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Anne Carson - um dialogo entre o clássico e o contemporâneo

Anne Carson - by Don J. Usner


© Pesquisa, seleção, edição e organizaçãoElfi Kürten Fenske

Em memória, publicação dedicada ao meu amigo 
José Alexandre da Silva



Anne Carson (Anne Patricia Carson) nasceu em Toronto, no Canadá, em 21 de junho de 1950. Poeta, ensaísta, helenista, professora de literatura clássica e comparada, tradutora, traduziu para o inglês peças de Eurípides e Sófocles, além de poemas de Safo, e lecionou em universidades como Princeton, McGill e Michigan. 

A escritora canadense, Anne Carson é uma das escritoras mais originais da contemporaneidade e autora de uma obra dedicada a dissolver as fronteiras que separam pesquisa de invenção, criação de crítica e tradução de autoria, construindo uma obra singular, rigorosa e profundamente inventiva. Ao longo da carreira, recebeu prêmios como o Lannan Award, o T. S. Eliot Prize, o Pushcart Prize, o Griffin Trust Award for Excellence in Poetry, além de uma bolsa Guggenheim e o MacArthur Fellowship, o chamado “Genius Award”, mais o prêmio Princesa das Astúrias das Letras

Carson tem alguns livros publicados no Brasil, são eles "O método Albertine" (Jabuticaba, 2017), "Autobiografia do vermelho" (Editora 34, 2021), "Falas curtas(Relicário Edições, 2022)"Eros: o doce-amargo" (Bazar do Tempo, 2022), "Sobre aquilo em que eu mais penso" (Editora 34, 2023) e "A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos" (Bazar do Tempo, 2024). Nas biografias que acompanham seus livros, ela prefere ser definida com a seguinte frase: “Anne Carson nasceu no Canadá e ganha a vida dando aulas de grego antigo”

Anne Carson - poeta, ensaísta, professora de letras clássicas e tradutora | fonte: Vogue Espanha


OBRA DE ANNE CARSON PUBLICADA EM PORTUGUÊS

No Brasil
------ romance em verso e prosa
:: Autobiografia do vermelho: um romance em versos. Anne Carson. [tradução Ismar Tirelli Neto]. São Paulo: Editora 34, 2021.
------ poesia em prosa
:: Falas curtas. Anne Carson. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman; texto de orelha por Vilma Arêas; Capa design de Caroline Gischewski sobre a obra "Ainda que dura - Série de monotipias", dos artistas Aruan Mattos e Flavia Regaldo]. Edição bilíngue. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2022.
-------- ensaios
:: O método Albertine. Anne Carson. [tradução Vilma Arêas e Fernando Guimarães]. São Paulo: Edições Jabuticaba, 2017.
:: Eros: o doce-amargo - um ensaio. Anne Carson. [tradução Julia Raiz; revisão técnica Emanuela Siqueira; projeto gráfico Luciana Facchini]. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2022. 
:: Sobre aquilo em que eu mais penso: ensaios. Anne Carson [organização Sofia Nestrovski e Danilo Hora; tradução Sofia Nestrovski]. São Paulo: Editora 34, 2023.
:: A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos. Anne Carson. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira; projeto gráfico Luciana Facchini]. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2024.

Em Portugal
------ romance em verso e prosa
:: Autobiografia do Vermelho: um romance em versoAnne Carson. [tradução de João Concha e Ricardo Marques]. Colecção Traditore. não (edições), 2020.
------ poesia e ensaios breves
:: Vidro, ironia e Deus. Anne Carson. [tradução de Tatiana Faia; capa a partir de colagem de Ricardo Tiago Moura]. Colecção Traditore. Lisboa: não (edições), 2021.
:: Águalisa (ensaios e poesia) / 'Plainwater'. Anne Carson. [tradução de Rui Cascais Parada; capa a partir de colagem de Ricardo Tiago Moura]. Colecção Traditore. Lisboa: não (edições), 2025.
------ ensaio 
:: A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos. Anne Carson. [tradução de Tatiana Faia]. Colecção Traditore. Lisboa: não (edições), 2019.
:: Eros, amargo e doce, um ensaio. Anne Carson. [tradução de Tatiana Faia]. Colecção Traditore. Lisboa: Edições
70, 2024
------ teatro
:: Antigotriz. Anne Carson [tradução de Isabel Lopes]. Colecção Azulcobalto - teatro - mundo # 011. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2023


Anne Carson - poeta, ensaísta, professora de letras clássicas e tradutora


SELETA DE POEMAS DA POETA CANADENSE ANNE CARSON


Do livro 'Fala Curtas' |  Anne Carson

 “Falas curtas” é composto por uma série de poemas em prosa trazidos por uma voz ao mesmo tempo altruísta e indireta. Uma voz profundamente pessoal, mas também difícil de desvendar. Estes poemas chegam como uma luz em um quarto escuro e, como na maioria dos livros de Anne Carson, remetem à história registrada, pedindo para ver entre as rachaduras dos fatos um novo tipo de verdade. De fato, os poemas olham cada um para um lado (Homo Sapiens, Gueixas, Brigitte Bardot, Chuva, Leitura, Gertrude Stein, Ovídio no exílio, Sylvia Plath e muitos outros), para entender como aquela pessoa, lugar, coisa, situação foi empurrada para outra. Mas, no centro deste livro está também um chamado de volta ao leitor. Algo que abre uma necessidade de resposta; uma necessidade de compor entre as rachaduras deixadas pelas palavras.


"Fala Curta Sobre Le Bonheur D'Etre Bien Aimée"
Dia após dia eu penso em você assim que acordo.
Alguém distribuiu gritos de aves pelo
ar como se fossem pedras preciosas.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

Fala Curta Sobre as Esperanças
Espero em breve viver numa casa toda 
de borracha. Imaginem como seria fácil se deslocar 
de um cômodo a outro! Um bom pulo e já 
chegamos. Um amigo meu teve as mãos derretidas 
por uma bomba incendiária durante a guerra.

Agora, mais uma vez, ele vai aprender a 
passar adiante o pão na hora do jantar. 
Aprender é viver. Aliás, estou querendo convidá-lo hoje à noite. 
Aprender tem o mesmo gosto da vida. 
Ele diz coisas assim.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

Fala Curta Sobre Destinos de Viagem
Viajei até um lugar em ruínas. 
Havia três portões escancarados 
e uma cerca quebrada. 
Não eram escombros de nada em especial. 
Um lugar chegou ali e se espatifou. 
Depois disso ficou sendo um lugar em ruínas.
 A luz batia nele.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre o Hedonismo"
A beleza me deixa sem esperança. Nem 
pergunto mais por que, só quero ir embora. 
Quando olho para a cidade de Paris me dá 
vontade de enlaçá-la com as pernas. Quando 
vejo você dançar sinto uma imensidão impiedosa,
como um marujo no meio de uma 
calmaria. Desejos redondos feito pêssegos 
brotam em mim a noite inteira, já não colho 
mais o que cai.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre Refúgios"
Você pode escrever na parede com um coração de 
peixe por causa do fósforo que eles comem. 
Há choupanas como esta rio abaixo ao longo das 
margens. Escrevo isto para errar o máximo possível
com você. Troque a porta quando sair, está escrito.
Agora me diga você o quanto isso está errado, por 
quanto tempo o brilho perdura. Diga.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§ 

"Fala Curta Sobre Van Gogh
Eu bebo para entender o céu amarelo 
o enorme céu amarelo, dizia Van Gogh. 
Quando olhava o mundo enxergava os pregos 
que prendem as cores às coisas 
e via a dor dos pregos.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre a Leitura"
Alguns pais detestam ler mas
adoram levar a família em viagem. 
Alguns filhos detestam viagens mas adoram ler. 
Engraçado como é frequente se encontrarem 
no mesmo automóvel. 
Vislumbrei os estupendos ombros nitidamente definidos das Rochosas 
por entre parágrafos de Madame Bovary. 
Sombras de nuvens percorriam lânguidas o imenso pescoço de pedra, 
delineavam os flancos plantados de abetos. 
Desde então não posso ver pêlos em carne feminina sem me perguntar: Decíduos.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre a Minha Tarefa"
Minha tarefa é carregar os fardos secretos desse mundo. 
As pessoas assistem curiosas. 
Ontem de manhã quando o sol nasceu, por exemplo, 
vocês poderiam me ver no quebra-mar com uma carga de gaze. 
Também carrego ideias despropositadas e pecados em geral, 
ou qualquer ação infeliz que tenha cabido a vocês nesta hora. 
Podem acreditar. 
O animal que trota 
pode restaurar o vermelho
dos corações vermelhos.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre Quem Você É"
Quero saber quem você é. Falam de uma voz 
clamando no deserto. De fora a fora do Antigo
Testamento uma voz, que não é a voz de Deus 
mas sabe o que passa pela cabeça de Deus, se 
faz ouvir. Enquanto espero, você podia me 
fazer um favor. Quem é você?
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§


"Fala Curta Sobre a Sensação
na Decolagem do Avião"
Sabe, eu fico pensando, podia ser o amor 
correndo na direção da minha vida com os 
braços para cima berrando vamos comprar 
é uma pechincha!
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre Andar Para Trás"
Minha mãe nos proibia de andar de costas. 
É assim que andam os mortos, ela dizia. 
De onde terá tirado essa ideia? 
Talvez de uma tradução ruim. 
Os mortos, afinal, não andam para trás, mas andam atrás de nós. 
Não têm pulmões e não podem nos chamar, 
mas adoraríamos que nos virássemos. 
São vítimas de amor, muitos deles.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022
 

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Anne Cason - foto GTRES



Do livro  'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos' |  Anne Carson 

A beleza do marido” é um ensaio sobre a ideia do poeta John Keats de que beleza é verdade, e também a história de um casamento contada em vinte e nove tangos. Um tango – assim como um casamento – é algo que você precisa dançar até o fim.

