Francisca Júlia – a musa impassível

Francisca Júlia - (iconografia BN)
 Acervo Biblioteca Nacional
Os argonautas
Mar fora, ei-los que vão, cheios de ardor insano;
Os astros e o luar — amigas sentinelas —
Lançam bênçãos de cima às largas caravelas
Que rasgam fortemente a vastidão do oceano.

Ei-los que vão buscar noutras paragens belas
Infindos cabedais de algum tesouro arcano...
E o vento austral que passa, em cóleras, ufano,
Faz palpitar o bojo às retesadas velas.

Novos céus querem ver, miríficas belezas,
Querem também possuir tesouros e riquezas
Como essas naus, que têm galhardetes e mastros...

Ateiam-lhes a febre essas minas supostas...
E, olhos fitos no vácuo, imploram, de mãos postas,
A áurea bênção dos céus e a proteção dos astros...
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.

Francisca Júlia da Silva Münster nasceu em Xiririca, atual Eldorado, SP, em 31 de agosto de 1871 e morreu em São Paulo, SP, em 1 de novembro de 1920, filha de Miguel Luso da Silva e de Cecília Isabel da Silva, e irmã do poeta Júlio César da Silva. Começou bem jovem sua carreira literária escrevendo sonetos para o Estado de S. Paulo, em 1891. Entre 1892 e 1895 escreveu para o Correio Paulistano. Além destes escreveu também para periódicos do Rio de Janeiro, como O Álbum, mantido por Arthur Azevedo, e A Semana, dirigido por Valentim Magalhães. Em 1895 lançou seu primeiro livro de poesias intitulado Mármores, com prefácio do filólogo e historiador João Ribeiro. Este livro foi de grande sucesso em todo o país, recebendo críticas consagradoras de Olavo Bilac e Araripe Júnior. Alguns críticos consideraram-na, em sua época, a maior poetisa da língua portuguesa.
Francisca Júlia da Silva
O livro da infância, coletânea de pequenos textos narrativos em prosa e verso, escrito em 1899, foi prefaciado pelo seu irmão Júlio César da Silva e publicado pelo Governo de São Paulo. Este livro foi adotado por escolas públicas e particulares. Foi cofundadora da revista Educação em 1902. Em 1903 lançou novo livro de poesias intitulado Esfinges, prefaciado mais uma vez pelo seu admirador João Ribeiro. Em 1909, casou com Filadelfo Edmundo Münster, telegrafista da Central do Brasil. Durante alguns anos afastou-se da vida literária dedicando-se exclusivamente ao lar. Em 1912, lança Alma infantil, coletânea de poesias, em coautoria com seu irmão Júlio César da Silva. Em 1915 voltou a publicar sonetos na revista A Cigarra. Aos 46 anos foi homenageada por poetas seus admiradores, que ofereceram um busto seu, em bronze, para a Academia Brasileira de Letras. Teve seu trabalho publicado em várias revistas, como A Mensageira, Rua do Ouvidor, Kosmos, O Pirralho, A Época, Revista do Brasil, Revista da Semana, A Vida Moderna, Comércio de Campinas, Renascença.

Em 1904, no primeiro dia do ano, Francisca Júlia foi proclamada membro efetivo do Comitê Central Brasileiro da Societá Internazionale Elleno-Latina, de Roma.
 Fonte: Biblioteca Nacional


“Em Francisca Júlia surpreendeu-me o respeito pela língua portuguesa, — não que ela transporte para a sua estrofe brasileira a dura construção clássica: mas a língua doce de Camões, trabalhada pela pena dessa meridional, — que traz para a arte escrita todas as suas delicadezas de mulher, toda a sua faceirice de moça, nada perde da sua pureza fidalga de linhas. O português de Francisca Júlia é o mesmo antigo português, remoçado por um banho maravilhoso de novidade e frescura.”
- Olavo Bilac (poeta)

Ilustração do livro Esphinges
OBRA
Marmores. São Paulo: Editora Horácio Belfort Sabino, 1895, 104p.
Livro da Infância. 1899.
Esphinges. 1ª edição, São Paulo: Monteiro Lobato e Cia, 1903, 133p.
A feitiçaria sob o ponto de vista científico (Discurso), 1908.
Alma Infantil. [em parceria com Júlio César da Silva], São Paulo:  Livraria Magalhães, 1912.
Esphinges. 2ª edição (ampliada e revisada pela autora), São Paulo: Monteiro Lobato e Cia, 1920, 168p.
Poesias (Organização Péricles Eugênio da Silva Ramos), São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962, 225p.


“Nem aqui, nem no sul nem no norte, onde agora floresce uma escola literária, encontro um nome que se possa opor ao de Francisca Júlia. Todos lhe são positivamente inferiores no estro, na composição e fatura do verso, nenhum possui em tal grau o talento de reproduzir as belezas clássicas com essa frieza severidade de forma e de epítetos que Heredia e Leconde deram o exemplo na literatura francesa.”
- João Ribeiro (filólogo e historiador)


POEMAS ESCOLHIDOS

A florista
Suspensa ao braço a grávida corbelha,
Segue a passo, tranqüila... O sol faísca...
Os seus carmíneos lábios de mourisca
Se abrem, sorrindo, numa flor vermelha.

