Odete Costa Semedo - ancestralidade e a poética do desassossego

Maria Odete Costa Semedo
Maria Odete da Costa Soares Semedo nasceu em Bissau, a 7 de Novembro de 1959.  Aos 18 anos iniciou as suas atividades como professora.  Licenciou-se  em Línguas e Literaturas Modernas (Estudos Portugueses) pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1989/1990).  Assumiu,  ao regressar à Guiné-Bissau, a Coordenação Nacional do Projeto de Língua Portuguesa no Ensino Secundário, financiada pela Fundação Gulbenkian. Foi Diretora da Escola Normal Superior Tchico-Té; exerceu ali ao mesmo tempo suas atividades de professora. A partir de 1995 passou a desempenhar as funções de Diretora Geral do Ensino. Foi Presidente da Comissão Nacional para a UNESCO - Bissau. Assumiu as funções de Ministra  da Saúde e de Ministra da Cultura. Doutorou-se em Letras pela PUC Minas, Brasil.
Traduziu para crioulo o guião do filme Olhos Azuis de Yonta do cineasta Flora Gomes e participou na rodagem do mesmo filme como assistente de realização.
Participou na Anthologie de Literatures Francophones de l'Afrique de l'Ouest, Éditions Nathan, Paris, 1994.
Foi co-fundadora e é membro do Conselho de Redacção  da  Tcholona, Revista de Letras, Artes e Cultura.
Tem divulgado contos e poemas em jornais e revistas nacionais e estrangeiras.
1996 - livro de poemas Entre o Ser e o Amar, em Bissau.
2003 - Histórias e passadas que ouvi contar e No Fundo do Canto (edições portuguesas). Em 2003, recebeu o prêmio, na categoria escritor, de personalidade que contribuiu para o desenvolvimento global da Guiné-Bissau.
2006 - organizou a exposição Falas di Panus, em PUC Minas, onde se doutorou.
:: Fonte: biografia (acessado em 26.6.2016).


"O livro mais triste que alguém haveria de ler na Guiné-Bissau. [...] o livro mais triste da Guiné-Bissau. [...] O espelho da dor de um povo e de tanto quantos se virem nele e através de a silhueta do próprio destino. Deixarei que nele corram todas as lágrimas que não puderam ser choradas. As chagas mal saradas abrirei com o meu bisturi deixando correr todo o pus para que todos possam ver a real podridão e o verdadeiro fingimento."
- Odete Costa Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007, p. 13-14.

Maria Odete da Costa Soares Semedo
OBRAS DE ODETE SEMEDO 
Poesia
:: Entre o ser e o amar. República da Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (INEP), 1996.
:: No fundo do cantoViana do Castelo/Portugal: Câmara Municipal de Viana do Castelo, 2003.
:: No fundo do canto. Belo Horizonte MG/Brasil: Nandyala, 2007.

Contos
:: SONNÉÁ histórias e passadas que ouvi contar I. Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (INEP)2000.
:: DJÉNIA histórias e passadas que ouvi contar II. Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (INEP), 2000.

Ensaio
:: Guiné Bissau: história, culturas, sociedade e literatura. Coleção Repensando África 11. Belo Horizonte MG/Brasil: Nandyala, 2010.

Organização
:: Literaturas da Guiné-Bissau - Cantando os escritos da história. [organização Margarida Calafate Ribeiro e Odete Costa Semedo]. Porto: Edições Afrontamento, 2011.

Tese doutorado
SEMEDO, Maria Odete da Costa Soares. As mandjuandadi - cantigas de mulher na Guiné-Bissau: da tradição oral à literatura. (Tese Doutorado Literaturas de Língua Portuguesa). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PUC Minas, 2010. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).

