own seed & hairy naked 
    accomplishment-bodies growing into mad black formal sunflowers 
    in the sunset, spied on by our own eyes under the shadow 
    of the mad locomotive riverbank sunset Frisco hilly tincan 
    evening sitdown vision.

---------  Berkeley, 1955
- Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
_________________
Nota de Claudio Willer:
[1] SUTRA DO GIRASSOL – Sutra são textos védicos, de doutrina filosófico-religiosa. O girassol é uma flor-símbolo para Ginsberg, que, na experiência místico-visionária de 1948 em seu apartamento no Harlem, lia o poema Ha! Sun-Flower dos Songs of Experience, quando ouviu a voz do próprio Blake recitando o poema.
[2] Frisco – San Francisco. Os moradores desta cidade não apreciam essa designação.
[3] Sanduíches Gordurosos de Joe – Joe’s é outra cadeia de lanchonetes.

§§

Meu Triste Eu
Para Frank O’Hara

Às vezes quando meus tristes olhos estão vermelhos
subo ao topo do prédio da RCA
e contemplo meu mundo, Manhattan –
meu prédio, ruas onde pratiquei façanhas,
coberturas de prédios, camas, apartamentos
sem água quente
– na Quinta Avenida embaixo que também está presente em
minha mente,
seus carros-formiga, pequenos táxis amarelos, homens
que caminham do tamanho de fiapos de lã
Panorama das pontes, nascer do sol sobre a máquina
do Brooklyn,
pôr do sol sobre Nova Jersey onde nasci
& Paterson onde brinquei com formigas –
meus amores mais tarde na 15ª Rua,
meus amores no Baixo East Side,
meus fabulosos amores de outrora no Bronx
distante –
caminhos cruzados nessas ruas escondidas,
minha história recapitulada, minhas ausências
e êxtases no Harlem
– o sol brilhando sobre tudo o que tenho
num pestanejar para o horizonte
na minha última eternidade –
a matéria é água.
Triste,
tomo o elevador e vou
para baixo, pensativo
e caminho pelas calçadas olhando as vidraças
dos homens, os rostos,
querendo saber quem ama
e me detenho atordoado
diante da vitrina da loja de automóveis
parado perdido em pensamentos calmos
o tráfego subindo e descendo pela 5ª Avenida
atrás de mim
esperando por um momento quando...
Hora de ir para casa & preparar o jantar & escutar
as românticas notícias da guerra pelo rádio
...todo movimento para
& eu caminho na tristeza intemporal da existência,
ternura escorrendo entre os prédios,
as pontas dos meus dedos roçando o rosto da
realidade,
meu próprio rosto sulcado de lágrimas no espelho
de alguma vidraça – no crepúsculo –
quando não sinto mais qualquer
desejo –
de bombons – ou de possuir roupas ou as lamparinas
japonesas do intelecto –
Confuso por causa do espetáculo ao meu redor,
o Homem trabalhando nas ruas
com pacotes, jornais
gravatas, ternos maravilhosos
rumo a seu desejo
Homens, mulheres, uma torrente nas ruas
luzes vermelhas disparando apressados relógios &
movimentos nas esquinas –
E todas essas ruas levando,
tão intrincadas, buzinadas, alongadas,
para avenidas
espreitadas pelos altos prédios ou incrustadas nos cortiços
no meio desse trânsito engarrafado
carros e motores que berram
tão dolorosamente até chegar a esse
campo, esse cemitério
essa quietude
de leito de morte ou montanha
já vista
nunca mais reconquistada ou desejada
pela mente que chegará
no dia em que toda Manhattan que eu vi houver desaparecido.

------ Nova York, outubro de 1958

*

My Sad Self
To Frank O’Hara [1]
 
Sometimes when my eyes are red
I go up on top of the RCA Building
and gaze at my world, Manhattan –
my buildings, streets I’ve done feats in,
lofts, beds, coldwater flats
– on Fifth Ave below which I also bear in mind,
its ant cars, little yellow taxis, men
walking the size of specks of wool –
Panorama of the bridges, sunrise over Brooklyn machine,
sun go down over New Jersey where I was born
& Paterson where I played with ants –
my later loves on 15th Street,
my greater loves of Lower East Side,
my once fabulous amours in the Bronx
faraway –
paths crossing in these hidden streets,
my history summed up, my absences
and ecstasies in Harlem –
– sun shining down on all I own
in one eyeblink to the horizon
in my last eternity –
matter is water.
Sad,
I take the elevator and go
down, pondering,
and walk on the pavements staring into all man’s
plateglass, faces,
questioning after who loves,
and stop, bemused
in front of an automobile shopwindow
standing lost in calm thought,
traffic moving up & down 5th Avenue blocks behind me
waiting for a moment when...
Time to go home & cook supper & listen to
the romantic war news on the radio
...all movement stops
& I walk in the timeless sadness of existence,
tenderness flowing thru the buildings,
my fingertips touching reality’s face,
my own face streaked with tears in the mirror
of some window – at dusk –
where I have no desire –
for bonbons – or to own the dresses or Japanese
lampshades of intellection –
Confused by the spectacle around me,
Man struggling up the street
with packages, newspapers,
ties, beautiful suits
toward his desire
Man, woman, streaming over the pavements
red lights clocking hurried watches
movements at the curb –
And all these streets leading
so crosswise, honking, lengthily,
by avenues
stalked by high buildings or crusted into slums
thru such halting traffic
screaming cars and engines
so painfully to this
countryside, this graveyard
this stillness
on deathbed or mountain
once seen
never regained or desired
in the mind to come
where all Manhattan that I’ve seen must disappear.

------- New York, October 1958
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
___________________
Nota do Tradutor Claudio Willer:
 [1] Frank O’Hara – importante poeta americano, autor do Manifesto Personalista, a quem Ginsberg conhecia desde 1956; morreu prematuramente em um acidente de automóvel em 1966. Foi curador do Museu de Arte de Nova York. Ginsberg chegou a declarar que Frank me ensinou a realmente ver Nova York pela primeira vez, acrescentando que era como ter Catulo a modificar sua vista do Fórum de Roma; daí esse poema sobre Manhattan ser-lhe dedicado.

§§

Poema de amor sobre um tema de Whitman ‎
Entrarei silencioso no quarto de dormir e me deitarei
entre noivo e noiva,
esses corpos caídos do céu esperando nus em sobressalto,
braços pousados sobre os olhos na escuridão,
afundarei minha cara em seus ombros e seios, respirarei
sua pele
e acariciarei e beijarei a nuca e a boca e abrirei e
mostrarei seu traseiro,
pernas erguidas e dobradas para receber, caralho
atormentado na escuridão, atacando
levantado do buraco até a cabeça pulsante,
corpos entrelaçados nus e trêmulos, coxas quentes
e nádegas enfiadas uma na outra
e os olhos, olhos cintilando encantadores, abrindo-se em
olhares e abandono,
e os gemidos do movimento, vozes, mãos no ar, mãos
entre as coxas,
mãos na umidade de macios quadris, palpitante contração
de ventres
até que o branco venha jorrar no turbilhão dos lençóis
e a noiva grite pedindo perdão e o noivo se cubra
de lágrimas de paixão e compaixão
e eu me erga da cama saciado de últimos gestos íntimos
e beijos de adeus –
tudo isso antes que a mente desperte, atrás das cortinas
e portas fechadas da casa escurecida
cujos habitantes perambulam insatisfeitos pela noite,
fantasmas desnudos buscando-se no silêncio.

*

Love poem on theme by Whitman
I’ll go into the bedroom silently and lie down
between the bridegroom and the bride,
those bodies fallen from heaven stretched out
waiting naked and restless,
arms resting over their eyes in the darkness,
bury my face in their shoulders and breasts,
breathing their skin,
and stroke and kiss neck and mouth and make
back be open and known,
legs raised up crook’d to receive, cock in the
darkness driven tormented and attacking roused up
from hole to itching head,
bodies locked shuddering naked, hot lips and buttocks
screwed into each other
and eyes, eyes glinting and charming, widening into
looks and abandon,
and moans of movement, voices, hands in air, hands
between thighs,
hands in moisture on softened lips, throbbing
contraction of bellies
till the white come flow in the swirling sheets,
and the bride cry for forgiveness, and the groom
be covered with tears of passion and compassion,
and I rise up from the bed replenished with last intimate
gestures and kisses of farewell –
all before the mind wakes, behind shades and closed
doors in a darkened house
where the inhabitants roam unsatisfied in the night,
nude ghosts seeking each other out in the silence.
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 

§§

Sobre a Obra de Burroughs
O método deve ser a mais pura carne
e nada de molho simbólico,
verdadeiras visões & verdadeiras prisões
assim como vistas vez por outra.
Prisões e visões mostradas
com raros relatos crus *
correspondendo exatamente àqueles
de Alcatraz e Rose.
Um lanche nu** nos é natural,
comemos sanduíches de realidade.
Porém alegorias não passam de alface.
Não escondam a loucura.

