Yeda Prates Bernis - artesã da palavra

Yeda Prates Bernis - foto: Jair Amaral/EM/D.A Press Amanhã
Yeda Prates Bernis escritora mineira, diplomada em Letras Neolatinas (PUC-MG), cursou também Canto e Piano no Conservatório Mineiro de Música e membro da Academia Mineira de Letras. Tem poemas musicados por Camargo Guarnieri e traduções para o Italiano, Inglês, Espanhol, Francês e Húngaro. Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras e inúmeras distinções por sua produção artística e cultural e eleita, por unanimidade, Sócia-Correspondente da Academia Lusíada de Ciências, Letras e Artes.
:: fonte: Caleidoscopio - Yeda Prates Bernis (acessado em 12.8.2016)


O tempo é a imagem móvel
da eternidade imóvel. 
- Yeda Prates Bernis, no livro "Entressombras". Belo Horizonte: Rona Editora, 2013.


OBRA POÉTICA DE YEDA PRATES BERNIS
Poesia
Yeda Prates Bernis - foto: (...)
:: Entre o rosa e o azul. [prefácio de Mário Matos; posfácio de Martins de Oliveira; ilustrações de Sara Ávila]. Rio de Janeiro: Editora O Cruzeiro, 1967.
:: Enquanto é noite. [prefácio de Henriqueta Lisboa]. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974.
:: Palavra ferida. [prefácio de Alphonsus de Guimarães Filho; 'orelhas' de Edgar da Mata
Machado; ilustrações de Sara Ávila]. Belo Horizonte: Editora Veja, 1979.
:: Pêndula. ['orelhas' de Audemaro Taranto Goulart]. São Paulo: Editora Massao Ohno, 1983; 2ª ed., Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.
:: Grão de arroz. [prefácio Oswaldino Marques]. Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.
:: O rosto do silêncio. [prefácio Lacyr Schettino; ilustrações de Sara Ávila]. Belo Horizonte: Editora Cuatiara, 1992.
:: À beira do outono. Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1994.
:: Encostada na paisagem. Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1998.
:: Cantata - "Antologia poética - não cronológica". [prefácio Bartolomeu Campos de Queirós]. Belo Horizonte: Edição da Autora, 2004.
:: ViandanteBelo Horizonte: Edição da Autora, 2006.
:: Entressombras. [apresentação Maria Lúcia Simões; prefácio Lina Tâmega Peixoto; capa de Marconi Drummond; projeto editorial de Paschoal Motta]. Belo Horizonte: Rona Editora, 2013.

Ensaio
:: Anotações sobre Zen e Hai-Cais. Belo Horizonte: Editora RHJ, 1996.


Claude Monet - The garden of Monet at Argenteuil, 1873
Poemas de Yeda Prates Bernis

De "Entre o rosa e o azul"

Oferenda
Se eu pudesse fazer um poema
meigo como a brisa das manhãs,
doce como pássaro submisso,
lírico como a flor que desabrocha,

se eu pudesse fazer um poema
onde as palavras perdessem seu sentido
e se transformassem em etéreas formas
em música suave
ou em volátil perfume
que inebriasse,

levar-te-ia, amor,
em oferenda,
este mágico poema
- Yeda Prates Bernis, no livro "Entre o rosa e o azul". Rio de Janeiro: Editora O Cruzeiro, 1967.

§

Saudade
Saudade, flor de ternura
que nasce dentro da gente.

Saudade, lágrima quente

que rola dentro da gente.

Saudade, canto tristonho
que canta dentro da gente.

Saudade, balé de sombras
que dançam dentro da gente.

Saudade, flor de ternura
que morre dentro da gente.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Entre o rosa e o azul". Rio de Janeiro: Editora O Cruzeiro, 1967.

§
De "Enquanto é noite"

Bem-aventurança
Não a estrela mais brilhante
mas o simples vagalume.

Não a pedra mais preciosa
mas o seixo pequenino.

Não a orgulhosa orquídea
mas a modesta violeta.

Não o pensamento sábio
mas o puro, de criança.

Não a força do comando
mas a força da humildade.

Não a coroa de ouro,
mas a mais tosca, de espinhos
- Yeda Prates Bernis, no livro "Enquanto é noite". Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1974.