Anne Carson, poeta e ensaísta premiada, além de uma das mais inventivas autoras da atualidade, faz desta obra um fascinante exercício de linguagem em que acompanhamos, a partir de cenas eróticas, comoventes, dolorosas e cômicas, um casamento que desmorona.

Somente Carson, grande especialista da literatura grega clássica, e que tem atualizado a leitura das obras do período, poderia criar um livro em que o mais antigo dos temas líricos, o amor, ganhasse uma abordagem tão inovadora e contundente.

Com “A beleza do marido”  Anne Carson se tornou a primeira mulher a receber o prestigiado prêmio T.S. Eliot, em 2002.


VII. Era apenas uma lavação de roupa suja de noite as vogais estalando no varal quando a mãe disse que som é esse
Poetas (tenha generosidade) preferem ocultar a verdade sob
estratos de ironia
porque essa é a aparência da verdade: tem camadas e é esquiva.
Ele era um poeta? Sim e não.

Suas cartas, concordamos, eram altamente poéticas. Elas caíram
na minha vida
feito pólen e tingiram tudo. Eu escondia as cartas de minha mãe
mas ela sempre soube.

Amada, misericordiosa
você escreve mas
não vem até mim. Essa minha mãe não leu.

Rabinos compararam a Torá ao sexo limitado da gazela
para quem o marido é toda vez
como a primeira vez. Essa minha mãe não leu.

Nesse caso aqui ele precisa estimulá-la.
Nesse caso aqui ele não precisa estimulá-la.
Não há dificuldade [veja a ilustração]. Essa ai de mim minha mãe não leu.

Se é verdade que em nossa época estamos testemunhando a
agonia do raciocínio sexual
então esse homem era uma “daquelas máquinas originais”
que leva os dispositivos libidinais a uma nova transparência.

Minha mãe se opôs a ele como a produção se opõe à sedução.
Quando me recusei a mudar de escola ela olhou para meu pai.
Em um ano nos mudamos para outra cidade

e é claro que a distância não fez diferença, pois afinal ele estava
no auge da escrita de cartas.
Sigilo é um hábito precoce, “chantagem da profunda” é uma lei
molecular.
Vamos dar uma olhada nisso.

Repressão diz mais sobre sexo do que qualquer outra forma de discurso
ou assim sustentam os especialistas modernos. Como uma
pessoa
consegue ter poder sobre a outra? é uma pergunta algébrica
você costumava dizer. “Desejo em dobro é amor e amor em
dobro é loucura.”
Loucura em dobro é casamento
eu acrescentei
quando o corrosivo era tesouro, em intenção de fazer disso
regra de ouro
- Anne Carson, no livro 'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos'. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira]. Bazar do Tempo, 2024.

§§

XIV. Tateando para calcular as dimensões a princípio você acha que é pedra depois tinta ou água preta onde a mão mergulha depois uma tigela de outro lugar de onde você puxa não tem mais mão  
Hoje eu não ganhei. Mas quem sabe amanhã,
Ele diria para si mesmo ao descer as escadas,
Logo ele ganhou.

Ainda bem porque na fumaça da sala ele se viu apostando
a fazenda do avô (que nem era dele)
e quarenta mil em dinheiro vivo (que eram dele).

Ah para contar à ela imediatamente ele saiu rebatendo pela calçada
até o orelhão mais próximo, a chuva das 5 da manhã saraivando
no pescoço.
Alô.
A voz dela saiu cortada. Onde você estava ontem à noite.
O temor rasga seu ardor.
Ah não

ele consegue ouvir ela escolher agora outra flecha da sua
pequena alijava
e a raiva cresce feito árvores na voz dela segurando
o coração dele no alto.

Só me sinto limpo ele diz de repente quando acordo ao seu lado.
A sedução da força vem de baixo.
Com um dedo
o rei do inferno escreve as iniciais dela no vidro como se fossem
coisas escaldadas.
É na dor visceral que a lenda
do marido brilha, canta.
- Anne Carson, no livro 'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos'. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira]. Bazar do Tempo, 2024.

§§

XX. E assim a porta do corredor se fecha novamente e todo o barulho desaparece  
No esforço de encontrar um caminho entre os conteúdos da
memória (enfatiza Aristóteles)
é útil um princípio de associação –
“passando rapidamente de um passo ao próximo.
Por exemplo de leite para branco,
de branco para ar,
de ar para umidade,
depois recorda-se do outono supondo que se esteja tentando
recordar daquela estação”.
Ou supondo,
cara pessoa que me lê,
que você esteja tentando recordar não do outono mas da liberdade,
um princípio de liberdade
que existia entre duas pessoas, pequenos e selvagens
como são os princípios – mas quais são as regras pra isso?
Como ele diz,
a loucura pode estar na moda.
Passe logo rapidamente
de um passo próximo,
por exemplo do mamilo ao membro
do membro ao quarto de hotel,
do quarto de hotel
à frase encontrada na carta que ele escreveu no táxi um dia ele
passou
pela esposa
andando
do outro lado da rua e ela nem o viu, ela estava –
tão engenhosas as providências do estado de fluxo que
chamamos de
nossa história moral não são elas tão precisas quanto proposições
matemáticas com a exceção de que são escritas em água –
a caminho do tribunal
para dar entrada nos papéis do divórcio, uma frase do tipo
que gosto tinha as suas pernas.
Depois disso por meio desta aptidão divina, a “memória das
palavras e coisas”,
recorda-se
da liberdade.
Isto sou eu? clama a alma apressada.
Pequena alma, pobre animal incerto:
cuidado com essa invenção de “tudo na vida é aprendizado”
como diz Aristóteles, Aristóteles aquele
que não tinha marido,
raramente menciona a beleza
e é provável que passava rápido de punho a escravizada
enquanto tentava recordar a palavra esposa.
- Anne Carson, no livro 'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos'. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira]. Bazar do Tempo, 2024.

§§

XXIV. E ajoelhada à beira do mar transparente moldarei para mim um novo coração de sal e lama
Um esposa está no domínio do ser.
Fácil dizer Por que não desistir?
Mas vamos supor que seu marido e uma certa mulher sombria
gostem de se encontrar em um bar logo depois do almoço.
Amar não é condicional.
Viver é muito condicional.
A esposa se posiciona em uma varanda fechada do outro lado da rua.
Assiste à mulher sombria
estender a mão para tocar a têmpora dele como se filtrasse algo.
Assiste a ele
se dobrar levemente em direção à mulher e voltar. Estão sérios.
A seriedade dos dois deixa ela devastada.
Pessoas que conseguem ficar sérias juntas, é profundo.
Tem uma garrafa de água na mesa entre eles
e dois copos.
Nenhum inebriante é necessário!
Quando foi que ele desenvolveu
esse novo paladar puritano?
Um navio gelado
deixa o porto em algum lugar bem dentro da esposa
e desliza rumo ao horizonte cinza plano,

nem pássaro nem sopro à vista.
- Anne Carson, no livro 'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos'. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira]. Bazar do Tempo, 2024.

§§

Marido: exercício final de campo recorte os três retângulos e os reorganize para que os dois comandantes estejam montados nos dois cavalos
Dói estar aqui
“Você é aquela que escapou.”
Contar uma história sem contá-la –
querida sombra, escrevi isso lentamente.
Os começos eram dela!
Meus os fins.
Mas tudo volta
para uma lua azul de junho
e uma noite maculada como diriam os poetas.
Alguns tangos fingem ser sobre mulheres mas olha isso.
Quem é que você vê
refletindo pequeno
em cada lágrima dela.
Olha pra mim virando essa página agora desse jeito você pensa
que é você.
- Anne Carson, no livro 'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos'. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira]. Bazar do Tempo, 2024.