Deita à sombra de uma árvore. Uma abelha
Zumbe em torno ao cabaz... Uma ave, arisca,
O pó do chão, pertinho dela, cisca,
Olhando-a, às vezes, trêmula, de esguelha...

Aos ouvidos lhe soa um rumor brando
De folhas... Pouco a pouco, um leve sono
Lhe vai as grandes pálpebras cerrando...

Ilustração do livro Esphinges
Cai-lhe de um pé o rústico tamanco...
E assim descalça, mostra, em abandono,
O vultinho de um pé macio e branco.
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.


A um poeta
Poeta, quando te leio, a angústia dolorida
Que te mina a existência e que em teu peito impera,
Faz-me também sofrer, d´alma se me apodera,
Como se da minh´alma ela fosse nascida.

Sinto o que sentes: ora a lágrima sincera
Que foi pela saudade ou pelo amor vertida,
Ora a mágoa que habita em tua alma, -- guarida
Onde a negra legião das mágoas se aglomera.

Não há nos versos teus um sentimento alheio
À dor; neles se encontra a aspereza das fráguas;
Há neles ora o suave e módulo gorjeio

Das aves, ora a queixa harmônica das águas...
Leio os teus versos; e, em minh´alma, quando os leio,
Vai gemendo, em surdina, a música das mágoas...
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


A um velho
Por suas próprias mãos armado cavaleiro,
Na cruzada em que entrou, com fé e mão segura,
Fez um cerco tenaz ao redor do Dinheiro,
E o colheu, a cuidar que colhia a Ventura.

Moço, no seu viver errante e aventureiro,
O peito abroquelou dentro de uma armadura;
Velho, a paz vê chegar do dia derradeiro
Entre a abundância do ouro e o tédio da fartura.

No amor, de que é rodeado, adivinha e pressente
O interesse que o move, o anima e o faz ardente;
Foge por isso ao mundo e busca a solidão.

O passado feliz o presente lhe invade,
E vive de gozar a pungente saudade
Das noites sem abrigo e dos dias sem pão.
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Alma ansiosa
Ela vai onde a leva a bondosa lembrança,
Sempre grata do largo e abençoado caminho;
Ave de arribação, palpita na esperança
De tecer outra vez, na antiga fronde, o ninho.

A alma esquece ao partir, a dor do seu espinho,
Porque parte sonhando, à medida que avança
Depois da luta, a paz, da dúvida, a confiança,
E do ermo e do abandono, o conforto e o carinho

Mas não sabe se ao final da viagem insensata,
Se afinal, para além do sonho, que a arrebata,
Desviando-se da luz, vai para a escuridão;

Sabe apenas que sente, ao voltar, tristeza
De ver-se novamente à vil matéria presa...
E fecha, sobre si, as portas da prisão.
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Ângelus
Desmaia a tarde. Além, pouco e pouco, no poente,
O sol, rei fatigado, em seu leito adormece:
Uma ave canta, ao longe; o ar pesado estremece
Do Ângelus ao soluço agoniado e plangente.

Salmos cheios de dor, impregnados de prece,
Sobem da terra ao céu numa ascensão ardente.
E enquanto o vento chora e o crepúsculo desce,
A ave-maria vai cantando, tristemente.

Nesthora, muita vez, em que fala a saudade
Pela boca da noite e pelo som que passa,
Lausperene de amor cuja mágoa me invade,

Quisera ser o som, ser a noite, ébria e douda
De trevas, o silêncio, esta nuvem que esvoaça,
Ou fundir-me na luz e desfazer-me toda.
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Aquarela
Cheio de folhas, úmido de orvalho,
Fresco, a beira de um córrego, crescia
Lindo pé de roseira em cujo galho
Uma rosa sorria.

O orvalho matinal, que o beija e molha,
Desce de cima em brancas névoas finas
E todo o pé salpica, folha a folha,
De gotas pequeninas.

Francisca Júlia
Beija-o o tímido zéfiro, que passa,
O grupo de falenas que anda a toa,
A borboleta clara, que esvoaça,
E o pássaro, que voa.

Uma moça gentil sentiu anseio
De possuir essa rosa e teve magoa
De não poder colhê-la, com receio
De molhar os pés nágua.

A roseira agitou a fronde opima,
Estremeceu, embriagada e douda,
Sob os raios do sol que lá de cima
A iluminavam toda.
A moça foi-se; o ar estava morno;
Mansamente o crepúsculo descia;
Uma abelha zumbiu da rosa em torno;
Lento, expirava o dia...

Porém nesshora a ventania brava
Que veio do alto impetuosamente,
Arranca a flor ao ramo em que se achava
E joga-a na corrente.

E a flor caiu em meio do riacho;
Do vento rijo foi sofrendo o açoite,
E escorregando em prantos, água abaixo,
Na tristeza da noite.

Nenhuma flor pode salvar-lhe a vida:
À água desceram entretanto algumas;
E a flor morreu aos poucos, envolvida
Num círculo de espumas.
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Aurora
Mensageira da luz, a brisa corre. A Aurora
Do seu leito real de tiro se levanta.
Toda a campina acorda em festa. Cada planta
Mostra o sorriso ideal da matutina Flora.

Um cheiro doce e fresco a verdura evapora.
A araponga, afinando a matinal garganta,
Grita; um pássaro geme; a patativa canta...
Todo o campo é uma orquestra harmônica e sonora.