§
De "Palavra ferida"

Autorretrato
Vocacional estrabismo divergente:
um olho na terra, outro no céu.
Nadadora, vai singrando em largas
ou tímidas braçadas
oceanos, rios e lagos de emoção.
Solfeja alguns idiomas
para ler poemas,
cantar canções
e esconder, neles,
sua ternura pela humanidade.
Acredita em sereia, fada,
Iemanjá, Saci Pererê e outras coisas
mágicas com que depara, desavisadamente.
Acha o livre arbítrio tão discutível
quanto a verdade,
e o bem e o mal, faces da mesma moeda.
Vive com Vivaldi no coração
e Debussy na ponta dos dedos.
Borda, com fios insólitos do tempo,
pacientes pontos de esperança.
Traz a alma na boca,
abraça e beija muito,
e vive sorrindo
para mostrar atávica
alegria infeliz.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Palavra ferida". Belo Horizonte: Editora Veja, 1979.

§

Do sonho
O que escorre, do sonho,
é este líquen de fascínio
e mistério, seiva de cactos,
sumo de transcendentes pétalas.

O que vive, no sonho,
é este frêmito de asas
peregrinas, esta música sutil
descortinando auroras.

O que morre, no sonho,
é esta flor deixada no deserto,
esta luz se desmanchando em sombras,
esta sombra se esgarçando em nadas.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Palavra ferida". Belo Horizonte: Editora Veja, 1979.

§

Libertação
Tenho a palavra ferida
e a mente amordaçada,
o pé plantado em raiz,
o olho posto na treva.
sou pedra de asa cortada
e anjo atirado ao chão.
Desta urdidura me evado
se a vida, fluindo heráclita
na trama inquieta do tempo
- passando por sobre escombros
pousando em trigais de luz -
tecer-me toda de amor.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Palavra ferida". Belo Horizonte: Editora Veja, 1979.

§

Rosa dos ventos
Sejam teus pés a minha senda exata
seja tua voz o meu falar isento
sejam teus olhos minha aurora intata
seja teu respirar o meu alento
sejam teus músculos minha carne em sangue
sejam tuas mãos meu infinito porto
seja tua dor o meu viver exangue
sejam tuas rugas meu andar absorto
seja teu desalento meu cansaço
seja tua paisagem meu azul
sejam teus sonhos todo o meu espaço
seja teu norte-sul meu norte-sul.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Palavra ferida". Belo Horizonte: Editora Veja, 1979.

§
De "Pêndula"

Consciência
Faço e desfaço
o largo laço
do sentimento.
Mordo ou remordo
o alimento
que a vida doa à toa,
Rosto e desRosto de mel e fel.
Rompo ou corrompo a simetria
do dia.
Consinto, sinto
a insuficiência
na só regência
do coração,
mordido cão.
Relevo. E levo
alta alquimia
sobre meus ombros: poesia
e escombros.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Pêndula". 2ª ed., Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.


§
De "Grão de arroz"

HAICAIS

Na poça dágua
o gato lambe
a gota de lua.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Grão de arroz". Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.

§

Neblina sobre o rio,
poeira de água
sobre água.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Grão de arroz". Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.

§

Pássaros em silêncio.
Noturna chave
tranca o dia.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Grão de arroz". Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.

§


Inútil. A gaiola
nunca aprisiona
as penas do canto.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Grão de arroz". Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.

§

Ângelus. Dedos da brisa
nas teclas das folhas
adormecem os pássaros.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Grão de arroz". Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.

§

Lavadeiras de beira-rio.
nas águas, boiando,
cores e cantos.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Grão de arroz". Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.

§

Cai da folha
a gota dágua. Lá longe
o oceano aguarda.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Grão de arroz". Belo Horizonte: Editora Itatiaia, 1986.

§
De "O rosto do silêncio"

Alquimia
Enterrei meu canarinho
junto à roseira.
Agora, a primeira rosa
vai amanhecer
cantando.
- Yeda Prates Bernis, no livro "O rosto do silêncio". Belo Horizonte: Editora Cuatiara, 1992.

§

Aquelas palavras
Nódoas na alvura
do linho.

Sobre a pedra
do olvido
deixá-las
em água e vento.

Para sempre
alcem vôo.
- Yeda Prates Bernis, no livro "O rosto do silêncio". Belo Horizonte: Editora Cuatiara, 1992.

§

Eclesiastes
      para Oswaldino Marques

A tarde levita.
Um sino de cristal
irisa o peito.

Bordo lírios
em pura
seda.