--------- San Jose, 1954

*

On Burroughs’ Work
The method must be purest meat
and no symbolic dressing,
actual visions & actual prisons
as seen then and now.
Prisons and visions presented
with rare descriptions
corresponding exactly to those
of Alcatraz and Rose.
A naked lunch is natural to us,
we eat reality sandwiches.
But allegories are so much lettuce.
Don’t hide the madness.

--------- San Jose, 1954 
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
_______________
Notas do Tradutor:
1. raros relatos crus – a dupla tradução: no original, with rare descriptions. Rare é raro, diferente, especial, mas também cru, malpassado, em rare done meat. Crus faz um par com nu, dando nu e cru, expressão que significa verdadeiro, realístico, acentuando o sentido do poema.
2. um lanche nu – Este poema foi escrito na Califórnia em 1954, enquanto Ginsberg ia recebendo por carta, de Tanger, trechos do que Burroughs denominava de routines, narrativas que, remontadas, viriam a compor Naked Lunch, terminada em Paris quatro anos mais tarde. O sanduíche da linha seguinte leva a concluir que a tradução adequada desse título para o português é mesmo Lanche Nu, e não Almoço Nu, apesar de lunch, em inglês, significar almoço, tanto quanto refeição leve. Ginsberg gostou da metáfora ‘sanduíches de realidade’, ‘reality sandwiches’ e a usou como título de seu terceiro livro de poemas.
 
§§

Canção
O peso do mundo
é o amor.
Sob o fardo
da solidão,
sob o fardo
da insatisfação 
o peso
o peso que carregamos
é o amor.
Quem poderia negá-lo?
Em sonhos
nos toca
o corpo,
em pensamentos
constrói
um milagre,
na imaginação
aflige-se
até tornar-se
humano –
sai para fora do coração
ardendo de pureza –
pois o fardo da vida
é o amor,
mas nós carregamos o peso
cansados
e assim temos que descansar
nos braços do amor
finalmente
temos que descansar nos braços
do amor.
Nenhum descanso
sem amor,
nenhum sono
sem sonhos
de amor –
quer esteja eu louco ou frio,
obcecado por anjos
ou por máquinas,
o último desejo
é o amor 
– não pode ser amargo
não pode ser negado
não pode ser contigo
quando negado:
o peso é demasiado 
– deve dar-se
sem nada de volta
assim como o pensamento
é dado
na solidão
em toda a excelência
do seu excesso.
Os corpos quentes
brilham juntos
na escuridão,
a mão se move
para o centro
da carne,
a pele treme
na felicidade
e a alma sobe
feliz até o olho –
sim, sim,
é isso que
eu queria,
eu sempre quis,
eu sempre quis
voltar
ao corpo
em que nasci.

*

Song
The weight of the world
       is love.
Under the burden
       of solitude,
under the burden
       of dissatisfaction
       the weight,
the weight we carry
       is love.
Who can deny?
       In dreams
it touches
       the body,
in thought
       constructs
a miracle,
       in imagination
anguishes
       till born
in human—
looks out of the heart
       burning with purity—
for the burden of life
       is love,
but we carry the weight
       wearily,
and so must rest
in the arms of love
       at last,
must rest in the arms
       of love.
No rest
       without love,
no sleep
       without dreams
of love—
       be mad or chill
obsessed with angels
       or machines,
the final wish
       is love
—cannot be bitter,
       cannot deny,
cannot withhold
       if denied:
the weight is too heavy
       —must give
for no return
       as thought
is given
       in solitude
in all the excellence
       of its excess.
The warm bodies
       shine together
in the darkness,
       the hand moves
to the center
       of the flesh,
the skin trembles
       in happiness
and the soul comes
       joyful to the eye—
yes, yes,
       that’s what
I wanted,
       I always wanted,
I always wanted,
       to return
to the body
       where I was born.
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 

§§

Arte é ilusão, pois eu não ajo
Fico ou Parto – com constante alegria
Meus pensamentos, embora céticos, são sagrados
Santa prece para o conhecimento ou puro fato.

Então enceno a esperança de que posso criar
Um mundo vivo em torno de meus olhos mortais
Um triste paraíso é o que imito
E anjos caídos cujas asas perdidas são suspiros.

Neste estado não mundano em que me movimento
Minha Fé e Esperança são diabólica moeda corrente
Em mundos falsificados, cunho pequenos donativos
Em torno de mim, e troco minha alma por amor.

*

Art is illusion, for I do not act
–Dwell or Depart - with faithful merriment,
My thoughts, though skeptic, are in sacrament,
Holy prayer for knowledge of pure fact.

So I enact the Hope I can create
A lively world around my deadly eyes
Sad paradise it is I imitate,
And fallen angels whose lost wings are sighs.

In this unworldly state wherein I move
My Faith and Hope are hellish currency:
In counterfeit worlds, I coin small Charity
About myself, and trade my soul for Love. 
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 

§§

Mensagem
Desde quando mudamos
transamos conversamos trabalhamos
choramos & mijamos juntos
eu acordo pela manhã
com um sonho nos meus olhos
mas você partiu para NY [1]
lembrando-se de mim Bom
eu te amo eu te amo
& teus irmãos são loucos[2]
eu aceito seus casos de bebedeira
Há muito tempo tenho estado só
há muito tempo tenho estado na cama
sem ninguém a quem pegar no joelho, homem
ou mulher, tanto faz, [3] eu
quero o amor nasci para isso quero você comigo agora
Transatlânticos fervem no oceano
Delicados esqueletos de arranha-céus não terminados
A cauda do dirigível roncando sobre Lakehurst
Seis mulheres nuas dançando juntas num palco vermelho
As folhas agora estão verdes em todas as árvores de Paris
Chegarei em casa daqui a dois meses e olharei nos teus olhos

*

Message
Since we had changed
rogered spun worked
wept and pissed together
I wake up in the morning
with a dream in my eyes
but you are gone in NY
remembering me Good
I love you I love you
& your brothers are crazy
I accept their drunk cases
It's too long that I have been alone
it's too long that I've sat up in bed
without anyone to touch on the knee, man
or woman I don't care what anymore, I
want love I was born for I want you with me now
Ocean liners boiling over the Atlantic
Delicate steelwork of unfinished skyscrapers
Back end of the dirigible roaring over Lakehurst
Six women dancing together on a red stage naked
The leaves are green on all the trees in Paris now
I will be home in two months and look you in the eyes
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
_________________
Notas do Tradutor 
[1] O poema foi escrito em 1958 em Paris, na fase do Beat Hotel. Orlovsky havia retornado antes, preocupado por seus irmãos, Lafcadio e Julius, haverem piorado.
[2] teus irmãos são loucos – os irmãos de Peter Orlovsky. Filho de um ex-oficial do exército russo, czarista, Orlovsky, nascido em 1930, passou a infância na miséria. Teve de sair de casa aos 17 anos, trabalhando como enfermeiro. Dos seus quatro irmãos, os dois mais velhos, Nicholas e Julius já na adolescência foram internados com esquizofrenia catatônica. Tentando evitar que o mais novo, Lafcadio, seguisse pelo mesmo caminho, Peter o trouxe à Califórnia, instalando-o na casa em Berkeley, provocando desconforto em Ginsberg. O próprio Orlovsky habituou-se a drogar-se pesadamente (principalmente com estimulantes, como a metadona, e opiáceos), além de beber exageradamente, e foi desenvolvendo estados de alheamento e furor que fizeram que, por recomendação médica, ambos se separassem, deixando de morar juntos em 1984. Mesmo assemelhando-se a um estereótipo de casal homossexual, Orlovsky, predominantemente heterossexual, tinha namoradas que moravam junto com ele e Ginsberg.
[3] A crônica dos meses que Orlovsky e Ginsberg passaram juntos em Paris inclui pelo menos dois episódios, relatados por Miles, de mulheres, uma atraída por Ginsberg, outra por Orlovsky, que se envolveram em uma relação a três.

