Graça Graúna - a poética indígena

Graça Graúna - foto: (...)
"dançamos a dor/ tecemos o encanto/ de índios e negros/ da nossa gente” 
- Graça Graúna, no poema "Resistência". in: Cadernos Negros 29. São Paulo: Quilombhoje, 2006, p. 120.

Graça Graúna é o pseudônimo de Maria das Graças Ferreira. (Escritora, crítica literária e professora de literatura e direitos humanos). Indígena Potiguara, nasceu em 1948, em São José do Campestre - Rio Grande do Norte. Integra o grupo de Escritores Indígenas.
É graduada, mestre e doutora em Letras, pela Universidade Federal de Pernambuco – UFPE. Pós-doutorada em Educação e Direitos Humanos, pela Universidade Metodista de São Paulo – UMESP. Professora adjunta em Literaturas de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira na Universidade de Pernambuco – UPE – Campus Garanhuns, onde coordena o Grupo de Estudos Comparados: Literatura, Memória e Interdisciplinaridade (GRUPEC-UPE).
Publicou "Canto Mestizo" (poesia, Ed. Blocos, 1999); "Tessituras da terra" (poesia, ed. M.E, 2000), "Tear da palavra" (poesia, Ed. Mulheres, 2001), "Criaturas de Ñanderu" (narrativa infantil e juvenil, Ed. Amarylis, 2010), "Contrapontos da Literatura Indígena Contemporânea no Brasil" (Mazza Edições, 2013), "Flor da mata" (haicais, Peninha Edições, 2014). Participa de várias antologias poéticas no Brasil e no Exterior.
Colaborou em jornais e revistas do Brasil e do exterior, entre eles: o Arte e Palavra (Sergipe), Suplemento Literário do Minas (BH) e o Jornal de Letras (Lisboa).
:: Fontes: Rede de Escritoras Brasileiras - REBRA / Blocos Online / Inter criaturas de Ñanderu: releituras (acessado em 2.2.2016).


Ser potiguara
– Vamu apanhá sol?
– Vamu.

De sal a sol, multiplicar a semente
pelo caminho de volta
com Tupuna sorrindo.
 
- Graça Graúna, em "Poesia para mudar o mundo". (org.). Leila Míccolis,
 Blocos online, 2013.



OBRA DE GRAÇA GRAÚNA
Graça Graúna - foto: (...)
Poesia
:: Canto mestizo. [prefácio Leila Miccolis]. 1ª ed., Maricá RJ: Editora Blocos, 1999. v. 1. 72p.
:: Tessituras da terra. [prefácio Tânia Diniz]. 2ª ed., Belo Horizonte MG: Mulheres Emergentes - Coleção Milênio, 2001. v. 1. 56p.
:: Tear da palavra. Belo Horizonte MG: M.E Edições Alternativas, coleção ME 18, 2007, 38p.

:: Flor da mata: poesia indígena (haicais).. [ilustrações Carmen Barbi; capa Letícia Santana Gomes]. 1ª ed., Belo Horizonte: Mazza Edições; Peninha Edições, 2014. v. 1. 48p.

Infanto-juvenil
 
:: Criatura de Ñanderu. [ilustrações José Carlos Lollo]. São Paulo: Edições Amarylis, 'Selo Manole', 2010, 34p.

Crônicas
:: Lugar e memória. (no prelo), 2008.


Ensaio
:: Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. 1ª ed., Belo Horizonte MG: Mazza Edições, 2012. v. 1. 200p. 

Organização
GRAÚNA, Maria das Graças Ferreira (org.). Impressões de leitura do texto. Recife PE: Editora Todas as Musas, 2015.

Organização em parceria
GRAÚNA, Maria das Graças Ferreira (org.); ALMEIDA, Magdalena (org.); SANTOS, E. M.. (org.); LEÃO, Waldenia (Org.). Direitos humanos em movimento. 1ª ed., Recife PE: Edupe, 2011. v. 1. 188p.

