Alda Espírito Santo - poeta do meio do mundo

Alda Espírito Santo, poeta, professora e jornalista

© Pesquisa, seleção, edição e organização: Elfi Kürten Fenske
Por gentileza citar conforme consta no final desse trabalho.  
Página original JULHO/2015 | ** Publicação revisada, ampliada e atualizada SETEMBRO/2021



ESBOÇO BIOBIBLIOGRÁFICO DA POETA ALDA ESPÍRITO SANTO


Alda Espírito Santo
, poeta, professora e jornalista,
também conhecida por Alda Graça, nasceu em 30 de abril de 1926, na cidade de São Tomé, capital do Arquipélago de São Tomé e Príncipe. Alda Neves da Graça do Espírito Santo, filha de uma professora primária e de um funcionário dos Correios, ainda nova faz seus primeiros estudos em São Tomé. 

Em meados de 1940, muda-se com a família para o norte de Portugal, anos depois a família muda-se para Lisboa onde Alda inicia seus estudos universitários. Morando em Lisboa com a família, Alda Espírito Santo faz contato com alguns dos importantes escritores e intelectuais que viriam a ser os futuros dirigentes dos movimentos de independência das colônias portuguesas de África, como Amílcar Cabral, Mário Pinto de Andrade, Agostinho Neto, Francisco José Tenreiro, entre outros. A casa de sua família, no número 37 da Rua Actor Vale, funciona como local de encontros do CEA (Centro de Estudos Africanos). Os encontros regulares na casa de Alda promoviam palestras sobre temas diversos como Linguística, História e também sobre a consciência cultural e política acerca do colonialismo, do assimilacionismo e da defesa do colonizado. Na mesma época, Alda Espírito Santo frequenta a CEI (Casa dos Estudantes do Império). Algum tempo depois, abandona o curso universitário por razões políticas e também financeiras. 

Em janeiro de 1953, regressa a São Tomé e Príncipe, onde atua como professora e jornalista. Nesse mesmo ano, escreve o poema “Trindade” que denuncia o massacre ocorrido em 5 de fevereiro em Trindade (São Tomé e Príncipe). Após a independência de São Tomé e Príncipe, ocorrida em 12 de junho de 1975, Alda Espírito Santo ocupa vários cargos sucessivos no governo da jovem nação, entre os quais os de Ministra da Educação e Cultura, Ministra da Informação e Cultura, Presidente da Assembleia Nacional e Secretária Geral da União Nacional de Escritores e Artistas de São Tomé e Príncipe. Nesse ano, em novembro, compõe a letra do Hino Nacional de São Tomé e Príncipe, intitulado “Independência Total”. 

No ano de 1976, publica seu primeiro livro de poemas intitulado "O jogral das Ilhas". Em 1978, publica o livro  de poemas "É nosso o solo sagrado da terra-poesia de protesto e luta", que reúne uma coletânea dos poemas produzidos por Alda entre os anos de 1950- 1970. Em 9 de março de 2010, falece a poeta Alda Espírito Santo, em Luanda (Angola) por complicações na saúde. 
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:: Fonte: Vidas Lusófonas (acessado em 12.7.2015).
* ArteAlda Espírito Santo, por Carlos Santos Marques (jan.2019).



Alda do Espírito Santo, , por Christian Fischgold / Literaturas africanas 1. v. 2 (2018)

OBRA DE ALDA ESPÍRITO SANTO

Em São Tomé
:: O jogral das ilhasAlda Espírito SantoSão Tomé: Edição da Autora, 1976
:: Mataram o rio da minha cidade: estóriasAlda Espírito SantoSão Tomé: Instituto Camões, Centro Cultural Português, 2002.
:: Mataram o rio da minha cidade: estórias
Alda Espírito SantoSão Tomé: UNEAS, 2003.
:: Mensagens do solo sagrado
Alda Espírito SantoSão ToméUNEAS, 2006.
:: Cantos do solo sagradoAlda Espírito SantoSão ToméUNEAS, 2006.
:: O coral das ilhasAlda Espírito SantoSão ToméUNEAS, 2006.
:: Mensagens do canto do OssobóAlda Espírito SantoSão ToméUNEAS, 2006.
:: Tempo universalAlda Espírito SantoSão ToméUNEAS, 2008.
:: O relógio do tempo. Coleção Canto do ossobó n. 47. São ToméUNEAS, 2008.
:: É o nosso solo sagrado da terra. Alda Espírito Santo. 2ª ed., S. Tomé e Príncipe: UNEAS, 2010.