§§

Salmo mágico [1]
Porque o mundo está à beira do abismo e ninguém sabe o que virá depois 
Ó Fantasma que minha mente persegue de ano para ano desce do céu para esta carne trêmula
colhe meu olho fugitivo no vasto Raio que não conhece limites – Inseparável – Mestre
Gigante fora do tempo com todas as suas folhas caindo – Gênio do Universo – Mágico do Nada onde nuvens vermelhas aparecem – Indizível Rei das rodovias que se foram – lninteligível Cavalo saltando fora do sepulcro – Poente sobre a grande Cordilheira e inseto – Cupim
Lamentoso – Riso sem boca, Coração que nunca teve carne para morrer –

Promessa que não foi feita – Consolador, cujo sangue arde em um milhão de animais feridos –

Ó Misericórdia, Destruidor do Mundo, Ó Misericórdia, Criador das Ilusões Acalentadas, Ó Misericórdia, arrulho cacofônico da boca quente, Vem, invade meu corpo com o sexo de Deus, sufoca minhas narinas com a infinita carícia da corrupção,

transfigura-me em vermes viscosos de pura transcendência sensorial, ainda estou vivo,

grasna minha voz com o mais feio que a realidade, um tomate psíquico falando-Te por milhões de bocas,

Alma minha com miríades de línguas, Monstro ou Anjo, Amante que vem me foder para sempre – véu branco do Polvo sem Olhos –

Cu do Universo no qual desapareço – Mão Elástica que falou com Crane [2] – Música que toca na vitrola dos anos vinda de outro Milênio – Ouvido dos edifícios de NY

Aquilo em que acredito – que vi – procurei incessantemente na folha cachorro olho – sempre culpa, falta, – o que me faz pensar –

Desejo que me criou, Desejo que escondo no meu corpo, Desejo que todo Homem conhece Morte, Desejo ultrapassando o mundo Babilônico possível

que faz minha carne sacudir-se em orgasmos do Teu Nome que não conheço nunca conseguirei nunca dizer –

Dizer à Humanidade para dizer que o grande sino toca um tom dourado nos balcões de ferro em cada milhão de universos,

eu sou Teu profeta volta para casa para este mundo para gritar um insuportável Nome pelo odioso sexto dos meus 5 sentidos

que conhece Tua mão em seu falo invisível, coberta pelos bulbos elétricos da morte –

Paz, Solucionador onde embaralho ilusões, vagina de Boca Mole que entra no meu cérebro por cima, Pomba da Arca com um ramo de Morte.

Enlouquece-me, Deus estou pronto para a desintegração da minha mente, desgraça-me no olho da terra,

ataca meu coração cabeludo come meu caralho Invisível coaxar do sapo da morte salta em mim matilha de pesados cães salivando luz,

devora meu cérebro fluxo Uno de interminável consciência, tenho medo da tua promessa devo fazer que minha oração grite no medo –

Desce Ó Luz Criador & Devorador da Humanidade, arrebenta o mundo em sua loucura de bombas e morticínio,

Vulcões de carne sobre Londres, em Paris uma chuva de olhos –

caminhões carregados de corações de anjos para lambuzar as paredes do Kremlin – a caveira de luz para Nova York –

miríade de pés recobertos de joias nos terraços de Pequim – véus de gás elétrico baixando sobre a Índia – cidades de Bactéria invadindo o cérebro – a Alma escapando para as ondulantes bocas de borracha do Paraíso –

Este é o Grande Chamado, esta é a Toxina da Guerra Eterna, este é o grito da Mente assassinada na Nebulosa, este é o Sino Dourado da igreja que nunca existiu, este é o Bum no coração do raio do sol, esta é a trombeta do Verme na Morte, Apelo do arcanjo castrado sem mãos Doação da semente dourada do futuro pelo terremoto & vulcão do mundo –

Sepulta meus pés sob os Andes, esparrama meus miolos sobre a Esfinge, hasteia minha barba e cabelo no Empire State Building, cobre minha barriga com mãos de musgo, enche meus ouvidos com teu clarão, cega-me com arco-íris proféticos

Que eu prove finalmente a merda de Ser, que eu toque Teus genitais na palmeira, que o vasto Raio do Futuro entre pela minha boca para fazer soar Tua Criação Eternamente Não nascida, Ó beleza invisível para meu Século!

que minha oração ultrapasse minha compreensão, que eu deposite minha vaidade a Teus pés, que eu não mais tema o Julgamento de Allen neste mundo

nascido em Newark chegado para a Eternidade em Nova York chorando novamente no Peru pela definitiva Língua para salmodiar o Indizível, que eu ultrapasse o desejo de transcendência e entre nas calmas águas do universo

que eu cavalgue esta onda, não mais eternamente afogado na torrente da minha imaginação

que eu não seja assassinado pela minha própria doida magia, crime este a ser punido nos piedosos cárceres da Morte, homens entendei minha fala fora de seus próprios corações turcos, ajudem-me os profetas com a Proclamação, que os Serafins aclamem Teu Nome, Tu subitamente em uma imensa Boca do Universo fazendo a carne responder.

-------- 1960

*
Because this world is on the wing and what cometh no man can know
O Phantom that my mind pursues from year to year descend from heaven to this shaking flesh
catch up my fleeting eye in the vast Ray that knows no bounds  -- Inseparable -- Master --
Giant outside Time with all its falling leaves -- Genius of the
Universe -- Magician in Nothingness where appear red
clouds --
Unspeakable King of the roads that are gone -- Unintelligible Horse riding out of the graveyard -- Sunset spread over Cordillera and insect -- Gnarl Moth -- 
Griever -- Laugh with no mouth, Heart that never had flesh to
die -- Promise that was not made -- Reliever, whose
blood burns in a million animals wounded --

O Mercy, Destroyer of the World, O Mercy, Creator of Breasted
Illusions, O Mercy, cacophonous warmouthed doveling….”  Come,
invade my body with the sex of God, choke up my nostrils with
corruption's infinite caress,
transfigure me to slimy worms of pure sensate transcendency I'm still alive,
croak my voice with uglier than reality, a psychic tomato
speaking Thy million mouths,
Myriad-tongued my Soul, Monster or Angel, Lover that comes
to fuck me forever -- white gown on the Eyeless Squid --
Asshole of the Universe into which I disappear -- Elastic Hand that spoke to Crane –
Music that passes into the phonograph of years from another Millennium -- Ear of the buildings of NY --
That which I believe -- have seen -- seek endlessly in leaf dog
eye -- fault always, lack -- which makes me think...
Desire that created me, Desire I hide in my body, Desire all Man know Death, Desire surpassing the Babylonian possible world
That makes my flesh shake orgasm of they Name which I don’t know never will never speak –
Speak to Mankind to say the great bell tolls a golden tone on iron balconies in every million universe,
I am thy prophet come home this world to scream an unbearable
Name through my 5 senses hideous sixth
That knows Thy hand on its invisible phallus, covered with electric bulbs of death –
Peace, Resolver where I mess up illusion, Softmouth Vagina \that enters my brain form above, Ark-Dove with a bough of death.
Drive me crazy, God I’m ready for disintegration of my mind, disgrace me in the eye of the earth,
Attack my hairy heart with terror eat my cock Invisible croak of deathfrog leap on me pack of heavy dogs salivating light,
Devour my brain One flow of endless consciousness, I’m scared of your promise must make scream my prayer in fear –
Descend O Light Creator & Eater of Mankind, disrupt, disrupt the world in its madness of bombs and murder,
Volcanoes of flesh over London, on Paris a rain of eyes – truckloads of angelhearts besmearing Kremlin walls – the skullcap of light to New York –
Myriad jeweled feet on the terraces of Pekin – veils of electrical gas descending over India—cities of Bacteria invading the brain __ the Soul escaping into the rubber waving mouths of Paradise –
This is the Great call, this is the Tocsin of the Eternal War, this is the cry of the Mind slain in Nebulae,
This is the Golden Bell of the Church that has never existed, this is the boom in the heart of the sunbeam, this is trumpet of the Worm at Death,
Shovel my feet under the Andes, splatter my brains on the Sphinx, drape my beard and air over the Empire State Building,
Cover my belly with hands of moss, fill up my ears with your lightning, blind me with prophetic rainbows
That I taste the shit of Being at last, that I touch Thy genitals in the palmtree,
That the vast Ray of Futurity enter my mouth to sound They Creation Forever Unborn, O Beauty invisible to my Century!
That my prayer surpass my understanding, that I may lay my vanity at Thy foot, that I no longer fear Judgment over Allen of this world
Born in Newark come into Eternity in New York crying again in Peru for ultimate Tongue to psalm the unspeakable,
That I surpass desire for transcendency and enter the calm water of the universe
That I ride out this wave, not drown forever in the flood of my imagination
That I not be slain thru my own insane magic, this crime be punished in merciful jails of death, men understand my speech out of their Turkish heart, the prophets aid me with Proclamation.
The Seraphim acclaim Thy Name, Thyself at once in one huge Mouth of universe make meat reply.
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
______________
Nota do tradutor
[1] Salmo Mágico  – a edição da City Lights de Kaddish and other Poems vem com uma nota de Ginsberg, agregada ao texto, incorporada às demais notas na edição da Harper & Row: Salmo Mágico, a Resposta & O Fim registram as visões experimentadas depois de tomar Aiauasca, uma poção espiritual do Amazonas. A mensagem é: Alargar a área da consciência. Salmo Mágico, versão bem abreviada das anotações de Ginsberg no Peru, na região de Pucallpa, durante as sessões de ingestão desse preparado com índios curandeiros em junho de 1960, é um chamamento, uma invocação. A resposta, escrito já em Nova York, para onde Ginsberg conseguiu levar alguns galões do alucinógeno, é a resposta, a aparição da própria morte. O Fim é a síntese, a transcendência, integrando vida e morte. Sobre a busca do Aiauasca e seus resultados, a correspondência de Ginsberg e Burroughs em The Yage Letters, Cartas do Yage.
[2] Crane – Hart Crane, o poeta-suicida já mencionado.