Graça Graúna, por (...)
Antologias e seletas (participação)
OITICICA, Christina (Org.). A nova poesia brasileira. São Paulo: Shogun Editora e Arte, 1985, p. 77.
ARAÚJO, Benito (org.). Antologia de poetas nordestinos. Recife PE: Editora Micro, 2000, p. 141-146.
ALCÂNTRA, Beatriz; SARMENTO, Lourdes (org.). Águas dos trópicos. Recife PE: Editora Bagaço; Ceará: Secult, 2000, p. 230.
BARRETO, Ricardo P.; VIANA, Antonio (org.). Leituras natalinas. Recife PE:, 2001, p. 9.
SIQUEIRA, Elizabeth Angela Santos (org.). Retratos: a poesia feminina contemporânea em Pernambuco. Recife PE: Editora Bagaço, 2004, p. 99-104.

BRASIL, Zeni (org.). Terra latina: antologia internacional. Curitiba PR: Abrali, 2005, p. 121-130.
MÍCCOLIS, Leila (org. e sel.).  Saciedade dos poetas vivos digital vol. 1. (antologia).. Blocos online, 2006. 
Disponível no link. (acessado em 3.2.2016). 
SIQUEIRA, Elizabeth; AREIAS, Laura (org.). Vozes: a  crônica feminina contemporânea em Pernambuco. Recife PE: Companhia Editora de Pernambuco, 2007, p. 95-99.
NICÁCIO, Lourdes (org.). Antologia das águas: verso e prosa. Recife PE: Editora Novo Horizonte, 2007, p. 34-35.  

DINIZ, Tania (org.). Antologia ME 18: prosa e verso. Belo Horizonte: M.E Tania Diniz, 2007, p. 45. 
DÍAZ, Julieta Noel (org.). Collar de historias y lunas: Antología de poesía de mujeres indígenas de América Latina. AA.VV. Colección Letras-Memoria-Patrimonio. Ministerio Coordinar del Patrimonio del Ecuador, Quito, 2011. 
MÍCCOLIS, Leila (org.). Poesia para mudar o mundo. vol. I. Blocos Online, 2013. Disponível no link. (acessado em 3.2.2016).
MÍCCOLIS, Leila (org.). Poesia para mudar o mundo. vol. II. Blocos Online, 2014.
Disponível no link. (acessado em 3.2.2016).
MÍCCOLIS, Leila (org.). Poesia para mudar o mundo. vol. III. Blocos Online, 2015. Disponível no link. (acessado em 3.2.2016).

Dissertação e tese
GRAÚNA, Maria das Graças Ferreira. O imaginário dos povos indígenas na literatura infantil. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, 1991.
________ . Contrapontos da Literatura indígena contemporânea no Brasil. (Tese Doutorado em Letras). Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, 2003.


