Júlia Cortines - a musa fidalga de Rio Bonito

Júlia Cortines - ilustração (iconografia BN) 
Acervo Biblioteca Nacional
Não te dirá jamais, indiferente e calma,
Da natureza a muda e implacável esfinge
A razão por que acende o desejo em tua alma/De um bem que atrai, que foge e que nunca se atinge.
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Maria Júlia Cortines Laxe, escritora, nascida em Rio Bonito, RJ, em 12 de dezembro de 1863(1) e faleceu no Rio de Janeiro (então Capital Federal), no dia 19 de março de 1948. Filha do jornalista e deputado federal João Batista Cortines Laxe e de Júlia Mesquita Cortines Laxe, gozou de educação refinada, estudando em sua terra natal, em Niterói e posteriormente no Rio de Janeiro. Autodidata, aventurou-se cedo nas letras, lendo o que lhe chegava às mãos.
Aos 13 anos, escreveu os primeiros versos aos 21, já colaborava em periódicos da Corte. Aperfeiçoou-se em literatura e desenvolveu longa carreira no magistério, abrigando em classe alunos importantes como Lúcio Costa e Haroldo Valadão.
Apesar da morte em idade avançada (85 anos), Júlia deixou um exíguo montante de dois livros, Versos (1894) e Vibrações (1905), o primeiro publicado aos 31 anos e o outro aos 42 anos, restando, para antes e depois desse intervalo, quase três décadas de silêncio, eventualmente quebrado por textos esparsos em periódicos ou adormecidos na gavetas(2). Abandonado por críticos de peso, o título inaugural veio a lume pela Leuzinger, uma das mais atuantes tipografias da nossa belle époque. O êxito crítico e editorial repetiu-se quando apareceram Vibrações. José Veríssimo, por exemplo, afirma que este livro "vale mais, muito mais, do que em geral a obra das nossas poetisas e até do que a da maioria dos nossos inúmeros poetas" (1907: 171), distanciando-se "magnificamente da poesia de água de cheiro e pó de arroz da feminina brasileira" (1907:175). Com propriedade, Sânzio de Azevedo destaca que Veríssimo a louvou tão veementemente quando ainda viviam os maiores nomes do parnasianismo no Brasil (2004: 122), o que tonifica o encômio. [...]
Entretanto, à hospitalidade pretérita sucedeu o gradual esquecimento de Júlia Cortines, sequestro circunscrito ao descaso geral com o parnasianismo: na batalha modernista, o Parnaso serviu de pode expiratório, sendo sacrificado no século XIX por pecados inventados no XX. [...]
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(1) Péricles Eugênio da Silva Ramos (1959), Afrânio Coutinho (2001) e Sânzio de Azevedo (2004) registraram o nascimento de Júlia Cortines em 1868. No entanto, da folha de rosto da biografia de Renato de Lacerda (cf. referências) consta que o livro corresponde a uma conferência por ele ministrada "na noite de 13 de dezembro de 1963, ao ensejo do 1º centenário de nascimento da grande poetisa fluminense" (1967: I), o que indicaria ter a autora nascido cinco anos antes do comumente apontado. Apesar de não termos consultado a certidão de nascimento de Júlia Cortines, há outro indicio de que o ano correto seja 1863: o biógrafo, conterrâneo da poetisa, baseou-se na Monografia de Rio Bonito (1946), de Roberto Pereira dos Santos, pesquisador que contatou a autora (cf. 1967:80).
(2) Em linguagem rebarbativa, Renato de Lacerda alude à produção contínua de Júlia Cortines: "Ao escalar as culminâncias da idade provecta, na ânsia de apreciar de mais perto as pirilâmpicas iluminuras das constelações, o estilete de sua pena octogenária ainda cinzelava marmóreas peças do mais fino lavor estilístico" (Lacerda: 1967: 37. O biógrafo transcreve três poemas inéditos da autora...
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Fonte: ARAÚJO, Gilberto. Descortinando Júlia. em "Versos - Vibrações - Júlia Cortines". [apresentação Gilberto Araújo].. (Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2010. Disponível no link.  (acessado em 11.5.2014).


livro Vibrações, Julia Cortines. Rio de Janeiro:
 Laemmert & C. – Editores, 1905.