Capítulos de livros
SEMEDOMaria Odete da Costa SoaresA lebre, o lobo, o menino e o homem do pote. In: BRAGANÇA, Albertino. (Org.). Contos africanos dos países de língua portuguesa. 1ª ed., São Paulo: Ática, 2009, v. 1, p. 73-94.
_________ . Em homenagem ao escritor Eduardo Lourenço. In: BATISTA, Maria Manuel. (Org.). Cartografia imaginária de Eduardo Lourenço: dos poetas e amigos. 1ª ed., Maia: Ver o Verso Edições, 2008, v. 1, p. 159-160.
_________ . Ecos da terra. In: MATA, Inocência; PADILHA, Laura Cavalcante. (Org.). A Mulher em África: vozes de uma margem sempre presente. 1ª ed., Lisboa: Edições Colibri, 2007, v. 1, p. 103-133.
_________ . Vento... Chão nosso. In: Alencart, Alfredo Pérez; Salvado; Pedro. (Org.). Os rumos do vento [Los rumbos del viento]. 1ª ed., Salamanca: Trilce Ediciones, 2005, v. 1, p. 106-106.
Maria Odete Costa Semedo
_________ . Odete Semedo. In: AUGEL, Moema Parente. (Org.). Kebur: barkafon di poesia na kriol (Uma coletânia de poesias na kriol). 1ª ed., Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa, 1996, v. 1, p. 129-136.

_________ . Le chanteur de l'âme. In: JOUBERT, Jean Louis. (Org.). Anthologie de literatures francophones de l'Afrique de l'Ouest: Anthologie. 1ª ed., Paris: Nathan, 1994, v. 1, p. 132-132.

Artigos e ensaios
SEMEDOMaria Odete da Costa SoaresRevisitando a cooperação Brasil/África face aos desafios dos novos tempos. Estudos de Sociologia (Recife), v. 15, p. 107-120, 2010.
_________ . As Cantigas Medievais e as Cantigas de Dito: uma leitura comparada possível. Scripta (PUCMG), v. 11, p. 57-78, 2007.
_________ . Carta Aberta à Exma. Sra. Dra. Fernanda Cavacas. Scripta (PUCMG), v. 11, p. 351-357, 2007.
_________ . As Cantigas de Mandjuandadi na Oratura Guineense. Notas para um trabalho de pesquisa em desenvolvimento. in: Estudos de Literaturas Africanas: Cinco Povos, Cinco Nações “Actas do Congresso Internacional de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa”, Coimbra: Novo Imbondeiro Universitas, p. 644-659, 2006.
_________ . Contributo para o debate sobre o registro de textos da tradição oral. Revista Ecos (Cáceres), v. 3, p. 72-75, 2005.

_________ . Silhueta da desventura / Silhouette des Ungliicks. Sterz (Zeitschrift für Literatur, Kunst und Kulturpolitik), v. 71-72, p. 59-59, 1996.
_________ . Storia da boa nova. in: Tcholona, Revista de Letras, Artes e Cultura, 5 (2), p. 2-5, 1996.
_________ . Aconteceu numa noite em Gã-Biafada. in: Tcholona, Revista de Letras, Artes e Cultura, 2/3 (1), p. 20-22, 1994.
_________ . A problemática do registo na oratura guineense. in: Tcholona, Revista de letras, artes e cultura, 1, p. 9-11, 1994.
_________ . A língua e os nomes na Guiné-Bissau. in: Ciberdúvidas da Língua Portuguesa. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).
:: fonte e outras referências em: currículo lattes (acessado em 26.7.2016).


Maria Odete da Costa Soares Semedo
POEMAS SELECIONADOS DE ODETE SEMEDO

A kontrata começara
O grande lugar de rónia
tronco de um velho poilão
aguardava a cerimónia
que abriria o encontro

Os irans chegaram à hora prevista
cada um representando djorson
uns podiam falar
estava à vista
outros não
era a lei entendida por todas
e ninguém devia porfiar

Bissau tomou a palavra
era a anfitriã
kumbu da mufunesa
antro de desespero

Fazia tempo
não sabiam o que era
um pingo de cana derramado
manta e esteira
Fazia tempo não sabiam
o que era ser amado
pelos filhos
Fazia tempo
não sabiam o que era
punhado de arroz
e água fria no chão 

Que coisa atroz
tão grande mufunesa
filhos seus corriam
de um lado para outro
Bissau era culpada: concluíam
Não criou bem os seus filhos
largou-os ao léu
mal abençoados
vagueando feito rastilhos
debaixo de sol e serunu

Esses filhos desgraçados
porfiaram as suas raízes
renegaram a verdade
apostaram na mentira
na calúnia e lobo
fez do seu manjar
outro lobo
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

As minhas lágrimas
As lágrimas 
escapuliram 
esboçaram 
no chão do meu rosto
um fio de mágoa profunda 
queimando 
bem fundo

Nenhum grito...
nenhum gemido... 
palavra nenhuma
letra alguma
jamais traduziu 
tanto sofrer 
os olhos sentiram 
a minha gente viu
E eu?
E eu?
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

