Paulina Chiziane - contadora de estórias e memórias

Paulina Chiziane - foto: (...)

"Contar uma história significa levar as mentes no voo da imaginação e trazê-las de volta ao mundo da reflexão."
- Paulina Chiziane, em "O alegre canto da perdiz". Lisboa: Editorial Caminho, 2008.

Paulina Chiziane escritora moçambicana, nasceu a 4 de Junho de 1955, em Manjacaze, província de Gaza, e cresceu nos subúrbios da cidade de Maputo onde fez os seus estudos. Frequentou o curso de Linguística na Universidade Eduardo Mondlane sem ter, porém, concluído. Iniciou a sua atividade literária em 1984, com contos publicados na imprensa moçambicana, como, a Revista Tempo e DomingoTornou-se a primeira mulher moçambicana a publicar um romance, o seu primeiro livro, Balada de Amor ao Vento, editado pela autora em 1990. 
Contadora de histórias, arte que aprendeu com a sua avó. Paulina convida-nos à cumplicidade de histórias que versam sobre as vivências de tempos difíceis, a esperança, o amor, a mulher e África. O debate entre a tradição e a modernidade que a autora soube transferir da oralidade para o papel.
Publicou as seguintes obras: Balada de amor ao vento (1990), Ventos do apocalipse (1993), O sétimo juramento (2000) e Niketche: uma história de poligamia (2002), O alegre canto da perdiz (2008), As andorinhas (2009), Na mão de Deus (2012), Por quem vibram os tambores do além (2013), Eu, mulher por uma nova visão do mundo (2013) .
A sua colaboração com a Cruz Vermelha de Moçambique, contribuiu para uma aproximação mais concreta à realidade vivida no país, o que também se reflete na sua escrita.
Designada, pela União Africana (UA), como embaixadora da paz para África em Julho de 2010.
:: Fonte: Nadjira/Indico Editora/Nandyala

Capa dos romances da escritora Paulina Chiziane - Editora Nadjira
"Dizem que sou romancista e que fui a primeira mulher moçambicana a escrever um romance (...), mas eu afirmo: sou contadora de estórias, estórias grandes e pequenas. Inspiro-me nos contos à volta da fogueira, minha primeira escola de arte.”
- Paulina Chiziane, na contracapa do livro "Niketche: uma história de poligamia". Lisboa: Caminho, 2002. 


PRÉMIO
2003 - Prémio José Craveirinha, pela obra “Niketche: Uma História de Poligamia”.


“Eu preciso de meu espaço, é por isso que eu escrevo. Em primeiro lugar eu escrevo para existir, eu escrevo para mim. Eu existo no mundo e a minha existência repete-se nas outras pessoas. E neste caso é um livro, que depois será lido.”
- Paulina Chiziane, em "entrevista ao 'Sarau eletrônico'". 


Paulina Chiziane - foto: Otávio de Souza
OBRAS DE PAULINA CHIZIANE EM MOÇAMBIQUE - PRIMEIRAS EDIÇÕES
:: Balada de amor ao vento (romance).1ª ed., Maputo: edição do autor, 1990; Maputo: Ndjira 2003.
:: Ventos do apocalipse(romance). Maputo: edição do autor, 1993; 1ª ed., Maputo: Ndjira, 2006.
:: O sétimo juramento (romance). 1ª ed., Maputo: 2000 ; 4ª ed., Maputo: Ndjira, 2009.
:: Niketche: uma história de poligamia (romance). 1ª ed., Maputo:2002; 6ª ed., Maputo: Ndjira, 2009.
:: O alegre canto da perdiz (romance). Maputo: Ndjira, 2008.
:: As andorinhas. (contos). 1ª ed., Maputo: Indico Editores, 2009; Maputo: Nandyala, 2013.
:: Na mão de Deus. [em co-autoria com Maria do Carmo da Silva]. Maputo: Carmo Editora, 2012.
:: Por quem vibram os tambores do além[em co-autoria com Rasta Samuel Pita e apresentação de Nataniel Ngomane]. Maputo:  Índico Editores, 2013.
:: Eu, mulher por uma nova visão do mundo. (ensaio). Maputo: Nandyala, 2013.


