Graça Graúna - a poética indígena

Graça Graúna - escritora, crítica literária e professora de literatura e direitos humanos


© Pesquisa, seleção, edição e organização: Elfi Kürten Fenske
Por gentileza citar conforme consta no final desse trabalho. 
Página original FEVEREIRO/2016 | ** Página revisada e atualizada SETEMBRO/2021.


"dançamos a dor/ tecemos o encanto/ de índios e negros/ da nossa gente”
 

- Graça Graúna, no poema "Resistência". in: Cadernos Negros 29. São Paulo: Quilombhoje, 2006, p. 120.



ESBOÇO BIOBIBLIOGRÁFICO DE GRAÇA GRAÚNA


Graça Graúna é o pseudônimo de Maria das Graças FerreiraIndígena Potiguara, nasceu em 1948, em São José do Campestre - Rio Grande do Norte. 

Escritora, poeta e crítica literária, é graduada, mestre e doutora em Letras pela UFPE e pós-doutora em Literatura, Educação e Direitos Indígenas pela UMESP.  Integra o grupo de Escritores Indígenas.

Professora adjunta em Literaturas de Língua Portuguesa e Cultura Brasileira na Universidade de Pernambuco – UPE – Campus Garanhuns, onde coordena o Grupo de Estudos Comparados: Literatura, Memória e Interdisciplinaridade (GRUPEC-UPE).

Publicou "Canto Mestizo" (poesia, Ed. Blocos, 1999); "Tessituras da terra" (poesia, ed. M.E, 2000), "Tear da palavra" (poesia, Ed. Mulheres, 2001), "Criaturas de Ñanderu" (narrativa infantil e juvenil, Ed. Amarylis, 2010), "Contrapontos da Literatura Indígena Contemporânea no Brasil" (Mazza Edições, 2013), "Flor da mata" (haicais, Peninha Edições, 2014).

Colaborou em jornais e revistas do Brasil e do exterior, entre eles: o Arte e Palavra (Sergipe), Suplemento Literário do Minas (BH) e o Jornal de Letras (Lisboa).

Participa de várias antologias poéticas no Brasil e no exterior e é responsável pelo site Tecido de Vozes.

:: Fontes: Rede de Escritoras Brasileiras - REBRA / Blocos Online / Inter criaturas de Ñanderu: releituras (acessado em 2.2.2016).


Ser potiguara
– Vamu apanhá sol?
– Vamu.

De sal a sol, multiplicar a semente
pelo caminho de volta
com Tupuna sorrindo.
 
- Graça Graúna, em "Poesia para mudar o mundo". (org.). Leila Míccolis,
 Blocos online, 2013.


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OBRA DE GRAÇA GRAÚNA

Poesia
:: Canto mestizo. [prefácio Leila Miccolis]. 1ª ed., Maricá RJ: Editora Blocos, 1999. v. 1. 72p.
:: Tessituras da terra. [prefácio Tânia Diniz]. 2ª ed., Belo Horizonte MG: Mulheres Emergentes - Coleção Milênio, 2001. v. 1. 56p.
:: Tear da palavra. Belo Horizonte MG: M.E Edições Alternativas, coleção ME 18, 2007, 38p.

:: Flor da mata: poesia indígena (haicais).. [ilustrações Carmen Barbi; capa Letícia Santana Gomes]. 1ª ed., Belo Horizonte: Mazza Edições; Peninha Edições, 2014. v. 1. 48p.

Infanto-juvenil
 
:: Criatura de Ñanderu. [ilustrações José Carlos Lollo]. São Paulo: Edições Amarylis, 'Selo Manole', 2010, 34p.

Crônicas
:: Lugar e memória. (no prelo), 2008.


Ensaio
:: Contrapontos da literatura indígena contemporânea no Brasil. 1ª ed., Belo Horizonte MG: Mazza Edições, 2012. v. 1. 200p. 

Organização
:: Impressões de leitura do texto. [organização Graça Graúna]. Recife, PE: Editora Todas as Musas, 2015.

Organização em parceria
:: Direitos humanos em movimento. [organização Graça Graúna, Magdalena Almeida,  E. M. Santos,  Waldenia Leão].  1ª ed., Recife PE: Edupe, 2011. v. 1. 188p.

