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Anne Carson - um dialogo entre o clássico e o contemporâneo

Anne Carson - by Don J. Usner


© Pesquisa, seleção, edição e organizaçãoElfi Kürten Fenske

Em memória, publicação dedicada ao meu amigo 
José Alexandre da Silva



Anne Carson (Anne Patricia Carson) nasceu em Toronto, no Canadá, em 21 de junho de 1950. Poeta, ensaísta, helenista, professora de literatura clássica e comparada, tradutora, traduziu para o inglês peças de Eurípides e Sófocles, além de poemas de Safo, e lecionou em universidades como Princeton, McGill e Michigan. 

A escritora canadense, Anne Carson é uma das escritoras mais originais da contemporaneidade e autora de uma obra dedicada a dissolver as fronteiras que separam pesquisa de invenção, criação de crítica e tradução de autoria, construindo uma obra singular, rigorosa e profundamente inventiva. Ao longo da carreira, recebeu prêmios como o Lannan Award, o T. S. Eliot Prize, o Pushcart Prize, o Griffin Trust Award for Excellence in Poetry, além de uma bolsa Guggenheim e o MacArthur Fellowship, o chamado “Genius Award”, mais o prêmio Princesa das Astúrias das Letras

Carson tem alguns livros publicados no Brasil, são eles "O método Albertine" (Jabuticaba, 2017), "Autobiografia do vermelho" (Editora 34, 2021), "Falas curtas(Relicário Edições, 2022)"Eros: o doce-amargo" (Bazar do Tempo, 2022), "Sobre aquilo em que eu mais penso" (Editora 34, 2023) e "A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos" (Bazar do Tempo, 2024). Nas biografias que acompanham seus livros, ela prefere ser definida com a seguinte frase: “Anne Carson nasceu no Canadá e ganha a vida dando aulas de grego antigo”

Anne Carson - poeta, ensaísta, professora de letras clássicas e tradutora | fonte: Vogue Espanha


OBRA DE ANNE CARSON PUBLICADA EM PORTUGUÊS

No Brasil
------ romance em verso e prosa
:: Autobiografia do vermelho: um romance em versos. Anne Carson. [tradução Ismar Tirelli Neto]. São Paulo: Editora 34, 2021.
------ poesia em prosa
:: Falas curtas. Anne Carson. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman; texto de orelha por Vilma Arêas; Capa design de Caroline Gischewski sobre a obra "Ainda que dura - Série de monotipias", dos artistas Aruan Mattos e Flavia Regaldo]. Edição bilíngue. Belo Horizonte: Relicário Edições, 2022.
-------- ensaios
:: O método Albertine. Anne Carson. [tradução Vilma Arêas e Fernando Guimarães]. São Paulo: Edições Jabuticaba, 2017.
:: Eros: o doce-amargo - um ensaio. Anne Carson. [tradução Julia Raiz; revisão técnica Emanuela Siqueira; projeto gráfico Luciana Facchini]. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2022. 
:: Sobre aquilo em que eu mais penso: ensaios. Anne Carson [organização Sofia Nestrovski e Danilo Hora; tradução Sofia Nestrovski]. São Paulo: Editora 34, 2023.
:: A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos. Anne Carson. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira; projeto gráfico Luciana Facchini]. Rio de Janeiro: Bazar do Tempo, 2024.

Em Portugal
------ romance em verso e prosa
:: Autobiografia do Vermelho: um romance em versoAnne Carson. [tradução de João Concha e Ricardo Marques]. Colecção Traditore. não (edições), 2020.
------ poesia e ensaios breves
:: Vidro, ironia e Deus. Anne Carson. [tradução de Tatiana Faia; capa a partir de colagem de Ricardo Tiago Moura]. Colecção Traditore. Lisboa: não (edições), 2021.
:: Águalisa (ensaios e poesia) / 'Plainwater'. Anne Carson. [tradução de Rui Cascais Parada; capa a partir de colagem de Ricardo Tiago Moura]. Colecção Traditore. Lisboa: não (edições), 2025.
------ ensaio 
:: A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos. Anne Carson. [tradução de Tatiana Faia]. Colecção Traditore. Lisboa: não (edições), 2019.
:: Eros, amargo e doce, um ensaio. Anne Carson. [tradução de Tatiana Faia]. Colecção Traditore. Lisboa: Edições
70, 2024
------ teatro
:: Antigotriz. Anne Carson [tradução de Isabel Lopes]. Colecção Azulcobalto - teatro - mundo # 011. Lajes do Pico: Companhia das Ilhas, 2023