"A vida é como a água, nunca esquece o seu caminho. A água vai para o céu mas volta a cair na terra. Vai para o subterrâneo mas volta á superfície. A vida é um eterno ir e voltar. O corpo é apenas uma carcaça onde a alma constrói a sua morada..."
- Paulina Chiziane, em "O sétimo juramento". 4ª ed., Maputo: Ndjira, 2009.


PUBLICAÇÕES DA OBRA DE PAULINA CHIZIANE EM PORTUGAL
Paulina Chiziane - foto: (...)
:: Balada de amor ao vento. Lisboa: Editorial Caminho, 2003. 
:: Ventos do apocalipseLisboa: Editorial Caminho, 1999. 
:: O sétimo juramento. Lisboa: Editorial Caminho, 2000.
:: Niketche: uma história de poligamiaLisboa: Editorial Caminho, 2002; 
:: O alegre canto da perdiz. Lisboa: Editorial Caminho, 2008. 


"Dançar. Dançar a derrota do meu adversário. Dançar na festa do meu aniversário. Dançar sobre a coragem do inimigo. Dançar no funeral do ente querido. Dançar à volta da fogueira na véspera do grande combate. Dançar é orar. Eu também quero dançar: A vida é uma grande dança."
- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p.16.


PUBLICAÇÕES DA OBRA DE PAULINA CHIZIANE NO BRASIL
:: Niketche: uma história de poligamia(romance). São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

"Mães, mulheres. Invisíveis, mas presentes. Sopro de silêncio que dá a luz ao mundo. Estrelas brilhando no céu, ofuscadas por nuvens malditas. Almas sofrendo na sombra do céu. O baú lacrado, escondido neste velho coração, hoje se abriu um pouco, para revelar o canto das gerações. Mulheres de ontem, de hoje e de amanhã, cantando a mesma sinfonia, sem esperança de mudanças"
- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p. 101.

