"A arte é o espelho da pátria.
O país que não preserva os seus valores culturais j
amais verá a imagem de sua própria alma."
- Chopin

Centenários 2014 - personagens e fatos históricos


* CENTENÁRIAS DE 2014 - PERSONAGENS DA NOSSA HISTÓRIA
DATA
PERSONALIDADE
ATIVIDADE
HOMENAGEM
06.01.1914
Moreira Campos  (José Maria Moreira Campos)
contista
100º aniversário de nascimento
12.01.1914
Orlando Vilas-Boas
sertanista e indigenista
100º aniversário de nascimento
30.01.1914
Carlos Lacerda 
jornalista e político
100º aniversário de nascimento
05.02.1914
William Burroughs
escritor, pintor e crítico social
100º aniversário de nascimento
14.03.1914
Abadias do Nascimento
professor e ativista social
100º aniversário de nascimento
14.03.1914
Octavio Paz (Octavio Paz Lozano)
ensaísta e poeta 
100º aniversário de nascimento
14.03.1914
Carolina Maria de Jesus
escritora
100º aniversário de nascimento
18.03.1914
César Guerra-Peixe      
compositor
100º aniversário de nascimento
30.04.1914
Dorival Caymmi
cantor, compositor e pintor
100º aniversário de nascimento
04.05.2014
Armando Toschi, o Ministrinho
compositor, instrumentista (violonista) e Cantor
100º aniversário de nascimento
08.05.1914
Miroel Silveira   
diretor de teatro, crítico teatral e ensaísta
100º aniversário de nascimento
10.05.1914
Amaro Macedo 
botânico
100º aniversário de nascimento
26.05.1914
Irmã Dulce (Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes)
religiosa
100º aniversário de nascimento
18.06.1914
Sílvio Romero
crítico literário, poeta, filósofo, professor e político brasileiro e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras
100 anos de saudades
20.06.1914
Djanira da Motta e Silva
pintora, desenhista, ilustradora, cartazista, cenógrafa e gravadora
100º aniversário de nascimento
02.07.1914
Mário Schenberg
físico, político e crítico de arte
100º aniversário de nascimento
11.08.1914
Júlio Gouveia   
diretor de teatro e de televisão, ator, apresentador e educador
100º aniversário de nascimento
19.08.1914
Aracy de Almeida
cantora
100º aniversário de nascimento
26.08.1914
Julio Cortázar   
escritor
100º aniversário de nascimento
14.09.1914
Renato Castelo Branco
Advogado, escritor e publicitário
100º aniversário de nascimento
19.09.1914
Lupicínio Rodrigues       
compositor
100º aniversário de nascimento
13.10.1914
Jamil Almansur Haddad
crítico, ensaísta, poeta, historiador, teatrólogo, antologista e tradutor
100º aniversário de nascimento
03.11.1914
António da Costa
poeta, critico de arte e pintor
100º aniversário de nascimento
08.11.1914
Luis Dourdil
pintor, artista gráfico, desenhador e muralista
100º aniversário de nascimento
12.11.1914
Augusto dos Anjos        
poeta
100 anos de saudades
18.11.1914
Iberê Camargo 
pintor, gravador e professor
100º aniversário de nascimento
05.12.1914
Lina Bo Bardi
arquiteta, designer, cenógrafa, editora, ilustradora
100º aniversário de nascimento
14.12.1914
Odylo Costa, filho
jornalista, cronista, novelista e poeta
100º aniversário de nascimento
* CENTENÁRIAS DE 2014 – EVENTOS E FATOS HISTÓRICOS

Início da Primeira Guerra Mundial

100 anos
20.08.1914
Fundação oficial da seleção Brasileira de Futebol

100 anos

The Property Man (filme mudo) de Charles Chaplin
Estreia
100 anos
OBs.: * Você encontrará aqui uma breve biografia e indicações para pesquisas e fontes complementares  sobre cada personagem e evento/ou fato histórico. (atualizado em 05.06.2014)


PERSONAGENS

CENTENÁRIO MOREIRA CAMPOS
Moreira Campos - foto: Encontros Literários
Moreira Campos (José Maria), nascido em Senador Pompeu (6 de janeiro de 1914), é filho do português Francisco Gonçalves Campos e Adélia Moreira Campos. Ingressou na Faculdade de Direito do Ceará, bacharelando-se em 1946. Licenciou-se em Letras Neolatinas em 1967, na antiga Faculdade Católica de Filosofia do Ceará. Na área do magistério iniciou-se como professor de Português, Literatura e Geografia em colégios. Exerceu o magistério na Universidade Federal do Ceará, Curso de Letras, como titular de Literatura Portuguesa. Integrante do Grupo Clã. Pertenceu à Academia Cearense de Letras. Faleceu em Fortaleza, no dia 7 de maio de 1994. Deixou as seguintes coleções: Vidas Marginais (1949), Portas Fechadas (1957), distinguido com o Prêmio Artur de Azevedo, do Instituto Nacional do Livro, As Vozes do Morto (1963), O Puxador de Terço (1969), Os Doze Parafusos (1978), A Grande Mosca no Copo de Leite (1985) e Dizem que os Cães Vêem Coisas (1987). Seus Contos Escolhidos tiveram três edições, Contos foram editados em 1978 e Contos – Obra Completa se publicaram, em dois volumes, em 1996, pela Editora Maltese, São Paulo, com organização de Natércia Campos. Tem também um livro de poemas, Momentos (1976). Participou de diversas antologias nacionais. Algumas de suas peças ficcionais foram traduzidas para o inglês, o francês, o italiano, o espanhol, o alemão.
Sua obra está estudada em importantes livros, como o de José Lemos Monteiro, intitulado O Discurso Literário de Moreira Campos, o de Batista de Lima, Moreira Campos: A Escritura da Ordem e da Desordem, e outros mais abrangentes, como Situações da Ficção Brasileira, de Fausto Cunha; 22 Diálogos Sobre o Conto Brasileiro Atual, de Temístocles Linhares; e A Força da Ficção, de Hélio Pólvora. Em jornais e revistas se estamparam quase uma centena de artigos e ensaios sobre os seus livros.
Temístocles Linhares classifica o contista de Portas Fechadas de “um de nossos maiores contistas atuais”. E comenta: “Lê-lo, para mim, é reviver, em certos aspectos, transpostos para o ambiente de seu Ceará, os velhos mestres do naturalismo. Como eles, o autor também desconfia das grandes palavras e dos grandes gestos, preferindo tentar substituir os julgamentos de valor pelos julgamentos de existência”.
Assis Brasil escreveu: “Moreira Campos faz, no Ceará, a ligação entre o conto de história, ainda vigente nos primeiros anos do Modernismo, e o conto de flagrante, sugestivo, que as novas gerações, a partir de 1956, desenvolveriam em muitos aspectos criativos”.
Moreira Campos - foto: Encontros Literários

Hélio Pólvora opina: Moreira Campos, “embora não sendo um tchekhoviano perfeito, dele (Tchekhov) se aproxima quando livra o conto de uma sobrecarga excessiva e procura atingir logo o alvo, localizar logo o nervo exposto”. E acrescenta: “Moreira Campos seleciona e filtra fatos que às vezes se resumem a instantes, e nesse processo informa ou sugere o conflito vivido pela personagem, mostrando, afinal, o que ela faz para resolver o conflito ou sucumbir”. 
Segundo Herman Lima, no ensaio citado na primeira parte, Moreira Campos: (...) “é um mestre do conto moderno, desde o aparecimento do seu primeiro livro, Vidas Marginais (1949), no qual há pelo menos uma obra-prima do conto universal desta hora, “Lama e Folhas”. Diz mais: “As pequenas ou grandes tragédias, as comédias ocultas do cotidiano burguês, fixadas por ele, ganham, em sua mão experiente, uma especificidade que o aproxima dos maiores nomes do conto psicológico de todos os tempos, de Machado de Assis para cá, inclusive e principalmente Tchecov, de sua íntima e fiel convivência, ou, mais perto de nós, de um Joyce dos Dubliners ou um Sherwood Anderson, de Winesburg Ohio”.
Moreira Campos - foto: Universo Moreira Campos
Montenegro argumenta: “Moreira Campos será talvez não apenas o contista de maior projeção nas letras cearenses contemporâneas, porém, ainda, juntamente com Osman Lins, Dalton Trevisan e poucos outros, terá ele realizado o que de mais significativo existe no conto moderno brasileiro”.
Sânzio de Azevedo, principalmente no ensaio “Moreira Campos e a Arte do Conto” (Novos Ensaios de Literatura Cearense) faz algumas observações: “Na linhagem de Machado de Assis e por conseguinte na de Tchecov é que se entronca a obra ficcional de Moreira Campos” (...). Segunda: “apesar de haver optado pela narrativa sintética, extremamente despojada, com que tem enriquecido a nossa literatura através de não poucas obras-primas, não renegou os longos contos de seu primeiro livro” (...). Terceira observação: “Em Moreira Campos o que mais importa são os dramas da alma humana, e não a presença da terra, ostensivamente retratada nas páginas de Afonso Arinos e Gustavo Barroso”.
Batista de Lima, no ensaio mencionado linhas atrás, fala da corrosão física dos personagens, dos agentes dessa corrosão, dos defeitos congênitos, da decrepitude, da doença e da morte. A seguir analisa o oposto disso, ou seja, a ordem: “A nova ordem começa a ser instaurada no momento em que o narrador doma a morte, colocando-a no convívio familiar dos personagens.” E, passando da ordem narrada para a ordem vocabular, constata a constante evolução da arte do contista.
Moreira Campos - foto: Enciclopédia O Nordeste
Em “As Características da Escritura de Moreira Campos” (O Fio e a Meada: Ensaios de Literatura Cearense, págs. 155/158), Batista é de opinião que o contista “transita com mestria entre momentos impressionistas, neo-realistas e neonaturalistas, sempre conservando uma estrutura linear para suas narrativas, com princípio, meio e fim bem delineados.” Especifica: “As principais características da narrativa de Moreira Campos são: uma tendência para o uso de elementos descritivos em paralelo aos narrativos; os vazios deixados para serem preenchidos pelo leitor; a eliminação de comentários e interpretações paralelas; a quase ausência de diálogos; a atuação do tempo como elemento corrosivo sobre os personagens; o uso das repetições como forma de superação das dificuldades de relacionamento entre as diferentes classes de pessoas; a ironia; a luta pela concisão.”
José Alcides Pinto, em “Um Mundo de Coisas Miúdas” (Política da Arte–II, págs. 51/52), observa: “Moreira Campos, obstinado em sua procura do novo, do mundo brilhante das coisas obscuras, melhor direi de “vidas marginais”, reapanha, com O Puxador de Terço, o início de sua carreira literária, que ele torna cíclica num processo, quase mágico de depuração estilística”. Em “Moreira Campos e a Nova Ficção Brasileira” (PA-I), ao comentar Os Doze Parafusos, afirma: (...) “abrem um novo caminho na ficção de Moreira Campos, já esboçada sob o ponto de vista erótico em outras obras, mas sem a liberdade de como os assuntos são agora tratados, vistos de frente, com um realismo mágico e epidérmico, que se inscreve, com muita propriedade, no fescenino, num clima de autonomia individual e sem o prejuízo de uma linguagem estética – função inequívoca a toda obra de arte”.
Rachel de Queiroz, Moreira Campos e Maria José
 Alcides Campos- foto: Enciclopédia O Nordeste
Francisco Carvalho, em “A Transparência Formal na Ficção de Moreira Campos” (EL, págs. 124/127), vê nas peças ficcionais de A Grande Mosca no Copo de Leite que “em todas elas a excelência do artesanato literário destaca-se por uma rigorosa economia de palavras e por uma extraordinária transparência formal”. E mais adiante: “A prosa enxuta, a frase carregada de sentido, a noção de ritmo e de musicalidade, o poder de síntese, o rigor no emprego da palavra, a densidade psicológica e a expressividade – são esses alguns dos aspectos que se articulam no contexto ficcional do novo livro de Moreira Campos”. Em “Contos Escolhidos” (Textos e Contextos), analisa a evolução do contista: “Os contos da primeira fase, elaborados sem qualquer preocupação de fidelidade aos paradigmas da chamada “história curta”, já se apresentam numa evidente perspectiva de modernidade”. E mais adiante: “Já nos contos da segunda fase, Moreira Campos persegue obstinadamente os horizontes da síntese, da pura essencialidade”.

Natureza
Sento-me no silêncio 
e apalpo a natureza. 
A cantilena eterna da água, 
que tem raízes límpidas 
e misteriosas. 
Nasce não sei onde, 
vem de entranhas 
antigas como o tempo 
e desce em cachos de espuma. 
Vem branda a brisa 
Moreira Campos, por Einstein
e fresca como um bálsamo. 
Mil cigarras que explodem 
em concerto único. 
O canto longínquo do pássaro não identificado 
(mas um pássaro). 
O baque surdo da fruta 
na legitimidade do seu amadurecimento. 
Todos os ruídos 
estão milenarmente impregnados no homem 
como uma memória platônica. 
Sons honestos. 
Uma herança, 
uma identificação, 
ou sinfonia. 
Nada resulta do petróleo 
ou é conquista do plástico. 
Não há insultos, 
não há agressões à natureza. 
Sobretudo ninguém 
que me perturbe esse recolhimento. 
Somente o silêncio.
- Moreira Campos
___
Fonte:  Do livro Panorama do Conto Cearense, de Nilto Maciel. Publicado no Jornal da Poesia. (acessado em 16.04.2014).
Outras fontes de pesquisa
* Encontros Literários Moreira Campos
** Universo Moreira Campos



CENTENÁRIO ORLANDO VILLAS-BÔAS
Orlando Villas-Bôas (Santa Cruz do Rio Pardo, 12 de janeiro de 1914 — São Paulo, 12 de dezembro de 2002). 
Orlando Villas-Boas e um índio do povo Ikpeng (Txikão),
 no segundo contato, em 1967.
Sertanista e indigenista brasileiro nascido em Santa Cruz do Rio Pardo, interior de São Paulo, responsável pelo primeiro contato com os caiapós, em meados dos anos 50 e integrante do grupo mais famoso de irmãos indigenistas da história silvícola do país. Jovens escriturários, ele e os irmãos Claudio (morto em 1998) e Leonardo (morto em 1961) decidiram inscrever-se (1943) como serventes para integrar a expedição Roncador-Xingu, criada pelo governo federal (1943), com o objetivo principal de desbravar áreas até então desconhecidas do Centro-Oeste e da Amazônia. Não demorou muito tempo para que o encarregado da expedição percebesse que os irmãos Villas Bôas eram alfabetizados e educados e Cláudio fosse nomeado chefe do pessoal, Leonardo chefe do almoxarifado e ele secretário da base. Admirador dos ideais do marechal Cândido Rondon (1865-1958), que instituiu no país uma política de proteção ao índio e respeito às suas terras, tendo como lema "morrer se preciso for, matar, nunca", participou do primeiro contato com várias tribos. Durante a expedição foram contatados xavantes (1948), jurunas (1949), kayabis (1951), txucarramães (1953) e suyas (1959).A expedição Roncador-Xingu (1943-1960) foi o marco de transformação da vida do sertanista e de seus irmãos Claudio e Leonardo. Depois de 24 anos, a expedição tinha aberto mais de 1.500 km de picadas, explorou mais de 1.000 km de rios, localizou 6 rios desconhecidos, estabeleceu 6 marcos de coordenadas e assistiu 18 aldeias indígenas. Também criou 35 cidades novas e 19 campos de pouso, dos quais quatro se tornaram bases militares. Sua experiência com os índios levou-o a propor a criação de um parque indígena, onde pudessem conviver várias tribos cuja sobrevivência estava ameaçada pela expulsão de suas terras. No mesmo ano (1961) da morte de Leonardo, foi criado, pelo presidente Jânio Quadros (1917-1992), com a participação do antropólogo Darci Ribeiro (1922-1997), o Parque Nacional do Xingu (MT), com 26 mil km2, do qual o sertanista foi seu primeiro presidente (1961-1967), e o Parque Nacional do Xingu. Sua ação junto aos índios continuou mesmo depois de estabelecido o parque e (1964), participou da expedição que primeiro contatou os índios txikãos e os kranakaores (1973). Casou-se (1969) com Marina, enfermeira do Parque Nacional do Xingu, com quem teve dois filhos: Orlando Villas-Boas Filho, o Vilinha, e Noel. Aposentou-se (1978) pela Fundação Nacional do Índio, a FUNAI, mas continuou a defender a causa indígena prestando assessoria à entidade. Alegando corte de gastos, a Funai o demitiu via fax (2000) das funções de consultor, tendo depois voltado atrás, após a repercussão negativa da forma como se realizara a demissão. Ele, entretanto, não retornou a Funai e aceitou um convite da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, a USP, para prestar consultoria. Os mais de 40 anos passados nas selvas lhe valeram mais de duas centenas de malárias contraídas. Ele e Cláudio foram indicados duas vezes (1971/1975) para o Prêmio Nobel da Paz. Em fevereiro (2001) acompanhou o desfile da escola de samba Camisa Verde e Branco, em São Paulo, feito em sua homenagem, com o título do samba-enredo Sertanista e Indigenista Sim. Mas Por Que Não? Orlando Villas Bôas.
Cláudio e Orlando Villas Bôas com um índio do
alto Xingu, na década de 1960
Também neste ano (2001) entrou na disputa pela cadeira número 21 da Academia Brasileira de Letras com o escritor Paulo Coelho e o sociólogo Hélio Jaguaribe, perdendo a indicação para o primeiro.O sertanista morreu aos 88 anos, no Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo, em decorrência de falência de múltiplos órgãos, desencadeada por um processo agudo de infecção intestinal. Escreveu vários livros, entre eles Xingu, Território Tribal (1979), com fotos de Maurren Bisilliat, Marcha para o Oeste (1995), que ganhou o prêmio Jabuti de melhor livro-reportagem, Almanaque do Sertão (1997), no qual conta seus 45 anos de trabalho como sertanista, todos em parceria com Cláudio, e A Arte dos Pajés - Impressões sobre o Universo Espiritual do Índio Xinguano (2000) sobre várias experiências sobrenaturais que presenciou entre os indígenas. Entre os vários prêmios que recebeu ao longo da vida, destacaram-se a medalha da Real Sociedade de Geografia, da Inglaterra (1967) e, ao lado de Cláudio, o prêmio Geo (1984), concedido pela revista alemã de mesmo nome, das mãos do ex-chanceler e prêmio Nobel da Paz, Willy Brandt. Ambos também receberam a primeira edição do prêmio Estado de S. Paulo (1990), com uma dotação de equivalente a US$ 100 mil. O jornal inglês The Sunday Times incluiu (1991) os irmãos Villas Bôas entre as mil pessoas que fizeram o século 20, por seus esforços pela sobrevivência dos índios, e por suas atividades como exploradores, cientistas, pensadores e políticos.
___
Fonte: DEC/UFCG 
Roda Viva com Orlando Villas Bôas (10.12.1999) - Disponível no link