Anne Carson - poeta, ensaísta, professora de letras clássicas e tradutora


SELETA DE POEMAS DA POETA CANADENSE ANNE CARSON


Do livro 'Fala Curtas' |  Anne Carson

 “Falas curtas” é composto por uma série de poemas em prosa trazidos por uma voz ao mesmo tempo altruísta e indireta. Uma voz profundamente pessoal, mas também difícil de desvendar. Estes poemas chegam como uma luz em um quarto escuro e, como na maioria dos livros de Anne Carson, remetem à história registrada, pedindo para ver entre as rachaduras dos fatos um novo tipo de verdade. De fato, os poemas olham cada um para um lado (Homo Sapiens, Gueixas, Brigitte Bardot, Chuva, Leitura, Gertrude Stein, Ovídio no exílio, Sylvia Plath e muitos outros), para entender como aquela pessoa, lugar, coisa, situação foi empurrada para outra. Mas, no centro deste livro está também um chamado de volta ao leitor. Algo que abre uma necessidade de resposta; uma necessidade de compor entre as rachaduras deixadas pelas palavras.


"Fala Curta Sobre Le Bonheur D'Etre Bien Aimée"
Dia após dia eu penso em você assim que acordo.
Alguém distribuiu gritos de aves pelo
ar como se fossem pedras preciosas.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

Fala Curta Sobre as Esperanças
Espero em breve viver numa casa toda 
de borracha. Imaginem como seria fácil se deslocar 
de um cômodo a outro! Um bom pulo e já 
chegamos. Um amigo meu teve as mãos derretidas 
por uma bomba incendiária durante a guerra.

Agora, mais uma vez, ele vai aprender a 
passar adiante o pão na hora do jantar. 
Aprender é viver. Aliás, estou querendo convidá-lo hoje à noite. 
Aprender tem o mesmo gosto da vida. 
Ele diz coisas assim.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

Fala Curta Sobre Destinos de Viagem
Viajei até um lugar em ruínas. 
Havia três portões escancarados 
e uma cerca quebrada. 
Não eram escombros de nada em especial. 
Um lugar chegou ali e se espatifou. 
Depois disso ficou sendo um lugar em ruínas.
 A luz batia nele.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre o Hedonismo"
A beleza me deixa sem esperança. Nem 
pergunto mais por que, só quero ir embora. 
Quando olho para a cidade de Paris me dá 
vontade de enlaçá-la com as pernas. Quando 
vejo você dançar sinto uma imensidão impiedosa,
como um marujo no meio de uma 
calmaria. Desejos redondos feito pêssegos 
brotam em mim a noite inteira, já não colho 
mais o que cai.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre Refúgios"
Você pode escrever na parede com um coração de 
peixe por causa do fósforo que eles comem. 
Há choupanas como esta rio abaixo ao longo das 
margens. Escrevo isto para errar o máximo possível
com você. Troque a porta quando sair, está escrito.
Agora me diga você o quanto isso está errado, por 
quanto tempo o brilho perdura. Diga.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§ 