§§


Anne Carson - foto: Einar Falur Ingolfsson


FORTUNA CRÍTICA DE ANNE CARSON

ANNE CARSON. Atenção ao homem cuja caligrafia balança como um junco ao vento, por Anne Carson. [Tradução de Giovani T. Kurz]. In: Editora Âyiné, 14 de março 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ANNE CARSON. Antropologia da Água, de Anne Carson. Tradução de Thaís Medeiros e Wallace Masuko. In: Rébus, 23 jun. 2021. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ANNE CARSON. El ser poético. In: Barcelona Metròpolis, n. 137, ene 26. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
ARÊAS, Vilma. Anne Carson: Rastros, vestígios e dragões venenosos. In: Acervo Pernambuco, s/data. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ARGOLO, André. [Anne Carson] Confundir para esclarecer. In: Rascunho, 1.9.2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026) 
AUAD, Pedro Henrique Trindade Kalil. Trauma e História em Nox, de Anne Carson. In: XIV simpósio nacional de letras e linguística e IV simpósio internacional de letras e linguística., 2013, Uberlândia. Anais do Silel. Uberlândia: EDUFU, 2013. v. 3. p. 1-6. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
BALBI, Henrique. De Homero a Brigitte Bardot, uma insólita mistura humana. In: O Globo, 21.10.2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
BAPTISTA NETTO, Irinêo. Leia "Falas curtas", de Anne Carson, sem tentar entender o livro. In: Plural Jornal, 6.3.2023. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
CALCAGNO, Victor Braga. O método Carson. In: ALEA - Estudos Neolatinos, Rio de Janeiro - v. 26, n. 3,   set/dez. 2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
CARVALHO, Bernardo. Ensaísmo de Anne Carson é original e inclassificável. In: Folha de S.Paulo, 11 de ago. de 2023. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
CONTI, Mario Sergio. Anne Carson parte de mitos gregos e surtos líricos para fazer poesia fraturada. In: Folha de S.Paulo, 19.11.2021. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
COSTA, Benedito. Anne Carson e seu labirinto mítico. In: Plural, 12 de junho 2022. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024)
DINIZ, Ligia Gonçalves. Anne Carson atualiza a leitura do amor como guerra e baratina leitores. In: Folha de S.Paulo, Ilustrada, 14 de julho 2024. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026)
DWYER, Kate. Atirando-se no escuro”: um diálogo com Anne Carson [entrevista]. Tradução de Gustavo de Almeida Nogueira. In: revisra Piparote, 16.5.2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ESCAMANDRO. Anne Carson, por Steffano Lucchini. [poesia/tradução]. In: Escamandro, 26.9.2018. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
FAIA, Tatiana. Anne Carson – Sobre aquilo em que eu mais penso (Ed.34).. [resenha]. In: Revista Piparote, 18 de julho de 2023. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
FAIA, Tatiana. Eros, Amargo e Doce de Anne Carson (Edições 70, 2024). In: Enfermaria6, 25.11.2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
GONÇALVES, Rodrigo Tadeu; NASCIMENTO, Julia Raiz do.. A tradutora e o diálogo intermidiático em Antigonick de Anne Carson. In. Clássica (São Paulo), v. 32, p. 79-91, 2019. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
GONZAGA, Pedro. Poesia em Casa – ‘Eros, o agridoce’, de Anne Carson. In: Estado da Arte, Estadão, 25.2.2018. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024)
HOLDEFER, Camila von. Na Literatura de Anne Carson, um ato contínuo de tolerância. In: O Globo, 12 fev. 2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
KLEIN, Kelvin Falcão. Falas curtas. [crítica]. In: revista Continente, 5 de Outubro de 2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
LAMEGO, Cláudia. “Lírica como crítica, erudita como poeta”: a experiência doce e escorregadia de ler Anne Carson. In: Bazar do Tempo, s/data. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
LINS, Thais Arantes. Um encontro do/no acaso: linhas móveis entre o cinema de Dziga Vertov e a literatura de Anne Carson [Dissertação Mestrado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade]. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-Rio, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
LOS LIBROS. [entrevista]. Anne Carson: "Con mi obra busco que la gente piense, me da igual qué". In: El Mundo / La Lectura, 13.10.2023. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
MACIEL JUNIOR, Sergio; DONADA, Jaqueline Bohn; SOUZA, Gabriela de.. O luto vaga os vãos do texto: Antigonick de Carson e a colaboração criativa do contemporâneo sobre o clássico. In: Revista de Letras, v. 27, p. 139-153, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
MACIEL JUNIOR, Sergio. 3 traduções para o ‘task of the translator’ da Antigonick de Anne Carson. In: Escamandro, 13.1.2017. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
MARQUES, Vinicius Fialho. Tradução e catástrofe: exercícios de tradução a partir de “variações no direito de permanecer em silêncio”, de Anne Carson. [Trabalho de conclusão de graduação em letras]. Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026) 
MARTINS, Helena. Paul Valéry e Anne Carson: em torno do que não existe. In: O que nos faz pensar, Rio de Janeiro, v. 31, n. 53, p. 220-238, jul-dez.2023. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
MARTINS, Helena. Escrever de volta: Anne Carson, Emily Dickinson. In: Remate de Males, Campinas/SP, v.38, n.2, pp. 703-725, jul./dez. 2018. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
MARTINS, Helena. Um poema como nota de tradução n’As bacantes de Anne Carson. In:  Cadernos de Tradução 44 (1) • 2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
MARTINS, Helena; BRITTO, Paulo Henriques. Um poema como nota de tradução n’As bacantes de Anne Carson. In: Cadernos de Tradução, Universidade Federal de Santa Catarina, v. 44, n. 1, n. p., 2024. 
MASSARONI, Júlia Ferreira. “The glass essay”: um espelho entre duas autoras. (TCC - graduação em literatura). Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 2020. In: Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
MEDEIROS, Thais; MASUKO, Wallace V.. Uma leitura de Meseta, de Anne Carson. In: Revista Rosa, s/data. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
MENDES, Ana Vitória Vanzin. "United by marriage, chained by nationality": a condição jurídica feminina e a nacionalidade a partir das variações na regulação da aquisição, manutenção e perda forçada do status nacional às mulheres por meio da superação de discursos e práticas consuetudinárias (1804 - 1957). [Dissertação Mestrado em Direito]. Universidade Federal de Santa Catarina 3 PPGD/UFSC, 2024. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
MEXIA, Pedro. Livros: as histórias sem fim de Anne Carson. In: Expresso, 2 de outubro 2025. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
MOREIRA, Inês Cardoso Martins. Tradução e comentário: Anne Carson e seus espelhamentos ensaísticos às traduções de tragédias gregas. In: Urdimento, Florianópolis, v.2, n.35, p. 249-262, ago/set 2019. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
MOREIRA, Inês Cardoso Martins. Antigonick e o espaço textual da performance. In: RUIZ, Giselle (org.). Articulações. Ensaios sobre corpo e performance. Prefácio de Angela Leite Lopes. Rio de Janeiro: 7letras, 2015. p.117-132.
MOITA, João. [tradução]. «Ensaio sobre aquilo em que mais penso», Anne Carson. Tradução de João Moita / De Men in the Off Hours (2001). In: Enfermaria6, 2.12.2013. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026) 
NASCIMENTO, Julia Raiz do.. Que tipo de withness comtitude seria essa? Traduzindo os ensaios de Anne Carson. [Tese Doutorado em Letras]. Universidade Federal do Paraná, UFPR, 2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
NASCIMENTO, Julia Raiz. Anne Carson e A Verdade Sobre Deus. In: Belas Infiéis, Brasília, v. 9, n. 2, p. 281-287, 2020. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
NEIVA, Leonardo. Eros, o Doce-Amargo [trecho de livro]. In: Gama Revista, 23 de Dezembro de 2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
NESTROVSKI, Sofia. Exercícios de apagamento - Com inspiração em Marcel Proust, obra inaugura o catálogo de livros da canadense Anne Carson no Brasil. In: Quatro Cinco Um, 7nov2018 | Edição #1 mai.2017. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
PENSAR. Primeira leitura: 'Falas curtas', de Anne Carson. In: Estado de Minas, 22.9.2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
PESSOA, Matheus Ely Cordeiro de Lima Vieira. No apagar das luzes da 'antigonick' de Anne Carson: considerações sobre retraduções e traduções (in)diretas. [Monografia Graduação em Letras - Tradução Inglês]. Universidade de Brasília, UnB, 2019. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026) 
PERELLO, Mariana. Um mapa peregrino para Anne Carson: algumas entradas em água corrente [Mestrado em Literatura, cultura e contemporaneidade]. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-Rio, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
PERELLO, Mariana. A minha tradução, a antropologia dela: deixando marcas livres em Anne Carson. In: Tradução em Revista (online), v. 2025, p. 208-225, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
PIANA, Leonardo. Anne Carson ganha novas edições no Brasil. In: Estadão, 17.12.2022. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026) 
POLONEA, Ashley. Aprender a se afogar: traduzir "Mimnermos: The Brainsex Paintings", de Anne Carson [Mestrado em Estudos da Linguagem]. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-Rio, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
POLONEA, Ashley. Traduzir o transe no tríptico literário Mimnermos: The Brainsex Paintings, de Anne Carson. In: Tradução em Revista (online), v. 2025, p. 226-246, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
POLONEA, Ashley. A tradução como catástrofe em Anne Carson. In: PUC Rio, 2022. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
QUEIROZ, Alberto de.. Tese banal - "O método Albertine", de Anne Carson, é um malogrado esforço de atrair o leitor para a obra de Proust. In: Rascunho, edição 206, junho de 2017. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
RABELO, Beatriz. Conheça Anne Carson, escritora ensaísta que reinventa o trágico e experimenta com fragmentos. In: Diário do Nordeste, 21 de Junho de 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
RAIZ, Julia. "Me sinto em casa debaixo d'água": um guia pela obra de Anne Carson. In: Acervo Pernambuco, s/data. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
RAMOS, Carmel. Entrevista: Irene Danowski Viveiros de Castro sobre Anne Carson. In: Enciclopédia Mulheres na Filosofia, 15 de out. de 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ROS, Cristina. ‘Norma enrevesada’, de Anne Carson: el nuevo libro de la escritora inclasificable que dialoga entre lo clásico y lo contemporâneo. In: El Diário, 6.6.2025. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
RUBIM, Mariel Corrêa Martins. A 'gerioneida' De estesícoro adaptada e expandida por Anne Carson em autobiography of red [Dissertação Mestrado em Letras]. Universidade Federal do Paraná, UFPR, 2020. Disponível no linklink. (acessado em 30.1.2026)
SALDANHA, Rafael. O problema do amor e da distância em Anne Carson. In: Veritas (Porto Alegre),  v. 66 n. 1, 2021. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
SALDANHA, Rafael. The Problem of Love and Distance in Anne Carson. In: Crisis and Critique, v. 9, p. 400-422, 2021.
SILVA, Amaury. O caleidoscópio de Anne Carson. In: Jornal da Cidade de GV, Governador Valadares, p. 5 - 5, 4 ago. 2024.
TAVARES, Otávio Guimarães. Anne Carson tradutora de Antígona: performance e tradução de um grito. In: Anuário de Literatura, v. 25, p. 119-138, 2020. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
TRADUÇÃO. Sobre aquilo em que mais penso: ensaios, de Anne Carson . tradução de Fernanda Drummond. In: revisa A!, 19 de fevereiro 2016. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
VIVEIROS DE CASTRO, Irene. Figures d'Eros: étude de la relation entre Eros, matière et métaphore [Mestrado em Philosophies]. Université Toulouse Jean Jaurès, UT2J, França, 2021. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026).
VIVEIROS DE CASTRO, Irene. Anne Carson(1950). [verbete]. In: Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas: Mulheres na Filosofia, v. 7, p. 1-18, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
VIVEIROS DE CASTRO, Irene. Transbordamentos: a feminidade equívoca de Anne Carson. In: Eutomia, Recife, v.1, n.36. p.33-53, dez. 2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026) 
ZACCA FERNANDES, Rafael. O ardil de eros: o desejo em Anne Carson. O que nos faz pensar, Rio de Janeiro, v. 30, n. 51, p. 140-167, jan.-jun. 2022. Disponível no link. e link (acessado em 30.1.2026)
ZACCA FERNANDES, Rafael. Erudição e amadorismo: notas sobre o ensaio e o poema-ensaio em Anne Carson. In:  Alea: Estudos Neolatinos - v. 26, p. 1-17, 2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ZACCA FERNANDES, Rafael. Tradução como ensaio: Algumas notas sobre Antigonick de Anne Carson. In: Viso - Cadernos de Estética Aplicada, v. 19, p. 364-389, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
30.1.2026)
ZACCA FERNANDES, Rafael. Os arquivos do luto e as lições patéticas: uma educação sentimental em Anne Carson. In: Elyra - Revista da Rede Internacional Lyracompoetics, p. 265-283, 2021. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)

