Décio Pignatari - invenção e construção poética

Décio Pignatari (1996) - foto: Eduardo Knapp/ Folhapress
Décio Pignatari (poeta, ensaísta, ficcionista, tradutor e publicitário), nasceu na cidade paulista de Jundiaí, em 20 de agosto de 1927 e formou-se pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Estréia como poeta em fevereiro de 1949 nas páginas da Revista de Novíssimos, juntamente com os irmãos Haroldo de Campos e Augusto de Campos, com os quais também colaborou na Revista Brasileira de Poesia, porta-voz da geração de 45.
Em 1950 publicou seu primeiro livro, O carrossel. Em 1952, ainda com os irmãos Haroldo e Augusto de Campos, fundou o Grupo Noigandres, entrando em contato com os músicos e pintores do grupo Ruptura, ligado ao concretismo. Em janeiro de 1954 leciona em Teresópolis o curso "Raízes da Poesia Moderna", enfatizando as contribuições da literatura europeia e americana (Rimbaud, Laforgue, Corbière, Mallarmé, Joyce, entre outros) e colocando criticamente a situação da poesia brasileira.
Entra em contato com músico francês Pierre Boulez e parte para Europa, onde vive até 1956, tendo conhecido vários músicos e intelectuais de vanguarda, dentre eles, Tomás Maldonado e o poeta suiço-boliviano Eugen Gombringer. Quando retorna ao Brasil, propõe a Gombringer adotar o nome "poesia concreta" para a designação dos novos trabalhos que estavam sendo feitos no país pelos poetas concretos como Ferreira Gullar e os participantes do Grupo Noigandres, proposta que foi aceita pôr Gombringaer.
Com o Grupo Noigandres, participa da Exposição Nacional de Poesia Concreta nos museus de Arte Moderna (Mam-SP) e de Arte Contemporânea de São Paulo (Mac-Usp). Faz conferência, juntamente com Oliveira Bastos, no Mam-SP, sobre a nova poesia, e, em fevereiro de 1957, a propósito da edição carioca da exposição, fala na sede da União Nacional dos Estudantes (UNE), em palestra que acirra o debate sobre a arte concreta. Ainda neste mesmo ano publica artigos teóricos no "Suplemento Dominical" do Jornal do Brasil, trabalha como redator publicitário e planejador de lay-outs.

Décio Pignatari (1996) - foto: Fabiano Accorsi / Folhapress
Em 1958 assina o Plano-Piloto para poesia concreta. Em 1960 publica Organismo e colabora com a composição da página "Invenção", do Correio Paulistano. Em 1961, apresenta a tese "Situação Atual da Poesia no Brasil" no II Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária de Assis, em São Paulo, na qual anunciou o "salto participante" da poesia Noigandres. Torna-se professor da Escola Superior de Desenho Industrial Esdi) no Rio, e posteriormente da Universidade de Brasília (UnB), que deixou em 1964. Em Brasília organiza a Escola de Publicidade da Faculdade de Comunicação da Unb.
Na década de 1960 exerce várias atividades de comunicação: foi cronista de futebol da Folha de S. Paulo; fez crítica política e de costumes num happening no João Sebastião Bar; e fundou o Marda (Movimento de Arregimentação Radical em Defesa da Arte). Em 1967, escreve "Teoria da Guerrilha Artística". Torna-se professor de Teoria Literária no curso de pós-graduação da PUC-SP; doutora-se, em 1973, sob orientação de Antonio Candido.
Escreveu obras teóricas como Semiótica e literatura e reuniu seus poemas em Poesia, pois é, poesia. Publicou ainda o romance Panteros. Sua biografia foi publicada em O Rosto da Memória, de 1986.

Décio Pignatari faleceu em São Paulo, vítima de insuficiência respiratória, em consequência do mal de Alzheimer, no dia 2 de dezembro de 2012.
"Um dos fundadores da poesia concreta,  introdutor da semiótica e da teoria da comunicação em nosso país, é marginalizado pela crítica e pela mídia..." 
- Augusto de Campos, in: "Re-flasches para Décio 85". Musa rara, 21.8.2012.
:: Fonte: FGV/CPDOC/ Musa rara (acessado em 14.2.2016).



"Mas  afinal,  para  que  serve  a  Semiótica?  Serve  para estabelecer  as  ligações entre  um  código  e  outro  código,  entre  uma  linguagem  e  outra  linguagem. Serve para ler o mundo não-verbal: ‘ler’ um quadro, ‘ler uma dança, ‘ler’ um filme – e para ensinar a ler o mundo verbal em ligação com o mundo icônico ou não-verbal. A arte é o oriente dos signos; quem não compreende o mundo icônico  e  indicial,  não  compreende  corretamente  o  mundo  verbal,  não compreende  o  Oriente,  não  compreende  poesia  e  arte.  A  análise  semiótica ajuda  a  compreender mais  claramente  por  que  a  arte pode,  eventualmente, ser  um  discurso do  poder,  mas  nunca  um  discurso para  o  poder.  Mas  o ícone,  como  diz  Peirce,  é  um signo  aberto:  é  o  signo da  criação,  da espontaneidade, da liberdade. A Semiótica acaba de uma vez por todas com a  ideia  de  que  as  coisas  só  adquirem  significado  quando  traduzidas  sob  a forma de palavras."
- Décio Pignatari, em "Semiótica & Literatura: icônico e verbal, oriente e ocidente. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979, p. 12. 



Décio Pignatari - foto: Mastrangelo Reino/ Folha Press
CRONOLOGIA DE VIDA E OBRA DE DÉCIO PIGNATARI
1927 - Nasce em Jundiaí, São Paulo, em 20 de agosto.
1949 - Publica os poemas Noviciado e Unha e Carne na Revista Brasileira de Poesia.
1950 - Inicia o curso de direito na Universidade de São Paulo, concluído em 1953. Lança seu primeiro livro de poemas, Carrossel, patrocinado pelo Clube de Poesia de São Paulo, integrado, em sua maioria, por poetas da chamada Geração de 45.
1951 - Rompe com o grupo ligado ao Clube de Poesia.
1952 - Com os irmãos Haroldo de Campos (1929 - 2003) e Augusto de Campos (1931)funda o grupo Noigandres e edita a revista-livro de mesmo nome.
1955 - Viaja para a Europa. Em Ulm, Alemanha, conhece o poeta suíço-boliviano Eugen Gomringer (1925), a quem propõe o uso da terminologia "poesia concreta" para designar sua produção literária.
1956 - Ainda na Europa, visita o poeta João Cabral de Melo Neto (1920 - 1999). Volta para o Brasil e o grupo Noigandres é convidado a participar do suplemento dominical do Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro. O grupo lança oficialmente o movimento de poesia concreta na Exposição Nacional de Arte Concreta no Museu de Arte Moderna de São Paulo - MAM/SP.
1957 - A exposição é levada para o Rio de Janeiro e apresentada no saguão do Ministério da Educação e Cultura - MEC. Faz conferência na sede da União Nacional dos Estudantes - UNE -, levantando polêmicas sobre a nova poesia. Trabalha como redator publicitário e planejador de layouts.

Décio Pignatari (1965)
1958 - Publica Plano-Piloto para Poesia Concreta, em co-autoria dos irmãos Campos, na revista-livro Noigandres 4. O grupo afasta-se do Jornal do Brasil.
1959 - Poemas do grupo Noigandres são publicados por Eugen Gomringer na revista suíçaSpirale. A revista alemã Nota também publica poemas do grupo, além de editar uma versão do Plano-Piloto para Poesia Concreta.
1960 - Com os irmãos Campos funda o grupo Invenção, que mantém uma página homônima no jornal Correio Paulistano e um programa de rádio voltado para a música de vanguarda, Invenção no Ar, na Rádio Excelsior de São Paulo. Publica poemas na revista suíça Spirale. O grupo Noigandres expõe seus trabalhos na mostra Textos Concretos no Studium Generale, em Stuttgart, Alemanha, e na exposição sobre poesia concreta realizada no Museu Nacional de Arte Moderna de Tóquio, Japão. Com Haroldo e Augusto de Campos lança a tradução Cantares de Ezra Pound.
1961 - A página Invenção deixa de ser publicada. Expõe seus trabalhos na Internationale Manuskript Ausstellung Konkrete Poesie, em Wuppertal, Alemanha. É designado relator da seção de poesia do 2º Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras - FFCL de Assis, São Paulo, quando apresenta a tese-relatórioSituação Atual da Poesia no Brasil. O maestro Rogério Duprat (1932 - 2006) compõeOrganismo, sobre poema de Décio Pignatari, apresentada no Festival de Música Contemporânea pela Orquestra de Câmara de São Paulo.
1962 - Trabalhos do grupo Noigandres são expostos na Mostra Dedicata alla Poesia Concreta no Studio Enne, em Pádua, Itália. Ajuda a fundar a revista Invenção, na qual publica, no primeiro número, a tese-relatório Situação Atual da Poesia no Brasil. Publica seu poema Stèle pour Vivre no 3/Estela Cubana no suplemento literário do Estado de S. Paulo. Participa do 3º Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária, em João Pessoa.
1963 - O Plano-Piloto para Poesia Concreta, traduzido por Pierre Garnier (1928), é publicado na revista francesa Les Lettres - Poésie Nouvelle; uma síntese do plano é publicada na revista Typographica, de Londres. Trabalha como diretor de informação da Associação Brasileira de Desenho Industrial – ABDI.
1964 - Com auxílio do engenheiro Ernesto de Vita e com Luiz Angelo Pinto (1941), publica um estudo sobre a aplicação de métodos estatísticos e teórico-informativos à crítica literária, além de lançar o texto Nova Linguagem, Nova Poesia, em que introduz o conceito de "poema-código" ou "semiótico". Seus poemas e o texto Concrete Poetry of Brazil são publicados no The Times Literary Supplement, do jornal The Times, de Londres. Kitasono Katsue (1902 - 1978) publica uma versão japonesa do Plano-Piloto para Poesia Concretana revista VOU, em Tóquio. Dá aulas de teoria da informação na Escola Superior de Desenho Industrial – Esdi.