Vara o diáfano véu da alvíssima neblina
Uma seta de sol. E a floresta, a campina,
Ainda cheias da luz de um pálido arrebol,

Descortinam-se... E em pouco, a campina, a floresta,
Cheias do riso bom da natureza em festa,
Palpitam sob a luz fecundante do sol.
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.


Crepúsculo
Todas as cousas têm o aspecto vago e mudo
Como se as envolvesse uma bruma de incenso;
No alto, uma nuvem, só, num nastro largo e extenso,
Presinta do céu calmo a caris de veludo.

Tudo: o campo, a montanha, o alto rochedo agudo
Se esfuma numa suave água-tinta... e, suspenso,
Espalhando-se no ar, como um nevoeiro denso,
Um tom neutro de cinza empoeirando tudo.

Nesthora, muita vez, sinto um mole cansaço,
Como que o ar me falta e a fôrça se me esgota...
Som de Ângelus, moroso, a rolar pelo espaço...

Neste letargo que, pouco a pouco, me invade,
Avulta e cresce dentro em mim essa remota
Sombra da minha Dor e da minha Saudade.
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Dança de centauras
Capa do livro Esphinges
[A Coelho Neto]

Patas dianteiras no ar, bocas livres dos freios,
Nuas, em grita, em ludo, entrecruzando as lanças,
Ei-las, garbosas vêm, na evolução das danças
Rudes, pompeando à luz a brancura dos seios.

A noite escuta, fulge o luar, gemem as franças;
Mil centauras a rir, em lutas e torneios,
Galopam livres, vão e vêm, os peitos cheios
De ar, o cabelo solto ao léu das auras mansas.

Empalidece o luar, a noite cai, madruga...
A dança hípica pára e logo atroa o espaço
O galope infernal das centauras em fuga:

É que, longe, ao clarão do luar que empalidece,
Enorme, aceso o olhar, bravo, do heróico braço
Pendente a clava argiva, Hércules aparece...
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Desejo inútil
[Ao querido mestre e amigo
Vicente de Carvalho]

Qualquer cousa afinal de belo escolher devo
Para em verso plasmar no esforço da obra prima:
Flor que viceja á sombra, aza que paira em cima,
Aroma de um pomar ou de um campo de trevo.

Aroma, ou asa, ou flor... Tudo o que diga e exprima
Perde, ao moldar-se em verso, o seu próprio relevo,
Porque sinto, mau grado a gloria com que escrevo,
Presa a imaginação no limite da rima.

Não vai pois provocar, e sem que isto te praza,
Minh alma, e por amor d arte que se não doma,
A mágoa que te dói e a febre que te abrasa:

O aroma, sente! Est’asa, admira! esta flor, toma!
Mas deixa continuar inexprimidas a asa,
A beleza da flor e a frescura do aroma.
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


De volta
Mais encanto que a mais populosa cidade,
Dentre tantas que viu, a sua aldeia encerra,
— Uma nesga de gleba e socalcos de serra
Sob um céu sempre azul, de ampla serenidade.

Por tudo o olhar derrama ungido de saudade,
E, evocando o passado, os tristes olhos cerra.
Neste instante feliz, nada há que mais lhe agrade
Que sentir-se entre os seus em sua própria terra.

Chega. O primeiro amigo a quem a mão aperta,
Quase à meiga pressão se esquiva, indiferente,
E de outras efusões mais vivas se liberta.

Nessa mão, que recua, outras, frias, pressente...
Antes exílio e dor, pão duro e vida incerta,
Que o desprezo arrostar da sua própria gente.
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Egito
No ar pesado, nenhum rumor, o menor grito;
Nem no chão calvo e seco o mais pequeno adorno;
Um velho ibe somente arranca um raro piorno
Que cresce pelos vãos das lájeas de granito.

A aura branda, que vem do deserto infinito,
Arrepia, ao de leve, a água do Nilo, em torno.
Corre o Nilo, a gemer, sob um calor de forno
Que, em ondas, desce do alto e invade todo o Egito.

Destacando na luz, agora o vulto absorto
De um adelo que passa, em caminho da feira,
Dá mais um tom de mágoa ao vasto quadro morto.

Bate na areia o sol. E, num sonho tranqüilo,
Pompeia, ao largo, a alvura uma barca veleira,
A tremer, a tremer sobre as águas do Nilo.
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.


Esperança
[A Alarico Silveira]

Ela, só ela é boa e piedosa a esperança,
Palma, que, sempre verde, os corações agita,
E, na sua missão de aliviar a desdita,
Enxuga o pranto, ilude a fome, o impulso amansa.

Ela, que é para o velho o que é para a criança,
Ela, que a mão de amiga estende à gente aflita,
Conduz-me para além do que meu sonho alcança,
De região em região, onde outra luz palpita.

É tão boa essa luz, que os calhaus do caminho
Hão de ser, se os houver, macios como arminho,
E de encará-la o meu olhar jamais se furta.

Só não sei em que mundo, em que estrela, em que
[esfera
A verdadeira paz entre bênçãos me espera,
Sei que o caminho é bom e a viagem é tão curta...
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Humanidade redimida
O Homem era cativo. A Humanidade, escrava,
Arrastava da Lei as pesadas correntes;
E o verbo de Jeová, colérico, ameaçava
Entre nuvens de fogo e entre sarças ardentes.

