Jamil Almansur Haddad - a poética e a anatomia

Jamil Almansur Haddad
"Por ser muito escuro,
Gravarei no muro
Uma claridade:
Sol e Liberdade!"
- Jamil Almansur Haddad, em "Romanceiro Cubano".


Jamil Almansur Haddad (São Paulo, em 13 de outubro de 1914 — São Paulo, 4 de maio de 1988) foi um médico, crítico, ensaísta, poeta, historiador, teatrólogo, antologista e tradutor brasileiro. 
Diploma-se em 1938 pela faculdade de Medicina. De origem árabe, convertido ao islamismo, lembro-me de sua singular figura nos corredores da velha Santa Casa, usando grossas lentes e óculos de aro branco. Nasceu poeta, publicando seus primeiros versos em O Bisturi. Trabalhou com o prof. Raul Briquet, na Maternidade da rua Antonio Carlos e no 6º ano frequentou o Serviço de Otorrinolaringologia.

Em 1935 publicou Alkamar, a Minha Amante: Orações Negras mereceu o prêmio da Academia Brasileira de Letras, para poesia, em 1937. Com Oração ao Médico Jovem concorre para orador da sua turma. Trata-se de uma oração antológica, inspirada por um grande coração, demonstrando todo seu talento, e superior à própria oração de Maimônides (1135-1204), médico e filósofo cordovês que viveu sob o domínio árabe, uma das mais destacadas figuras do período de ouro espanhol. "Enche de sonho, a tua medicina", dizia Jamil. "Enche pensando que o caso médico, muito antes de um caso médico, é um caso humano, uma tragédia humana""Eu sei que nos meus caminhos verei os tormentos violentos, os desesperados sofrimentos, o martírio que grita e o martírio que é mudo. Para olhar tanta dor terrena, faze minha alma serena. faze com que, ao sofredor se estenda a minha mão: filho da mesma lama e do mesmo pecado, o homem, seja qual for, é sempre um meu irmão! Na caridade e no amor, plasma-me à tua imagem, meu Senhor!" E assim continua Jamil essa portentosa oração, tão expressiva e bela. No Museus Histórico da Faculdade de Medicina, ela lá se encontra, completa, eterna fonte de inspiração à conduta dos médicos de todos os tempos.

Do livro Orações Negras,
Jamil Almansur Haddad
Suas vitórias não mais terminaram. Carlos Burlamaqui Kople, em Os Caminhos Poéticos de Jamil Almansur Haddad (1943), analisou-lhe a obra, a sensibilidade, as características do artista, os caminhos por ele percorridos, através de um ensaio completo. Foi ele um cantor do infortúnio, da dor e das misérias humanas. Duílio Crispim Farina refere que a criança órfã e a mãe desventurada constituíram sempre o centro eletivo de onde emanou toda a sua inspiração poética. Enorme é o sofrimento que encontrou em cada retalho da vida. Aviso aos Navegantes (1980) é sua última obra, poema épico, narrativo. Acontecimentos sociais e políticos que vêm movimentando a história do mundo refletem-se nesse belo livro, dividido em suratas, com o modelo do Alcorão. Publicado originalmente em 1977, em Paris, o livro foi recebido de forma entusiástica pela crítica francesa, não só pelo seu caráter revolucionário, mas pela beleza da linguagem, insuflada por um sopro épico. Traduziu poesias de Baudelaire, Verlaine, Carducci, Petrarca e muitos outros. Sua obra poética é imensa e variada. Os diplomados pela Casa de Arnaldo, irmãos espirituais de Jamil Almansur Haddad, ficarão sempre a ouvir a grandeza de seus belos versos e a perenidade de sua voz. Nas enfermarias da velha Santa Casa e nos anfiteatros de anatomia é que este poeta maior recebeu as principais influências que marcaram definitivamente toda sua privilegiada inteligência.
Eis um dos mais belos poemas de Jamil Almansur Haddad, publicado em A Lua do Remorso (São Paulo, 1951).

Cântico
Nem viver, nem morrer. O melhor é naufragar.