Capítulos em livros (ensaios, poesia e crônica)
Graça Graúna - foto: (...)
GRAÚNA, Maria das Graças Ferreira. A recriação do mítico na prosa poética de Pascoal Motta. in: Silviano Santiago; Tania Franco Carvalhal; Luiz Costa Lima; Nádia Gotlib; Donaldo Schüller e outros. (Org.). 3º Congresso ABRALIC - Limites. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Niterói: ABRALIC, 1995, v. 2, p. 233-236.
________ . Crônica para um narrador. in: Antonio Viana e Ricardo Paes Barreto. (org.). Opúsculo de múltiplas vozes sobre o. Recife: Companhia Pacífica, 1999, v. 1, p. -.
________ . Diálogo multiétnico:história e memória de negros e índios em Toni Morrison e Vargas Llosa. in: Sonia Torres. (org.). Raízes e Rumos: perspectivas interdisciplinares em estudos americanos. Rio de janeiro: 7letras, 2001, v. , p. 435-441.
________ . A apreensão dos sonhos do homem em cecília Meireles. in: Antonio Viana. (org.). Retratos de Cecília Meireles. Recife: Editora do Organizador, 2001, v. 1, p. 23-26.
________ . Colheita. in: Lourdes Sarmento; Beatriz Alcântara. (org.). Fauna e flora dos trópicos. Fortaleza: Editora Secult, 2002, v. , p. 127-127.
________ . A nostalgia da linguagem em Osman Lins. in: Antonio Fernando Viana. (Org.). Cruzamentos poéticos
: Portugal - Brasil. Recife: Editora Nova Presença, 2002, v. ,
p. 103-108.
________ . O caminho das pedras na poesia luso-brasileira. in: Antonio Fernando Viana. (Org.). Cruzamentos poéticos: Portugal - Brasil. 58ª ed., Recife: Editora Nova Presença, 2002, v. ,  p. 53-58.
________ . Retratos. in: Elizabeth Angélia Santos Siqueira. (org.). A poesia feminina contemporânea em Pernambuco. Recife: Edições Bagaço, 2004, v. , p. 99-104.
________ . Flor de mutirões. in: Lucio Ferreira. (org.). Estas coisas cá de dentro. Recife: Edições Bagaço, 2004, v. , p. 00-00.
________ . Canción peregrina. in: Joyce Cavalcante
(org.). Talento feminino em prosa e verso. São Paulo: Rebra, 2004, v. , p. 65-68. 
________ . Identidade. in: Zeni Brasil. (org.). Terra Latina: antologia internacional. Curitiba: Abrali, 2005, v. , p. 121-130.
________ . Resistência. in: Esmeralda Ribeiro; Marcio Barbosa. (org.). Cadernos negros. São Paulo: Quilomboje, 2006, v. 29, p. 119-126.
________ . Poema torto. in: Jairo Luna. (org.). Orfeu SPAM 17/18. São Paulo: Jairo Luna, 2007, v. , p. -.
________ . Para um Canindé perdido no Tietê. in: Lourdes Nicácio. (Org.). Antologia das águas. Recife: Editora Novo Horizonte, 2007, v. , p. 34-35.
________ . Encruzilhadas poéticas em Anônio Cícero. in: Roland Walter. (org.). Seleção de artigos do Seminário As Americas: encruzilhadas glocais. Recife: NEC-UFPE, 2007, v. I, p. 319-323.
________ . Cênica. Antologia
in: Joyce Cavalcante (org.). Talento delas: prosa e verso. São Paulo: Rebra, 2007, v. , p. 65-68. 
________ . Vozes ancestrais e exclusão na literatura brasileira. in: Benedito Goms Bzerra e Jairo Nogueira Luna. (org.). Língua, literatura e ensino: subsídios teóricos e aplicados. Recife: Edupe - Editora Universidade de Prnambuco, 2009, v. 1, p. 151-162.
________ . Notas sobre o romance sonâmbulo. in: BEZERRA, B.G.; MEDEIROS, M. (org.). Educação, linguagem e ciência: práticas de pesquisa.. Recife: EDUPE, 2009, v. 1, p. 89-94. 
________ . Mulheres emergentes: fênix da poesia invencível. In: BEZERRA, B.G.; MEDEIROS, M. (org.). Educação, linguagem e ciência: práticas de pesquisa.. Recife: EDUPE, 2009, v. 1, p. 83-88. 

________ . A palavra indígena sempre existiu. in: Gabriela Saraiva de Mello e Sebastián Gerlic (org's). Memórias do movimento indígena do Nordeste. Thydêwá; Pontos de Memória, 2015, p. 4-5.  Disponível no link. (acessado em 2.2.2016).
 
Artigos e ensaios em jornais e revistas

Graça Graúna - foto: (...)
GRAÚNA, Maria das Graças Ferreira. Tiradentes confessa-se. Jornal de Letras de Lisboa, Lisboa - Portugal, p. 18-18, 1992. 
________ . Um flagrante do marginalizado na literatura brasileira.. Jornal Porantim, Brasília/DF, n.216, p. 5-5, 1999. 
________ . A nostalgia da linguagem em Osman Lins. in: II Encontro de Literatura luso-brasileira: de Camões a Osman Lins. Recife: Editora Universitária da UFPE, 1999. v. 1. p. 21-27.
________ . Encontro luso-brasileiro: perspectiva para uma literatura aplicada. in: IV Encontro de literatura luso-brasileira, 2000, Belém do São Francisco/PE. Dos rumores do Tejo aos murmúrios do São Francisco. Recife: Editora Universitaria UFPE, 2001. v. 1. p. 25-29.
________ . Diálogo múltiétnico: história e memória de índios e negros em T. Morison e V. llosa. In: Raízes e Rumos, 2001, Niterói/RJ. Raízes e Rumos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2001. v. 1. p. 435-441.