Cogito, ergo sum
Pensa não fala!
aposta na tua existência
Falando... podes quebrar
da vida o encanto
fazer do inferno um teu canto
e inglória
a folia alheia

Continua pensando
segue o exemplo do Vivêncio
filho de Prudêncio
jamais a sua voz se fez ouvir
senão pela boca alheia

Não fala... que a voz ecoa!
não grita... que a garganta irrita
e de rouquidão se inquieta
Não chora... que de soluços
podes morrer
Não discorda... que a corda estrangula

Vai segue o teu caminho 
virtual que seja
Poupa a tua fala... pensando sempre
e vive calma(mente)

na paz da discórdia
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

Djon gagu
Sintidu ramangam
Korson n djutim
N pirdi susego
Ña sonu bua na bentu
Es i ke nubdadi?

N karga djon gago
Di dufuntu ku n ka n terá
N na iari iari
Sol fitcha pa mi

Ña blaña bida
Lala di ñara sikidu
Nin pa mermeri

Boka ka ten
- Odete Semedo, no livro "Entre o ser e o amar". Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.

§

Dores s desaires dos caminhantes
Que palavras
poderão espelhar este desaire
ensinaram-me o abc
deram-me a conhecer
letras e sílabas
sentenças e provérbios
ditos e cantigas

Ensinaram-me
que as letras
que as palavras
traduzem
reproduzem
encantam
contam
pensamentos
intentos
devaneios
e sonhos
Para tanta aflição expressar
esta dor queimando
a minha alma
o nosso infortúnio
Este punhal...
cravado no meu chão
maldição de que deuses
para dilacerar
as estranhas da gente?
como aplacar tanta
e tamanha dor
ninguém me desvendou
tal segredo.
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

Do prenúncio aos factos
tudo virou fumaça
tudo foi virando nada
o feito em coisa alguma
bianda de homens sem rosto

Um mundo de promessas
foi deixando para trás
caminhos tortuosos
abrindo-se em narinas
de outros cheiros
não os da podridão

dos falsários
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

E fez um poema sem palavras
Numa manhã cinza
com nuvens imitando
 gente chuva
 chorando...
quis fazer um poema,
um poema raiz dos que marcam época
invocar as nharas 
e as sinharas 
chorar o prenúncio 
que marcou o meu povo 
denunciar o desequilíbrio

Nessa manhã 
- ainda -
de lápis na mão
quis deixar no poema
figura de gente
vivente sem encanto
  dos ímpios 
o sangue derramado 
algures... 
que horror: 
nasci em tempo de paz!

Na mesma manhã 
- que dia teimoso -
sol tímido e mimoso 
serkando a chuva 
a intenção era fazer
  poemas
para não adia a palavra
com ecos do pranto
trasnformados em canto
e gargalhadas alegres
de mantenhas para crianças
 ... que desilusão:
nem uma palavra apontei

Ea apenas mais um sono
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

E ninguém podia crer
Entre a dor que sinto
e o que pressinto
na alma da minha terra
que caminho trilhar?

Entre a dor que sinto
entre o ser e o estar
venceram a ganância
a violência
e o desespero
E nós?
não acredito
no que os meus olhos vêem
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

Eu e a poesia
Eu e a poesia
A confissão
O prazer
O gosto de dizer
Sem reprimir
O prazer de dar
O que se quer
A viagem segura
Num mundo incerto
A magia do som
Da música, do ritmo
O prazer da viagem
A visão da natureza
Pura ou não
A Providência sempre
Ou nunca presente
Poesia amor
Construção

Fuga e reencontro
- Odete Semedo, no livro "Entre o ser e o amar". Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.

§

Ña rostu
Ña rostu bida lagua
Iagu di mare mansu
Na buska kamiñu di bom turpesa

Salus terbesan garganti
Ña pitu intchi dur
Fala ka pudi tustumuña pa mi

Iagu di mare mansu ku bida makare
Spidju di kasabi
Tustumuñu di ña flema
Tadja pa mi
Dja ku ña fala falsian
- Odete Semedo, no livro "Entre o ser e o amar". Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.

§

Não disse nada
Falei da língua
Da míngua
Da letra
(So)letrei a minha nostalgia
Lendo pasmado
Nos olhos desmesurados
O infinito
- Odete Semedo, no livro "Entre o ser e o amar". Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.