Amor, pensas que é apenas o abajur e o leito.
Mas não. É o céu e é o mar. E o teu corpo,
côncavo de velas, singra pelo mar alto.
O barco tem asas para voar ao céu quando preciso.
Mas não é preciso.

Amada, na dureza das minhas docas ancoraste irremediável.
Teu pescoço é farol.
Brilham mais alto as duas luzes de oitocentas velas.

Flutuante alabastro,
és redonda como uma quilha e alta como um mastro.
E hoje há aviso aos navegantes:
no mar do poeta
haverá um naufrágio em cada hora do dia.

Amada, pensas que apenas é a cópula. Mas não.
Iremos para Taiti, Shangai, Cuba, Vladivostock, Ceilão e para o céu e para o inferno e para a vida e para a morte.
Compraremos apenas o bilhete de ida.
Quem volta de uma viagem para Vladivostock ou para a Morte?

Para Vladivostock, não! navio que eu amo.
Iremos colher as mandrágoras nos crepúsculos de Manilha
e tomar ópio em Hong-Kong, e comer pêssego em Oman e dormir com meretrizes morenas em rendez-vonz de Port Ssaid.

Mostra os teus braços de abismo
e os seios, duas naves fendidas e encalhadas e encendiadas de um fogo
vermelho na ponta,
mostra-me principalmente
o lago, o vasto lago do ventre,
onde há a ilha do umbigo e o princípio tormentoso do sexo
pois não quero viver nem morrer... que o melhor é naufragar...
- Jamil Almansur Haddad, em "Lua do Remorso". São Paulo: Livraria Martins Fontes, 1951.


Capa Alkamar, A Minha Amante,
 Jamil Almansur Haddad
Em 1945, Jamil Almansur Haddad inscreveu-se para o concurso de professor catedrático de literatura brasileira, junto à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras. Juntamente com ele mais cinco candidatos: Antonio Sales Campos, Antonio Candido de Mello e Souza, Manoel Cerqueira Leite, Mário Pereira de Souza Lima e José Oswald de Souza Andrade. A comissão julgadora foi constituída por Jorge Americano, Gabriel José Rezende Filho, Leonel Vaz de Barros, Afonso Arino de Melo Franco e Guilherme de Almeida. Após os resultados finais, foi nomeado para professor catedrático o Prof. Dr. Mário Pereira de Souza Lima. Aos demais concorrentes outorgou-se o título de livre-docência em literatura brasileira. A tese de Jamil Almansur Haddad levava o título de O Romantismo Brasileiro e as Sociedade Secretas do Tempo. É valiosa a obra literária de Jamil A. Haddad: Alkamar, a Minha Amante (São Paulo, Record, 1935); Orações Negras (São Paulo, Record, 1939); Introdução às Poesias de Gonçalves Dias (São Paulo, Cultura, 1942); Cântico dos Cânticos (São Paulo, Cultura, 1944); "Interpretação do Cântico dos Cânticos" (Boletim Bibliográfico, São Paulo, 4:121-124, 1944); Introdução a Tempo, de Guilherme de Almeida (São Paulo, Flama, 1944); Omar Khayyam, Rubaiyat (São Paulo, A Bolsa do Livro, 1944); Orações Roxas. Novas Orações. Orações Vermelhas (São Paulo, Cultura, 1945); História Poética do Brasil (São Paulo, Letras Brasileiras, 1945); tradução de O Cancioneiro de Petrarca (Rio de Janeiro, José Olympio, 1945); O Romantismo Brasileiro e as Sociedades Secretas do Tempo (São Paulo, 1945); "Românticos Esquecidos" (Revista Arquivo Municipal, São Paulo, 109: 35-38, 1946); O Amor no Pensamento Humano (São Paulo, Flama, 1947); Primavera na Flandres (São Paulo, A Bolsa do Livro, 1948); Cântico dos Cânticos (São Paulo, Saraiva, 1950); "Contribuição da Ilustração no Brasil" (I Congresso Brasileiro de Filosofia, Anais, São Paulo, 1950, vol. I, pp. 127-133); A Lua do Remorso (São Paulo, Martins, 1951); Introdução a Bernardo Guimarães (Rio de Janeiro, Martins, 1952); Memórias da Rua do Ouvidor, de Joaquim Manuel de Macedo (São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1952); Odes Anacreônticas (Rio de Janeiro, José Olympio, 1952); Revisão de Castro Alves (São Paulo, Saraiva, 1953, 3 volumes); As Obras-Primas da Poesia Religiosa Brasileira (São Paulo, Martins, 1954); Àlvares de Azevedo, a Maçonaria e a Dança (São Paulo, Conselho Estadual de Cultura, 1960); Avis aux Navigateurs. Le Premier Livre das Sourates. Paris: François Maspero, 1977. Aviso aos Navegantes ou A Bala Adormecida no Bosque. (poesia). Primeiro livro das Suratas. São Paulo: Editora Ciências Humanas, 1980.
___
Fonte: LACAZ, Carlos da Silva; MAZZIERRI, Berta Ricardo de. A faculdade de Medicina e a USP. [Jamil Almansur Haddad, por Carlos da Silva Lacaz - pp. 133-136]. São Paulo: Edusp, 1995.