Paulina Chiziane - foto: rede angola

FORTUNA CRÍTICA DE PAULINA CHIZIANE
[Estudos acadêmicos - teses, dissertações, ensaios, artigos e livros]
ABREU, Denise Borille de. Nós também vamos à luta: os efeitos da guerra sobre as mulheres nas obras de Letícia Wierzchowski, Lídia Jorge e Paulina Chiziane.. In: Anais do III Colóquio Mulheres em Letras/ I Encontro Nacional Mulheres em Letras, 2011.
ADÃO, Deolinda M.. Novos espaços do feminino: uma leitura de Ventos do Apocalipse de Paulina Chiziane. In: MATA, Inocência; PADILHA, Laura Cavalcante. A mulher em África. Vozes de uma margem sempre presente. Lisboa: Edições Colibri, 2007.p. 199-207.
AFONSO, Ana Lidia da Silva. Buscando outro significado para Eva: a representação do feminino na escrita de Paulina Chiziane. In: II Congresso de Letras da UERJ - São Gonlçalo, 2005, São Gonçalo. Anais do II CLUERJ-SG. Rio de Janeiro: Botelho - Editora, 2005. v. Único.
Paulina chiziane - foto: Douglas Freitas
AGUIAR, Rafael Hofmeister de; CONTE, Daniel. De áfrica, de áfricas e outros silenciamentos: da tradição oral à materialidade ficcional de Paulina Chiziane. Signo (UNISC. Online), v. 39, p. 127-150, 2014.
ALBUQUERQUE, Soraya do Lago. O Patchwork literário de Paulina Chiziane e Toni Morrison: um estudo comparativo entre Niketche: uma história de poligamia e Beloved. (Dissertação Mestrado em Estudos de Linguagem). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2014.
ALBERGARIA ROCHA, Enilce do Carmo. O Delírio Coutumier em Édouard Glissant: Uma abordagem do romance "O Sétimo Juramento", de Paulina Chiziane.. In: Enilce Albergaria Rocha; Cláudia Lahni; Ignácio Jósé Godinho Delgado; Elizete M. Menegat; Danúbia Andrade. (Org.). Culturas e Diásporas Africanas. 1ª ed., Juiz de Fora: Editora UFJF, 2009, v. , p. 37-54.
ALÓS, Anselmo Peres. O romance de autoria feminina em Moçambique: Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane. Dossiê, TODAS AS LETRAS T, v. 14, n. 2, 2012. Disponível no link. (acessado em 17.5.2015).
ARAUJO, Erika Tonelli de. Um olhar sobre a cultura e sociedade em Moçambique: a ficção e a realidade em Nicketche: uma História de Poligamia, de Paulina Chiziane. (Dissertação Mestrado em Sociologia). Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, UNESP, 2009.
BEZERRA, Rosilda Alves. Estratégias do feminino e identidade de gênero na ficção de Paulina Chiziane. In: Antonio de Paduas Dias da Silva; Maria Goretti Ribeiro. (Org.). Rumos dos estudos de gênero e de sexualidades na agenda contemporânea. 1ª ed., Campina Grande: EDUEPB, 2013, v. 1, p. 189-202.
BEZERRA, Rosilda Alves. Identidades sociais e sujeitos deslocados em Balada de amor ao vento de Paulina Chiziane. In: VI Colóquio Nacional Representações de Gênero e de Sexualidades, 2010, Campina Grande. Colóquio Nacional Representações de Gêneros e de Sexualidades. Campina Grande: REALIZE, 2010. v. 1. p. 1-8.
BEZERRA, Rosilda Alves. O entre-lugar e os conflitos ideológicos nas narrativas de Chinua Achebe e Paulina Chiziane. In: XIII Congresso Internacional da ABRALIC, 2013, Campina Grande. Internacionalização do Regional. Campina Grande: REALIZE, 2013. v. 1. p. 1-10.
BEZERRA, Rosilda Alves; DUARTE, Zuleide. A mulher moçambicana e sua relação com a guerra em Ventos do apocalipse, de Paulina Chiziane. Mulemba, v. 1, p. 84-98, 2014.
BEZERRA, Rosilda Alves; GERMANO, Patricia Gomes. Abandono e errância: a busca identitária em Léonora Miano e Paulina Chiziane. A Cor das Letras (UEFS), v. 12, p. 199-222, 2011.
BOTOSO, Altamir; DOCA, Heloisa Helou; GIANINI, Elaine Aparecida Prado. Vozes femininas na literatura moçambicana: Paulina Chiziane, Noémia de Souza, Lina Magaia, Lilia Momplé. In: Altamir Botoso. (Org.). Metamorfoses Narrativas: estudos de textos de ficção. 1ª ed., Bauru: Canal 6, 2014, v. 1, p. 133-159.
BOTOSO, Altamir; PIOLA, R. P. F. . A construção do espaço no romance Niketche: uma história de poligamia, de Paulina Chiziane. In: Altamir Botoso; Heloisa Helou Doca. (Org.). Estudos de Literatura Africana Contemporânea. 1ª ed., Bauru: Canal 6, 2012, v. 1, p. 143-178.
BRAGA, Samantha Simões. Na dança das convenções:uma leitura do romance Niketche - uma história de poligamia,de Paulina Chiziane. Labirintos (UEFS), v. 2, p. 6-12, 2007. Disponível no link. (acessado em 17.5.2015).
BRAUN, Ana Beatriz Matte. Multiculturas, pluralidades, poligamia: o contexto da literatura moçambicana e Niketche, de Paullina Chiziane. Eletras (UTP), v. 16, p. 1-16, 2008.
CARMO, Igor Fernando Xanthopulo. Dimensões do herói moçambicano em As Andorinhas de Paulina Chiziane. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade de São Paulo, USP, 2015.
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CESAR, Rafael Domingues Lenz. Mulheres negras, sexualidades e a herança das relações coloniais: nuances reveladas em Balada de Amor ao Vento, de Paulina Chiziane, e O Olho mais Azul, de Toni Morrison. Mulemba, v. 2, p. 1-12, 2010.
Paulina Chiziane - foto: (...)
CESAR, Rafael Domingues Lenz. Mulheres negras e o paradigma colonial: afetividades, sexualidades e outros exercícios revelados em Balada de amor ao vento, de Paulina Chiziane, e O olho mais azul, de Toni Morrison. In: Anais eletrônicos do Fazendo Gênero 9 - Diásporas, Diversidades, Deslocamentos, 2010.
CESÁRIO, Irineia Lina. Niketche: a dança da criação do amor poligâmico. (Dissertação Mestrado em Literatura e Crítica Literária).  Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC-SP, 2008.
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CHAVES, Rita. Marcas da diferença: as literaturas africanas de língua portuguesa. São Paulo: Alameda, 2006.
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Paulina Chiziane - foto: (...)
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Paulina Chiziane - foto: Rafael Medeiros
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GODOY, Márcia Denise de Oliveira. As imagens da incestualidade nas narrativas de Mia Couto e Paulina Chiziane. Sociopoética (UEPB), v. 1, p. 103/2-109, 2008.
GONÇALVES, Adelto. O feminismo negro de Paulina Chiziane. In: Passagens para o Índico: encontros brasileiros com a literatura moçambicana, de Rita Chaves e Tania Macêdo (organizadoras). Maputo:  Marimbique Conteúdos e Publicações, 2012, pp. 33-41. Disponível no link. (acessado em 17.5.2015).
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LARANJEIRA, Pires. A negritude africana de língua portuguesa. Porto: Afrontamento, 1995.
LEITE, Ana Mafalda. Oralidades e escritas nas literaturas africanas.Lisboa: Edições Colibri, 1998.
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LINS, Cleuma Regina Ribeiro da Rocha. Oralidade e polifonia em Niketche, uma estória de poligamia, de Paulina Chiziane: construção e afirmação da identidade feminina e cultural de Moçambique. (Dissertação Mestrado em Linguística). Universidade Federal da Paraíba, UFPB, 2009.
Paulina Chiziane - foto: (...)
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MACÊDO, Tania; MAQUÊA, Vera. Literaturas de língua portuguesa – Moçambique. São Paulo: Arte & Ciência, 2007.
MATA, Inocência. O sétimo juramento, de Paulina Chiziane – uma alegoria sobre o preço do poder. In: SCRIPTA. Belo Horizonte, v4, n.8, p.187-191.
MATA, Inocência. Paulina Chiziane: uma coletora de memórias imaginadas. In: Metamorfoses 1.Rio de Janeiro: Cosmos, 2000, p.135-142.
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MENDES, Algemira de Macêdo; CIARLINI, D. C. B.. O pós-colonialismo no Canto Alegre da Perdiz, de Paulina Chiziane. Contexto: Revista do Programa de Pós-graduação em Letras, v. 26, p. 7-15, 2014.
MENDES, Algemira de Macêdo; LINS, M.. Niketche, a Polygamy Story, by Paulina Chiziane, and the writing of oneself. In: Marleide Lins. (Org.). IDENTIDADES E DIVERSIDADE CULTURAL: etnia e gênero. 1ª ed., LISBOA: CEIPHAR / ITM, 2014, v. 1, p. 7-22.
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Paulina Chiziane - foto: Debate
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Paulina chiziane - foto: Douglas Freitas
EXCERTOS E CITAÇÕES DA OBRA DE PAULINA CHIZIANE