________ . Diálogo Multiétnico: história e memória de negros e índios. Raízes e Rumos Perspectivas Interdisciplinares mm Estudos Americanos Abea Uff, Rio de Janeiro, v. 1, p. 435-441, 2001.
________ ; FISCHMANN, Roseli. Literatura indígena no Brasil contemporâneo e outras questões em aberto. in: Educação & Linguagem, São Bernardo do Campo/SP, p. 266 - 276, 1 jun. 2012.
________ . O guarani - poema I. Poesia sempre, Rio de Janeiro, p. 231 - 231, 8 fev. 2013.________ . Almas peregrinas - poema II. Poesia sempre, Rio de Janeiro, p. 232 - 232, 8 fev. 2013.
________ . Canção peregrina. Poesia sempre, Rio de Janeiro, p. 229 - 230, 8 fev. 2013.

Entrevistas
LIMA, Tarsila de Andrade Ribeiro. Entrevista com Graça Graúna, escritora indígena e professora da Universidade de Pernambuco. in: Palimpsesto, nº 20, Ano 14 - 2015, p. 136-149. Disponível no link. (acessado em 2.2.2016). 



Vagamundo
Carrego cicatrizes
(...e quem não as tem?)
De algumas esqueço,
enquanto outras sangram
porque feitas de punhais-palavras.
A cada (a)talho, vago pelo mundo
para driblar esse mal
chamado coração.
 
- Graça Graúna, em "Poesia para mudar o mundo". Blocos online, 2013.


Graça Graúna - foto: Rafael Moraes

POEMAS ESCOLHIDOS DE GRAÇA GRAÚNA

Abismos
toda lua é engano
todo anjo é cruel
no abismo de eternidade
e ânsia
do corpoema
 
- Graça Graúna, em "Saciedade dos poetas vivos digital". vol. 1. (antologia)..[seleção e organização Leila Míccolis]. Blocos online, 2006.


Canción peregrina
I
Yo canto el dolor
desde el exilio
tejendo um collar
de muchas historias
y diferentes etnias
 

II
Em cada parto
y canción de partida,
a la Madre-Tierra pido refugio
al Hermano-Sol más energia
y a la Luna-Hermana
pido permiso (poético)
a fin de calentar tambores
y tecer um collar
de muchas historias
y diferentes etnias.


III
Las piedras de mi collar
son historia y memória
del flujo del espírito
de montañas y riachos
de lagos y cordilleras
de hermanos y hermanas
en los desiertos de la ciudad
o en el seno de las florestas.
 

IV
Son las piedras de mi collar
y los colores de mis guias:
amarillo
rojo
branco
y negro
de Norte a Sur
de Este a Oeste
de Ameríndia o Latinoamérica
povos excluidos.
 

V
Yo tengo um collar
de muchas historias
y diferentes etnias.
Se no lo reconocem, paciência.
Nosotros habemos de continuar
gritando
la angustia acumulada
hace más de 500 años.
 

VI
Y se nos largaren al viento?
Yo no temeré,
nosotros no temeremos.
Si! Antes del exílio
nuestro Hermano-Viento
conduce nuestras alas
al sagrado circulo
donde el amalgama del saber
de viejos y niños
hace eco en los suenos
de los excluidos.


VII
Yo tengo um collar
de muchas historias
y diferentes etnias.
 
- Graça Graúna, em "Tear da palavra". Belo Horizonte MG: M.E Edições Alternativas, coleção ME 18, 2007. 