Dissertação e tese
GRAÚNA, Maria das Graças Ferreira. O imaginário dos povos indígenas na literatura infantil. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, 1991.
GRAÚNA, Maria das Graças Ferreira. Contrapontos da Literatura indígena contemporânea no Brasil. (Tese Doutorado em Letras). Universidade Federal de Pernambuco, UFPE, 2003.

Capítulos em livros (ensaios, poesia e crônica)
Graça Graúna - foto: (...)
GRAÚNA, Maria das Graças Ferreira. A recriação do mítico na prosa poética de Pascoal MottaIn: Silviano Santiago; Tania Franco Carvalhal; Luiz Costa Lima; Nádia Gotlib; Donaldo Schüller e outros. (Org.). 3º Congresso ABRALIC - Limites. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo; Niterói: ABRALIC, 1995, v. 2, p. 233-236.
________ . Crônica para um narrador. 
In: Antonio Viana e Ricardo Paes Barreto. (org.). Opúsculo de múltiplas vozes sobre o. Recife: Companhia Pacífica, 1999, v. 1, p. -.
________ . Diálogo multiétnico: história e memória de negros e índios em Toni Morrison e Vargas Llosa. 
In: Sonia Torres. (org.). Raízes e Rumos: perspectivas interdisciplinares em estudos americanos. Rio de janeiro: 7letras, 2001, v. , p. 435-441.
________ . A apreensão dos sonhos do homem em Cecília Meireles
In: Antonio Viana. (org.). Retratos de Cecília Meireles. Recife: Editora do Organizador, 2001, v. 1, p. 23-26.
________ . Colheita
In: Lourdes Sarmento; Beatriz Alcântara. (org.). Fauna e flora dos trópicos. Fortaleza: Editora Secult, 2002, v. , p. 127-127.
________ . A nostalgia da linguagem em Osman LinsIn: Antonio Fernando Viana. (Org.). Cruzamentos poéticos: Portugal - Brasil. Recife: Editora Nova Presença, 2002, v. ,
p. 103-108.
________ . O caminho das pedras na poesia luso-brasileiraIn:Antonio Fernando Viana. (Org.). Cruzamentos poéticos: Portugal - Brasil. 58ª ed., Recife: Editora Nova Presença, 2002, v. ,  p. 53-58.
________ . RetratosIn: Elizabeth Angélia Santos Siqueira. (org.). A poesia feminina contemporânea em Pernambuco. Recife: Edições Bagaço, 2004, v. , p. 99-104.
________ . Flor de mutirões
In: Lucio Ferreira. (org.). Estas coisas cá de dentro. Recife: Edições Bagaço, 2004, v. , p. 00-00.
________ . Canción peregrina
In: Joyce Cavalcante (org.). Talento feminino em prosa e verso. São Paulo: Rebra, 2004, v. , p. 65-68. 
________ . Identidade
In: Zeni Brasil. (org.). Terra Latina: antologia internacional. Curitiba: Abrali, 2005, v. , p. 121-130.
________ . Resistência. In: Esmeralda Ribeiro; Marcio Barbosa. (org.). Cadernos negros. São Paulo: Quilomboje, 2006, v. 29, p. 119-126.
________ . Poema torto. In: Jairo Luna. (org.). Orfeu SPAM 17/18. São Paulo: Jairo Luna, 2007, v. , p. -.
________ . Para um Canindé perdido no Tietê
In: Lourdes Nicácio. (Org.). Antologia das águas. Recife: Editora Novo Horizonte, 2007, v. , p. 34-35.
________ . Encruzilhadas poéticas em Anônio Cícero
In: Roland Walter. (org.). Seleção de artigos do Seminário As Americas: encruzilhadas glocais. Recife: NEC-UFPE, 2007, v. I, p. 319-323.
________ . Cênica. Antologia. 
In: Joyce Cavalcante (org.). Talento delas: prosa e verso. São Paulo: Rebra, 2007, v. , p. 65-68. 
________ . Vozes ancestrais e exclusão na literatura brasileira
In: Benedito Goms Bzerra e Jairo Nogueira Luna. (org.). Língua, literatura e ensino: subsídios teóricos e aplicados. Recife: Edupe - Editora Universidade de Prnambuco, 2009, v. 1, p. 151-162.
________ . Notas sobre o romance sonâmbulo
In: BEZERRA, B.G.; MEDEIROS, M. (org.). Educação, linguagem e ciência: práticas de pesquisa.. Recife: EDUPE, 2009, v. 1, p. 89-94. 
________ . Mulheres emergentes: fênix da poesia invencível. In: BEZERRA, B.G.; MEDEIROS, M. (org.). Educação, linguagem e ciência: práticas de pesquisa.. Recife: EDUPE, 2009, v. 1, p. 83-88. 