§§

A resposta
Deus responde com minha condenação!
esta poesia apagada do lenho ardente
minhas mentiras respondidas pelo verme no meu ouvido
minha visão pela mão que cai sobre meus olhos para cobri-los
diante da visão do meu esqueleto
– meu anseio de ser Deus pela trêmula carne barbuda do maxilar
que cobre meu crânio como a pele de um monstro
Estômago vomitando a videira da alma, cadáver no
assoalho de uma cabana de bambu, carne do corpo
rastejando
rumo a seu pesadelo do destino que cresce em meu
cérebro
O barulho do estrondo da criação adorando seu Carrasco, o salto
dos pássaros para o Infinito, latidos como o som
do vômito no ar, sapos coaxando Morte nas árvores
eu sou um Serafim e não sei se vou para dentro do Vazio
eu sou um homem e não sei se vou para dentro da Morte –
Cristo Cristo pobre desesperançado
alçado à Cruz entre as Dimensões –
para ver o Sempre-Incognoscível!
um som de gongo de morte treme por toda a minha carne e um
imenso Ser entra no meu
cérebro vindo do longe que vive para sempre
Nada mais além da Presença poderosa demais para registrar! a Presença
na Morte, diante da qual estou indefeso
transforma-me de Allen em uma caveira
Velho Caolho dos sonhos dos quais não acordo a não ser morto –
mãos puxadas para a escuridão por uma horrenda Mão
– cego contorcer-se do verme, cortado – o arado
é o próprio Deus
Que baile da escuridão monstruosa anterior ao universo
Volta para visitar-me como um comando cego!
e possa eu apagar esta consciência, fugir de volta
para o amor de Nova York e o farei
Pobre lamentável Cristo com medo da predita Cruz,
Imortal –
Fugir, mas não para sempre – a Presença virá, a hora
chegará, uma estranha verdade penetra o universo, a morte
mostra seu Ser como antes
e eu me desesperarei porque esqueci! esqueci! a volta ao meu destino,
para morrer disso –
O que é sagrado quando a Coisa é todo o universo?
rasteja em cada alma como um órgão de vampiro cantando
atrás das nuvens iluminadas pela lua –
pobre criatura vem agachada
sob as estrelas barbudas em um negro campo no Peru
para depositar minha carga – morrerei no horror de
morrer!
Nem diques nem pirâmides, mas a morte, e devemos nos preparar para essa
nudez, pobres ossos sugados até ressecarem por Sua
longa boca
de formigas e vento, & nossas almas assassinadas para
preparar Sua Perfeição!
O momento chegou, Ele fez que Sua vontade fosse revelada para sempre e nenhuma fuga para o velho Ser além das estrelas não irá
chegar ao mesmo escuro porto oscilante de música insuportável
Nenhum refúgio no Eu, que está em chamas
nem no Mundo que também é Seu para ser bombardeado & Devorado!
Reconhece Seu poder! Larga
minhas mãos – minha atemorizada caveira
– pois eu havia escolhido a autoestima –
meus olhos, meu nariz, minha cara, meu caralho, minha alma – e agora o Destruidor sem cara!
Um bilhão de portas para o mesmo novo ser!
O universo se vira pelo avesso para devorar-me!
e a poderosa irrupção de música sai para fora da porta desumana –

----- junho de 1960

*
The Reply
God answers with my doom! I am annulled
                                    this poetry blanked from the fiery ledger
                         my lies be answered by the worm at my ear
              my visions by the hand falling over my eyes to cover them
                                                      from sight of my skeleton
              my longing to be God by the trembling bearded jaw flesh
                           that covers my skull like monster-skin
                  Stomach vomiting out the soul-vine, cadaver on
                           the floor of bamboo hut, body-meat crawling toward
                                    its fate nightmare rising in my brain
The noise of the drone of creation adoring its Slayer, the yowl
                                     of birds to the Infinite, dog barks like the sound
         of vomit in the air, frogs croaking Death at trees
I am a Seraph and I know not whither I go into the Void
I am a man and I know not whither I go into Death – –
                                    Christ Christ poor hopeless
                           lifted on the Cross between Dimension –
                              to see the Ever-Unknowable!
a dead gong shivers thru all flesh and a vast Being enters my
                  brain from afar that lives forever
         None but the Presence too mighty to record! the Presence
                 in Death, before whom I am helpless
                           makes me change from Allen to a skull
Old One-Eye of dreams in which I do not wake but die –
             hands pulled into the darkness by a frightful Hand
                  – the worm’s blind wriggle, cut – the plough
is God himself
What ball of monster darkness from before the universe come
         back to visit me with blind command!
         and I can blank out this consciousness, escape back
                                    to New York love, and will
                  Poor pitiable Christ afraid of the foretold Cross,
                                             Never to die –
Escape, but not forever – the Presence will come, the hour
         will come, a strange truth enter the universe, death
                           show its Being as before
and I’ll despair that I forgot! forgot! my fate return,
                                                      tho die of it –
What’s sacred when the Thing is all the universe?
    creeps to every soul like a vampire-organ singing behind
                                    moonlit clouds –
                                                        poor being come squat
under bearded star in a dark filed in Peru
                           to drop my load – I’ll die in horror that I die!
Not dams or pyramids but death, and we to prepare for that
         of ants and wind, & our souls to prepare
                                                               His Perfection!
The moment’s come, He’s made His will revealed forever
     and no flight into old Being further than the starts will not
         find terminal in the same dark swaying port
of unbearable music
No refuge in Myself, which is on fire
     or in the World which is His also to bomb & Devour!
                  Recognize His might! Loose hold
         of my hands – my frightened skull
                                                      – for I had chose self-love –
my eyes, my nose, my face, my cock, my soul – and now
                                             the faceless Destroyer!
                           A billion doors to the same new Being!
                  The universe turns inside out to devour me!
and the mighty burst of music comes from out the inhuman
                                                               door –

---------- 1960
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 

§§

Um estranho chalé novo em Berkeley
A tarde toda colhendo amoras-pretas junto a uma cambaleante cerca marrom
debaixo de um ramo inclinado com seus velhos abricós estragados no meio das folhas;
consertando o vazamento nas intrincadas entranhas do mecanismo de uma nova privada;
eu achei um bule de café bom entre as moitas junto da varanda, rolei um pneu grande para fora dos arbustos escarlates, escondi minha maconha;
reguei as flores, jogando a água iluminada pelo sol de uma para a outra, voltando por algumas divinas gotas a mais para as vagens e margaridas;
por três vezes dei a volta ao gramado e suspirei distraidamente:
minha recompensa, quando o jardim me deu suas ameixas saídas de dentro da forma de um arbusto no canto,
um anjo que teve consideração pelo meu estômago e pela minha língua ressecada e desamada. [1] 

*

A strange new cottage in Berkeley
All afternoon cutting bramble blackberries off a tottering
brown fence
under a low branch with its rotten old apricots miscellaneous
under the leaves,
fixing the drip in the intricate gut machinery of a new toilet;
found a good coffeepot in the vines by the porch, rolled a
big tire out of the scarlet bushes, hid my marijuana;
wet the flowers, playing the sunlit water each to each,
returning for godly extra drops for the stringbeans
and daisies;
three times walked round the grass and sighed absently:
my reward, when the garden fed me its plums from the
form of a small tree in the corner,
an angel thoughtful of my stomach, and my, dry
and lovelorn tongue.

------------ 1956
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
_____________
Nota do tradutor
[1] Um estranho chalé novo em Berkeley – Embora tenham ido parar em livros diferentes, este poema foi escrito no mesmo dia e na mesma folha de papel que Um Supermercado na Califórnia. Ambos, durante o processo de criação de Uivo. É o chalé dentro da Noite Ocidental da parte II de Uivo, e do final de Kaddish.