OBRA
Poesia
:: Alkamar, a minha amante. (poesia). Livraria Editora Record, 1935.
Jamil Almansur Haddad 
:: Orações Negras. (poesia). Livraria Editora Record, 1939. Prêmio da Academia Brasileira de Letras, em 1937.
:: Poesia: Orações roxas, novas orações negras, orações vermelhas. Edições Cultura, 1943.
:: Primavera na flandres(poesia). Editora Bolsa do Livro, 1948.
:: A lua do remorso. (poesia).. [Capa de Oswald de Andrade Filho]. Livraria Martins Fontes, 1951, 133p.
:: Romanceiro cubano(poesia).. [Capa de Luis Ventura]. São Paulo: Editora Brasiliense, 1960, 236p.
:: Aviso aos Navegantes ou A Bala Adormecida no Bosque(poesia). Primeiro livro das Suratas. São Paulo: Editora Ciências Humanas, 1980, 350p. Originalmente publicado na França: Avis aux Navigateurs. Le Premier Livre das Sourates. Paris: François Maspero, 1977.


Crítica literária e outros
:: O romantismo brasileiro e as sociedades secretas de tempo. São Paulo: Indústria Gráfica Siqueira, 1945.
:: Introdução a poesia de Gonçalves Dias. São Paulo: Cultura, 1942.
:: Axiologia e crítica literária. (Sesiones: VII. Estética.). Actas del Primer Congreso Nacional de Filosofía (Mendoza 1949), Universidad Nacional de Cuyo, Buenos Aires 1950, tomo III, págs. 1475-1479. Disponível no link. (acessado em 18.4.2014).
:: Românticos esquecidos. Revista Arquivo Municipal de São Paulo, nº 109, pp. 35-38, 1946.
:: O Amor no Pensamento Humano. Editora Flama, 1947.
:: Contribuição da Ilustração no Brasil. Anais I Congresso Brasileiro de Filosofia. São Paulo, vol. I, pp. 127-133, 1950.
:: Revolução Cubana e Revolução Brasileira. Editora Civilização Brasileira, 1961.
:: O que é islamismo? [Coleção Primeiros passos Nº 41]. Editora Brasiliense, 1981.
:: Interpretações das mil e uma noites. Conferência Proferida na Semana de Estudos Árabes, 1986. Disponível no link. (acessado em 18.4.2014).
:: Roteiro da Poesia Brasileira – Anos 30 [Direção Edia van Steen; seleção e prefácio de Ivan Junqueira]. São Paulo: Global Editora, 2008.