"Digo-vos, porém, que cada mundo tem a sua beleza. Há os que consideram belas as mulheres de pele clara. Outros acham belas as feições harmoniosas e o caminhar elegante. Ainda há quem considere belas aquelas que transportam enormes abóboras no traseiro. É como vos digo, cada mundo tem a sua beleza. No campo é mais belo o rosto queimado de sol. São belas as pernas fortes e musculosas, os calcanhares rachados que galgam quilômetros para que em sua casa nunca falte água, nem milho, nem lume. São belas as mãos calosas, os corpos que lutam ao lado do sol, do vento e da chuva para fazer da natureza o milagre de parir a felicidade e a fortuna."

- Paulina Chiziane, em "Balada de amor ao vento". Lisboa: Editorial Caminho, 2003. 


"Amor. Tão pequena, esta palavra. Palavra bela, preciosa.Sentimento forte e inacessível. Quatro letras apenas, gerando todos os sentimentos do mundo. As mulheres falam de amor. Os homens falam de amor. Amor que vai, amor que vem, que foge, que se esconde, que se procura, que se encontra, que se preza, que se despreza, que causa ódios e acende guerras sem fim. No amor, as mulheres são um exército derrotado, é preciso chorar. Depor as armas e aceitar a solidão. Escrever poemas e cantar ao vento para espantar as mágoas. O amor é fugaz como a gota de água na palma da mão."

- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p.13.