OBRA
Poesia
:: Versos. Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894.
:: Vibrações. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Poesia reunida
:: Versos - Vibrações  de Júlia Cortines.[apresentação Gilberto Araújo].. (Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2010, 194p. Disponível no link. (acessado em 11.5.2014).


Antologia (participação)
:: Roteiro da Poesia Brasileira – Parnasianismo.  [seleção e prefácio de Sânzio de Azevedo]. São Paulo: Global Editora, 2007.
:: A poesia fluminense no século XX: antologia. [Seleção e organização Assis Brasil].. (Coleção poesia brasileira). Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; Imago; UMC, 1998, 322p.


Colaboração em jornais e revistas
Escreveu para o jornal O País, tendo sua própria coluna, "através da vida".  Colaborou com as revistas: A semana; e A Mensageira- revista literária dedicado à mulher brasileira, editada por Presciliana Duarte de Almeida.



“Júlia Cortines ... Praticamente esquecida em nossos dias, sua poesia forte e original mereceu elogios de alguns dos maiores nomes da literatura brasileira nos primeiros anos do século XX, chegando a ser considerada uma das "três Júlias" mais famosas da época, isto é, ela, Francisca Júlia da Silva (ambas poetisas) e Júlia Lopes de Almeida, romancista. Obra poética: Versos (1894) e Vibrações (1905)."



Júlia Cortines jovem
POEMAS ESCOLHIDOS

Alma Solitária
O que sentias era o que ninguém sentia:
– O ódio, o amor, a saudade, a revolta tremenda.
Não há ninguém que te ame e te console e entenda.
Ninguém compartilhou tua funda agonia.

A alma que possuir acreditaste, um dia,
Indiferente, vai a trilhar outra senda.
Do infinito deserto ergueste a tua tenda
Em meio à solidão da paisagem vazia...

E ora num voo audaz, ora num voo incerto,
Entre o fogo do céu e a areia do deserto,
A asa da aspiração finalmente cansou...

Mas a tua ansiedade e a tua angústia acalma.
– Sobre o abismo cavado entre as almas, ó alma,
Ninguém, para transpô-lo, uma ponte lançou.
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Eternidade
Eternidade d’alma! ilusória miragem,
Que a alma busca através da crença e do terror,
A idear uma calma ou sombria paragem
De infinito prazer ou de infinita dor!

Por que há de haver além, noutro mundo distante,
Um prêmio eterno para a virtude mortal?
E para o ser que vive apenas um instante
Por que há de ser eterno o castigo do mal?

Que outros pensem que um dia a efêmera ventura
Eterna possa ser, e o efêmero pesar.
Que outros pensem que irão na constelada altura,
Co’outra forma e outra essência, a vida renovar...

À minha alma debalde essa ilusão convida.
Sem crença e sem terror, é-lhe grato saber
Que por destino tem, sobre as ondas da vida,
Um instante boiar, e desaparecer...
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Anfitrite

(Sobre uma página de Fénelon)

Tinta a escama de azul e de oiro, solevando
Em seus brincos a vaga espúmea, pelo bando
Dos alegres tritões, que os búzios retorcidos
Sopram, enchendo o ar de músicos ruídos,
Acompanhados, vão os ligeiros golfinhos
Seguindo de Anfitrite o carro, que marinhos
Corcéis, – que têm na cor cetinosa do pelo
A brancura da neve e o polido do gelo,
O olhar esbraseado, a boca fumegante, –
Levam, abrindo a onda, em rota triunfante,
Deixando após, no mar tranquilo e bonançoso,
Como um rastro de luz, um sulco luminoso...

A concha de marfim, de admirável feitura,
Em que se assenta a deusa, esplêndida fulgura,
E parece voar, com as rodas doiradas,
À superfície azul das ondas acalmadas,
Seguida de um tropel de ninfas, a que o vento
Desenrola na espalda o cabelo opulento.
Ela tem a serena e fria majestade
Que afrouxa o vendaval e afrouxa a tempestade.
E, enquanto, com uma mão, empunha o cetro de oiro,

Co’a outra, sobre o joelho ampara o filho, o loiro
E tenro Palemon, de seu seio pendente.
Como um pálio, no azul se destaca, fremente,
A púrpura de um véu, que sobre o carro esplende,
E que o brando soprar dos zéfiros suspende.
Vê-se Éolo no ar, com o aspecto severo,
O semblante enrugado, o olhar sombrio e austero,
Retendo os aquilões, e rápido afastando
Para longe de si as nuvens... Transformando
A lisura do mar em prainos ondeantes
Ao crebro palpitar das narinas aflantes,
Emergem prontamente os monstros da voragem,
Para verem da deusa a brilhante passagem.
- Júlia Cortines (1887), em "Versos". Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894.