"Fala Curta Sobre Van Gogh
Eu bebo para entender o céu amarelo 
o enorme céu amarelo, dizia Van Gogh. 
Quando olhava o mundo enxergava os pregos 
que prendem as cores às coisas 
e via a dor dos pregos.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre a Leitura"
Alguns pais detestam ler mas
adoram levar a família em viagem. 
Alguns filhos detestam viagens mas adoram ler. 
Engraçado como é frequente se encontrarem 
no mesmo automóvel. 
Vislumbrei os estupendos ombros nitidamente definidos das Rochosas 
por entre parágrafos de Madame Bovary. 
Sombras de nuvens percorriam lânguidas o imenso pescoço de pedra, 
delineavam os flancos plantados de abetos. 
Desde então não posso ver pêlos em carne feminina sem me perguntar: Decíduos.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre a Minha Tarefa"
Minha tarefa é carregar os fardos secretos desse mundo. 
As pessoas assistem curiosas. 
Ontem de manhã quando o sol nasceu, por exemplo, 
vocês poderiam me ver no quebra-mar com uma carga de gaze. 
Também carrego ideias despropositadas e pecados em geral, 
ou qualquer ação infeliz que tenha cabido a vocês nesta hora. 
Podem acreditar. 
O animal que trota 
pode restaurar o vermelho
dos corações vermelhos.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre Quem Você É"
Quero saber quem você é. Falam de uma voz 
clamando no deserto. De fora a fora do Antigo
Testamento uma voz, que não é a voz de Deus 
mas sabe o que passa pela cabeça de Deus, se 
faz ouvir. Enquanto espero, você podia me 
fazer um favor. Quem é você?
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§


"Fala Curta Sobre a Sensação
na Decolagem do Avião"
Sabe, eu fico pensando, podia ser o amor 
correndo na direção da minha vida com os 
braços para cima berrando vamos comprar 
é uma pechincha!
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022

§§

"Fala Curta Sobre Andar Para Trás"
Minha mãe nos proibia de andar de costas. 
É assim que andam os mortos, ela dizia. 
De onde terá tirado essa ideia? 
Talvez de uma tradução ruim. 
Os mortos, afinal, não andam para trás, mas andam atrás de nós. 
Não têm pulmões e não podem nos chamar, 
mas adoraríamos que nos virássemos. 
São vítimas de amor, muitos deles.
- Anne Carson, no livro 'Falas curtas'. [tradução de Laura Erber e Sergio Flaksman]. Relicário Edições, 2022
 

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Anne Cason - foto GTRES



Do livro  'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos' |  Anne Carson 

A beleza do marido” é um ensaio sobre a ideia do poeta John Keats de que beleza é verdade, e também a história de um casamento contada em vinte e nove tangos. Um tango – assim como um casamento – é algo que você precisa dançar até o fim.

Anne Carson, poeta e ensaísta premiada, além de uma das mais inventivas autoras da atualidade, faz desta obra um fascinante exercício de linguagem em que acompanhamos, a partir de cenas eróticas, comoventes, dolorosas e cômicas, um casamento que desmorona.

Somente Carson, grande especialista da literatura grega clássica, e que tem atualizado a leitura das obras do período, poderia criar um livro em que o mais antigo dos temas líricos, o amor, ganhasse uma abordagem tão inovadora e contundente.

Com “A beleza do marido”  Anne Carson se tornou a primeira mulher a receber o prestigiado prêmio T.S. Eliot, em 2002.


VII. Era apenas uma lavação de roupa suja de noite as vogais estalando no varal quando a mãe disse que som é esse
Poetas (tenha generosidade) preferem ocultar a verdade sob
estratos de ironia
porque essa é a aparência da verdade: tem camadas e é esquiva.
Ele era um poeta? Sim e não.

Suas cartas, concordamos, eram altamente poéticas. Elas caíram
na minha vida
feito pólen e tingiram tudo. Eu escondia as cartas de minha mãe
mas ela sempre soube.

Amada, misericordiosa
você escreve mas
não vem até mim. Essa minha mãe não leu.

Rabinos compararam a Torá ao sexo limitado da gazela
para quem o marido é toda vez
como a primeira vez. Essa minha mãe não leu.

Nesse caso aqui ele precisa estimulá-la.
Nesse caso aqui ele não precisa estimulá-la.
Não há dificuldade [veja a ilustração]. Essa ai de mim minha mãe não leu.

Se é verdade que em nossa época estamos testemunhando a
agonia do raciocínio sexual
então esse homem era uma “daquelas máquinas originais”
que leva os dispositivos libidinais a uma nova transparência.