Mísero, condenado a infindável degredo,
O Homem, nas aflições e nos transes da dor,
Tinha, a apertar-lhe a gorja, a golilha do medo,
Tinha, a prender-lhe os pés, os grilhões do terror.

A todos punha a Lei no mesmo baixo nível;
Todos achavam só, em meio da desgraça,
Para os erros da Fé – o anátema terrível,
Para as faltas da vida – uma perpétua ameaça.

E os profetas de Deus, com sua voz ardente,
Como quem vai lançando as sementes ao chão,
Espalhavam assim a maldita semente
De que o Homem colheria o envenenado pão.

Mas, um dia, o clamor dos profetas calou-se.
Do alto a Luz irradiou em jorros, mal contida,
E o Templo do Senhor numa tremura doce
Correu, desde o alicerce à altiva torre erguida.

Tinha nascido enfim o Verbo feito Exemplo,
A cuja mansa voz de perdão e de dó,
Se foi desmoronando o velho e áspero Templo:
De ruínas que era então, fez-se um monte de pó.

Cristo tinha nascido; e com ele a bondade
Nas almas, e no lar do cristão a concórdia;
E desde então abriu-se a toda a Humanidade
A era feliz da Paz e da Misericórdia.
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Inconsoláveis
Almas, por que chorais, se ninguém vos responde?
Almas, por quê? Deixai as lágrimas! empós
Do Ideal correi, correi para outras plagas, onde
Não exista ninguém que escarneça de vós.

Lançai o vosso olhar a longínquas paragens,
Bem distantes daqui, cheias de ideais risonhos,
Onde as aves do amor, sacudindo as plumagens,
Passem cantando ao longe a música dos sonhos...
Ide a outras plagas onde estas misérias todas
Não consigam deixar o mínimo sinal,
Paragens onde, em meio às delirantes bodas
Dos sonhos e do amor, exulte e cante o Ideal...

Mas, não, almas! soltai a vossa queixa triste;
Contai ao mundo inteiro a vossa magoa justa;
Essa terra do Ideal, ó almas, não existe;
Inventei-a somente, e inventá-la não custa.

Pobres almas, lançai em torno a vossa vista:
Sempre haveis de encontrar essa miséria atroz.
Almas, chorai, que embora esse país exista,
Nele há de haver alguém que escarneça de vós.
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Mãe
Embora a mágoa a aflija e a sorte a oprima,
Francisca Júlia
O seu amor, como celeste esmola,
É um perfume sutil que se lhe evola
Do peito, e sobe deste mundo acima.

Com que ternura a sua voz me anima,
Quando, pelo meu rosto, o pranto rola!
Ninguém, como ela, a minha dor consola,
Ninguém, como ela, o meu pesar lastima.

Julgo-me só e chamo-a... ela não tarda!
Volta, acode-me, alegre; e, num momento,
Desfaz a dor que o coração me enluta.

Ela é a mais fiel, a mais constante guarda
Que, no meio da noite, o ouvido atento,
O meu suspiro entrecortado escuta.
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.


Mudez
Já rumores não há, não há; calou-se
Tudo. Um silêncio deleitoso e morno
Vai-se espalhando em torno
Às folhagens tranqüilas do pomar.

Torna-se o vento cada vez mais doce...
Silêncio... Ouve-se apenas o gemido
De um pequenino pássaro perdido
Que ainda espaneja as suas asas no ar.

Ouve-me, amiga, este é o silêncio, o grande
Silêncio feito só de sombra e calma,
Onde, às vezes, nossalma,
Penetrada de mágoas e de dor,
Se dilata, se expande,
E seus segredos íntimos mergulha...
Prolonga-se a mudez: nenhuma bulha;
Já se não ouve o mínimo rumor.

Esta é a mudez, esta é a mudez que fala
(Não aos ouvidos, não, porque os ouvidos
Não conseguem ouvir esses gemidos
Que ela derrama, à noite, sobre nós)
À alma de quem se embala
Numa saudade mística e tranqüila...
Nossa alma apenas é que pode ouvi-la
E que consegue perceber-lhe a voz.

Escuta a queixa tácita e celeste
Que este silêncio fala a ti, tão triste...
E hás de lembrar o dia em que tu viste
Perto de ti, pela primeira vez,
Alguém a quem disseste
Uma frase de amor, de amor... ó louca!
E que, no entanto, só mostrou na boca
A mais brutal e irônica mudez!
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Musa impassível
I
Musa! um gesto sequer de dor ou de sincero
Luto jamais te afeie o cândido semblante!
Diante de Jó, conserva o mesmo orgulho; e diante
De um morto, o mesmo olhar e sobrecenho austero.

Em teus olhos não quero a lágrima; não quero
Em tua boca o suave e idílico descante.
Celebra ora um fantasma anguiforme de Dante,
Ora o vulto marcial de um guerreiro de Homero.

Dá-me o hemistíquio d ouro, a imagem atrativa;
A rima, cujo som, de uma harmonia crebra,
Cante aos ouvidos d alma; a estrofe limpa e viva;

Versos que lembrem, com seus bárbaros ruídos,
Ora o áspero rumor de um calhau que se quebra,
Ora o surdo rumor de mármores partidos.

II
Ó Musa, cujo olhar de pedra, que não chora,
Gela o sorriso ao lábio e as lágrimas estanca!
Dá-me que eu vá contigo, em liberdade franca,
Por esse grande espaço onde o Impassível mora.