§§

Garatuja
Rexroth, [1] seu rosto refletindo a cansada
          bem-aventurança humana
Cabelo branco, sobrolho vincado
           bigode tagarela
              flores jorrando
                           da cabeça triste,
ouvindo Edith Piaf e suas canções de rua
enquanto ela passeia com o universo
e toda a sua vida que passou
e as cidades que desapareceram
                    só ficou o Deus do amor
              sorrindo

------- Berkeley, março 1956

*

Scribble
Rexroth’s face reflecting human
         tired bliss
White haired, wing browed
         gas mustache,
                  flowers jet out of
                           his sad head,
listening to Edith Piaf street song
         as she walks the universe
                           with all life gone
                           and cities disappeared
                                    only the God of Love
                                             left smiling.

------- Berkeley, March 1956
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
_________________
[1] Rexroth – Kenneth Rexroth. O bigode tagarela, a seguir, no original é gassy mustache; gassy é falante tagarela, mas também, segundo Ginsberg me informou, estaria associado a sua visão de Rexroth parado debaixo de um antigo lampião de rua de gás. Para minha surpresa (pois gosto de seus poemas curtos, como aqueles para Lindsay e Burroughs e este), Ginsberg observou que achava este poema menor (minor). Talvez isso refletisse a relação um tanto ambivalente com Rexroth, que reconheceu a genialidade dos trechos de Vision of Cody que ele lhe havia mostrado, endossou Uivo em termos e detestou as routines, os trechos de Naked Lunch que chegou a ver.

§§

Malest Cornifici tuo Catullo[1] 
Estou feliz, Kerouac, seu louco Allen
finalmente conseguiu: achou um cara novo
e minha imagem de um garoto eterno
passeia pelas ruas de San Francisco,
lindo, e me encontra nas cafeterias
e me ama. Ah, não pense que estou maluco.
Você está zangado comigo. Pelos meus amantes?
É duro comer merda, sem ter visões;
quando eles me olham, para mim é o Paraíso.

*

Malest Cornifici tuo Catullo
I'm happy, Kerouac, your madman Allen's
finally made it: discovered a new young cat,
and my imagination of an eternal boy
walks on the streets of San Francisco,
handsome, and meets me in cafeterias
and loves me. Ah don't think I'm sickening.
You're angry at me. For all of my lovers?
It's hard to eat shit, without having visions;
when they have eyes for me it's like
Heaven.

--------- SF 1955
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
_______________
Nota do tradutor
[1] Malest Cornifici tuo Catullo – o original, em hendecassílabos, baseia-se no poema de Catulo: Malest, Cornifici, tuo Catullo/ males, me Hercule, et labora atosiose/ et magis magis dies et horas/ quem tu, quod, minimum fai ilimumquest/ que solatus es allocuciones?/ irascor tibi sic meos amores?/ paulum quid luber allocutions,/ maestius lacrimis Simonideis. Em tradução livre: Vai mal, Cornificio, vai mal/ o teu Catullo, ó Hércules, e sofre/ cada vez mais a cada dia e hora/ e você nem me dá uma palavra/ da mais fácil, da mais barata/ você está zangado comigo, por meus amores?/ uma palavra só/ nem que seja mais triste que o pranto de Simonideis. Ginsberg na verdade responde a Catullo, pois um diz que está mal, o outro, que está feliz, ao dirigir-se a Kerouac, celebrando seu encontro com Peter Orlovsky. O poema foi escrito logo após a primeira noite de Ginsberg com Orlovsky.

§§

Ácido lisérgico
Ele[1] é um monstro múltiplo de um milhão de olhos ele está escondido em todos os seus elefantes e eus
ele zumbe na máquina de escrever elétrica
ele é eletricidade ligada nela mesma, se tiver fios
ele é uma enorme teia de aranha
e eu estou no último milionésimo tentáculo infinito da teia, ansioso, perdido, separado, um verme, um pensamento, um eu
um dos milhões de esqueletos da China
uma das partículas de erros
eu Allen Ginsberg uma consciência separada
eu que quero ser Deus eu que quero ouvir a infinitésima minúscula vibração da harmonia eterna
eu que espero trêmulo pela minha destruição por essa música etérea do fogo
eu que detesto Deus lhe dou um nome
eu que cometo erros na eterna máquina de escrever
eu que estou Condenado
Mas na extremidade final do universo a Aranha sem nome com milhões de olhos
tecendo-se interminavelmente
o monstro que não é um monstro chega perto de mim com maçãs, perfumes, ferrovias, televisores, crânios
um universo que se come e se bebe a si mesmo
sangue do meu crânio
criatura tibetana de peito cabeludo e Zodíaco no meu estômago
esta vítima sacrificial incapaz de estar numa boa
Meu rosto no espelho, o cabelo fino, sangue congestionado em listas sob os olhos, chupador de caralhos, uma ruína, uma luxúria falante
um estalo, um rosnado, um tique de consciência no infinito
um miserável aos olhos de todos os Universos
tentando escapar do meu Ser, incapaz de chegar até o Olho
eu vomito, eu estou em transe, meu corpo é tomado por convulsões, meu estômago se revolta, água saindo da minha boca, aqui estou eu no inferno
ossos secos de miríades de múmias sem vida nuas na teia, os Fantasmas, eu sou um Fantasma
eu grito de onde estou na música, para o quarto, para quem mais estiver perto, você, É você Deus?
Não, você quer que eu seja o seu Deus?
Não haverá Resposta?
É preciso haver sempre uma resposta? responde você,
como se dependesse de mim dizer Sim ou Não
Graças a Deus que eu não sou Deus! Graças a Deus que eu não sou Deus!
Porém eu anseio por um Sim ou por uma Harmonia para penetrar nela
em qualquer canto do universo, em qualquer condição seja qual for
um Sim, Há... um Sim eu Sou... um Sim você É... um Nós
Um Nós
e isso deve ser um Ele, e um Eles, e uma Coisa Sem Resposta
Ele rasteja, ele espera, ele para, ele começa, ele é as Trombetas da Batalha em sua Esclerose Múltipla
ele não é minha esperança
ele não é minha morte na Eternidade
ele não é minha palavra, nem a poesia
atenção à minha palavra
Ele é uma Armadilha Fantasma tecida pelos sacerdotes em Sikkim ou no Tibete
um telão no qual mil fios de cores diferentes
estão entretecidos, uma raquete espiritual de tênis
da qual quando a olho irradiam-se ondas etéreas de luz
energia brilhante passando pelos fios como por bilhões de anos
os feixes de fios trocando de tonalidade transformando-se um no outro como se a
Armadilha Fantasma
fosse uma imagem do Universo em miniatura
parte consciente sensível da máquina interligada
fazendo ondas que saem do Tempo até o Observador
exibindo sua própria imagem em miniatura de uma vez por todas
repetida minúscula cada vez menor com intermináveis variações através de si mesma
sendo o mesmo em cada parte
Esta imagem da energia que se reproduz a si mesma nas profundezas do espaço do próprio Princípio
naquilo que poderia ser um O ou Aum [2] 
e variações seguidas feitas da mesma Palavra círculos que se sucedem no mesmo molde da sua Aparição original
criando uma imagem maior de si mesma através das profundezas do Tempo
girando para fora pelas faixas de distantes Nebulosas & vastas astrologias contidas, para serem fiéis a si mesmas, numa Mandala pintada na pele de um Elefante
ou na fotografia de uma pintura no flanco de um Elefante imaginário que sorri, pois com que o elefante se parece é uma piada irrelevante –
ele pode ser um Signo sustentado por um Demônio Flamejante, ou um Ogro da Transciência,
ou numa fotografia da minha própria barriga no vazio
ou no meu olho
ou no olho do monge que fez o Signo
ou no Seu próprio Olho que Se encara finalmente e morre
e contudo um olho pode morrer
e contudo meu olho pode morrer
o monstro do bilhão de olhos, o lnominável, o lrrespondível, o Escondido-de-mim, o interminável Ser
uma criatura que se pare a si mesma
freme em sua mais recôndita partícula, vê simultaneamente por todos os seus olhos em cada um deles de um modo diferente
o Uno e o não uno se movem por seus próprios caminhos
não consigo acompanhar
E eu fiz uma imagem do monstro aqui
e farei outra ele dá sensação de Criptozoides
ele rasteja e ondula sob o mar
ele está chegando para ocupar a cidade
ele invade o cerne de cada Consciência
ele invade o cerne de cada Consciência
ele é delicado como o Universo
ele me faz vomitar
pois eu tenho medo de perder sua aparição
ele aparece de qualquer modo
ele aparece de qualquer modo no espelho
ele escorre para fora do espelho como o mar
ele é uma miríade de ondulações
ele escorre para fora do espelho e afoga quem o olha
ele afoga o mundo quando afoga o mundo
ele se afoga a si mesmo
ele flutua para longe como um cadáver cheio de música
com o barulho da guerra em sua cabeça
um riso de bebê em sua barriga
um grito de agonia no escuro mar
um sorriso nos lábios de uma estátua cega
ele estava lá
ele não era meu
eu queria usá-lo para mim
ser heroico
mas ele não está à venda para esta consciência
ele segue por seu caminho para sempre
ele completará todas as criaturas
ele será o rádio do futuro
ele se ouvirá a si mesmo no tempo
ele quer um descanso
ele está cansado de se ouvir e de se ver
ele quer outra forma outra vítima
ele me quer
ele me dá bons motivos
ele me dá motivos para existir
ele me dá intermináveis respostas
uma consciência para separar-se e uma consciência para ver
eu sou chamado para ser Um ou o outro, para dizer se sou ambos e ser nenhum
ele pode cuidar de si sem mim
ele é o Duplamente sem Resposta (não responde a esse nome)
ele zumbe em máquina de elétrica escrever
ele bate uma palavra fragmentária que é
uma palavra fragmentária 