Uma voz aporta
com sua bagagem
de lembranças,

estilhaça o cristal,
tinge de vermelho
os lírios do bordado.
- Yeda Prates Bernis, no livro "O rosto do silêncio". Belo Horizonte: Editora Cuatiara, 1992.

§

Fogueira
Espio à beira
do que chamam de minha alma.
Fingindo calma,
vejo no poço uma fogueira
queimando o já tão pouco
do muito edificado.
Não como um louco
mas como quem não presta
atenção, despejo gasolina.
Tudo o que resta
é um choro de menina.
- Yeda Prates Bernis, no livro "O rosto do silêncio". Belo Horizonte: Editora Cuatiara, 1992.

§

Impasse
Vida trancada a sete chagas
aprisionada em quarto escuro.
Fantasmas deslizam sua dança
nas paredes e há pedaços de mágoa pelo chão.
Rubro fio de seda escorre, lento,
do coração,
cada centímetro, puro
desalento.
Impossível tentar frestas na esperança,
inútil fazer concha com a mão.
- Yeda Prates Bernis, no livro "O rosto do silêncio". Belo Horizonte: Editora Cuatiara, 1992.

§

Junto a um templo
Tardinha.
Jardim em Kioto.
O tempo dormia nas coisas.
A um canto um monge
zentranquilo, sorriso de nuvem,
meditava.
Pedras oravam silêncios,
Flores celebravam lago e lótus.
O lago, quase céu.
O lótus, quase lua.
Deus estava lá, descansando.
- Yeda Prates Bernis, no livro "O rosto do silêncio". Belo Horizonte: Editora Cuatiara, 1992.

§

Véspera
Um cio
antiquíssimo
engravida sons e cores.

Polens de luz
inseminam
a corola do dia.

Levita
de leve
a seiva das coisas

E busca o apelo
do que será
esplendor.

(pise de leve
para não assustar
setembro.)
- Yeda Prates Bernis, no livro "O rosto do silêncio". Belo Horizonte: Editora Cuatiara, 1992.

§
De "À beira do outono"

Dúvida
O que tocou de leve
na pele de meu desejo
foi um floco de neve
ou foi teu beijo?
- Yeda Prates Bernis, no livro "À beira do outono". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1994.

§

Ritmos
Pêndulos do relógio
e do coração
ritmos díspares
de emoção e mecânica
não marcam juntos
o canto da minha partitura:
entre os dois por vezes pairo
num tempo suspenso
indissolúvel         imóvel.
- Yeda Prates Bernis, no livro "À beira do outono". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1994.

§



Quase haicai
Do beiral dos dias
cai sobre mim
tênue chuva de estrelas,
estou molhada de luz
- Yeda Prates Bernis, no livro "À beira do outono". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1994.

§

Variações em tom maior
A noite, trémula,
com seu fardo de sombras
nos ombros.

Ponteiros invisíveis giram,
esgarçam, pouco a pouco,
um fado de opaca tristeza.

Um galo, voz claríssima,
chameja em prata
espaço entre as trevas.

Borboletas brincam de roda:
sobre um sino,
acordam o silêncio de bronze.

Uma azaleia
molhada de cristal
ensaia voo.

Asas de andorinhas
salpicam no céu
claridades e levezas.
- Yeda Prates Bernis, no livro "À beira do outono". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1994.



§

De "Encostada na paisagem"



Vem o beija-flor
do horizonte
molhado de arco-íris.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Encostada na paisagem". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1998.

§

Neblina.
Papel de seda embrulha
a paisagem.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Encostada na paisagem". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1998.

§

O estrume do boi
a seiva do lírio:
alquimia.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Encostada na paisagem". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1998.

§

Não retire
de seus olhos
este fiapo de sol.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Encostada na paisagem". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1998.

§

Prece em silêncio,
verde inocência:
louva-deus.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Encostada na paisagem". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1998.

§

A água do lago:
pranto dos chorões
que moram ao lado?
- Yeda Prates Bernis, no livro "Encostada na paisagem". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1998.

§


Percurso
Ao Homem,
grão de areia,
o Cristal do Tempo
seu percurso traça.
Inútil lutar
por glória e poder.
Tudo escoa:
um grão a mais
que passa.

- Yeda Prates Bernis, no livro "Encostada na paisagem". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1998.