Leva-me longe, ó Musa impassível e branca!
Longe, acima do mundo, imensidade em fora,
Onde, chamas lançando ao cortejo da aurora,
O áureo plaustro do sol nas nuvens solavanca.

Transporta-me, de vez, numa ascensão ardente,
À deliciosa paz dos Olímpicos-Lares,
Onde os deuses pagãos vivem eternamente,

E onde, num longo olhar, eu possa ver contigo,
Passarem, através das brumas seculares,
Os Poetas e os Heróis do grande mundo antigo.
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.


No campo
Olhos chorosos sob as negras sobrancelhas,
Costas abaixo solta a negra trança basta,
A campônia vai guiando, a picadinhas d’hasta,
Um rebanho gentil de cândidas ovelhas.

Uma junta de bois morosa, em meio à vasta
Nava, arrastando vai umas charruas velhas...
E escutando o raspar monótono das relhas,,
Queda-se na planície um grande boi, que pasta...

E some-se o rebanho. Uma sombra flutuante
Paira sobre a extensão da planície, distante...
Na espessura a campônia esconde-se depois.

E, ao longe, sob o céu, como uma prece estranha
Que desperta a mudez do campo e da montanha,
Chora no ar o mugir dos fatigados bois.
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.


Outra vida
Se o dia de hoje é igual ao dia que me espera
Depois, resta-me, entanto, o consolo incessante
De sentir, sob os pés, a cada passo adiante,
Que se muda o meu chão para o chão de outra esfera.

Eu não me esquivo à dor nem maldigo a severa
Lei que me condenou à tortura constante;
Porque em tudo adivinho a morte a todo instante,
Abro o seio, risonha, à mão que o dilacera.

No ambiente que me envolve há trevas do seu luto;
Na minha solidão a sua voz escuto,
E sinto, contra o meu, o seu hálito frio.

Morte, curta é a jornada e o meu fim está perto!
Feliz, contigo irei, sem olhar o deserto
Que deixo atrás de mim, vago, imenso, vazio...
- Francisca Júlia, em "Poesias". (Org. Péricles Eugênio da Silva Ramos). São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962.


Francisca Júlia da Silva
Supremo
Os teus olhares feitos de carinho,
De Extrema-Uncção, de mysticos luares,
Têm na expressão, ó santa dos Altares,
A velludosa maciez do arminho.
E no doce brilhar – áureo caminho –
A profundeza intérmina dos mares...
Têm na expressão, ó Santa, os teus olhares
A velludosa maciez do arminho.
São puros como as Hóstias dos Sacrários,
têm o brilho divino de Stellarios,
quando me fitam numa uncção extrema.
São rútilos santelmos guiadores,
são as dhulias lithurgicas das dores,
da minha Crença immácula e suprema!
- Francisca Júlia da Silva, em: Cenáculo, ano 1, fasc. 3, ago. 1900. (Grafia original)


Noturno
Pesa o silêncio sobre a terra. Por extenso
Caminho, passo a passo, o cortejo funéreo
Se arrasta em direção ao negro cemitério...
À frente, um vulto agita a caçoula do incenso.

E o cortejo caminha. Os cantos do saltério
Ouvem-se. O morto vai numa rede suspenso;
Uma mulher enxuga as lágrimas ao lenço;
Chora no ar o rumor de misticismo aéreo.

Uma ave canta; o vento acorda. A ampla mortalha
Da noite se ilumina ao resplendor da lua...
Uma estrige soluça; a folhagem farfalha.

E enquanto paira no ar esse rumor das calmas
Noites, acima dele, em silêncio, flutua
O lausperene mudo e súplice das almas.
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.


Paisagem
Dorme sob o silêncio o parque. Com descanso,
Aos haustos, aspirando o finíssimo extrato
Que evapora a verdura e que deleita o olfato,
Pelas alas sem fim das árvores avanço.

Ao fundo do pomar, entre as folhas, abstrato
Em cismas, tristemente, um alvíssimo ganso
Escorrega de manso, escorrega de manso
Pelo claro cristal do límpido regato.

Nenhuma ave sequer sobre a macia alfombra
0 pousa. Tudo deserto. Aos poucos escurece
A campina, a rechã sob a noturna sombra.

E enquanto o ganso, abstrato em cismas, pelas
Selvas adentro entrando, a noite desce, desce...
E espalham-se no céu camândulas de estrelas...
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.


Pérfida
Disse-lhe o poeta: "Aqui, sob estes ramos,
Sob estas verdes laçarias bravas,
Ah! quantos beijos, trêmula, me davas!
Ah! quantas horas de prazer passamos!

Foi aqui mesmo, — como tu me amavas!
Foi aqui, sob os úmidos recamos
Desta aragem, que uma rede alçamos
Em que teu corpo, mole, repousavas.

Horas passava junto a ti, bem perto
De ti. Que gozo então! Mas, pouco a pouco,
Todo esse amor calcaste sob os pés".

"Mas, disse-lhe ela, quem és tu? De certo,
Essa mulher de quem tu falas, louco,
Não, não sou eu, porque não sei quem és..."
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.


Pranto de luar
No longo espasmo do silêncio, alegre e franca,
A alma dos ventos, ao luar, murmura e fala:
A sombra corre, e tu, lua formosa e branca,
Derramas pelo chão claras manchas de opala.