Organização, prefácio, notas e seleção 
:: Tempo,de Guilherme de Almeida. [prefácio de Jamil Almansur Haddad e ilustrações de Quirino], São Paulo: Editora Flama, 1944, 247p.
:: História poética do Brasil: história do Brasil narrada pelos poetas[Seleção Jamil Almansur Haddad]. Editora Letras Brasileiras, 1944, 442p. 
:: Memórias da Rua do Ouvidor, de Joaquim Manuel de Macedo. São Paulo, Companhia Editora Nacional, 1952.
:: Revisão de Castro Alves. (3 volumes - avulso).. [Coleção Cruzeiro do sul, 1-3]., São Paulo: Edição Saraiva, 1953.
:: As obras-primas da poesia religiosa brasileira. São Paulo: Martins, 1954, 395p.
:: Maravilha do conto Árabe. Editora Cultrix, 1954, 280p.
:: Poemas de Amor, de Castro Alves [Organização e prefácio Jamil Almansur Haddad]. Editora Civilização Brasileira, 1957, 172p.
:: Castro Alves: Poesias Completas[Organização de Jamil Almansur Haddad]. Editora Nacional, 1952, 500p.
:: Àlvares de Azevedo, a Maçonaria e a Dança. Conselho Estadual de Cultura e Imprensa Oficial, 1960, 140p.
:: Noite Santa. (Antologia de poemas de Natal).. [Organização Jamil Almansur Haddad].  Coleção Poesia - Volume 1, Editora Autores Reunidos, 1960, 294p.
:: Defesa e Ilustração da Antologia. [Jamil Almansur Haddad e Alfredo Buzaid]. Editora Companhia Nacional, 1961.
:: Novelas Brasileiras. [Seleção Jamil Almansur Haddad]. Editora Cultrix, 1963, 234p.
:: Novelas Orientais[Seleção Jamil Almansur Haddad]. Editora Cultrix, 1963, 254p.
:: Literatura e mistificação. Emp. Jornalística , 1967, 180p.
:: Poemas Escolhidos de Castro Alves. [Organização e prefácio Jamil Almansur Haddad]. Editora Cultrix, 1967, 193p.
:: Poemas de Amor de Fagundes Varela. Editora Civilização Brasileira, 1970, 212p.
:: Poema de Amor de Machado de Assis. Editora Civilização Brasileira, 1970, 267p.
:: Poemas de Amor de Àlvares de AzevedoEditora Civilização Brasileira, 1970.
:: Contos árabes. Editora Ediouro, 1976.


Antologias [participação]
:: Antologia da poesia brasileira moderna, 1922-1947. [Organização e seleção Carlos Burlamaqui Köpke]. São Paulo: Clube de Poesia de São Paulo, 1953, 324p. 


Traduções realizadas por Jamil Almansur Haddad
:: As Líricas, de Safo. Edições Cultura, 1942.
:: As grandes hipóteses da ciência moderna, de Lazerges. Editora Cultura, 1944, 221p.
:: Cancioneiro, de Petrarca. Editora Jose Olympio, 1945.
:: Livro das canções, de Heinrich Heine. [vários tradutores, seleção e notas de Jamil Almansur Haddad]. Livraria Exposição do Livro, (década 1940).
:: Cântico dos cânticos, atribuídas a Salomão. [ilustrações de Oswald de Andrade Filho].
Saraiva, 1950.
:: Odes Anacreônticas*(poesia). Coleção Rubaiyat. Rio de Janeiro: José Olympio, 1952, 126p.
Capa do livro Cântico dos Cânticos,
atribuídas a Salamão
:: O Brasil literário: História da literatura brasileira, de Ferdinand Wolf. (Prefácio e tradução Jamil Almansur Haddad). Brasiliana, 1955. Disponível no link. (acessado em 16.4.2014).
:: Rubaiyat, de Omar Khayyam. São Paulo: A Bolsa do Livro, 1944; Civilização Brasileira, 1956.
:: As flores do mal, de Charles Baudelaire. (coleção Clássicos Garnier). Editora Difusão Européia do Livro (Difel), 1958.
:: Odes e Baladas, de Victor Hugo. Editora das Artes, 1960.
:: Obras completas, de Victor Hugo. [tradução Jamil Almansur Haddad]. São Paulo: Editora das Américas, 1960.
:: Poesias escolhidasde Giosuè Carducci[tradução Jamil Almansur Haddad; introdução Paul Renucci; e ilustrações Michel Cauvet].. (Coelção Prêmios Nobel da Literatura). Rio de Janeiro: Delta, 1962, 234p., il.
:: Verlaine - Poemas [Seleção, tradução, prefácio e notas de Jamil Almansur Haddad]. Editora Difusão Européia do Livro (Difel), 1962, 268p.
:: A arte de amar, de Ovídio. Biblioteca, 1964.
:: Decamerão, de Giovanni Boccaccio.
:: Histórias galantes, Giovanni Boccaccio. (28 contos).. [ Tradução, introdução seleção e notas de Jamil Almansur Haddad]. Editora Cultrix, 1959.
:: Brisas do Libano, de Felipe Lutfalla. Editora Do Autor, 1970, 141p.
(*) - Odes Anacreônticas. Saiba mais Aqui! (acessado em 7.5.2016).