Em Portugal
:: É nosso o solo sagrado da terra: poesia de protesto e lutaColecção Vozes das Ilhas, nº 1. Lisboa: Ulmeiro, 1978.
:: Alda Espírito Santo - escritos. [org. e seleção Carlos Espírito Santo; ed. lit. Fernando Mão de Ferro; concepção gráfica José Campino; capa Helena Lopes]. Lisboa: Edições Colibri, 2012. {antologia de poemas, contos, ensaios, cartas, telegramas}.

Homenagem
:: A poesia e a vida: homenagem a Alda Espírito Santo. [concepção Inocência Mata e Laura Padilha; coord.  Inocência Mata]. Lisboa: Edições Colibri, 2006.

Prefácios
:: Letras primícias: (prosa).. [prefácio Alda Espírito Santo; il. capa Gonçalo Castelo Branco]. São Tomé:  Camões - Centro Cultural Português, 2004. 
:: Ensaio sobre a condição humana. Carlos Graça [prefácio Alda Espírito Santo; il. capa Miguel Ângelo]. S. Tomé: Instituto Camões - Centro Cultural Português; Alliance Française de S. Tomé e Príncipe, 2004.

Documento/ manuscrito
ESPÍRITO SANTO, Alda. S. Tomé - Fevereiro 1953 / Repressão e massacres em S. Tomé. Anotação manuscrita, a lápis, de Mário de Andrade, tanto na cópia, como na fotocópia, enviada por Alda Espírito Santo (Fevereiro de 1953). In: Fundo Arquivo Mário Pinto de Andrade (pasta: 04356.003.001) Casa Comum - Fundação Mário Soares, s. data. Disponível no link. (acessado em 8.9.2021). 