Eras mortas de amor! Ah! quem te dera tê-las!
Cessaria, de novo, o teu soluço aflito!
Eras em que, sonhando, a sós, sob as estrelas,
Tu passavas com ele através do infinito...

Mas, uma noite, o espaço todo ornado em festa,
Teu esposo partiu, enfim... (Quanto desgosto!)
E dessa desventura extreme ainda te resta
A grande palidez que te ilumina o rosto.

Partiu... Talvez que volte aos lares... Mas enquanto
Ele não volta, em vão o esperas nessa trilha;
Ficas pálida e triste, e choras; o teu pranto
Desce à terra e, ao descer, torna-se luz e brilha.

Chora, infeliz. O pranto as mágoas atenua.
Nunca te canses, dentre as nuvens, de chorar.
Se não chorasses, não teríamos, ó lua,
A poesia sem fim das noites de luar.
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


Sonho africano
[A João Ribeiro]

Ei-lo em sua choupana. A lâmpada, suspensa
Ao teto, oscila; a um canto, um velho e ervado fimbo;
Entrando, porta dentro, o sol forma-lhe um nimbo
Cor de cinábrio em torno à carapinha densa.

Estira-se no chão... Tanta fadiga e doença!
Espreguiça, boceja... O apagado cachimbo
Na boca, nessa meia escuridão de limbo,
Mole, semicerrando os dúbios olhos, pensa...

Pensa na pátria, além... As florestas gigantes
Se estendem sob o azul, onde, cheios de mágoa,
Vive, negros répteis e enormes elefantes...

Calma em tudo. Dardeja o sol raios tranqüilos...
Desce um rio, a cantar... Coalham-se à tona d’água,
Em compacto apertão, os velhos crocodilos...
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.


Vênus
[A Victor Silva]

Branca e hercúlea, de pé, num bloco de Carrara,
Que lhe serve de trono, a formosa escultura,
Vênus, túmido o colo, em severa postura,
Com seus olhos de pedra o mundo inteiro encara.

Um sopro, um quê de vida o gênio lhe insuflara;
Francisca Júlia
E impassível, de pé, mostra em toda a brancura,
Desde as linhas da face ao talhe da cintura,
A majestade real de uma beleza rara.

Vendo-a nessa postura e nesse nobre entorno
De Minerva marcial que pelo gládio arranca,
Julgo vê-la descer lentamente do trono,

E, na mesma atitude a que a insolência a obriga,
Postar-se à minha frente, impassível e branca,
Na régia perfeição da formosura antiga.
- Francisca Júlia da Silva, em "Mármores", 1895.


Visão
Eu sonhava talvez. Talvez sonhando
Estivesse nessa hora abençoada,
Em que do céu, tranquila, a vi baixando
Por uma grande e luminosa escada.

Havia em tudo as silenciosas mágoas
Das noites de luar... Pálida e nua,
Vagava pelo céu a branca lua
Tremendo toda no bulir das águas...

Vendo-a nem vi os ásperos abrolhos
Em que meus pés iam sangrando... E vi-a
Nessa atitude de quem ama, os olhos
Claros e azuis postos nos meus... E ria...

Não sei que vago sonho, que ventura
De amor sonhei naquele olhar celeste...
Vi-a envolvida numa fina veste
De vaporosa e imaculada alvura.

Desde o dia em que a vi, não sei que estranha
Felicidade me acalenta e acalma;
Vejo-a ao meu lado, sinto-a dentro dalma;
Ela por toda a parte me acompanha.

Hei de encontrá-la ainda uma vez; mas onde?
Em que plaga risonha, em que infinita
Pátria encantada essa visão habita
Que à minha voz saudosa não responde?
- Francisca Júlia da Silva, em "Esfinges", 1903.


"Pelas suas peças acabadas, Francisca Júlia merece figurar entre os parnasianos mais significativos. Mesmo em seu simbolismo, não perdeu a distinção formal que lhe caracterizava os sonetos, de modo que não lhe pode ser recusada posição de relevo. Alguns de seus sonetos místicos e finais são de alta qualidade, com eles só podendo concorrer alguns poucos de seus melhores sonetos parnasianos. O que parece não ter permitido a Francisca Júlia a conquista definitiva do primeiro plano de nossa literatura foi o abandono a que relegou sua carreira. Depois de Mármores, muito pouco produziu, chegando mesmo a aborrecer os versos dessa coleção, os seus versos antigos... Mas, embora escassa, a obra que realizou basta para assegurar-lhe, indelevelmente, permanência em nossas letras."
- Péricles Eugênio da Silva Ramos, em “introdução” ao livro "Poesias", de Francisca Júlia, São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1962, p. 37-38.