§

O cantor da alma sentiu o monstro... e disse:
seu eu pudesse...
caminhar entre as nuvens
gritar o meu canto
banhar-me
em teu pranto

Se eu pudesse
Ser carpideira
djamur as minhas mágoas
engodar o desassossego
perder-me no horizonte
libertar o grito

Se eu pudesse...
vencer esta guerra
entre mim e o nada
abrir as asas
da minha desventura
remover a terra vermelha
descobrir o mistério do ser...
Ah, se eu pudesse...!
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

O teu mensageiro
Não te afastes
aproxima-te de mim
traz a tua esteira e senta-te

Vejo tremenda aflição no teu rosto
mostrando desespero
andas
e os teus passos são incertos

Aproxima-te de mim
pergunta-me e eu contar-te-ei
pergunta-me onde mora o dissabor
pede-me que te mostre
o caminho do desassossego
o canto do sofrimento
porque sou eu o teu mensageiro

Não me subestimes
aproxima-te de mim
não olhes estas lágrimas
descendo pelo meu rosto
nem desdenhes as minhas palavras
por esta minha voz trémula
de velhice impertinente

Aproxima-te de mim
não te afastes
vem...

senta-te que a história não é curta
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

O velho poilão
O tempo fez-me vergar
E as minhas raízes saltar
Agarro ao que de mim resta
E tento reconhecer a minha geração
De extrema solidão
No meu reino

Tenho pesadelos
Tractores de dentes aguçados
Ávidos lenhadores
De machado em punho
Meus oradores
Miram o meu tronco
Carcomido pelo tempo
À espera da queda fatal
Angustiado sonho com os belos tempos
Vejo os meus braços verdes
O meu tronco firme
Ostentando uma cabeça frondosa
De cabelos encarapinhados
Simulando perfis ocos
De rostos apinhados

Ainda recordo
De sombras que dei
Histórias de amor, noites de fogueira...
Quantas não assisti?
Fui símbolo de amor proibido
Refúgio de namorados
Hoje é isto o que de mim resta
Tudo que em mim presta
O tempo levou
E o chão aprovou

Mas não choro
- Odete Semedo, no livro "Entre o ser e o amar". Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.

§

Perdidos, desnorteados
decapitado
o meu corpo rola
e deambula pelo mundo
os meus membros se entrelaçaram
buscando protecção fora do tempo

O meu tronco sangrando quieto
protrado
num terra sem chão
lembra uma res
abatida

A minha cabeça
o meu corpo desbaratado
os meus membros entrelaçados
minha Guiné
minha terra
porra...
rolam... rolam e deambulam

em movimentos incertos
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

Poemar
Poemar é amar o mar
Poemar é revestir o ser
Com o próprio pensamento
É trazer à superfície
O subconsciente
É ser vidente
É ser viandante
É amar a dor
E dar calor
Ao frio da noite.
Poemar é dar prazer ao ser
É estar contente
Por poder amar
E poemar é amor
Poemar é amar
Quando ao luar
O mar e a mente se entrelaçam
Quando a dor e o calor se confundem...
Poemar é amor
É amar
É mar

E é dor também
- Odete Semedo, no livro "Entre o ser e o amar". Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.

§

Por isso... silêncio!
Silêncio!
Vem aí o grande bandlulho
cabeça de aço 
gigante das sete gargantas
Desembarcou
na terra prometida: 
nos tentáculos 
pequenos obstáculos 
nos pés de barro 
botas de melaço 
para línguas de pelica

De bandulho vazio 
quis encher a pança
com poupança
Mais quilos arrecadar 
era a esperança 
engordar era o sonho 
do gigante 
das sete gargantas

Noite vai
dia vem 
cresceu a pança 
e as gargantas
eram já quantas? 
perdeu-se a conta 
e dos tentáculos também

Tomou-se surdo
aumentou de peso
de olhos
pés enormes
corpo disforme
vai o gigante
tentar um passo
dois
e três
e era uma vez...
partiram-se os pés
do gigante

das sete gargantas
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

Silhueta da desventura
Sou a sombra dum corpo que não existe
Sou o choro desesperado
Sou o eco de um grito articulado
Numa garganta sem forças
Sou um ponto no infinito
Silhueta da desventura

Perdida neste espaço
Vagueando... finjo existir
Insistem chamar-me criança
E eu insisto ser
A esperança do incerto

O meu tantã é de outros tempos
A melodia que oiço
É o crepitar de chamas
Confundindo-se com o roncar da fome
E o chão onde piso
É uma ilha de fogo

A minha nuvem é a fumaça
Da bala disparada
Gotas salgadas orvalham
O meu pequeno rosto
Enquanto choro

Na esperança do incerto
- Odete Semedo, no livro "Entre o ser e o amar". Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.