1965 - Participa da 1ª Exposição de Poesia Concreta na Galeria Grises, em Bilbao, Espanha. Passa a publicar a coluna Terceiro Tempo, sobre futebol, no jornal Folha de S. Paulo. É convidado a lecionar na Escola de Jornalismo da Universidade de Brasília - UnB.
Décio Pignatari (1986) - foto: Alexandre 
Tokitaka / Folhapress
1967 - Dá aulas na Faculdade de Filosofia Ciências e Letras de Marília, São Paulo.
1968 - Com Haroldo e Augusto de Campos, José Lino Grunewald (1931 - 2000) e Mário Faustino realiza a transcriação de poemas do norte-americano Ezra Pound (1885 -1972), lançada do livro Ezra Pound: Antologia Poética.
1969 - Ajuda a fundar a Association Internationale de Sémiotique - AIS, na França.

1970 - Inicia doutorado sobre semiótica e literatura, orientado pelo crítico literário Antonio Candido (1918), concluído em 1973.
1972 - Ministra aulas de comunicação e semiótica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC/SP.
1974 - Dá aulas na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo - FAU/USP.
1975 - É co-fundador da Associação Brasileira de Semiótica - ABS. Trabalha como diretor de informação e documentação sobre arte brasileira da Secretaria de Cultura do Município de São Paulo.
1977 - Desliga-se da Secretaria de Cultura do Município de São Paulo.
1978 - Escreve semanalmente como crítico de televisão para o jornal Estado de S. Paulo.

1979 - Conclui seu pós-doutorado na USP.
1980 - Publica Mallarmé, transcriação da obra do poeta francês realizada em parceria de Haroldo e Augusto de Campos.
1983 - Passa a colaborar semanalmente com o jornal Folha de S. Paulo.
1984 - Desliga-se da AIS.
1986 - Começa a trabalhar na Equipe Nosso Jornal da TV Gazeta. Deixa de dar aulas na PUC/SP.
1993 - Realiza a animação gráfica Femme, no Laboratório de Sistemas Integráveis da Escola Politécnica da USP.
1994 - Aposenta-se como professor da USP.
1995 - Trabalha como ator no longa-metragem Sábado, do diretor Ugo Giorgetti (1942).
1996 - A Casa das Rosas, em São Paulo, promove a mostra Desexp(I)os(ign)cão, em comemoração aos 40 anos do movimento concretista.
1997 - Dá aulas no curso de pós-graduação em comunicação na PUC/SP.
1999 - Muda-se para Curitiba e dá aulas na Universidade Tuiuti do Paraná.
2001 - Participa do evento Forma: Brazil, na American Society, em Nova York.
2002 - O Centro Universitário Maria Antônia, de São Paulo, promove a exposição Noigandres.

Décio Pignatari - foto: Mastrangelo Reino/ Folha Press
2006 - O MAM/SP reconstrói a primeira exposição de arte concreta Concreta' 56: A Raiz da Forma.
2009 - Publica o livro de poesias infanto-juvenil "Bili com limão verde na mão", pela editora Cosac Naif, com projeto gráfico de Luciana Facchini e ilustrações de Daniel Oliveira Bueno.
2012 - Morreu em São Paulo, no Hospital Universitário da USP, em decorrência de pneumonia e insuficiência respiratória. Era um domingo, 2 de dezembro de 2012 e o poeta estava com 85 anos.
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2014 - São lançados dois novos livros "Terceiro tempo" e "Viagem magnética", pelo Ateliê Editorial.

2015 - Exposição "Arquivo Décio Pignatari: Um Lance de Dados" - Centro Cultural São Paulo (agos./out.2015).
:: Fonte: Soltando o Verbo (acessado em 14.2.2016). Atualizado pelos editores deste site.



"O poema é um ser de linguagem. O poeta faz linguagem, fazendo poema. Está sempre criando e re-criando a linguagem. Vale dizer: está sempre criando o mundo. Para ele
a linguagem é ser vivo. O poeta trabalha as raízes da linguagem. Com isso o mundo da linguagem e a linguagem do mundo ganham troncos, ramos, flores e frutos. E é por isso
que um poema parece falar de tudo e de nada, ao mesmo tempo. É por isso que um (bom) poema não se esgota: ele cria modelos de sensibilidade. É por isso que um poema, sendo
um ser concreto de linguagem, parece o abstrato dos seres. É por isso que um poema é criação pura – por mais impura que seja. É como uma pessoa, ou como a vida: por melhor que você a explique, a explicação nunca pode substituí-la. É como uma pessoa que diz sempre que quer ser compreendida. Mas o que ela quer mesmo é ser amada."

- Décio Pignatari, em "Comunicação Poética". 2ª ed., São Paulo: Cortez & Moura, 1978, p. 6.

 

Decio Pignatari  - foto: Vilma Slomp

OBRA DE DÉCIO PIGNATARI
Poesia
:: O carrossel. São Paulo: Cadernos do Clube de Poesia, 1950.

:: Rumo a nausicaa. São Paulo: Noigandres I, 1952.
:: Organismo. s.n., 1960.
:: Exercício findo. São Paulo: Invenção, 1968.

:: Poesia Pois É Poesia - 1950|1975. São Paulo: Duas Cidades, 1977.
:: Vocogramas. São Paulo: Revista Código|Erthos Albino de Souza, 1985.

Décio Pignatari, por Liberati
:: Poesia Pois É Poesia - 1950|2000. [reúne toda a obra poética de Décio Pignatari, traz também traduções e trabalhos inéditos do autor]. Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004.

Infanto-juvenil (poesia)
:: Bili com limão verde na mão. [projeto gráfico Luciana Facchini; ilustrações Daniel Oliveira Bueno].. São Paulo: Cosac Naif, 2009,  80p.

Conto
:: O rosto da memória. São Paulo: Brasiliense, 1986; Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2014.

Romance
:: Panteros. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992.

Crônica
:: Podbre Brasil: crônicas políticas. Campinas SP: Pontes Editores, 1988.

:: Terceiro tempo. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2014.
 
Memórias
:: Errâncias. São Paulo: Editora Senac, 2000.

Teatro
:: Céu de lona. [projeto gráfico e ilustrações Jussara Farias de Mattos Salazar]. São Paulo: Travessa dos Editores, 2003, 70p.

:: Viagem magnética. [peça com 26 segmentos, sobre a vida e a obra de Nísia Floresta, 1810-1885]. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2014.
 
Ensaio

Décio Pignatari por Dino (1967)
:: Teoria da poesia concreta: textos críticos e manifestos 1950-1960. [Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos]. São Paulo: Edições Invenção, 1965; 2ª edição, ampliada, São Paulo: Duas Cidades, 1975; 3ª ed., Sâo Paulo: Brasiliense, 1987; Cotia, SP: Ateliê Editorial, 5ª ed., 2006, 296p.
:: Informação, linguagem, comunicação.
São Paulo: Perspectiva, 1968; reedição. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 3ª ed., 2008.
:: Contracomunicação. Coleção Debates, 44. São Paulo: Perspectiva, 1971; reedição. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 3ª ed., 2004, 271p.
:: Semiótica e literatura. 1974; Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2004.
 :: Comunicação poética. São Paulo: Editora Cortez e Moraes, 1977.
:: Semiótica & Literatura: icônico e verbal, oriente e ocidente. São Paulo: Cortez e Moraes, 1979. 
:: Rio decô. [autores Décio Pignatari e Sergio Bernardes; introdução de Luciano Figueiredo e Oscar Ramos].
Rio de Janeiro: Edições Achiamé, 1980, 94p.

:: Semiótica da arte e da arquitetura. São Paulo: Cultrix, 1980;
reedição. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2005, 186p.
:: Comunicação e novas tecnologias. São Paulo: Editora Com-Arte, 1984.

:: Malacologia e semiótica. [Décio Pignatari e Vera Cecília Machline]. s.n., 1984.
:: Signagem da televisão.
São Paulo: Brasiliense, 1984.
:: Foto-grafismo. [Décio Pignatari e Stefania Bril]. Rio de Janeiro: Funarte/Instituto Nacional da Fotografia, 1985, 24p.
:: O que é comunicação poética.
São Paulo: Brasiliense, 1987; reedição. 3ª ed., Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2004; 4ª ed., 2005; 10ª ed., 2011.
:: Design simbólico.
s.n., 1988.
:: Tempos da arte e da tecnologia.
s.n., 1993.
:: A arte de almandrade. [Décio Pignatari, Haroldo Cajazeira e Luiz Rosemberg Filho].
s.n., 1995.
:: Da janela à não-janela. s.n., 1995.
:: Letras, artes, mídia. São Paulo: Editora Globo, 1995, 258p.

:: Biografia: sintoma da cultura. [Décio Pignatari e Fani Hisgail]. São Paulo: Hacker Editores, 1997.
:: Cultura pós-nacionalista. Rio de Janeiro: Imago, 1998, 136p.

:: Contribuições brasileiras ao pensamento comunicacional latino-americano. {autores Decio Pignatari, Muniz Sodré, Sérgio Capparelli}.. [organização José Marques de Melo, Maria Cristina Gobbi, Marli dos Santos]. São Bernardo do Campo: Cátedra UNESCO, Universidade Metodista de São Paulo (UMESP), 2000. 