Em vão
É a ilusão, bem vejo: em tua fronte
Inda fulge um resplendor de aurora.
Tens o mesmo sorriso com que outrora
Deliciavas a minha alma insonte.

Debalde apontas para além do monte
Prainos que a ardência do verão enflora;
Asas vibrando pelos céus em fora,
Céus sem nuvens, sem raias o horizonte...

Esta grandiosa e esplêndida paisagem
Desenrolada a meu olhar – miragem
De intensidade e luz – que importa a uma alma

Que só deseja, antes da noite escura,
Haurir da tarde um pouco de frescura,
Gozar um pouco do silêncio e calma?!
- Julia Cortines (In: Lacerda, 1967: 80), poemas inéditos. Publicado em "Versos - Vibrações - Júlia Cortines". [apresentação Gilberto Araújo].. (Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 165.



Ancião africano
A testa negra sob a carapinha branca.
Da longa escravidão a tremenda tortura
Não lhe alterou da face a expressão de doçura.
Um riso bom entreabre a sua boca franca.

A vingança do peito um brado não lhe arranca;
Em seu tranquilo olhar o rancor não fulgura,
Quando, na resignada e humílima postura,
Vê se erguer uma mão que ameaça e que espanca.

Verga-lhe agora o corpo um secular cansaço;
E através desse olhar que não pensa, mas sonha,
Desse olhar a que basta um pequenino espaço,

Vê-se uma alma de paz, uma alma de bonança,
Doce, meiga, infantil, amorosa e risonha,
Como uma alma feliz e ingênua de criança.
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Entre abismos
Mistérios só, de um lado, e sombras...
Em seguida,
A estrada tortuosa e aspérrima da vida,
Onde impreca a Revolta, onde brada o Terror,
Onde geme a Saudade e se lastima a Dor,
E, co’o gesto convulso e os traços descompostos,
Batidos pelo vento, à tempestade expostos,
Atropelam-se, em doida e febril confusão,
O Desespero, a Raiva, a Cólera, a Paixão,
Cujo concerto de ais e de pragas abala
O espaço, emudecendo o temporal que estala...

Do outro lado, somente o tenebroso mar
Da morte, em que por fim tudo irá se atufar...
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Indiferente
livro Versos, Julia Cortines. Rio de
Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894
E vão assim as horas! – Vão fugindo
Um após outro os dias voadores,
Ao túmulo do olvido conduzindo
As alegrias como os dissabores,

O sonho agita as asas multicores,
E vai-se e vai-se rápido sumindo,
Enquanto a vaga quérula das dores
Soluça, e rola pelo espaço infindo...

A mim, porém a mim, a mim que importa,
A mim, cuja esperança há muito é morta,
Que o tempo, como um rio que se escoa,

Nos arrebate as ilusões que temos?!
– Deixo em descanso os fatigados remos,
E que o barco da vida boie à toa.
- Júlia Cortines (1887), em "Versos". Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894.


Soledade
Poeta, dentro de ti, desmesurado e arcano,
Ou se cava, ou se empola, ou se espedaça o oceano
De tua alma, que exala um contínuo clamor,
– Brados de imprecações e soluços de dor!

Nele canta e suspira a lânguida sereia
Do Amor; a Mágoa geme; a Cólera estrondeia;
E a essas vozes se prende a dolorida voz
Da Saudade, chorando o que ficou após...

E em torno desse mar, que ulula, e chora, e guaia,
E que o vento revolve e a aresta dos escolhos
Rasga, do mundo vês a indiferente praia...

E acima dele vês a abóbada infinita
Do céu plácido e azul, onde o esplendor dos olhos
Das estrelas, sereno e distante, palpita...
- Júlia Cortines, em "Versos". Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894.