CENTENÁRIO DE CARLOS LACERDA
Carlos Lacerda, foto: (...)
Carlos Frederico Werneck de Lacerda nasceu na cidade do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, em 30 de abril de 1914, filho de Maurício Paiva de Lacerda e de Olga Werneck de Lacerda. Iniciou sua carreira profissional em 1929, escrevendo artigos para o Diário de Notícias. Em 1932 ingressou na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, abandonando o curso em 1934, segundo registrou em seu livro Depoimento.
Lacerda participou do grupo articulador da Aliança Nacional Libertadora (ANL), organização fundada em 1935 com o caráter de "frente popular", cujo programa, baseado na mobilização das massas, propunha a luta contra o integralismo, o imperialismo e o latifúndio.
A ANL foi fechada no dia 11 de julho, por decreto do presidente Vargas, tendo sua sede, situada no Distrito Federal, lacrada dois dias depois.
Em 10 de novembro de 1937 foi deflagrado o golpe que determinou o fechamento do Congresso Nacional e a abolição de todos os partidos políticos no país, instaurando o Estado Novo. Na ocasião Lacerda encontrava-se preso na Polícia Central, sendo posto em liberdade poucos dias depois por insuficiência de provas. A partir de 1938 dedicou-se às atividades jornalísticas. Seu rompimento com os comunistas ocorreu em 1939.
O ano de 1945 seria marcado pela consolidação do processo de redemocratização do país. Ainda no início desse ano, Lacerda começou a trabalhar como free-lancer no Correio da Manhã, onde criou, em 1946, a seção intitulada "Na tribuna da imprensa".
Em janeiro de 1947 foi eleito vereador pelo Distrito Federal na legenda da União Democrática Nacional (UDN). Em 1949 foi afastado do Correio da Manhã. Conservando, no entanto, o direito de usar o título de sua coluna, decidiu lançar um novo jornal com esse nome. Assim, em dezembro de 1949, fundou a Tribuna da Imprensa que, representando as principais propostas da UDN, viria a fazer oposição às forças políticas vinculadas ao getulismo.
Em agosto de 1953 Lacerda fundou no Rio de Janeiro o Clube da Lanterna, congregando diversos parlamentares, principalmente udenistas, no combate ao governo Vargas. Em 1954 a situação política se agravou quando, na madrugada do dia 5 de agosto, ao voltar de um comício no Colégio São José, Lacerda foi alvejado na porta de sua casa, à rua Toneleros, em Copacabana. O atentado que se tornou conhecido como Atentado da Toneleros , resultou na morte do major-aviador Rubens Florentino Vaz, integrante de um grupo de oficiais da Aeronáutica que dava proteção a Lacerda, que escapou com um ferimento no pé.
No dia 12 Lacerda lançou um editorial na Tribuna da Imprensa exortando as forças armadas a exigirem a renúncia de Vargas. Com a confirmação do envolvimento da guarda pessoal do presidente no atentado, a oposição intensificou sua campanha. No dia 22 a exigência da renúncia de Vargas começou a generalizar-se nos meios militares. Isolado politicamente e na iminência de ser deposto, Vargas suicidou-se no dia 24.
Em artigo publicado em 4 de janeiro de 1955 na Tribuna da Imprensa, Lacerda reconheceu as divergências existentes no interior das forças armadas e defendeu a interferência dos militares na vida política do país. No dia 10 de fevereiro deste mesmo ano, apesar da oposição dos udenistas e dos setores militares a eles vinculados, o governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek teve sua candidatura homologada pelo PSD, vencendo as eleições presidenciais.
Firme em sua proposta, Lacerda continuou a publicar na Tribuna da Imprensa violentos artigos defendendo a interdição da posse dos eleitos e pedindo insistentemente a intervenção dos militares na política nacional. No dia 8 de novembro, o então presidente Café Filho, que encontrava-se internado para tratamento de saúde, transmitiu o governo a Carlos Luz. No dia seguinte Lacerda assinou mais um violento artigo intitulado "Não podem tomar posse", no qual afirmava que Carlos Luz não assumiria o governo para preparar a posse de Juscelino e Goulart.
Em 10 de novembro, ao tomar conhecimento da decisão de Carlos Luz de não autorizar a punição de Mamede, o general Henrique Teixeira Lott pediu demissão da pasta da Guerra. Entretanto, quando se dirigia ao Ministério da Guerra para preparar a transmissão do cargo a seu sucessor, general Álvaro Fiúza de Castro, Lott foi convencido por diversos generais de sua confiança a permanecer em suas funções e, dessa forma, provocar a deposição do presidente. Assim, na madrugada de 11 de novembro a capital federal foi ocupada por tropas do Exército e o comando das operações militares centralizado no Ministério da Guerra, sob a chefia de Lott. O jornal Tribuna da Imprensa e a sede do Clube da Lanterna foram sitiados e, aos poucos, todas as unidades do Exército foram-se posicionando a favor de Lott.
Refletindo a posição de Lott e dos chefes militares comprometidos com a posse de Kubitschek e Goulart, o Congresso aprovou pouco mais tarde o impedimento de Carlos Luz dando posse na presidência da República a Nereu Ramos, vice-presidente do Senado e elemento seguinte na ordem legal de sucessão.
Ao tomar conhecimento da notícia de seu impedimento, Carlos Luz enviou mensagem aos brigadeiro Eduardo Gomes e ao contra-almirante Amorim do Vale recomendando-lhes a suspensão de qualquer resistência a fim de evitar derramamento de sangue. Lacerda, aconselhado por seus companheiros udenistas Afonso Arinos de Melo Franco e Juraci Magalhães, asilou-se na embaixada de Cuba. Obtendo salvo conduto pela interferência junto ao Itamarati, do embaixador cubano no Brasil, Gabriel Landa, ainda no mês de novembro embarcou para Cuba, de onde partiu para os Estados Unidos da América (EUA), fixando-se com a família na cidade de Norwalk, Connecticut. Durante sua estadia nos EUA, Lacerda trabalhou como correspondente da Tribuna da Imprensa e colaborou também com os jornais O Globo e O Estado de São Paulo. Em meados de 1956 transferiu-se para Lisboa.
Carlos Lacerda, 13.03.1959,
[Arquivo Agência Globo]
No dia 11 de novembro de 1956 Lacerda retornou ao Brasil, sendo recebido na cidade do Rio de Janeiro por grande manifestação popular. Logo em seguida reassumiu o mandato de deputado federal e a direção da Tribuna da Imprensa, dando início, de imediato, aos ataques ao governo Kubitschek.
No início de 1959, começou a articular no interior da UDN a candidatura do ex-governador de São Paulo, Jânio Quadros, à presidência da República nas eleições fixadas para outubro do ano seguinte. Em artigos publicados na Tribuna da Imprensa, desenvolveu intensa campanha em favor de seu candidato tendo como eixo o combate ao governo Kubitschek, acusado de corrupto e responsável pela inflação e a alta do custo de vida em virtude dos gastos com a construção da nova capital em Brasília. Lacerda participou de forma assistemática da campanha eleitoral de Jânio, já que estava preocupado em articular sua própria candidatura ao governo do estado da Guanabara.
Em 5 de dezembro de 1960 foi empossado como primeiro governador do recém-criado estado da Guanabara, iniciando de imediato a execução de uma ampla reforma administrativa. Logo nos primeiros meses do governo Jânio Quadros, as divergências entre Lacerda e o presidente se explicitaram. Na liderança da ala radical da UDN carioca, o governador da Guanabara foi se distanciando cada vez mais dos setores liberais do partido, que tendiam a apoiar o presidente, e desencadeou uma violenta campanha de teor anticomunista nos jornais Tribuna da Imprensa e O Globo. Em outubro de 1961, já sob o presidência de João Goulart, em conseqüência de dificuldades financeiras Lacerda vendeu a Tribuna da Imprensa para Manuel Francisco do Nascimento Brito.
Em 31 de março de 1964 foi deflagrado o movimento político-militar que derrubou o presidente Goulart. No dia 8 de abril Lacerda participou de uma reunião com Costa e Silva em que se decidiu o apoio à candidatura do general Castelo Branco à presidência da República. Em maio seguiu para a Europa em viagem oficial para divulgar os objetivos do novo regime. Seu apoio ao governo Castelo Branco, todavia, durou pouco. Alijados das principais decisões políticas, Lacerda e seus adeptos da UDN foram se desligando progressivamente do projeto político-militar que por muitos anos haviam defendido.
Durante o ano de 1965 continuou divergindo do governo federal tendo, por várias ocasiões, criticado abertamente Castelo Branco. A suspensão das eleições diretas para a presidência da República colocou um ponto final nas pretensões de Lacerda que, frustrado com o rumo dos acontecimentos, afastou-se do governo do estado da Guanabara em 4 de novembro de 1965.
Em setembro de 1966 a imprensa já se referia abertamente à constituição de uma ampla frente política denominada pelos jornais de Frente Ampla, reunindo Lacerda, que foi seu principal articulador, além de Juscelino Kubitschek e João Goulart. Atento às articulações da Frente, o governo não afastava a possibilidade de tomar medidas de represália. Além disso, desconfiando que o principal objetivo da Frente era o de minar a aprovação do nome de Costa e Silva pelo Congresso, os militares da "linha dura" ameaçaram retirar a cobertura que sempre haviam dado a Lacerda, caso ele prosseguisse na tentativa de acordo com os "banidos pela Revolução ".
Carlos Lacerda, foto: Rubens Americo - O Cruzeiro,
[Arquivo do Estado de Minas]
Apesar de toda essa movimentação, em 28 de outubro de 1966 a Frente Ampla foi lançada com um manifesto dirigido ao povo Brasileiro publicado na Tribuna da Imprensa. No dia 5 de abril de 1968, pela Portaria nº. 177 do Ministério da Justiça, foram proibidas todas as atividades da Frente Ampla. Diante do agravamento da situação política, em 13 de dezembro de 1968 foi editado o Ato Institucional nº 5, conhecido como AI-5. No dia seguinte Lacerda foi preso e conduzido ao Regimento Marechal Caetano de Farias, da Polícia Militar do Estado da Guanabara. Após uma semana em greve de fome, conseguiu ser libertado. Em 30 de dezembro teve os direitos políticos suspensos por dez anos.
No início de 1969 viajou para a Europa, e em maio seguiu para a África como enviado especial de O Estado de São Paulo e do Jornal da Tarde. De volta ao Brasil, dedicou-se às atividades empresariais nas companhias Crédito Novo Rio e Construtora Novo Rio, e às atividades editoriais na Nova Fronteira e Nova Aguillar, todas empresas de sua propriedade. Colaborou ainda em O Estado de São Paulo e no Jornal do Brasil sob o pseudônimo de Júlio Tavares. Casou-se em em 1935, no civil, e em 1947 em cerimônia religiosa com Letícia Abuzzini de Lacerda, com quem teve três filhos. Faleceu no Rio de Janeiro em 21 de maio de 1977.
___
Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed., Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001/ CPDOC FGV



CENTENÁRIO DE WILLIAM BURROUGHS
William S. Burroughs
"Eu sou forçado à terrível conclusão que eu nunca teria me tornado um escritor, a não ser pela morte de Joan, e nunca teria uma compreensão da extensão em que este evento tem motivado e formulado a minha escrita. Eu vivo com a ameaça constante de posse, e um constante necessidade de escapar da posse, do controle. Assim, a morte de Joan trouxe-me em contato com o invasor, a Alma Suja, e manobrou-me para uma longa luta na vida, em que não tive escolha a não ser escrever a minha saída dela."
- William S. Burroughs, in "Queer", Penguin, 1985 p.xxiii. 

William Seward Burroughs (5 de fevereiro de 1914 – 2 de agosto de 1997) foi um escritor, pintor e crítico social nascido nos Estados Unidos da América.
Na década de 1940 mudou-se para Nova York, onde iniciaria sua carreira literária e faria amizade com Jack Kerouac e Allen Ginsberg, entre outros escritores beat. Teve inúmeras experiências com alucinógenos: foi viciado em diversas drogas, incluindo morfina, e por vezes traficou narcóticos (e foi preso por isso). Em 1951, matou sua mulher em um acidente com arma de fogo, o que ele próprio mais tarde reputou como experiência definidora para sua carreira de escritor. Escreveu os romances autobiográficos Junky (1953, publicado sob o pseudônimo de William Lee), em que explora suas experiências com a heroína, Queer (escrito na primeira metade da década de 50, mas publicado apenas em 1985), sobre o homossexualismo, e Naked Lunch (Almoço nu). Este último é muito mais radical em suas inovações estilísticas e foi publicado primeiramente na França, em 1959. 
William S. Burroughs-in-bookstore.1959
The Yage Letters (Cartas do Yage), de 1963, traz a correspondência mantida com Ginsberg enquanto Burroughs viajava pela América do Sul na busca do yage, também conhecido como ayahuasca.
Após uma temporada na Europa, Burroughs voltou para Nova York no início da década de 1970, onde passou a lecionar e conviver com intelectuais e artistas como Andy Warhol e Susan Sontag. Na década de 1980, era visto como um gigante contracultural: tanto sua personalidade quanto sua obra viraram referências. No final da vida, mudou-se para Lawrence (Kansas), onde morreu, em agosto de 1997. É autor, também, da trilogia Cities of Red Night, The Place of Dead Roads e The Western Lands, entre outros livros. Ele amava gatos. The Cat Inside (O gato por dentro) foi primeiramente publicado em uma edição limitada, com desenhos de Brion Gysin.
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Fonte: L&PM Editores
Outras fontes de pesquisa
Wikipedia/pt (William S. Burroughs) 
Entrevistas históricas: William Burroughs entrevista David Bowie. E vice-versa. (Publicado originalmente pela revista Rolling Stone em fevereiro de 1974). Disponível no link. (acessado em 16.04.2014).



CENTENÁRIO DE ABDIAS DO NASCIMENTO
Abdias do Nascimento - foto: (...)
Abdias do Nascimento nasceu em Franca (SP) no dia 14 de março de 1914, filho de José Ferreira do Nascimento e de Georgina Ferreira do Nascimento.
Diplomado em contabilidade em 1929, bacharelou-se em ciências econômicas pela Universidade do Rio de Janeiro em 1938. Diretor-fundador do Teatro Experimental do Negro em 1944, em maio do ano seguinte participou da fundação do Partido Trabalhista Brasileiro. Militante do movimento negro – foi o organizador do primeiro Congresso do Negro Brasileiro, em 1950 –, concluiu o curso de sociologia no Instituto Superior de Estudos Brasileiros em 1956.
Abdias esteve à frente do Teatro Experimental do Negro até 1968, quando, em decorrência do endurecimento do regime militar implantado no país em abril de 1964 e da inclusão do seu nome em vários inquéritos policiais militares, exilou-se nos Estados Unidos, onde trabalhou como professor universitário. Co-fundador do Movimento Negro Unificado em 1978, em maio de 1980, foi, juntamente com Leonel Brizola – de quem se tornara amigo no exílio – um dos fundadores do Partido Democrático Trabalhista (PDT). Escolhido vice-presidente do partido em 1981, nesse mesmo ano fundou o Instituto de Pesquisas e Estudos Afro-Brasileiros, na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Em 1982, retornou definitivamente ao Brasil.
Abdias do Nascimento (1997) - foto: (...)
Em novembro de 1982 concorreu à Câmara dos Deputados pelo Rio de Janeiro, obtendo a terceira suplência da legenda. Com a eleição de Brizola para o governo do Rio naquele mesmo pleito e a nomeação do deputado José Maurício para a Secretaria de Minas e Energia, Abdias assumiu em março de 1983 uma cadeira na Câmara. Em 25 de abril de 1984, votou favoravelmente à emenda Dante de Oliveira, que previa o restabelecimento das eleições diretas para presidente da República em novembro seguinte. Como a proposta não obteve a votação necessária para ser encaminhada ao Senado Federal, a sucessão do presidente da República, o general João Figueiredo, seria decidida no Colégio Eleitoral, reunido em 15 de janeiro de 1985.
Abdias retornou à Câmara no dia 16 de janeiro, logo após a realização do Colégio Eleitoral. No ano seguinte, voltou à suplência. Sua atuação como deputado foi centrada na defesa dos direitos humanos e civis dos negros no Brasil. Enfocando o racismo e a discriminação racial como questões nacionais, propôs o estabelecimento de feriado nacional no dia 20 de novembro, aniversário da morte de Zumbi dos Palmares, apresentou projeto de lei que previa a criação de uma cota de 20% de vagas para mulheres negras e de 20% para homens negros na seleção de candidatos ao serviço público.
As iniciativas de Abdias tiveram desdobramento durante as discussões da Assembléia Nacional Constituinte. Com a nova Carta, promulgada em outubro de 1988, o direito brasileiro passou a contemplar a natureza pluricultural e multiétnica do país, a prática de racismo tornou-se um crime inafiançável e determinou-se pela primeira vez a demarcação das terras dos remanescentes de quilombos, antigas comunidades de escravos. Abdias foi um dos responsáveis pela instituição da Comissão do Centenário da Abolição em 1988 e por seu desdobramento na Fundação Cultural Palmares.
Abdias do Nascimento - foto: Site Geledés
Em outubro de 1990 compôs como suplente de Darci Ribeiro a chapa lançada pelo PDT ao Senado. Em abril de 1991, foi escolhido por Leonel Brizola, que se reelegera governador do Rio de Janeiro em 1990, para ocupar a Secretaria Extraordinária para Defesa e Promoção das Populações Afro-Brasileiras. Em final de agosto, Abdias substituiu Darci Ribeiro que se tornara secretário de Projetos Especiais do governo fluminense no Senado. Após a morte de Darci em fevereiro de 1997, voltou ao Senado em caráter definitivo, exercendo o mandato até janeiro de 1999, ao final da legislatura 1995-1999. Participou do governo de Anthony Garotinho (1999-2002) como secretário de Direitos Humanos e da Cidadania.
Foi casado com Maria de Lurdes Vale Nascimento. Casou-se pela segunda vez com a atriz Léa Garcia, com quem teve dois filhos, e pela terceira vez com a norte-americana Elizabeth Larkin Nascimento, com quem teve um filho.
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Fonte: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Ed. FGV, 2001. Disponível no link. (acessado em 17.04.2014). 
Outras fontes de pesquisa
Site Oficial Abdias do Nascimento 



CENTENÁRIO DE OCTÁVIO PAZ
Octavio Paz Lozano, ensaísta e poeta mexicano, nasceu no dia 31 de março de 1914, na Cidade do México em 1914. Em seu país, é o poeta mais considerado e controvertido da segunda metade do século XX.
Octávio Paz - foto: (...)
Foi agraciado, entre outros, com os prêmios Cervantes, em 1979, Alexis de Tocqueville, em 1989, e com o Nobel de Literatura, em 1990.
Passou a infância nos Estados Unidos, em companhia da família. Ao retornar, estudou Direito na Universidade Nacional Autônoma do México. Fez também especialização em Literatura. Morou na Espanha, onde conviveu com diversos intelectuais. Viveu também em Paris, no Japão e na Índia.
Em 1945, ingressou no serviço diplomático mexicano. Ao residir em Paris, testemunhou e viveu o movimento surrealista, sofrendo grande influência de André Breton, de quem foi amigo. Em sua criação, experimentou a escrita automática, sugerida por Breton, e que consiste em transmitir diretamente — sem refletir ou concentrar-se no que se quer dizer — as palavras que, sem tema preconcebido, vêm à mente de forma imediata. Essas frases procederiam diretamente do inconsciente e não teriam relação lógica entre si. Breton considerava a escrita automática como “texto puro”, ou poema surgido do inconsciente. Por isso, recusava o exercício da crítica sobre a que produzia com esse método.
Paz publicou mais de vinte livros de poesia e incontáveis ensaios de literatura, arte, cultura e política, desde Luna Silvestre, seu primeiro livro, de 1933. Muitos de seus livros foram traduzidos ao português. Aliás, ele era um grande admirador do idioma luso e chegou a traduzir, em uma Antologia, publicada em 1984, poemas de Fernando Pessoa, a quem chamava o “desconhecido de si mesmo”.
Em 1976 fundou a revista Plural e anos mais tarde a revista Vuelta. Publicou mais de vinte livros de poesia e inumeráveis ensaios de literatura, arte, cultura e política.
Foi um dos intelectuais mais importantes do México e um dos maiores poetas do mundo. Juntamente com Pablo Neruda e César Vallejo, Octavio Paz está no grupo dos grandes poetas latino-americanos cuja obra teve um forte impacto internacional. Suas antologias de poemas, em espanhol e em inglês, foram publicadas em 1988.
Octávio Paz - foto: Alvarez Bravo
Em torno de sua obra encontram-se influências diversas como do marxismo, surrealismo, existencialismo, Budismo, Hinduísmo e do modernismo francês e anglo-americano. Muitos dos poemas de Paz são baseados em pinturas de Joan Miró, Marcel Duchamp, Antonio Tapies, Robert Rauschenberg e Roberto Matta. Em Salamandra, de 1962, Octavio Paz usa inovações advindas do cubismo francês. Sua escrita frequentemente lida com oposições, paixão e razão, sociedade e indivíduo, trabalho e sentido: “A imagem poética é o encontro de realidades opostas”, como ele mesmo escreveu em A Dupla Chama.
:: Fonte: Banco da Poesia 
Outras fontes de pesquisa



CENTENÁRIO DE CAROLINA MARIA DE JESUS
Carolina Maria de Jesus (Sacramento MG ca.1914 - São Paulo SP 1977). Autora de diários e romance e também poeta. De família pobre, composta por mais sete irmãos, trabalha desde a infância. Sua escolaridade se resume aos dois anos que frequenta o Colégio Allan Kardec, provavelmente em 1923 e 1924. 
Carolina Maria de Jesus 
Neste ano, muda-se com a família para uma fazenda em Lageado, Minas Gerais, onde trabalham como lavradores. Retorna a Sacramento, em 1927, e, por causa das dificuldades econômicas, migra para Franca, São Paulo, em 1930, passando o primeiro ano na fazenda Santa Cruz e, depois, na cidade, onde trabalha como ajudante na Santa Casa de Franca, auxiliar de cozinha e doméstica. Com a morte da mãe em 1937, vai para São Paulo em busca de melhores condições de vida. De 1948 a 1961, reside na favela Canindé, sobrevivendo como catadora de papel e ferro velho. Em 1958, o jornalista Audálio Dantas, numa reportagem sobre a inauguração de um playground no Canindé, conhece Carolina e se interessa pelos seus 35 cadernos de anotações em forma de diário, e publica um artigo na Folha da Noite. Em 1959, trabalhando na revista O Cruzeiro, o jornalista divulga trechos dos relatos escritos pela autora e, posteriormente, empenha-se na publicação que reúne esses relatos, Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada, lançado em 1960, com notável sucesso editorial. Carolina muda-se para uma casa que consegue comprar no bairro de Santana e mantém o diário com registros do que lhe acontece ali, depois editados em Casa de Alvenaria: Diário de uma Ex-favelada, em 1961. Em 1963, publica Pedaços da Fome, seu único romance, que tem pouca repercussão. Em função dos contínuos desentendimentos com seus editores, bem como das dificuldades enfrentadas para manter-se em evidência e adaptar-se à vida no bairro de classe média, muda-se para um sítio no bairro de Parelheiros, São Paulo, em 1969, onde é praticamente esquecida pelo mercado editorial, apesar de algumas tentativas de voltar à cena literária. Após sua morte, são editadas obras escritas entre 1963 a 1977, das quais a mais significativa é Diário de Bitita, com suas memórias de infância e juventude, inicialmente lançado na França.
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Fonte: Enciclopédia de literatura brasileira/Itau Cultural
:: Saiba mais sobre Carolina Maria de Jesus - a voz dos que não têm a palavra, aqui neste site



CENTENÁRIO DE CÉSAR GUERRA-PEIXE
César Guerra -Peixe, foto: Acervo Pessoal
César Guerra-Peixe nasceu em Petrópolis (RJ) em 18 de março de 1914, de ascendência portuguesa. Aos sete anos já tocava violão, violino e piano de ouvido. Dos sete aos dez anos viajou por algumas localidades dos estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais, participando sempre de conjuntos típicos, cuja lembrança  parece haver ficado em sua memória.
Iniciou seus estudos de violino com o professor Gao Omacht, no Conservatório Santa Cecília de Petrópolis, no ano de 1925. Neste estabelecimento estudou também um pouco de piano e teoria musical. Mais tarde, na Escola Nacional de Música, estudou com Paulino d’Ambrósio. No período que vai de 1930 a 1933, compunha música de sabor popular, que instrumentava como podia, a fim de adquirir prática. Em 1934 transferiu-se definitivamente  para o Rio de Janeiro e fez parte de orquestras de salão em confeitarias, bares e cafés e, esporadicamente, em orquestras sinfônicas.
Em 1938 iniciou novos estudos de harmonia no curso particular com o professor Newton Pádua, ingressando depois no Conservatório Brasileiro de Música, no ano de 1943, onde fez cursos de aperfeiçoamento em composição, contra-ponto e fuga  com Newton Pádua e H. J. Koellreutter, que o introduziu na técnica dodecafônica.
Foi um dos fundadores do Grupo Música Viva, que abandonou em 1949, por ocasião de uma viagem à Recife, onde assistiu à diversas apresentações folclóricas; e tão impressionado ficou com o Maracatu, que, finalmente decidiu abandonar definitivamente o dodecafônismo, voltando a professar o nacionalismo musical.
Teve sua Sinfonia n. 1 (1946) executada pela Orquestra da BBC de Londres. Mais tarde, seu Noneto foi regido por Hermann Scherchen, que o convidou para residir na Europa. Mas Guerra Peixe preferiu assinar contrato com uma emissora de rádio do Recife, como orquestrador e compositor, a fim de de poder estudar os aspectos menos divulgados do folclore nordestino. Ali  aprofundou suas pesquisas, colhendo temas, anotando ritmos, observando cada peça e reunindo conclusões que seriam publicadas, em 1956, em sua esplêndida obra Maracatus do Recife.
César Guerra -Peixe,
foto: Acervo Pessoal
Realizou também pesquisas em São Paulo. Fixou residência no Rio de Janeiro a partir de 1962, tornando-se violinista da Orquestra Sinfônica Nacional e professor de composição do Seminário de Música Pró Arte. Lecionou também na Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais e na Escola de Música Villa-Lobos. Foi o criador da Escola Brasileira de Música Popular.  Faleceu no Rio de Janeiro em 26 de novembro de 1993.
Guerra Peixe é autor de obra vasta, abrangendo praticamente todos os gêneros musicais.Compôs duas sinfonias, uma das quais dodecafônica. Compôs ainda duas suítes sinfônicas, numerosas peças de música de câmara (Noneto, Trio 1945, Quarteto 1947), três peças para violão (Ponteio, Acalanto e Choro) além de obras para flauta, violino, fagote, piano, etc.