§


Receita para um haicai
Se você quer compor um haicai,
à moda de Bashô,
mesmo imperfeito, verifique primeiro
se já viveu inúmeras vidas.
Comece por despojar-se do supérfluo
das vestes da alma:
paletó de esnobismo,
camisas de inquietude,
agasalhos de orgulho,
meias de apegos.
Deixe o espírito, em síntese, aquietar-se,
desnudo.
Perceba o cintilar da essência de tudo
que o rodeia,
Veja o mundo com o olhar dos anjos.
Faça de seus ouvidos concha de
inocência,
imite o Poeta Francisco
- Yeda Prates Bernis, no livro "Encostada na paisagem". Belo Horizonte: Editora Phrasis, 1998.

§
De "Cantata"
Francisco
Teu gesto,
sagrada
vitória
da loucura.
Teus passos,
pegadas
de luz
pelos tempos.
Teu espírito,
leveza
de voo
de teus pássaros.
Teu amor,
reflexo
do olhar
divino
- Yeda Prates Bernis, no livro "Cantata - 'Antologia poética - não cronológica'". Belo Horizonte: Edição da Autora, 2004.


§



Improviso
Dom maior é canto
de arcanjos - semibreve.
No princípio, um jubilato
arrebata aleluias.

Pouco e pouco, a escala
se despeja em decrescendo
de afiados bemóis
e rasga os dias.
Até que o solo de um clarim
- antes novelo de lã,
fio de aço agora -
estrangula o amanhã

- Yeda Prates Bernis, no livro "Cantata - 'Antologia poética - não cronológica'". Belo Horizonte: Edição da Autora, 2004.

§


Prece em silêncio,
verde inocência;
louva-a-deus.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Cantata - 'Antologia poética - não cronológica'". Belo Horizonte: Edição da Autora, 2004.

§

O coração da aranha
se desfaz em geometria
de seda e mandala
- Yeda Prates Bernis, no livro "Cantata - 'Antologia poética - não cronológica'". Belo Horizonte: Edição da Autora, 2004.

§

Migração
Chegas do poema de Prévert
impregnado de sortilégios.
Não te batizo
de canário ou pintassilgo:
pouco importa teu nome
se qualquer substantivo pesa sobre tua
leveza de pensamento puro,
estás acima de todas as palavras.
E te enfeitiço com manhãs de abril,
te ilumino em ouro e canto,
te celebro a inocência.
Viajo em teu enigma,
vislumbro o azul em teus andares,
te alimento com sementes de amplidão,
e te pouso, com cuidado,
na gaiola aberta
deste poema.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Cantata - 'Antologia poética - não cronológica'". Belo Horizonte: Edição da Autora, 2004.

§
De "Viandante"
para Ney Octaviano Bernis

Teu silêncio acorda em mim palavras antigas.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Viandante". Belo Horizonte: Edição da Autora, 2006.

§

Teu perfume no travesseiro beija meu rosto molhado.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Viandante". Belo Horizonte: Edição da Autora, 2006.

§

No silêncio manso deste poente, de minhas mãos
faço berço para minar a tristeza.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Viandante". Belo Horizonte: Edição da Autora, 2006.

§

Não esperaste pelo nascer das rosas, tão adivinhadas.
Vou-te levar o perfume delas.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Viandante". Belo Horizonte: Edição da Autora, 2006.

§

Tua caneta, ainda morna de tuas mãos,
Aguarda tua assinatura.
Em vão
- Yeda Prates Bernis, no livro "Viandante". Belo Horizonte: Edição da Autora, 2006.

§
De "Entressombras"

O rio de Heráclito
O rio de Heráclito
inexiste no mapa.
Atroz geografia
carrega em seu leito
tanto flor de laranjeira
como rastros de sangue
e corre em artérias
e seivas e nadas.
O rio de Heráclito
navega entre luzes
e sombras e ódios
e amores, impávido.
Inútil a barragem
de sonhos, coragem:
deságua nas águas
do eterno. Sem mágoas.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Entressombras". Belo Horizonte: Rona Editora, 2013.

§

Fluvial
Mítico relógio
não se importa com dezembro ou janeiro.

As horas
deslizam sem apelo
entre flores, pedras, sargaços.

O que foi, passou.
O que virá, incógnita.
Resta navegar nas águas deste Agora
até desaguar
na imensidão de um mar.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Entressombras". Belo Horizonte: Rona Editora, 2013.

§

Momento
Depois da chuva,
a penumbra visita a sala.
Um mistério sobrevoa o ambiente.