Música/poesia concreta
:: Motet em Ré menor ou Beba Coca Cola. (para vozes corais).. [Décio Pignatari e Gilberto Mendes]. São Paulo: Editora Novas Metas, 1979, 7p.
'“Na época, eu fiquei esperando uma represália da Coca-Cola”, conta Mendes. “Que nada. Um diretor me procurou com uma caixa enorme de refrigerantes. E me agradeceu dizendo: ‘Você conhece aquele dito popular, falem bem ou mal, mas falem de mim?’.” A música foi cantada por corais de todo o mundo. “Só sei que até eu, logo depois de ouvi-la, ficava com uma vontade danada de beber Coca-Cola.” O conceito terminava com um sonoro arroto – o primeiro arroto-solo da história da música universal – e com o coro falando a palavra “cloaca”, que encerra o poema de Pignatari.'
- Gilberto Mendes, in: KIYOMURA, Leila. Gilberto Mendes chega aos 90 anos com ares de quem atravessa os 20. Jornal da USP online, 21 de junho de 2013. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).


CD - disco
:: Temperamental. CD. [Décio Pignatari com Livio Tragtemberg e Wilson Sukorski]. São Paulo: Demolições Musicais, 1993.

Antologia poética da revista Noigandres
:: Antologia Noigandres*: do verso à poesia concreta. [Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Ronaldo Azeredo e José Lino Grünewald; capa Alfredo Volpi].  São Paulo: Massao Ohno Editora, 1962, 204p. 
(*) Noigandres - ver tópico específico nesta página.

Entrevista
ENTREVISTA. Concretismo - A certeza da influência. [Haroldo de Campos; Décio Pignatari e Augusto de Campos]. in Caderno Mais! - Folha de São Paulo, 8.12.96/republicado em Jornal de Poesia. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).

Décio Pignatari - por Olhar gráfico|design gráfico
Obra de Décio Pignatari publicada no exterior
Alemão
:: Noigandres: konkrete texte (Poesia concreta).. [edição de Max Bense e Elisabeth Walther; prefácio de Helmut Heissenbuettel e posfácio de Haroldo de Campos]. Série Rot, n. 7, Stuttgart, 1962.

Espanhol
:: Información, lenguage, comunicación (Informação, linguagem, comunicação).. [tradução de Basilio Losada Castro]. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 1977.
:: Semiótica del arte y de la arquitectura (Semiótica da arte e da arquitetura).. [tradução de Basilio Losada Castro]. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 1983.

:: Noigandres I: Augusto de Campos, Décio Pignatari, Haroldo de Campos. [prólogo y selección de Hilda Scarabótolo de Codima; traducción de Antonio Cisneros]. Lima: Centro de Estudos Brasileiros, 1983. :: Galaxia concreta. {Haroldo de Campos, Augusto de Campos e Décio Pignatari}.. [edição de Gonzalo Aguilar]. Ciudad do México: Universidad Iberoamericana: Artes de México, 1999.

Francês
:: Plano-Piloto para Poesia Concreta. {Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos}.. [tradução de Pierre Garnier]. na revista francesa Les Lettres - Poésie Nouvelle. 1963

Inglês
:: Concrete Poetry of Brazil. Décio Pignatari. The Times Literary Supplement, Londres.

Japonês
:: Plano-Piloto para Poesia Concreta. {Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos}.. [tradução de Kitasono Katsue]. na revista VOU, em Tóquio.

Augusto de Campos Décio Pignatari Haroldo de Campos, por Novaes

Traduções - transcriações de Décio Pignatari 
:: A lei e os lucros: cuidado com os seus impostos, de C. Northcote Parkinson. [tradução Décio Pignatari]. São Paulo: Editora Pioneira, 1960. 
:: Cantares de Ezra Pound. [tradução Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos]. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação-MEC, 1960.
:: Antologia poética de Ezra Pound. [tradução Décio Pignatari, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, José Lino Grünewald e Mário Faustino]. Lisboa: Ulisséia, 1968.
:: Mallarmé. [tradução Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos]. Coleção signos. Edição Bilíngue.  São Paulo: Perspectiva, 1974; 2ª ed., 1980; 3ª ed., ampliada. 2006.
:: Ezra Pound - Poesia. [tradução Décio Pignatari, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, José Lino Grünewald e Mário Faustino; organização, introdução e notas de Augusto de Campos; ensaio crítico de Haroldo de Campos]. São Paulo: Hucitec; Brasília: Editora UnB, 1983.
:: Retrato do amor quando jovem - (Johann Wolfgang von Goethe e William Shakespeare e Richard Brinsley Sheridan e Dante Alighieri).. [organização e tradução Décio Pignatari]. São Paulo: Companhia das Letras, 1990., 216p.
:: 31 poetas, 214 poemas: do Rigveda e Safo a Apolinnaire. [tradução e organização Décio Pignatari]. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. Prêmio Jabuti 1997 de Melhor tradução
:: Marina - Marina Tsvietáieva (Марина Цветаева).. [prefácio, seleção e tradução Décio Pignatari]. edição bilingue. Curitiba: Travessa dos Editores, 2005.
:: Os meios de comunicação como extensões do homem. de Marshall Mcluhan. [tradução Décio Pignatari]. São Paulo: Cultrix, 2005. 
:: 31 poetas - 214 poemas: do Rigveda e Safo a Apolinnaire - Uma antologia pessoal de poemas traduzidos, com notas e comentários. [tradução, notas Décio Pignatari]. 2ª ed., Campinas SP: Unicamp,  2007, 272p.

Seletas, coletivas e antologias (participação)
Décio Pignatari - foto: Jonas 
Oliveira/Folhapress
:: Concrete Poetry: an international anthology. [organização e introdução Stephen Bann]. London: London Magazine Editions, 1967.
:: An Anthology of Concrete Poetry. [organização Emmett Williams]. New York: Something Else Press, 1967.
:: Concrete Poetry: a World View. [organização e introdução Mary Ellen Solt]. Bloomington: Indiana University Press, 1968.

:: 12 Poemas para dançarmos. [organização Gisela Moreau]. 1ª ed., São Paulo: SESC|SP, v.1, 2000.
:: Os cem melhores poetas brasileiros do século. [seleção José Nêumanne Pinto; textos introdutório e notas biobliográficas Rinaldo de Fernandes; ilustrações Tide - Hellmeister]. São Paulo: Geração Editorial, 2001; 2ª ed., 2004. 
Ensaios
:: O animal que parou os relógios - ensaios sobre comunicação, cultura e mídia. [seleção e organização Norval Baitello Junior]. Coleção E-7. São Paulo: Annablume, 1997; 2ª ed., 1999. 
:: Comunicação: objeto, objetivos, objeções. (ensaio). in:  Tensões e objetos. [organização Maria Helena Weber; Ione Bentz; Antonio Hohlfeldt]. 1ª ed., Porto Alegre: Editora Sulina, 2002, v. 1, p. 177-180.
  

Décio Pignatari - foto: Rubens Thom Speltz/Folhapress

POEMAS ESCOLHIDOS DE DÉCIO PIGNATARI
EPITÁFIO
Décio Pignatari menino imenso e castanho com tremores
nascido sob o signo mais sincero e para e per e por e sem ternura
quem te dirá do mando que exerceram sobre os teus cabelos
os amigos rápidos as mulheres velozes e os que comem dentro do prato
Estás cansado Pignatari e teu desprezo entumesceu como uma árvore tamanha Estás cansado como uma avassalada aberta enorme porta enorme
e quando abres os braços repousas os ombros em amplos arcos de pássaros vagarosos Lento e fundo é o ar de tuas tardes nos teus poros
e dentro dele se desenredam fundos e atentos mesmo os esforços mais assíduos
e se mergulhares tua mão na água que repousa à água acrescentarás a mão e a água
Décio Pignatari menino castanho e meu como um cachorro grande
que atravessa o portão sereno inflorescendo aos poucos no jardim seu garbo
com a calma grandiosa das nuvens que se abrem lentas na tarde para envolver o ar devagar tua cabeça almeja devagar a superfície sem temores
e tuas pálpebras se inclinam aos eflúvios da sesta mundial de imensos paquidermes
que avolumam na sombra como grandes bulbos insonoros em cavernas dormidas Mansa dinastia de gestos nas ruínas dulcificando as intempéries da memória
descansa como um cortejo de crepúsculos antigos na cordilheira turva da semana
Crescente como o céu de março nas ameias das torres elevadas e redondas
e à tua própria sombra no mundo que perdeste 

descansa Pignatari.  
- Décio Pignatari, em "Poesia Pois É Poesia - 1950|2000". Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da UNICAMP, 2004, p. 60.

§

Move-se a brisa ao sol final e no jardim confronta
a púrpura com luz e a turva bifrenária – um gesto de
azinhavre. Eni abre o portão, manchas solares
confabulam: (esvai-se o verão). Seus olhos
suspeitam, temem o susto das mudanças
incríveis, repelem o jardim bifronte ao sopro do
crepúsculo. De verde amargo e quinas de ferrugem,
um cáctus castelar, optando contra
a sombra rasa, num escrutínio de esgares, soergue
entre os cílios de Eni, por um instante, um rútilo
solar, em marcha com suas nuvens noivas!
E ela depõe, aos pés de ocre do castelo,
as pálpebras, aos poucos liquefeitas
ouro – um malentendimento de ternura
na tarde decadente, cáctus.

- Décio Pignatari, em "Poesia Pois É Poesia - 1950|2000". Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004, p. 66.