________ . A palavra indígena sempre existiu. In: Gabriela Saraiva de Mello e Sebastián Gerlic (org's). Memórias do movimento indígena do Nordeste. Thydêwá; Pontos de Memória, 2015, p. 4-5.  Disponível no link. (acessado em 2.2.2016).
________ . Literatura e violência: dos saberes ancestrais à exclusão. In: Denise Almeida Silva e Luana Teixeira Porto. (Org.). Pensando as Américas: narrativas e violencia. 1ed.Santa Cruz do Sul: Catarse, 2016, v. 1, p. 82-95.
________ . De Graça Graúna para os ancestrais. In: Suzane Lima Costa e Rafael Xucuru-Kariri. (Org.). Cartas para o Bem Viver. 1ª ed., Salcador: Boto-Cor-de-Rosa livros arte e café, 2020, v. 1, p. 1-308. Disponível no link. (acessado em 23.9.2021).
 
Artigos e ensaios em jornais e revistas

GRAÚNA, Maria das Graças Ferreira. Tiradentes confessa-se. Jornal de Letras de Lisboa, Lisboa - Portugal, p. 18-18, 1992. 
________ . Um flagrante do marginalizado na literatura brasileira.. Jornal Porantim, Brasília/DF, n.216, p. 5-5, 1999. 
________ . A nostalgia da linguagem em Osman Lins. in: II Encontro de Literatura luso-brasileira: de Camões a Osman Lins. Recife: Editora Universitária da UFPE, 1999. v. 1. p. 21-27.
________ . Encontro luso-brasileiro: perspectiva para uma literatura aplicada. in: IV Encontro de literatura luso-brasileira, 2000, Belém do São Francisco/PE. Dos rumores do Tejo aos murmúrios do São Francisco. Recife: Editora Universitaria UFPE, 2001. v. 1. p. 25-29.
________ . Diálogo múltiétnico: história e memória de índios e negros em T. Morison e V. llosa. In: Raízes e Rumos, 2001, Niterói/RJ. Raízes e Rumos. Rio de Janeiro: 7 Letras, 2001. v. 1. p. 435-441.

________ . Diálogo Multiétnico: história e memória de negros e índios. Raízes e Rumos Perspectivas Interdisciplinares mm Estudos Americanos Abea Uff, Rio de Janeiro, v. 1, p. 435-441, 2001.
________ ; FISCHMANN, Roseli. Literatura indígena no Brasil contemporâneo e outras questões em aberto. in: Educação & Linguagem, São Bernardo do Campo/SP, p. 266 - 276, 1 jun. 2012.
________ . O guarani - poema I. Poesia sempre, Rio de Janeiro, p. 231 - 231, 8 fev. 2013.________ . Almas peregrinas - poema II. Poesia sempre, Rio de Janeiro, p. 232 - 232, 8 fev. 2013.
________ . Canção peregrina. Poesia sempre, Rio de Janeiro, p. 229 - 230, 8 fev. 2013.
________ . Dos saberes indígenas: o nosso papel também é fazer arte. In: Revista Literatura em Debate, v. 12, p. 223-230-230, 2017. Disponível no link. (acessado em 23.9.2021).

Entrevistas
LIMA, Tarsila de Andrade Ribeiro. Entrevista com Graça Graúna, escritora indígena e professora da Universidade de Pernambuco. in: Palimpsesto, nº 20, Ano 14 - 2015, p. 136-149. Disponível no link. (acessado em 2.2.2016). 