Em Antologias (participação)
:: Caderno de Poesia negra de expressão portuguesa. [organização Francisco Tenreiro e Mário Pinto de Andrade; dir. Manuel Ferreira]. Lisboa: Lisboa: Associação Casa dos Estudantes do Império, 1953. {contém poemas de seis poetas: Alda do Espírito Santo e Francisco José Tenreiro (S. Tomé), Agostinho Neto, António Jacinto e Viriato da Cruz (Angola) e Noémia de Sousa (Moçambique)}.
:: Conferência Internacional dos africanistas ocidentais. vol. 5, Lisboa: Ática, 1956. {consta"Algumas notas sobre o falar dos nativos da ilha de São Tomé" (ensaio) / Alda Espírito Santo, p. 141-148}
:: Antologia Poesia negra de expressão portuguesa. [organização Mário Coelho Pinto de Andrade]. Lisboa: Associação Casa dos Estudantes do Império, 1958.
:: Poètes Noirs d'Expression Portugaise. [Organização e prefácio de Mário Pinto de Andrade, tradução dos poemas por Jean-Paul Rebec]. Paris: Conakry, 1961. {autores presentes: Poemas de Agostinho Neto, Alda do Espírito Santo, Noémia de Sousa, Gabriel Mariano e Kalungano (pseudónimo literário de Marcelino dos Santos)}.
:: Poetas de São Tomé e Príncipe[prefácio Alfredo Margarido]. Lisboa: Casa dos Estudantes do Império, 1963.
:: Presença do arquipélago de S. Tomé e Príncipe na moderna cultura portuguesa. [org. Amândio César]. S. Tomé: Câmara Municipal, 1968. {contém: "Natal na ilha" / Alda do Espírito Santo, p. 196-197}.
:: No reino de Caliban II: antologia panorâmica da poesia africana de expressão portuguesa: Angola, São Tomé e Príncipe. vol. 2., [organização Manuel Ferreira]. Lisboa: Seara Nova, 1976, 489p.; 2ª ed., Lisboa: Plátano Editora, 1988. 
:: Antologia poética de S. Tomé e Príncipe. Arquivo Histórico. [s.l.: Imprensa Nacional, 1978.
:: Textos africanos de expressão portuguesa. Luanda: Ministério da Educação, [s.n.], 1980?
:: A descoberta das descobertas ou as descobertas da descoberta. S. Tomé: Direcção de Cultura, 1984. {consta: "Bôbô Mina" / Alda do Espírito Santo, p. 13-15}
:: Sonha mamana África[organização Cremilda Medina de Araújo]. São Paulo: Epopéia, 1987.
:: O coro dos poetas e prosadores de São Tomé e Príncipe[A Viegas da Graça, et al]. Pontevedra; Braga: Cadernos do povo Revista internacional da lusofonia, 1992.
:: Matrilíngua: antologia de autores de língua portuguesa. [org. e prefácio Salvato Trigo]. vol. II. Viana do Castelo: Câmara Municipal de Viana do Castelo, 1997. 
:: Nacionalismo e regionalismo nas literaturas lusófonas. [coord. Fernando Cristóvão, Maria de Lourdes Ferraz e Alberto Carvalho]. Lisboa: Cosmos, 1997. 
:: Antologia da poesia feminina dos PALOP (países africanos de língua oficial Portuguesa).. [organização e tradução Xosé Lois García]. Bilíngue Português/espanhol. Santiago de Compostela: Edicións Laiovento, 1998. {autoras presentes por país: Angola: Alda Lara, Ermelinda Pereira Xavier, Amélia Veiga, Eugénia Neto, Maria Eugénia Lima, Manuela Abreu, Deolinda Rodrigues, Maria Celestina Fernandes, Paula Tavares, Lisa Castel, Maria Alexandre Dáskalos, Dorina, Isabel Ferreira, Ana de Santana, Maria Amélia Dalomba, Ana Branco | Cabo Verde: Dina Salústio, Arcília Barreto, Ana Júlia, Vera Duarte, Alzira Cabral, Lara Araujo, Paula Martins | Guiné-Bissau: Eunice Borges, Domingas Samy, Mariana Ribeiro, Maria Odete da Costa Semedo |  Moćambique: Glória de Sant'Ana, Clotilde Silva, Noémia de Sousa, Maria Manuela de Sousa Lobo, Josina Machel, Joana Nachaque, Maria Emília Roby, Rosalia Tembe | São Tomé e Príncipe: Maria Manuela Margarido, Alda do Espírito Santo, Ana Maria Deus Lima, Conceição Lima}.
:: Antologia do mar na poesia africana de língua portuguesa do século XX. Moçambique, São Tomé e Príncipe, Guiné-Bissau. [coordenação Carmen Lucia Tindó Ribeiro Secco]. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1999. 
:: Vozes poéticas da lusofonia. [seleção Luís Carlos Patraquim; organização Instituto Camões; Coordenação Alice Brás e Armandina Maia]. Sintra: Edição Câmara Municipal de Sintra, 1999.
:: Negritude africana de língua portuguesa: textos de apoio. [org. Pires Laranjeira]. Braga: Angelus Novus, 2000.
:: Bendenxa: 25 poemas de São Tomé e Príncipe para os 25 anos de Independência. [org. Inocência Mata]. Lisboa: Editorial Caminho, 2000.
:: Versões: contos (d)escritos em português. [organização Germano Almeida; nota introdutória José Prates Raposo; prefácio Miguel Vale de Almeida]. Lisboa: CIC - Associação para a Cooperação, Intercâmbio e Cultura, cop. 2003. 
:: Literaturas insulares: leituras e escritas de Cabo Verde e São Tomé e Príncipe. [org. Margarida Calafate Ribeiro e Silvio Renato Jorge]. Porto: Edições Afrontamento, 2011. {contém: "Descendo o meu bairro" / Alda Espírito Santo, p. 233-234}.
:: Caderno de poesia negra de expressão portuguesa. [org. Mário Pinto de Andrade e Francisco José Tenreiro; introd. Luís Kandjimbo].  Ed. facsimilada de Lisboa (1953). Lisboa: Silver Designers, imp. 2012. 
:: O feminino nas literaturas africanas em língua portuguesa. [organização Fabio Mario da Silva]. Lisboa: CLEPUL, 2014. Disponível no link. (acessado em 8.9.2021).
:: Antologias de Poesia da Casa de Estudantes do Império 1951-1963 - Angola e S. Tomé e Príncipe - volume I. UCCA - União das Cidades Capitais de Língua Portuguesa, 2014. Disponível no link. (acessado em 7.9.2021).
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* ArteAlda Espírito Santo, por Enrikson M. Lwis.