ADJETIVOS
O que é um adjetivo? Substantivos nomeiam o mundo. Verbos ativam os nomes. Adjetivos vêm de outro lugar. A palavra adjetivo (epitheton em grego) é ela própria um adjetivo que significa “colocado sobre", "acrescentado”, anexado”, “importado", "estrangeiro”. Adjetivos parecem acréscimos bastante inocentes, mas vejamos. Esses pequenos mecanismos importados estão encarregados de vincular todas as coisas do mundo ao seu lugar no particular. São os trincos do ser.
- Anne Carson, no livro "Autobiografia do vermelho: um romance em versos". [tradução Ismar Tirelli Neto]. Editora 34, 2021, p. 10.

Anne Cason - foto: Miquel Taverna



ADAPTAÇÃO PARA O TEATRO | BRASIL

Peças de teatro
Espetáculo: Autobiografia do Vermelho | Com Bianca Comparato. Direção Daniela Thomas / Baseado no romance em verso de Anne Carson | Ano: 2026

 
Anne Cason - foto: Toni Albir / EFE


«Ensaio sobre aquilo em que mais penso», Anne Carson
Ensaio 5

O erro.
E suas emoções.
Na iminência do erro, uma condição para o medo.
No meio do erro, um estado de tolice e derrota.
A percepção de termos errado traz vergonha e remorso.
Ou não?

Vamos analisar.
Muita gente, por exemplo Aristóteles, acha que o erro
é um acontecimento mental interessante e valioso.
Na discussão sobre metáforas de sua Retórica
Aristóteles diz que há três tipos de palavras.
As estranhas, as comuns e as metafóricas.

"As palavras estranhas simplesmente nos confundem;
as palavras comuns transmitem o que já sabemos;
mas com metáforas podemos alcançar algo novo e fresco"
(Retórica, 1410b10-3)
No que consiste o frescor da metáfora?
Aristóteles diz que a metáfora faz com que a mente sinta a si mesma

no ato de se enganar.
Ele visualiza a mente seguindo pela superfície plana da língua comum 

quando de repente
a superfície se rompe ou se complica.
Surge o inesperado.

Primeiro parece estranho, contraditório ou uma coisa errada.
E então faz sentido.
É neste momento que, segundo Aristóteles,
a mente vira para si mesma e diz:
“É tão verdadeiro, e ainda assim eu me enganei!”
Com os enganos verdadeiros da metáfora, pode-se aprender uma lição.

Não só que as coisas não são o que parecem,
e por isso nos enganamos sobre elas,
mas que também esse engano é valioso.
Aferre-se a isso, diz Aristóteles,
há muito o que ver e sentir por aqui.
As metáforas ensinam a mente

a gostar do erro
e a aprender
com a justaposição do que vem e o que não vem ao caso.
Existe um provérbio chinês que diz:
uma pincelada não faz dois caracteres.
E ainda assim,

é exatamente isso que faz um bom engano.
Aqui vai um exemplo.
É um fragmento de um antigo poema grego
que contém um erro de aritmética.
O poeta parece não saber
que 2+2=4.

Álcaman fragmento 20:
[?] fez três estações, verão
e inverno e a terceira, outono,
e a quarta, primavera, quando
tudo floresce mas de comer o bastante não há.
 
Álcman viveu em Esparta no século VII a.C.
Ora, Esparta era um lugar pobre
e é pouco provável
que Álcman levasse uma vida opulenta ou saciada.
Este fato é o pano de fundo de suas observações
que levam à fome.

A fome sempre
parece um engano.
Álcman nos faz sentir esse engano
com ele
através do emprego eficaz de um erro de cálculo.
Para um espartano pobre cuja

despensa está vazia
ao fim do inverno –
a primavera chega, enfim,
como uma reflexão tardia da economia natural,
quarto elemento de uma série de três,
tornando instável sua aritmética.

E encavalgando os seus versos.
O poema de Álcman se interrompe a meio do caminho de um pé iâmbico
sem explicar
de onde a primavera veio
ou por que os números não nos ajudam
a melhor controlar o real

Gosto de três coisas no poema de Álcman.
A primeira, ele é pequeno,
leve, e mais que perfeitamente econômico.
A segunda, parece sugerir tons como o verde-claro sem nunca os nomear.

A terceira é que ele consegue pôr em jogo grandes questões metafísicas (como Quem fez o mundo) sem análises patentes. Vocês viram que o verbo "fez" no primeiro verso
não tem sujeito: [?]

É muito incomum em grego um verbo sem sujeito; na verdade, é um erro de gramática. Os filólogos rigorosos lhes dirão que esse erro é apenas um acidente da transmissão, que o poema tal como nos chegou

é certamente um fragmento de um texto maior, e que Álcman, muito provavelmente, nomeou, sim, o agente da criação nos versos que precedem estes que temos.
Pois é bem possível.

Mas vocês bem sabem que o objetivo maior da filologia
é reduzir todo prazer textual
a um acidente histórico.
E fico desconfortável quando qualquer pessoa afirma saber exatamente o que um poeta quis dizer.
Então deixemos o ponto de interrogação

no começo do poema
e admiremos a coragem de Álcman de encarar o que há entre os colchetes.
A quarta coisa de que eu gosto
no poema de Álcman
é a impressão que ele passa

de ter deixado a verdade escapar sem querer.
Tantos poetas aspiram a esse tom de lucidez desprevenida mas poucos a alcançam com tal simplicidade.
É claro que sua simplicidade é falsa.
Não tem nada de simples ali, Álcman

é um inventor exímio
ou o que Aristóteles chamaria de "imitador"
da realidade.
Imitação (mimesis em grego)
é o nome genérico que Aristóteles dá aos enganos verdadeiros da poesia.
O que eu gosto nesse termo

é a facilidade com que ele aceita
que aquilo a que nos prestamos quando fazemos poemas é
o erro,
a criação obstinada do erro,
as deliberadas difusão e complicação de enganos,
a partir das quais poderá surgir
o inesperado.

Assim um poeta como Álcman põe de lado medo, ansiedade, vergonha, remorso e tantas outras emoções bestas associadas ao cometimento de enganos

para trazer o quê da questão.
O quê da questão para os humanos é a imperfeição.

Álcman quebra as regras da aritmética, compromete a gramática e bagunça a métrica de seu verso para nos enredar nessa questão. No final do poema, o fato permanece, e é provável que a fome de Álcman também.

Mas algo mudou no quociente das nossas expectativas.
Pois ao fazer com que elas se enganassem,
Álcman aperfeiçoou algo.
Na verdade, fez
algo mais do que aperfeiçoar.
E com uma só pincelada.

- Anne Carson, no livro "Sobre aquilo em que mais penso: ensaios". [tradução Sofia Nestrovski]. Editora 34, 2023.



© Pesquisa, seleção, edição e organizaçãoElfi Kürten Fenske


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COMO CITAR:
FENSKE, Elfi Kürten
. (pesquisa, seleção, edição e organização). Anne Carson - um dialogo entre o clássico e o contemporâneo. In: Templo Cultural Delfos, fevereiro/2026. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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:: Página atualizada em 1.2.2026.
:: Página original de FEVEREIRO/2026


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Kâlidâsa - poeta e dramaturgo sânscrito clássico

 
  •  Kâlidâsa - poeta e dramaturgo sânscrito clássico

Kâlidâsa, poeta e dramaturgo que viveu durante o século V, é um dos maiores escritores indianos de todos os tempos. A crítica literária identifica seis livros como genuínos: os dramas Abhijnanashakuntala [O reconhecimento de Shakuntala], Vikramōrvaśīyam [Urvashi ganhou por valor] e Mālavikāgnimitram [Mālavikā and Agnimitra], e os poemas épicos Raghuvaṃśa [Dinastia de Raghu] e Kumārasambhava [Nascimento de Kumara], além do lírico Meghadūta [Mensageiro da nuvem]. A ronda das estações (Ṛtusaṃhāra) é um poema erótico atribuído a Kâlidâsa, e provavelmente foi escrito em sua juventude.