Canto mestizo
Donde hay una voluntad
hay un camino de espera.
Apesar de las fronteras
las carceles se quebrantan.
Mira! En mi tierra mestiza
un pájaro de América canta!

Canta la Libertad, hermano!
Canta la Libertad!

Canta la fuerza del pueblo
del niño solo en la calle
del campesino y el obrero
hermanos de la Verdad.
La Libertad incendia
tu voz cruzando el aire.

Canta la Libertad, hermano!
Canta la Libertad!

- Graça Graúna, em "Canto mestizo". Maricá RJ: Editora Blocos, 1999. 


Caos climático
É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.

As folhas secas rangem sob os nossos pés.
Na ressonância o elo da nossa dor
em meio ao caos
a pavorosa imagem
de que somos capazes de expor
a nossa ganância
até não mais ouvir
nem mais chorar
nem meditar,
nem cantar...
só ganância, mais nada.

É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.
 

- Graça Graúna (outubro 2009), in: LIMA, Tarsila de Andrade Ribeiro. Entrevista com Graça Graúna(...). Palimpsesto, nº 20, Ano 14 - 2015, p. 146.


Dores d’África
Eh, meu pai!
Em vez de prantos
é melhor que cantemos.

Eh, meu pai!
É melhor que cantemos
a dor contínua
a solidária luta
de poetas-bantos
contra a tirania

- Graça Graúna, em "Canto mestizo". Maricá RJ: Blocos, 1999, p. 49.


Escritos
...e se me ponho a juntar
escritos de gozos
raízes de abraços

bem sei: não é apenas saudade
ou mesmo lembranças
a dor que me cerca

é algo mais forte
que o tempo da distância
não alivia, nem basta.

- Graça Graúna, em "Tessituras da Terra". Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001. 


Estações
O terraço da casa da velha senhora
parecia uma estação de primavera.
Faz tanto tempo...!

Cadeiras de balanço
barcos de papel, velocípedes
jarros de cacto e jasmins
encantos aos pares:
quantos sóis, quantas luas
e um punhado de estrelas.
Coisas da vida
que iluminam a alma
para manter o equilíbrio do planeta.

“...tempo de verão fazia poeira...”
os sonhos se multiplicaram
e o flamboiã ganhou tamanho
igual ao pé de feijão
(quase tocando o céu)
em meio a uma infinda
ciranda de fantasias.

Brotava uma luz
no rosto da velha senhora.
Agora,
as folhas de outono
cobrem o terraço de silêncio.

- Graça Graúna.'Estações'. em "Terra latina: antologia internacional". (org.). Zeni Brasil. Curitiba/PR: Editora Abrali, 2005, p.124.



Geografia do poema
I

O dia deu em chuvoso
na geografia do poema.
Um corpo virou cinzas
um sonho foi desfeito
e mil povos proclamaram:
- Não à violência!
A terra está sentida
de tanto sofrimento.
 
 
II
Na geografia do poema voam balas
passam na TV os seres nus
o pátio aglomerado
o chão vermelho
onde a regra do jogo
da velha é sentença
marcada na réstia
do sol quadrado.
 

III
Pelas ruas
a tristeza dos tempos
a impossibilidade do abraço.
Crianças
nos corredores da morte
nos becos da fome
consomem a miséria
matéria prima da sua sobrevivência.
 

IV
Nos quarteirões
dobrando a esquina
homens e mulheres
idôneos, cansados
a lastimar o destino
de esmolar o direito
dos tempos madrugados.


V
Se o medo se espalha
virá o silêncio
o espectro das horas
e as cores sombrias.
Se o medo se espalha
amargo será sempre o poema
 

VI
O dia deu em chuvoso
na geografia do poema
um sonho foi desfeito
mil povos pratearam.
A terra está sentida de tanto sofrimento.
Mas...
 

VII
Haverá manhã
e o sol cobrirá
com os seus raios de luz
a rosa dos ventos
 
- Graça Graúna, em "Tessituras da Terra". Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p. 46-49.