§

Tanta súplica evocou os Irans
Tanta súplica e chamamento...
tamanha invocação
tantas fantasias desfeitas
pela dor
irans e defuntos se reuniram
não resistindo ao veneno
de tantos corpos perdidos

Há culpados...
Que não fiquem mudos
nem impunes
pois o concílio vai reunir-se
os irans vão falar
é hora de ouvir a nossa djorson
e os nossos defuntos

Irans de Bissau
de Klikir a Bissau bedju
de N’ala e de Rênu
de Ntula e de Kuntum
de Ôkuri e de Bandim
de Msurum
Varela e do Alto Krim
de Klelé e de Brá

As sete djorson de Bissau
estarão presentes
as almas das katanderas
estarão presentes
Testemunharão o acto
os irans de João Landim
de Bula e de Farim
Os de Geba e Cacheu
Wendu Leidi e Bruntuma
não faltarão

Os irmãos de Pecixe e de Jeta
juntarão os seus caminhos
com os de Caió e Calequisse
Os de Canchungo e Batucar
tomarão a bênção em Bassarel
Cô será o ponto de encontro
dos que sairão de Bula e Binar

Hóspedes de Bolor e de Bufa
serão recebidos
mas não terão palavra
nem os de Banta
de Bessassema
Cacine e de Caur
e nem as velhas almas de Kansala
É assim a lei
no consílio dos irans
Será aceite por todos?
- Odete Semedo, no livro "No fundo do canto". Belo Horizonte: Nandyala, 2007.

§

Voz
Olhos que falam por mim
Com voz de benjamim
Mãos de gestos seguros
Perturbando a insegurança
Da mente
Do espírito
E da alma desventurada
Pés que caminham
A passos largos
Desafiando o tempo
Caminhando...
A passos largos e firmes
Olhos
Mãos
Pés
Olhos meus
Sonhos teus
Que firmes
Descompassam
E fogem à desventura
Olhos, pés, mãos
Mãos e olhos
Num conjunto seguro
Insurgem

No desassossego do ser
- Odete Semedo, no livro "Entre o ser e o amar". Guiné-Bissau: Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas, 1996.