Minha mãe se opôs a ele como a produção se opõe à sedução.
Quando me recusei a mudar de escola ela olhou para meu pai.
Em um ano nos mudamos para outra cidade

e é claro que a distância não fez diferença, pois afinal ele estava
no auge da escrita de cartas.
Sigilo é um hábito precoce, “chantagem da profunda” é uma lei
molecular.
Vamos dar uma olhada nisso.

Repressão diz mais sobre sexo do que qualquer outra forma de discurso
ou assim sustentam os especialistas modernos. Como uma
pessoa
consegue ter poder sobre a outra? é uma pergunta algébrica
você costumava dizer. “Desejo em dobro é amor e amor em
dobro é loucura.”
Loucura em dobro é casamento
eu acrescentei
quando o corrosivo era tesouro, em intenção de fazer disso
regra de ouro
- Anne Carson, no livro 'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos'. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira]. Bazar do Tempo, 2024.

§§

XIV. Tateando para calcular as dimensões a princípio você acha que é pedra depois tinta ou água preta onde a mão mergulha depois uma tigela de outro lugar de onde você puxa não tem mais mão  
Hoje eu não ganhei. Mas quem sabe amanhã,
Ele diria para si mesmo ao descer as escadas,
Logo ele ganhou.

Ainda bem porque na fumaça da sala ele se viu apostando
a fazenda do avô (que nem era dele)
e quarenta mil em dinheiro vivo (que eram dele).

Ah para contar à ela imediatamente ele saiu rebatendo pela calçada
até o orelhão mais próximo, a chuva das 5 da manhã saraivando
no pescoço.
Alô.
A voz dela saiu cortada. Onde você estava ontem à noite.
O temor rasga seu ardor.
Ah não

ele consegue ouvir ela escolher agora outra flecha da sua
pequena alijava
e a raiva cresce feito árvores na voz dela segurando
o coração dele no alto.

Só me sinto limpo ele diz de repente quando acordo ao seu lado.
A sedução da força vem de baixo.
Com um dedo
o rei do inferno escreve as iniciais dela no vidro como se fossem
coisas escaldadas.
É na dor visceral que a lenda
do marido brilha, canta.
- Anne Carson, no livro 'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos'. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira]. Bazar do Tempo, 2024.

§§

XX. E assim a porta do corredor se fecha novamente e todo o barulho desaparece  
No esforço de encontrar um caminho entre os conteúdos da
memória (enfatiza Aristóteles)
é útil um princípio de associação –
“passando rapidamente de um passo ao próximo.
Por exemplo de leite para branco,
de branco para ar,
de ar para umidade,
depois recorda-se do outono supondo que se esteja tentando
recordar daquela estação”.
Ou supondo,
cara pessoa que me lê,
que você esteja tentando recordar não do outono mas da liberdade,
um princípio de liberdade
que existia entre duas pessoas, pequenos e selvagens
como são os princípios – mas quais são as regras pra isso?
Como ele diz,
a loucura pode estar na moda.
Passe logo rapidamente
de um passo próximo,
por exemplo do mamilo ao membro
do membro ao quarto de hotel,
do quarto de hotel
à frase encontrada na carta que ele escreveu no táxi um dia ele
passou
pela esposa
andando
do outro lado da rua e ela nem o viu, ela estava –
tão engenhosas as providências do estado de fluxo que
chamamos de
nossa história moral não são elas tão precisas quanto proposições
matemáticas com a exceção de que são escritas em água –
a caminho do tribunal
para dar entrada nos papéis do divórcio, uma frase do tipo
que gosto tinha as suas pernas.
Depois disso por meio desta aptidão divina, a “memória das
palavras e coisas”,
recorda-se
da liberdade.
Isto sou eu? clama a alma apressada.
Pequena alma, pobre animal incerto:
cuidado com essa invenção de “tudo na vida é aprendizado”
como diz Aristóteles, Aristóteles aquele
que não tinha marido,
raramente menciona a beleza
e é provável que passava rápido de punho a escravizada
enquanto tentava recordar a palavra esposa.
- Anne Carson, no livro 'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos'. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira]. Bazar do Tempo, 2024.