"Enche de sonho, a tua medicina... Enche pensando que o caso médico, muito antes de um caso médico, é um caso humano, uma tragédia humana."
- Jamil Almansur Haddad, em "Oração ao Médico Jovem".



FORTUNA CRÍTICA
BANCO DE DADOS. Ouvindo os "novissimos" - A literatura contemporânea e os problemas que afligem a humanidade. [Com Jamil Almansur Haddad]. Almanaque folha, publicado na Folha da Noite, 06 de julho 1943. Disponível no link. (acessado 18.4.2014).
LAUAND, Luiz Jean. Interpretações das Mil e uma Noites - conferência de Jamil A. Haddad. Revista de Estudos Árabes da Fflch Usp, São Paulo, v. I, n.2, p. 53-63, 1993.
NAMUR, Miriam. Sincretismo cultural e imagens de mulher na literatura arabe-brasileira de Assis Féres e Jamil Almansur Haddad. Disponível no link. (acessado em 18.4.2014). 


POEMAS ESCOLHIDOS

Decimo quarto poema da vida
Parece que, no parque, ha um plátano que sua.
Parece que, no céu, ha uma Nuvem que sangra.

Ha dor no ar... ha dor na terra... ha dor nos subterrâneos!

E as delirantes convulsões violentas
da pirosfera
vão erguendo aos céus as cordilheiras
que são os arrepiados, os sofredores braços da Terra!

Oh, as subterraneas torturas da Terra!

Cada vulcão é uma ferida aberta
por onde a terra verte o sangue incandescente.

Talvez sofresse o mar que, no seu desespero,
ergue ás alturas
os seus apocalípticos braços feitos de água.
- Jamil Almansur, em "Orações Negras". São Paulo: Editora Record, 1939.





Balada
Eram duas, mãe e filha,
Rosalina e Rosmanilha.
A pequena, pobrezinha!
dia a dia mais definha.
É grande, trágica a fome
que Rosmanilha consome.

E a menina à mãe aflita,
cheia de lágrimas, grita:
"— Mãezinha, tem compaixão!
Tenho fome! Eu quero pão!"

E a mãe triste à sua filha:
"— Não te aflijas, Rosmanilha!
A tua dor é sem nome,
mas eu vou saciar-te a fome."

E lá vai a desgraçada,
taciturna pela estrada...
Onde irá buscar o pão
à filha do coração?

Mas uma idéia domina
a sombria Rosalina:

Ela iria até à cidade
e cheia de alacridade,
cercada das infelizes,
corrompidas meretrizes,
Capa da 1ª edição do livro 'Romanceiro Cubano',
 Jamil Mansur Haddad 

Rosalina cantaria,
para os homens dançaria...
E assim obteria o pão
à filha do coração...

E na hora do amanhecer
houve em casa o que comer.

Quando foi da estação fria,
Rosmanilha imploraria,
olhos doridos de pranto:
"— Tenho frio! Eu quero um manto!"

E Rosalina lhe diz:
"— Para cobrir-te, ó infeliz,
esta noite eu dançaria
até ao despontar do dia..."

Nascendo a manhã tranqüila,
Rosalina foi vesti-la
com um gesto dorido e terno.

E quando veio outro inverno,
por um desígnio do céu,
Rosmanilha adoeceu.

A mãe deixa a filha doente
e vai dançar tristemente.

Quando veio a manhã doce,
com o remédio que ela trouxe,
Rosmanilha ficou sã.

