Amélia Dalomba - uma poeta angolana

Amélia da Lomba - foto (...)
Amélia Dalomba, nome literário de Maria Amélia Gomes Barros da Lomba do Amaral. A poeta e prosadora nasceu a 23 de Novembro de 1961, na província de Cabinda, em Angola. Tem artigos e poemas publicados em revistas e jornais e participações em CDs musicais angolanos, com letras e músicas. Ministra palestras sobre literatura e culturas de Angola, bem como sobre as relações de gênero em seu país.
Estudou Psicologia Geral e simultaneamente desenvolveu a sua atividade profissional na área do Jornalismo, nomeadamente o jornalismo radiofônico e de imprensa. É colaboradora do Jornal de Angola, tendo publicado alguns dos seus textos poéticos na sua página cultural. Frequentou diversos seminários de Jornalismo, Administração e Gestão de Empresas e Formação Política.
Integrando a geração de 80, denominada pelo crítico e poeta Luís Kandjimbo como a "Geração das incertezas", ao lado de nomes como Ana Paula Tavares, Ana de Santana, Lisa Castel, entre outros, Amélia Dalomba é uma das novas vozes femininas do universo literário, cujo contributo se reveste da maior importância para o desenvolvimento da poesia angolana. Como a obra dos restantes poetas dessa geração, filha da geração da guerra colonial, a sua poiesis, assentando num projeto metalinguístico e literário de recuperação da língua, constituiu-se como um espaço de denúncia da realidade angustiante vivida na sua Angola pós-independência, sem cair no "panfletarismo ideológico" que, muitas vezes, compromete a qualidade estética.
Fruto da grande desilusão provocada pela situação de corrupção, de fome, de miséria e de total desrespeito pelos direitos humanos, que caracteriza Angola, a poesia desta autora projeta, então, um "sujeito poético" desconcertado e desiludido, que vai usar a melancolia, associada à resistência, como forma de se libertar da catástrofe social que o envolve.
É galardoada com a Ordem do Vulcão – Medalha de Mérito de 1º Grau da República de Cabo Verde.
Amélia Dalomba é membro da União dos Escritores Angolanos em cujos corpos gerentes tem ocupado diversos cargos.
:: Fonte: ricardorisoEmbaixada de Angola (acessado em 29.6.2015).


CONDECORAÇÃO
::  Medalha da Ordem do Vulcão pelo Presidente de Cabo Verde, 2005.


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OBRA DE AMÉLIA DALOMBA
Poesia
:: Ânsia. Luanda: Editora UEA, 1995, 35p.
:: Sacrossanto refúgioLuanda: Editora Edipress, 1996, 62p.
:: Espiga do Sahel. Coleção os nossos poetas, 8. Luanda: Editora Kilomlombe, 2004, 111p.
:: Noites ditas à chuvaLuanda: Editora UEA, 2005, 78p.
:: Sinal de mãe nas estrelasSão Paulo: Zian Editora, 2007.
:: Aos teus pés quanto baloiça o vento. São Paulo: Zian Editora, 2008.
:: Cacimbo 2000. Luanda: Editora Patrick Houdin-Alliance Française de Luanda, 2000.

Prosa
:: Uma mulher ao relento. Belo Horizonte MG: Nandyala Editora, 2011.

Infanto-juvenil
:: Nsinga - o mar no signo do laço. Luanda: Mayamba, 2012.

CD - Áudio poesia
:: Verso prece e canto. Luanda: Editora N’Gola Música, 2008.

Antologias (participação)
:: Antologia da poesia feminina dos palop. [organização Xosé Lois Garcia]. Santiago de Compostela: Edicións Laiovento,1998.
:: Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX: Angola. [organização Cármen Lúcia Tindó]. Luanda: Kilombelombe, 2000.
:: Todos os sonhos: Antologia da poesia moderna angolana.. [Organização Adriano Botelho de Vasconcelos]. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006. 
:: O amor tem asas de ouro.  Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006.
:: Meu céu, céu de todos, céu de cada um. [organização Renan Medeiros]. São Paulo: Editora Zian, 2006.
:: Mögen Pitangas wachsen (Oxalá cresçam pitangas). Antologia de literatura de Angola. colectânea dividida em duas partes, prosa e poesia. [organização Ineke Phaf-Rheinberg; tradução Bárbara Mesquita]. Edição bilíngue alemão/português. Instituto Goethe, 2014.