Não é tarde nem é noite,
avisam os vidros das janelas.

O silêncio se esconde
entre móveis e lembranças.

A alma desce os degraus dos dias,
procura a infância,
quer abraçar, dar carinho esquecido.
E um véu de espessas brumas
oculta o que hoje
é um claro esquecimento.
- Yeda Prates Bernis, no livro "Entressombras". Belo Horizonte: Rona Editora, 2013.

§

Sabedoria
O sol a lua as estrelas
as montanhas as colinas
a orquídea a rosa a camélia
o jardim a gota d’água
- quietude zen -
aprenderam desde sempre
e rnais que os homens
a eloquência do silêncio
- Yeda Prates Bernis, no livro "Entressombras". Belo Horizonte: Rona Editora, 2013.

§
Yeda Prates Bernis - foto: Jair Amaral/EM/D.A Press Amanhã
FORTUNA CRÍTICA DE YEDA PRATES BERNIS
BRASIL, Assis (org). A poesia mineira do século XX: Antologia. Rio de Janeiro: Editora Imago, 1998.
COELHO, Nelly Novaes (org.). Dicionário crítico de escritoras brasileiras: 1711-2001. São Paulo: Escrituras Editora, 2002.
COUTINHO, Afrânio; SOUSA, J. Galante de (org). Enciclopédia de literatura brasileira. Rio de Janeiro: MEC/FAE, 1990.
DUARTE, Constância Lima (org). Escritoras mineiras - poesia, ficção, memóriaColeção Viva Voz. Belo Horizonte: FALE/UFMG, 2010. Disponível no link. (acessado em 12.8.2016).
FLORES, Hilda Agnes Hubner (org). Dicionário de Mulheres. Belo Horizonte: Editora Nova Dimensão, 1999.
GOULART, Audemaro Taranto. A palavra do resgate. in: PUC Minas, publicações. Disponível no link. (acessado em 12.8.2016).
LEÃO, Ângela Vaz. A poesia de Yeda Prates Bernis. in: SCRIPTA, Belo Horizonte, v. 19, n. 37, p. 267-290, 2º sem. 2015. Disponível no link. (acessado em 12.8.2016).
LOPES, Carlos Herculano. Yeda Prates Bernis lança livro de poemas Entressombras. in: Divirta-se uai, em Cultura, 27.12.2013. Disponível no link. (acessado em 12.8.2016).
MARRECO, Maria Inês de Moraes. As horas da alma: reflexões sobre a poesia de Yeda Prates Bernis. VI Colóquio Mulheres em Letras, UFMG/Belo Horizonte, 2014.
VERHAALEN, Marion. Camargo Guarnieri: expressões de uma vida. [tradução Vera Silvia Camargo Guarnieri]. São Paulo: Imprensa Oficial; EdUsp, 2001



Vincent Van Gogh - Vase with Oleanders and Books
Depoimentos sobre a obra e a poeta

                                       Yeda Prates Bernis

(fonte: Caleidoscopio - Yeda Prates Bernis)

Grão de arroz merece em tudo por tudo a linda e rara edição em que aparece: sem dúvida, a poesia de Yeda, que sempre amei, adquiriu novas raízes e nova expressão. Yeda a viu e sentiu em muitas coisas nas quais nenhum poeta encontrara ainda.
Abgar Renault


...Abri seu livro e a primeira poesia restituiu-me a serenidade, deu-me novamente a visão das coisas belas e imutáveis. Tive a sensação que havia tocado a ternura e a pureza......
Yeda diz tudo o que tinha a dizer em perfeita unidade de forma e essência - alma e corpo na vida do poema.
Mas alma que não transborda, que não excede o continente de dimensões rigorosamente exatas para a substância nele contida. Para encerrar, direi que a poesia de Yeda é tão imperecível como o sentimento que mora no coração de cada ser humano - forma e substância da vida.
Adalgisa Nery


Que lindo livro o Grão de Arroz.
Como você avançou e avança, cada vez mais, em contenção e beleza. Invejável, grego, moderno. Mediterrâneo, além, além de Minas.
Affonso Romano de Sant'anna


Depois de ler seu livro fiquei com os olhos deslumbrados, pela visão de rastro de luz deixado no espaço por estréia cadente. Seus versos ao filho evocam Valmore e ficam em nossa lembrança como perfume de flor oculta em parque noturno...
Agripa Vasconcelos