Graça Graúna, por (...)
Em Antologias e seletas (participação)
:: A nova poesia brasileira. [org. Christina Oiticica]. São Paulo: Shogun Editora e Arte, 1985, p. 77.
:: Águas dos trópicos. [org. Beatriz Alcântra e Lourdes Sarmento]. Recife PE: Editora Bagaço; Ceará: Secult, 2000, p. 230.
:: Antologia de poetas nordestinos. [org. Benito Araújo]. Recife PE: Editora Micro, 2000, p. 141-146.
:: Leituras natalinas. [org. Ricardo P. Barreto e Antonio Viana]. Recife PE:, 2001, p. 9.
:: Retratos: a poesia feminina contemporânea em Pernambuco. [org. Elizabeth Angela Santos]. Recife PE: Editora Bagaço, 2004, p. 99-104.
:: Terra latina: antologia internacional. [org. Zeni Brasil]. Curitiba PR: Abrali, 2005, p. 121-130.
:: Cadernos Negros. vol. 29: poemas afro-brasileiros. [org. Esmeralda Riberio e Márcio Barbosa]. São Paulo: Quilombhoje, 2006. 
:: Saciedade dos poetas vivos. digital vol. 1. (antologia)..  [org. e seleção Leila Míccolis]. Blocos online, 2006. Disponível no link. (acessado em 3.2.2016). 
:: Antologia ME 18: prosa e verso. [org. Tania Diniz]. Belo Horizonte: M.E Tania Diniz, 2007, p. 45. 
:: Vozes: a  crônica feminina contemporânea em Pernambuco. [org. Elizabeth Siqueira e Laura Areias]. Recife PE: Companhia Editora de Pernambuco, 2007, p. 95-99.
:: Antologia das águas: verso e prosa. [org. Lourdes Nicácio]. Recife PE: Editora Novo Horizonte, 2007, p. 34-35.  
:: Collar de historias y lunas: Antología de poesía de mujeres indígenas de América Latina. [Julieta Noel Díaz]. AA.VV. Colección Letras-Memoria-Patrimonio. Ministerio Coordinar del Patrimonio del Ecuador, Quito, 2011. 
:: Poesia para mudar o mundo. vol. I. [org. e seleção Leila Míccolis]. Blocos Online, 2013. Disponível no link. (acessado em 3.2.2016).
:: Poesia para mudar o mundo. vol. II. [org. e seleção Leila Míccolis]. Blocos Online, 2014. Disponível no link. (acessado em 3.2.2016).
:: Poesia para mudar o mundo. vol. III. [org. e seleção Leila Míccolis]. Blocos Online, 2015. Disponível no link. (acessado em 3.2.2016).
:: Educação em rede . vol. 7 -  Culturas indígenas, diversidade e educação. (ensaios). Rio de Janeiro: SESC - Departamento Nacional, 2019. {autores presentes: Daniel Munduruku, Graça Graúna, Ailton Krenak, Angelise Nadal Pimenta, Bruno Kaingang, Edson Kayapó, Gersem Baiwa, José Ribamar Bessa Freira, Rita Gomes do Nascimento}Disponível no link. (acessado em 23.9.2021). 
:: Poesia indígena hoje: resiliência. [organização Beatriz Azevedo e Julie Dorrico]. Dossiês 1. Revista p-o-e-s-i-a, n. 1 . 2020. {“Cardumes poéticos” - conta com participação de: Ailton Krenak, Aline Pachamama (puri), Auritha Tabajara, Ãtekáy (pataxó), Eliane Potiguara, Edson Krenak, Graça Graúna (potiguara/RN), Gustavo Caboco (wapichana), Ian Wapichana, Itayná Ranny Tuxá, Jamile Nunes (parintintim), Juliana Kerexu (guarani), Julie Dorrico (makuxi), Marcia Mura, Marcia Kambeba, Olivio Jecupé (guarani), Renata Machado (Tupinambá), Tiago Hakiy (mawé), Yaguaré Yamã (sateré-mawé) e Zélia Balbina (puri) | ensaios “Sementes” - conta com participação de: Daniel Munduruku, Fernanda Vieira (xocó/SE), Geni Ñunez (guarani), Jaider Esbell (makuxi), Kaka Werá (Tapuia) e Maria Elis Nunc-Nfôonro (xokleng)}. Disponível no link. (acessado em 23.9.2021).


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Graça Graúna - escritora, crítica literária e professora de literatura e direitos humanos

POEMAS ESCOLHIDOS DE GRAÇA GRAÚNA


Abismos
toda lua é engano
todo anjo é cruel
no abismo de eternidade
e ânsia
do corpoema
 
- Graça Graúna, em "Saciedade dos poetas vivos digital". vol. 1. (antologia)..[seleção e organização Leila Míccolis]. Blocos online, 2006.