Francisca Júlia da Silva

FORTUNA CRÍTICA
ANDRADE, Mário de. Mestres do passado - II: Francisca Júlia. In: BRITO, Mário da Silva. História do modernismo brasileiro: I - antecedentes da Semana de Arte Moderna. 2ª ed. rev. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1964. p. 259-266.
ANDRADE, Mário de. Mestres do Passado II: Francisca Júlia. Jornal do Comércio, São Paulo, 1921.
ATAÍDE, Tristão de. Francisca Júlia, Esfinges. O Jornal, Rio de Janeiro, 1921.
BITTENCOUT, Adalzira. A Mulher Paulista na História. Rio de Janeiro, Livros de Portugal, 1954.
CAMARGOS, Márcia. Musa Impassível.  São Paulo: Editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/e Emurb, 2007, 132p.
CAMPOS, Milton de Godoy. Contribuições ao Estudo de Francisca Júlia. Correio Paulistano, 7 de fevereiro de 1960.
CARVALHO, Vicente de. Poetas Paulistas. A Tribuna de Santos, de 29 de dezembro de 1901.
CARVALHO, Vicente de. Uma Carta. A Cigarra, de São Paulo, 1 de julho de 1919.
COÊLHO, Célia Tamara; MASSAMBANI, Ana Paula de Lima; CORRÊA, Regina. Ângelus: influências simbolistas na obra de Francisca Júlia. In: VII Seminário de Pesquisas em Ciências Humanas, 2008, Londrina. Anais do VII SEPECH, 2008. v. 1. p. 1-10. Disponível no link. (acessado em 16.8.2013).
COELHO, Gisely Valentim Vaz. A Revisão do Papel Feminino na Educação e Cultura dos Anos 1930 e 1940: Um Estudo de Caso do Vespertino Paulistano A Gazeta. In: Anais do I Congresso de História da Mídia do Sudeste, 2010.
COLÓN, Marcos. Francisca Júlia uma poeta mais que parnasiana. Human Bookworn - Polilla Humana - Traça Humana, 16.03.2013. Disponível no link. (acessado em 16.8.2013).
GIACHINI NETO, Emilio; LÍMOLI, Loredana. Francisca Júlia, Herdeira de Herédia. Revista Humanidades. Letras (FEOB), São João da Boa Vista-SP, p. 111-119, 2004.
HUYSSEN, Andréas. Seduzidos pela memória. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2004, 2ª ed., p.35-56.
KNIHS, Maiara. Decifra-me ou te devoro: o pensamento sobre a poesia em poemas de Francisca Júlia. Fólio – Revista de Letras Vitória da Conquista v. 3, n. 1 p. 93-103 jan./jun. 2011. Disponível no link. (acessado em 16.8.2013).
Francisca Júlia da Silva
LÔBO, Danilo. Francisca Júlia: entre o pincel e a pena.  Revista Travessia, v. 23, 1991. Disponível no link. (acessado 16.8.2013).
MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo. Discurso de Recepção à Acadêmica Dinah Silveira de Queiroz. Disponível no link. (acessado 16.8.2013).
MURICY, Andrade. Francisca Júlia, em 'O Suave convívio: ensaios críticos'. Rio de Janeiro: Anuário do Brasil, 1922.
OLIVEIRA, Maria Elvira. O ideal da pureza parnasiana: Francisca Júlia. (Dissertação Mestrado em Literatura). Universidade de Brasília, UnB, 1993.
PRADA, Cecília. Vozes silenciadas: a sofrida participação feminina no mundo das letras. Revista Problemas Brasileiros, nº 362, mar/abr, 2004.
QUEIRÓS, Venceslau de. Francisca Júlia da Silva. [05 artigos], em "Diário Popular de São Paulo", de 18 de julho de 1895 a 26 de julho de 1895.
RAHME, Anna Maria. Musa impassível cumpre destino mítico. IV Encontro de história da arte – IFCH / UNICAMP, 2008. Disponível no link. (acessado em 16.8.2013).
RAMOS, J. A.. A musa impassível. Revista Língua Portuguesa. Disponível no link. (acessado em 16.8.2013).
RAMOS, Péricles Eugênio da Silva. Introdução em Francisca Júlia. Poesias. São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1961.
SEIXAS, Aristeo. Homens e Livros: D. Francisca Júlia da Silva, a sua produção literária e o seu prestígio nas letras nacionais. [série de XVIII artigos, contendo análises técnicas da obra], no Correio Paulistano, de 14 de março de 1918 a 14 de julho de 1918.
SILVA, Silvio Profirio da; SILVA, Aline Adriana da; SILVA, Edna Carla Lima da; SILVA, Salete Paiva da. Francisca Julia e a inserção da mulher no campo literário: um intermédio entre o parnasianismo e o simbolismo. Raído, Dourados, MS, v. 5, n. 10, p. 405-427, jul./dez. 2011. Disponível no link. (acessado 16.8.2013).
VALARINI, Sharlene Davantel. A recepção de “a um grande homem”, de Olavo Bilac, e “sonho africano”, de Francisca Júlia, por alunos de uma 8ª série: em busca de leituras parnasianas. In: CELLI – Colóquio de estudos linguísticos e literários. 3, 2007, Maringá. Anais... Maringá, 2009, p. 957-964. Disponível no link. (acessado em 16.8.2013).