Discografia
2011 - Eliane Tokeshi e Guida Borghoff - Guerra-Peixe: Obras Para Violino e Piano YB Music - CD
2007 - Guerra-Peixe/Aguiar - Série Música Brasileira, Volume 7 - GLB - CD
2007 - Midori Maeshiro, piano - ABM Digital - CD
1997 - A retirada da Laguna. Orquestra Sinfônica Nacional da Rádio MEC - CD
1996 - Música de câmara - Rio Arte Digital - CD
1978 - Sedução do norte - RGE/Fermata - LP
1962 - Escuta, Levino/Quarta-feira de cinzas - Chantecler - 78 rpm
1961 - Vassourinhas - Chantecler - 78 rpm
1960 - Cidade Maravilhosa/Menina-moça - Chantecler - 78 rpm
1959 - Chora na rampa - Chantecler - 78 rpm     
1955 - Jornada da Lapinha nº 1/Jornada da Lapinha nº 2 - Copacabana - 78 rpm
S/D - Sambas clássicos - Chantecler - LP.
Biografia
AZEVEDO, M. A . de (NIREZ) et al. Discografia brasileira em 78 rpm. Rio de Janeiro: Funarte, 1982.
EGG, André. O debate no campo do nacionalismo musical no Brasil dos anos 1940 e 1950: o compositor Guerra Peixe. (Dissertação de Mestrado em História). Universidade Federal do Paraná, UFPR, 2004.
MARCONDES, Marcos Antônio. (ED). Enciclopédia da Música popular brasileira: erudita, folclórica e popular. 2ª ed., São Paulo: Art Editora/Publifolha, 1999.
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Referências online
Site Oficial: Guerra-Peixe        
Outras informações biográficas: Dicionário Cravo Albin da MPB 



CENTENÁRIO DE DORIVAL CAYMMI
© Foto de Fernando Rabelo. Dorival Caymmi na pequena cidade Pequeri/MG - 2005.
Dorival Caymmi (Salvador, 30 de abril de 1914 – Rio de Janeiro, 16 de agosto de 2008) foi um cantor, compositor, violonista, pintor e ator brasileiro.
Compôs inspirado pelos hábitos, costumes e as tradições do povo baiano. Tendo como forte influência a música negra, desenvolveu um estilo pessoal de compor e cantar, demonstrando espontaneidade nos versos, sensualidade e riqueza melódica. Morreu em 16 de agosto de 2008, aos 94 anos, em casa, às seis horas da manhã, por conta de insuficiência renal e falência múltipla dos órgãos em consequência de um câncer renal que possuía havia 9 anos. Permanecia em internação domiciliar desde dezembro de 2007. Poeta popular, compôs obras como Saudade de Bahia, Samba da minha Terra, Doralice, Marina, Modinha para Gabriela, Maracangalha, Saudade de Itapuã, O Dengo que a Nega Tem, Rosa Morena.
Filho de Durval Henrique Caymmi e Aurelina Soares Caymmi, era casado com Adelaide Tostes, a cantora Stella Maris. Todos os seus três filhos são também cantores: Dori Caymmi, Danilo Caymmi e Nana Caymmi.
Caymmi era descendente de italianos pelo lado paterno, as gerações da Bahia começaram com o seu bisavô, que chegou ao Brasil para trabalhar no reparo do Elevador Lacerda e cujo nome era grafado Caimmi. Ainda criança, iniciou sua atividade como músico, ouvindo parentes ao piano. Seu pai era funcionário público e músico amador, tocava, além de piano, violão e bandolim. A mãe, dona de casa, mestiça de portugueses e africanos, cantava apenas no lar. Ouvindo o fonógrafo e depois a vitrola, cresceu sua vontade de compor. Cantava, ainda menino, em um coro de igreja, como baixo-cantante. Com treze anos, interrompe os estudos e começa a trabalhar em uma redação de jornal O Imparcial, como auxiliar. Com o fechamento do jornal, em 1929, torna-se vendedor de bebidas. Em 1930 escreveu sua primeira música: 'No Sertão", e aos vinte anos estreou como cantor e violonista em programas da Rádio Clube da Bahia. Já em 1935, passou a apresentar o musical Caymmi e Suas Canções Praieiras. Com 22 anos, venceu, como compositor, o concurso de músicas de carnaval com o samba A Bahia também dá. Gilberto Martins, um diretor da Rádio Clube da Bahia, o incentiva a seguir uma carreira no sul do país. Em abril de 1938, aos 23 anos, Dorival, viaja de ita (navio que cruza o norte até o sul do Brasil) para cidade do Rio de Janeiro, para conseguir um emprego como jornalista e realizar o curso preparatório de Direito. Com a ajuda de parentes e amigos, fez alguns pequenos trabalhos na imprensa, exercendo a profissão em O Jornal, do grupo Diários Associados, ainda assim, continuava a compor e a cantar. Conheceu, nessa época, Carlos Lacerda e Samuel Wainer.
Dorival Caymmi, foto: (...)
Foi apresentado ao diretor da Rádio Tupi, e, em 24 de junho de 1938, estreou na rádio cantando duas composições, embora ainda sem contrato. Saiu-se bem como calouro e iniciou a cantar dois dias por semana, além de participar do programa Dragão da Rua Larga. Neste programa, interpretou O Que é Que a Baiana Tem, composta em 1938. Com a canção, fez com que Carmen Miranda tivesse uma carreira no exterior, a partir do filme Banana da Terra, de 1938. Sua obra invoca principalmente a tragédia de negros e pescadores da Bahia: O Mar, História de Pescadores, É Doce Morrer no Mar, A Jangada Voltou Só, Canoeiro, Pescaria, entre outras. Filho de santo de Mãe Menininha do Gantois, para quem escreveu em 1972 a canção em sua homenagem: "Oração de Mãe Menininha", gravado por grandes nomes como Gal Costa e Maria Bethânia.

"O Dorival é um gênio. Se eu pensar em música brasileira, eu vou sempre pensar em Dorival Caymmi. Ele é uma pessoa incrivelmente sensível, uma criação incrível. Isso sem falar no pintor, porque o Dorival também é um grande pintor."
- Tom Jobim
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Saiba mais
Acervo Digital disponível no Site: Dorival Caymmi



CENTENÁRIO DE ARMANDO TOSCHI - O MINISTRINHO
Armando Toschi, o Ministrinho
Armando Toschi, o Ministrinho, nasceu em 04 de maio de 1914, Juiz de Fora/MG e faleceu em 22 de dezembro de 1996, Juiz de Fora/MG. Compositor, instrumentista (violonista) e Cantor. 
Em 1934, fundou, em Juiz de Fora, a Escola de Samba Turunas do Riachuelo. 
Em 1940, formou seu primeiro conjunto, composto por cavaquinho, violão, pandeiro, flauta e um vocalista, com o qual atuou até 1993, divulgando composições locais. Com o regional, participou, do LP "Samba é povo", em 1967, e de um LP patrocinado pela Prefeitura da cidade, em 1982, quando gravou a música "Nosso ídolo (Jairo)". 
Por sua dedicação à música de sua cidade, foi contemplado, ao longo de sua carreira, com mais de cinqüenta homenagens, troféus e medalhas, de escolas de samba, igreja e governantes, com destaque para o troféu Pequeno Jornaleiro, quando foi considerado Personalidade da Música Popular de Juiz de Fora pelos Diários Associados, em 1967, e a Ordem do Rio Branco, que foi recebida em Brasília, das mãos do presidente Itamar Franco, em 1994, e a medalha do Sesquicentenário de Juiz de Fora. 
Em 1996, participou das gravações do CD "Ministrinho, nosso ídolo", produzido por Marcio Gomes. No repertório, suas composições "Homenagem a Catulo" (c/ José Miranda Ribeiro), "Nosso ídolo" (c/ José Benedito da Silva) e "Último abrigo" (c/ Cesário Brandi Filho) e músicas de autores locais. Não chegou a ver o lançamento do disco, por ter vindo a falecer no dia 22 de dezembro desse mesmo ano.
Discografia
1996 - Ministrinho, nosso ídolo  CD;
1967 - Samba é povo  LP.
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Fontes de pesquisa: Dicionário Cravo Albin da Música Brasileira 



CENTENÁRIO DE MIROEL SILVEIRA
Miroel Silveira (Santos SP, 08.05.1914 - São Paulo SP 1988). Diretor, crítico, professor, organizador de companhias, tradutor e ator. Homem de teatro que ocupa várias funções em atividades teatrais, ligado a grandes companhias dos anos 1940 e 1950, como Os Comediantes e Teatro Popular de Arte (TPA).
Miroel Silveira , s.d (Acervo Cedoc-Funarte)
 foto: autoria desconhecida.
Após formar-se em advocacia pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), volta a Santos com a intenção de dedicar-se à profissão. Abandona o projeto em 1937, levando ao Rio de Janeiro a jovem atriz Cacilda Becker para integrar o Teatro do Estudante do Brasil (TEB), dirigido por Paschoal Carlos Magno. Ali conhece, em 1943, o diretor polonês Ziembinski, com ele estabelecendo uma parceria, inicialmente na fase amadora e, logo após, na profissional de Os Comediantes, grupo responsável por Vestido de Noiva, marco do início do teatro moderno brasileiro. Dirige César e Cleópatra, de Bernard Shaw, numa produção da Companhia de Dulcina de Moraes, em 1944. Ajuda Bibi Ferreira a fundar sua companhia, com a encenação e adaptação de A Moreninha, romance de Joaquim Manuel de Macedo, ainda em 1944. Também nesse ano, encena Sétimo Céu, de Austen Strong; É Proibido Suicidar-se, de Alejandro Casona; Week-End, de Noel Coward, e Scampolo, de Dario Niccodemi, todas produções da Companhia Bibi Ferreira.
Em 1946, está à frente da produção de Desejo, numa tradução sua de Eugene O'Neill, bem-sucedida encenação de Ziembinski para Os Comediantes. Adoentado, retorna a Santos até restabelecer-se. A partir de 1947, torna-se colaborador da Folha da Manhã (atual Folha de S.Paulo), em que faz crítica teatral por dez anos. Em 1950, está ligado à volta do Teatro Popular de Arte (TPA), com Maria Della Costa e Sandro Polloni no comando do empreendimento, ajudando na administração. No mesmo ano, funda o tablóide Radar, juntamente com seu sobrinho Ênio Silveira, onde assina a coluna de teatro.
Para a Companhia Cinematográfica Maristela escreve o roteiro de Simão, o Caolho, dirigido em 1952 por Alberto Cavalcanti. Na década de 1940 traduz A Família Barret, de Rudolf Besier, e, nos anos 50, Zadig, de Voltaire, e Pigmalião, de Bernard Shaw, além de profícua colaboração na imprensa e outras atividades literárias. Em 1957, encena Casal Vinte, de sua autoria, numa produção do Teatro Paulista de Comédia.
Ariano Suassuna, Miroel Silveira, Hermilo Borba Filho e
Paschoal Carlos Magno, 1959 (FSP, 26 maio 1980).
Em 1976, lança o livro A Contribuição Italiana ao Teatro Brasileiro, tese apresentada à Universidade de São Paulo (USP), reunindo minuciosas informações sobre companhias e atores meridionais desde o começo do século. Também em 1976, lança o livro A Outra Crítica, reunião de seus comentários surgidos na imprensa abrangendo artistas e realizações dos anos 40 e 50. Nessa obra, encontramos um comentário não assinado a respeito do trabalho do crítico: "Suas manifestações, mais de caráter jornalístico do que de preocupações estéticas profundas, contribuem fortemente para o levantamento de um período importante da nossa história teatral, de cuja escrita o próprio autor participou com uma ação idealista e com uma abertura de análise que soube antecipar as fases posteriores do teatro brechtiano e do teatro do absurdo, mantida em todos os momentos a tônica da revalorização do autor e do espetáculo nacionais".(1)
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Notas
(1). PARECER crítico sobre Miroel Silveira. In: SILVEIRA, Miroel: A Outra Crítica, São Paulo: Símbolo, 1976.



CENTENÁRIO DE AMARO MACEDO
Amaro Macedo, foto: Luciano Esteves, 2007
Amaro Macedo (Campina Verde, Brasil MG, 10 de maio de 1914), naturalista, é o maior coletor de espécies vegetais dos cerrados do século XX. Entre 1943 e 2007, coletou 6008 espécies. Os exemplares estão espalhados pelos herbários do mundo todo. Várias das espécies que coletou foram descritas como espécies novas, sendo que cerca de 50 delas receberam o nome de Amaro Macedo, como homenagem de botânicos famosos.
Em suas viagens Amaro escrevia relatos, que lembram os de Auguste de Saint-Hilaire: fala das plantas, do meio ambiente, das cidades visitadas, do transporte, dos rios e suas praias, das festas populares, das crendices, das comidas regionais e dos hábitos das pessoas. Atualmente vive em Ituiutaba, no Triângulo Mineiro, MG.
Livro: Amaro Macedo – O Solitário do Cerrado. (Org.: Maria do Carmo Duarte Macedo, Gil Felippe). AE Ateliê Editorial, 1ª ed., 2009.
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Fonte: Wikipédia 



CENTENÁRIO DE IRMÃ DULCE (MARIA RITA DE SOUSA BRITO LOPES PONTES)
[Beata Dulce dos Pobres]
Irmã Dulce - o anjo bom da Bahia
Maria Rita de Sousa Brito Lopes Pontes (Salvador, 26 de Maio de 1914 — Salvador, 13 de Março de 1992), mais conhecida como Irmã Dulce, Beata Dulce dos Pobres ou Bem-Aventurada Dulce dos Pobres, tendo recebido o epíteto de "o anjo bom da Bahia", foi uma religiosa católica brasileira.
Irmã Dulce ganhou notoriedade por suas obras de caridade e de assistência aos pobres e necessitados, obras essas que ela praticava desde muito cedo. Na juventude já lotava a casa de seus pais acolhendo doentes. Ela também criou e ajudou a criar várias instituições filantrópicas: uma das mais importantes e famosas é o Hospital Santo Antônio, que foi construído no lugar do galinheiro do Convento Santo Antônio.
Irmã Dulce foi uma das mais importantes, influentes e notórias ativistas humanitárias do século XX. Suas grandes obras de caridade são referência nacional, e ganharam repercussão pelo mundo, tanto que seu nome é sempre relacionado à caridade e amor ao próximo.
Foi indicada ao Prêmio Nobel da Paz no ano de 1988 pelo então presidente do Brasil, José Sarney, porém não ficou com o título. Em 2011 foi beatificada pelo enviado especial do Papa Bento XVI, Dom Geraldo Majella Agnelo, em Salvador, sendo a beatificação o último passo antes da canonização. Irmã Dulce pode se tornar a primeira Santa Católica nascida no Brasil. Em 2001 foi eleita "a religiosa do século XX", em uma eleição que foi publicada pela revista Isto É. Em 2012 foi eleita uma dos 12 maiores brasileiros de todos os tempos em pesquisa feita pelo SBT, para eleger a personalidade que mais contribuiu para o país.
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Biografia
PASSARELI, Gaetano. Irmã Dulce: o anjo bom da Bahia. São Paulo: Paulinas, 2010.
Site dedicado Irmã Dulce no link. e site Arautos/Irmã Dulce no link



100 ANOS DE SAUDADES DE SÍLVIO ROMERO
Sílvio Romero, foto: (...)
Sílvio Romero (Sílvio Vasconcelos da Silveira Ramos Romero), crítico, ensaísta, folclorista, polemista, professor e historiador da literatura brasileira, nasceu em Lagarto, SE, em 21 de abril de 1851, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 18 de julho de 1914. Convidado a comparecer à sessão de instalação da Academia Brasileira de Letras, em 28 de janeiro de 1897, fundou a Cadeira nº 17, escolhendo como patrono Hipólito da Costa.
Foram seus pais o comerciante português André Ramos Romero e Maria Joaquina Vasconcelos da Silveira. Na cidade natal iniciou os estudos primários, cursando a escola mista do professor Badu. Em 1863, partiu para a corte, a fim de fazer os preparatórios no Ateneu Fluminense. Em 68, regressou ao Norte e matriculou-se na Faculdade de Direito do Recife. Formou, ao lado de Tobias Barreto (que cursava o 4º. ano quando Sílvio se matriculou no primeiro) e junto com outros moços de então, a Escola do Recife, em que se buscava uma renovação da mentalidade brasileira. Sílvio Romero foi, no início, positivista. Distinguiu-se, porém, dos que formavam o grupo do Rio, onde Miguel Lemos levava o comtismo para o terreno religioso. Espírito mais crítico, Sílvio Romero se afastaria das idéias de Comte para se aproximar da filosofia evolucionista de Herbert Spencer, na busca de métodos objetivos de análise crítica e apreciação do texto literário.
Estava no 2º. ano de Direito quando começou a sua atuação jornalística na imprensa pernambucana, publicando a monografia "A poesia contemporânea e a sua intuição naturalista". Desde então, manteve a colaboração, ora como ensaísta e crítico, ora como poeta, nas folhas recifenses, entre elas A Crença, que ele próprio dirigia juntamente com Celso de Magalhães, o Americano, o Correio de Pernambucano, o Diário de Pernambuco, o Movimento, o Jornal do Recife, a República e o Liberal.
Assim que se formou, exerceu a promotoria em Estância. Atraído pela política, elegeu-se deputado à Assembleia provincial de Sergipe, em 1874, mas renunciou, logo depois, à cadeira. Regressou a Recife para tentar fazer-se professor de Filosofia no Colégio das Artes. Realizou-se o concurso no ano seguinte e ele foi classificado em primeiro lugar, mas a Congregação resolveu anular o concurso. A seguir, defendeu tese para conquistar o grau de doutor. Nesse concurso Sílvio Romero se ergueu contra a Congregação da Faculdade de Direito do Recife, afirmando que “a metafísica estava morta” e discutindo, com grande vantagem, com professores como Tavares Belfort e Coelho Rodrigues. Abandonou a sala da Faculdade; foi então submetido a processo pela Congregação, atraindo para si a atenção dos intelectuais da época.
Em fins de 1875, transferiu-se para o Rio de Janeiro. Foi para Parati, como juiz municipal, e ali demorou-se dois anos e meio. Em 1878, publicou o livro de versos Cantos do fim do século, mal recebido pela crítica da corte. Depois de publicar Últimos harpejos, em 1883, abandonou as tentativas poéticas. Já fixado no Rio de Janeiro, começou a colaborar em O Repórter, de Lopes Trovão. Ali publicou a sua famosa série de perfis políticos. Em 1880 prestou concurso para a cadeira de Filosofia no Colégio Pedro II, conseguindo-a com a tese "Interpretação filosófica dos fatos históricos". Jubilou-se como professor do Internato em 2 de junho de 1910. Fez parte também do corpo docente da Faculdade Livre de Direito e da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais do Rio de Janeiro.
No governo de Campos Sales, foi deputado provincial e depois federal pelo Estado de Sergipe. Nesse último mandato, foi escolhido relator da Comissão dos 21 do Código Civil e defendeu, então, muitas de suas idéias filosóficas.
Na imprensa do Rio de Janeiro Sílvio Romero tornou-se literariamente poderoso. Admirador incondicional de Tobias Barreto, nunca deixou de colocá-lo acima de Castro Alves; além disso, manteve, durante algum tempo, uma certa má vontade para com a obra de Machado de Assis. Sua crítica injusta motivou Lafayette Rodrigues Pereira a escrever a defesa de Machado de Assis, sob o título Vindiciae. Como polemista deve-se mencionar ainda a sua permanente luta com José Veríssimo, de quem o separavam fortes divergências de doutrina, método, temperamento, e com quem discutiu violentamente. Nesse âmbito, reuniu as suas polêmicas na obra Zeverissimações ineptas da crítica (1909).
Sílvio Romero foi um pesquisador bibliográfico sério e minucioso. Preocupou-se, sobretudo, com o levantamento sociológico em torno de autor e obra. Sua força estava nas idéias de âmbito geral e no profundo sentido de brasilidade que imprimia em tudo que escrevia. A sua contribuição à historiografia literária brasileira é uma das mais importantes de seu tempo.
Era membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, sócio correspondente da Academia das Ciências de Lisboa e de diversas outras associações literárias.
Fundador da Cadeira 17. Recebeu o Acadêmico Euclides da Cunha.
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Fonte: ABL 
SCHERER, Marta Eymael Garcia; ALMEIDA, Luiz Alberto Scotto de. Sílvio Romero, um crítico do século XX. Disponível no link. (acessado 23.011.2013).