                                       Mandala
Deuses dançam em seus próprios corpos
Novas flores se abrem esquecendo a Morte
Olhos celestiais acima do desconsolo da ilusão
Eu vejo o alegre Criador
Faixas se elevam em um hino aos mundos
Bandeiras e estandartes tremulando na transcendência
Uma imagem permanece no final com miríades
de olhos na Eternidade
Esta é a Obra! Este é o Saber! Este é o Fim do homem!

------- SF, 2 de junho, 1959

*

Lysergic Acid
It is a multiple million eyed monster
it is hidden in all its elephants and selves
it hummeth in the electric typewriter
it is electricity connected to itself, if it hath wires
it is a vast Spiderweb
and I am on the last millionth infinite tentacle of the spiderweb, a worrier
lost, separated, a worm, a thought, a self
one of the millions of skeletons of China
one of the particular mistakes
I allen Ginsberg a separate consciousness
I who want to be God
I who want to hear the infinite minutest vibration of eternal harmony
I who wait trembling my destruction by that aethereal music in the fire
I who hat God and give him a name
I who make mistakes on the eternal typewriter
I who am doomed
~
But at the far end of the universe the million eyed Spyder that hath no name
spinneth of itself endlessly
the monster that is no monster approaches with apples, perfume, railroads,
Televisions, skulls
a universe that eats and drinks itself
blood from my skull
Tibetan creature with hairy breast and Zodiac on my stomach
this sacrificial victim unable to have a good time
~
My face in the mirror, thin hair, blood congested in streaks down beneath
My eyes, cocksucker, a decay, a talking lust
a snaeap, a snarl, a tic of consciousness in infinity
a creep in the eyes of all Universes
trying to escape my Being, unable to pass on to the Eye
~
I vomit, I am in a trance, my body is seized in convulsion, my stomach
crawls, water from my mouth, I am here in Inferno
dry bones of myriad lifeless mummies naked on the web, the Ghosts, I am
A Ghost
I cry out where I am in the music, to the room, to whomever near, you, Are
You God?
No, do you want me to be God?
Is there no answer?
Must there always be an Answer? you reply,
and were it up to me to say Yes or No –
Thank God I am not God! Thank God I am not God!
But that I long for a Yes of Harmony to penetrate
to every corner of the universe, under every condition whatsoever
a Yes there is… a Yes I am…a Yes You are… a We
~
A We
and that must be an It, and a They, and a Thing with No Answer
It creepeth, it waiteth, it is still, it is begun, it is the Horns of Battle it is
Multiple Sclerosis
it is not my hope
it is not my death at Eternity
it is not my word, not poetry
beware my Word
~
It is a Ghost Trap, woven by priest in Sikkim or Tibet
a crossframe on which a thousand threads of different color
are strung, a spiritual tennis racket
in which when I look I see aethereal lightwaves radiate
bright energy passing round on the threads as for billions of years
the thread-bands magically changing hues one transformed to another as if
the
Ghost Trap
were an image of the Universe in miniature
conscious sentient part of the interrelated machine
making waves outward in Time to the Beholder
displaying its own image in miniature once for all
repeated minutely downward with endless variations throughout all of itself
it being all the same in every part
~
This image or energy which reproduces itself at the depths of space from the
very Beginning
in what might be an O or an Aum
and trailing variations made of the same Word circles round itself in the same
pattern as its original Appearence
creating a larger Image of itself throughout the depths of Time
outward circling thru bands of faroff Nebulae & vast Astrologies
contained, to be true to itself, in a Mandala painted on an Elephant’s hide,
or in a photograph of a painting on the side of an imaginary Elephant which
smiles, tho how the Elephant looks is an irrelevent joke –
it might be a Sign held by a Flaming Demon, or Ogre of Transcience,
or in a photograph of my own belly in the void
or in my eye
or in the eye of the monk who made the Sign
or in its own Eye that stares on Itself at least and dies
~
and tho an eye can die
and tho my eye can die
the billion-eyed monster, the Nameless, the Answerless, the Hidden-From
me, the endless Being
one creature that gives birth to itself
thrills in its minutest particular, sees out of all eyes differently at once
One and not One moves on its own ways
I cannot follow
~
And I have made an image of the monster here
and I will make another
it feels like Cryptozoids
it creeps an undulates beneath the sea
it is coming to take over the city
it invades beneath every Consciousness
it is delicate as the Universe
it makes me vomit
becaude I am afraid I will miss its appearance
it appears anyway
it appears anyway in the mirror
it washes out of the mirror like the sea
it is myriad undulations
it washes out of the mirror and drowns the behodler
it drowns the world when it drowns the world
it drowns itself
it floats outward like a corpse filled with music
the noise of war in its head
a babe laugh in its belly
a scream og agony in the dark sea
a smile on the lips of a blind statue
it was there
it was not mine
I wanted to use it for myself
to be heroic
but it is not for sale to this consciousness
it goes its own way forever
it will complete all creatures
it will be the radio of the future
it will hear itself in time
it wants a rest
it is tired of hearing and seeing itself
it wants another form another victim
it wants me
it gives me good reason
it gives me reason to exist
it gives me endless answers
a consciousness to be separate and a consciousness to see
I am beckoned to be One or the other, to say I am both and be neither
it can take care of itself without me
it is Both Answerless ( it answers not to that name )
it hummeth on the elecric typewriter
it types a fragmentary word which is
a fragmentary word,

                    Mandala
Gods dance on their own bodies
New flowers open forgetting Death
Celestial eyes beyond the heartbreak of illusion
I see the gay Creator
Bands rise up in anthem to the worlds
Flags and banners waving in transcendence
One image in the end remains myriad-eyed in Eternity
This is the Work! This is the Knowledge! This is the End of man!

--------- Palo Alto, June 2, 1959 /In: “Kaddish and related poems” (1959-1960)
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
 ____________________
Nota de Claudio Willer:
[1] Ácido Lisérgico –268. escrito durante uma experiência com LSD promovida pelo departamento de pesquisas médicas da Universidade de Stanford, gravada, na qual eram mostradas gravuras, tocadas músicas, no estilo das sessões em voga nos anos 60. Mais tarde, Ginsberg escreveu um texto indignado, publicado em Poems All Over the Place, exigindo as gravações de volta e afirmando que as sessões eram um expediente da CIA para ficar sabendo da intimidade de pessoas que incomodavam ao sistema. Nesta série de poemas sob efeito de alucinógenos, pronomes pessoais, obrigatórios em inglês e dispensáveis em português, foram mantidos, pois está sendo relatado o confronto entre um “eu” e um “ele”, o indivíduo e um outro, mutante e ameaçador. Imagens do poema correspondem a estímulos visuais apresentados na sessão.
[2]  Aum – o som mantrânico, tibetano.