§

DECIUS INFANTE

Em tempos,
Decius infante, em nua carne
e amor, distinguira no mundo o mundo
que imprimia, e seu pólem de sopro, insuflado
no solo, sob as leivas do amaino, em terra própria
semeava
"Esse trabalho de mulher - o êxtase":
Agora, os silentes desmandos de seu ócio
concernem a pequeninas torre, sem babel
nem audácia. (Dizer que outrora conspirou à boca
de seios pequenos pequenos conluios
de róseo contacto - a aurora no ombro -
e hoje inspira a mefítica
arrebentação
das últimas laranjas!).
Seu consistir de amor, quando se inclina à terra
são, na treva e saliva, coleios
de língua safara, vazia
a mão de sementes, e a chuva
aquém dos cabelos
com seu brilho desfeito, atados
à rabiça do arado - pênis que punge a terra
e não fecunda, e a cabeça
sepulta entre raízes grandes
já sem seiva, membros e tronco - ontem
aurividentes - e ora alimentando
um derradeiro cáctus: Porém (agora
que o vento irrompe do crepúsculo
de hoje e de areia), entre as laranjas turvas, aferrando-se
à lâmina (ferrugem) da quilha
com um punho vermelho ou
ariete rubro
a latejar no último
sulco sua última
gota - o coração, batendo
como um homem.
- Décio Pignatari
(Rumo a nausicaa/Noigandres 1 - 1952), em "Poesia Pois É Poesia - 1950|2000". Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004, p. 57.

§

EVOCAÇÃO PASTORAL DO MENESTREL
Surges nu, de arrabil, no tempo azul e alto,
quando as grandes palavras parecem coroar-se
de beleza alcançada: vai em meio a caçada:
soltaram-se os falcões e gerifaltos,
que enfiam através sonoras torres
levantadas no ar a sopro de bucinas!

Glorioso no ademã dos teus cantares,
teu corpo evolve
         róseos meandros
em volumes brandos, arredondando
as juntas, à sombra
das romãs - e exorta a claridade
dos cimos: ei-lo subindo
               além dos gerifaltos!

Por um momento, aborrecendo olhares doces
as peripécias gárrulas da faina, as bem-talhadas
ondulam por teu corpo, e aos tornozelos teus
colando os lábios de amaranto,
                       suspiram bálbuces.
Logo, porém, sentido em meio às coxas
um úmido pulsar de línguas tesas
precipitam-se quentes, intumescendo
                           enquanto correm,
à Marcha Triunfal dos Cem Faisões!

Eis que te abates sobre os seios do instrumento,
chorando por extenso a luz que foge ao corpo
e galga, heróica, junto aos clangores da vitória,
as grandes nuvens suseranas e estivais,
as Nuvens - mirante de fanfarras sobre um corpo gaio!

- Décio Pignatari (Rumo a nausicaa/Noigandres 1 - 1952), em "Poesia Pois É Poesia - 1950|2000". Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004, p. 67. 

§

NOVICIADO
      He was bom one day in the county of Clay
        And he came from a solitary race.
             - Jesse James - Anônimo

 

Inflama o teu barril de breu à guisa de farol
E envolve os joelhos nos braços
Para que a alma não te fuja pelas rótulas.
Depois, inveja o caracol por imitá-lo
E vai involuindo em espiral
- Para que as coisas antiamenas se confundam no caminho
E atinge o centro de ti mesmo.
Aí, planta tuas orelhas ou duas rosas
E fica à escuta dos pacíficos e atlânticos
Como outrora, na infância, como outrora.
Teu vagalume há de salvar algum paquete sem que o saibas;
Muitos, porém, virão quebrar as harmonias de tuas praias:
Aos cadáveres acode e no chão mais silencioso - enterra-os,
Conforme o calado de seus barcos
Mais sete palmos,
Porque dez anos passarão até que os ossos
Tenham sorvido honestamente a tua raiz de oleiros,
Vaso de silêncio.
Então,
Desarraiga esses crânios pejados de mistério,
Essas tíbias estranhamente ensimesmadas
E compõe tua adega de safras silenciosas:
Dia a dia, muitos anos,
Beberás em cálices mudos
Mudamente rituais,
Esse antídoto-elixir da inconfidência.
Quando entenderes, afinal,
As carneiras, sem memória nem vasos
Sem despeito nem azáleas,
Volta ao convívio do teu burgo
- Negro pássaro de vácuo rodeado de gralhas.
À margem das mulheres que se despetalam
Recebe a única de pés furtivamente em flor
Acende a tua plumagem mais cerúlea
E empreende a fuga sem contorno de pássaro exilado!

- Décio Pignatari (O carrossel - 1950.), em "Poesia Pois É Poesia - 1950|2000". Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004, p. 37

§

O JOGRAL E A PROSTITUTA NEGRA
      farsa trágica

Onde eras a mulher deitada, depois
dos ofícios da penumbra, agora
és um poema:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

É à hora carbôni-
ca e o sol em mormaço
entre sonhando e insone.

A legião dos ofendidos demanda
tuas pernas em M,
silenciosa moenda do crepúsculo.

É a hora do rio, o grosso rio que lento flui
flui pelas navalhas das persianas,
rio escuro. Espelhos e ataúdes
em mudo desterro navegam:
Miras-te no esquife e morres no espelho.
Morres. Intermorres.
Inter(ataúde e espelho)morres.

Teu lustre em volutas (polvo
barroco sopesando sete
laranjas podres) e teu leito de chumbo
têm as galas do cortejo:

Tudo passa neste rio, menos o rio.

Minérios, flora e cartilagem
acodem com dois moluscos
murchos e cansados,
para que eu te componha, recompondo:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

(Modelo em repouso. Correm-se as mortalhas das persianas. Guilhotinas de luz lapidam o teu dorso em rosas: tens um punho decepado e um seio bebendo na sombra. Inicias o ciclo dos cristais e já cintilas).

Tua al(gema negra)cova assim soletrada em câma-
ra lenta, levantas a fronte e propalas:
“Há uma estátua afogada…” (Em câmara lenta! – disse).
“Existe uma está-
tua afogada e um poeta feliz (ardo
em louros!). Como os lamento e
como os desconheço!
Choremos por ambos.”

Choremos por todos – soluço, e entoandum
litúrgicos impropério a duas vozes
compomos um simbólico epicédio A Aquela
que deitada era um poema e o não é mais.

Suspenso o fôlego, inicias o grande ciclo
subterrâneo do retorno
às grandes amizades sem memória
e já apodreces:

Cansada cornucópia entre festões de rosas murchas.

- Décio Pignatari, em "Poesia Pois É Poesia - 1950|2000". Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004, p. 44-45.

§

POEMA
Tosco dizer de coisas fluidas,
Gume de rocha rasga o vento:
Semanas tantas de existir
E de viver -um só momento.

Prisma empanado da retina
Que acalanta mundos sem prumo,
A luz que o fere perde o rumo,
Aclara a linfa submarina:

Prédios mergulham ramos de cimento,
Neons fazem dos olhos coágulos de seixos,
E esquinas lanham flancos desse rio sem peixes
De que sou fonte e náufrago no inteiro.

- Décio Pignatari, em "Poesia Pois É Poesia - 1950|2000". Cotia, SP: Ateliê Editorial; Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2004, p. 36.

§

um
  movi
  mento
compondo
além
      da
nuvem
   um
  campo
     de
 combate
   mira
  gem
     ira
         de
   um
     horizonte
  puro
    num
      mo
      mento
 vivo
- Décio Pignatari, em "Noigandres 3". (1956).


§

       VELHA
       LAGOA

       UMA RÃ
MERG               ULHA
      UMA RÃ

     ÁGUÁGUA
- Décio Pignatari, citado em "Matsuo Bashô", de Paulo Leminski. São Paulo: Brasiliense, 1983.


§ 

O lobisomem
O amor é para mim um Iroquês
De cor amarela e feroz catadura
Que vem sempre a galope, montado
Numa égua chamada Tristeza.
Ai, Tristeza tem cascos de ferro
E as esporas de estranho metal
Cor de vinho, de sangue, e de morte,
Um metal parecido com ciúme.

(O Iroquês sabe há muito o caminho e o lugar
Onde estou à mercê:
É uma estrada asfaltada, tão solitária quanto escura,
Passando por entre uns arvoredos colossais
Que abrem lá em cima suas enormes bocas de silêncio e solidão).

Outro dia eu senti um ladrido
De concreto batendo nos cascos:
Era o meu Iroquês que chegava
No seu gesto de anti-Quixote.
Vinha grande, vestido de nada
Me empolgou corações e cabelos
Estreitou as artérias nas mãos
E arrancou minha pele sem sangue
E partiu encoberto com ela
Atirando-me os poros na cara.
E eu parti travestido de Dor,
Dor roubada da placa da rua
Ululando que o vento parasse
De açoitar minha pele de nervos.
Veio o frio com olhos de brasa
Jogou olhos em todo o meu corpo;
Encontrei uma moça na rua,
Implorei que me desse sua pele
E ela disse, chorando de mágua,
Que era mãe, tinha seios repletos
E a filhinha não gosta de nervos;
Encontrei um mendigo na rua
Moribundo de fome e de frio:
“Dá-me a pele, mendigo inocente,
Antes que Ela te venha buscar.”
Respondeu carregado por Ela:
“Me devolves no Juízo Final?”
Encontrei um cachorro na rua:
“Ó cachorro, me cedes tua pele?”
E ele, ingênuo, deixando a cadela
Arrancou a epiderme com sangue
Toda quente de pêlos malhados
E se foi para os campos da lua
Desvestido da própria nudez
Implorando a epiderme da lua.
Fui então fantasiado a travesti
Arrojado na escala do mundo
E não houve lugar para mim.

Não sou cão, não sou gente - sou Eu.
Iroquês, Iroquês, que fizeste?
- Décio Pignatari, em "O carrossel". São Paulo: Cadernos do Clube de Poesia, 1950.  