CENTENÁRIO DE DJANIRA DA MOTTA E SILVA
Djanira Auto-retrato , 1944.
Cantiga para Djanira
O vento é o aprendiz das horas lentas,
Traz suas invisíveis ferramentas,
Suas lixas, seus pentes-finos,
Cinzela seus castelos pequeninos,
Onde não cabem gigantes contrafeitos,
E, sem emendar jamais os seus defeitos,
Já rosna descontente e guaia
De aflição e dispara à outra praia,
Onde talvez possa assentar
Seu monumento de areia – e descansar.
- Paulo Mendes Campos, em "Poemas". Civilização Brasileira, 1984.

Djanira da Motta e Silva (Avaré SP, 20 de junho de 1914 — Rio de Janeiro RJ, 31 de maio de 1979). Pintora, desenhista, ilustradora, cartazista, cenógrafa e gravadora. No final da década de 1930, passa a morar no Rio de Janeiro, onde tem suas primeiras instruções de arte em curso noturno de desenho no Liceu de Artes Ofícios e com o pintor Emeric Marcier (1916 - 1990), hóspede da pensão que Djanira instala no bairro de Santa Teresa. Os contatos com os artistas Carlos Scliar (1920 - 2001), Milton Dacosta (1915 - 1988), Arpad Szenes (1897 - 1985), Vieira da Silva (1908 - 1992) e Jean-Pierre Chabloz (1910 - 1984), freqüentadores de sua pensão, proporcionam um ambiente estimulador que a leva a expor no 48º Salão Nacional de Belas Artes, em 1942. No ano seguinte, realiza sua primeira mostra individual, na Associação Brasileira de Imprensa - ABI. Em 1945, viaja para Nova York, onde conhece a obra de Pieter Bruegel (ca.1525 - 1569) e entra em contato com Fernand Léger (1881 - 1955), Joán Miró (1893 - 1983) e Marc Chagall (1887 - 1985). De volta ao Brasil, realiza o mural Candomblé para a residência do escritor Jorge Amado (1912 - 2001), em Salvador, e painel para o Liceu Municipal de Petrópolis, no Rio de Janeiro. Entre 1953 e 1954, viaja a estudo para a União Soviética. De volta ao Rio de Janeiro, torna-se uma das líderes do movimento pelo Salão Preto e Branco, um protesto de artistas contra os altos preços do material para pintura. Realiza em 1963, o painel de azulejos Santa Bárbara, para a capela do túnel Santa Bárbara, Laranjeiras, Rio de Janeiro. No ano de 1966, a editora Cultrix publica um álbum com poemas e serigrafias de sua autoria. Em 1977, o Museu Nacional de Belas Artes - MNBA, realiza uma grande retrospectiva de sua obra.
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* Saiba mais visitando neste site Djanira - singular e plural



CENTENÁRIO DE  MÁRIO SCHENBERG 
"A minha filosofia geral para todo o ensino é de não empanturrar o aluno de conhecimentos, mas de estimular a criatividade dele"
- Mario Schenberg

Mário Schenberg, foto: (...) 
Mário Schenberg (Recife PE, 02 de julho de 1914 - São Paulo SP 1990). Crítico de arte e físico. Transfere-se de Recife, sua cidade natal, para o Rio de Janeiro em 1929, ao finalizar os estudos secundários. Em 1933, em São Paulo, estuda na Escola Politécnica, formando-se engenheiro eletricista dois anos depois. Em 1936, torna-se bacharel em matemática pela Universidade de São Paulo (USP). Publica o primeiro trabalho como físico na revista italiana Il Nuovo Cimento, em 1936. Dois anos mais tarde, viaja a Roma, onde trabalha com o físico Enrico Fermi (1901 - 1954), ganhador do prêmio Nobel. Em 1939, conhece os artistas Di Cavalcanti e Noêmia Mourão, o crítico de cinema Paulo Emílio Salles Gomes (1916 - 1977) e o físico Plínio Sussekind Rocha, em Paris. Quando retorna ao Brasil, frequenta a casa do escritor Oswald de Andrade, onde conhece a artista Teresa D'Amico.
Em 1940, vai aos Estados Unidos como bolsista da Fundação Guggenheim para trabalhar com astrofísica, ao lado de George Gamow (1904 - 1968). No mesmo ano, expõe sua produção fotográfica no Observatório de Yerkes, na Universidade de Chicago. Em 1941, publica estudo sobre evolução estelar com outro futuro prêmio Nobel, o físico Subrahmanyan Chandrasekhar (1910 - 1995), da mesma universidade. Nessa época, inicia seus estudos sobre arte e filosofia oriental. Conhece o escultor russo Ossip Zadkine (1890 - 1967) e o pintor mexicano Rufino Tamayo (1899 - 1991).
No ano seguinte, dá continuidade ao seu trabalho no Departamento de Física da USP e escreve sobre artistas brasileiros - entre eles, Tereza D'Amico, cuja primeira exposição individual, em 1944, Schenberg organiza e fotografa, sendo também responsável pelo texto do catálogo. Por intermédio do escultor Bruno Giorgi e Volpi, conhece o pintor José Pancetti. Frequenta o ateliê de Lasar Segall e de Flávio de Carvalho . Convive com críticos paulistanos, como Lourival Gomes Machado, Sérgio Milliet e Maria Eugenia Franco. Ainda em 1944, com a tese Os Princípios da Mecânica torna-se professor da cadeira de mecânica racional, celeste e superior da USP.
Em 1947, é eleito deputado estadual pelo Partido Comunista, sendo cassado poucos meses após a posse. Em 1948, volta à Europa onde ministra aulas na Universidade Livre de Bruxelas, Bélgica. Quando volta ao Brasil em 1953, torna-se diretor do Departamento de Física da USP até 1961. Nesse mesmo ano, organiza retrospectiva de Volpi na Bienal Internacional de São Paulo, a pedido de Mário Pedrosa. Nessa década, retoma atividades ligadas à crítica de arte sendo eleito o representante dos artistas no júri nacional de seleção da Bienal em 1965, 1967 e 1969. Em 1966, participa do júri da 1ª Bienal Nacional da Bahia. Em 1964, é preso por 50 dias e, em 1969, é aposentado compulsoriamente e afastado da universidade.
Em 1973, escreve o capítulo Arte e Tecnologia, para o livro Arte Brasileira Hoje, de Ferreira Gullar (1930), no qual Schenberg aproxima as duas áreas de seu interesse. Nessa década, escreve artigos sobre concretismo e neoconcretismo para a revista Arte Hoje. Em 1979, retorna à universidade, devido à lei de anistia. Em 1983, ganha o prêmio de Ciência e Tecnologia do Conselho Nacional de Pesquisas (CNPq) e, em 1987, recebe título de professor emérito pelo Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas.
Mário Schenberg, 1937 - foto: (...)
Comentário Crítico
Mario Schenberg é um intelectual reconhecido tanto pela brilhante atuação como pesquisador e professor no Instituto de Física USP como pelos trabalhos de crítica de arte, publicados, sobretudo, em catálogos de exposições individuais e coletivas. Esses interesses, aparentemente incompatíveis, apontam, na verdade, para uma busca de comunhão entre ambas as áreas no pensamento de Schenberg. A historiadora Annatereza Fabris sintetiza as ideias do físico no campo da arte como uma
cruzada pessoal em prol da imaginação criadora, contra as constrições racionalistas, pois nelas se delineia aquele novo homem capaz de integrar Oriente e Ocidente, inteligência e intuição, ciência e arte, que são, de fato, alguns dos parâmetros fundamentais de seu sistema crítico.(1)
Segundo o próprio Schenberg(2), sua atuação nas artes teria tido início com o texto do catálogo da primeira individual de Alfredo Volpi, em 1944, na galeria Itá, em São Paulo. Nesse texto, já se percebem esses parâmetros fundamentais mencionados por Fabris. O crítico vê, por exemplo, no trabalho de Volpi anterior à exposição de 1944, traços tanto de um "impressionismo" chinês como do europeu, demonstrando, já nesse período, o desejo de aproximação entre a arte oriental e ocidental. Revela ainda outra predileção, desta vez pela linguagem "espontânea" de Volpi, um autodidata. Para Fabris, Schenberg entende o ensino formal de arte de maneira negativa, pois este "frustra a expressão criadora espontânea para adaptá-la a regras preexistentes, negando, desse modo, o papel da individualidade"(3).
Além de Volpi, Schenberg elabora críticas sobre artistas diversos, tanto consagrados como jovens, entre eles modernistas - Di Cavalcanti e John Graz; membros do Grupo Santa Helena - Francisco Rebolo e Manoel Martins; realistas mágicos, como Teresa D'Amico; ex-integrantes do concretismo e do neoconcretismo, como Waldemar Cordeiro, sobre quem escreve em 1963, e Anatol Wladyslaw, em 1966; como Lygia Clark, cujo texto do crítico é de 1971.
Notadamente, a retomada da figuração, na década de 1960, foi o maior interesse do crítico. Sobre o tema escreveu em várias oportunidades, abordando tendências como a nova figuração e o realismo fantástico, entre outras. Além disso, percebe-se na maioria dos artistas eleitos por ele em seus escritos uma proximidade com essas correntes. Entre os exemplos estão tanto nomes hoje consagrados - Marcelo Nitsche, Maurício Nogueira Lima, Alice Brill - quanto outros menos conhecidos - Gilson Barbosa e Bernardo Cid.
Dentre os trabalhos que abordam as vertentes neofigurativas, destaca-se Propostas 65, sobre a mostra idealizada por Waldemar Cordeiro, no Museu de Arte Brasileira - MAB/FAAP, em São Paulo, e que, segundo o crítico representaria "a arte de vanguarda da tendência realista, demonstrando cabalmente que o abstracionismo já deixou de ser a tendência dominante na arte contemporânea brasileira"(4). Para Schenberg, essas vertentes constituiriam um novo humanismo, que pode ser compreendido na chave interpretativa proposta por Fabris, diferente daquele associado ao Renascimento. O crítico observa ainda a contribuição do concretismo no que diz respeito à inovação formal, em relação ao naturalismo e ao realismo. Para ele, cabe ao novo realismo chamar atenção para o papel do Brasil na "construção de uma nova civilização mundial", atentando para "a crise das velhas estruturas" e para a necessidade de se pensar novas soluções para velhos problemas.
Em A Exposição do Grupo Neo-Realista, sobre a exposição Pare, na galeria G4, em 1966, Schenberg confirma o que havia dito no ano anterior. Antonio Dias, Rubens Gerchman, Roberto Magalhães, Pedro Escosteguy e Carlos Vergara participam da mostra. O grupo, para o crítico, é uma "contribuição genuinamente brasileira" ao que ele crê ser "o grande movimento neorrealista mundial"(5).
Mário Schenberg, foto: (...) 
Do mesmo ano é Um Novo Realismo, no qual o crítico estabelece alguns marcos dessa vertente no país, como as exposições Opinião 65, no Rio de Janeiro; e Propostas 65, em São Paulo, além dos prêmios recebidos por Wesley Duke Lee, em Tóquio, e Antonio Dias e Roberto Magalhães, em Paris. Aponta que a referida tendência nasce num período posterior à pintura informal, bastante presente na cena artística brasileira na década de 1940, e aponta as diferenças entre "novo realismo" contemporâneo e o realismo renascentista. Atribui à influência dos meios de comunicação de massa grande parte da transformação dessa tendência. Aproxima ainda, inusitadamente, alguns pontos dessa nova vertente ao zen, como o gosto pela "simplicidade" e pela "pobreza artesanal do aspecto cotidiano das coisas", entre outros pontos. Além disso, nota a presença do realismo fantástico e do mágico - estes distintos para Schenberg - como algo fundamental para o "novo humanismo", que considera ser conjunto de ideias revolucionárias que acredita vigorar em todo o mundo desde meados da década de 1960. Para ele, "o novo humanismo se caracterizará por uma síntese do individual, do social, do existencial e do cósmico"(6).
Na década de 1970, Schenberg escreve Concretismo e Neoconcretismo, a propósito da exposição Projeto Construtivo Brasileiro na Arte: 1950 - 1962, na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Nesse texto, o crítico observa a ausência de alguns artistas, imprescindíveis à compreensão da arte construtiva do país. Segundo o crítico, esse período não pode ser representado apenas pelos polos concreto e neoconcreto e faltariam na mostra nomes como Volpi e Mira Schendel, de São Paulo; Rubem Valentim, Abraham Palatnik, Milton Dacosta e Maria Leontina, do Rio de Janeiro. Além da crítica feita à exposição, Schenberg aponta como falha dos movimentos concreto e neoconcreto a pouca "compreensão da arte como manifestação ideológica e social"(7). Apenas com as vertentes neofigurativas haveria uma maior compreensão desse fato, na década de 1960. Ainda que, segundo o crítico, não fosse possível saber como seria o desenvolvimento dessa "consciência política e social na arte brasileira".
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Notas
(1) FABRIS, Annatereza. Sem título, in AJZENBERG, Elza (org.). Schenberg: arte e ciência. São Paulo: ECA/USP, 1997, n. 4. p. 41-42.
(2) Ver: SCHENBERG, Mário. Currículo artístico de Mário Schenberg, in: idem.
(3) FABRIS, op.cit., p. 42.
(4) SCHENBERG, Mario. Propostas 65. In Pensando a arte. São Paulo, Nova Stella, 1988, p. 179-180.
(5) A exposição do grupo neo-realista. In: idem, ibidem.
(6) SCHENBERG, Mário. Pensando a arte. São Paulo: Nova Stella, 1988.
(7) Concretismo e neoconcretismo, In idem, ibidem.
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Outras informações biográficas




CENTENÁRIO DE ARACY DE ALMEIDA
Aracy de Almeida
Araci Teles de Almeida, cantora, nasceu em 19 de agosto de 1914, Rio de Janeiro e faleceu em 02 de junho de 1998, Rio de Janeiro. Aracy de Almeida, nasceu e foi criada no subúrbio carioca de Encantado; o pai, Baltasar Teles de Almeida, era chefe de trens da Central do Brasil. Estudou num colégio em Engenho de Dentro, onde foi colega do radialista Alziro Zarur, e passou depois para o Colégio Nacional, no Meyer. Costumava cantar hinos religiosos na Igreja Batista e, quando conheceu Custódio esquita, por intermédio de um amigo, cantou para ele Bom-dia, meu amor (Joubert de Carvalho e Olegário Mariano), conseguindo que aquele compositor a levasse para cantar na Rádio Educadora (depois Tamoio), em 1933.
Já no ano seguinte, gravou para o Carnaval seu primeiro disco, pela Columbia, com a música Em plena folia (Julieta de Oliveira), e, em 1935, assinou seu primeiro contrato com a Rádio Cruzeiro do Sul. Nesse ano, gravou, pela Columbia, Seu riso de criança (Noel Rosa), de quem se tornaria uma das principais intérpretes.
Transferindo-se para a Victor, participou do coro de diversas gravações e lançou ainda em 
1935, como solista, Triste cuíca (Noel Rosa e Hervé Cordovil), Cansei de pedir, Amor de parceria (ambas de Noel Rosa) e Tenho uma rival (Valfrido Silva).
A partir de então, tornou-se conhecida como intérprete de sambas, músicas carnavalescas e, principalmente, de Noel Rosa, tendo sido apelidada por César Ladeira de "O Samba em Pessoa".
Foi casada com um famoso goleiro de futebol (Rei), de quem se separou. Trabalhou também na Rádio Philips (fazendo dupla com Silvio Caldas, no Programa Casé), na Cajuti, Mayrink Veiga e Ipanema, excursionando com Carmen Miranda ao Rio Grande do Sul.
Em 1936, foi para a Rádio Tupi, do Rio de Janeiro, e gravou com sucesso duas músicas de Noel Rosa: Palpite infeliz e O X do problema.
No ano seguinte, atuou na Rádio Nacional e destacou-se com os sambas Tenha pena de mim (Ciro de Sousa e Babau), Eu sei sofrer (Noel Rosa e Vadico) e Último desejo, de Noel Rosa, que faleceu nesse ano.
Aracy de Almeida
Gravou, em 1938, Século do progresso (Noel Rosa) e Feitiço da Vila (Noel Rosa e Vadico), e, em 1939, lançou em disco Chorei quando o dia clareou (Davi Nasser e Nelson Teixeira) e Camisa amarela (Ari Barroso).
Para o Carnaval de 1940, gravou a marcha O Passarinho do relógio (Haroldo Lobo e Milton de Oliveira) e, no ano seguinte O Passo do canguru (dos mesmos autores).
Em 1942, lançou o samba Fez bobagem (Assis Valente), Caramuru (B.Toledo, Santos Rodrigues e Alfeu Pinto), Tem galinha no bonde e A Mulher do leiteiro (ambas de Milton de Oliveira e Haroldo Lobo).
Fez sucesso no Carnaval de 1948 com Não me diga adeus (Paquito, Luis Soberano e João Cerreia da Silva) e, em 1949, gravou João ninguém (Noel Rosa) e Filosofia (Noel Rosa e André Filho).
Entre 1948 e 1952, trabalhou na boate carioca Vogue, sempre cantando o repertório de Noel Rosa; graças ao sucesso de suas interpretações nessa temporada, lançou pela Continental dois álbuns de 78 rpm com musicas desse compositor: o primeiro deles, lançado em setembro de 1950, continha Conversa de botequim (com Vadico), Feitiço da Vila (com Vadico), O X do problema, Palpite infeliz, Não tem tradução e Último desejo; no segundo, lançado em março de 1951, interpretou Pra que mentir (com Vadico), Silêncio de um minuto, Feitio de oração (com Vadico), Três apitos, Com que roupa e O orvalho vem caindo (com Kid Pepe).
Mudou-se para São Paulo SP, em 1950, e viveu durante 12 anos nessa cidade. Em 1955,
trabalhou no filme "Carnaval em lá maior", de Ademar Gonzaga, e lançou, pela Continental, um LP de dez polegadas só com músicas de Noel Rosa, no qual foi acompanhada pela orquestra de Vadico, cantando, entre outras, São coisas nossas, Fita amarela e as composições inéditas Meu barracão, Cor de cinza, Voltaste e A melhor do planeta (com Almirante).
Três anos depois, lançou pela Polydor o LP Samba em pessoa. Em 1962 a RCA, reaproveitando velhas matrizes, editou o disco Chave de ouro.
Noel Rosa e Aracy de Almeida, por J.Bosco
Em 1964 gravou com a dupla Tonico e Tinoco o cateretê Tô chegando agora (Mário Vieira) e apresentou-se com Sérgio Porto e Billy Blanco na boate Zum-Zum (Rio de Janeiro).
Em 1965, fez vários shows no Rio de Janeiro: "Samba pede passagem", no Teatro Opinião,
"Conversa de botequim", dirigido por Miele e Boscoli, no Crepúsculo, e um espetáculo na boate Le Club com o cantor Murilo de Almeida.
No ano seguinte, a Elenco lançava o disco Samba é Aracy de Almeida. Com o cômico Pagano Sobrinho, fez "É proibido colocar cartazes", programa de calouros da TV Record, de São Paulo, em 1968.
No ano seguinte, a dupla apresentou-se na boate paulistana Canto Terzo. Ainda em 1969, fez o show "Que maravilha!", no Teatro Cacilda Becker, de São Paulo, ao lado de Jorge Ben, Toquinho e Paulinho da Viola, e participou como jurada do programa de calouros "A Buzina do Chacrinha" e seu último trabalho em televisão foi no "Programa Silvio Santos".
O Acervo 78 rpm de Aracy de Almeida foi 100% restaurado e digitalizado pelo Collector's Studios.