KÂLIDÂSA


  • Kâlidâsa - poeta e dramaturgo sânscrito clássico

OBRA PUBLICADA EM PORTUGUÊS

:: A ronda das estações / Ṛtusaṃhāra. Kālidāsa. tradução Lúcio Cardoso. Coleção Rubáiyát. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944. {miniatura de  Paul Zenker, ilustrações e vinhetas da edição francesa de H. Piazza}
:: Sacuntala de Calidasa e Outras Histórias de Heroísmo e Amor da Antiga Índia [organização João Batista de Mello e Souza]. Coleção Sabedoria e Pensamento. Rio de Janeiro: Ediouro, 1970.

Edição francesa
:: Kâlidâsa - La Ronde Des Saisons. [Texte traduit du Sanscrit par E. Steinilber-Oberlin; Ilustrado, La miniature servant de frontispice a cet ouvrage est de Paul Zenker]. Paris: L'Edition D'Arte, 1925. {Edição de apenas 500 exemplares em papel especial}.

Edição inglesa
:: Sacontalá; or, The fatal ring: an Indian drama. Kālidāsa. [translated from the original sanscrit and pracrit. by sir William Jones]. London: Printed for Edwards, by J. Cooper, 1792. Disponível no link - link. (acessado em 8.3.2024).
 


A ronda das estações (La Ronde Des Saisons) / 'Ṛtusaṃhāra'. Kālidāsa - ilustração Paul Zenker


Kalidasa, poeta e dramaturgo sânscrito clássico, é conhecido como o "Ovidio da India clássica". Autor de alguns dos mais famosos poemas heroicos da Indica antiga, Kalidasa no entanto conservou-se um poeta moderno, quer pelo seu ritmo inigualável, quer pela força e pela beleza das suas imagens. Segundo os hindus, viveu ele no século II antes de Cristo, mas muitos críticos modernos acreditam que sua existência se tenha verificado na primeira metade do século VI, da nossa era.

"Ṛtusaṃhāra" é o título original deste poema, que canta as diversas estações da Índia, numa linguagem única, desde o Verão, o quente e perfumado verão da Índia, até a Primavera e a Estação dos Orvalhos.

Há séculos que este poema conta com admiradores em todos os cantos do mundo, despertando um entusiasmo que nem mesmo seus outros poemas, mais densos e cantando os feitos heroicos de deuses e guerreiros da Índia, conseguiram diminuir. Ao apresentá-lo pois ao público do Brasil, acreditamos estar prestando um real serviço à nossa cultura e em especial àqueles que amam a boa poesia e sabem dela extrair a música preciosa e o suave perfume.

Lúcio Cardoso
Rio, Junho de 1944.

A ronda das estações / 'Ṛtusaṃhāra'. Kālidāsa. tradução Lúcio Cardoso. Coleção Rubáiyát. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944  


'A RONDA DAS ESTAÇÕES' / 'ṚTUSAṂHĀRA' 

            KĀLIDĀSA



O VERÃO

O VERÃO

Ei-la de volta, ó minha bem-amada, * a estação dos calores, o sol queimando como fogo, as mais puras noites de lua, os longos banhos em que os nossos corpos perfuram o espelho das águas, e estes deliciosos fins de dia no ardor apaziguado do amor!

*

*As noites morenas riscadas pelos raios de luar, nosso palácio aberto aos quatro ventos, com suas máquinas para elevar e espalhar as aguas, nossas vestimentas de pedrarias e o sândalo perfumado, ei-los de volta, ó minha bem-amada, segundo teu desejo...

*

*Nosso palácio, como é maravilhoso o seu interior! Um perfume embriagador flutua!... Oh, este vinho puro que estremece sob o hálito da amante! Este encanto, feitiço que o amor abrasa!
Meia-noite! É a hora em que os amantes se abandonam às suas alegrias...

*

*Arde a febre do verão no coração dos homens. Vós sabereis apaziguá-los, ó mulheres! Feiticeiras de formas estuantes apertadas numa túnica de seda, com os seios perfumados a sândalo e presos com fios de pérola, e cuja pesada cabeleira, ao sair do banho, exala perfumes penetrantes! Feiticeiras dos pés avermelhados pela tinta perfumada, pés adoráveis, arqueados sob os anéis de ouro que tilintam e cantam a cada passo, * como o canto do flamingo cor de rosa, e cuja linha conduz os nossos sonhos para o deus que faz sonhar os corações!

*

*No coração de quem não acendem elas o extasiante ardor, estas mulheres que banham os seios no bálsamo de sândalo com suas guirlandas de pérolas misturadas aos frescos jasmins e suas ancas cercadas por fios de ouro?

*

*É o verão. Sobre os seios empinados e os membros lânguidos, cuja epiderme se cobre de gotas de suor, os ligeiros tecidos de Akoça tomaram o lugar das pesadas vestimentas. E que agora cada um escolha sua esposa entre estas mulheres iluminadas pela mocidade!

*

*É o verão. O amor adormecido desperta sob a doce caricia dos leques, que roçam os seios perfumados e ornados de pérolas, entre canções, gorjeios de pássaros e os acordes da viná. Com olhares, sorrisos e zombarias, as moças galantes acendemos os desejos de amor do macho, pelas belas noites iluminadas ao luar.

*

*E enquanto no fundo do palácio os amantes desfalecidos de felicidade descansam sob o clarão lunar, * o deus lua que os contempla * empalidece de vergonha e de amore e a noite também empalidece.

*

**Ao longe, perdido na poeira que se eleva da terra calcinada, o viajante cego chora a esposa querida da qual se acha separado.

*

*Ansiosas, as gazelas torturadas pelo terrível calor se reúnem * e dizem: "Teremos um pouco d'agua na clareira do bosque?" Pois elas perceberam uma nuvem ao longe, sobre o céu, como uma sombra sobre uma face.

*

*A serpente naja, queimada pelo sol, se arrasta sufocada na poeira ar- dente do caminho e timidamente, cabeça baixa, esquecendo as contendas do passado, vem deitar-se à sombra do pavão; e o pavão prostrado sob o sol, como a vítima de um sacrifício, deixa a serpente esconder a cabeça sob a esplêndida cauda que descerra.

*

**Língua e crina pendendo de modo lamentável, ofegante e arrastando sua sede, o Rei Leão, com o focinho ferido, sem força e sem coragem, renuncia a atacar seu inimigo, o elefante. E o elefante, com presas de marfim, não teme mais o leão; e erra atormentado pela sede amarga, a garganta seca, mendigando um pouco d'agua ao longo dos rios ressecados na fornalha, na poeira, em plena luz! Os javalis em bando, furando com o focinho, mergulham no leito dos tanques eriçados de ervas secas para evitar as queimaduras do sol esplêndido que arde.

*

*Fora do pântano ressecado a rã saltou para junto da serpente naja e veio esconder-se sob sua cauda inchada, como à sombra de um chapéu!

*

*Os búfalos abandonaram seus abrigos expulsos pelo calor e aspiram o ar com o focinho espumante, deixando pender a língua ressecada * e em bandos, exaustos de fadiga, * erram tristemente à procura de uma gota d'agua.

*

*Milhares de pássaros ofegam sobre as árvores despojadas de suas folhas; um macaco extenuado se arrasta sob o espinheiro; uma nuvem de gafanhotos se abateu sobre a última cisterna.

*

*O lago não é mais do que lama revolvida juncada de peixes mortos e de ninfeias ressecadas, * desertada pelos pássaros aquáticos, triturada sob os pés dos elefantes ansiosos.

*

*De repente, das alturas de onde contemplamos a paisagem desolada o espanto nos arrebata: o fogo ateou-se na floresta! Ele queima os botões, os brotos mal nascidos e as folhas secas
que o vento dispersa aos quatro cantos do horizonte.

*

*Em braçadas fumegantes, vermelhas como as flores novas do Koussoumba, ele devora em mistura as árvores e as lianas e os galhos cobertos de botões. O vento em cólera atiça sua raiva. Todo o espaço nada mais é senão um vasto incêndio! *O fogo faz estalar os corpos secos dos bambus, e de eco em eco seu crepitar repercute ao longo dos rochedos. As ervas ardem, a flama avança sem descanso e cerca, e devora os animais selvagens que se reúnem e se precipitam.

*

** Mas é sobretudo na floresta dos algodoeiros que o fogo parece subir até o céu. Primeiro, a chama de ouro serpenteia no fundo oco dos troncos, depois, ela se lança fora da árvore e lambe as folhas que se estorcem.

*

*Então todos os animais fogem do bosque incendiado: o fogo envolve as árvores num círculo infernal. Eis os elefantes, os crocodilos e os leões cobertos de faíscas;  todos fogem em direção aos rios ressecados, ao leito de ilhas pontilhado, todos fogem sem destino, lado a lado, como amigos que enfrentam a morte reconciliados!

*

*Ah! Que a estação quente te seja propícia, com seu cortejo de diamantes, suas noites de prazer sobre os terraços do palácio, seus canteiros de lotus que abrigam uma agua límpida e voluptuosa e sobre ti desçam os raios da lua encantadora!



A ESTAÇÃO DAS CHUVAS


A ESTAÇÃO DAS CHUVAS

Como o elefante no cio, as nuvens avançam, enormes e pejadas de chuvas; avançam como reis no meio dos seus exércitos tumultuosos: e os raios são estandartes que desfraldam e o trovão é o tambor que ressoa.

*

*Avançam e se amontoam as nuvens ora semelhantes às pétalas azul-escuro da flor do lotus, ora semelhantes às tetas cheias das mulheres que amamentam, ora como uma sombria nodoa que se alarga sobre a face do céu.

*

*Então, elas se desmancham em chuvas em chuvas que tombam com um som novo e encantador à alma, em chuvas que esperam depois de meses, agonizantes de sede, os pássaros tchatakas, que bebem as gotas em pleno voo.