Obra traduzida
:: La canción del silencio: poemas de Amélia Dalomba. [selección, traducción y presentación Olga Sánchez Guevara]. Cuba, 2014.

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POEMAS ESCOLHIDOS DE AMÉLIA DALOMBA

A canção do silêncio
A canção do silêncio é um poema ao suspiro
Mergulhado
Na profundeza do Índigo

O olhar de uma santa de barro

A linha do equador à deriva do pensamento
Gelo e sal e larva e mel

A canção do silêncio
- Amélia Dalomba, em "Todos os sonhos" (Antologia da poesia moderna angolana).. [Organização Adriano Botelho de Vasconcelos]. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006. 


Amor em carta aberta
relembrando Fernando Pessoa

Meu amor
venho em carta aberta, dizer o seguinte:
de ti vi nascer a paz!
Crescer árvores nos baldios das minhas solidões onde
pássaros chilreiam e anunciam o sol e a chuva ao deserto.
Tua chegada trouxe o projecto de uma casa com dois cómodos
apinhados de livros, um pomar de rica sombra e nossos netos
de todas as cores, a treparem pelas nossas bengalas e cadeiras
de verga balanceando com seus choros e fraldas molhadas;
De ti recebi o amor, verdadeiro de mais, para se esbanjar
pela cercania da mágoas. Hoje enquanto o céu caía sobre
mim, da chuva das tuas lágrimas compreendi a imperfeição
da minha alma! E o que me levou a desentender o percurso 
de nós. Vejo que o abismo pode estar onde menos se espera,
até, imagina, na esquina desta entrega que nos parecia ser
capaz de superar todas as crateras e enfrentar as trevas ... 
quanta crueldade!
Enfim, este adiamento ao nosso reencontro e aos nossos
corações, talvez traga maior maturidade e aceitação da vida
com a serenidade das coisas simples:

Somente!
- Amélia Dalomba, em "Aos teus pés, quanto baloiça o vento". São Paulo: Zian Editora, 2006, p. 45.


Espigas do Sahel
Espigas
espigas brotam do Sahel
pioneiras da liberdade
a caminhar sem cautela
pela floresta carregada de espinhos

Pessoas
pessoas
cruzam o meu caminho
penetram lentas e vagarosas
como
térmitas
na sala de interrogatórios
descubro o travo da
traição

Prefiro as hienas
e os lobos
que uivam constantes
todos sabem
donde e onde estão

Do ventre do bosque
ainda que faça silêncio
imaginam meu pensamento
ainda que cerre os dentes
e digo não penso
há gente que diz: mente

Não falo
não penso
oh gente da terra quantas vezes
ofereceis
malavu sem provar 
Amélia Dalomba, em "Espigas do Sahel". Luanda: Kilombelombe, 2003, p. 55-56.


Herança de morte
Lírios em mãos de carrascos
Pombal à porta de ladrões
Filho de mulher à boca do lixo
Feridas gangrenadas sobre pontes quebradas
Assim construímos África nos cursos de herança e morte
Quando a crosta romper os beiços da terra
O vento ditará a sentença aos deserdados
Um feixe de luz constante na paginação da história
Cada ser um dever e um direito

Na voz ferida todos os abismos deglutidos pela esperança
- Amélia Dalomba, em "Todos os sonhos" (Antologia da poesia moderna angolana).. [Organização Adriano Botelho de Vasconcelos]. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006. 


Mãos
Mãos desenham raízes dos cânticos da terra
Geram vida na identidade da flor entre o espírito da letra
Engendram salmos na inserção da cruz às preces das dores
Mãos são séculos de páginas aos joelhos de Fátima

São lágrimas ao altar do desespero
- Amélia Dalomba, em "Todos os sonhos" (Antologia da poesia moderna angolana).. [Organização Adriano Botelho de Vasconcelos]. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006. 


Na milésima de tempo
A inversão do mundo nos cabelos do infinito
Uma lua apagada de prazer
A razão é um jardim florido pela ilusão

Na milésima de tempo de uma entrega
- Amélia Dalomba, em "Todos os sonhos" (Antologia da poesia moderna angolana).. [Organização Adriano Botelho de Vasconcelos]. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2006. 