Mas numa negra manhã,
quando o outro inverno chegou,

Rosmanilha transmigrou.
Desígnio torvo do céu!
Por que a pequena morreu?
Rosalina o que faria?
Rosalina cantaria?
Dançaria Rosalina
para enterrar a menina?

- Jamil Almansur Haddad, em "Antologia da poesia brasileira moderna, 1922-1947". [Organização e seleção Carlos Burlamaqui Köpke]. Clube de Poesia de São Paulo, 1953.  



TRADUÇÕES REALIZADAS POR JAMIL ALMANSUR HADDAD

Odes atribuídas a Anacreonte (572 a.C. - 485 a.C.)


Exaltação do vinho
Sobre um colchão de tênues mirtos
ou de azulado lótus vago,
quero beber a longos tragos.
Eros, com um laço de papiro,
suspende à espádua o claro manto
e dá-me o vinho por que aspiro.
E como as velozes quadrigas
a vida corre no seu giro;
Fulgure alto o fogo da orgia
porque seremos poeira um dia.
- "Odes anacreônticas". [seleção e tradução Jamil Almansur Haddad]. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1952.



Viver enquanto é tempo
De que me valem os arcanos
do tesouro de Giges, o rei sardo?
Não invejo a fortuna dos tiranos.
Pois basta a Anacreonte
umedecer o rosto de mornos perfumes
e coroar a pensativa fronte
de rosas rubras, acendidas como lumes.

Só o dia de hoje me preocupa... O Amanhã...
Por que pensar assim nesta sombra tão vã?
Bebe e a Baco oferece cada dia
a libação antes que venha a hora sombria
em que a taça estará para sempre vazia.
"Odes anacreônticas". [seleção e tradução Jamil Almansur Haddad]. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1952.



Sobre uma efígie de vênus
Quem gravou a medalha? Quem nesse disco
esculpiu o vagalhão arisco?
Quem sobre estes mares plenos
de nereidas e algas gravou a solaríssima Venus,
fonte de glória e virtude,
princípio de beatitude?
O artífice a representa quase toda desnudada:
as ondas recobrem as doces partes proibidas.
Ela deixa atrás de si um rastro de peixes na água
                                                                  [salgada.

Ela erra por entre o alvo tumulto das crescidas
e Venus é espuma como as outras espumas.
Ela nada e invade solene o redemoinho
marinho.
As águas vêm leves como leves painas, como
                                                        tênues plumas
e beijam-lhe a implacável e gloriosa
carnação de jacinto e de rosa.
Ao bafejo mole da brisa
Kypris desliza
na paz das noites imutáveis e pretas
como se fosse um grande lírio cercadode violetas.
Nos bordos do disco de prata
o artífice retrata
os vagos Amores.
E o corpo da deusa páfia
como um peixe imortal corta a solidão marinha.
"Odes anacreônticas". [seleção e tradução Jamil Almansur Haddad]. Rio de Janeiro: Livraria José Olympio Editora, 1952.




BIBLIOTECA PÚBLICA JAMIL ALMANSUR HADDAD
Histórico da Biblioteca
Biblioteca Jamil Almansur Haddad
Guaianazes, um dos bairros mais populosos da cidade de São Paulo e um dos mais carentes em equipamentos sociais e culturais, ganhou sua biblioteca pública graças às reivindicações da comunidade, representada pela União Feminina de Guaianazes. A inauguração da Biblioteca, em 5 de abril de 1991, foi muito importante para os moradores do bairro, pois proporcionou-lhes acesso a equipamentos e eventos culturais. A Biblioteca Jamil Almansur Haddad recebeu esta denominação em homenagem ao médico e poeta, nascido em São Paulo em 1914. 
Legislação referente à biblioteca: 
Criação: Decreto nº 26.365 de 8 de julho de 1988 
Denominação: Decreto nº 26.635 de 8 de julho de 1988 
Inauguração: 6 de abril de 1991
Patrono
Jamil Almansur Haddad
Jamil Almansur Haddad nasceu em 13 de outubro de 1914 em São Paulo. Formou-se em Medicina em 1938 e, paralelamente, foi crítico, ensaísta, historiador, teatrólogo, antologista e tradutor.  Recebeu um prêmio da Associação Paulista de Medicina e posteriormente foi convidado a ocupar o cargo de Diretor do Departamento de Cultura dessa Instituição. Foi presidente da Casa Castro Alves e participou do Congresso Brasileiro de Escritores. Jamil também colaborou em diversos diários de São Paulo. Era de origem libanesa e converteu-se ao Islamismo. Faleceu em 4 de maio de 1988, em São Paulo. É considerado um dos maiores poetas contemporâneos.
Acervo Geral
A biblioteca conta com aproximadamente 22 mil exemplares que é constituído por livros de literatura e informação, revistas, atlas, multimídia, etc. Todo o acervo de livros pode ser encontrado no catálogo online do Sistema Municipal de Bibliotecas. Informe-se sobre outros materiais existentes, pessoalmente ou por telefone. A maior parte das obras pode ser emprestada ao usuário matriculado na biblioteca
Serviço
Rua Andes, 491-A Guaianazes - 08440-180. São Paulo, SP
Tel.: 11 2557-0067 
Horário: 2ª a 6ª feira das 9h às 18h e sábado das 9h às 16h.
Site Oficial: Biblioteca Jamil Almansur Haddad 