Alda da Graça do Espírito Santo, S.Tomé 2008, foto: Marta Lança

POEMAS DE ALDA ESPÍRITO SANTO


Às mulheres da minha terra

Irmãs, do meu torrão pequeno
Que passais pela estrada do meu país de África
É para vós, irmãs, a minha alma toda inteira
— Há em mim uma lacuna amarga —
Eu queria falar convosco no nosso crioulo cantante
Queria levar até vós, a mensagem das nossas vidas
Na língua maternal, bebida com o leite dos nossos primeiros dias
Mas irmãs, vou buscar um idioma emprestado
Para mostrar-vos a nossa terra
O nosso grande continente,
Duma ponta a outra.
Queria descer convosco às nossas praias
Onde arrastais as gibas da beira-mar
Sentar-me, na esteira das nossas casas,
Contar convosco os dez mil réis
Do caroço vendido
Na loja mais próxima,
Do vinho de palma
Regateado pelos caminhos,
Do andim vendido à pinha,
Às primeiras horas do dia.
Queria também
Conversar com as lavadeiras dos nossos rios
Sobre a roupa de cada dia
Sobre a saúde dos nossos filhos
Roídos pela febre
Calcurreando léguas a caminho da escola.

Irmã, a nossa conversa é longa.
É longa a nossa conversa.
Através destes séculos
De servidão e miséria...
É longa a estrada do nosso penar.
Nossos pés descalços
Estão cansados de tanta labuta...
O dinheiro não chega
Para vencer a nossa fome
Dos nossos filhos
Sem trabalho
Engolindo a banana sem peixe
De muitos dias de penúria.

Não vamos mais fazer “nozados” longos
Nem lançar ao mar
Nas festas de Santos sem nome
A saúde das nossas belas crianças,
A esperança da nossa terra.

Uma conversa longa, irmãs.
Vamos juntar as nossas mãos
Calosas de partir caroço
Sujas de banana
“Fermentada” no “macucu”
Na nossa cozinha
De “vá plegá”...

A nossa terra é linda, amigas
E nós queremos
Que ela seja grande...
Ao longo dos tempos!...
Mas é preciso, Irmãs
Conquistar as Ilhas inteiras
De lés a lés.

Amigas, as nossas mãos juntas,
    As nossas mãos negras
Prendendo os nossos sonhos estéreis
Varrendo com fúria
Com a fúria das nossas “palayês”
    Das nossas feiras,
As coisas más da nossa vida.
    
    Mas é preciso conversar
Ao longo dos caminhos.
    Tu e eu minha irmã.
É preciso entender o nosso falar
    Juntas de mãos dadas,
Vamos fazer a nossa festa...!
    