O infinito
(G. Leopardi)
                Ao Dr. Esperidião Eloy Filho

Sempre caro me foi este ermo cole,
Mais esta sebe, que de tanta parte
O longínquo horizonte à vista oculta.
Mas, se me assento, contemplando-a, espaços
Intérminos além, e sobre-humano
Silêncio, e profundíssima quietude
Meu pensamento fantasia; e quase
Se me apavora o coração. Se o vento
Ouço fremir nas árvores, aquele
Infinito silêncio a este murmúrio
Vou comparando: e lembro-me do eterno,
Das extintas idades, da presente
E viva e rumorosa. E em meio dessa
Imensidão afogo o pensamento,
E em suas ondas naufragar me é doce.
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Sinal na fronte
(Ada Negri)

Uma estrangeira, em púrpuras e gala,
Tocou-me a fronte com um dedo, e riu-se.
                Um frêmito me abala.

E disse-me: “Um sinal tu tens na fronte,
Talhado em forma de uma cruz bizarra.
                Tens um sinal na fronte.

Dos anos teus no afortunado giro
Sempre o trarás contigo – pois abriu-o
                A boca d’um vampiro,

Que da tua existência a melhor parte
Ávido suga, e o fogo às tuas veias,
                E tem o nome de Arte.

Quantas vezes o viste, ó quantas, quando
Velavas solitária, à cabeceira,
                Famélico, te olhando!...

Foi o reino de Apolo a ti prescrito;
Mas neste séc’lo vendilhão e bárbaro
                O talento é delito.

Sus, desnuda no verso prepotente
As vivas chagas de teu peito; em face
                Há de te rir a gente.

Rica de juventude sã, doirada,
Vibra um hino de amor; e hão de chamar-te
                De doida e deslocada.

Reis e censores, com insultos crassos,
Seguir-te-ão, como o lobo segue a prea
                P’ra comê-la a pedaços.

E extinguir o sinal embalde vais;
Embalde: a luz da ideia não se extingue
                Jamais, jamais, jamais!...”

                __________
Disse. E, proterva, em trajo purpurino,
Ergue-se em frente a mim, tal como o fado.
                E eu a cabeça inclino
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


A um cadáver
Eis-te, enfim, a dormir o teu sono de morte:
Semicerrado o olhar, as pupilas serenas,
Na atitude de quem nada teme da sorte,
Deslembrado do amor e esquecido das penas.

Nada pode turbar-te em teu repouso: estala
O raio, a lacerar das nuvens os vestidos;
No espaço a luz se extingue, o estampido se cala,
Sem vir ferir-te o olhar ou ferir-te os ouvidos.

Livre, afinal, da vida a que estava sujeito,
Teu calmo coração nenhum afeto encerra,
E, em pouco, como tu, ele estará desfeito
Sob o espesso lençol da camada de terra...

A afeição, que, fiel, te acompanhava, deve
Ficar, a pouco e pouco, à tua ausência alheia.
Passaste; e o esquecimento há de apagar, em breve,
O sinal que o teu passo imprimiu sobre a areia...

Que importa? Estás dormindo o teu sono de morte:
Semicerrado o olhar, as pupilas serenas,
Na atitude de quem nada teme da sorte,
Deslembrado do amor e esquecido das penas.
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


À beira do abismo
Morta, enfim, a esperança e desfeita a quimera,
Tu chegaste da vida ao cimo da montanha,
Onde, no calmo horror da solidão que impera,
Nada mais te acompanha.

Nada mais, a não ser o encarniçado apego
À existência ante a lei implacável da sorte,
Que a teus pés abre agora o inevitável pego
Misterioso da morte.

Que há, porém, nessa crua e falaz existência,
Que tu possas querer, infeliz criatura,
Tu que dela provaste a bárbara inclemência
E a infinita amargura?

Tu que viste rolar pelo solo os escombros
De tudo o que nasceu para morrer num dia,
E a Natureza-Mãe surda à voz dos assombros,
Surda à voz da agonia;

E o Deus bom, o Deus justo, o Deus onipotente,
Que a distância, no espaço, a sua face oculta,
Insensível à fé, que exora, e indiferente
À blasfêmia, que insulta;

E o lugar de um poder a outro poder ser dado:
A lei substituir o capricho divino,
E o Homem sempre através das idades levado
Pela mão do Destino?!