O canto suave está nas côres do título. Mais cicios que gorjeios, ouve-se em paz umbrosa. Ainda quando se aprofunda, é poesia de superfície, no doce recorte tagoriano.
As palavras adejam levemente, sem crispações nem angústias. Querem só expressar a poesia da hora. Conseguem-no, com a graça alada que distingue a sensibilidade feminina.
Quem escreve O Sorriso de Meu Filho e Oferenda, além de tantos poemas, reúne a sua voz pessoal às outras da poesia brasileira. Acresce que a nítida apresentação dos temas descansa de uma escrita poética de segundas e terceiras intenções, hoje demasiado freqüente.
Aires da Mata Machado Filho


Tenho lido e relido Grão de Arroz com o maior encantamento. É dos tais livros que deixamos à mão para poder abri-los quando vem o desejo de uma experiência poética que redima-o correr do dia. Afino muito com sua poesia, cujo convívio é para mim cheio de graça. Este livro, me parece, alcançou o limite admirável onde a poesia diz o máximo, o maior dos máximos, com o menor e mais perfeito dos mínimos.
Antônio Cândido


...Belo livro de Poemas.
Eles são Poesia.
Augusto de Lima Júnior


Seu Grão de Arroz é das criações poéticas mais delicadas que já se fizeram entre nós. Nada lhe falta, em emoção contida e limpidez de forma. Cada uma das pequenas composições cintila como pedra preciosa e ressoa como inefável melodia.
Carlos Drummond de Andrade


Que beleza os seus hai-cais! É a poesia reduzida à sua essência. Você domina o gênero como ninguém.
Cyro dos Anjos


... Os poemas de "Entre o Rosa e o Azul", libertando-se do virtuosismo afetado da forma, significam uma expressão livre e apaixonante. Neles a gente encontra o mais vivo e humano documento espiritual de um poeta...
Dídimo Paiva


... Yeda Prates Bernis sabe como ninguém prender um claro pensamento na trama sutil da poesia...
Djalma Andrade


Yeda trabalha desde a juventude o território da poesia, sem, no entanto, nunca publicar. Agora ela surge de corpo inteiro, num livro excelente, cuja poesia, embora feminina, traz a marca forte da originalidade e da verdadeira vocação poética.
Édison Moreira


...Os poemas de "Entre o Rosa e o Azul", de Yeda Prates Bernis, andam em nossa emoção como água a correr. Com a mesma simplicidade, a mesma fluidez e o mesmo embalo natural porque extremamente simples. Esta a virtude maior de Yeda Prates, cantar num ritmo sem alardes, sem preciosismos formais...
Euclides Marques Andrade


Que coisa boa surgir um novo livro de autêntica (e inspirada) poesia! Li de uma só vez, reconfortado ao descobrir que Minas ainda produz grandes poetas.
Fernando Sabino


Yeda foi minha aluna há muitos anos. Desde então pude notar sua sensibilidade, sua finura de espírito, seu harmonioso estilo de vida. Por isso não me surpreendeu quando me apresentou esta coletânea de versos de sua autoria: "Entre o Rosa e o Azul".
Henriqueta Lisboa


Yeda: Poesia para habitar corações!
Henriqueta Lisboa


Poucas vezes, na lírica feminina brasileira, terão alcançado a pureza, a depuração, a simplicidade, que Yeda Prates Bernis conseguiu em "Entre e Rosa e o Azul". Ela é autêntica poetisa. Não tem rebuscamentos, nem adjetivo burlado. Escoa, como água cristalina, de uma pureza de fazer inveja.
João Etienne Filho


Li, reli, com o prazer de contemplar uma preciosidade e de possuí-la aos poucos. Impregnei-me de seus haicaiyedas.
Pendula é o ponto alto de uma obra, e poesia da melhor, da mais pura!
João Luiz Lafetá


A poesia tão feminina e sensível de Yeda lembra flor: simples, espontânea e pura, nítida em seus contornos, sem hermetismo nem mistério aparente. Flor, Poesia sempre...
Lúcia Machado de Almeida


Ler a poesia de Yeda é como estar em estado de graça.
Maria do Pilar Barbosa Ferreira


...Ao lermos Yeda verificamos a impressão boa de que a inocência de intuitos e de inspiração é a compreensão cristã do mundo. Seu livro nos demonstra esta verdade esquecida por este nosso mundo louco: - O lar iluminado pelo amor é a casa da poesia...
Mário Matos