    A festa descerá
Ao longo de todas as vilas
Agitará as palmeiras mais gigantes
    E terá uma força grande
Pois estaremos juntas irmãs
    Juntas na vida
    Da nossa terra
Mas é preciso conhecer
A razão das nossas secretas angústias.
    Procurar vencer Irmãs
A fúria do rio
    Em dias de tornado
    Saber a razão
Encontrar a razão de tudo...
“Os nossos filhos
O nosso filho morreu
Roído pela febre”...
Muitos pequeninos
     Morrem todos os dias
     Vencidos pela febre
     Vencidos pela vida...
......................................................
Não gritaremos mais
     os nossos cânticos dolorosos
Prenhes de eterna resignação...
Outro canto se elevará Irmãs,
     Por cima das nossas cabeças.
Vamos procurar a razão.
A hora das nossas razões vencidas
     Se avizinha.
A hora da nossa conversa
     Vai ser longa.
     De roda do caroço
     De roda das cartas
     escritas por outrém,
Porque a fome é grande
E nós não sabemos ler.
Não sabemos ler, irmãs
Mas vamos vencer o medo.
Vamos vencer nosso medo
De sermos sós na terra imensa.
Jamais estaremos solitárias...
Porque a nossa força há-de crescer.
E então conquistaremos
      para nós
para os filhos gerados no nosso ventre,
Nas nossas horas de Angústia
      — Para nós —
A nossa bela terra
No dia que se avizinha
Saindo das nossas bocas,
Uma palavra bela
Bela e silenciosa
A palavra mais bela
Ciciada no nosso crioulo,
A palavra sem nome
      Entoada no silêncio
      Num coro gigante
Correndo ao longo das nossas cascatas,
Das cachoeiras mais distantes,
O canto do silêncio, Irmãs
Há-de soar
Quando chegar a Gravana.
E por hoje, Irmãs
Aguardemos a gravana
Ao longo das nossas conversas
No serão das nossas casas
               sem nome.
- Alda Espírito Santo, no livro "É nosso o solo sagrado da terra". Lisboa: Ulmeiro, 1978, p.81-85.

§§

Alda do Espírito Santo, por António Domingues (1952)
Avó Mariana
Avó Mariana, lavadeira
dos brancos lá da Fazenda
chegou um dia de terras distantes
com seu pedaço de pano na cintura 
e ficou.
Ficou a Avó Mariana
lavando, lavando, lá na roça
pitando seu jessu
à porta da sanzala
lembrando a viagem dos seus campos de sisal.

Num dia sinistro
p'ra ilha distante
onde a faina de trabalho
apagou a lembrança
dos bois, nos óbitos
lá no Cubal distante.

Avó Mariana chegou
e sentou-se à porta da sanzala
e pitou seu jessu1
lavando, lavando
numa barreira de silêncio.

Os anos escoaram
lá na terra calcinante.

- "Avó Mariana, Avó Mariana
é a hora de partir.
Vai rever teus campos extensos
de plantações sem fim".

- "Onde é terra di gente?
Velha vem, não volta mais...
Cheguei de muito longe,
anos e mais anos aqui no terreiro...
Velha tonta, já não tem terra
Vou ficar aqui, minino tonto".

Avó Mariana, pitando seu jessu
na soleira do seu beco escuro,
conta Avó Velhinha
teu fado inglório.
Viver, vegetar
à sombra dum terreiro
tu mesmo Avó minha
não contarás a tua história.

Avó Mariana, velhinha minha,
pitando seu jessu
na soleira da senzala
nada dirás do teu destino...
Porque cruzaste mares, avó velhinha,
e te quedaste sozinha

pitando teu jessu?
- Alda Espírito Santo, no livro "É nosso o solo sagrado da terra". Lisboa: Ulmeiro, 1978, p. 51-52.