'FEMME', poema de Décio Pignatari

“Organismo”: o ato sexual em poema de Décio Pignatari

'Beba coca', de Décio Pignatari - Noigandres nº 4 (1958)

Décio Pignatari - foto: Mastrangelo Reino/Folha Press

FORTUNA CRÍTICA DE DÉCIO PIGNATARI
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ALBUQUERQUE, Renata. Décio, plural. in: blog. Ateliê Editorial, 20.8.2015. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).
ALBUQUERQUE, Renata. “Décio sempre falou em Nísia”. [entrevista com o professor Francisco Ivan da Silva]. in: Blog Ateliê Editorial, 16.4.2015. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).
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BARBOSA, Frederico. Ecos de Eros: elos. in: RevistaCult, edição 176, Set./2013. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).
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O CONCRETISMO revisitado. 'Tanto' -  reproduz  o Manifesto da Poesia Concreta, publicado na revista noigrandes: n.4,  São Paulo, 1958,, além de alguns poemas emblemáticos do movimento. Texto introdutório e pesquisa de Luiz Edmundo Alves. in: Tanto. Disponível no link. (acessado em 16.2.2016).
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QUEIROZ, Shirley Gomes; CARDOSO, Cristina Luz; GONTIJO, Leila Amaral. Design Emocional e Semiótica: caminhos para obter respostas emocionais dos usuários. in: Estudos em Design (Online), v. 17.1, p. 1-16, 2010. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).

QUEVEDO, Rafael Campos. A Poesia no Horizonte do Impossível: Uma Análise dos Fundamentos Utópicos da Poesia Concreta e do Poema-Praxis. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal do Espírito Santo, UFES, 2007. Disponível no link e link. (acessado em 15.2.2016). 
RODRIGUES, Flora de Carvalho. Flusser, Pignatari e o universo da linguagem. in: Esdi em 2011. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016). 
SALVADORI, Juliana Cristina. Crítica e tradução enquanto poiesis: o projeto literário-pedagógico-antropofágico concretista. (Tese Doutorado em Letras e Linguística). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PUC Minas, 2013.
TEMPO inconcluso: poemas.  Volumes 1-7. São Paulo: Editora Clube de Poesia, 1950, 34p. 
VALENTE, Heloísa de Araújo Duarte. Os cantos da voz: entre o ruído e o silêncio. São Paulo: Annablume, 1999, 230p.
VANGUARDIAS. Noigandres. “Sem forma revolucionária não há arte revolucionária”. in: Alba, 4. Disponível no link. (acessado em 21.2.2016).


HOMENAGENS E TRIBUTO


Profilograma D.P. "transmidiúnico" (1997), por Augusto de Campos - fonte: Musa rara


Pignatari, por Quinho


Tributo a Décio Pignatari por Jakson Dartanhan Chiappa,
 composição tipográfica, poema Coca-Cola (1958)

 
Haroldo de Campos, Décio Pignatari e Augusto de 
Campos (anos 50). foto: divulgação

REVISTA NOIGANDRES*
Noigandres um grupo de poetas formado em 1952, em São Paulo, Brasil. Integrado por Haroldo de Campos, Décio Pignatari, Augusto de Campos e, posteriormente, por Ronaldo Azeredo e José Lino Grünewald, resultando em uma revista homônima (1952-1962). Com este grupo se inicia o movimento da Poesia Concreta no Brasil e no seu círculo se desenvolve toda a teoria deste tipo de poesia em sua plenitude.
Noigandres nº 1 - capa
"Noigandres". A história desse nome merece algumas linhas. Tudo começa com um verso misterioso de Arnaut Daniel, na canção "Er vei vermeills". A bem da ver­dade, a canção não é nem mais nem menos hermética que outras do mesmo Arnaut. Nem o verso em questão é especialmente enigmá­tico. O mistério, desafiando longamente as habilidades champollionescas dos eruditos treinados na lírica medieval dos séculos 12 e 13, concentrava-se numa única expressão, que coincidia ser o sintagma final do texto: "noigandres". E quando Ezra Pound, atraído pela criação poética dos trovadores occitâni-cos, topou com a velha dificuldade dos lexicógrafos, recorreu ao provençalista alemão Emil Lévi, deixando-nos, em seus "Cantares", um relato da conversa: "Noigandres, eh, noi­gandres,/ Now what the DEFFIL can that mean!", exclamara Lévi, carregando no sota­que - "Canto XX". Cerca de um quarto de sé­culo mais tarde, no Brasil, os irmãos Campos e Décio Pignatari, em busca de combustível para a viagem sígnica a que davam início, fixa­ram sua atenção na aventura crítico-poética de Pound. Foram ao "Canto XX" e aí pesca­ram o nome para o grupo que acabavam de formar. A expressão provençal fora "tomada como sinônimo de poesia em progresso, co­mo lema de experimentação e pesquisa poética em equipe", informa, em comentário re­trospectivo, a sinopse do movimento "concretista", estampada em apêndice à "Teoria da Poesia Concreta". A referência a Arnaut Da­niel é reveladora em si mesma. Na classifica­ção poundiana dos escritores, Arnaut é consi­derado o "inventor" típico. Exemplo de artis­ta capaz de gerar novas matrizes estéticas. Deste ângulo, "noigandres" seria uma deno­minação poética para a invenção. Desafio as-' sumido de produzir procedimentos inéditos no campo da poesia. 
Noigandres nº 4, capa Hemelindo Fiaminghi
E assim enriquecido de nova aura semântica - enigma linguístico a ser decifrado na prática poética -, o termo in­gressaria na cultura literária brasileira. Inte­ressante é que os poetas do grupo "noigandres" teriam de esperar pela década de 70 pa­ra conhecer o sentido exato da expressão adotada na juventude. Hugh Kenner ("The Pound Era", Faber & Faber, Londres, 1971) desvelaria o mistério, revelando que Lévi, após seis meses de labuta, conseguira recons­tituir o termo: "d'enoi gandres". "Enoi" seria forma cognata do francês moderno "ennui" (tédio). E "gandres" derivaria do verbo "gandir" (proteger). Assim, além do sabor de pa­lavra "portmanteau", "noigandres" significa algo que "protege do tédio" ("ainda bem", cornentoLi Augusto de Campos, ao receber a boa nova). E nada mais justo. De onde quer que seja encarada, a trajetória do "grupo noigandres", que se inicia em 1952 (revista "Noigandres l", compendiando as coletâneas de poemas "Ad Augustum per Angusta" e "O Sol por Natural", de Augusto de Campos, "Rumo a Nausicaa", de Décio Pignatari, e "A Cidade" e "Thalassa Thalassa", de Haroldo de Cam­pos) e se estende formalmente até 1962 (com "Noigandres 5", antologia do grupo, "do verso à poesia concreta", acrescido dos nomes de Ronaldo Azeredo e José Uno Grunewald), é a história de uma militância poética e intelec­tual, cuja vitalidade jamais admitiria o mor­maço da existência melancólica.
:: Fonte: Noigandres. in: RISÉRIO, Antonio. Cores vivas (ensaios). Coleção Casa de Palavras, 2. Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1989,  p. 93-96.

Noigandres nº 5, capa Alfredo Volpi
* Revista Noigandres publicadas
:: Noigandres 1. ["Augustum per Angusta" -e- "O sol por natural", de Augusto de Campos; "Rumo a nausicaa", de Décio Pignatari; "A cidade" -e- "Thalassa Thalassa", de Haroldo de Campos]. São Paulo: Edição dos Autores, (novembro de)1952, 72p. 
:: Noigandres 2. São Paulo: Edição dos Autores, (fevereiro de) 1955. 
:: Noigandres 3. São Paulo: Edição dos Autores, (dezembro de) 1956. 
:: Noigandres 4. [Plano-Piloto para Poesia Concreta - Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Ronaldo Azered; capa Hemelindo Fiaminghi]. São Paulo: Edição dos Autores, (março de) 1958.
Antologia
:: Antologia Noigandres: do verso à poesia concreta. [Décio Pignatari, Haroldo de Campos, Augusto de Campos, Ronaldo Azeredo e José Lino Grünewald; capa Alfredo Volpi]. São Paulo: Massao Ohno Editora, 1962, 204p.

Outras fontes e referências de pesquisa 

CALVO, Anan Paula; SCHINCARIOL, Zuleica. Desdobramentos da Articulação entre o Design Gráfico e a Poesia Concreta Paulista: Interrogações e Reflexões da Pesquisa. in: 9º Congresso Brasileiro de Pesquisa e Desenvolvimento em Design. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016). 
CLÜVER, Claus. The Noigandres Poets and Concrete Art. in: Ciberletras/ Indiana University. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).
EXPOSIÇÕES. As palavras em liberdade. Coleção E.M. de Melo e Castro da Fundação de Serralves. (Roteiro). Catalogo. Galeria de Exposições do Centro de Arte de Ovar, 27.6 - 30.8.2014. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016). 
POETRY COLLECTION. Noigandres 4 - poesia concreta, 1958. in: Fondazione Bonotto. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).
GASPAR. Concretismo: Noigandres. in: Blog Expurgação. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).
KHOURI, Omar. Noigandres e Invenção: revistas porta-vozes da Poesia Concreta. in: FACOM - nº 16 - 2º semestre de 2006. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).
MIRANDA, Antonio. Noigandres: origem e significado do termo (em pesquisa de Antonio Risério). in: site Antonio Miranda. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).
MOTTA, Leda Tenório da.. Clima e Noigandres - a crítica literária brasileira entre dois fogos. in: Revista USP, São Paulo, n.39, p. 120-129, setembro/novembro 1998. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).
RISÉRIO, Antonio. Cores vivas (ensaios). Salvador: Fundação Casa de Jorge Amado, 1989,  132p.
 