§§

O Fim
Eu sou Eu, velho Pai Olho de Peixe que procriou o oceano, o verme no meu próprio ouvido, a serpente enrolada na árvore,

Eu me sento na mente do carvalho e me oculto na rosa, eu sei se alguém desperta, ninguém a não ser minha morte,

vinde a mim corpos, vinde a mim profecias, vinde a mim agouros, vinde espíritos e visões,

Eu recebo tudo, eu morro de câncer, eu entro no caixão para sempre, eu fecho meu olho, eu desapareço,

Eu caio sobre mim mesmo na neve de inverno, rolo em uma grande roda pela chuva, observo a convulsão dos que fodem,

carros guincham, fúrias gemem sua música de fagote, memória apagando-se no cérebro, homens imitando cães,

Eu gozo no ventre de uma mulher, a juventude estendendo seus seios e coxas para o sexo, o caralho pulando para dentro 

derramando sua semente nos lábios de Yin, [1]  feras dançam no Sião, cantam ópera em Moscou,

meus garotos excitados ao crepúsculo nas varandas, chego a Nova York, toco meu jazz num Clavicórdio de Chicago,

Amor que me engendrou eu retorno a minha Origem sem nada perder, eu flutuo sobre o vomitório

empolgado por minha imortalidade, empolgado por essa infinitude na qual aposto e a qual enterro, vem Poeta, cala-te, come minha palavra e prova minha boca em teu ouvido.

---------- NY, 1960

*

The End
I am I, old Father Fisheye that begat the ocean, the worm at my own ear,
           the serpent turning around a tree,
I sit in the mind of the oak and hide in the rose, I know if I wake up, none
           but my death,
come to me bodies, come to me prophesies, come all foreboding, come spirits
           and visions,
I receive all. I’ll die of cancer, I enter the coffin forever, I close my eye, I
           disappear,
I fell on myself in winter snow, I roll in a great wheel through rain, I watch
           fuckers in convulsion,
car screech, furies groaning their basso music, memory fading in the brain,
           men imitating dogs,
I delight in a woman’s belly, youth stretching his breast and sighs to sex,
           the cock sprung inward
gassing its seed on the lips of Yin, the beasts dance in Siam, they sing opera
           in Moscow,
my boys yearn at dusk on stoops, I enter New York, I play my jazz on a
           Chicago Harpsichord,
Love that bore me I bear back to my Origin with no loss, I float over the
           vomiter
thrilled with my deathlessness, thrilled with this endlessness I dice and bury,
come Poet shut up eat my word, and taste my mouth in your ear.
Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
______________
Nota do tradutor
[1] Yin – o princípio “feminino”, “passivo”, da cosmogonia do Taoísmo chinês, contraposto ao Yang, princípio “masculino”; representam Terra e Céu. O Tao é um círculo, a roda que gira graças ao confronto dessas duas instâncias.


Allen Ginsberg - foto: Jim Johnson/Getty Images


FORTUNA CRÍTICA ALLEN GINSBERG

ALLEN GINSBERG (1926-1997), “HOWL”; 60 anos da primeira leitura pública do poema. In: Blog Roberto Bozzetti, 12.10.2015. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026)
ALMEIDA BARROS, Adailton. A figura do "outsider" em "O uivo" de Allen Ginsberg. In: Almeida Barros, Adailton; Sousa, Eulisson Nogueira de; Assunção, Maria José Alves de; Paz, José Flávio da.. (Org.). Estudos literários: diálogos e poéticas. 1ª ed., Joinville: Clube de Autores Publicações S/A, 2018, v. 1, p. 12-26.
ALMEIDA, Paula Ramalho. Intersubjectividade na Poesia de Allen Ginsberg (Dissertação Mestrado em Estudos Anglo-Americanos). Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2001.
ARQUIVO/AUDIODe Jack Kerouac, Anne Waldman, William Burroughs a Allen Ginsberg: 5 mil horas com a geração beat. In: Naropa University[áudios de palestras, conferências em inglês]. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026)
AUAD, Pedro Henrique Trindade Kalil. Transcriar um poema: Uivo, de Allen Ginsberg & Howl, de Rob Epstein e Jeffrey Friedman. In: Fabio Figueiredo Camargo; Luciene Guimarães. (Org.). Do texto ao filme: a temática queer na literatura e no cinema. 1 ed., Uberlândia: Sexo da palavra, 2021, v. 1, p. 141-162.
BARCELOS, David Arioch da Silva Alves. Budismo e a dieta vegetariana de Allen Ginsberg. In: Vegazeta, 4 maio 2018.
BARJA, Luísa Roxo. Visões da América: a política beat de Allen Ginsberg. (Dissertação Mestrado em Ciências Sociais), Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, PUC-SP, 2005. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026)
BARJA, Luísa Roxo. Allen Ginsberg e a Geração Beat. (Trabalho de Conclusão da Graduação em Ciências Sociais). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP, 2001.
BEAT MEMORIES: The Photographs of Allen Ginsberg. Sarah Greenough. Prestel Verlag, 2010.
BENFATTI, Flávia Andrea Rodrigues. Geração Beat: O Discurso da Crítica à Sua Recepção no Brasil (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP, 2005.
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WILLER, Claudio. Geração Beat. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
WILLER, Claudio. Os Rebeldes: Geração Beat e anarquismo místico / Claudio Willer. – 1ª Ed., Porto Alegre, RS: LP&M, 2014
WILLER, Claudio. A Geração Beat abriu a porta sem bater. In: Mixer - Jornal de Música, nº 2, - 1993. Disponível no link. (acessado em 2.2.2026)
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Allen Ginsberg - foto Irene Grainger


ALLEN GINSBERG E WILLIAM BLAKE - SONG / MÚSICA


ALLEN GINSBERG Ginsberg and William Blake’s Music – A Blake Symposium. In: Allen Ginsberg Project (acessado em 3.2.2026)
ALLEN GINSBERG Sings William Blake’s “Songs of Innocence and of Experience”. Recorded in 1969. Label MGMVerve Forecast (1970) / Producer Barry Miles e Peter Orlovsky / Discogs / audição / blake archive (acessado em 2.2.2026)
ALLEN GINSBERG Songs of Innocence and Experience by William Blake, tuned by Allen Ginsberg / Recorded New York, December 15, 1969; Released by MGM Records in 1970 - In: upenn.edu / PennSound (acessado em 2.2.2026)
ALLEN GINSBERG  - The Complete Songs Of Innocence And Experience. In: Bandcamp (acessado em 3.2.2026)
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Allen Ginsberg, em 1992 - foto: Frans Schellekens / Getty

Transcrição de música de órgão
A flor na jarra de manteiga de cacau que estava antes na cozinha, contorcida para chegar até a luz,

a porta do armário aberta porque o usei há pouco, continuou gentilmente aberta esperando-me, seu dono.

Comecei a sentir minha miséria no catre sobre o chão, escutando a música, minha miséria, é por isso que eu quero cantar.

O quarto fechou-se por cima de mim, esperava a presença do Criador, vi minhas paredes pintadas de cinza e o forro, elas contêm meu quarto, ele me contém e o céu contém meu jardim,

abro minha porta

O pé da trepadeira subiu pela pilastra do chalé, as folhas da noite lá onde o dia as havia deixado, as cabeças animais das flores lá onde haviam aparecido

para pensar ao sol

Posso trazer as palavras de volta? Pensar na transcrição, isso embaçará meu olho mental aberto?

A suave busca do crescimento, o gracioso desejo de existir das flores, meu quase êxtase de existir no meio delas.

O privilégio de testemunhar minha própria existência – você também deve procurar o sol...

Meus livros empilhados à minha frente para meu uso

aguardando no espaço onde os coloquei, eles não desapareceram, o

tempo deixou seus restos e qualidades para que eu os usasse – minhas palavras empilhadas, meus textos, meus manuscritos, meus amores.

Tive um lampejo de claridade, vi o sentimento no coração das coisas, saí para o jardim chorando.

Vi as flores vermelhas na luz da noite, o sol que se foi, todas elas cresceram em um momento e estavam aguardando paradas no tempo para que o sol do dia viesse e lhes desse...

Flores que num sonho ao anoitecer eu reguei fielmente sem perceber o quanto as amava.

Estou tão só em minha glória – exceto por elas também lá fora – olhei para cima – essas inflorescências dos arbustos vermelhos acenando e despontando na janela à espera em cego amor, suas folhas também sentem esperança e estão com sua parte de cima virada para o céu para receber –

toda a criação aberta para receber – até a terra achatada.

A música desce, assim como desce o pesado ramo cheio de flores, pois assim tem que ser, para continuar vivendo, para continuar até a última gota de alegria.

O mundo conhece o amor no seu seio assim como na flor, o solitário mundo sofredor.

O Pai é piedoso.

O soquete da lâmpada está cruelmente atarrachado ao forro, desde quando a casa foi construída, para receber um conector bem ligado nela e que agora está ligado também à minha vitrola...

A porta do armário está aberta para mim, lá onde a deixei, e já que a deixei aberta, continuou graciosamente aberta.

A cozinha não tem porta, o buraco que está lá me aceitará se eu quiser entrar na cozinha.