*

*Sob os golpes do trovão o viajante se espanta. Como o arco do deus Indra, as nuvens parecem ter os raios como cordas e lançam a geada em flechas assassinas. A terra cobriu-se de cogumelos multicores, desabrochados ainda há pouco, e de ervas novas que cintilam como os raios do lápis lazuli, e, como a mulher adornada de brilhantes, se cobriu de vagalumes, estes luminosos pastores dos deuses.

*

*Os pavões, com as caudas entreabertas tal uma braçada de flores desmanchada, despertam ao apelo do amor e se reúnem como se fossem para a dança, enquanto um enxame de abelhas * tomando por flores suas plumas, lhes distribuem beijos.

*

*Os rios engrossados por ondas impuras, impuras como as prostitutas, transbordaram de suas margens e arrancaram as árvores, e cada vez mais rápidos rolam para o mar.

*

*Os bosques adquiriram um aspecto gracioso por causa dos mil botões que enxameiam sobre as árvores, dos tapetes de ervas tenras e dos caules dos lotus, rasgados pelos dentes das gazelas. 

*

*Uma terna emoção vos surpreende à vista dos tímidos antílopes que espiam dos abrigos, com seus belos olhos de lotus moveis e ingênuos e que aos bandos cobrem as clareiras.

*

*E nas noites negras envolvidas pelas nuvens, apesar do trovão, as mulheres contendo o coração vão aos encontros do amor, pelas veredas iluminadas de relâmpagos. E quando o raio estala, o terror as surpreende nos braços dos amantes, e esquecendo suas disputas, elas se enlaçam neles febrilmente e os apertam.

*

*Mas aquela ali chora a ausência do esposo e desencorajada atira fora as joias, flores e perfumes. De seus belos olhos azulados como ninfeias, gotejam lágrimas que seus lábios bebem, * seus lábios semelhantes ao cálice do bimba.

*

*Um riacho amarelo e lamacento * arrasta a terra, ervas e insetos e se alonga como uma serpente, que ameaça abismar na sua goela profunda, as rãs que o contemplam estupefatas.

*

*As abelhas, abandonando os ramalhetes de lotus, se lançam tontas de amor sobre as plumas do pavão, crendo distinguir novos lotus e causando ao zumbir uma estranha música.

*

*Os elefantes dos bosques correm em bandos rumorosos. O céu vibra em delírio: e também os elefantes enlouquecem. Uma nuvem de abelhas os rodeia, atraída pela sua baba de animais no cio, que escorre sobre suas presas brancas, brancas como as flores de lotus.

*

*Que alma permaneceria insensível diante desta fresca paisagem: os rochedos escorrendo sob o beijo das nuvens, os riachos descendo de todos os lados, a dança frenética dos pavões apaixonados e esta brisa refrescante que unida à chuva se sobrecarregou com o perfume das flores do Kadamba, do Nipas e do Ketakis?

*

*As mulheres se fazem desejáveis: perfumam sua boca de cidú, *e ornam com pérolas os seios, *e se enfeitam com brincos feitos de flores odorantes, *e suas cabeleiras soberbas descem até as ancas.

*

**Seres e coisas se respondem: *os rios correm, *os amantes sonham, *a chuva crepita, *os pavões dançam, *os elefantes urram e os macacos se perseguem, *os bosques resplandecem: *tudo vive, palpita e se procura.

*

*Por joias, as nuvens têm seus raios e o arco luminoso do deus Indra. * As mulheres têm seus anéis, os diamantes e os cinturões. Mas também elas coroaram suas cabeças com flores de Ketaki, de Keçara recentemente abertas. E suspensas nos lóbulos das orelhas, trazem as pérolas naturais da árvore Kakuba.

*

*Então, furtivamente, quando a noite chega, a moça deixa o teto paternal e corre ao leito do amante; ela esfregou o corpo com sândalo perfumado e derramou sobre os cabelos o óleo negro de agourou. E sobre eles, espalhou flores perfumadas. Mas a esposa abandonada sonha melancólica. E sua alma lentamente se balança sobre as nuvens, nuvens baixas, pesadas de tormenta e azuis de sombra, como as pétalas do lotus que se balançam lentamente, lentamente...

*

*O calor expira sob a chuva apaziguante. As florestas exprimem sua alegria pelas Kadambas que florescem com seus ramos que se agitam à brisa e seus botões que estalam o envoltório como risadas que vibram.

*

*As mulheres, enfeitadas para o amor, a estação oferece guirlandas de mimosas e de jasmins, flores desabrochadas, e as da família das iouticas, de cálice apenas entreaberto. Os pingentes de orelhas que apanha-me são os Katambas recentemente abertos.

*

*É a época em que se verão as mulheres com finos ornamentos de pérolas enrolados em torno do botão dos seios, um doukoula branco sobre a anca fascinante, e no lugar onde o corpo se divide ao meio, um monte de sombra delicioso e irresistível, ó divina atração!

*

*A brisa, orvalhada pelas gotas da chuva fresca, dança nas ramagens que vergam sob o peso das flores, perfuma-se ao passar sobre o pólen das flores e arrasta as almas dos amantes separados.

*

*"Sucumbimos sob nossa carga d'agua. Repousemo-nos neste cume. *  Uf!" dizem as nuvens desabando sobre os montes Vindhya; e sobre estes montes queimados pelo fogo do verão, lançam a chuva  e a alegria! 

*

*Ah! Que esta estação te seja favorável. Ela, que dá a chuva e a vida aos homens vivos, mãe dos botões entreabertos e das ervas renascidas e que de modo tão terno arrebata o coração das mulheres!


OUTONO 

O OUTONO

Como a nova e graciosa esposa, o outono avança com sua face de lotus desabrochado; o outono, cujos frágeis braços brincam com os caules do arroz já quase amadurecido. Os cantos de amor do cisne são como o tilintar dos anéis de metal que prendem seus calcanhares. 

*

** A terra se recobriu com um bordado de Kaças florescidas e a noite, de orvalho; o regato, de cisnes; a agua dormente, de ninfeias; a floresta, de pinheiros estrelados com flores de sete pétalas. Os canteiros estão brancos de jasmins.

*

*Os cursos d'agua serpenteiam como mulheres langorosas; suas ilhas são como as formas redondas de suas ancas sedutoras; * rosários de peixes faiscantes são os guizos da sua cintura, e as filas de pássaros brancos nas margens são as pérolas dos seus colares.

*

*Onde está o coração que não palpita à vista deste céu tão belo, pintado como uma face, da terra atapetada pelo pólen vermelho das bandhoukas, dos botões e das sementes, da seiva que sobe ao caule do arroz branco?

*

*As negras noites de tormenta são passadas; um céu mais claro apareceu, cercado de flocos brancos, brancos como as fibras do lotus do cálice prateado, e este céu parece um rei que as escravas abanassem com cem leques de plumas brancas!

*

*Existe uma só alma que não chore de amor diante destes bosques de ébano cujas altas ramas são embaladas pela brisa, coroadas de botões e de flores, onde as loucas abelhas vêm procurar o suco que destilam do mel?

*

A noite, como uma adolescente que dentro em pouco irá se tornar púbere, desembaraçou-se das nuvens que velavam a face da lua; ela tirou do seu escrínio joias de estrelas aos milhares, e ei-la que surge no seu vestido sem mancha, tecido com raios de luar.

*

*Os rios se inflamam ao reflexo dos lotus vermelhos estremecem às bicadas dos pássaros d'agua. * As margens se animam com os folguedos dos patos e dos gansos, enquanto o canto do cisne chama o universo à alegria.

*

*E na noite enfeitiçada os raios de luar, * adorados pelos corações apaixonados, distribuem felicidade, a chuva fina e o orvalho e mornas caricias aos corpos das mulheres * que choram os maridos em viagem.

*

*O mesmo vento, como numa dança, agita o tapete formado pela floresta de flores, * e as almas dos adolescentes, e as ninféias e os lotus desabrochados cobrem a terra aos milhares.

*Nossos corações batem ao ritmo das ondas que no tanque estremecem sob o vento, o tanque de opala onde vogam os cisnes amorosos entre os nenúfares e os lotus.

*

*Já não se oculta nas nuvens o deus Indra armado com seus raios, nem estão as nuvens esgarçadas riscadas de clarões como bandeiras atormentadas pelo vento; as aves já não batem mais o ar com suas asas, e os pavões não levantam mais a cabeça para ver os relâmpagos no horizonte. Abandonam os pavões fatigados a dança dos amores; e o Amor excita agora os flamingos cor de rosa, cujo canto é tão melodioso; e a deusa Cri, que faz crescer as flores, volteia das Kadambas aos Nipas e das Sardjas às outras flores.

*

*Os bosques, perfumados de jasmins penugentos, cheios de pássaros que pipilam sobre os galhos, têm clareiras de sombra onde brilham os olhos das gazelas semelhantes aos lotus faiscantes, que nos comovem em desejos singulares.

*

*E o vento da aurora, que colheu sobre os nenúfares brancos gotas de orvalho gelado, derrama uma chuva de prata sobre a donzela que estremece na manhã renascida.

*

*A terra se alegra sob as colheitas de e nos comunica sua alegria; ela se ornou com rebanhos de belos novilhos e de todos os lados sobem gritos de alegria dos gansos e dos flamingos cor de rosa.

*

*Ser e natureza se rivalizam: a marcha dos flamingos cor de rosa será mais sutil do que a de uma jovem mulher? A lua empalidece diante da claridade das ninfeias extasiantes. O brilho das pupilas, iluminadas pela embriaguez, oculta-se diante dos lotus azuis e dos nenúfares luminosos. O jogo sedutor das sobrancelhas cede às ondulações da onda e aos arrepios das aguas.