Macunaima
Do fundo da mata virgem
ele ri mui gostosamente alto
e diz: – ai que preguiça!

Coisa de sarapantar
os sons e os sentidos
espalham-se
um
três
trezentos
amarelos
brancos
pretos retintos
pícaros/ícaros
Brasil
brazis
crias de um homem submerso

- Graça Graúna, em "Canto mestizo". Maricá RJ: Editora Blocos, 1999. 



marGARIdas
Nem todas as flores
vivem gloriosamente em flor.
Uma delas sobrevive
catando os nossos restos
juntando os nossos pedaços
do playground à lixeira

marGARIda-amarela
marGARIda-do-campo
marGARIda-sem-terra
marGARIda-rasteira
marGARIda-sem-teto
marGARIda-menor

pela terra mais garrida
de maio a maio arrastando
o seu carrinho de GARI.

Catando os nossos restos
juntando os nossos pedaços
vai e vem uma marGARIda
brotar no seu jardim

- Graça Graúna, em "Tessituras da terra". Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001.



Memórias das cinzas
anjos caídos sob os viadutos
segredam sonhos
em meio ao alumbramento
de um terça-feira gorda
a legião se mistura
para renascer das cinzas
em qualquer dia de sol
ou quando a chuva vier
 

- Graça Graúna, em "Poesia para mudar o mundo". (org.). Leila Míccolis, Blocos online, 2013.


Quase haicais
Tempo de estio:
sobre a carcaça do boi
um cão faminto

***
Da serra ao mar
os ancestrais dialogam
ao som do vento

- Graça Graúna, em "Poesia para mudar o mundo". (org.). Leila Míccolis, Blocos online, 2013.
 

Quase-haikai I 
1.
Braços para o infinito
o espantalho subverte
a ferocidade do mundo


2.
Entre o sono e a vigília
o canto da cigarra
inunda o sertão


3.
Noctívaga dor-em-dor
pouso na árvore do mundo
clandestina


4.
Porque és pedra
o que dirá a poesia
sem a tua presença?

5.
Dias de sol
distendo as velhas asas
num hai kai latino

- Graça Graúna. 'Hai kais'. em "Canto mestizo". 1ª parte. Maricá/RJ: Blocos, 1999, p. 17-21.



Resistência
Ouvi do meu pai que a minha avó benzia 
e o meu avô dançava 
o bambelô na praia, e batia palmas
com as mãos encovadas
ao coco improvisado,
ritmando as paixões 
na alma da gente.             
Ouvi do meu pai que o meu avô cantava 
as noites de lua, e contava histórias
de alegrar a gente e as três Marias.

Meu avô contava:
a nossa África será sempre uma menina.
Meu pai dizia:
ô lapa de caboclo é esse Brasil, menino!
E coro entoava:
_ dançamos a dor
tecemos o encanto
de índios e negros
da nossa gente
 
- Graça Graúna,poema "Resistência". in: RIBEIRO, Esmeralda; BARBOSA, Marcio (Org.) Cadernos Negros, nº 29. São Paulo: Quilombhoje, 2006, p. 120. 


Reverso do cárcere
Na alta madrugada
o coro entoava
estamos todos aqui
no ofício de ser
criador
criatura
traçando, tecendo
das circunstâncias
vertentes.
Assim, torno a ver
no reverso do cárcere
o lado negro e cru
do ofício de escrever

- Graça Graúna. em "Tessituras da terra". Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p.36.


 
Tessituras
Ser todo coração
enquanto houver poesia:
essa ponte entre mundos apartados

- Graça Graúna. em "Tessituras da terra". Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p.31.



Uns cavaleiros
No deserto das cidades
uns cavaleiros sonham
mas sonham só
seduzidos pela mais valia.

De resto,
lugar nenhum no coração
para encantar Dulcinéias.

Onde o herói contra os moinhos?

- Graça Graúna, em "Canto mestizo". Maricá RJ: Editora Blocos, 1999, p. 45.