Lembro-me da primeira vez que fui fodido, HP graciosamente me desvirginou, [1] eu estava no cais de Provincetown, 23 anos, alegre, exaltado com a esperança do Pai, a porta do ventre estava aberta para aceitar-me se eu quisesse entrar.

Há tomadas de eletricidade ainda não usadas por toda a casa, se eu precisar delas.

A porta da cozinha está aberta para deixar o ar entrar...

O telefone – é triste contar – largado no chão – não tenho dinheiro para ligá-lo –

Quero que as pessoas se inclinem ao ver-me e digam que ele recebeu o dom da poesia, ele viu a presença do Criador.

E o Criador me deu um instante da sua presença para satisfazer meu desejo, para que eu não me desiluda no meu anseio de conhecê-lo.

*

Transcription Of Organ Music
The flower in the glass peanut bottle formerly in the
      kitchen crooked to take a place in the light,
the closet door opened, because I used it before, it
      kindly stayed open waiting for me, its owner.

I began to feel my misery in pallet on floor, listening
      to music, my misery, that's why I want to sing.
The room closed down on me, I expected the presence
      of the Creator, I saw my gray painted walls and
      ceiling, they contained my room, they contained
      me
as the sky contained my garden,
I opened my door

      The rambler vine climbed up the cottage post,
the leaves in the night still where the day had placed
them, the animal heads of the flowers where they had
arisen
          to think at the sun

      Can I bring back the words? Will thought of
transcription haze my mental open eye?
      The kindly search for growth, the gracious de-
sire to exist of the flowers, my near ecstasy at existing
among them
      The privilege to witness my existence-you too
must seek the sun…

      My books piled up before me for my use
      waiting in space where I placed them, they
haven't disappeared, time's left its remnants and qual-
ities for me to use—my words piled up, my texts, my
manuscripts, my loves.
      I had a moment of clarity, saw the feeling in
the heart of things, walked out to the garden crying.
      Saw the red blossoms in the night light, sun's
gone, they had all grown, in a moment, and were wait-
ing stopped in time for the day sun to come and give
them…
      Flowers which as in a dream at sunset I watered
faithfully not knowing how much I loved them.
      I am so lonely in my glory—except they too out
there—I looked up—those red bush blossoms beckon-
ing and peering in the window waiting in the blind love,
their leaves too have hope and are upturned top flat
to the sky to receive—all creation open to receive—the
flat earth itself.

      The music descends, as does the tall bending
stalk of the heavy blossom, because it has to, to stay
alive, to continue to the last drop of joy.
      The world knows the love that's in its breast as
in the flower, the suffering lonely world.
      The Father is merciful.

      The light socket is crudely attached to the ceil-
ing, after the house was built, to receive a plug which
sticks in it alright, and serves my phonograph now…

      The closet door is open for me, where I left it,
since I left it open, it has graciously stayed open.
      The kitchen has no door, the hole there will
admit me should I wish to enter the kitchen.
      I remember when I first got laid, H.P. gra-
ciously took my cherry, I sat on the docks of Prov-
incetown, age 23, joyful, elevated in hope with the
Father, the door to the womb was open to admit me
if I wished to enter.

      There are unused electricity plugs all over my
house if I ever needed them.
      The kitchen window is open, to admit air…
      The telephone—sad to relate—sits on the
floor—I haven't had the money to get it connected—

      I want people to bow when they see me and say
he is gifted with poetry, he has seen the presence of
the Creator
      And the Creator gave me a shot of his presence
to gratify my wish, so as not to cheat me of my yearning
for him.

Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
___________
Nota do tradutor
[1] Ginsberg se refere a sua iniciação heterossexual: HP é Helen Parker, primeira mulher com quem transou, em 1950. Provincetown é uma região residencial próxima a Cape Cod, onde Helen morava.


POETAS BEATS & AMIZADES LITERÁRIAS E MUSICAIS

Allen Ginsberg e William Burroughs - foto: Hank O’Neal

Hal Chase, Jack Kerouac, Allen Ginsberg, and William Burroughs in Morningside Heights, New York, 1945

Nicanor Parra, Miguel Grinberg & Allen Ginsberg in Havana, Cuba, February 1965. Photo: Ginsberg Archives

Jack Kerouac, Allen Ginsberg, William Burroughs

Thelonious Monk & Allen Ginsberg, 1963

Allen Ginsberg e Frank O’Hara

Robert Frank & Allen Ginsberg, em 1989 - foto: Raquel Laneri


Peter Orlovsky e Allen Ginsberg, c.1968

Allen Ginsberg, Joe Strummer and Mick Jones. Photo by Hank O'Neal

Bob Dylan e Allen Ginsberg - foto: Ken Regan


Allen Ginsberg reads one of his poems to the assembled crowd in Washington Square Park in this August 28, 1966 / photo: AP Images



Kaddish

IV

Ó, mãe
o que eu deixei fora
Ó, mãe
o que eu esqueci
Ó, mãe
adeus com um comprido sapato preto
adeus
com o Partido Comunista e uma meia rasgada
adeus
com seis fios de cabelo negro no vão dos teus seios
adeus
com teu velho vestido e uma longa barba negra ao redor da vagina
adeus
com tua barriga flácida
com teu medo de Hitler
com tua boca de histórias sem graça
com teus dedos de bandolins quebrados
com teus braços de gordas varandas de Patterson
com tua barriga de greves e chaminés
com teu queixo de Trotsky e a Guerra Espanhola
com tua voz cantando pelos trabalhadores arrebentados caindo aos pedaços com teu nariz de trepada mal dada com teu nariz de cheiro de picles de Newark
com teus olhos
com teus olhos de Rússia
com teus olhos sem dinheiro
com teus olhos de falsa China
com teus olhos de tia Elanor
com teus olhos de Índia faminta
com teus olhos mijando no parque
com teus olhos de América em plena queda
com teus olhos de fracasso ao piano
com teus olhos dos parentes na Califórnia
com teus olhos de Ma Rainey[1] morrendo numa ambulância
com teus olhos de Checoslováquia atacada por robôs [2]
com teus olhos indo para a aula de pintura à noite em Bronx
com teus olhos de Vovó assassina no horizonte da Escada de Emergência
com teus olhos fugindo nua do apartamento gritando pelo corredor
com teus olhos sendo levada embora por policiais numa ambulância
com teus olhos amarrada na mesa de operação
com teus olhos de pâncreas extraído
com teus olhos de operação de apêndice
com teus olhos de aborto
com teus olhos de ovários arrancados
com teus olhos de eletrochoque
com teus olhos de lobotomia
com teus olhos de divórcio
com teus olhos de ataque
com teus olhos, só
com teus olhos
com teus olhos
com tua Morte cheia de Flores

V

Có có có corvos crocitam no sol branco sobre lápides em Long Island
Senhor Senhor Senhor Naomi debaixo dessa grama metade da minha vida e tão minha quanto sua
Có có seja meu olho sepultado no mesmo Solo onde estou postado como Anjo
Senhor Senhor grande Olho que mira Tudo e se move numa nuvem negra
có có estranho grito de Seres arremessados ao céu sobre árvores ondeantes
Senhor Senhor Ó, Dominador de gigantes Ultrapassa minha voz num campo ilimitado no Sheol[3]
Có có o chamado do Tempo solto do chão e lançado por um momento no universo
Senhor Senhor um eco no céu o vento atravessa folhas dilaceradas o troar da memória
có có os anos todos meu nascimento um sonho có có Nova York o ônibus o sapato partido a enorme escola có có tudo Visões do Senhor
Senhor Senhor Senhor có có có Senhor Senhor Senhor có có có Senhor NY, 1959
- Allen Ginsberg, no livro 'Uivo, Kaddish e outros poemas'  [tradução, seleção e notas de Claudio Willer]. Coleção L&PM Pocket. Porto Alegre: L&PM, 2010. 
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Nota de Claudio Willer:
[1] Ma Rainey – a grande cantora de jazz da primeira metade do século.
[2] Checoslováquia atacada por robôs – imagem por associação livre, pois a palavra robô foi inventada por um escritor checoeslovaco, Karel Kapek, precursor da ficção científica.
[3] Sheol – território da morte, equivalente hebraico do Hades grego.


Allen Ginsberg - foto: Laurence Agron/Dreamstime


MAIS SOBRE ALLEN GINSBERG


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COMO CITAR:
FENSKE, Elfi Kürten
. (pesquisa, seleção, edição e organização). Allen Ginsberg - a saga de um poeta, expoente da geração Beat. In: Templo Cultural Delfos, fevereiro/2026. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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:: Página atualizada em 3.2.2026.
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