*

*As lianas ondeadas, inclinadas sob o peso das flores, fazem esquecer, ó mulheres, vossos braços de deusas, vossos braços sobrecarregados de adornos; e a brancura do jasmim recente mente entreaberto, misturado às flores de Akoça, ultrapassa o brilho dos vossos dentes brancos, e o encanto dos vossos sorrisos!

*

*É a época em que, nos cachos de vossos cabelos, negros como nuvens de tormenta, introduzis as flores alvas dos jasmins, e pendurais nas orelhas onde se balançam pesados brincos de ouro, flores d'agua e lotus; em que, a alma cheia de alegria, ides cingir os seios com finos colares de pérolas e a ânfora de vossas ancas com uma cinta de guizos e com anéis de ouro, o lotus dos vossos pés.

*

*E eis que aparece, feérica, mais bela do que tudo o que existe no mundo, a deusa Cri, coberta de ninfeias desabro chadas. Ela está deitada e faísca em pedrarias, adormecida sobre um soberbo cisne que voga sobre uma onda de diamante e esmeralda; e na noite tranquila, é o próprio céu, tão puro e recamado de estrelas, que a passeia docemente sob o clarão da lua...

*

*Saindo do leito nupcial dos lotus, a brisa de outono purificada espalhou as brancas nuvens. Espaços celestes infinitos revelam-se aos nossos olhos, onde se perdem nossos sonhos; as aguas tornaram-se transparentes, a seiva da terra amadureceu os arrozais; e o céu surge constelado de estrelas!

*

*Veem-se, deixando os jogos, as rodas e as canções, moças muito novas, ainda quase em idade de criança, de face bela como o astro das noites. Algumas escorregam suas pequenas mãos de lotus na mão de seu amante, mãos carregadas de flores que apanharam, e impacientes voltam para o lar, onde o amor as chama irresistivelmente!

*

*Outras, ao contrario, enlaçadas às suas jovens companheiras, voltam do lugar de amor em que experimentaram completa embriaguez, e, sem reserva, trocam alegres impressões, enquanto
na noite propicia confessam ruborizadas seus segredos voluptuosos e suas doces brincadeiras.


*Pela aurora, emocionada sob um raio do sol levante, a ninfeia vermelha entreabre seus lábios em corola, como uma moça ao despertar, mas a ninfeia branca, apaixonada pela lua, fecha-se tristemente quando desaparece no ocidente o disco luminoso das noites. Assim se extingue o sorriso das esposas * abandonadas pelo marido quando chega o dia.

*

*Em todos os lugares a deusa Cri espalhou a felicidade, a beleza e a alegria; o esplendor feérico da lua sobre a face das mulheres; a graça dos pequenos lotus brancos nas bocas tão puras abertas num sorriso, e o brilho das corolas purpúreas sobre os lábios sedutores.

*

*Ah! que a estação do outono, deliciosa amante, traga a ti numerosas alegrias, com seu sorriso de lotus branco, seus lábios de lotus vermelho, seus olhos de lotus azul, e seu vestido luminoso como as flores abertas do Kaçá.



O INVERNO

O INVERNO

O inverno. Os lotus estão mortos, o frio chegou. No entanto, amaremos esta estação pelos seus lodrhas de flores desabrochadas, suas colheitas de arroz maduro e seus frutos.

*

*Outrora provocantes, as mulheres agora, como envergonhadas, escondem os seios sob os vestidos. Longe se acha o tempo dos unguentos de açafrão e das guirlandas de jasmim claro como a lua. Já não existem mais sobre seus braços sedutores espirais de braceletes em conchas e anéis de ouro. Um espesso doukoula lhes cobre as formas arredondadas. Um estofo de Akoça lhes protege os seios firmes.

*

*Já não é mais tempo das ricas cinturas em pedrarias, dos cordões de ouro, dos anéis nos pés que pisam delicadamente como ninféias sobre a água, os anéis cujo tilintado imita o canto dos flamingos cor de rosa.

*

*O Amor agora exige outros aprestos: * as mulheres untam os membros com o pó que vem do bosque de Kaligaka, avermelham a face bela como o lotus e passam nos cabelos o óleo negro de agourou.

*

*Pois a terra está coberta pelas colheitas de arroz, cheias de seiva, e onde vão passear graciosamente os antílopes fêmeas, onde cantam os maravilhosos pássaros, que fazem nascer novos e impacientes desejos.

*

*A agua dos tanques arrebata os homens ao sonho do amor, a agua límpida, transparente, sulcada de pássaros, pontilhada de ninfeias azuis e vermelhas e de çaivalas verdes.

*

*Cansadas das primeiras fadigas do amor, as faces pálidas, * as moças riem ao despertar da vida voluptuosa; elas riem, mas com cuidado e sem descobrir muito os dentes brancos, pois seus lábios róseos estão rasgados * pelos dentes do amante apaixonado, e as fazem sofrer cruelmente.

*

*Suspirando de volúpia e de amor, o amante estendido sobre o leito aperta contra si a bem-amada. Seus membros se entrelaçam. E sua boca perfumada pela essência de assava, ao ritmo de seu hálito, perfuma os dois corpos.

*

*Todas as jovens mulheres trazem sobre o corpo a marca cruel do amor: seus lábios, mordidos pelo amante, sangram ainda, e, sobre os seios, as unhas do companheiro * traçaram a historia dos seus desejos.

*

*Ao amanhecer, com um espelho na mão, um ritus sobre a face, uma jovem mulher acompanha sobre os róseos lábios os ferimentos que lhe fizeram os dentes do amante, o cruel amante que lhe bebeu a alma pela boca!

*

*Quanto a estas, esgotadas pelas voluptuosidades consentidas, dormem ainda, indolentes, sob a doce caricia do sol. Suas pálpebras estão avermelhadas pela insônia, e sua cabeleira em desordem se espalha sobre o leito.

*

*Aquelas cingem com uma faixa, sem mancha, a fronte guarnecida de cabelos negros como uma nuvem de tormenta. E seus braços, levantados para consertar os cabelos, cedem e retombam pouco a pouco sob o peso magnífico dos seios.

*

*Uma delas vem de constatar sobre o seu corpo as dentadas do amante; feliz, sorri. Depois coloca sobre os lábios um pouco de pintura, ligeira túnica de seda; enrola-se numa e os braços levantados, hesita, divertida: e suas pupilas seguem agora uma louca mecha que dança em sua fronte!

*

*Outras, fatigadas e quase mortas de prazer, os seios, o corpo inteiro dolorido pela luta do amor, espalham sobre os membros um bálsamo benfazejo e perfumado.

*

*Ah! Que esta estação, companheira do frio, * seja propicia aos teus desejos! Possa ela te arrebatar a alma das mulheres * pelas suas paisagens recobertas por espessas searas de arroz e pelo canto dos pássaros que pousam sobre a neve!




A ESTAÇÃO DOS ORVALHOS


A ESTAÇÃO DOS ORVALHOS

Ο' deliciosa amiga, escuta a descrição da Cicira, a estação dos orvalhos: a terra se enfeitou com arroz alto nos seus caules, e os pássaros cantam. E é também o tempo do amor mais caro às mulheres.

*

*Dagora em diante procuraremos o interior acariciante de uma casa bem fechada, o calor da lareira, os raios do sol e as vestimentas bem espessas.

*

*Passado está o tempo do sândalo, o sândalo fresco como o raio da lua. Já não se fazem longas permanências nos terraços banhados pelo luar, e ninguém mais deseja em seu coração o vento que refresca.

*

*Foi-se o culto das noites: elas agora são frescas e molhadas de orvalho; o amante as abandona, apesar das suas joias estreladas. 

*

*Perfumada de agourou, sua boca, flor de lotus, rescende a essência de flores, e as mulheres fizeram provisão de betel de perfumes, de guirlandas floridas * e, cansadas do amor, retiraram-se, para seu quarto de dormir.

*

*Então, diante dos amantes trêmulos de voluptuosidade, impacientes, loucos de amor, elas esquecem seus erros, suas infidelidades, e, sorrindo, perdoam as ofensas passadas.

*

*E pela manhã, ainda envoltas nas vestimentas da noite, elas se vão lentamente, amolentadas e cansadas do amor  que foi cruel. * Depois se aprontam para festejar a estação dos orvalhos: aprisionam a garganta num estofo escolhido * e envolvem as pernas em sedas de ricas cores enquanto semeiam flores sobre os cabelos.

*

*No entanto os homens se banham, descuidados do frio, para apagar as marcas deixadas sobre o peito * de amarelo açafrão com o qual as esposas tinham untado os seios, afim de seduzi-los.

*

*Pois durante a noite os amantes lançados à loucura beberam muitas vezes um licor enervante e divino que treme, como um lotus, sob o hálito perfumado * e lança a embriaguez à alma e exalta os sentidos.

*

*Algumas vezes, dia claro, uma das esposas, cuja pintura desapareceu sob as caricias, percebe no seu corpo as marcas de amor. Envergonhada, deixa o leito, fugindo para o interior do palácio. Quer voltar depois, mas não ousa se mostrar assim ao companheiro. Então suplica que lhe tragam o vestido esquecido no quarto.

*

*Quanto a esta, deixou tombar sua vestimenta: * está nua e bela como uma deusa. Seus cabelos escorrem de óleo negro e, enquanto os anéis de ouro soam nos seus pés, ela agita guirlandas de rosas que se desfolham.

*

*As mulheres, no fundo do palácio, são como a deusa Lakshmi: têm olhos grandes e belos como lotus que um traço de tinta prolonga até às orelhas, cabelos desatados que flutuam até às espaduas, uma face oval cor de ouro, e lábios vermelhos, resplandecentes. 

