Poemas de paz

Paz, Pablo Picasso
A paz sem vencedor e sem vencidos
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 
A paz sem vencedor e sem vencidos 
Que o tempo que nos deste seja um novo 
Recomeço de esperança e de justiça 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 

Erguei o nosso ser à transparência 
Para podermos ler melhor a vida 
Para entendermos vosso mandamento 
Para que venha a nós o vosso reino 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 

Fazei Senhor que a paz seja de todos 
Dai-nos a paz que nasce da verdade 
Dai-nos a paz que nasce da justiça 
Dai-nos a paz chamada liberdade 
Dai-nos Senhor a paz que vos pedimos 

A paz sem vencedor e sem vencidos 
- Sophia de Mello Breyner Andresen, em "Dual". 


Ode à paz
Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 
Pelas aves que voam no olhar de uma criança, 
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza, 
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança, 
Pela branda melodia do rumor dos regatos, 

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia, 
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos, 
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria, 
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes, 
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos, 
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes, 
Pelos aromas maduros de suaves outonos, 
Pela futura manhã dos grandes transparentes, 
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra, 
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas 
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra, 
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna, 
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. 
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, 
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz, 
Abre as portas da História, 
                               deixa passar a Vida! 
- Natália Correia, em "Inéditos (1985/1990)". 



Flores da paz, Pablo Picasso (1958)
Paz
Calado ao pé de ti, depois de tudo, 
Justificado 
Como o instinto mandou, 
Ouço, nesta mudez, 
A força que te dobrou, 
Serena, dizer quem és 
E quem sou. 
- Miguel Torga, em "Diário (1939)".


Paz
Irreprimível natureza 
exacta medida do sem-fim 
não atinjas outras distâncias 
que existem dentro de mim. 

Que os meus outros rostos não sejam 
o instável pretexto da minha essência. 
Possam meus rios confluir 
para o mar duma só consciência. 

Quero que suba à minha fronte 
a serenidade desta condição: 
harmonia exterior à estátua 
que sabe que não tem coração. 
- Natália Correia, em "Poemas (1955)". 


Paz!
E a Vida foi, e é assim, e não melhora. 
Esforço inutil, crê! Tudo é illuzão... 
Quantos não scismam n'isso mesmo a esta hora 
Com uma taça, ou um punhal na mão! 

Mas a Arte, o Lar, um filho, Antonio? Embora! 
Chymeras, sonhos, bolas de sabão. 
E a tortura do além e quem lá mora! 
Isso é, talvez, minha unica afflicção... 

Toda a dor pode suspportar-se, toda! 
Mesmo a da noiva morta em plena boda, 
Que por mortalha leva... essa que traz... 

Mas uma não: é a dor do pensamento! 
Ai quem me dera entrar n'esse convento 
Que ha além da Morte e que se chama A Paz! 
- António Nobre, em "Só". (grafia original)


Peço a paz
Peço a paz 
e o silêncio 

A paz dos frutos 
e a música 
de suas sementes 
abertas ao vento 

Peço a paz 
e meus pulsos traçam na chuva 
um rosto e um pão 

Peço a paz 
silenciosamente 
a paz a madrugada em cada ovo aberto 
aos passos leves da morte 

A paz peço 
a paz apenas 
o repouso da luta no barro das mãos 
uma língua sensível ao sabor do vinho 
a paz clara 
a paz quotidiana 
dos actos que nos cobrem 
de lama e sol 

Peço a paz e o 
silêncio 
- Casimiro de Brito, em "Jardins de guerra". 



The dance of youth, Pablo Picasso (1961)
Qualquer coisa de paz
Qualquer coisa de paz. Talvez somente 
a maneira de a luz a concentrar 
no volume, que a deixa, inteira, assente 
na gravidade interior de estar. 

Qualquer coisa de paz. Ou, simplesmente, 
uma ausência de si, quase lunar, 
que iluminasse o peso. E a corrente 
de estar por dentro do peso a gravitar. 

Ou planalto de vento. Milenária 
semeadura de meditação 
expondo à intempérie a sua área 

de esquecimento. Aonde a solidão, 
a pesar sobre si, quase que arruína 
a luz da fronte onde a atenção domina. 
- Fernando Echevarría, em "Figuras". 



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** Página atualizada em 16.9.2015.




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