Último desejo - interpretação Aracy de Almeida





Palpite Infeliz - interpretação Aracy de Almeida
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Fonte: Collectors 



CENTENÁRIO DE JÚLIO GOUVEIA
Tatiana Belinky e Julio Gouvea,
foto: (...)
Júlio Gouveia nasceu em 11 de Agosto de 1914.  Menino estudioso e bonito, entrou para a Faculdade de Medicina e formou-se, tendo se especializado em psiquiatria. Porém, tinha forte inclinação artística e ao conhecer a jovem russa Tatiana Belinky, logo percebeu que juntos iriam caminhar para a arte.
Ela também viu nele, além de seu grande amor, o parceiro feito para o vôo cultural e artístico. Em 1948, já casados, foram chamados pela  Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, para  formarem um grupo, que iria levar peças e textos às crianças do município. Então eles, e mais amigos, fundaram o TESP - Teatro  Escola de São Paulo.  Durante vários anos o grupo encenou peças em toda a cidade. Realizou trabalhos sérios, que foram respeitados pela crítica e procurados pelo público. Tatiana escrevia e Júlio dirigia. Médico " nas horas vagas", ele dizia. E então o casal foi chamado pela recém inaugurada TV Tupi .
E, em  24 de dezembro de 1951, eles levaram ao ar a  adaptação de: "Os Três Ursinhos".pela PRF3-TV, que era a Tupi. Foi muito bem e deu início a uma longa carreira artística para o casal. Era um texto natalino, muito apropriado para a data. Tatiana e Júlio haviam conhecido pessoalmente o escritor brasileiro Monteiro Lobato e lhes veio a idéia de levar para o público os textos infantis do autor, a que o escritor acedeu.
E, logo em 10 de janeiro de1952,  dando continuação ao trabalho, Tatiana e Júlio lançaram : " O Sítio do Pica-pau Amarelo". Fizeram: " A Pílula Falante", extraída de :"Reinações de Narizinho", na TV Paulista, segunda emissora de São Paulo. No dia 24, duas semanas após, mais uma peça foi montada.
Nesses trabalhos iniciais todos foram bem, mas Lúcia Lambertini foi extraordinariamente bem, no papel da boneca Emília. Foi um verdadeiro estouro. Segundo os autores e o público, a melhor Emília de todos os tempos. O casal foi então chamado para fazer na TV Tupi, um  programa semanal  fixo. 
Após as necessárias tratativas, o trabalho começou e durou muitos anos. Semanalmente era levado ao ar um texto dirigido aos jovens e às crianças. O programa ia ao ar aos domingos de manhã e se chamava:"Teatro Infantil", que logo passou a chamar-se:" Era uma Vez". Por mais de 12  anos, a TV Tupi, através de Júlio Gouveia e Tatiana , deu  ao público, uma grande contribuição educativo-cultural.
Os principais títulos dessa fase, foram: " Heidi"; Pollyana"; " O Pequeno Lorde"; "Pollyana Moça"; " José do Egito";" A Moreninha"; "Os Dez Mandamentos"; " Angélika". Ficou famoso  o  programa " Teatro da Juventude". E Júlio Gouveia então chamava , para colaboraram em seus programas, atores conhecidos e famosos, e lançava também atores novos, que foram ficando famosos, graças a ele. E assim o nível artístico ficava muito bom. Depois de um grande tempo, Júlio e Tatiana  sairam da TV Tupi . O doutor Júlio voltou a atender  seus  pacientes.  Mas, a seguir, ele e sua esposa  se transferiram para a TV Bandeirantes, levando para lá o mesmo esquema. Até que Júlio resolveu se afastar da vida artística, ficando apenas  médico.                                                                                         
 De seu casamento com Tatiana, Júlio teve dois filhos:  Ele veio a falecer aos 74 anos, de um infarto fulminante.  Foi no ano de 1988.
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Fonte: Museu da TV  e Sobrag 
Sugestões de pesquisa complementar:
QUAGLINO, Maria Ana. O Sítio do Pica-pau Amarelo da TV: a primeira versão. Disponível no link. (acessado em 03.12.2013).



CENTENÁRIO DE JULIO CORTÁZAR
Júlio Cortázar, 1967 - [Archivo Alicia D´Amico]
- foto: Alicia D´Amico
Julio Florêncio Cortázar (Embaixada da Argentina em Ixelles, Bruxelas -Bélgica, 26 de agosto de 1914 – Paris, 12 de fevereiro de 1984). Escritor e intelectual argentino, é considerado um dos autores mais inovadores e originais do seu tempo. Mestre no conto e na narrativa curta, a sua obra é apenas comparável a nomes como os de Edgar Allan Poe, Tchékhov ou Jorge Luis Borges.
Filho de argentinos, nasceu na embaixada da Argentina em Ixelles, distrito de Bruxelas, na Bélgica, e voltou a sua terra natal aos quatro anos de idade. Seus pais se separaram posteriormente e passou a ser criado pela mãe, uma tia e uma avó. Passou a maior parte de sua infância em Banfield, na Argentina, e não era uma criança totalmente feliz, apresentando uma tristeza frequente. Cortázar era uma criança bastante enferma e passava muito tempo na cama, lendo livros que sua mãe selecionava. Muitos de seus contos são autobiográficos, como Bestiario, Final del juego, Los venenos e La Señorita Cora, entre outros.
Formou-se Professor em Letras em 1935, na "Escuela Normal de Profesores Mariano Acosta", e naquela época começou a frequentar lutas de boxe. Em 1938, com uma tiragem de 250 exemplares, editou Presencia, livro de poemas, sob o pseudônimo "Julio Denis". Lecionou em algumas cidades do interior do país, foi professor de literatura na "Facultad de Filosofía y Letras de la Universidad Nacional de Cuyo", mas renunciou ao cargo quando Perón assumiu a presidência da Argentina. Empregou-se na Câmara do Livro em Buenos Aires e realizou alguns trabalhos de tradução.
Em 1951, aos 37 anos, Cortázar, por não concordar com a ditadura na Argentina, partiu para Paris (França), pois havia recebido uma bolsa do governo francês para ali estudar por dez meses, e acabou se instalando definitivamente. Trabalhou durante muitos anos como tradutor da Unesco e viveria em Paris até a sua morte. Teve uma relação de amizade com os artistas argentinos Julio Silva e Luis Tomasello, com os quais realizaria vários projetos conjuntos. Politicamente, o autor também foi um mistério, devido à fragilidade dos rótulos da época, pois, para a CIA, tratava-se de um perigoso esquerdista a soldo da KGB, enquanto esta considerava-o um notório agente do imperialismo a soldo da CIA e perigoso agitador anti-soviético, já que denunciava as prisões em Moscou dos chamados dissidentes.
Júlio Cortázar, foto: (...)
Cortázar casou com Aurora Bernárdez en 1953, uma tradutora argentina. Viviam em París, sob condições econômicas difíceis e surgiu a oportunidade de traduzir a obra completa, em prosa, de Edgar Allan Poe para a Universidad de Puerto Rico. Esse trabalho foi considerado pelos críticos como a melhor tradução da obra do escritor.
Em 1963 visitou Cuba enviado pela Casa de las Américas, para ser jurado em um concurso. Foi a época de intensificação do seu fascínio pela política. No mesmo ano teve um livro traduzido para o inglês. Em 1962, lança Historias de Cronopios y Famas, e o ano de 1963 marcou o lançamento de Rayuela, que foi seu grande sucesso e teve cinco mil cópias vendidas no mesmo ano. Em 1959 saiu o volume Final del Juego. Seu artigo Para Llegar a Lezama Lima foi publicado na revista "Union", em Havana. Depois desses anos, Cortázar se comprometeu politicamente na libertação da América Latina sob regimes ditatoriais.
Em novembro de 1970 viaja ao Chile, onde se solidarizou com o governo de Salvador Allende. Em 1971, foi "excomungado" por Fidel Castro, assim como outros escritores, por pedir informações sobre o desparecimento do poeta Heberto Padilla. Apesar de sua desilusão com a atitude de Castro, continuou acompanhando a situação política da América Latina.
Em 1973, recebeu o Prêmio Médicis por seu Libro de Manuel e destinou seus direitos à ajuda dos presos políticos na Argentina. Em 1974, foi membro doTribunal Bertrand Russell II, reunido em Roma para examinar a situação política na América Latina, en particular as violações dos Direitos Humanos.
Em 1976, viajou para Costa Rica, onde se encontrou com Sergio Ramírez e Ernesto Cardenal, e fez uma viagem clandestina até Solentiname, na Nicarágua. Esta viagem o marcaria para sempre e seria o começo de uma série de visitas a este país.
Em agosto de 1981 sofreu uma hemorragia gástrica. Em 1983, volta a democracia na Argentina, e Cortázar fez uma última viagem à sua pátria, onde foi recebido calorosamente por seus admiradores, que o paravam na rua e lhe pediam autógrafos, em contraste com a indiferença das autoridades nacionais. Depois de visitar vários amigos, regressou a Paris. Pouco depois lhe foi outorgada a nacionalidade francesa.
Carol Dunlop, sua última esposa, faleceu em 2 de novembro de 1982, e Cortázar teve uma profunda depressão. Morreu de leucemia em 1984, sendo enterrado no Cemitério do Montparnasse, na mesma tumba de Carol. Em sua tumba se ergue a imagem de um "cronópio", personagem criado pelo escritor.
Julio Cortázar, foto: (...)
É considerado um dos autores mais inovadores e originais de seu tempo, mestre do conto curto e da prosa poética, comparável a Jorge Luis Borges e Edgar Allan Poe. Foi o criador de novelas que inauguraram uma nova forma de fazer literatura na América Latina, rompendo os moldes clássicos mediante narrações que escapam da linearidade temporal e onde os personagens adquirem autonomia e profundidade psicológica inéditas.
Seu livro mais conhecido é Rayuela (O Jogo da Amarelinha), de 1963, que permite várias leituras orientadas pelo próprio autor.
"Pasé mi infancia en una bruma de duendes, de elfos, con un sentido del espacio y del tiempo diferente al de los demás"
- Julio Cortázar, em Revista Plural n°44, México 5/1975.
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CENTENÁRIO DE RENATO CASTELO BRANCO
Renato Castelo Branco - foto: (...)
Renato Castelo Branco (advogado, historiador, escritor e publicitário). Renato Castelo Branco nasceu na cidade de Parnaíba, Piauí, em 12 de setembro de 1914, ano em que começou a I Guerra Mundial. Segundo de quatro irmãos (Hiran, Renato, Maurício e José Ribamar), era filho de Francisco Ferreira Castelo Branco e Orminda Castelo Branco. Descendia de D. Francisco da Cunha Castelo Branco, fidalgo e Capitão de Infantaria do Exército Português, que emigrou para o Brasil em 1693 estabelecendo aqui o tronco principal dos Castelo Branco. Renato faleceu em 19 de setembro de 1995, aos 81 anos, deixando a viúva Norma Castelo Branco e os filhos Hiran, Renée e Renata.
Ao fazer um balanço de seu tempo, Renato Castelo Branco registra em suas memórias: "minha geração viu-se a braços com as mais profundas e violentas transformações já registradas na história, sem encontrar respostas para os impasses de suas contradições". Em sua obra literária, volta e meia emerge a sua preocupação para com a injustiça social em nosso País.
Esse tema é, certamente, um dos principais motivos de suas inquietudes e insatisfações, manifestadas, por exemplo, no livro O Comunicador, quando registra: "podemos exibir na televisão campanhas de brinquedos custosos, carrões, palacetes de fim-de-semana, quando nos cerca tanta pobreza? Qual pode ser a reação dos sem-casa, dos bóias-frias, dos favelados ante o mundo que lhes mostramos, de vida faustosa, de mulheres sofisticadas, de residências cinematográficas? O pobre não aceita mais aguardar resignado a felicidade para a outra vida, no Reino do Céu. Ele quer participar dos bens da vida aqui e agora".
De qualquer maneira, é tarefa árdua resumir com precisão o legado deixado por Renato Castelo Branco ou mesmo traçar o perfil de uma personalidade com tantas facetas. No entanto, é possível, a partir de suas memórias, registradas no livro Tomei um Ita no Norte, e também com base no livro O Comunicador, em que ele descreve o ambiente profissional da Publicidade, estabelecer os principais aspectos de seu legado.
RCB: Dublê de Escritor e Publicitário
Antes de tudo, é preciso situá-lo como um fecundo dublê de escritor e publicitário. Nessa ordem, pois já em 1934, antes mesmo de seu ingresso na publicidade, ele escreveu sua primeira obra literária, o romance de juventude intitulado Armazém 15, onde ele, aos 20 anos de idade, contava as frustrações, revoltas e amarguras de um jovem nordestino, o próprio autor, que migrara para o Rio de Janeiro em busca de uma vida melhor. Sua vocação literária pode ser inferida já na chegada ao Rio de Janeiro em 1933, quando foi introduzido nas rodas literárias do Belas Artes, café-bar localizado na Avenida Rio Branco e ponto de encontro da intelectualidade e de boêmios, onde RCB se encantava ao conviver com os poetas e intelectuais da época.
O escritor e guru Joaquim Ribeiro, que presidia as rodas literárias do Belas Artes usou as seguintes palavras para saudar o novato: "Renato Castelo Branco representa um teorema psicológico difícil de ser demonstrado, porque nele os sentimentos e as idéias se encontram numa ebulição instável. É o homem que veio do sertão, das plagas da Parnaíba, Piauí, com todas as reminiscências da paisagem nativa e está diante da metrópole com instintos de invasor e aspirações de suave evangelizador. A cidade o compreenderá? Os poetas, aqui, desaparecem, subvertidos pelo tumulto da vida e sofrem a obliteração do talento, ao contato com as asperezas da luta para viver". Poderíamos acrescentar a constatação, neste ano em que celebramos os 90 anos de nascimento de RCB que o Poeta, apesar das asperezas infligidas pela vida, sobreviveu e manteve a integridade de suas crenças de juventude até os seus dias finais.
Essa espécie de preferência pelo trabalho literário é confirmada quando, aos 67 anos, fazendo o que ele próprio denominou de "the summing-up" em seu livro de memórias, revela: "continuo em busca da pessoa que persegui desde a adolescência - atrás de uma vaga ambição literária e do desejo de dedicar a minha vida a uma obra idealista".
É interessante registrar que a maior parte de sua obra literária foi produzida a partir de 1968, após um intervalo de 20 anos em relação ao seu romance Teodoro Bicanca, publicado em 1948. Esse intervalo tem a ver com a sua dedicação praticamente "full time" à Publicidade, enquanto a retomada da literatura, por sua vez, verifica-se a partir de seu desligamento da JWT, naquele biênio de 1968/1969, profissionalmente conturbado.
Ao longo de sua vida, RCB escreveu 22 livros - o último, Comunicador, em 1991. "Seu livro de memórias" Tomei um Ita no Norte, publicado em 1981, mereceu de Jorge Amado a seguinte apreciação: "Li seu livro com grande prazer, aumentado pela beleza dos poemas, que dão ainda maior força aos fatos narrados. Essas suas memórias são ricas de acontecimentos e emoções". Outro grande escritor brasileiro, quarenta anos antes já havia reconhecido o talento literário de Renato Castelo Branco a propósito de sua obra A Civilização do Couro, estudo histórico-social do Piauí, de 1942: "se todos os estados do Brasil tivessem uma monografia sintética à altura desta, o Brasil seria, como um todo, o país mais bem fotografado do mundo" - Monteiro Lobato.
Na literatura, Castelo cultivou os mais diversos gêneros: poesia, ficção, estudos arqueológicos, sociologia e história. Mas ele foi, sobretudo, um mestre do chamado romance histórico e escreveu, entre outras obras, uma trilogia de reconhecido mérito literário: A Conquista dos Sertões de Dentro, Rio de Liberdade e Senhores e Escravos. Nas palavras de Ricardo Ramos, também um dublê de Escritor e Publicitário, Chefe de Redação da Thompson entre 1957-1961, Castelo era um escritor de "múltiplas faces, importante no ensaio, abrangente a ponto de fazer incidir sua análise sobre fatos históricos ou sociais. Extremamente ágil, sério e confessional nas memórias, capaz de inquietações e disciplina, que responde pela feitura superior da trilogia".
Examinando a bagagem literária de RCB, é preciso destacar também a sua obra Um Programa de Política Exterior para o Brasil. Nesse livro, publicado em 1945, o autor se revela um pensador político de visão pois já naquela época vaticinava a criação do que viria a ser o Mercosul, algo que só aconteceria nos anos 90 do século XX.
O crítico Edgar Cavalheiro acolheu a obra com estas palavras: "Um livro repleto de sugestões e de bom senso. Castelo Branco focaliza problemas vitais para o futuro do Brasil e da América. Na sua opinião - e não é difícil concordar com ele - somente através de uma Confederação Sul-Americana encontraremos as bases de uma política exterior capaz de nos garantir contra os azares do futuro".
Para que se tenha apenas uma pequena idéia do poeta Renato Castelo Branco, reproduzimos abaixo as duas primeiras estrofes de seu poema Baal e o Ramo de Oliveira, escrito em 1969:
Poeta, que importa que sonhes
com o fluxo dos mares,
se nada sabes da sociedade afluente?
Poeta, que importa que ouças
a fala das estrelas,
se nada conheces
da renda per capita?
No entanto, em que pese a sua dimensão literária, seu lado publicitário é reforçado pela simples constatação de que ele dedicou a essa atividade praticamente 50 anos de sua existência - de 1935 a 1985, com alguns curtíssimos intervalos, transformando-se numa referência para os publicitários de sua geração, e também para as atuais.
Renato Castelo Branco iniciou sua vida como publicitário na N.W. Ayer em 1935 como assistente de redator. Em 1939 ingressou na J.W.Thompson onde fez uma carreira brilhante: Redator, Chefe de Redação, Atendimento, Supervisor de Contas, Supervisor Comercial no Escritório São Paulo, Gerente do Escritório Rio, Gerente Geral e Presidente no Brasil (1961) e Vice-Presidente nos Estados Unidos (1965) - único latino-americano a conquistar essa honrosa distinção, até os dias de hoje. Norman Strouse, Chairman e Dan Seymour, Presidente da JWT mundial, registraram na ocasião: "Alegra-nos muito que esta decisão pudesse ser tomada, pois temos grande respeito por suas aptidões profissionais e profundo apreço por sua pessoa".
Em 1992, o autor deste registro histórico indagou a Caio Domingues como ele classificaria a Thompson em seu auge, anos 50 do século XX e ele respondeu de bate pronto: "A Thompson era um verdadeiro Boeing". Castelo nos revela em seu livro de memórias Tomei um Ita no Norte quem estava nesse Boeing: "Merrick foi um grande amigo dos brasileiros e, em torno dele, sob sua liderança cordial e inspiradora, formou-se uma extraordinária equipe de profissionais: Augusto de Ângelo, Said Farhat, Otto Scherb, Juan Córduan, Antonio Andrade Nogueira, Hélio Silveira da Mota, Dirceu Borges, Hilda Schutzer, Geri Garcia, Roberto Duailibi, Francesc Petit, José Zaragoza, Francisco Gracioso, Eric Nice, Cândido Mota Neto, Geraldo Santos, Renato Castelo Branco, Caio Domingues, José Kfuri, Charles Dulley, Orígenes Lessa, Ricardo Ramos, J.R.W. Penteado, Francisco Teixeira Orlandi e Julieta de Godoy Ladeira". Castelo acrescenta: "alguns desses nomes gravitaram por longo tempo na órbita do velho Merrick. Outros foram praticamente suas "crias", ou como ele dizia afetuosamente, "my boys".
Este registro ficaria incompleto se não incluíssemos o depoimento de três profissionais. O primeiro deles é Rodolfo Lima Martensen, outro pioneiro da Publicidade Brasileira, fundador da Escola de Propaganda de São Paulo, atual ESPM e dileto amigo de Castelo durante décadas e que assim se expressou no prefácio do livro Tomei um Ita no Norte: "as realizações empresariais de Castelo e o seu destacado papel na dignificação e aprimoramento da profissão que abraçou, tornam difícil imaginar que, por trás do bem sucedido homem de negócios, esconde-se o poeta sensível e inspirado de A Janela do Céu e Candango, Gagarin e Blaiberg... Ele tem os pés no chão e a cabeça no infinito".
Já Hilda Hulbrich Schutzer, a primeira mulher a ocupar a presidência de uma Agência de Publicidade no Brasil e que Castelo escolheu para sucede-lo na CBBA depõe: "o meu convívio pessoal com o Castelo, tanto na JWT como na CBBA, foi extremamente gratificante, pois pude aprender muito com um grande mestre. Aprendi, também, a apreciar os seus escritos, como redator exemplar que sempre foi, criador de grandes campanhas, lembradas até hoje como exemplo. Conheci de perto o poeta, o escritor e o excelente contista. Pude testemunhar a sua grande cultura e o seu imenso prazer de colocar no papel a sua enorme capacidade criativa. Tive no Castelo um grande exemplo, um irmão mais experiente mas, principalmente um grande e verdadeiro amigo".
Roberto Duailibi, um dos mais brilhantes redatores de sua geração, ainda na ativa, provavelmente considerado o discípulo de Castelo de maior projeção na profissão e igualmente presente naquele Boeing de craques revela: "Renato Castelo Branco era um homem absolutamente íntegro, modelo de tranqüilidade, de moderação, de paz mesmo. Tudo isso só nos faz olhá-lo como aquilo que ele era e ele é: um ícone, uma pessoa que a gente deve não apenas lembrar, mas realmente venerar".
Responsabilidade Social da Propaganda 
Em nosso país, a preocupação atual das empresas para com a responsabilidade social tornou-se uma verdadeira febre. Não há empresa, nos dias de hoje, que não procure, de uma forma ou outra, desenvolver algum tipo de ação de cunho social, de interesse comunitário. As Agências de Publicidade mais conscientes não estão imunes a esse fenômeno.
Em 1971, aos 57 anos de idade e após brevíssima passagem pela Norton Publicidade Castelo fundou a sua própria agência, CBBA - Castelo Branco, Borges e Associados, juntamente com alguns companheiros de Thompson: Dirceu Borges, Hilda Ulbrich Shutzer, Geri Garcia, Roberto Palmari e Wanderley Saldiva.
Tudo indica que foi na CBBA que ele pôde exercitar com mais liberdade o seu lado idealista que, naqueles anos, não se chamava Responsabilidade Social da Propaganda. Subentende-se que a JWT, essencialmente em função de sua natureza de empresa multinacional, não oferecia o espaço mais adequado para campanhas de cunho social, humanitário ou de interesse estratégico do País. Entretanto, não se pode omitir que na década de 60, a JWT, sob a inspiração e apoio de RCB, criou, voluntariamente, por exemplo, anúncios para o Exército da Salvação.
Foi, portanto, no período de 1971 a 1982 que RCB, sob a chancela de sua CBBA, 100% brasileira, engajou-se ativamente em várias campanhas de cunho social e de interesse nacional. Integrar para não entregar (Projeto Rondon) é uma delas. O aleitamento materno é outra idéia pioneira, e que se repete até hoje, de tempos em tempos. O engajamento da Publicidade em campanhas de interesse da comunidade e do País, ao lado de campanhas que expressavam sentimentos de brasilidade constitui, indubitavelmente, um dos principais legados de RCB.
Já a preocupação para com a Ética, inquestionavelmente o seu principal legado, emerge de forma clara a partir da declaração de princípios da CBBA, inspirada na postura profissional de RCB: "Do ponto de vista da filosofia empresarial, a CBBA considera a propaganda um legítimo instrumento de expansão comercial, da promoção do consumo e dos objetivos de lucro, dentro dos conceitos de economia de mercado. Mas tem, ao mesmo tempo, precisa consciência da responsabilidade social da propaganda, que deve ser verdadeira no fundo e na forma. Deve respeitar a comunidade e o indivíduo. E precisa estar em consonância com os objetivos de desenvolvimento econômico, social e cultural do país".
Conflito Ideológico 
Como muitos profissionais de sua geração e de gerações posteriores, RCB também viveu o conflito ideológico de como conciliar o seu lado moral e seu lado de profissional da Publicidade, freqüentemente acusada de estimular desejos de consumo que não podem ser satisfeitos pela maioria da população. É notável que RCB tenha sido um dos primeiros profissionais brasileiros a elaborar, com clareza, a teoria de que a Publicidade é uma força indispensável na economia de mercado e que, segundo suas palavras, faz girar a eterna cadeia: ela cria consumo, que cria produção, que cria empregos, que cria riqueza, que cria consumo. E ele complementava, dizendo que a Publicidade é apenas um instrumento de comunicação que pode ser utilizado para promover ou para inibir o consumo, como é o caso de campanhas comunitárias visando a economia de gasolina, de água, de eletricidade, contra as drogas, entre outras. Essa visão da Publicidade é parte importante do legado de RCB.
Ética e Eficácia têm que andar juntos
Trata-se de um fato notório, sempre destacado por várias gerações de profissionais que por lá passaram, o comportamento ético da JW Thompson. Foi na JWT, onde permaneceu praticamente 30 anos, que RCB recebeu e praticou lições de comportamento profissional e empresarial ético. Seu mestre nesse sentido, segundo seu próprio depoimento, foi o norte-americano Robert F. Merrick, que presidiu a JWT brasileira durante 20 anos e que escolheu Renato Castelo Branco para sucedê-lo, em 1961. A JWT, por exemplo, foi a primeira Agência no Brasil a praticar a política de "Open Books" -sua contabilidade sempre esteve aberta, a qualquer momento, para ser auditada pelos Clientes.
A JWT entendia que a razão de seu sucesso era, acima de tudo, o sucesso de seus Clientes, medido pelos resultados e não pelo brilho fácil e purpurina, evidenciados muitas vezes pelos prêmios publicitários conquistados.
Renato Castelo Branco nos legou a Dignidade da Profissão de Publicitário, colocando-a num patamar elevado. Ele nos ensinou que a Publicidade é, inegavelmente, "business", mas que ela não pode se eximir da Responsabilidade Social que lhe é inerente.
Em suma, Renato Castelo Branco foi um Publicitário de Idéias e Ideais que sempre acreditou em compromissos sociais, em valores superiores e no postulado de que ética e eficácia têm que andar juntas. Pode-se afirmar que ele foi, portanto, "Bigger than Life", uma figura carismática, personalidade magnética, talhada para o bronze.
[...]
___
- por Francisco Socorro, em "O Legado de Renato Castelo Branco". Publicado originalmente no site da Escola Superior de Propaganda e Marketing. Republicado no Portal EntreTextos.