D. Pignatari - in: Noigandres 4, 1958 (iconografia)

REVISTA 'INVENÇÃO'
Invenção (1962 - 1967) foi uma revista literária criada pelo grupo Noigandres, com a colaboração de outros poetas, artistas e teóricos, sendo o segundo veículo de comunicação criado pelos fundadores da Poesia concreta, além da própria revista Noigandres. Invenção também foi o nome de um caderno do jornal Correio Paulistano, que incluiu colaborações, entre outros, do grupo Noigandres, Cassiano Ricardo e Mário Chamie, também divulgando a nova poesia da década de 1960, publicado nos anos 60 e 61. 

revista 'Invenção' - nº 1, 1962
Além dos autores citados, diferentemente de Noigandres, a qual não contou com colaborações internacionais, a revista Invenção incluiu colaborações de vários brasileiros e estrangeiros como Max Bense, Paulo Leminski, Mário Faustino, José Paulo Paes, Eugen Gomringer, Edwin Morgan, E. M. de Melo e Castro, Andrei Voznesensky, Pierre Garnier, Fukiko Kobayashi, Yevgeny Yevtushenko, Ian Hamilton Finlay e Manuel Bandeira, entre outros. Seus editores-chefes foram Décio Pignatari, diretor da revista, Pedro Xisto e Edgard Braga.
:: Fonte: KHOURI, Omar. Noigandres e Invenção: revistas porta-vozes da Poesia Concreta. in: FACOM - nº 16 - 2º semestre de 2006. Disponível no link. (acessado em 14.2.2016).
Outras fontes de pesquisa:
ÁVILA, Carlos. “Invenção” – Uma reedição necessária. O Eixo e a Roda: Revista de Literatura Brasileira, v. 13, 2006. Disponível no link. (acessado em 21.2.2016). 
BORGES, Aderval. Não faço letras, faço poesia. in: trans in formação, 2 de dezembro de 2013. Disponível no link. (acessado em 21.2.2016).
KHOURI, Omar. Revistas de Invenção/Experimentais: participações. Antologias. in: Escritos de Lisboa, 27 nov. 2015. Disponível no link. (acessado em 21.2.2016). 


Décio Pignatari - foto: Valéria Mendonça
ALGUNS POEMAS TRADUZIDOS POR DÉCIO PIGNATARI

A ponte Mirabeau
Escorre sob a ponte o rio Sena
E em nossos amores
A lembrança me acena
Vinha sempre o prazer depois da pena

Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora

Mãos nas mãos esperemos face a face
Até que sob a ponte
Dos nossos braços passe
O eterno desse olhar em nosso enlace

Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora

O amor se vai como água turbulenta
Assim o amor se vai
E como a vida é lenta
E como esta Esperança é violenta

Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora

Os dias passam passam as semanas
Não voltam o passado
Nem as paixões humanas
E o Sena flui em águas soberanas

Que venha a noite e soe a hora
Os dias se vão não vou embora

Os dias passam passam mas que pena
Passado amor
Nenhuma volta acena
Na ponte Mirabeau se vai o Sena

A noite venha sem demora
Eu fico e o tempo vai embora


Le pont Mirabeau
Sous le pont Mirabeau coule la Seine
Et nos amours
Faut-il qu’il m’em souvienne
La joie venait toujours après la peine

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

Les mains dans les mains restons face à face
Tandis que sous
Le pont de nos bras passe
Des éternels regards l’onde si lasse

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

L’amour s’en va comme cette eau courante
L’amour s’en va
Comme la vie est lente
Et comme l’Espérance est violente

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure

Passent les jours et passent les semaines
Ni temps passé
Ni les amours reviennet
Sous le pont Mirabeau coule la Seine

Vienne la nuit sonne l’heure
Les jours s’en vont je demeure
- Apollinaire, em "31 poetas - 214 poemas: do Rigveda e Safo a Apolinnaire". [tradução, notas Décio Pignatari]. 2ª ed., Campinas SP: Unicamp, 2007.


§


O FAUNO DE MALLARMÉ               
Nota ao Fauno
Caricature de Stéphane Mallarmé, par Luque (Pan1887)
Neste primeiro ensaio de tridução (bom trabalho para muitos - e muitos anos), persigo o texto como o fauno às ninfas. Pelo truque, fujo ou dispenso as rimas; antes, busco rimas hologrâmicas, grandes assonâncias e ressonâncias, harmonia vária e aleatória de amostragem; também, ora, exulta um alexandrino bem feito; aqui e ali capenga, que o prosaico ainda faz parte. É uma tradução poética literal: não há álibis para não ter tentado tudo, tridução não econômica, a três por um, como convém humilde homenagear o Mestre- Inventor. Permutações, à discrição, embora, para continuidade, leiam-se os versos de três em três: a sinalização tipográfica do verso-cabeça é para facilitar essa leitura; mas nenhum verso do terceto é comandante: literalidade num, subleitura noutro etc. Mantive o vago onde supus que Mallarmé estivesse, outros são meus, não entendimento, on verra, talvez tenha esclarecido alguns – a conquista do impreciso se faz com precisão. Por obediência supersticiosa, ora mantenho a pontuação; inovo; ou elimino. A tipografia conta, porque aqui começa uma não-linearidade som-escrita (fique a escritura para os colombos tardios). Para ler, o original ao menos, com olho, ouvido e braille: devagar, com tato, algum palato, muito olfato. e um poema erótico, de erecção e elevação e impotência: tudo se resolve no papel, faute de mieux. São ninfas e é a poesia; uma flauta dupla priápica, duas ninfas’: são canetas, é tinteiro-pântano, é um papel de brancura animal, são mulheres, palavras. Mallarmé fecit 1865, aos 23 anos, para o teatro, veleidades justas, monólogo com marcações que nos parecem ridículas; não foi aceito; foi refazendo; também não o foi para a revista Troisième Parnasse Contemporain (A. France e Copeau vetaram); em 1876, saiu a 200 exemplares, ilustrações de Manet, preciosa edição com fitinhas coloridas, letras douradas na capa, tipos fundidos só para ela, impressão manual, papel também preparado à mão: ficou poema. Dos maiores, com ainda brutezas requintadas e datadas; o que o baixinho viu de ninfas, fora uma e outra corrupta costumeira, a mulher ossuda alemã e a adorável mulher de dentista e de poetas Méry Laurent, modelo de Manet, foram carnações acadêmivas no Louvre, nos salons ou em reproduções – não as banhistas impressionistas. Mas já é, isomorficante; iria além. O resto, leitor, do poema, é descoberta.
- Décio Pignatari. in: CAMPOS, Augusto de; CAMPOS, Haroldo de; PIGNATARI, Décio. Mallarmé. Coleção signos. Edição Bilíngue. São Paulo: Perspectiva, 1991, p. 85-86.
ilustração Edouard Manet
TRIDUÇÃO DE DÉCIO PIGNATARI DO POEMA "L’APRÈS-MIDI D’UN FAUNE ", DE MALLARMÉ

A tarde de verão de um fauno

A tarde de um fauno

A sesta de fauno



Églogue

1876


Quero perpetuar essas ninfas.
                                              Tão claro

Essas ninfas eu quero eternizar.
                                             Tão leve

Vou perpematar essas ninfas.
                                            É tão claro

É o rodopio de carnes, que ele gira no ar
É a sua carnação, que ela gira no ar
Seu ligeiro encarnado a voltear no ar
Entorpecido de pesados sonos.
                                                   Sonho?

Sonolento de sonhos e arbustos.
                                                   Foi sonho?

Espesso de mormaço e sonos  
                                                   Sonhei ou … ?

Borra de muita noite, a dúvida se acaba
Massa de muita noite, a dúvida se arma
Massa de muita noite, arremata-se a dúvida
Em raminhos sutis que são o próprio bosque,
Em filetes sutis que são a própria mata,
Em mil ramos sutis a imitar a mata,
Prova cabal de que, em dom bem solitário,
Prova infeliz de que eu sozinho me ofertava
Prova infeliz de que em gozo solitário
Eu triunfava em meio à falta ideal de rosas.
À guisa de triunfo a ausência ideal das rosas.
Eu me dava em triunfo a falta ideal das rosas.