Abandona-te, pois. Transpõe o curto espaço
Que te separa então do final paroxismo,
P’ra da morte cair, dado o intrépido passo,
No silencioso abismo,

Onde vai se extinguir o que a carne padece
Desde o primeiro choro ao último gemido,
E onde a ideia e a paixão, tudo desaparece
Sob as ondas do olvido...
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Sonhadores
Almas – da natureza a execrada exceção –
Em que o Sonho ateou seu nefasto clarão,
Vós que, presas à terra, a asa do pensamento
Sentis sempre a voar, em livre movimento,
Para o distante azul dos mundos ideais,
Onde o bem que buscais não existiu jamais;
Vós que abris, procurando o mistério das coisas,
Ou do futuro os véus, ou do passado as lousas,
Vendo bem quanto é vão o que hoje se ergue, e só
Se ergueu para amanhã se desfazer em pó;

Vós, a quem acenou a dolosa esperança
Co’a ventura que atrai e que nunca se alcança,
E que, em sede, ao roçar pela fonte do amor
O lábio, a água sorveis do pântano da dor;
Vós todas pela terra arrastastes os dias,
Deixando após, no chão, um rastro de agonias,
E fazendo vibrar, no espaço, em torno a nós,
A vossa revoltada ou suplicante voz,
Que ora em murmúrios geme, ora em blasfêmias grita
Da vida que heis vivido a miséria infinita!
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Nostalgia selvagem
Longe, longe, a uma grande, infinita distância,
Que não me será dado afrontar nunca mais,
Fica a terra onde vi deslizar minha infância:
Tal, sob um bosque em flor e um ar todo fragrância,
Um arroio a correr através dos juncais.

Vejo ainda essa pátria adorada e formosa:
– Densa e verde, a floresta infinda se estender
Por sob um céu azul, broslado de oiro e rosa,
E a cachoeira, como uma serpe raivosa,
Pelos flancos da serra, em convulsões, descer...

Pátria onde vive e luta uma raça valente,
Que a morte encara sem os olhos abaixar,
Que sabe opor o peito à força da corrente,
Vencer o tigre, a flecha atirar destramente,
E na mão do inimigo o tacape quebrar.

Vejo agora, – ó visão de sonhos tentadores! –
Da fronte a cabeleira a escorregar-lhe aos pés,
Tendo na brônzea pele o perfume das flores,
Ágil, esvelta e linda, a virgem dos amores,
Seminua, passar das ramas através...

Asas! Ave que vais para longe, eu quisera
Asas para transpor, como tu, a amplidão!
De um país onde fulge, eterna, a primavera,
Longe o amor me sorri e a luta chama e espera.
Asas! para fazer voar meu coração!
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Dies iræ
A esse som de trombeta e de alarma, quem há de
Dormir? Mortos, deixai a paz da sepultura
E acorrei: o que ouvis é o clarim da Saudade!

De pé! de pé! de pé! Despedaçai a dura
Lousa que sobre vós lançou o esquecimento,
Espectros do sofrer, fantasmas da ventura!

Ó divina ilusão, que um único momento
O fulgor da tua asa ante os meus olhos passe,
Deixando-os num enlevo e num deslumbramento!

Meu amor, meu amor, anima-te! renasce
Da cova em que a traição te sepultou um dia,
E une ainda uma vez a face à minha face!

Como o meu coração, em ânsias, se estorcia
Às tuas rudes mãos, fá-lo estorcer-se agora,
Minha lenta e penosa e tremenda agonia!

Todas vós que a minha alma agitastes outrora,
Ó esperança, ó alegria, ó tristeza, ó ansiedade,
Acudi a essa voz que, vibrante e sonora,
Faz rolar pelo espaço o clarim da Saudade!
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Terra ideal
Como um pássaro, abrir na amplidão do horizonte
As asas eu quisera, e a uma terra voar
Que existe para além do píncaro do monte
E para além da toalha infinita do mar.

Terra onde o pálio azul das auroras se estende,
Sem nuvens, tinto de oiro o límpido fulgor,
Por sobre um solo verde e viçoso em que esplende
A água viva, a cantar entre margens em flor;

Onde os nimbos jamais, fustigados do açoite
Dos ventos, pelos céus rolam em turbilhões,
E onde o amplo manto arrasta a tenebrosa noite
De planetas broslado e de constelações;

E que do liminar de minha adolescência,
Entre sombras, a furto e a distância, entrevi,
E que em pleno verão e em plena florescência
Da raia do horizonte ainda me sorri...