§

Canción peregrina
I
Yo canto el dolor
desde el exilio
tejendo um collar
de muchas historias
y diferentes etnias
 

II
Em cada parto
y canción de partida,
a la Madre-Tierra pido refugio
al Hermano-Sol más energia
y a la Luna-Hermana
pido permiso (poético)
a fin de calentar tambores
y tecer um collar
de muchas historias
y diferentes etnias.


III
Las piedras de mi collar
son historia y memória
del flujo del espírito
de montañas y riachos
de lagos y cordilleras
de hermanos y hermanas
en los desiertos de la ciudad
o en el seno de las florestas.
 

IV
Son las piedras de mi collar
y los colores de mis guias:
amarillo
rojo
branco
y negro
de Norte a Sur
de Este a Oeste
de Ameríndia o Latinoamérica
povos excluidos.
 

V
Yo tengo um collar
de muchas historias
y diferentes etnias.
Se no lo reconocem, paciência.
Nosotros habemos de continuar
gritando
la angustia acumulada
hace más de 500 años.
 

VI
Y se nos largaren al viento?
Yo no temeré,
nosotros no temeremos.
Si! Antes del exílio
nuestro Hermano-Viento
conduce nuestras alas
al sagrado circulo
donde el amalgama del saber
de viejos y niños
hace eco en los suenos
de los excluidos.


VII
Yo tengo um collar
de muchas historias
y diferentes etnias.
 
- Graça Graúna, em "Tear da palavra". Belo Horizonte MG: M.E Edições Alternativas, coleção ME 18, 2007. 

§

Canto mestizo
Donde hay una voluntad
hay un camino de espera.
Apesar de las fronteras
las carceles se quebrantan.
Mira! En mi tierra mestiza
un pájaro de América canta!

Canta la Libertad, hermano!
Canta la Libertad!

Canta la fuerza del pueblo
del niño solo en la calle
del campesino y el obrero
hermanos de la Verdad.
La Libertad incendia
tu voz cruzando el aire.

Canta la Libertad, hermano!
Canta la Libertad!

- Graça Graúna, em "Canto mestizo". Maricá RJ: Editora Blocos, 1999. 

§

Caos climático
É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.

As folhas secas rangem sob os nossos pés.
Na ressonância o elo da nossa dor
em meio ao caos
a pavorosa imagem
de que somos capazes de expor
a nossa ganância
até não mais ouvir
nem mais chorar
nem meditar,
nem cantar...
só ganância, mais nada.

É temerário descartar
a memória das Águas
o grito da Terra
o chamado do Fogo
o clamor do Ar.
 

- Graça Graúna (outubro 2009), in: LIMA, Tarsila de Andrade Ribeiro. Entrevista com Graça Graúna(...). Palimpsesto, nº 20, Ano 14 - 2015, p. 146.

§

Dores d’África
Eh, meu pai!
Em vez de prantos
é melhor que cantemos.

Eh, meu pai!
É melhor que cantemos
a dor contínua
a solidária luta
de poetas-bantos
contra a tirania

- Graça Graúna, em "Canto mestizo". Maricá RJ: Blocos, 1999, p. 49.

§

Escritos
...e se me ponho a juntar
escritos de gozos
raízes de abraços

bem sei: não é apenas saudade
ou mesmo lembranças
a dor que me cerca

é algo mais forte
que o tempo da distância
não alivia, nem basta.

- Graça Graúna, em "Tessituras da Terra". Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001. 

§

Estações
O terraço da casa da velha senhora
parecia uma estação de primavera.
Faz tanto tempo...!

Cadeiras de balanço
barcos de papel, velocípedes
jarros de cacto e jasmins
encantos aos pares:
quantos sóis, quantas luas
e um punhado de estrelas.
Coisas da vida
que iluminam a alma
para manter o equilíbrio do planeta.

“...tempo de verão fazia poeira...”
os sonhos se multiplicaram
e o flamboiã ganhou tamanho
igual ao pé de feijão
(quase tocando o céu)
em meio a uma infinda
ciranda de fantasias.

Brotava uma luz
no rosto da velha senhora.
Agora,
as folhas de outono
cobrem o terraço de silêncio.

- Graça Graúna.'Estações'. em "Terra latina: antologia internacional". (org.). Zeni Brasil. Curitiba/PR: Editora Abrali, 2005, p.124.


§

Geografia do poema
I

O dia deu em chuvoso
na geografia do poema.
Um corpo virou cinzas
um sonho foi desfeito
e mil povos proclamaram:
- Não à violência!
A terra está sentida
de tanto sofrimento.
 