§§

Construir
Construir sobre a fachada do luar das nossas terras
Um mundo novo onde o amor campeia, unindo os homens
de todas as terras
Por sobre os recalques, os ódios e as incompreensões,
as torturas de todas as eras.
É um longo caminho a percorrer no mundo dos homens.
É difícil sim, percorrer este longo caminho
De longe de toda a África martirizada.
Crucificada todos os dias na alma dos seus filhos.
É difícil sim, recordar o pai esbofeteado
pelo despotismo dum tirano qualquer,
a irmã violada pelo mais forte, os irmãos morrendo nas minas
Enquanto os argentários amontoam o oiro.
É difícil sim percorrer esse longo caminho
Contemplando o cemitério dos mortos lançados ao mar
Na demência dum louco do poder, caminhando impune
para a frente, sem temer a justiça dos homens
É difícil sim, perdoar os carrascos
Esquecer as terras donde nos escorraçaram
As galeras transportando nossas avós para outros continentes
Lançando no mar as cargas humanas
Se os navios negreiros têm lastro em demasia, é difícil sim,
Esquecer todos esses anos de torturas e inundar o mundo
De luz, de paz e de amor, na hora fatal do ajuste de contas.
É difícil sim, mas um erro não justifica outro erro igual.
Na construção de um mundo novo à sombra das nossas
Terras maravilhosas, juramos não sofrer uma afronta igual
Mas receber conscientes o amor onde há fraternidade
Espalhando assim o grito potente da nossa apregoada selvajaria
Mas essa hora tarde e os gritos do deserto espreitam
Por sobre as nossas cabeças encanecidas da longa espera
Mas os nossos sonhos hão-de abrir clareiras nos eternos luares
Dos nossos desertos assombrados. 
- Alda do Espírito Santo, no livro "É nosso o solo sagrado da terra". Lisboa: Ulmeiro, 1978.

§§

Em torno da minha baía
Em torno da minha baía
Aqui, na areia,
Sentada à beira do cais da minha baía
do cais simbólico, dos fardos,
das malas e da chuva
caindo em torrentes
obre o cais desmantelado,
caindo em ruínas
eu queria ver à volta de mim,
nesta hora morna do entardecer
no mormaço tropical
desta terra de África
à beira do cais a desfazer-se em ruínas,
abrigados por um toldo movediço
uma legião de cabecinhas pequenas,
à roda de mim,
num vôo magistral em torno do mundo
desenhando na areia 
a senda de todos os destinos
pintando na grande tela da vida
uma história bela
para os homens de todas as terras
ciciando em coro, canções melodiosas
numa toada universal
num cortejo gigante de humana poesia
na mais bela de todas as lições:

HUMANIDADE
- Alda do Espírito Santo, no livro "É nosso o solo sagrado da terra". Lisboa: Ulmeiro, 1978.

§§

Ilha nua
Coqueiros e palmares da Terra Natal 
Mar azul das ilhas perdidas na conjuntura dos séculos 
Vegetação densa no horizonte imenso dos nossos sonhos. 
Verdura, oceano, calor tropical 
Gritando a sede imensa do salgado mar 
No deserto paradoxal das praias humanas 
Sedentas de espaço e devida 
Nos cantos amargos do ossobô 
Anunciando o cair das chuvas 
Varrendo de rijo a terra calcinada 
Saturada do calor ardente 
Mas faminta da irradiação humana 
Ilhas paradoxais do Sul do Sará 
Os desertos humanos clamam 
Na floresta virgem 

Dos teus destinos sem planuras... 
- Alda do Espírito Santo, no livro "É nosso o solo sagrado da terra". Lisboa: Ulmeiro, 1978, p. 121

§§

Lá no água grande
Lá no "Água Grande" a caminho da roça  
negritas batem que batem co'a roupa na pedra.   
Batem e cantam modinhas da terra.

Cantam e riem em riso de mofa  
histórias contadas, arrastadas pelo vento.

Riem alto de rijo, com a roupa na pedra  
e põem de branco a roupa lavada.

As crianças brincam e a água canta.  
Brincam na água felizes... 
Velam no capim um negrito pequenino.

E os gemidos cantados das negritas lá do rio  
ficam mudos lá na hora do regresso...  

Jazem quedos no regresso para a roça.
- Alda Espírito Santo, no livro "É nosso o solo sagrado da terra". Lisboa: Ulmeiro, 1978, p. 35.

§§

No mesmo lado da canoa
As palavras do nosso dia
são palavras simples
claras como a água do regato,
jorrando das encostas ferruginosas
na manhã clara do dia-a-dia.