E para onde eu estendo avidamente os braços,
E para onde se lança, atraído, o meu ser,
Vendo-a sempre, através de infinitos espaços,

De meus braços fugir, de minha alma correr...
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.



Tarde de inverno

(A Cartola Cortines)

Sob o curvo cristal da imensidade
De um céu de transparência etérea e fria,
Em que do posto sol a claridade,
Azul e melancólica, radia,

Vemos o bosque, o rio, a amenidade
Das sombras, a ondulada pradaria,
Como um painel de estranha suavidade
E encantadora e rústica poesia.

Olha como o formoso fruto loiro
Salpica de pequenos pontos de oiro
Aquela verdejante laranjeira!

E além, alem, do céu no alaranjado
Fundo se esbate e avulta o recortado
E sombrio perfil da cordilheira...
- Júlia Cortines (1886), em "Versos". Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894.


Finis
Ouço um surdo, abafado e discorde ruído,
Logo após um fragor que pelos ares trona.
Qual se dum terremoto o solo sacudido
Fosse, em torno de mim tudo se desmorona.

O que é feito de vós, altivos monumentos,
Que afrontáveis do tempo os inúteis furores,
Mergulhando no azul dos largos firmamentos,
Mergulhando dos céus nos vivos resplendores?!

A asa aberta do sonho, em convulsa ansiedade,
O abrigo busca em vão, que se lhe oferecia
Outrora, se a lufada aguda da verdade
Bruscamente a seu lado as asas distendia.

O mundo está deserto e a natureza morta!
E é debalde que estendo avidamente os braços:
Tudo aquilo que nos alimenta e conforta
Abateu, e rolou pelo solo em pedaços...

E nunca brotará dessa informe ruína,
Clara, a fonte de fé, que se desliza mansa,
Nem a flor brotará da quimera divina,
Nem a palma sonora e verde da esperança!

De súbito calou-se a voz imperiosa
Que me incitava à luta e me dizia: – “Avante!
Após a negridão da noite procelosa
É que o dia é mais claro e o sol é mais brilhante!”

O alvo, que resumiu para mim o universo,
O alvo, a que convergia a minha vida inteira,
Se desfez, e voou pelos ares, disperso
Em átomos de areia, e de cinza, e poeira.

E, em derredor, a muda amplitude dum ermo
Exâmine se abriu sob um céu de granito...
E nada em baixo, à flor da planície sem termo,
E nada em cima, à flor do horizonte infinito...
- Júlia Cortines, em "Versos". Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894.


Dor eterna
O tempo – dizem – apaga
O prazer e o sofrimento
Sobre eles rolando a vaga
Sombria do esquecimento.

E transforma encantadores
Sítios, que tu, Abril, vestes
De uma gaze de esplendores,
Em sítios feios e agrestes.

E faz germinar nas águas,
Que bebe a gandra bravia,
O lírio, como das mágoas
Brota a flor da alegria.

E, no entretanto, contemplo,
Extática e dolorosa,
Entre os escombros de um templo
Desmoronado, caída

A ara ebúrnea, de que há tanto
Despenhou-se a idolatrada
Imagem, que vejo, em pranto,
De lodo vil salpicada...

Por isso, pungida à aguda
Pena, que o olvido não calma,
Diz à revolta, sanhuda
Onda do tempo a minha alma:

“– Rola túmida ou desfeita.
Que importa? – Como os granitos,
Conservo, pedaços feita,
Os caracteres inscritos.”
- Júlia Cortines (1888), em "Versos". Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894.


IV
Com triste olhar seguindo
Os pássaros, que em bando
Lá voam para o azul da montanha fronteira
Envolta na doirada e lúcida poeira,
Que foge, à proporção que o sol vai recuando
E a sombra vai subindo;

Penso no amor infindo
Que me prendeu ao brando
Raio do teu olhar; e minha alma de poeta
Deixa a sombra que a cerca, e voa, ansiosa e inquieta,
A buscar essa luz... E a luz vai recuando...

E a sombra vai subindo...
- Júlia Cortines (abril), em "Versos". Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894.


V
Do mês de Maio a luz do sol mais brando
Desce do espaço em leves frocos de ouro,
E, pelos frios ares ondulando,
Envolve a mata e espelha o sorvedouro.