Obra
:: Armazém 15. Edição Cultura Brasileira, 1934.
:: A civilização do couro. [estudo histórico-social do Piauí]. Teresina: Edição do Governo do Estado do Piauí, 1942.
:: Os sertões [poema baseado na obra homônima de Euclides da Cunha]. Livraria Martins, 1943, 60p.
:: Um programa de política exterior para o Brasil. Editora Brasiliense, 1945.
:: Teodoro Bicanca. (romance). Edição Ipê, 1948.
:: Candango Gagarin Blaiberg e outros poemas. Quatro Artes Editora, 1968.
:: A janela do céu. (poemas). Quatro Artes Editora, 1969.
:: O Piauí: a terra, o homem, o meio. [estudo histórico-social do Piauí]. Quatro Artes Editora, 1970.
:: Pré-história brasileira: fatos e lendas. [ensaio mito-arqueológico]. Quatro Artes Editora, 1971.
:: Os Castelo Branco d'aquém e d'além mar. [estudo histórico-genealógico]. LR Editores,1980.
:: Tomei um Ita no Norte" (memórias). LR Editores, 1981.
:: Rio de liberdade - a Guerra do Fidié. (romance histórico). LR Editores, 1982.
:: Poemas do grande sertãoT .A. Queiroz Editor, 1993.
:: A conquista dos sertões de dentro(romance histórico).RR Editores, 1983.
:: Senhores e escravos. (romance histórico). RR Editores, 1983.
:: O planalto (O romance de São Paulo). RR Editores, 1985.
:: Amor e angústia (poemas). RR Editores, 1986. 
:: O rio mágico. (romance). Edicon Editora, 1987.
:: O anticristo(romance). Edicon Editora, 1987.
:: No reino dos bichos miúdos.(contos infantis). Ed. CBBA-Propaganda, 1989.
:: Domingos Jorge Velho - e a presença paulista no nordeste. T .A. Queiroz Editor, 1990.
:: O comunicador. Ediouro, 1991.
:: A ilha encantada. (romance infanto-juvenil). T.A. Queiroz Editor, 1992.
:: Pátria amada - o Brasil em PoemasT.A. Queiroz Editor, 1994.

"Podemos exibir na televisão campanhas de brinquedos custosos, carrões, palacetes de fim-de-semana, quando nos cerca tanta pobreza? Qual pode ser a reação dos sem-casa, dos bóias-frias, dos favelados ante o mundo que lhes mostramos, de vida faustosa, de mulheres sofisticadas, de residências cinematográficas? O pobre não aceita mais aguardar resignado a felicidade para a outra vida, no Reino do Céu. Ele quer participar dos bens da vida aqui e agora"
- Renato Castelo Branco, em "O comunicador", Ediouro, 1991.

Outros
:: História da propaganda no Brasil. (coordenação de Fernando Reis e textos de: Renato Castelo Branco, Ricardo Ramos, Rodolfo Lima Martensen, Jorge Medauar, Roberto Simões, Alex Periscinoto, Roberto Cívita, Nelson Cadena, Oswaldo Mendes, Manuel Leite, Roberto Duailibi, Juarez Bahia, Armando Moraes Sarmento, dentre outros).. [Estudos Brasileiros volume 21].  Editora Ibraco e T.A. Queiroz Editor, 1990, 490p.


Poemas escolhidos
Memórias
Eu trago comigo memórias longínquas
de crianças correndo sobre dunas.
Memórias de corrupiões e carnaubais.
Eu trago comigo memórias esquecidas 
de que não tenho consciência.
E rasgos luminosos
que me falam de saudades estranhas.

Trago comigo
dores adormecidas,
instantes de euforia 
e rubras cicatrizes.

Trago comigo
imprecações milenares,
pequenas glórias,
prantos sufocados.
Noites de pavor e angústias,
tumultos predatórios,
flores e esponsais.

Trago comigo
preces comovidas
visões de prados e oceanos,
o branco sereno do Fujiama
e as escarpas dos Andes.

Trago comigo
o olhar de minha mãe,
a humilhação da fome,
fugas e sonatas.

Trago comigo
canções e poemas,
dores e frustrações.

Deixai-me, Senhor, depositar em vossos pés
esta soma de vida
_ sargaços e espumas
que serenamente deponho em vossas praias...
-Renato Castelo Branco


A caatinga
É a caatinga, a desdobrar-se infinda,
tocando ao longe o horizonte incerto
e abrindo, nos sertões iluminados,
um vácuo de deserto!

São árvores sem folha, galhos estorcidos,
rijamente apontando para a altura,
entrecruzados, secos e revoltos,
num bracejar imenso de tortura.

No rescaldar desta fornalha intensa,
as leis vegetativas se transmudam.
cessa o anseio de luz, das florestas eternas
onde arbustos hieráticos se alteiam,
desatam-se em cipós elásticos, distensos
_ num delírio de sol, como se acaso,
nos seus raios de luz estivessem suspensos!
Aqui... a luz é a morte!
O sol é o inimigo rude, inflexível.
E a caatinga o combate, evitando-o, iludindo-o,
na luta secular, irreprimível.
E evitando-o, assim, numa batalha surda,
pressente-se, na fuga à insolação,
a inumação da flora moribunda,
enterrando os seus caules pelo chão!

E nesta reação comovedora,
quando aos sertões se ajusta o cautério das secas,
abdica o fastígio das montanhas
despe-se das florestas empolgantes
e entra-se no deserto bárbaro e exsicado!
- Renato Castelo Branco


O instante
É um instante
esta sensação
de ter sido sempre,
de ser sempre.
Renato Castelo Branco - foto: (...)

Esta sensação
de ser poeira e cosmos,
finito e infinito,
segundo e eternidade.

É um instante
esta sensação
de momento já vivido,
de poesia já escrita,
de palavra enunciada,

De ser Verbo e plasma,
de além,
de ressurreição.

É um instante de glória,
- Renato Castelo Branco

Os sertões
Principiam os Sertões.

Nas planuras extensas das chapadas,
como um tumor que brota das entranhas,
raros morros se aprumam desgarrados,
exumando a ossatura da montanhas.

A paragem é sinistra e desolada.
No horizonte monótono se esbate
o pardo da caatinga requeimada.
Arbúsculos raquíticos se erguem
_ no desmantelo dos cerros desnudos _
enredados de esgalhos, de onde irrompem,
solitários, cereus rígidos, mudos.

Nas depressões entre as colinas nuas,
como espectros de árvores sinistras,
crescem mandacarus tristes, despidos,
demarcando no chão poento e pardo,
leitos de ribeirões extintos, ressequidos.

E há em tudo o sinal das convulsões extremas, 
do regime brutal dos climas excessivos:
o enterroado do chão, os ermos taboleiros,
a flora embaralhada em esgalhos convulsivos.

Resquícios de velhíssimas chapadas,
pelas abas dos cerros tumultuam 
lastros de seixos, lajes fraturadas.

No incêndio brutal dos dias
causticantes.
ferida pelo sol, a terra esbraseada
absorve-lhe os raios ofuscantes.
e multiplica-os
e reflete-os,
e refrata-os,
pelo topo dos cerros incendidos,
pelo barranco em fogo das encostas,
pelos lajedos superaquecidos.

A atmosfera vibra junto ao chão 
num ondular de bocas de fornalha.
E o dia, incomparável no fulgor,
fulmina a natureza entorpecida,
em cujo seio abate-se num espasmo
a galhada da flora sucumbida!
- Renato Castelo Branco

Retorno
Um dia voltarei a ser terra
e de meu seio brotarão
flores agrestes.

Um dia voltarei a ser húmus
e nutrirei velhas árvores
de rubros frutos.

Um dia voltarei a ser pó
e água
e seiva.
E viverei em rochas,
raízes vegetais,
vagas do oceano.

Um dia eu serei
o que já fui.
-Renato Castelo Branco

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Fontes de pesquisa
:: Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM)
:: Prêmio Renato Castelo Branco (Responsabilidade socioambiental na propaganda)
:: Portal EntreTextos
:: BORGES, O Fazer-se do escritor: Renato Castelo Branco e sua inserção no campo literário brasileiro (1928-1938). XXVII Simpósio Nacional de História, ANPUH, Natal/RN, 22 a 26 de julho de 2013. Disponível no link. (acessado em 22.04.2014).



CENTENÁRIO DE LUPICÍNIO RODRIGUES
Lupicínio Rodrigues, foto: (...)
Lupicínio Rodrigues (Porto Alegre, 16 de setembro de 1914 — Porto Alegre, 27 de agosto de 1974) foi um compositor brasileiro. Lupicínio, nasceu no bairro portoalegrense da Ilhota, na Travessa Batista, nº 97. Primeiro filho homem do casal Francisco Rodrigues e Dona Abigail, que tiveram ao todo 18 filhos. O pai, um funcionário da Escola de Comércio, atualmente Faculdade de Economia, batizou o filho com o nome de um herói da Grande Guerra: Lupicínio. Apesar de pobre, passou a infância sem grandes privações. O pai queria que ele se tornasse um doutor e, quando o menino fez cinco anos, resolveu levá-lo à escola para aprender a ler. Depois de pouco tempo frequentando a escolinha, a professora aconselhou Seu Francisco a trazê-lo só quando tivesse sete anos: "...Até agora não quis saber de prestar atenção à aula. Só quer saber de brigar na classe e cantarolar...". O pai acabou compreendendo que o menino ainda era muito pequeno para ser forçado a estudar. O pequeno Lupi, como era chamado, passou a "freqüentar" o campinho de várzea para jogar bola com os outros "guris". Foi daí que veio a paixão pelo futebol que o fez tornar-se um fervoroso torcedor do Grêmio, clube portoalegrense para o qual, anos depois, acabou compondo o hino oficial. Aos sete anos, finalmente, foi matriculado no curso primário do Colégio São Sebastião, de Irmãos Maristas, que ficava na Rua do Arvoredo, hoje Fernando Machado. De sua primeira escola, guardou a lembrança carinhosa dos professores de música, Irmão Stanislau e Irmão Alfredo. Como sua família era pobre, mesmo estudando, necessitou aprender um ofício. Quando estava com 12 anos, o pai conseguiu colocá-lo como aprendiz nas oficinas da Companhia Carris Portoalegrense, que administrava os bondes e, posteriormente, na firma Micheletto. Já nessa época, compunha música para os blocos carnavalescos de seu bairro. Quando adolescente, passou a frequentar o bar de Seu Belarmino, onde ficava com os amigos bebendo e cantando até altas horas. O pai, preocupado com o "talento" boêmio do filho, resolveu apresentá-lo como "voluntário" ao exército.
Em 1931, passou a ser o soldado 417 do 7º Batalhão de Caçadores de Porto Alegre. No quartel, foi cantor de um conjunto musical de soldados e continuava compondo para os blocos carnavalescos. Chegou a vencer um concurso com uma marchinha chamada "Carnaval", feita para o Cordão Carnavalesco Prediletos. Dois anos depois, era promovido a cabo e transferido para a cidade de Santa Maria. Quando deu baixa no exército, em 1935, Seu Chico conseguiu-lhe um emprego de bedel na Faculdade de Direito. Apesar de ter tido uma grande paixão na juventude, a jovem Iná, não chegou a se casar, pois a moça não aceitava sua vida boêmia. Romperam o noivado com grande mágoa um do outro. O próprio compositor admitiria que esse fracasso amoroso na juventude teria sido fonte de inspiração de muitos sambas seus.
Lupicínio Rodrigues, foto: (...)
Em 1939, depois de rompido o noivado com Iná, decidiu passar uma temporada no Rio de Janeiro. Passou a frequentar a boêmia da Lapa carioca, convivendo com artistas e com a malandragem de então. Entre os companheiros de noitadas no legendário Café Nice estavam Kid Pepe, Germano Augusto, Wilson Batista, Ataulfo Alves, entre outros. Foi naquele reduto boêmio que ficou conhecendo Francisco Alves, que se tornou um de seus principais intérpretes.
Em 1947, aposentou-se da Faculdade de Direito de Porto Alegre por motivo de doença. Nessa época, resolveu abrir uma churrascaria, a Jardim da Saudade ou Galpão do Lupi, a primeira de uma série de restaurantes e bares que iria abrir nos anos seguintes.
Casou-se somente em 1949, com Cerenita Quevedo Azevedo, que conheceu ainda criança, e não via há mais de 15 anos. Com ela teve um filho, Lupicínio Rodrigues Filho. Na verdade, já havia sido casado com uma moça chamada Juraci, que no leito de morte lhe pediu que se casasse para legalizar a situação da filha que tiveram, Tereza. Cerenita acabou adotando a menina, que mais tarde daria cinco netos ao casal. Anos depois comprou uma chácara no bairro Cavalhada, onde passou seus últimos anos de vida com a família. Foi fundador e representante da Sbacem no Rio Grande do Sul, por 28 anos. Faleceu em Porto Alegre, a 27 de agosto de 1974, cercado pela admiração geral.
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CENTENÁRIO DE JAMIL ALMANSUR HADDAD
Jamil Almansur Haddad
"Por ser muito escuro,
Gravarei no muro
Uma claridade:
Sol e Liberdade!"
- Jamil Almansur Haddad, em "Romanceiro Cubano".

Jamil Almansur Haddad (São Paulo, em 13 de outubro de 1914 — São Paulo, 4 de maio de 1988) foi um crítico, ensaísta, poeta, historiador, teatrólogo, antologista e tradutor brasileiro. 
Diploma-se em 1938 pela faculdade de Medicina. De origem árabe, convertido ao islamismo, lembro-me de sua singular figura nos corredores da velha Santa Casa, usando grossas lentes e óculos de aro branco. Nasceu poeta, publicando seus primeiros versos em O Bisturi. Trabalhou com o prof. Raul Briquet, na Maternidade da rua Antonio Carlos e no 6º ano frequentou o Serviço de Otorrinolaringologia.
Em 1935 publicou Alkamar, a Minha Amante: Orações Negras mereceu o prêmio da Academia Brasileira de Letras, para poesia, em 1937. Com Oração ao Médico Jovem concorre para orador da sua turma. Trata-se de uma oração antológica, inspirada por um grande coração, demonstrando todo seu talento, e superior à própria oração de Maimônides (1135-1204), médico e filósofo cordovês que viveu sob o domínio árabe, uma das mais destacadas figuras do período de ouro espanhol. "Enche de sonho, a tua medicina", dizia Jamil. "Enche pensando que o caso médico, muito antes de um caso médico, é um caso humano, uma tragédia humana". "Eu sei que nos meus caminhos verei os tormentos violentos, os desesperados sofrimentos, o martírio que grita e o martírio que é mudo. Para olhar tanta dor terrena, faze minha alma serena. faze com que, ao sofredor se estenda a minha mão: filho da mesma lama e do mesmo pecado, o homem, seja qual for, é sempre um meu irmão! Na caridade e no amor, plasma-me à tua imagem, meu Senhor!" E assim continua Jamil essa portentosa oração, tão expressiva e bela. No Museus Histórico da Faculdade de Medicina, ela lá se encontra, completa, eterna fonte de inspiração à conduta dos médicos de todos os tempos.
Suas vitórias não mais terminaram. Carlos Burlamaqui Kople, em Os Caminhos Poéticos de Jamil Almansur Haddad (1943), analisou-lhe a obra, a sensibilidade, as características do artista, os caminhos por ele percorridos, através de um ensaio completo. Foi ele um cantor do infortúnio, da dor e das misérias humanas. Duílio Crispim Farina refere que a criança órfã e a mãe desventurada constituíram sempre o centro eletivo de onde emanou toda a sua inspiração poética. Enorme é o sofrimento que encontrou em cada retalho da vida. Aviso aos Navegantes (1980) é sua última obra, poema épico, narrativo. Acontecimentos sociais e políticos que vêm movimentando a história do mundo refletem-se nesse belo livro, dividido em suratas, com o modelo do Alcorão. Publicado originalmente em 1977, em Paris, o livro foi recebido de forma entusiástica pela crítica francesa, não só pelo seu caráter revolucionário, mas pela beleza da linguagem, insuflada por um sopro épico. Traduziu poesias de Baudelaire, Verlaine, Carducci, Petrarca e muitos outros. Sua obra poética é imensa e variada. Os diplomados pela Casa de Arnaldo, irmãos espirituais de Jamil Almansur Haddad, ficarão sempre a ouvir a grandeza de seus belos versos e a perenidade de sua voz. Nas enfermarias da velha Santa Casa e nos anfiteatros de anatomia é que este poeta maior recebeu as principais influências que marcaram definitivamente toda sua privilegiada inteligência.
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Leia e conheça mais sobre Jamil Almansur Haddad neste site clicando AQUI!