É assim que eu te falo,
meu irmão contratado numa roça de café
meu irmão que deixas teu sangue numa ponte
ou navegas no mar, num pedaço de ti mesmo em luta
[com o gandu
Minha irmã, lavando, lavando
p'lo pão dos seus filhos,
minha irmã vendendo caroço
na loja mais próxima
p'lo luto dos seus mortos,
minha irmã conformada
vendendo-se por uma vida mais serena,
aumentando afinal as suas penas...
É para vós, irmãos, companheiros da estrada
o meu grito de esperança
convosco eu me sinto dançando
nas noites de tuna
em qualquer fundão, onde a gente se junta,
convosco, irmãos, na safra do cacau,
convosco ainda na feira,
onde o izaquente e a galinha vão render dinheiro.
Convosco, impelindo a canoa p'la praia
juntando-me convosco
em redor do voador panhá
juntando-me na gamela
vadô tlebessá
a dez tostões.

Mas as nossas mãos milenárias
separam-se na areia imensa
desta praia de S. João
porque eu sei, irmão meu, tisnado como eu p'la vida,
tu pensas irmão da canoa
que nós os dois, carne da mesma carne
batidos p'los vendavais do tornado
não estamos do mesmo lado da canoa.

Escureceu de repente.
Lá longe no outro lado da Praia
na ponta de S. Marçal
há luzes, muitas luzes
nos quixipás sombrios...
O pito dóxi arrepiante, em sinais misteriosos
convida à unção desta noite feiticeira...
Aqui só os iniciados
no ritmo frenético dum batuque de encomendação
aqui os irmão do Santu
requebrando loucamente suas cadeiras
soltando gritos desgarrados,
palavras, gestos,
na loucura dum rito secular.

Neste lado da canoa, eu também estou irmão,
na tua voz agonizante, encomendando preces, juras,
[Maldições.

Estou aqui, sim, irmão
nos nozados sem tréguas
onde a gente joga
a vida dos nossos filhos.
Estou aqui, sim, meu irmão
no mesmo lado da canoa.

Mas nós queremos ainda uma coisa mais bela.
Queremos unir as nossas mãos milenárias,
das docas dos guindastes
das roças, das praias
numa liga grande, comprida
dum pólo a outro da terra
p'los sonhos dos nossos filhos
para nos situarmos todos do mesmo lado da canoa.

E a tarde desce...
A canoa desliza serena,
rumo à Praia Maravilhosa
onde se juntam os nossos braços
e nos sentamos todos, lado a lado,
na canoa das nossas praias.
- Alda Espírito Santo, no livro "É nosso o solo sagrado da terra". Lisboa: Ulmeiro, 1978.

§§

Alda da Graça do Espírito Santo - jovem
Para lá da praia
Baía morena da nossa terra  
vem beijar os pézinhos agrestes  
das nossas praias sedentas,  
e canta, baía minha  
os ventres inchados  
da minha infância,  
sonhos meus, ardentes  
da minha gente pequena  
lançada na areia  
da Praia Gamboa morena  
gemendo na areia  
 da Praia Gamboa. 

Canta, criança minha 
teu sonho gritante  
na areia distante  
da praia morena.

Teu teto de andala  
à berma da praia. 
Teu ninho deserto  
em dias de feira. 
Mamã tua, menino  
na luta da vida  
gamã pixi à cabeça  
na faina do dia  
maninho pequeno, no dorso ambulante  
e tu, sonho meu, na areia morena  
camisa rasgada,  
no lote da vida, 
na longa espera, duma perna inchada  
Mamã caminhando p'ra venda do peixe  
e tu, na canoa das águas marinhas ... 

 — Ai peixe à tardinha 
na minha baía... 
Mamã minha serena 
na venda do peixe.
- Alda Espírito Santo, no livro "É nosso o solo sagrado da terra". Lisboa: Ulmeiro, 1978, p. 47-48.