Se enrola o raio aveludado e louro
Pelos ramos, aos quais, se aproximando
As horas do crepúsculo, cantando
Voltam as aves em alegre coro.

Mas nem sequer eu na janela assomo.
Só vejo a natureza morta, como
Uma sombria e desolada estepe.

É que longe de mim está: sem vê-lo,
Trago a minha alma sepultada em gelo,
Trago o meu coração envolto em crepe.
- Júlia Cortines (maio), em "Versos". Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894.


VIII
Como é doce seguir o teu rastro, ó saudade,
Se equilibras no azul, à branda claridade
De um sonhado luar, as tuas asas mansas
Doiradas pela luz das nossas esperanças,
E levas para longe o teu voo, a um passado
De sorrisos e amor e sonhos estrelado,
Onde vemos alguém, que sobre nós derrama
Do seu profundo olhar a cariciosa chama,
Fazendo rebentar das nossas fundas dores
Da crença e da alegria as perfumosas flores;
Olhar que tem do sol o claro brilho intenso,
E faz cismar no azul, no grandioso e imenso...
Olhar que dentro em nós as emoções acorda,
E faz vibrar do amor a sonorosa corda.
...............................................
- Júlia Cortines (agosto), em "Versos". Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894.


Via dolorosa
Alma, galgando vais o teu Calvário abrupto,
Em farrapos, em sangue, em lágrimas, em luto,
Por fragas arrastando, em convulsões de dor,
O lenho, que te verga ao peso esmagador.

Ruge em torno de ti a tempestade; o açoite
Do vento dilacera a cortina da noite.
Como um túrbido mar, roto pelo escarcéu,
Vês na altura rolar o proceloso céu,
E em baixo, à proporção que no espaço te elevas
Subir, rente a teus pés, um dilúvio de trevas,
Que a esperança afogou, e afogará até
A dor no turbilhão da crescente maré...

Mais um passo, e verás desse abrupto Calvário
No tope, em que branqueja um anônimo ossário,
Entre o olvido e o silêncio, o madeiro se erguer,
Onde vais, para sempre, exânime, pender...
- Júlia Cortines, em "Versos". Rio de Janeiro: Typ. Leuzinger, 1894.


Vozes da noite
Pesa a calma da noite em derredor. Um choro
  Brando às súbitas soa
No silêncio, que após um tumultuoso coro
De soluços e de ais e de gritos povoa:
– Vão e eterno clamor da humana criatura,
  Presa da desventura.

Quanta dor a gemer nessa orquestra assombrosa!
  Revoltado e dorido,
Vibra o grito de alguém, numa selva cheirosa
Pelo ascoso réptil da perfídia mordido;
De alguém, franco e viril, que a luta não abate,
  Vencido sem combate.

Ouço o rouco estertor do soldado, que, exangue,
  Após a árdua refrega,
Agoniza num solo embebido de sangue,
Enquanto ao seu olhar, que às ilusões se apega,
Se transmuda o fulgor da sagrada bandeira
  Numa sombra embusteira...
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.

Manuscrito do poema 'Por toda a parte', de Júlia Cortines
Por toda a parte
Interrogaste a vida: interrogaste o arcano,
Misterioso sentir do coração humano;
A mesta palidez serena do luar;
O murmúrio plangente e soturno do mar;
O réptil, que rasteja; o pássaro, que voa;
A fera, cujo berro as solidões atroa;
A desenfreada fúria insana do tufão;
A planta a se estorcer numa atroz convulsão.
Interrogaste, enfim, tudo o que existe, tudo:
O que chora, o que vibra, o que é imoto, o que é mudo.
Do astro eterno baixaste à transitória flor.
Que encontraste, afinal?
– A dor! a dor! a dor!
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.

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** Todos os "Poemas" aqui publicados foram extraídos de: "Versos - Vibrações - Júlia Cortines". [apresentação Gilberto Araújo].. (Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2010. Disponível no link.  (acessado em 11.5.2014).