§

Odete Semedo - foto: Carol Reis
FORTUNA CRÍTICA DE ODETE SEMEDO
AUGEL, Moema Parente. O desafio do escombro: nação, identidades e pós-colonialismo na literatura da Guiné-Bissau. Rio de Janeiro: Editora Garamond Universitária, 2007.
BISPO, Érica Cristina. Gestos e Vozes de papel: Odete Semedo e a reinvenção de passadas e estórias da tradição oral guineense. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 2005.
CALADO, Karina de Almeida. Ancestralidade e imagens de nação no cantopoema No fundo do canto, de Odete Semedo. (Dissertação Mestrado em Literaturas de língua portuguesa). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PUC Minas, 2015.
CALADO, Karina de Almeida; FONSECA, Maria Nazareth Soares. Identidade, subjetividade e nação guineense na poesia de Odete Semedo. In: II Encontro Nacional e Internacional de Linguístico e Literatura: O Canto da Palavra, 2013, Garanhuns. O Canto da Palavra. Garanhuns: Jairo Nogueira Luna, 2013. p. 530-542.
CALADO, Karina de Almeida; FONSECA, Maria Nazareth Soares. Identidade, subjetividade e nação guineense na poesia de Odete Semedo. GrauZero - Configurações da Critica Cultural - Vol 1, n. 1, Jan./Jun. 2013. Disponível no link. (acessado em 23.6.2016).
DEUS, Lílian Paula Serra e.. A língua é minha pátria: Hibridação e expressão de identidades nas Literaturas Africanas de Língua Portuguesa. (Dissertação Mestrado em Literaturas de Língua Portuguesa). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PUC Minas, 2012. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).   
FERNANDES, Evelyn Blaut. Odete Semedo, mar e poesia. In: Anais do III Encontro de Professores de Literaturas Africanas: pensando África - crítica, ensino e pesquisa, Rio de Janeiro, 2007.
FERREIRA, Vera Lúcia da Silva Sales. Lembrar e carpir: estratégias de construção de poemas escritos por mulheres nas literaturas africanas de língua portuguesa. (Tese Doutorado em Letras). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PUC Minas, 2011. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).
LARANJEIRA, Pires. Literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 1995.
LIMA, Tânia Maria de Araújo.. Dobras de intertexto em Odete Semedo: Poemas inventados no fundo do cântico amoroso. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).
LIMA, Tânia Maria de Araújo.. Odete Semedo: poemas inventados no fundo do canto. In: II Encontro Internacional de Literaturas , Histórias e Culturas Afro-brasileiras e Africanas, 2011, Teresina. Caderno de Resumos e programação. Teresina: UESPI, 2011.
MACÊDO, Tânia; CHAVES, Rita. Caminhos da ficção da África Portuguesa. in: Revista Entrelivros. 32 (1) dez/2007. p. 44-51.
MATA, Inocência. A literatura de Guiné-Bissau. In: LARANJEIRA, Pires. Literaturas africanas de expressão portuguesa. Lisboa: Universidade Aberta, 1995.
MEMMI, Albert. Retrato do colonizado precedido do retrato do colonizador. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977.
N'GANA, Yéo. Tradição e Modernidade em Sonéá de María Odete Semedo. (Dissertação Mestrado em Literatura - Linguistica). Universidade Félix Houphouët Boigny, UFHB, Costa do Marfim, 2014. 
OLIVEIRA, Jurema José de.. Alda Lara, Noémia de Sousa, Ana Paula Tavares, Vera Duarte, Paulina Chiziane, Alda Espírito Santo e Odete Semedo. In: OLIVEIRA, J.; SOARES, L. E.. (Org.). Africanidades e Brasilidades: ensino, pesquisa e crítica. 1ª ed., Vitória: Edufes, 2015, v. 1, p. 30-37.
Odete Costa Semedo
RISO, Ricardo. Odete Semedo: o desassossego do ser. in: Riso - sonhos não envelhecem, 23 de outubro de 2007. Disponível no link. (acessado em 17.6.2016).
RISO, Ricardo. Odete Costa Semedo – No fundo do canto. In: Revista África e Africanidades. 1 (1) Mai./2008.
SECCO, Carmen Lucia Tindo Ribeiro.. Sonhos, Sangue, Perplexidades, Esperança... Um percurso pela Poesia da Guiné-Bissau. In: Margarida Calafate Ribeiro; Odete da Costa Semedo. (Org.). Literaturas da Guiné-Bissau: cantando os escritos da história. 1ª ed., Porto: Editora Afrontamento, 2011, v. 1, p. 49-66.
SECCO, Carmen Lucia Tindó Ribeiro; BISPO, Érica Cristina.. Odete, Djênia e Lamarana: a autora, o livro e a personagem. In: Encontro Africanas 10!, 2004, Rio de Janeiro. Anais do Evento Africanas 10!. Rio de Janeiro: Cátedra Jorge de Sena, 2004.
SILVA, Luciano. Maria Odete da Costa Semedo, uma alma inquieta da Guiné-Bissau. in: Carta Maior, 29.8.2006. Disponível no link. (acessado em 17.6.2016).
SILVA, Monaliza Rios. A Guiné-Bissau No Fundo do Canto: o tempo/espaço pós-colonial de Odete Semedo. In: III Seminário Nacional de Estudos Culturais Afro-Brasileiros: Literatura, Negritude e Política, 2010, João Pessoa. Cadernos Imbondeiros I. João Pessoa: Editora Universitária da UFPB, 2010. p. 67-78.
SILVA, Monaliza Rios. A Guiné-Bissau no Fundo do Canto: o épico identitário de Odete Semedo. (Monografia de Especialização em Letras). Universidade Estadual da Paraíba, UEPB, 2010. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).
SILVA, Monaliza Rios; BEZERRA, Rosilda Alves. Odete Sem(edo) conta os cantos da Guiné-Bissau pós-independente. In: V Semana de Humanidades: interface dos saberes, formação docente e diversidade cultural, 2010, Guarabira. V Semana de Humanidades: interface dos saberes, formação docente e diversidade cultural. Guarabira: Queima Bucha Editora, 2010. p. 1-5.
SILVA, Monaliza Rios. O Espaço Pós-Colonial Guineense em Odete Semedo. In: I Colóquio Internacional de Estudos Linguísticos e Literatura e IV Colóquio Nacional de Estudos Linguísticos e Literários, 2010, Maringá. Anais do I Colóquio de Estudos Linguísticos e Literatura, 2010.
SOARES, Angélica. Odete Costa Semedo: poética ecológica - uma leitura de entre o ser e o amar. in: Cadernos CESPUC, Belo Horizonte, n. 19, 2010. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).