Graça Graúna  - foto (...)
FORTUNA CRÍTICA DE GRAÇA GRAÚNA
COELHO, Nelly Novaes (org.). Dicionário crítico de escritoras brasileiras: 1711-2001. Escrituras Editora, 2002, p. 235.

COUTINHO, Afrânio (org.). Enciclopédia de  literatura brasileira. São Paulo: Global, 2001. 
GUESSE, Érika Bergamasco. Shenipabu miyui: literatura e mito. (Tese Doutorado em Estudos Literários). Faculdade de Ciências e Letras – Unesp/Araraquara, 2014. Disponível no link. (acessado em 2.2.2016).
MARCOS, Eidson Miguel da Silva; QUEIROZ, Amarino. Graça Graúna e Inaldete Pinheiro de Andrade: invisibilizadas vozes femininas na literatura potiguar contemporânea. Caravela: revista de literatura potiguar, Natal/RN, p. 63-66.
MARCOS, Eidson Miguel da Silva; QUEIROZ, Amarino. Histórias de Resistência: memória e identidade na literatura infanto-juvenil de de Graça Graúna e Inaldete Pinheiro. In: III Encontro Nacional e II Internacional de Linguística e Literatura - ENILLI, 2015, Garanhuns/PE. Anais do ENILLI. Garanhuns/PE: Universidade de Pernambuco, 2015. v. 1. p. 704-712. 

MATOS, Cláudia Neiva de.. Escritoras indígenas: uma experiência poética-pedagógica. in: Boitatá – Revista do GT de Literatura Oral e Popular da ANPOLL, Londrina, n. 12, p. 29-51, jul-dez 2011. Disponível no link. (acessado em 2.2.2016).
OLIVEIRA, Claudio de.. Os versos indígenas. in: Diário de Cuiabá, 25.8.2010. Disponível no link. (acessado em 2.2.2016).
PALMEIRA, Francineide Santos. Vozes Femininas nos Cadernos Negros:representações de Insurgência. (Dissertação Mestrado em  em Letras e Lingüística). Universidade Federal da Bahia, UFBA, 2010.
PALMEIRA, Francineide Santos. Representações de mulheres negras sob a ótica feminina nos Cadernos Negros. Revista da Associação Brasileira de Pesquisadores(as) Negros(as) - ABPN, v. 1, p. 191-209, 2010. 
PALMEIRA, Francineide Santos. Poesia e Memória na Produção Feminina nos Cadernos Negros. Inventário (Universidade Federal da Bahia. Online), v. 7, p. 1-15, 2009. Disponível no link. (acessado em 2.2.2016). 
WALTER, Roland. Entre Gritos, Silêncios e Visões: Pós-Colonialismo, Ecologia e Literatura Brasileira. in: Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.21, 2012. Disponível no link. (acessado em 2.2.2016).
 


“A literatura indígena é um lugar de confluência de vozes silenciadas e exiladas ao longo da história há mais de 500 anos. Enraizada nas origens, esse instrumento de luta e sobrevivência vem se preservando na autohistória de escritores (as) indígenas e descendentes e na recepção de um público diferenciado, isto é, uma minoria que semeia outras leituras possíveis no universo de poemas e prosas autóctones.”
- Graça Graúna


Graça Graúna  - foto (...)
BLOGUE DA ESCRITORA GRAÇA GRAÚNA
:: Acesse AQUI
:: Contato da autora ( grauna3@gmail.com )


Utopia e cantar
uma trajetória possível:
Pindorama
 

- Graça Graúna, em "Canto mestizo". Maricá RJ: Editora Blocos, 1999.
  
 
OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: REBRA - Rede de Escritoras Brasileiras
:: (Graça Graúna) Blocos online/Saciedade dos Poetas Vivos Digital
:: Interpoética 
:: Overmundo
:: Recanto das Letras
:: Inter criaturas de Ñanderu: releituras


© Direitos reservados ao autor

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske


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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Graça Graúna - a poética indígena. Templo Cultural Delfos, fevereiro/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 3.2.2016.



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