 
II
Na geografia do poema voam balas
passam na TV os seres nus
o pátio aglomerado
o chão vermelho
onde a regra do jogo
da velha é sentença
marcada na réstia
do sol quadrado.
 

III
Pelas ruas
a tristeza dos tempos
a impossibilidade do abraço.
Crianças
nos corredores da morte
nos becos da fome
consomem a miséria
matéria prima da sua sobrevivência.
 

IV
Nos quarteirões
dobrando a esquina
homens e mulheres
idôneos, cansados
a lastimar o destino
de esmolar o direito
dos tempos madrugados.


V
Se o medo se espalha
virá o silêncio
o espectro das horas
e as cores sombrias.
Se o medo se espalha
amargo será sempre o poema
 

VI
O dia deu em chuvoso
na geografia do poema
um sonho foi desfeito
mil povos pratearam.
A terra está sentida de tanto sofrimento.
Mas...
 

VII
Haverá manhã
e o sol cobrirá
com os seus raios de luz
a rosa dos ventos
 
- Graça Graúna, em "Tessituras da Terra". Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p. 46-49.

§

Macunaima
Do fundo da mata virgem
ele ri mui gostosamente alto
e diz: – ai que preguiça!

Coisa de sarapantar
os sons e os sentidos
espalham-se
um
três
trezentos
amarelos
brancos
pretos retintos
pícaros/ícaros
Brasil
brazis
crias de um homem submerso

- Graça Graúna, em "Canto mestizo". Maricá RJ: Editora Blocos, 1999. 


§

marGARIdas
Nem todas as flores
vivem gloriosamente em flor.
Uma delas sobrevive
catando os nossos restos
juntando os nossos pedaços
do playground à lixeira

marGARIda-amarela
marGARIda-do-campo
marGARIda-sem-terra
marGARIda-rasteira
marGARIda-sem-teto
marGARIda-menor

pela terra mais garrida
de maio a maio arrastando
o seu carrinho de GARI.

Catando os nossos restos
juntando os nossos pedaços
vai e vem uma marGARIda
brotar no seu jardim

- Graça Graúna, em "Tessituras da terra". Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001.


§

Memórias das cinzas
anjos caídos sob os viadutos
segredam sonhos
em meio ao alumbramento
de um terça-feira gorda
a legião se mistura
para renascer das cinzas
em qualquer dia de sol
ou quando a chuva vier
 

- Graça Graúna, em "Poesia para mudar o mundo". (org.). Leila Míccolis, Blocos online, 2013.

§

Quase haicais
Tempo de estio:
sobre a carcaça do boi
um cão faminto

***
Da serra ao mar
os ancestrais dialogam
ao som do vento

- Graça Graúna, em "Poesia para mudar o mundo". (org.). Leila Míccolis, Blocos online, 2013.
 
§

Quase-haikai I 
1.
Braços para o infinito
o espantalho subverte
a ferocidade do mundo


2.
Entre o sono e a vigília
o canto da cigarra
inunda o sertão


3.
Noctívaga dor-em-dor
pouso na árvore do mundo
clandestina


4.
Porque és pedra
o que dirá a poesia
sem a tua presença?

5.
Dias de sol
distendo as velhas asas
num hai kai latino

- Graça Graúna. 'Hai kais'. em "Canto mestizo". 1ª parte. Maricá/RJ: Blocos, 1999, p. 17-21.


§

Resistência
Ouvi do meu pai que a minha avó benzia 
e o meu avô dançava 
o bambelô na praia, e batia palmas
com as mãos encovadas
ao coco improvisado,
ritmando as paixões 
na alma da gente.             
Ouvi do meu pai que o meu avô cantava 
as noites de lua, e contava histórias
de alegrar a gente e as três Marias.

Meu avô contava:
a nossa África será sempre uma menina.
Meu pai dizia:
ô lapa de caboclo é esse Brasil, menino!
E coro entoava:
_ dançamos a dor
tecemos o encanto
de índios e negros
da nossa gente
 
- Graça Graúna,poema "Resistência". in: RIBEIRO, Esmeralda; BARBOSA, Marcio (Org.) Cadernos Negros, nº 29. São Paulo: Quilombhoje, 2006, p. 120. 