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FORTUNA CRÍTICA DE AMÉLIA DALOMBA
[Estudos acadêmicos - teses, ensaios e artigos]
ARRIMAR, Jorge. A nova poesia angolana - a geração de 80 do século XX. Zunai - Revista de poesia & debates. Disponível no link. (acessado em 29.6.2015).
COELHO, Tomás Lima. Autores e escritores de Angola - naturalidade e bibliografia. 2013. Disponível no link. (acessado em 29.6.2015).
FERREIRA, Vera Lúcia da Silva Sales. Lembrar e carpir: estratégias de construção de poemas escritos por mulheres nas literaturas africanas de língua portuguesa. (Tese Doutorado em Letras). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PUC Minas, 2011. Disponível no link. (acessado em 29.6.2015). 
SECCO, Carmen Lucia Tindó. A literatura e a arte em angola na pós-independência. Conexão Letras, Vol. 8, nº 9, 2013. Disponível no link. (acessado em 29.6.2015). 


ESTÓRIAS
Nsinga – o mar, no signo do laço
I
Chegava a cada dois anos vestido de branco, como um príncipe dos muitos livros e cadernos que trazia, estes últimos que tanto jeito faziam à mamã para embrulhar ginguba e micates nas suas folhas arrancadas sempre do meio, para segundo ela, “o caderno não chorar".
Eu gostava de ver o tio chegar!
A miudagem toda em volta dele, os adultos ajudando a transportar as bicuatas . Era uma festa.
A casa ficava cheia de embarcadiços que andavam de porto em porto e contavam estórias, dando presentes.
O que eu mais gostava era quando o tio, com o olhar sério, perguntava ao meu pai: “Mano, como vão os meninos na escola"?, acariciando-nos com o olhar, como se fôssemos o único propósito das suas canseiras. Ele mandava sempre o dinheiro para os nossos estudos; éramos dos poucos meninos, no nosso bairro pobre, que estudávamos sem isenção de propinas e andávamos calçados. O tio cuidava para que nada nos faltasse. Éramos sete meninas e dois rapazes.
Não sei porque razão não tinha filhos, mas casara-se, diziam os mais velhos, no Brasil com uma linda senhora de cabelos tão negros e compridos que suas trancas pareciam duas longas lianas floridas em cada lado do rosto. Eu cheguei a sonhar com ela, mas aparecia sempre em sonhos com o rabo de peixe, como uma sereia pelo que não contava para ninguém. Como é que afinal, a mulher do tio habitava misteriosamente as águas salgadas, do outro lado do bairro onde morávamos?

II
Nós vivíamos entre o rio e o mar. A mãe proibianos de tomar banho nas águas salgadas da praia, porque, dizia perigosas demais para as crianças pequenas; mas Futi adorava tanto aquelas águas que, quando entrava o cheiro da maresia pelas persianas da nossa linda casa de madeira à beira da estrada grande, onde passavam os camiões carregados de toros de madeira, ela deixava soltar num suspiro: “Lando, um dia vou mesmo tomar banho no mar ..." Sabíamos, ela e eu, ser isso precisamente o que nunca deveria fazer, segundo nossos pais, até atingir a idade de entrar no tchikumbi , ao que eu advertia: “se voltas a dizer isso, vou queixar à mama". Ela, com um sorriso estranho nos lábios, sempre resmungava: “humm, queixinhas, estava só a brincar" ...
Passara-se, pelo menos, mais de um ano desde a última vinda do tio e a nossa vida voltara a monotonia de sempre, quando vozes estridentes se fizeram ouvir:
“Futi se afogou socorro, socorro; Futi se afogou ..."
Suas coleguinhas, ainda sujas de areia da praia e batas molhadas, traziam os pertences de minha irmã querida, de apenas 7 anos: a pasta da escola, a bata e um par de sandálias castanhas muito usadas, com a marca de seus dedos bem marcados".
- Amélia Dalomba, em "Nsinga – o mar, no signo do laço". Luanda: Mayamba Editora, 2011.
:: Fonte: poetenladen


ENTREVISTA
A escritora e jornalista Amelia da Lomba fala - nos das suas vivências no " Fair Play". A carismática apresentadora, Kenia Sandão, delicia - nos com uma brilhante entrevista deixando - te informado sobre esta ilustre figura Angolana.
FAIR PLAY com a escritora e jornalista Amelia da Lomba



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:: Antonio Miranda
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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Amélia Dalomba - uma poeta angolana. Templo Cultural Delfos, junho/2015. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 29.6.2015.




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