§§

XXIV. E ajoelhada à beira do mar transparente moldarei para mim um novo coração de sal e lama
Um esposa está no domínio do ser.
Fácil dizer Por que não desistir?
Mas vamos supor que seu marido e uma certa mulher sombria
gostem de se encontrar em um bar logo depois do almoço.
Amar não é condicional.
Viver é muito condicional.
A esposa se posiciona em uma varanda fechada do outro lado da rua.
Assiste à mulher sombria
estender a mão para tocar a têmpora dele como se filtrasse algo.
Assiste a ele
se dobrar levemente em direção à mulher e voltar. Estão sérios.
A seriedade dos dois deixa ela devastada.
Pessoas que conseguem ficar sérias juntas, é profundo.
Tem uma garrafa de água na mesa entre eles
e dois copos.
Nenhum inebriante é necessário!
Quando foi que ele desenvolveu
esse novo paladar puritano?
Um navio gelado
deixa o porto em algum lugar bem dentro da esposa
e desliza rumo ao horizonte cinza plano,

nem pássaro nem sopro à vista.
- Anne Carson, no livro 'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos'. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira]. Bazar do Tempo, 2024.

§§

Marido: exercício final de campo recorte os três retângulos e os reorganize para que os dois comandantes estejam montados nos dois cavalos
Dói estar aqui
“Você é aquela que escapou.”
Contar uma história sem contá-la –
querida sombra, escrevi isso lentamente.
Os começos eram dela!
Meus os fins.
Mas tudo volta
para uma lua azul de junho
e uma noite maculada como diriam os poetas.
Alguns tangos fingem ser sobre mulheres mas olha isso.
Quem é que você vê
refletindo pequeno
em cada lágrima dela.
Olha pra mim virando essa página agora desse jeito você pensa
que é você.
- Anne Carson, no livro 'A beleza do marido: um ensaio ficcional em 29 tangos'. [tradução Julia Raiz e Emanuela Siqueira]. Bazar do Tempo, 2024.