CENTENÁRIO DE ANTÓNIO DACOSTA
António Dacosta (Angra do Heroísmo, 3 de Novembro de 1914 – Paris, 2 de Dezembro de 1990) foi um poeta, critico de arte e pintor português.
António Dacosta - foto: divulgação
A sua obra pictórica é constituída por duas fases distintas. Entre 1939 e 1948 trabalha essencialmente dentro de um idioma surrealista, afirmando-se como uma figura de referência do movimento em Portugal. Essa fase encerra-se com pinturas realizadas em Paris – onde fixa residência a partir de 1947 –, em que se aproxima da abstração. Segue-se um hiato de trinta anos em que interrompe quase por completo a prática artística, dedicando-se à crítica de arte.
Depois de completar o curso de pintura da ESBAL, apresentou-se ao meio artístico português em 1940, em conjunto com António Pedro e Pamela Boden, numa pequena exposição em Lisboa, onde já revelava a forte tendência surrealizante da sua primeira fase, numa opção estética claramente oposta ao nacionalismo comemorativo da Exposição do Mundo Português. António Dacosta introduzia, então, na pintura portuguesa, a conciliação possível entre um onirismo de raiz surrealista e uma particular interpretação dos mitos insulares da sua origem açoriana, traduzida em obras como Diálogo (1939), Antítese da calma (1940), Serenata Açoriana (1940) ou A Festa (1942). Os valores da incomunicabilidade e do absurdo imagético entre estranhos seres resultavam na extraordinária reordenação poética, em surpreendentes registos figurativos, como em Amor jacente (1941) ou no enigmático Episódio Com um Cão (1941), onde a explosão insólita do imaginário atinge uma sólida atmosfera surrealista. 
Serenata Açoriana, Antonio Dacosta (1940)
O pintor, que em 1947 partiria para Paris, superara em qualidade formal e ousadia "convulsiva" as poucas incursões surrealistas realizadas entre nós tornando-se, na segunda metade dos anos 40, uma referência essencial para os jovens artistas do Grupo Surrealista de Lisboa. Já instalado em Paris, assumindo funções de crítico de arte e correspondente de jornais como O Estado de São Paulo ou os portugueses Acção e Diário Popular, o artista realizaria, entre 1947 e 1949, altura em que abandona toda a actividade artística, uma pintura de experiência abstracta que, para além de não esquecer o valor do acaso herdado da tradição surrealista, mantém com esta uma estreita ligação ao nível da significação dos títulos, como em Cuidado com os Filhos (1948). Após um interregno de mais de 25 anos, Dacosta volta a pintar em 1975, abrindo a sua obra a um universo lírico de matriz matissiana, moldado por suaves valores de composição cromática que assumem uma intensa expressão poética, marcando-a definitivamente até ao final da sua vida. Nos últimos anos, sobretudo a partir de 1980, a sua prática pictórica procura assumir uma condição mais próxima do seu trabalho poético. Este seria publicado em 1993, a título póstumo, sob o título A Cal dos Muros.


Cena Aberta, Antonio Dacosta (1940)


Ó minha terra de nevoeiros míticos
De imerecidas serras frescas
O sol que aquece os teus dias não é nulo
Nem os epistémicos deuses que te espreitam
Do alto sobre as tuas sete colinas
Ávidas estátuas tristes de serem velhas sombras
Antigas e só oníricas de vez em quando
Deixai pois ó pretas gravatas públicas da verdade
Deixai o sonho ser tão real como são
As pedras os muros as casas as amplas cidades
A morna brisa que te aquece as noites
Há-de amanhã soprar outra e outra vez
E tudo o que no redondo mundo é vivo
Será vida como agora a vejo eternamente a mesma.
- António Dacosta, em " cal dos muros". Editora: Assírio & Alvim, 1994.


O usurario,  António Dacosta (1940)

No jardim de meu pai
Agora posso dizer o quanto me doíam
a dureza do teu silêncio e as
veredas por onde te sumias
no teu exílio, ilha, o olhar
presos na última réstea de luz que no
mar se afoga.
A voz antiga que se impunha não
falar da tua ausência
enchia-a e distraído
de mim apenas via nela as secas flores
murchas da memória.
Meu ignorado
mestre de enigmas os que percorriam o teu
sorriso breve
só por ti eram sabidos
ocultos na curva doce dos dias
que medias a olhar o teu
próprio fim.
Não nos podias tu ensinar a mim

nem eu aprendê-los de ti podia.
- António Dacosta, em " cal dos muros". Editora: Assírio & Alvim, 1994.
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Fontes para pesquisa: 
wikipedia 
** Instituto Camões 
*** Ensina RTP - António Dacosta (1914-1990)



CENTENÁRIO DE LUÍS DOURDIL
Luís Dourdil
"Nunca fui um paisagista. Parti sempre da forma real, mas só me interessei de facto pela figura humana. parece que apenas nela encontro a beleza e a tragédia ou as partes articuláveis de uma nova ordem, um dinamismo interno - a pintura antes de tudo."
- Luís Dourdil

Luís César Pena Dourdil Dinis, conhecido como Luís Dourdil (Coimbra, 8 de Novembro de 1914 - e faleceu em 1989, em Lisboa) foi um pintor, artista gráfico, desenhador e muralista autodidacta português.
Foi realizando, a par do seu emprego como artista gráfico, a sua obra aproveitando o máximo das concepções figurativa e abstracta.
Figuração/abstracção e desenho/pintura foram os binómios em que se construiu e desenvolveu a obra deste artista.
O seu quadro Peixeira Sentada (1960) é uma das suas obras mais conhecidas, assim como as pinturas murais do Café Império (1955).
Varinas, Luís Dourdil
Durante os anos 1940 e 1950, a temática das suas obras foram as figuras populares, em composições claramente inspiradas na pintura cubista de planos transparentes de Jacques Villon. Aliás, em 1963, Luís Dourdil realizou uma pintura decorativa homenageando o pintor (Operação cirúrgica). Esta homenagem serviu também de despedida e Dourdil passou a praticar um desenho de linhas mais sensíveis revelando, em desenhos ou pinturas, valores de harmonia luminosa, tornando-se mais íntima a relação entre a concepção e a execução.
Luís Dourdil, herdeiro das correntes cuboexpressionistas, adaptou-as à sua obra aproveitando as lições de Villon no que respeita à arquitectura do espaço, na atenção às verticais, nos planos frontais onde se insere a figura humana mas conferindo-lhe uma sensibilidade que resulta num jogo subtil de transparências definidor de espaços, servindo, simultaneamente, uma pessoal procura de luminosidades.

"Preciso de parar constantemente de pintar para poder proporcionar e receber as sugestões que o quadro me vai dando à medida que nele avanço"
- Luís Dourdil

Exposições
Luis Dourdil [Coleção Diário de Noticias]
:: 3º, 4º e 6º Salões de Arte Moderna, SNBA (respectivamente em 1960, 1961 e 1963);
:: Salão de Desenho e Gravura, SNBA, em 1964 e 65;
:: "Pintores Figurativos em 5 Colecções", SNBA, decorrente do inventário de colecções particulares de pintura portuguesa da Fundação Calouste Gulbenkian (1969);
:: "Lisboa na Obra dos Artistas Contemporâneos", Câmara Municipal de Lisboa, 1971.
:: "Exposição 73", SNBA, 1975;
:: "Expo-AICA 74", SNBA, 1975;
:: "Figuração-Hoje?", SNBA, 1975;
:: "Mitologias locais", SNBA, 1977;
:: "A Gaveta do Artista II", SNBA, 1986;
:: Bienais Internacionais de Arte de Vila Nova de Cerdeira (1979 e 1981);
:: "27º Aniversário da Fundação Gulbenkian", Centro de Arte Moderna (1983);
:: Pintura Portuguesa Galeria Almada Negreiros, Lisboa (1985);
:: 50ºAniversário da Vida Literária de Fernando Namora Casino Estoril (1988);
:: "Arte Portuguesa-Cascais-88".
:: "Arte Moderna Portuguesa", Lund, Suécia (1976);
:: "Arte Portuguesa Contemporânea" em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro (1976);
Miseráveis [desenho a lápis],
 Luis Dourdil (1933)
"Exposição de Pintura e Escultura Contemporâneas", Madrid (1977);
:: Bienal Ibero-Americana de Desenho, Cidade do México (1980).

Da Condição Humana Todos sofremos.
O mesmo ferro oculto
Nos rasga e nos estilhaça a carne exposta
O mesmo sal nos queima os olhos vivos.
Em todos dorme
A humanidade que nos foi imposta.
Onde nos encontramos, divergimos.
É por sermos iguais que nos esquecemos
Que foi do mesmo sangue,
Que foi do mesmo ventre que surgimos.
- Ary dos Santos, in 'Liturgia do Sangue'.
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Saiba mais: Blog oficial do pintor Luis Dourdil 




100 ANOS DE SAUDADES AUGUSTO DOS ANJOS
Augusto dos Anjos
Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos nasceu no Engenho Pau d'Arco, Paraíba, no dia 20 de abril de 1884 e faleceu em Leopoldina/MG, no dia 12 de novembro de 1914 . Aprendeu com seu pai, bacharel, as primeiras letras. Fez o curso secundário no Liceu Paraibano, já sendo dado como doentio e nervoso por testemunhos da época. De uma família de proprietários de engenhos, assiste, nos primeiros anos do século XX, à decadência da antiga estrutura latifundiária, substituída pelas grandes usinas. Em 1903, matricula-se na Faculdade de Direito do Recife, formando-se em 1907. Ali teve contato com o trabalho "A Poesia Científica", do professor Martins Junior. Formado em direito, não advogou; vivia de ensinar português. Casou-se, em 04 de julho de 1910, com Ester Fialho. Nesse ano, em conseqüência de desentendimento com o governador, é afastado do cargo de professor do Liceu Paraibano. Muda-se para o Rio de Janeiro e dedica-se ao magistério. Lecionou geografia na Escola Normal, depois Instituto de Educação, e no Ginásio Nacional, depois Colégio Pedro II, sem conseguir ser efetivado como professor. Em 1911, morre prematuramente seu primeiro filho. Em fins de 1913 mudou-se para Leopoldina MG, onde assumiu a direção do grupo escolar e continuou a dar aulas particulares. Seu único livro, "Eu", foi publicado em 1912. Surgido em momento de transição, pouco antes da virada modernista de 1922, é bem representativo do espírito sincrético que prevalecia na época, parnasianismo por alguns aspectos e simbolista por outros. Praticamente ignorado a princípio, quer pelo público, quer pela crítica, esse livro que canta a degenerescência da carne e os limites do humano só alcançou novas edições graças ao empenho de Órris Soares (1884-1964), amigo e biógrafo do autor.
Cético em relação às possibilidades do amor ("Não sou capaz de amar mulher alguma, / Nem há mulher talvez capaz de amar-me"), Augusto dos Anjos fez da obsessão com o próprio "eu" o centro do seu pensamento. Não raro, o amor se converte em ódio, as coisas despertam nojo e tudo é egoísmo e angústia em seu livro patético ("Ai! Um urubu pousou na minha sorte"). A vida e suas facetas, para o poeta que aspira à morte e à anulação de sua pessoa, reduzem-se a combinações de elementos químicos, forças obscuras, fatalidades de leis físicas e biológicas, decomposições de moléculas. Tal materialismo, longe de aplacar sua angústia, sedimentou-lhe o amargo pessimismo ("Tome, doutor, essa tesoura e corte / Minha singularíssima pessoa"). Ao asco de volúpia e à inapetência para o prazer contrapõe-se porém um veemente desejo de conhecer outros mundos, outras plagas, onde a força dos instintos não cerceie os vôos da alma ("Quero, arrancado das prisões carnais, / Viver na luz dos astros imortais").
A métrica rígida, a cadência musical, as aliterações e rimas preciosas dos versos fundiram-se ao esdrúxulo vocabulário extraído da área científica para fazer do "Eu" - desde 1919 constantemente reeditado como "Eu e outras poesias" - um livro que sobrevive, antes de tudo, pelo rigor da forma. Com o tempo, Augusto dos Anjos tornou-se um dos poetas mais lidos do país, sobrevivendo às mutações da cultura e a seus diversos modismos como um fenômeno incomum de aceitação popular. Vitimado pela pneumonia aos trinta anos de idade, morreu em Leopoldina em 12 de novembro de 1914.
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Saiba mais sobre o poeta Augusto dos Anjos, acessando AQUI




CENTENÁRIO DE IBERÊ CAMARGO
Ibere Camargo, auto-retrato, 1980.
"O drama, trago-o na alma. A minha pintura, sombria, dramática, suja, corresponde à verdade mais profunda que habita no íntimo de uma burguesia que cobre a miséria do dia-a-dia com o colorido das orgias e da alienação do povo. Não faço mortalha colorida." 
- Iberê Camargo

Iberê Bassani de Camargo (Restinga Seca RS, 18 de novembro de 1914 - Porto Alegre RS, 08 de agosto de 1994). Pintor, gravador, desenhista, escritor e professor. Em 1928 estuda pintura com Frederico Lobe e Salvador Parlagreco (1871-1953) na Escola de Artes e Ofícios, em Santa Maria, Rio Grande do Sul. Entre 1936 e 1939, em Porto Alegre, faz o curso técnico de arquitetura do Instituto de Belas Artes de Porto Alegre e estuda pintura com Fahrion (1898-1970). Muda-se para o Rio de Janeiro em 1942 e, com bolsa de estudos concedida pelo governo do Rio Grande do Sul, freqüenta por pouco tempo a Escola Nacional de Belas Artes - Enba. Não satisfeito com a proposta acadêmica, estuda com Guignard (1896-1962) e funda, em 1943, com outros artistas, o Grupo Guignard. Em 1947 recebe o prêmio de viagem ao exterior e vai para a Europa no ano seguinte. Em Roma, estuda com Giorgio de Chirico (1888 - 1978), Carlos Alberto Petrucci, Antônio Achille e Leone Augusto Rosa, e em Paris, com André Lhote (1885 - 1962). Volta ao Brasil em 1950 e, em 1952, torna-se membro da Comissão Nacional de Artes Plásticas. Funda, em 1953, o curso de gravura do Instituto Municipal de Belas Artes do Rio de Janeiro, hoje Escola de Artes Visuais do Parque Lage - EAV/Parque Lage. Em 1954, participa com Djanira (1914-1979) e Milton Dacosta (1915-1988), da organização do Salão Preto e Branco e, no ano seguinte, do Salão Miniatura, ambos realizados em protesto às altas taxas de importação de material artístico. Promove curso livre de pintura no Theatro São Pedro, em Porto Alegre, em duas temporadas entre 1960 e 1965. Em 1966 executa painel de 49 metros quadrados oferecido pelo Brasil à Organização Mundial de Saúde - OMS, em Genebra. A partir de 1970, leciona na Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS. Em 1980 Iberê Camargo mata a tiros um homem que o agride na rua. É absolvido sob o argumento de legítima defesa, mas o episódio marca profundamente sua vida e sua obra. Em 1986, recebe o título de doutor honoris causa da Universidade Federal de Santa Maria - UFSM. Entre suas publicações, constam o artigo Tratado sobre Gravura em Metal, 1964, o livro técnico A Gravura, 1992 e o livro de contos No Andar do Tempo: 9 contos e um esboço autobiográfico, 1988.
Comentário Crítico
Iberê Camargo sai da casa dos pais em 1922, para estudar. Cinco anos depois, inicia sua educação artística na Escola de Artes e Ofícios de Santa Maria, Rio Grande do Sul. Tem aulas de pintura com Frederico Lobe e Salvador Parlagreco (1871-1953). O ensino é acadêmico e consiste na cópia de reproduções retiradas de revistas. Em 1929, Iberê se desentende com o professor de letras, interrompe o aprendizado e volta a morar com a família. Aos 18 anos, emprega-se como aprendiz no Batalhão Ferroviário. Passa para o posto de desenhista técnico, aprende geometria e perspectiva. Permanece no cargo até 1936, quando retoma os estudos em Porto Alegre e ingressa no curso técnico de arquitetura do Instituto de Belas Artes, com orientação do professor Fahrion (1898-1970).
A partir de 1940, o artista passa a dedicar-se às artes com mais afinco, desenha personagens da rua e aumenta progressivamente seu interesse pela pintura. Realiza telas em que retrata sua esposa e faz paisagens, que pinta com grande espontaneidade. Em quadros como Dentro do Mato (1942), ele diz procurar o "instante fugidio".1 Pinta um panorama natural, traçando as figuras com gestos fortes sobre a massa espessa de tinta. Esse procedimento não encontra lugar no ambiente artístico acadêmico do Rio Grande do Sul da época. Por isso, o pintor procura ampliar seus horizontes: ele pleiteia e consegue bolsa do governo gaúcho para estudar no Rio de Janeiro.
Iberê Camargo, foto: (...)
Iberê Camargo chega à capital federal no fim de 1942. Logo conhece Candido Portinari (1903-1962), Djanira (1914-1979), Milton Dacosta (1915-1988) e Maria Leontina (1917-1984). Alguns meses depois, ingressa na Escola Nacional de Belas Artes - Enba. Não se satisfaz com o academicismo e abandona o curso. Segue indicação de Portinari e passa a assistir às aulas de desenho de Guignard (1896-1962). As faturas tornam-se mais ralas e de gestualidade menos pronunciada. Em Auto-Retrato (ca.1943), o pintor tenta reconstituir o aspecto diáfano da pintura de Guignard.
No decorrer dos anos 1940, faz várias paisagens urbanas, com cenas das ruas cariocas. Com Lapa (1947), ganha o prêmio de viagem ao exterior do Salão Nacional de Belas Artes de 1947. No ano seguinte, desembarca na Itália, e tem aulas de pintura com Giorgio de Chirico (1888-1978) e de gravura com Petrucci em Roma. Em Paris, torna-se aluno de André Lhote (1885 - 1962) em 1949. Ele aproveita a temporada para conhecer o acervo dos museus. Passa pela Inglaterra, Espanha, Holanda e Portugal, estuda com afinco Michelangelo Buonarroti (1475-1564), Ticiano (ca.1488-1576), Jan Vermeer (1622-ca.1670), Pablo Picasso (1881-1973), El Greco (1541-1614) e Jacopo Tintoretto (1519-1594).
Volta ao Brasil em 1950. No ano seguinte dá aulas de desenho em seu ateliê e inicia campanha contra a taxação do material de pintura importado. Participa da organização do Salão Preto e Branco, em 1951, que pretende alertar para o risco de os pintores brasileiros ficarem sem cores. Iberê insiste nessa militância até o fim de sua vida. Em 1953, é contratado como professor do Instituto Municipal de Belas Artes do Rio de Janeiro, onde inaugura a cadeira de gravura, iniciando importante trajetória nessa técnica. Entre seus alunos encontram-se artistas como Regina Silveira (1939), Eduardo Sued (1925), Carlos Vergara (1941) e Carlos Zilio (1944).
A tendência ao escurecimento de sua paleta e a dedicação a temas ligados ao ambiente de estúdio se acentuam a partir de 1958. Uma hérnia de disco o obriga a pintar somente no ateliê. Seu trabalho deixa de procurar a rítmica das cores nas paisagens e passa a se interessar majoritariamente pela disposição dos objetos em naturezas-mortas. Nesses quadros, predominam tons escuros, azulados e violetas. Progressivamente, um pequeno objeto, utilizado por Iberê como brinquedo em sua infância, toma conta das telas: o carretel. A pintura dos carretéis, a princípio, compõe uma série de naturezas-mortas. O artista distribui os objetos na mesa, representando-os de forma figurativa. Com o tempo, aqueles corpos roliços perdem sua função representativa e se tornam formas espessas de tinta. Será o início do trabalho abstrato de Iberê Camargo. Essa produção engrossa ainda mais a massa de tinta e incorpora mais cores. Um aspecto mais gestual dá origem aos trabalhos feitos a partir dos anos 1960, bastante próximos da abstração informal, que se tornam conhecidos como Núcleos, Estruturas e Desdobramentos.
No começo dos anos 1970, aparecem signos e figuras reconhecíveis pontuando as pinceladas grossas de cores indefinidas de sua pintura. De certo modo, esta dinâmica prenuncia a volta à figuração do artista nos anos 1980. O ano de 1980 é particularmente dramático para o pintor, que é preso por ter matado um homem. Ao ser absolvido, em 1982, ele volta a viver em Porto Alegre. A pintura que começa a fazer depois ganha tom dramático. A princípio, insere figuras humanas que convivem, em grandes telas, com signos mais corriqueiros de sua obra. Ele se retrata em meio a carretéis e cubos.
Tudo te é falso e inútil, Iberê Camargo - 1992
[Coleção Maria Coussirat Camargo]
Paulatinamente, a figura humana torna-se o centro da cena das pinturas de Iberê Camargo. A partir da segunda metade da década de 1980, pinta personagens solitários, sombrios e disformes. A ação das telas ocorre em um fundo indefinido, feito com tinta grossa e pintado com grande maestria. Surgem aí as chamadas séries dos Ciclistas, das Idiotas e um de seus últimos conjuntos de obras intitulado Tudo te é falso e inútil, de 1992. O crítico de arte Ronaldo Brito diz que "as últimas telas de Iberê Camargo assustam e encantam, ao mesmo tempo. Assustam pela sobriedade terrível com que põem em evidência o drama do sujeito moderno, aparentemente no estágio final de dissolução; encantam pela qualidade da matéria pictórica que resistiria, paradoxalmente, a todas as violências e degradações".(2) No dia 8 de agosto de 1994, Iberê Camargo falece em decorrência de câncer no pulmão.