Quem, de olhos tranqüilos, ler, porventura, o livro "Entre o Rosa e o Azul", de Yeda Prates Bernis, será, logo de inicio, levado às regiões do encantamento puro, à esfera em que reina a alta poesia. E é certo que o encantamento irá crescendo em doçura e graça, à medida em que os temas se enriquecem das cousas sagradas, das que falam à alma e ao coração. E mais. Pela simplicidade, levesa, diafaneidade de pensamento, o leitor perceberá que se encontra em esfera diferente, num mundo docemente estranho, dominado pela tonalidade suavíssima dos versos, como se penetrasse a região da alegria plena, de que fala Dante, l´ombra del beato regno.
Martins de OliveiraDante


Foi uma grande dádiva de seu espírito, que lemos com real encanto. Sua poesia tem beleza e ternura que afagam o coração e a sensibilidade do leitor.
É rara, hoje, essa delicadeza do sentimento poético que, entretanto, não exclue a beleza da expressão. Lembramo-nos, diante de seu livro e de seu título, de um admirável trecho de Carlos Drummond de Andrade:
"De cor de rosa e de azul claro ele pintou sua casa. De azul claro e de rosa devíamos, todos, revestir uma fração de nossa vida, já que não é possível pintá-la completamente de cores tão puras."
Creio que no seu caso a vida, e não uma fração dela, está toda pintada dessas cores puras. Daí o fino prazer que nos deu a leitura dos seus poemas."
Milton Campos


A presença da inspiração da autora começa no título de seu livro "Entre o Rosa e o Azul" - polarização de matizes impregnados de suavidade e doçura - é um milagre de adequação do titulo à obra. Porque são de ternura, amor, carinho, enternecimento, de dores sem revolta, de preces, de recordação e de fé as belas mensagens da poetisa, destinadas a todos que têm sensibilidade.
Moacir Andrade


Numa época em que a poesia se f echa num hermetismo obtuso, que, corta toda possibilidade de comunicação com o leitor, não lhe trazendo nenhuma mensagem de emoção e beleza, ou se apalhaça em malabarismos circenses, jogando com as palavras, idiotamente, é um prazer, sem dúvida, encontrar uma poesia, pura e cristalina, simples e delicada, como a dos versos de Yeda Prates Bernis, em que há cristalino frescor de fonte murmura e gorjeios canoros de passarinhos.
Oscar Mendes


Para ter-se idéia da impregnação expressiva, num gênero, a que chegou a artista mineira, basta dizer que, conquanto já houvesse conquistado invejável nomeada como autora de obras poéticas do quilate de Palavra Ferida e de Pêndula, ela renunciou à prática da arte verbal segundo os módulos ocidentais, a fim de dar-se de corpo e alma ao magistério do bruxedo de Bashô, plasmando jóias a que assentaria como luvaadenominaçãohaicaiyedas.
Oswaldino Marques


Ao ler a coletânea de poesias de Yeda Prates Bernis acorreu-me de imediato uma consideração de Baudelaire sôbre a essência da poesia:
"...nenhum poema será tão grande, tão nobre, tão verdadeiramente digno do nome de poema, quanto aquêle que fôr escrito unicamente pelo prazer de escrever um poema". Os de Yeda seguramente possuem esta virtude que implica, a meu ver, noutra que exclui tôda a idéia de gratuidade, de mero passatempo, a necessidade de se comunicar com o próprio mundo interior. Daí o acento de sinceridade, a transparência e limpidez de sua expressão poética.
...Sempre me preocupei com a poesia da realidade. Encontro-a em grau intenso no livro de Yeda. De ponta a ponta ressuma, sem nunca se alienar num mundo estranho, a essência lírica do cotidiano. Soube captar com rara sensibilidade toda a ternura de ser mãe, a mulher sublimada pelo amor e o encantamento do universo mágico da criança.
Rui Flôres



Yeda Prates Bernis - foto: Jair Amaral/EM/
D.A Press Amanhã
OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: Antonio Miranda - Yeda Prates Bernis
:: Caleidoscopio - Yeda Prates Bernis
:: Mulheres em letras (grupo de pesquisa Letras em Minas/UFMG)

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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Yeda Prates Bernis - artesã da palavra. Templo Cultural Delfos, agosto/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 12.8.2016.




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