§§


Anne Carson - foto: Einar Falur Ingolfsson


FORTUNA CRÍTICA DE ANNE CARSON

ANNE CARSON. Atenção ao homem cuja caligrafia balança como um junco ao vento, por Anne Carson. [Tradução de Giovani T. Kurz]. In: Editora Âyiné, 14 de março 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ANNE CARSON. Antropologia da Água, de Anne Carson. Tradução de Thaís Medeiros e Wallace Masuko. In: Rébus, 23 jun. 2021. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ANNE CARSON. El ser poético. In: Barcelona Metròpolis, n. 137, ene 26. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
ARÊAS, Vilma. Anne Carson: Rastros, vestígios e dragões venenosos. In: Acervo Pernambuco, s/data. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ARGOLO, André. [Anne Carson] Confundir para esclarecer. In: Rascunho, 1.9.2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026) 
AUAD, Pedro Henrique Trindade Kalil. Trauma e História em Nox, de Anne Carson. In: XIV simpósio nacional de letras e linguística e IV simpósio internacional de letras e linguística., 2013, Uberlândia. Anais do Silel. Uberlândia: EDUFU, 2013. v. 3. p. 1-6. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
BALBI, Henrique. De Homero a Brigitte Bardot, uma insólita mistura humana. In: O Globo, 21.10.2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
BAPTISTA NETTO, Irinêo. Leia "Falas curtas", de Anne Carson, sem tentar entender o livro. In: Plural Jornal, 6.3.2023. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
CALCAGNO, Victor Braga. O método Carson. In: ALEA - Estudos Neolatinos, Rio de Janeiro - v. 26, n. 3,   set/dez. 2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
CARVALHO, Bernardo. Ensaísmo de Anne Carson é original e inclassificável. In: Folha de S.Paulo, 11 de ago. de 2023. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
CONTI, Mario Sergio. Anne Carson parte de mitos gregos e surtos líricos para fazer poesia fraturada. In: Folha de S.Paulo, 19.11.2021. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
COSTA, Benedito. Anne Carson e seu labirinto mítico. In: Plural, 12 de junho 2022. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024)
DINIZ, Ligia Gonçalves. Anne Carson atualiza a leitura do amor como guerra e baratina leitores. In: Folha de S.Paulo, Ilustrada, 14 de julho 2024. Disponível no link. (acessado em 1.2.2026)
DWYER, Kate. Atirando-se no escuro”: um diálogo com Anne Carson [entrevista]. Tradução de Gustavo de Almeida Nogueira. In: revisra Piparote, 16.5.2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ESCAMANDRO. Anne Carson, por Steffano Lucchini. [poesia/tradução]. In: Escamandro, 26.9.2018. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
FAIA, Tatiana. Anne Carson – Sobre aquilo em que eu mais penso (Ed.34).. [resenha]. In: Revista Piparote, 18 de julho de 2023. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
FAIA, Tatiana. Eros, Amargo e Doce de Anne Carson (Edições 70, 2024). In: Enfermaria6, 25.11.2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
GONÇALVES, Rodrigo Tadeu; NASCIMENTO, Julia Raiz do.. A tradutora e o diálogo intermidiático em Antigonick de Anne Carson. In. Clássica (São Paulo), v. 32, p. 79-91, 2019. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
GONZAGA, Pedro. Poesia em Casa – ‘Eros, o agridoce’, de Anne Carson. In: Estado da Arte, Estadão, 25.2.2018. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024)
HOLDEFER, Camila von. Na Literatura de Anne Carson, um ato contínuo de tolerância. In: O Globo, 12 fev. 2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
KLEIN, Kelvin Falcão. Falas curtas. [crítica]. In: revista Continente, 5 de Outubro de 2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
LAMEGO, Cláudia. “Lírica como crítica, erudita como poeta”: a experiência doce e escorregadia de ler Anne Carson. In: Bazar do Tempo, s/data. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
LINS, Thais Arantes. Um encontro do/no acaso: linhas móveis entre o cinema de Dziga Vertov e a literatura de Anne Carson [Dissertação Mestrado em Literatura, Cultura e Contemporaneidade]. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-Rio, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
LOS LIBROS. [entrevista]. Anne Carson: "Con mi obra busco que la gente piense, me da igual qué". In: El Mundo / La Lectura, 13.10.2023. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
MACIEL JUNIOR, Sergio; DONADA, Jaqueline Bohn; SOUZA, Gabriela de.. O luto vaga os vãos do texto: Antigonick de Carson e a colaboração criativa do contemporâneo sobre o clássico. In: Revista de Letras, v. 27, p. 139-153, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