“sua poesia enérgica, vibrante, trazia a veemência de sonoridades estranhas, nunca ouvidas, uma música nova que as cítaras banais do nosso Olimpo nos haviam desacostumado.”
- Júlio Ribeiro


MUSA IMPASSÍVEL”, ESCULTURA DE VICTOR BRECHERET
Musa Impassível é uma estátua esculpida em mármore carrara por Victor Brecheret, um dos grandes mestres do modernismo brasileiro. Representa a poetisa Francisca Júlia, tem 2,80 de altura e pesa 3 toneladas.
Musa Impassível, de Victor Brecheret
[Pinacoteca do Estado de São Paulo]
Foto: (...)
História: Em 1920, no enterro da poetisa Francisca Júlia, os futuros revolucionários da Semana de Arte Moderna que ali compareceram - Oswald de Andrade, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida, Martins Fontes, Paulo Setúbal, Ciro Costa (que falou à beira-túmulo) e Di Cavalcanti, entre outros - decidem homenageá-la com um mausoléu.
No dia 08 de novembro, durante a missa de 7º dia, é aprovado por Freitas Vale na Câmara dos Deputados o Projeto 44-20, mandando o Governo do Estado erguer um túmulo memorativo para Francisca Júlia e, com essa finalidade, abrindo o crédito de 15 contos de réis.
Dão parecer favorável ao projeto, na Câmara, em 17 de dezembro, Mário Tavares, Júlio Prestes e Azevedo Júnior, e no Senado, em sessão de 23 do mesmo mês, Luis Pizza defende a proposição, que é logo convertida em lei.
Menotti Del Picchia, em crônica de 10 de novembro de 1923, no Correio Paulistano (sob o habitual pseudônimo de Hélios), discorre sobre a notável estátua "que se ergue hoje, no Cemitério do Araçá (...). É a Musa Impassível, um mármore (..) criado pelo cinzel triunfal de Victor Brecheret. (...) Na augusta expressão dos seus olhos, do seu busto ereto, das suas mãos rítmicas, há toda a grandeza e a beleza daquela musa impassível da formidável parnasiana que concebeu e realizou a "Dança das Centauras. O estatuário foi bem digno da poetisa. "
A estátua estava sobre o terreno perpétuo nº 9 (concedido a Júlio César da Silva) da quadra 6-A, e era uma das 80 obras catalogadas do Araçá, espalhadas entre túmulos e mausoléus antigos. Foi redescoberta por acaso, em 1992, por Sandra Brecheret, filha do escultor, durante uma ida ao cemitério. Ao pesquisar, Sandra descobriu que foi o próprio presidente Washington Luís quem pagou Brecheret para fazer a estátua, num encontro em Paris.
Em 2006 a estátua foi levada à Pinacoteca de São Paulo para restauração e exibição pública.
Segundo a historiadora e coordenadora do projeto, Márcia Camargos, seria incabível manter esta preciosa recuperação longe dos olhos do público. Ela ainda esclarece que uma réplica em bronze substituirá a peça original no Cemitério do Araçá.

Filme: Musa Impassível
Sinopse: O filme mostra como foi o transporte da escultura de Victor Brecheret, Musa Impassível, do túmulo da poetisa Francisca Júlia, no cemitério do Araçá, para a Pinacoteca do Estado. Disponível no link (acessado em 16.8.2013).

Fontes de pesquisa
CAMARGOS, Márcia. Musa Impassível.  São Paulo: Editora Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/e Emurb, 2007, 132p.
GARCIA, Glaucia. A História da Musa Impassível. São Paulo Antiga, 2.11.2012. Disponível no link(acessado em 16.8.2013).
RAHME, Anna Maria. Musa impassível cumpre destino mítico. IV Encontro de história da arte – IFCH / UNICAMP, 2008. Disponível no link. (acessado em 16.8.2013).
_____
BRECHERET
Victor Brecheret, escultor de formação clássica, nasceu em 1894, em São Paulo, e morreu em 1955. Iniciou cursos de desenho, modelagem e entalhe em madeira no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo em 1912. Em 1920, é descoberto por Di Cavalcanti, Oswald de Andrade e Hélios Sellinger e tem 12 de suas obras incluídas na Semana de Arte Moderna de 22. Em 1923, é premiado no Salão de Outubro de Paris. Inicia em 1936 a execução do Monumento às Bandeiras, inaugurado em 1953, na Praça Armando Salles de Oliveira, no Ibirapuera, tornando-se um marco para a cidade de São Paulo, síntese de toda produção artística e obra referencial do modernismo brasileiro. Outras informações sobre o autor, no link.


Francisca Júlia 
OBRA DISPONÍVEL ONLINE BRASILIANA - USP
Marmores (1895). Disponível no link
Livro da Infância (1899). Disponível no link
Esphinges (1903) primeira edição. Disponível no link
Esphinges (1920) segunda edição. Disponível no link
Alma Infantil (1912). Disponível no link
Poesias, 1962. Disponível no link
(acessado em 16.8.2013)


REFERÊNCIAS E OUTRAS FONTES DE PESQUISA

© A obra de Francisca Júlia, é de domínio público

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske


=== === ===
Trabalhos sobre o autor:
Caso, você tenha algum trabalho não citado e queira que ele seja incluído - exemplo: livro, tese, dissertação, ensaio, artigo - envie os dados para o nosso "e-mail de contato", para que possamos incluir as referências do seu trabalho nesta pagina. 

Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Francisca Júlia - a musa impassível. Templo Cultural Delfos, agosto/2013. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
____
Página atualizada em 18.8.2013.



Licença de uso: O conteúdo deste site, vedado ao seu uso comercial, poderá ser reproduzido desde que citada a fonte, excetuando os casos especificados em contrário. 
Direitos Reservados © 2016 Templo Cultural Delfos

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Agradecemos a visita. Deixe seu comentário!