FORTUNA CRÍTICA DE JÚLIA CORTINES
[bibliografia sobre Júlia Cortines]
Julia Cortines,  por Laeti imagens
ARAÚJO, Gilberto. Descortinando Júlia, in: "Versos - Vibrações - Júlia Cortines". [apresentação Gilberto Araújo].. (Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2010. Disponível no link. (acessado em 11.5.2014).
AZEVEDO,  Sânzio de. (pref. e seleção). Roteiro da Poesia Brasileira – Parnasianismo. São Paulo: Global Editora, 2007.
AZEVEDO, Sânzio de. O Parnasianismo na Poesia Brasileira. Fortaleza: Editora UFC; Sobral: Edições UVA, 2004.
BLAKE, Augusto Victorino Alves Sacramento. Diccionario Bibliographico Brazileiro. Quinto Volume. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1899.
COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de. Enciclopédia de Literatura Brasileira. (2 volumes).  2ª edição revisada e ampliada. São Paulo: Global Editora; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; Academia Brasileira de Letras, 2001.
CUNHA, Fausto. A poesia esquecida de Júlia Cortines. Letras e Artes - suplemento literário de A Manhã, Ano 8.º, n.º 294, 13 de abril de 1954.  Publicado em "Versos - Vibrações - Júlia Cortines". [apresentação Gilberto Araújo].. (Coleção Austregésilo de Athayde, nº 32). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2010, p. 3-10. Disponível no link.(acessado em 11.5.2014).
LACERDA, Renato de. Júlia Cortines - A musa Fidalga de Rio Bonito: traços biográficos. Niterói, 1967.
MAGALHÃES, Valentim. A Literatura Brasileira (1870-1895). Lisboa: Livraria de Antonio Maria Pereira, 1896.
MARTINS, Wilson. História da Inteligência Brasileira. Volume IV. 2.ª edição. São Paulo: T. A. Queiroz, 1996.
MUZART, Zahidé Lupinacci (Org.). Escritoras brasileiras do século XIX: antologia. Vol. II. Florianópolis: Editora Mulheres, 2004, 1178p.
PAIXÃO, Sylvia Perlingeiro. A liberdade na morte: Júlia Cortines (1868-1948). Disponível no link. (acessado em 21.05.2014).
RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Panorama da Poesia Brasileira (Volume III: Parnasianismo). Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1959.
RIBEIRO, João [N.N.]. “Crônica dos Livros”. In: A Semana, 3/11/1894.
RIBEIRO, João. Crítica. Volume II (Poetas; Parnasianismo e Simbolismo). Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 1957.
SCHUMAHER, Maria Aparecida; BRAZIL, Érico Vital. Dicionário Mulheres do Brasil: De 1500 até a atualidade (biográfico e ilustrado). São Paulo: Jorge Zahar Editor, 2000.
VERÍSSIMO, José. Uma poetisa e dous poetas. in: Estudos da literatura brasileira (sexta série). Paris; Rio de Janeiro: H. Garnier, Livreiro Editor, 1907, p. 165-185.


Última página
Antes de mergulhar no silêncio da morte,
Ou da idade sentir a fraqueza e o torpor,
Eu quisera lançar, num supremo transporte,
Meu grito de revolta e meu grito de horror.

Mas sei que por mais forte e por mais estridente
Que ela corra através do infinito, até vós,
Ó céus, que além brilhais numa paz inclemente,
Nem qual brando rumor chegará minha voz!

Mas sei que não há dor que a natureza vença,
E que nunca a fará de leve estremecer
Na sua eternidade e sua indiferença
O lamento que vem dum transitório ser

Mas sei que sobre a face execrável da terra,
Onde cada alma sente, em torno, a solidão,
Esse grito, que a dor duma existência encerra,
Não irá ressoar em nenhum coração.

Contudo, num clamor de suprema energia,
Eu quisera lançar minha voz! Mas a quem
Enviar esse brado imenso de agonia,
Se para o compreender não existe ninguém?!
- Júlia Cortines, em "Vibrações”. Rio de Janeiro: Laemmert & C. – Editores, 1905.


Júlia Cortines
REFERÊNCIAS E OUTRAS FONTES DE PESQUISA
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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Julia Cortines - a musa fidalga de Rio Bonito. Templo Cultural Delfos, maio/2014. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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Página atualizada em 16.1.2016.



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Um comentário:

  1. Quando uma poesia de um autor já não existente é lida, ele vive na alma de quem a declama, e por breves instantes sua alma cintila como Sirius em noite de verão, julia cortines você viveu em mim por poucos momentos quando sua triste poesia ecoou em minha voz.

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