"Olho para todas elas. Mulheres cansadas, usadas. Mulheres belas, mulheres feias. Mulheres novas, mulheres velhas. Mulheres vencidas na batalha do amor. Vivas por fora e mortas por dentro, eternas habitantes das trevas. Mas por que se foram embora os nossos maridos, por que nos abandonam depois de muitos anos de convivência? Por que nos largam como trouxas, como fardos, para perseguir novas primaveras e novas paixões? Por que é que, já na velhice, criam novos apetites? Quem disse aos homens velhos que as mulheres maduras não precisam de carinho?" 

- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". Lisboa: Caminho, 2002, p. 14.


"Tento beijar-lhe o rosto. Não a alcanço. Beijo-lhe então a boca, e o beijo sabe a beijo e vidro. Ah, meu espelho confidente. Ah, meu espelho estranho. Espelho revelador. Vivemos juntos desde que me casei. Porque só hoje me revelas o teu poder?"

- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". Lisboa: Caminho, 2002, p. 19.


"O vermelho atrai os búfalos, os touros. A fruta madura atrai a fome e a cobiça de todos os pássaros. As flores atraem todos os olhos humanos. O segredo da sedução reside na cor. Imita a natureza e veste-te de flor, para atrair todos os olhos e despertar desejos escondidos. Homem é bicho sonoro. No sibilar dos pinhais dorme, sonha. No farfalhar das palmeiras se extasia. No canto do pássaro se encanta. No soprar de uma flauta se enleva. No silvar de uma serpente se espanta. Faz a tua armadilha sonora. Tira dessa tua flauta a voz que embala, assim meiga, sussurrada, cantada, pausada. Tira desse pinhal o sibilar divino para repousar o seu cansaço. Se gritas como serpente espantas a caça."

- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". Lisboa: Caminho, 2002, p. 42-43.



"Mulher é linha curva. Curvo são os movimentos do sol e da lua. Curvo é o movimento da colher de pau na panela de barro. Curva é a posição de repouso. Já reparaste que todos os animais se curvam ao dormir? Nós, mulheres, somos um rio de curvas superficiais e profundas em cada palmo do corpo. As curvas mexem as coisas em círculo. Homem e mulher se unem numa só curva no serpentear dos caminhos. Curvos são os lábios e os beijos. Curvo é útero. Ovo. Abóbada celeste. As curvas encerram todo os segredos do mundo."
- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". Lisboa: Caminho, 2002, p. 43. 


"Poligamia é uma rede de pesca lançada ao mar. Para pescar mulheres de todos os tipos. Já fui pescada. As minhas rivais, minhas irmãs, todas, já fomos pescadas. Afiar os dentes, roer a rede e fugir, ou retirar a rede e pescar o pescador? Qual a melhor solução?"
- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". Lisboa: Caminho, 2002, p. 93.


"Cerramos as nossas bocas e as nossas almas. Por acaso temos direito à palavra? E por mais que a tivéssemos, de que valeria? Voz de mulher serve para embalar as crianças ao anoitecer. Palavra de mulher não merece crédito. Aqui no sul, os jovens iniciados aprendem a lição: confiar numa mulher é vender a tua alma. Mulher tem língua comprida, de serpente. Mulher deve ouvir, cumprir, obedecer."

- Paulina Chiziane, em "Niketche: uma história de poligamia". São Paulo: Companhia das Letras, 2004, p.154.


Paulina Chiziane festejando em Quelimane - Praça dos Herois
21-08-2006 - foto: Carmo Editora
"Se o homem é a imagem de Deus, então Deus é um refugiado de guerra, magro e com o ventre farto de fome. Deus tem este nosso aspecto nojento, tem a cor negra da lama e não toma banho à semelhança de nós outros, condenados da terra. O Diabo, sim, esse deve ser um janota que segura os freios da vida dos homens que sucumbem."

- Paulina Chiziane, em "Ventos do apocalipse". Lisboa: Editorial Caminho, 1999.

Paulina Chiziane - foto: (...)

EDITORAS QUE PUBLICAM A OBRA DE PAULINA CHIZIANE
:: Editorial Caminho (Portugal)
:: Nadjira (Moçambique)
:: Carmo Editora (Moçambique)
:: Indico Editores (Moçambique)
:: Nandyala Livros (Moçambique)



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Paulina Chiziane - foto: Otávio de Souza
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** Página atualizada em 26.4.2016.



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2 comentários:

  1. Divulgar mais os maravilhosos autores africanos é preciso...

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