§

Reverso do cárcere
Na alta madrugada
o coro entoava
estamos todos aqui
no ofício de ser
criador
criatura
traçando, tecendo
das circunstâncias
vertentes.
Assim, torno a ver
no reverso do cárcere
o lado negro e cru
do ofício de escrever

- Graça Graúna. em "Tessituras da terra". Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p.36.


§
 
Tessituras
Ser todo coração
enquanto houver poesia:
essa ponte entre mundos apartados

- Graça Graúna. em "Tessituras da terra". Belo Horizonte: M.E. Edições Alternativas, 2001, p.31.


§

Uns cavaleiros
No deserto das cidades
uns cavaleiros sonham
mas sonham só
seduzidos pela mais valia.

De resto,
lugar nenhum no coração
para encantar Dulcinéias.

Onde o herói contra os moinhos?

- Graça Graúna, em "Canto mestizo". Maricá RJ: Editora Blocos, 1999, p. 45.


§

Vagamundo
Carrego cicatrizes
(...e quem não as tem?)
De algumas esqueço,
enquanto outras sangram
porque feitas de punhais-palavras.
A cada (a)talho, vago pelo mundo
para driblar esse mal
chamado coração.
 
 
- Graça Graúna, em "Poesia para mudar o mundo". Blocos online, 2013.



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Graça Graúna - foto: (...)

FORTUNA CRÍTICA DE GRAÇA GRAÚNA

COELHO, Nelly Novaes (org.). Dicionário crítico de escritoras brasileiras: 1711-2001. Escrituras Editora, 2002, p. 235.
COSTA, Heliene Rosa da.. Identidades e ancestralidades das mulheres indígenas na poética de Eliane Potiguara. (Tese Doutorado em Estudos Literários). Universidade Federal de Uberlândia, UFU, 2020. Disponível no link. (acessado em 23.9.2021).
COUTINHO, Afrânio (org.). Enciclopédia de  literatura brasileira. São Paulo: Global, 2001. 
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Graça Graúna - foto: (...)
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WALTER, Roland. Entre Gritos, Silêncios e Visões: Pós-Colonialismo, Ecologia e Literatura Brasileira. in: Revista Brasileira de Literatura Comparada, n.21, 2012. Disponível no link. (acessado em 2.2.2016).
 


“A literatura indígena é um lugar de confluência de vozes silenciadas e exiladas ao longo da história há mais de 500 anos. Enraizada nas origens, esse instrumento de luta e sobrevivência vem se preservando na autohistória de escritores (as) indígenas e descendentes e na recepção de um público diferenciado, isto é, uma minoria que semeia outras leituras possíveis no universo de poemas e prosas autóctones.”
- Graça Graúna


Graça Graúna  - foto (...)
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Utopia e cantar
uma trajetória possível:
Pindorama
 

- Graça Graúna, em "Canto mestizo". Maricá RJ: Editora Blocos, 1999.
  
 
OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: REBRA - Rede de Escritoras Brasileiras
:: (Graça Graúna) Blocos online/Saciedade dos Poetas Vivos Digital
:: Interpoética 
:: Overmundo
:: Recanto das Letras
:: Inter criaturas de Ñanderu: releituras


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______
** Página atualizada em 23.9.2021.
* Página original FEVEREIRO/2016.



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6 comentários:

  1. grata pela atenção aos meus escritos

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  2. grata pela atenção aos meus escritos

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  3. Cara Graça Graúna, sou doutoranda e minha tese é sobre Literatura Indígena. Tenho seu livro Contrapontos da Literatura Indígena contemporânea no Brasil (já o citei) e gostaria de obter sua dissertação de mestrado para poder ler e citar em meu trabalho. Você pode me enviar? Meu email é: madaluz@gmail.com. Muito obrigada!Meu nome é Maria da Luz Lima Sales e sou descendente de índios Tupinambá de ilha de Colares, no Pará.

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  4. Querida Madaluz: a você e a este site maravilho agradeço o carinho e a divulgação dos meus versos. Grande honra merecer a atenção de vocês. Quanto aos meus estudos no Mestrado, transformei em vários artigos e pretendo reuni-los em um só livro, ainda este ano. Qualquer novidade avisarei. Saudações indígenas, Graça Graúna

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  5. Sou Meyriane Costa,potiguara do RN.muito bom poder cooperar na visibilidade do saber e arte para as futuras gerações.Eikobé

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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