Ilustração Edouard Manet
Reflitamos …
Vamos pensar …
Refletir …
E se essas moças, minhas glosas,
Se essas moças que tu glosas
Vamos que as mulheres que tu glosas
Não passarem de sonho e senso fabulosos?
Forem só fumo dos sentidos fabulosos?
Não passem de ilusão dos sentidos da fábula?
Fauno, dos olhos da mais casta, azuis e frios,
A fria ilusão azul escorre, fauno,
Fauno, desfaz-se a ilusão nos olhos frios
Flui a ilusão como uma fonte em prantos, rios:
Dos olhos da mais casta como fonte em prantos:
E azuis daquela que é mais casta, pranto em fonte:
Mas, da toda suspiros, achas que difere
Porém, como contraste, da que é suspiros,
Mas, em contraste, o hálito da outra, arfante,
Da outra, nos teus pelos, como um vento quente?
Dizes que é o ar do dia quente em teu tosão?
Não é o sopro de um dia quente nos teus pelos?
Mas, não! No pasmo exausto e imóvel, a manhã
Não, não! Na quietude do abandono exausto,
Mas, não! Pelo desmaio imóvel e cansado,
Se debate em calor para manter-se fresca
Sufocando a manhã se ela resiste fresca,
Sufocando a manhã de calor, se reage,
E água não canta que da avena eu não derrame
A água não murmura se não vem da flauta
Só o que murmura é a linfa que da avena venha
No bosque irrigado de acordes – e o só sopro
Vertendo sons no bosque – e não há outro vento
Regar de acordes o capão; e só o vento
Além do exalado pelas duas canas
Além do modulado pelos tubos prestes a
Que flui da flauta dupla prestes a exalar-se
Pronto a extinguir-se antes que se disperse em chuva
Desvanescer-se antes que o som se disperse
Antes de dispersar o som em chuva estéril,
Estéril, é somente o sopro no horizonte
No chuvisco impotente de uma chuva árida,
Se ouve – não se ouvisse no horizonte liso
Sem uma ruga a perturbá-Ia, da visivel
A não ser no horizonte sem rugas a calma
O sopro artificial, visível e sereno,
E calma inspiração artificial do céu.
Daquela inspiração que re-expira o céu.
Da inspiração que volta a ascender ao céu.
O calmos pantanais dàs costas da Sicília,
Ó orla siciliana das baixadas calmas,
Ó pântano estagnado às costas sicilianas,
Que, êmula de sóis, minha vaidade pilha,
Que eu saqueio vaidoso em disputa com o sol,
Que eu disputo com sóis na pilhagem vaidosa,
Tácita, sob centelhas floridas, CONTAI
Tacitamente, sob centelhas-flores, CONTE
Sob centelhas de flores, taciturno, CONTE
“Que aqui eu cortava os caniços, domados
Que aqui com arte e engenho vinha eu domar
Que eu costumava aqui cortar caniços ocos
Pelo talento, quando no ouro azul dos longes
Caules ocos no glauco ouro de longínquos
Com meu talento e era, no ouro azul de longes
As fontes os vergéis ofertavam suas vinhas
Verdes, oferecendo às fontes as videiras,
Verdes, às fontes dedicando seus vinhedos,
E ondulava um brancor animal em repouso:
Vendo branco ondular um repouso animal:
Uma animal brancura ondulando em sossego:
E que ao lento prelúdio onde nascem as flautas,
E que ao prelúdio lento em que nascem as flautas,
E que ao lento prelúdio das varas de visgo,
Este arroubo de cisnes, ou náiades! foge
Este vôo de cisnes, náiades! se esquiva
Esses signos no ar, mulheres! ludibriam
Ou mergulha ...
Ou imerge ...
Ou afundam ..."
Arde a tarde inerte na hora fulva
Incêndio inerte na hora fulva,
Inerte é a tarde na hora rubra
Sem um sinal das artes pelas quais partiram
Sem traço da arte combinada que desfez
Sem traço da arte vária pela qual fugiu
Tantos himens sonhados por quem busca o lá:
Tanta núpcia ansiada por quem busca o Ia:
O excessivo himeneu de quem procura o Ia:
Despertarei então à devoção primeira,
Assim, vou retornar ao meu primeiro voto,
Então rejuvenelho no ardor primevo,
Ereto e só, sob um fluir de luz antiga,
De pé e só sob uma luz que flui de outrora,
Direito e só, sob um fluir velho de luz,
Lírio! e um de vós todos pela ingenuidade.
Leia! pela engenhosidade, um só devoto.
E, pela ingenuidade, lírio! um dentre vós.
Bem diverso do beijo, doce nada esparso
Mais que esse doce nada, arrulho de seus lábios,
Mais que esse doce nada a dar de boca a boca,
Através de seus lábios a insuflar perfídias,
O beijo que, bem baixo, é bífida perfídia,
O beijo que, bem baixo, é perfídia segura,
Atesta uma mordida este meu seio virgem,
Dá prova o peito puro de uma morte certa,
Virgem de prova, o seio exibe uma mordida
Misteriosa marca de algum dente augusto;
Mordida misteriosa de algum dente augusto;
Misteriosa, dente de algum deus supremo;
Mas, chega! que esse arcano elege por amigo
Mas, basta! que esse enigma optou por confidente
Mas, silêncio! que o enigma tem por confidente

Ilustração Edouard Manet
O junco vasto e gêmeo sob o céu tocado:
O junco vasto e gêmeo sob o céu gemendo:
O junco imenso e gêmeo sob o céu que sopra:
Ei-Io que chama a si a turbação da face
Eis que assumindo a excitação da face, sonha,
Que para si chamando o tumulto da face,
E num extenso solo sonha que entretemos
Num solo prolongado que estamos deleitando
Num longo solo longo aspira a que encantemos
A beleza ao redor, mediante confusões
A beleza ambiente através das ambíguas
O lugar que nos cerca através de enganosas
Falsas entre ela própria e o nosso canto crédulo -
Confusões entre ela e o nosso canto ingênuo
Confusões entre ela e este canto bisonho
Procurando no módulo do amor mais alto
E tanto quanto alcance um módulo amoroso
E façamos, no módulo do amor mais alto,
Esgarçar, da quimera ordinária de costas
Faz que se esvaia a ilusão banal de dorso
Desmaiar a miragem banal em decúbito
Ou bem de flanco puro seguidos com o olhar,
Ou de lado, seguidos pelo olhar sem ver,
Ou reclinada pura no olhar fechado,
Uma linha monótona, sonora e vã.
Numa linha enfadonha, inútil e sonora.
Numa sonora, vã e monótona linha.

Volta, pois, instrumento de fugas, maligna
Flauta nefasta, pífano de fugas, trata
Flauta nefasta, instrumento de escapes, trata
Flauta, a reflorescer nos lagos onde me ouves:
De reflorir no lago onde por mim esperas!
De reflorir na água onde por mim aguardas!
De meu tropel cioso, irei falar de deusas
Orgulhoso de som, vou falar longamente
Altivo em meu rumor, vou falar longo tempo
Por muito tempo – e em muita pintura profana,
De d e ss – e graças a quadros idólatras,
Das deusas, e, mercê de profanas pinturas,
A sua sombra hei de enlaçar muita cintura;
À sua sombra ainda hei de enlaçar cinturas;
À sua sombra ainda arrebatar cinturas;
E quando a luz das uvas tenha eu sorvido
E assim que chupe a luz destes cachos de uva,
E quando da razão tenha sugado a luz,
P’ra banir uma dor por fingimento oculta,
Afastando um pesar pela astúcia esquecido,
Banindo um dissabor por fingimento oculto,
Ridente, elevo ao céu do estio os bagos murchos
Gozador, ao verão do céu oferta os bagos
Ergo ao céu, com sarcasmo, o cacho esvaziado
E soprando as bexigas radiosas, sedento
E soprando nas peles translúcidas, ávido
E enchendo de ar bagos de luz, ávido e ébrio
De embriaguez, contra a luz os contemplo, bêbado.
E ébrio, fico olhando através até a noite.
De través os contemplo até o cair da noite.

Re-inspiremos, ninfas, MEMÓRIAS, de versos.
Ninfas, vamos inflar RECORDAÇÕES diversas.
Reavivemos, ninfas, LEMBRANÇAS diversas.
“Pelos juncos, o olhar violava as colinas
Varejava, nos juncos, meu olho, uma a uma,
Pelos juncos, meu olho espiava as colinas
Imortais, que na onda afogam o cautério,
As curvas imortais no refrigério da onda
Imortais, que afogam na onda a queimadura,
No céu da mata desfechando um impropério;
– Irados gritos contra a abóbada da mata
Soltando gritos de ira contra o céu da mata;
E o banho esplêndido de pêlos se dilui
Os mais esplêndidos cabelos esvaindo-se
E o banho esplendoroso dos cabelos some
Em calafrios e claridades, pedrarias!
Em claros calafrios de raras pedrarias!
Em pedrarias de faíscas e tremores!
Precipito-me – e eis a meus pés, enrascadas,
Corro e vejo, a meus pés, enlaçadas, doridas.
Lanço-me e vejo ali, entrejuntas e langues.
Langorosas haurindo esse mal de ser dois,
Do gostado langor desse mal de ser dois,
– Melancolia doce do mar de ser dois –
Duas carnes dormindo entre os braços do acaso:
As dormindas dormindo entre seus próprios braços:
Adormecidas, sós, as ninfas aos abraços:
Empolgo-as sem desvencilhá-Ias e me arranco
Sem desfazer o enlace, arrebato-as e alcanço
Sem desuni-Ias arrebato-as e encontro
Rumo a esse alcatife, odiado pela frívola
Ao canteiro –  que a sombra leviana odeia –
O canteiro de rosas (assédio de sombras),
Sombra, de rosas desperfumando-se ao sol,
De rosas exaurindo todo o odor ao sol
Maciço de perfumes a fundir-se ao sol,
Para esse embate igual ao dia que se consome.
E ali o nosso embate ao dia que finda iguala.
Onde o nosso prazer, junto com o dia, acabe.”
Eu te adoro, furor de virgem, ó delicia
Ira das virgens, eu te adoro, ó delícia
O cólera das virgens, eu te adoro, gozo
Feroz do fardo nu e sagrado que se esquiva,
Feroz do fardo nu e sagrado que desliza,
Selvagem dessa carga nua que se insinua
Fugindo à boca em água ardente, quando um raio
Para fugir, à boca em fogo e sede, como
Para fugir à boca em fogo – como um raio
Faz tremer! o temor mais secreto da carne:
‘Um raio treme! a via secreta da carne:
Sobressalta-se! o medo em segredo na carne:
Dos pés da desumana ao coração da tímida
Dos pés da inumana ao coração da tímida
Dos pés da desumana ao peito da mais tímida
Pela inocência abandonada, ora úmida
Que a pureza abandona, orvalhada ora por
A inocência abandonando a ambas, úmida
De pranto doido ou de vapores mais alegres.
Lágrimas tristes ou não tão tristes vapores.
De pranto solto ou de suores menos tristes.
“Meu crime é o de abrir, com beijos, o tufo
Meu crime foi de ter, contente de vencer
Meu crime é o de haver, alegre por vencer
Hirsuto que tão bem mantinha um deus cerrado;
Um medo insidioso, aberto ao meio o bosque
Temores infiéis, partido ao meio a moita
Pois mal me dispunha a esconder um riso ardente
Desgrenhado, que os deuses guardavam ciosos;
De beijos, pelos deuses tão bem guarnecida;
Sob as pregas felizes de uma só [guardando
Assim que me propunha a esconder um riso ar-
Mal ia eu introduzir um riso ardente
Com simples dedo, a fim que o seu candor de pena
Dentes nas dobras álacres de uma (gesto
Sob as felizes comissuras de uma (dedo
Se maculasse na emoção de sua Irmã· –
De dedo vigilante – que o candor de pluma
Simples de guarda – a fim que seu candor de pluma
Aquela que é pequena, ingênua e não se peja:)
Se tinja na emoção de sua irmã que brilha
Se contamine ao frêmito da irmã que inflama
Que de meus braços moles por deliquios vagos
– Guardando a pequenina, ingênua e que não cora:)
– À pequenina, ingênua e que não enrubesce:)
Liberta-se essa presa para sempre ingrata,
Já de meus braços vagamente amolecidos
Que de meus braços moles por incertas mortes
Sem pena do soluço ainda em mim cativo.
Escapa-me essa presa para sempre ingrata,
A presa, para sempre ingrata, se liberta,
[...]