MACIEL JUNIOR, Sergio. 3 traduções para o ‘task of the translator’ da Antigonick de Anne Carson. In: Escamandro, 13.1.2017. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
MARQUES, Vinicius Fialho. Tradução e catástrofe: exercícios de tradução a partir de “variações no direito de permanecer em silêncio”, de Anne Carson. [Trabalho de conclusão de graduação em letras]. Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026) 
MARTINS, Helena. Paul Valéry e Anne Carson: em torno do que não existe. In: O que nos faz pensar, Rio de Janeiro, v. 31, n. 53, p. 220-238, jul-dez.2023. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
MARTINS, Helena. Escrever de volta: Anne Carson, Emily Dickinson. In: Remate de Males, Campinas/SP, v.38, n.2, pp. 703-725, jul./dez. 2018. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
MARTINS, Helena. Um poema como nota de tradução n’As bacantes de Anne Carson. In:  Cadernos de Tradução 44 (1) • 2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
MARTINS, Helena; BRITTO, Paulo Henriques. Um poema como nota de tradução n’As bacantes de Anne Carson. In: Cadernos de Tradução, Universidade Federal de Santa Catarina, v. 44, n. 1, n. p., 2024. 
MASSARONI, Júlia Ferreira. “The glass essay”: um espelho entre duas autoras. (TCC - graduação em literatura). Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 2020. In: Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
MEDEIROS, Thais; MASUKO, Wallace V.. Uma leitura de Meseta, de Anne Carson. In: Revista Rosa, s/data. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
MENDES, Ana Vitória Vanzin. "United by marriage, chained by nationality": a condição jurídica feminina e a nacionalidade a partir das variações na regulação da aquisição, manutenção e perda forçada do status nacional às mulheres por meio da superação de discursos e práticas consuetudinárias (1804 - 1957). [Dissertação Mestrado em Direito]. Universidade Federal de Santa Catarina 3 PPGD/UFSC, 2024. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
MEXIA, Pedro. Livros: as histórias sem fim de Anne Carson. In: Expresso, 2 de outubro 2025. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
MOREIRA, Inês Cardoso Martins. Tradução e comentário: Anne Carson e seus espelhamentos ensaísticos às traduções de tragédias gregas. In: Urdimento, Florianópolis, v.2, n.35, p. 249-262, ago/set 2019. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
MOREIRA, Inês Cardoso Martins. Antigonick e o espaço textual da performance. In: RUIZ, Giselle (org.). Articulações. Ensaios sobre corpo e performance. Prefácio de Angela Leite Lopes. Rio de Janeiro: 7letras, 2015. p.117-132.
MOITA, João. [tradução]. «Ensaio sobre aquilo em que mais penso», Anne Carson. Tradução de João Moita / De Men in the Off Hours (2001). In: Enfermaria6, 2.12.2013. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026) 
NASCIMENTO, Julia Raiz do.. Que tipo de withness comtitude seria essa? Traduzindo os ensaios de Anne Carson. [Tese Doutorado em Letras]. Universidade Federal do Paraná, UFPR, 2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
NASCIMENTO, Julia Raiz. Anne Carson e A Verdade Sobre Deus. In: Belas Infiéis, Brasília, v. 9, n. 2, p. 281-287, 2020. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
NEIVA, Leonardo. Eros, o Doce-Amargo [trecho de livro]. In: Gama Revista, 23 de Dezembro de 2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
NESTROVSKI, Sofia. Exercícios de apagamento - Com inspiração em Marcel Proust, obra inaugura o catálogo de livros da canadense Anne Carson no Brasil. In: Quatro Cinco Um, 7nov2018 | Edição #1 mai.2017. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
PENSAR. Primeira leitura: 'Falas curtas', de Anne Carson. In: Estado de Minas, 22.9.2022. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
PESSOA, Matheus Ely Cordeiro de Lima Vieira. No apagar das luzes da 'antigonick' de Anne Carson: considerações sobre retraduções e traduções (in)diretas. [Monografia Graduação em Letras - Tradução Inglês]. Universidade de Brasília, UnB, 2019. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026) 
PERELLO, Mariana. Um mapa peregrino para Anne Carson: algumas entradas em água corrente [Mestrado em Literatura, cultura e contemporaneidade]. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-Rio, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
PERELLO, Mariana. A minha tradução, a antropologia dela: deixando marcas livres em Anne Carson. In: Tradução em Revista (online), v. 2025, p. 208-225, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