Alda da Graça do Espírito Santo - foto: Alfredo

FORTUNA CRÍTICA DE ALDA ESPÍRITO SANTO

[Alda Espírito Santo - teses, dissertações, monografia, ensaios e artigos]

AFOLABI, Niyi; BURNESS, Donald (org.). Seasons of harvest: essays on the literatures of Lusophone Africa. Trenton, NJ: Africa World Press, 2003.
AFRICAN Lusophone writers. Detroit: Gale Cengage Learning, 2012.{autores presentes: José Eduardo Agualusa, Patricia D. Fox, Germano Almeida, Elias J. Torres Feijó, Orlanda Amarilis, Luis Gonçalves, Ungulani Ba Ka Khosa, Patricia D. Fox, João Paulo Borges Coelho, Sandra I. Sousa, Amílcar Cabral, Luis Gonçalves, Boaventura Cardoso, Patricia D. Fox, Paulina Chiziane, Claudia Amorim, Costa Andrade, Maria Luci De Biaji Moreira, Mia Couto, Elias J. Torres Feijó, José Craveirinha, Claudia Amorim, Viriato da Cruz, Raquel Ribeiro, Noémia De Sousa, Anita de Melo, Vimala Devi, Robert N. Anderson, João Dias, Sandra I. Sousa, Vera Duarte, Cláudio de Sá Capuano, Alda Espírito Santo, Claudia Amorim, António Aurélio Gonçalves, M. Felisa Rodríguez Prado, Luís Bernardo Honwana, Érica Fontes, Rui Knopfli, Rex P. Nielson, Baltasar Lopes, Lamonte Aidoo, Manuel Lopes, Benjamin Abdala Júnior, Lina Magaia, Sandra I. Sousa, João Melo, Sandra I. Sousa, Lília Momplé, Luis Gonçalves, Agostinho Neto, Benjamin Abdala Júnior, Ondjaki, Érica Fontes, Pepetela, José N. Ornelas, Jofre Rocha, Raquel Ribeiro, Luís Romano, M. Felisa Rodríguez Prado, Manuel Rui, Fernando Arenas, Dina Salústio, Alessandra M. Pires, Gloria de Sant'Anna, Clara Carolina de Souza Santos, Marcelino dos Santos, Rex P. Nielson, Calane da Silva, Clara Carolina de Souza Santos, Onésimo Silveira, Robert N. Anderson, Eugénio Tavares, M. Felisa Rodríguez Prado, Francisco José Tenreiro, Inocência Mata, Manuel Veiga, M. Felisa Rodríguez Prado, José Luandino Vieira, José N. Ornelas, Eduardo White, Isabel Cristina Rodrigues Ferreira}.. * Dictionary of Literary Biography.
ALDA Espírito Santo. (documentos e manuscritos). In: Fundo Arquivo Mário Pinto de Andrade / Casa Comum - Fundação Mário Soares, s. data. Disponível no link. (acessado em 8.9.2021). 
ALDA Espírito Santo. Catálogo. In: Memórias da África e do Oriente, s./data. Disponível no link. (acessado em 8.9.2021).
AMORIM, Claudia Maria de Souza. Alda Espírito Santo. In: Rector, Monica; Vernon, Richard. (Org.). Dictionary of Literary Biography - African Lusophone Writers. 1ª ed., New York: A Bruccoli Clark Layman Book - GALE, 2012, v. 367, p. 83-85.
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Alda Espírito Santo, poeta, professora e jornalista

Manuscrito "carta" de Alda do Espírito Santo


Alda Espírito Santo, Pedro Pires, Léopold Sédar Senghor e Aristides Pereira, na primeira fila. Mário Pinto de Andrade e 
Lúcio Lara na segunda, na Cidade da Praia (1980) | foto: Acervo Casa Comum/Fundo Arquivo Mário Pinto de Andrade 

Inocência Mata e Alda Espírito Santo | acervo Inocência Mata

Alda da Graça Espírito Santo e Conceição Lima



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FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção, edição e organização). Alda Espírito Santo - poeta do meio do mundo. Templo Cultural Delfos, setembro/2021. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 8.9.2021
* Página original JULHO/2015.




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