Sem piedade de mim na ebriez do soluço.
Sem pena do queixume ainda a inebriar-me.”

Tanto pior! ao gozo hão de levar-me outras,
Azar! Hão de arrastar-me outras ao prazer,
Felicidade, paciência! Virão outras

Emaranhando suas tranças nos meus cornos:
As tranças amarrando aos chifres desta fronte:
Aos cornos desta fronte emaranhar as tranças:

Tu sabes, vida minha: púrpura e madura.
Minha vida, é assim: já madura e vermelha,
Minha paixão, tu sabes que madura e rubra

Toda romã explode e em abelhas murmura;
Toda romã estala em zumbidos de abelhas;
Toda granada explode em murmúrios de insetos;

E o sangue, enamorado de quem vai colhê-lo,
E o nosso sangue, preso a quem vai possuí-Io,
E o nosso sangue, amante de quem vai sugá-Io,
Escorre pelo eterno enxame do desejo.
Corre por todo o enxame eterno do desejo.
Corre por todo o eterno enxame do desejo.
E quando o bosque tinge-se de ouro e cinza,
E na hora em que o bosque é de cinza e de ouro,
Na hora em que se banha o bosque em cinza e ouro,
Exalta-se uma festa na ramada extinta:
Uma festa se exalta na ramada extinta:
Na folhagem extinta uma festa se eleva:
Etna! é em teu meio quando Vênus vem
Etna! é em meio a ti, visitado por Vênus,
Etna! Tu és a festa quando Vênus vem
Pousar em tua lava as plantas inocentes
Pousando em tua lava o calcanhar ingênuo,
Pousar em tua lava o calcanhar ingênuo,
E estronda um sono triste ou esmorece a chama.
Se troa um sono triste ou desfalece a flama.
Num resultado triste ou num fogo que apaga.

Tomo a dama!
Minha, a rainha!
Conservo as rédeas!
Castigo certo …
O punição …
O castigo ...
                               Não, mas a alma
Vazia de palavras e este corpo espesso
De palavras vazia e este pesado corpo
Sucumbem ao feroz silêncio meridiano:
No tardo meio-dia, em quietude, morrem:
Tarde sucumbem ao silêncio meridiano:
Sem mais, dormir no esquecimento da blasfêmia,
O que resta é dormir no olvido da blasfêmia,
Sem mais, cumpre dormir e afugentas a injúria
Na areia ressupino e sedento – e sequioso
Jazendo sobre a areai, alterado e amando
Sobe a areia sedenta a jazer e, a gosto,
De abrir a boca ao astro eficiente dos vinhos!
Oferecer a boca ao astro audaz dos vinhos!
Ao eficaz astro do vinho abrir a boca!
Ninfas, adeus; vou ver a sombra que vos tornais.
Ninfas, adeus; vou ver a sombra que ora sois.
Casal, adeus; vou ver a sombra que és agora.






L’après-midi dun Faune

Églogue



LE FAUNE

Ces nymphes, je les veux perpétuer.

                               Si clair,

Leur incarnat léger, qu’il voltige dans l’air

Assoupi de sommeils touffus.

                          Aimai-je un rêve?



Mon doute, amas de nuit ancienne, s’achève

En maint rameau subtil, qui, demeuré les vrais

Bois mêmes, prouve, hélas ! que bien seul je m’offrais

Pour triomphe la faute idéale de roses —



Réfléchissons…



 ou si les femmes dont tu gloses

Figurent un souhait de tes sens fabuleux !

Faune, l’illusion s’échappe des yeux bleus

Et froids, comme une source en pleurs, de la plus chaste :

Mais, l’autre tout soupirs, dis-tu qu’elle contraste

Comme brise du jour chaude dans ta toison ?

Que non ! par l’immobile et lasse pamoison

Suffoquant de chaleurs le matin frais s’il lutte,

Ne murmure point d’eau que ne verse ma flûte

Au bosquet arrosé d’accords ; et le seul vent

Hors des deux tuyaux prompt à s’exhaler avant

Qu’il disperse le son dans une pluie aride,

C’est, à l’horizon pas remué d’une ride,

Le visible et serein souffle artificiel

De l’inspiration, qui regagne le ciel.



Ô bords siciliens d’un calme marécage

Qu’à l’envi des soleils ma vanité saccage,

Tacites sous les fleurs d’étincelles, CONTEZ

» Que je coupais ici les creux roseaux domptés

» Par le talent ; quand, sur l’or glauque de lointaines

» Verdures dédiant leur vigne à des fontaines,

» Ondoie une blancheur animale au repos :

» Et qu’au prélude lent où naissent les pipeaux,

» Ce vol de cygnes, non ! de naïades se sauve

» Ou plonge…

 Inerte, tout brûle dans l’heure fauve

Sans marquer par quel art ensemble détala

Trop d’hymen souhaité de qui cherche le la :

Alors m’éveillerais-je à la ferveur première,

Droit et seul, sous un flot antique de lumière,

Lys ! et l’un de vous tous pour l’ingénuité.



Autre que ce doux rien par leur lèvre ébruité,

Le baiser, qui tout bas des perfides assure,

Mon sein, vierge de preuve, atteste une morsure

Mystérieuse, due à quelque auguste dent ;

Mais, bast ! arcane tel élut pour confident

Le jonc vaste et jumeau dont sous l’azur on joue :

Qui, détournant à soi le trouble de la joue,

Rêve, dans un solo long, que nous amusions

La beauté d’alentour par des confusions

Fausses entre elle-même et notre chant crédule ;

Et de faire aussi haut que l’amour se module

Évanouir du songe ordinaire de dos

Ou de flanc pur suivis avec mes regards clos,

Une sonore, vaine et monotone ligne.



Tâche donc, instrument des fuites, ô maligne

Syrinx, de refleurir aux lacs où tu m’attends !

Moi, de ma rumeur fier, je vais parler longtemps

Des déesses ; et, par d’idolâtres peintures,

À leur ombre enlever encore des ceintures :

Ainsi, quand des raisins j’ai sucé la clarté,

Pour bannir un regret par ma feinte écarté,

Rieur, j’élève au ciel d’été la grappe vide

Et, soufflant dans ses peaux lumineuses, avide

D’ivresse, jusqu’au soir je regarde au travers.



Ô nymphes, regonflons des SOUVENIRS divers.

» Mon œil, trouant les joncs, dardait chaque encolure

» Immortelle, qui noie en l’onde sa brûlure

» Avec un cri de rage au ciel de la forêt ;

» Et le splendide bain de cheveux disparaît

» Dans les clartés et les frissons, ô pierreries !

» J’accours ; quand, à mes pieds, s’entrejoignent (meurtries

» De la langueur goûtée à ce mal d’être deux)

» Des dormeuses parmi leurs seuls bras hasardeux ;

» Je les ravis, sans les désenlacer, et vole

» À ce massif, haï par l’ombrage frivole,

» De roses tarissant tout parfum au soleil,

» Où notre ébat au jour consumé soit pareil.

Je t’adore, courroux des vierges, ô délice

Farouche du sacré fardeau nu qui se glisse

Pour fuir ma lèvre en feu buvant, comme un éclair

Tressaille ! la frayeur secrète de la chair :

Des pieds de l’inhumaine au cœur de la timide

Que délaisse à la fois une innocence, humide

De larmes folles ou de moins tristes vapeurs.

» Mon crime, c’est d’avoir, gai de vaincre ces peurs

» Traîtresses, divisé la touffe échevelée

» De baisers que les dieux gardaient si bien mêlée ;

» Car, à peine j’allais cacher un rire ardent

» Sous les replis heureux d’une seule (gardant

» Par un doigt simple, afin que sa candeur de plume

» Se teignît à l’émoi de sa sœur qui s’allume,

» La petite, naïve et ne rougissant pas :)

» Que de mes bras, défaits par de vagues trépas,

» Cette proie, à jamais ingrate, se délivre

» Sans pitié du sanglot dont j’étais encore ivre.



Tant pis ! vers le bonheur d’autres m’entraîneront

Par leur tresse nouée aux cornes de mon front :

Tu sais, ma passion, que, pourpre et déjà mûre,

Chaque grenade éclate et d’abeilles murmure ;

Et notre sang, épris de qui le va saisir,

Coule pour tout l’essaim éternel du désir.

À l’heure où ce bois d’or et de cendres se teinte

Une fête s’exalte en la feuillée éteinte :

Etna ! c’est parmi toi visité de Vénus

Sur ta lave posant ses talons ingénus,

Quand tonne un somme triste ou s’épuise la flamme.



       Je tiens la reine !



                 Ô sûr châtiment…



                                 Non, mais l’âme

De paroles vacante et ce corps allourdi

Tard succombent au fier silence de midi :

Sans plus il faut dormir en l’oubli du blasphème,

Sur le sable altéré gisant et comme j’aime

Ouvrir ma bouche à l’astre efficace des vins !



Couple, adieu; je vais voir l’ombre que tu devins.
- Stéphane Mallarmé "L’Après-midi d’un Faune" [tridução Décio Pignatari]. in: "Mallarmé". [tradução Décio Pignatari, Augusto de Campos e Haroldo de Campos]. Coleção signos. Edição Bilíngue. São Paulo: Perspectiva,  1991, p. 87-106.
- Mallarmé. L’après-midi d’un faune. Paris: Revue Indépendante, 1887.



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Décio Pignatari (1996) - foto: Eduardo Knapp/Folhapress
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FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Décio Pignatari - invenção e construção poética. Templo Cultural Delfos, fevereiro/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 21.2.2016.



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