Odete Semedo
Língua esvoaçante
A língua nasceu solta e desenvolta. Nasceu virada para fora de si, irmanada com os lábios, os dentes e as cordas vocais que lhe deram a fala, a música, o grito e o silêncio, próprio da caverna onde livremente se encontra enclausurada. A língua serve-se dos olhos, de tudo ao seu alcance e fora dele para, sem papas, testemunhar a nossa relação com a vida. A língua é assim aquela coisa que nos permite, dentro do nosso silêncio, dizer tudo sem nada ter dito. Pois em língua e só nela carpimos os nossos mortos, contamos as nossas histórias e estórias, cantamos as nossas noivas quando rumo à casa do futuro marido deixa para trás a casa que a viu nascer e crescer. E só a língua permite a cada um dizer tudo, menos aquilo que se pensa, num jogo social em que cada um, munido do disfarce que julgar ideal, vai passando pelos círculos que a teia tece.

A língua, essa coisa esguia, nem sempre severa, guiada pela mente, vestida de uma mão ou, por vezes, de apenas três dedos — que podem ser de conversa —, vai dando largas às fantasias e aos sonhos.

A língua, na sua fantasia, tem vestidos: vestidos requintados e com enfeites de lantejoulas; vestidos com contornos de emoção, roupa de mendigo com remendos - mas nada para botar defeito; vestidos com bordados e afrontas que para muitos são heranças que os séculos lhe foram juntando num pé-de-meia. E com todos estes vestidos chega a bifurcar-se em língua do coração, do sentir, da alma e língua de contacto com o resto do mundo. Mas como a dificuldade é um mal dividido pelas aldeias, as línguas não são excepções à regra, lá têm elas o seu estilo de cooperação: a língua de viagens, a do contacto, acaba pedindo emprestadas as roupas de emoção da língua do sentimento; esta por sua vez vai deixando que a língua do sentimento faça uso de suas letras - com a permissão alfabetizada, é claro, de quem dita as regras do jogo.

Apesar de ter nascido solta e desenvolta, livre, ainda há quem pense ser dela o dono policiando no escuro a língua, não vá um mal-intencionado beliscar um acento ou acrescentar uma abertura em lugar incerto ou, ainda, quem sabe?, virgular o que deve ser pontofinalizado. Mas a língua não se importa que a façam voar em vozes e falas, que a enrolem em pergaminhos, folhas simples ou papel reciclado; o certo é que em silêncio ela grita e mesmo quando, inseguros, nela deitamos a mão... questionando... a língua é sempre testemunha.

Em que língua escrever
As declarações de amor?
Em que língua cantar
As histórias que ouvi contar?

Em que língua escrever
Contando os feitos das mulheres
E dos homens do meu chão?
Como falar dos velhos
Das passadas e cantigas?
Falarei em crioulo?
Mas que sinais deixar
Aos netos deste século?
Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar 
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem 
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado
Num pergaminho
Nesta língua lusa
Que mal entendo
Ou terei de falar
Nesta língua lusa
E eu sem arte nem musa
Mas assim terei palavras para deixar
Aos herdeiros do nosso século
Em crioulo gritarei
A minha mensagem
Que de boca em boca
Fará a sua viagem
Deixarei o recado 
Num pergaminho
Nesta língua lusa

Que mal entendo
E ao longo dos séculos
No caminho da vida
Os netos e herdeiros
Saberão quem fomos

E, assim, as mensagens vão passando porque a língua também vai permitindo, assumindo-se como portador de mensagens, voando nos ecos dos que ainda podem gritar pela liberdade, deslizando nas lágrimas invisíveis dos que apenas com seus olhares denunciam a pobreza extrema.
Maria Odete da Costa Soares Semedo


Maria Odete Costa Semedo
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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Odete Costa Semedo - ancestralidade e a poética do desassossego. Templo Cultural Delfos, julho/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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Página atualizada em 26.7.2016.


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