REFERÊNCIAS E OUTRAS FONTES DE PESQUISA
Site Antonio Miranda - Jamil Almansur Haddad


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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Jamil Almansur Haddad - a poética e a anatomia. Templo Cultural Delfos, abril 2014. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
____
Página atualizada em 14.8.2016.



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Um comentário:

  1. Esse artigo sobre Jamil Almansur Haddad despertou em mim a lembrança de um poema
    que o poeta paulista Júlio Saraiva (1956-2013) consagrou a essa personalidade talentosa.

    O poeta mais importante da rua
    "Por ser muito escuro,
    Gravarei no muro
    Uma claridade:
    Sol e Liberdade!"
    (Jamil Almansur Haddad, Romanceiro Cubano)
    - ao Jamil, com saudade das nossas conversas, consagro.

    achava que era o poeta mais importante
    da minha rua
    até que um dia por mero acaso
    descobri que o poeta jamil almansur haddad
    morava em frente
    porque me apaixonei pela sobrinha dele
    e bem antes de eu nascer ele já havia traduzido o corão
    e publicado o seu romanceiro cubano
    além de aviso aos navegantes na frança
    que ele próprio traduziu
    senti vergonha da minha poesia
    e não era mais o poeta mais importante da minha rua
    jamil além de poeta era psiquiatra e me entendeu
    ficávamos horas na varanda da casa dele conversando
    ele me contava das suas viagens de verdade
    eu falava das minhas de mentira
    (eu era só um menino)
    um dia minha mãe com jeito me contou que ele morreu dormindo
    sozinho e triste
    eu chorei um pouco a morte do meu amigo
    mas depois me conformei
    : voltei a ser o melhor poeta mais importante da minha rua porque outro não havia
    até que um dia casei e mudei
    trago comigo o romanceiro cubano que ele me deu
    com dedicatória e tudo
    lembro dos seus olhos tristes me ensinando o corão
    justo ele que não cria em deus
    nunca mais fui o poeta importante de rua nenhuma
    praga de poeta pega - é pior que de mãe ou de puta
    escrevo por vício de amar

    (Júlio Saraiva)
    http://www.luso-poemas.net/modules/news/article.php?storyid=122654

    A versão para o português de Aviso aos Navegantes (que fora publicado na França,
    vertido por ele mesmo para o francês, porque, por ser comunista, o Brasil não o quis publicar)
    foi feita por Fernanda, sobrinha de Jamil Almansur Haddad, enquanto o amigo poeta
    Júlio Saraiva reconstruiu os versos no metro certo, em decassílabos e com as rimas,
    como o poeta queria e fez.
    Júlio Saraiva teve um blog muito interessante: o Currupião http://www.currupiao.blogspot.it/.

    Obrigada por ter tido a paciência de me ler, apesar dos erros de português, língua que estou aprendendo como autodidata.
    Meus parabéns pelo excelente site.

    Abraço
    Manuela Colombo, Novara, Itália.



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