"O pintor é o mágico que imobiliza o tempo." 
- Iberê Camargo
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Notas                                                                                                                          
(1) CAMARGO, Iberê - Um esboço autobiográfico. In: ______. Gaveta dos Guardados. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998. p.172.
(2) BRITO, Ronaldo. O eterno inquieto. In: ______. Iberê Camargo. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 1994. p. 17.
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Site Oficial: Fundação IberêCamargo 



CENTENÁRIO DE LINA BO BARDI
Lina Bo Bardi  - foto: (...)
Achillina Bo Bardi (nasce em Roma, Itália, no dia 05 de dezembro 1914 - naturaliza-se brasileira em 1951 - falece em São Paulo SP, em 20 de março de 1992). Arquiteta, designer, cenógrafa, editora, ilustradora. Após estudar desenho no Liceu Artístico, forma-se, em 1940, na Faculdade de Arquitetura da Universidade de Roma. A faculdade, dirigida pelo arquiteto tradicionalista Marcello Piacentini (1881 - 1960), privilegia uma tendência histórico-classicizante, que Lina chama de "nostalgia estilístico-áulica". Em desacordo com essa orientação valorizada pelo fascismo, predominante em Roma, ela se transfere para Milão, onde trabalha com o arquiteto Gió Ponti (1891 - 1979), líder do movimento pela valorização do artesanato italiano e diretor das Trienais de Milão e da revista Domus. Em pouco tempo ela própria passa a dirigir a revista e a atuar politicamente integrando a resistência à ocupação alemã durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), e colaborando com o Partido Comunista Italiano - PCI, então clandestino.(1) Ainda em Milão, funda, ao lado do crítico Bruno Zevi (1918 - 2000), a revista A-Cultura della Vita.
Em 1946, após o fim da guerra, casa-se com o crítico e historiador da arte Pietro Maria Bardi (1900 - 1999), com quem viaja para o Brasil - país no qual o casal decide se fixar, e que Lina chama de "minha pátria de escolha".(2) No ano seguinte, Pietro Maria Bardi é convidado pelo jornalista Assis Chateaubriand (1892 - 1968) a fundar e dirigir o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp, em São Paulo. Lina projeta as instalações do museu, em que se destaca a cadeira dobrável de madeira e couro para o auditório, considerada "a primeira cadeira moderna do Brasil". Em 1948, funda com o arquiteto italiano Giancarlo Palanti (1906) o Studio d'Arte Palma, voltado à produção manufatureira de móveis de madeira compensada e materiais "brasileiros populares", como a chita e o couro. Sua inserção mais efetiva no meio arquitetônico nacional se dá, inicialmente, pela atuação editorial, quando cria, em 1950, a revista Habitat, que dura até 1954. Projeta em 1951 sua própria residência, no bairro do Morumbi, em São Paulo, apelidada de "casa de vidro", e considerada uma obra paradigmática do racionalismo artístico no país. Esse papel de destaque se completa em 1957, quando inicia o projeto para a nova sede do Masp, na avenida Paulista (completado apenas em 1968), que mantém a praça-belvedere aberta no piso térreo, suspendendo o edifício com um arrojado vão de 70 metros.
Lina Bo Bardi  - foto: (...)
Em 1958, transfere-se para Salvador, convidada pelo governador Juracy Magalhães a dirigir o Museu de Arte da Moderna da Bahia - MAM/BA. Na capital baiana, realiza também o projeto de restauro do Solar do Unhão, um conjunto arquitetônico do século XVI tombado na década de 1940 pelo Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional - Sphan, e se relaciona criativamente com uma série de importantes artistas vanguardistas, como o fotógrafo e etnólogo francês Pierre Verger (1902 - 1996) e o cineasta Glauber Rocha (1938 - 1981). De volta a São Paulo após o golpe militar, em 1964, incorpora em seus projetos o legado da temporada nordestina na forma de uma radical "experiência de simplificação" da linguagem. Sua obra a partir daí assume contundentemente o caráter do que qualifica como "arquitetura pobre". São exemplares importantes dessa última fase de sua carreira os suportes museográficos da exposição A Mão do Povo Brasileiro, 1969, feitos de tábuas de pinho de segunda; o edifício do Sesc Pompéia, 1977, adaptação de uma antiga fábrica de tambores; e o Teatro Oficina, 1984, construção que dissolve a rigidez da relação palco-platéia pela criação de um teatro-pista, como um sambódromo.
Comentário crítico
Abrangente e interdisciplinar, a atuação de Lina Bo Bardi extrapola os campos da arquitetura e do urbanismo. Estrangeira, compreende a cultura brasileira pelo olhar antropológico, particularmente atento para a convergência entre vanguarda estética e tradição popular. Deixando para trás o "velho mundo", que abandona junto com os sonhos do período pré-guerra, tem a seguinte impressão do Brasil ao desembarcar no Rio de Janeiro, em 1946: "Deslumbre. Para quem chegava pelo mar, o Ministério da Educação e Saúde avançava como um grande navio branco e azul contra o céu. Primeira mensagem de paz após o dilúvio da Segunda Guerra Mundial. Me senti num país inimaginável, onde tudo era possível".(3)
Casa de Lina Bo Bardi  - foto: (...)
A formação intelectual de Lina combina o racionalismo estético de Le Corbusier (1887 - 1965) com o pensamento marxista de Antonio Gramsci (1891 - 1937), voltado para a reflexão sobre a dimensão "nacional-popular" da cultura. Esses elementos, presentes também de certa forma no neo-realismo cinematográfico, dão à arquiteta os instrumentos para considerar a cultura popular, abundante no Brasil, como matéria-prima de uma contribuição fecunda à modernidade, porque "seca e indigesta". Por outro lado, Lina não deixa de perceber o quanto o artesanato brasileiro é rudimentar e escasso, e portanto incapaz de promover uma passagem orgânica para o design industrial moderno.
"Esse é o impasse claramente percebido por ela entre os anos 1950 e 1960: sendo mais africano do que europeu, o Brasil é um país onde a seiva da cultura popular não se esterilizou, no contexto do pós-guerra. No entanto, o problema da verdadeira industrialização tinha fatalmente que ser enfrentado, e uma importante escolha histórica estava em via de se realizar: ou essa cultura industrial vindoura incorporaria criativamente o substrato popular, produzindo algo de singular e genuíno, ou realizaria uma abertura indiscriminada e rebaixada à vulgarização dos objetos de consumo, à pasteurização kitsch." (4) Constatando, posteriormente, a derrota histórica desse modelo de "formação nacional" idealizado por ela, afirma o seguinte: "O Brasil tinha chegado num 'bívio'. Escolheu a finesse".(5) 
MASP – Museu de Arte Moderna de São Paulo,
Projeto arquitetônio de Lina Bo Bardi
A temporada passada em Salvador, entre 1958 e 1964, é extremamente profícua tanto para Lina quanto para os jovens artistas baianos. Atraída pelo ambiente de renovação cultural da cidade, em que se combinam a "tensão dos estudantes" e o "caráter fortemente popular da cultura do Nordeste", ela integra um grupo de pensadores vanguardistas estrangeiros responsável por fermentar as revoluções artísticas que ocorrem ali: no cinema, com Glauber Rocha (1938 - 1981), e na música popular, com Caetano Veloso (1942) e Gilberto Gil (1942).(6) Para Lina, trata-se de superar a "inércia conservadora do Sul", seu "esnobismo cultural", para encontrar soluções diretas, despidas, próximas à lógica popular. Exemplos felizes dessa "experiência de simplificação" formal e construtiva são a escada de madeira do Solar do Unhão, 1959, em Salvador, que combina uma forma geométrica rigorosa com o sistema de encaixes dos carros de boi, e a "cadeira de beira de estrada", 1967, cujo desenho sintético utiliza apenas três galhos e um tronco. Entram nessa conta seus suportes museográficos para o Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand - Masp, com placas de cristal apoiadas em blocos de concreto, e para as mostras Bahia no Ibirapuera, 1959, e Exposição Nordeste, 1963, cujas bases e vitrines são feitas de caixas de madeira barata, expondo objetos populares na forma de um acúmulo visual. O golpe militar de 1964 interrompe a frágil circunstância política que permite sua atuação na cidade.
De volta a São Paulo, e parecendo reconhecer o obscurecimento de uma via possível de integração entre a tradição popular pré-burguesa e o desenvolvimento industrial, Lina radicaliza o caráter experimental de sua obra, reforçando os laços com a "estética da fome" do cinema novo, e com o sincretismo pop do tropicalismo. Vem daí, também, a admiração devotada ao seu trabalho por parte de alguns arquitetos ligados à revisão crítica do movimento moderno na Europa, como o holandês Aldo Van Eyck (1918 - 1999), destacado integrante do Team X. A rudeza dos acabamentos do edifício do Masp, 1957/1968 (o concreto aparente da estrutura, os painéis-cavalete desglamourizados), expressa a radicalidade dessa nova orientação, que Lina chama de "arquitetura pobre". O que não quer dizer que ela tenha renunciado à exploração da tecnologia industrial em seus projetos. Feito com vigas de concreto protendido, e tendo uma laje inteiramente suspensa por cabos de aço, o edifício do Masp, calculado pelo engenheiro João Carlos de Figueiredo Ferraz, representa por muito tempo o "maior vão livre da América Latina".
Casa de  Lina Bo Bardi
No primeiro número da revista Habitat, 1950, fundada e dirigida por Lina, ela elogia a "moral severa" das obras de Vilanova Artigas (1915 - 1985), observando que cada casa projetada pelo arquiteto "quebra todos os espelhos do salão burguês". No seu projeto para o Sesc Pompéia, 1977, adaptando uma antiga fábrica de tambores, a mesma rudeza está presente no desenho do mobiliário, e no contraste entre a madeira desse mobiliário e o concreto bruto da estrutura dos galpões e das novas paredes cegas. E concreto bruto, por sua vez, é amplamente empregado nas duas torres interligadas por passarelas que definem o conjunto esportivo do Sesc, concebido como uma "cidadela" provocativamente "feia": "é um silo, bunker, container", diz ela.(7)
Na segunda metade dos anos 1980, Lina retorna a Salvador, convidada a conceber um plano de recuperação do centro histórico da cidade. Nessa ocasião, acompanhada de Marcelo Carvalho Ferraz (1955) e Marcelo Suzuki, realiza o projeto da Casa do Benin, no Pelourinho, 1987, e a recuperação das encostas da ladeira da Misericórdia, erguendo contrafortes nitidamente destacados dos muros remanescentes do século XVIII, e utilizando, para as construções novas, painéis leves e pré-moldados de argamassa armada desenvolvidos pelo arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé (1932), em usina local.
A personalidade inquieta e contestadora de Lina não se separa de sua obra. Como define o crítico italiano Bruno Zevi (1918 - 2000): "Lina foi uma herética em vestes aristocráticas, uma esfarrapada elegante, uma subversiva circulando em ambientes luxuosos".(8)
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Notas
(1) "Aqueles que deveriam ter sido anos de sol, de azul e alegria, eu passei de baixo da terra correndo e descendo sob bombas e metralhas". BARDI, Lina Bo. Curriculum literário. In: ______. Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993. p. 11.
(2) "Quando a gente nasce, não escolhe nada, nasce por acaso. Eu não nasci aqui, escolhi esse lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, é minha 'Pátria de Escolha', e eu me sinto cidadã de todas as cidades, desde o Cariri, ao Triângulo Mineiro, às cidades do Interior e as da Fronteira." BARDI, Lina Bo. Curriculum literário. In: ______. Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993. p. 12.
(3) BARDI, Lina Bo. Curriculum literário. In: ______. Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993. p. 12.
(4) WISNIK, Guilherme. Lina Bo Bardi - A interpretação cultural do Brasil 'pós-Brasília'. Disponível em: [www.vitruvius.com.br/drops/drops14_03.asp]. Artigo publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, caderno Ilustrada, 11 jan. 2006.
(5) BARDI, Lina Bo. Um balanço dezesseis anos depois [1980]. In: SUZUKI, Marcelo (org.). Tempos de grossura: o design no impasse. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi : Fundação Vilanova Artigas, 1994. p. 13.
(6) Ver: RISÉRIO, Antonio. Avant-garde na Bahia. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1995. Os outros estrangeiros listados por Risério são os músicos eruditos Hans Joachim Koellreutter (1915 - 2005), Ernst Widmer (1927 - 1990), Walter Smetak (1913 - 1984), e o professor de literatura Agostinho da Silva (1906 - 1994).
(7) BARDI, Lina Bo. Sesc Fábrica da Pompéia. In: ______. Lina Bo Bardi. São Paulo: Instituto Lina Bo e P. M. Bardi, 1993. p. 230.
(8) ZEVI, Bruno. Lina Bo Bardi: un architetto in tragitto ansioso. Caramelo 4 (Lina: Caderno Especial). São Paulo: GFAU, 1992, s/n.
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Fonte: Itaú Cultural/Enciclopédia de Artes Plásticas  
Outras fontes de pesquisa
Site Oficial: Instituto Lina BO e P.M. Bardi



CENTENÁRIO DE ODYLO COSTA, FILHO
Odylo Costa, filho  - jornalista, cronista, novelista e poeta, nasceu em São Luís, MA, em 14 de dezembro de 1914, e faleceu no Rio de Janeiro, RJ, em 19 de agosto de 1979.
Odylo Costa Filho
Filho do casal Odylo Costa Moura Costa e Maria Aurora Alves Costa, transferiu-se ainda criança do Maranhão para o Piauí, onde fez estudos primários e secundários em Teresina, os primeiros no Colégio Sagrado Coração de Jesus e os segundos no Liceu Piauiense. Desenvolveu, assim, dupla afetividade de província, fraternalmente desdobrada entre as duas cidades, e estendida a Campo Maior, no Piauí, onde nasceu sua mulher, D. Maria de Nazareth Pereira da Silva Costa, com quem se casou em 1942, sob a bênção de três poetas: Manuel Bandeira, Ribeiro Couto e Carlos Drummond de Andrade, padrinhos do casamento.
Mas já aos 16 anos, em março de 1930, Maranhão e Piauí ficaram para trás e Odylo Costa, filho, em companhia dos pais, fixou-se no Rio de Janeiro, bacharelando-se em Direito, pela Universidade do Brasil, em dezembro de 1933. Desde os 15 anos, porém, já se revelava no jovem maranhense a vocação de jornalista, que encontrou, aliás, seu primeiro abrigo no semanário Cidade Verde, de Teresina, fundado em 1929. Por isso mesmo, em janeiro de 1931, conduzido por Félix Pacheco, entrou Odylo para a redação do Jornal do Commercio, onde permaneceu até 1943. O jornalismo, entretanto, embora ocupando boa parte de sua atividade intelectual, não o fazia esquecer a literatura e, em 1933, com o livro inédito Graça Aranha e outros ensaios, publicado no ano seguinte, obtinha o Prêmio Ramos Paz da Academia Brasileira de Letras. Em 1936, em colaboração com Henrique Carstens, publica o Livro de poemas de 1935, seguido, nove anos mais tarde, do volume intitulado Distrito da confusão, coletânea de artigos de jornal em que, nas possíveis entrelinhas, fazia a crítica do regime ditatorial instaurado no país em 1937. Mas o jornalismo, apesar desses encontros sempre felizes com a literatura, foi na verdade sua dedicação mais intensa, exercido com notável espírito de renovação e modernidade. Deixando o Jornal do Commercio, Odylo Costa, filho, foi sucessivamente fundador e diretor do semanário Política e Letras (de Virgílio de Melo Franco, de quem foi dedicado colaborador na criação e nas lutas da União Democrática Nacional); redator do Diário de Notícias, diretor de A Noite e da Rádio Nacional, chefe de redação do Jornal do Brasil, de cuja renascença participou decisivamente; diretor da Tribuna da Imprensa; diretor da revista Senhor; secretário do Cruzeiro Internacional; diretor de redação de O Cruzeiro e, novamente, redator do Jornal do Brasil, função que deixou em 1965, ao viajar para Portugal como adido cultural à Embaixada do Brasil. Mas nem sempre, ao longo dessa extraordinária atividade, foi apenas o jornalista de bastidores, o técnico invisível. Em 1952 e 1953, exerceu a crítica literária no Diário de Notícias, onde também criou e manteve a seção “Encontro Matinal”, juntamente com Eneida e Heráclio Salles. Durante prolongado período, publicou uma crônica diária na Tribuna da Imprensa.
Odylo e Nazare Menor
Na vida pública, Odylo Costa, filho, foi Secretário de Imprensa do Presidente Café Filho, diretor da Rádio Nacional e Superintendente das Empresas Incorporadas ao Patrimônio da União.
A partir de 1963, circunstâncias dolorosas levaram-no de volta a uma prática mais constante da poesia, que não abandonara de todo embora fugisse à publicação em letra de fôrma e até mesmo à leitura pelos amigos mais íntimos. E foi o maior deles, Manuel Bandeira, ao preparar a 2a edição da sua Antologia dos poetas brasileiros bissextos contemporâneos, o primeiro a ler alguns desses poemas, sobretudo os inspirados pela morte de um filho ainda adolescente, que tinha seu nome, poemas esses que Bandeira colocava entre “os mais belos da poesia de língua portuguesa”. Animado ainda por Bandeira, Rachel de Queiroz e outros amigos, Odylo Costa, filho, reuniu afinal seus versos em volume publicado em Lisboa em 1967. Ampliado com os poemas da “Arca da Aliança” e abrangendo toda a poesia do autor, saiu o volume Cantiga incompleta em 1971. Mas se a poesia foi constante presença em sua vida, a ficção também participou de sua bibliografia literária desde 1965, quando, aos 50 anos, publicou a novela A faca e o rio, traduzida para o inglês pelo Prof. Lawrence Keates, da Universidade de Leeds, e para o alemão por Curt Meyer-Clason. Com o mesmo título, A faca e o rio foi adaptada para o cinema pelo holandês George Sluizer. À edição portuguesa de A faca e o rio (1966), acrescentou Odylo Costa, filho, o conto “A invenção da ilha da Madeira”, nova e feliz experiência do ficcionista até então oculto pelo poeta, e ainda prolongada no conto História de Seu Tomé meu Pai e minha Mãe Maria, em edição fora do comércio.
Profundamente ligado ao Maranhão (foi eleito para suplente, no Senado Federal, de José Sarney), escreveu a introdução aos desenhos da pintora Renée Levèfre no belo livro: Maranhão: S. Luís e Alcântara (1971).
Capa do livro "biografia de Odylo Costa, filho".
De abril de 1965 a maio de 1967, foi adido cultural à Embaixada do Brasil em Portugal, onde mereceu a honra de ser incluído entre os membros da Academia Internacional de Cultura Portuguesa. De regresso ao Brasil, embora tivesse recusado o convite do Presidente Costa e Silva para exercer o cargo de Diretor da Agência Nacional, Odylo Costa, filho, voltou no entanto ao exercício do jornalismo, primeiro como diretor da revista Realidade, de São Paulo, mais tarde como diretor de redação da Editora Abril, no Rio, e posteriormente como membro do Conselho Editorial.
Quarto ocupante da Cadeira 15, eleito em 20 de novembro de 1969, na sucessão de Guilherme de Almeida e recebido pelo Acadêmico Peregrino Júnior em 24 de julho de 1970.


Poemas escolhidos
Soneto da tarde
Não digo que o sol pare, nem suplico
que teu cabelo não se faça branco.
Nos segredos serenos que fabrico
vive um pouco de mago e saltimbanco.

mas te desejo simples, natural,
e que o dia na tarde amadureça.
Venceste muita noite e temporal.
Confia em que outra vez ainda amanheça.

O teu reino da infância sempre aberto
guarda o campo e os brinquedos infinitos
nas cores puras, sob o céu coberto.

Nos cajueiros, os pássaros... Os gritos
infantis... Mas a ronda neles nasce
e embranquece o cabelo em tua face.
- Odylo Costa Filho, em "Boca da noite", 1979.


O amor calado
Ainda que o canto desça, de atropelo
como abelhas no enxame alucinante
em torno a um tronco, e me penetre pelo
ouvido, em sua música incessante,
juro a mim mesmo: nunca hei de escrevê-lo.
Capa do livro "Poesia Completa
Odylo Costa, filho".

Hei de fechá-lo em mim como diamante
dentro da pedra feia. Hei de escondê-lo
na minha alma cansada e navegante.
E nunca mais proclamarei que te amo.

Antes o negarei como os namoros
secretos de menino encabulado.
Que se cale este verso em que te chamo.

Cessem para jamais risos e choros.
Meu amor mineral é tão calado!
- Odylo Costa, filho - em "Boca da noite", 1979.


A meu filho
Recorro a ti para não separar-me
deste chão de sargaços mas de flores,
onde há bichos que amaste e mais os frutos
que com tuas mãos plantavas e colhias.

Por essas mãos te peço que me ajudes

e que afastes de mim com os dentes alvos
do teu riso contido mas presente
a tentação da morte voluntária.

Não deixes, filho meu, que a dor de amar-te

me tire o gosto do terreno barro
e a coragem dos lúcidos deveres.

Que estas árvores guardam, no céu puro,

entre rastros de estrelas, a lembrança
dos teus humanos olhos deslumbrados.
- Odylo Costa, filho - em "Cantiga incompleta", 1971.

Soneto de Jó
Este grito, que é rio amargo, choro
que não é meu apenas, mas de todos
que o filtro das insônias decantou,
ouve-o, Senhor, que é grito de infelizes.

Perdi-me e Te procuro pela névoa,
no céu em fogo, no calado mar.
A Teus pés volto. Faça-se o que queres.
Tanto me deste que por mais que tires
sempre me resta do que Tu me deste.
Deus necessita do perdão dos homens
e é esse perdão que venho Te trazer.

Com o coração rasgado, mas ao alto,
Senhor, te entrego os filhos que levaste
pelo amor dos meus filhos que ficaram.
- Odylo Costa, filho - em "Cantiga incompleta", 1971.
Capa do livro "A faca e o rio", de
Odylo Costa, filho.


Soneto de Fidelidade
Não receies, amor, que nos divida
um dia a treva de outro mundo, pois
somos um só que não se faz em dois
nem pode a morte o que não pôde a vida.

A dor não foi em nós terra caída
que de repente afoga mas depois
cede à força das águas. Deus dispôs
que ela nos encharcasse indissolvida.

Molhamos nosso pão quotidiano
na vontade de Deus, aceita e clara,
que nos fazia para sempre num.

E de tal forma o próprio ser humano
mudou-se em nós que nada mais separa
o que era dois e hoje é apenas um.
- Odylo Costa, filho - em "Cantiga incompleta", 1971.
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Fonte: Academia Brasileira de Letras 
Outras fontes de pesquisa
Academia Brasileira de Letras - Odylo Costa, filho
** Site Odylo (organizado por Pedro Costa)
*** Releituras
*** Site Antonio Miranda - (Odylo Costa, filho)
Obras na íntegra



EVENTOS
1914 - Início da Primeira Guerra Mundial

20 de Agosto - Fundação oficial da seleção Brasileira de Futebol.

Estreia – cinema
The Property Man (filme mudo) de Charles Chaplin.

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Página atualizada 05.06.2014

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