*

*Algumas, depois da noite de amor, vestiram a túnica que convém a este dia; e lânguidas, caminham lentamente, um pouco cansadas de trazerem a ânfora pesada das ancas e a garganta em fogo.

*

*Outras descobrem sobre os seios os sinais das unhas do companheiro, e nos lábios, que acariciam com os dedos, ferimentos. Com um bálsamo refrescante cobrem estas marcas e pintam o rosto. E' a hora em que o sol se levanta...

*

*Que esta estação te seja propicia, estação dos langores amorosos, dos amores, dos prazeres, dos euforbios deliciosos, das braçadas de cana de açúcar e das colheitas de arroz adocicado que encantam os olhos!



A PRIMAVERA


A PRIMAVERA

O' bem-amada, eis a Primavera! O amor, gracioso guerreiro, estendeu seu arco e à guisa de corda tem uma guirlanda de abelhas; e um galho cheio de botões floridos serve lhe de flecha. Ele chega e se apresta para trespassar os corações que os desejos alimentam.

*

*Vê, a feérica Primavera tudo embelezou: os galhos recobertos de flores, as aguas azuis semeadas de lotus, as mulheres amorosas, a brisa perfumada, as noites deliciosas, as manhãs encantadoras, e o tanque que brilha como um milagre de pedrarias, e este enxame de mulheres que cintilam como a própria lua, e as árvores que vergam ao peso das flores!

*

*Parece que um voluptuoso desejo * anima as próprias coisas: os finos colares de pérolas que palpitam sobre os seios vaporizados de sândalo, o hálito das bocas perfumadas de betel e os cinturões coloridos sobre o flanco perturbador das mulheres!

*

*Ligeiros tecidos de Akoça dourados no suco de açafrão * ornam os peitos. Doukoulas pintados a vermelho na essência do Koussoumba modelam finamente as ancas adoráveis.

*

*Eis a hora do amor: durante a raiva dos desejos gotas de suor escorrem sobre a face das mulheres enfeitiçantes, sobre estas faces tão belas que a pintura ilumina, semelhantes às pé- talas vermelhas dos lotus.

*

*E quando os amantes acalmados, vencidos, repousam junto às amantes nuas, estas, ainda sacudidas pelo espasmo, já estremecem ao ímpeto de novos desejos!

*

*No entanto, aquelas cujo esposo se acha ausente, ali se encontram, magras, pálidas, ofegantes; estiram os membros e suspiram de desejo. O amor, espírito sem corpo, reduz a este estado suas vítimas, as mesmas que também nos embriagam.

*

*Sob diversos aspectos, o amor se incorporou a elas: é ele, o amor, que turva suas pupilas enlanguescidas pela embriaguez; é ainda ele que empalidece suas faces, levanta-se firme sobre seus seios; amolece nas curvas dos talhes, no arredondado das formas opulentas; que mantem os membros enlaçados, que perturba o timbre de sua voz e que faz os olhares escorregarem de lado, prometedores e furtivos, sob o jogo das sobrancelhas.

*

*E de novo, as mulheres enlanguescidas de amor misturam o almíscar ao sândalo, e sobre os seios * combinam sabiamente as tintas de kaligaka, de priangou e de açafrão. No entanto, os apaixonados despojaram-se apressadamente de suas pesadas roupas, trocando-as por leves vestimentas, e prepararam o corpo esfregando nele um suco de laque e de agourou negro, cujo perfume embriaga.

*

*O pássaro Kokila macho, apaixonado por uma flor, tonto por ter bebido o suco que embriaga, beija voluptuosamente a corola, sua amante, como se beija uma mulher sobre a boca.
E mais longe, uma abelha, esposa que zumbe, veio se colocar sobre o lotus, seu esposo, e acaricia com arte as pétalas do seu bem-amado.

*

*Ó minha encantadora bem-amada! eis a hora em que, na alma das mulheres, se exaltam os desejos novos, os desejos pesados de seiva que estremece, semelhantes às árvores floridas que se agitam sob a brisa, e vergam ao peso dos botões vermelhos.

*

*Vermelha de flores na raiz, com suas flores e seus botões, que chamam de "Sem Cuidado", a Akoça, causa no entanto inquietação ao coração tumultuoso das mulheres; e a visão da Atimoukta, de cálices apenas entreabertos, cercados de abelhas que deslizam embaladas pela brisa, acende o inquieto desejo no coração ardente dos homens!

*

*Veja este homem, ó minha amiga, abandonado pela sua amante: ele acaba de perceber a árvore Kouravakas de botões perfumados e frescos que rivalizam em brilho com a cor da sua amada. E eis que de repente sua alma se abate amor * como se fosse trespassada pelo amor por uma chuva de flechas dolorosas!

*

*Vê, a Primavera triunfa, universal: a árvore-coral como um fogo em brasa, a floresta de Kinçoukas, inclinada ao peso de suas flores, revestindo como de uma túnica a terra que resplende como uma esposa nova!

*

*Que coração não se inflamaria com as flores do Kinçouka em fogo semelhantes à deslumbrante plumagem que adorna a cabeça da arara?

*

*Quem poderia resistir, amiga da voz de ouro, quando a sedução das flores se junta aos doces cantos do pássaro Kokila que traz a embriaguez ao coração dos moços?

*

*Todos os anos, quando vibra o canto mágico dos Kokilas, os homens são tomados de loucura, e a obsessão do amor desperta em sua alma sombria. No entanto, as esposas, a despeito dos pudores*  sentem o coração que palpita * e esperam, ardentes, *  no profundo gineceu.

*

* *  O vento sacode os galhos dos Sahakaras floridos, *  dispersa os pássaros, arrebata o pensamento dos homens, sopra e passa, feliz * por levar o frio e trazer de volta os dias radiosos.

*

* *  E já que o arbusto encantador, *  semeado de brancos jasmins *  como os dentes da noiva sorridente, *  perturba até a alma pura do anacoreta, *  como não perturbaria os outros homens, *  accessíveis ao pecado?

*

* *  É o mês de Madhou! * Zumbido da mosca à procura do mel! * Ramas cheias de pássaros! *  Colinas encantadoras coroadas de flores! *  Praias onde pousam os alegres Kokilas! * Cinturões de ouro das mulheres! * Colares de pérolas que entrelaçam os seios! * O' Madhou, arrebatais o coração dos homens!

*

** A Primavera se tornou rival da mulher: * o canto dos pássaros rivaliza com o timbre encantador * das vozes femininas, * o brilho do jasmim, com a brancura dos dentes, * e sobre os galhos, os róseos botões de coral * com os dedos delicados das mãos!

*

** O mais santo dos anacoretas é forçado a amar... *  quando a seus olhos passa o cortejo das mulheres * de face bela como uma ninfeia de ouro, * de seios com botões úmidos como o sândalo, * de olhares graciosos, * que revelam secretos ardores... * Falai, santo anacoreta, existe nada mais digno dos encantos da alma, * que estas bocas em lotus florescendo perfumes embriagadores, * estes olhos que cintilam como estrelas, * estas pesadas cabeleiras cheias de Kouravakas recentemente desabrochadas, *  estes seios e estas formas arredondadas e encantadoras?

*

** Os homens palpitam e estremecem numa estranha sensibilidade, * com a brisa carregada do perfume das árvores, * o murmúrio das abelhas, música encantadora * e o apelo dos Kokilas melodiosos, embriagados de amor.

*

**  O' noites deliciosas! * O' luares! * Cantigas dos Kokilas machos! * Murmúrio das abelhas embriagadas! * O' brisas perfumadas! * Vós sois bem os preciosos aliados do amor, * do belo deus * que guerreia com flores!

*
** Ah! que esta estação preciosa a Kama * te seja de uma felicidade durável, * com sua face de lotus, *  seus brancos jasmins, * seus lábios em corolas de Akoça, * suas abelhas murmurantes * e o perfume das suas árvores desabrochadas em alegria!

DO LIVRO
A ronda das estações / 'Ṛtusaṃhāra'. Kālidāsa. tradução Lúcio Cardoso. Coleção Rubáiyát. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944  

A ronda das estações. Kālidāsa. tradução Lúcio Cardoso. 
Coleção Rubáiyát. Rio de Janeiro: José Olympio, 1944  

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  •  Kâlidâsa - poeta e dramaturgo sânscrito clássico

KÂLIDÂSA - FORTUNA CRÍTICA


FONSECA, Carlos Alberto da.. As biografias de Kâlidâsa. In: Revista da USP, n. 9, p. 45-70, 1980. Disponível no link. (acessado 6.3.2024)
FONSECA, Carlos Alberto da.. Sugestões para uma leitura do rtusamhara, de kalidasa, como poema erótico. Bharata. In: Cadernos de Cultura Indiana, n. 4 , p. 9-25, 1991





Raja Ravi Varma - Shakuntala and Sakhis  


Shakuntala pára para olhar atrás de Dushyanta - pintura de Ravi Varma (1898)




  • Cacountala ou l'abandon, par Camille Claudel (1888)


 Escultura: Kâlidâsa - poeta e dramaturgo sânscrito clássico
(Mahakavi - Great Poet Kalidas Statue in Ujjain Malwa) 



Mahakavi Kalidasa statue, Ramgarh hills - by Ms Sarah Welch



© Pesquisa, seleção, edição e organizaçãoElfi Kürten Fenske


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COMO CITAR:
FENSKE, Elfi Kürten
. (pesquisa, seleção, edição e organização).  Kâlidâsa - poeta e dramaturgo sânscrito clássico. In: Templo Cultural Delfos, abril/2024. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
____
:: Página atualizada em 7.4.2024.
:: Página original de abril/2024


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