PIANA, Leonardo. Anne Carson ganha novas edições no Brasil. In: Estadão, 17.12.2022. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026) 
POLONEA, Ashley. Aprender a se afogar: traduzir "Mimnermos: The Brainsex Paintings", de Anne Carson [Mestrado em Estudos da Linguagem]. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, PUC-Rio, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
POLONEA, Ashley. Traduzir o transe no tríptico literário Mimnermos: The Brainsex Paintings, de Anne Carson. In: Tradução em Revista (online), v. 2025, p. 226-246, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
POLONEA, Ashley. A tradução como catástrofe em Anne Carson. In: PUC Rio, 2022. Disponível no link. (acessada em 27.3.2024) 
QUEIROZ, Alberto de.. Tese banal - "O método Albertine", de Anne Carson, é um malogrado esforço de atrair o leitor para a obra de Proust. In: Rascunho, edição 206, junho de 2017. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
RABELO, Beatriz. Conheça Anne Carson, escritora ensaísta que reinventa o trágico e experimenta com fragmentos. In: Diário do Nordeste, 21 de Junho de 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
RAIZ, Julia. "Me sinto em casa debaixo d'água": um guia pela obra de Anne Carson. In: Acervo Pernambuco, s/data. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
RAMOS, Carmel. Entrevista: Irene Danowski Viveiros de Castro sobre Anne Carson. In: Enciclopédia Mulheres na Filosofia, 15 de out. de 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ROS, Cristina. ‘Norma enrevesada’, de Anne Carson: el nuevo libro de la escritora inclasificable que dialoga entre lo clásico y lo contemporâneo. In: El Diário, 6.6.2025. Disponível no link. (acessado em 31.1.2026)
RUBIM, Mariel Corrêa Martins. A 'gerioneida' De estesícoro adaptada e expandida por Anne Carson em autobiography of red [Dissertação Mestrado em Letras]. Universidade Federal do Paraná, UFPR, 2020. Disponível no linklink. (acessado em 30.1.2026)
SALDANHA, Rafael. O problema do amor e da distância em Anne Carson. In: Veritas (Porto Alegre),  v. 66 n. 1, 2021. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
SALDANHA, Rafael. The Problem of Love and Distance in Anne Carson. In: Crisis and Critique, v. 9, p. 400-422, 2021.
SILVA, Amaury. O caleidoscópio de Anne Carson. In: Jornal da Cidade de GV, Governador Valadares, p. 5 - 5, 4 ago. 2024.
TAVARES, Otávio Guimarães. Anne Carson tradutora de Antígona: performance e tradução de um grito. In: Anuário de Literatura, v. 25, p. 119-138, 2020. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
TRADUÇÃO. Sobre aquilo em que mais penso: ensaios, de Anne Carson . tradução de Fernanda Drummond. In: revisa A!, 19 de fevereiro 2016. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
VIVEIROS DE CASTRO, Irene. Figures d'Eros: étude de la relation entre Eros, matière et métaphore [Mestrado em Philosophies]. Université Toulouse Jean Jaurès, UT2J, França, 2021. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026).
VIVEIROS DE CASTRO, Irene. Anne Carson(1950). [verbete]. In: Blogs de Ciência da Universidade Estadual de Campinas: Mulheres na Filosofia, v. 7, p. 1-18, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
VIVEIROS DE CASTRO, Irene. Transbordamentos: a feminidade equívoca de Anne Carson. In: Eutomia, Recife, v.1, n.36. p.33-53, dez. 2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026) 
ZACCA FERNANDES, Rafael. O ardil de eros: o desejo em Anne Carson. O que nos faz pensar, Rio de Janeiro, v. 30, n. 51, p. 140-167, jan.-jun. 2022. Disponível no link. e link (acessado em 30.1.2026)
ZACCA FERNANDES, Rafael. Erudição e amadorismo: notas sobre o ensaio e o poema-ensaio em Anne Carson. In:  Alea: Estudos Neolatinos - v. 26, p. 1-17, 2024. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
ZACCA FERNANDES, Rafael. Tradução como ensaio: Algumas notas sobre Antigonick de Anne Carson. In: Viso - Cadernos de Estética Aplicada, v. 19, p. 364-389, 2025. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)
30.1.2026)
ZACCA FERNANDES, Rafael. Os arquivos do luto e as lições patéticas: uma educação sentimental em Anne Carson. In: Elyra - Revista da Rede Internacional Lyracompoetics, p. 265-283, 2021. Disponível no link. (acessado em 30.1.2026)

ADJETIVOS
O que é um adjetivo? Substantivos nomeiam o mundo. Verbos ativam os nomes. Adjetivos vêm de outro lugar. A palavra adjetivo (epitheton em grego) é ela própria um adjetivo que significa “colocado sobre", "acrescentado”, anexado”, “importado", "estrangeiro”. Adjetivos parecem acréscimos bastante inocentes, mas vejamos. Esses pequenos mecanismos importados estão encarregados de vincular todas as coisas do mundo ao seu lugar no particular. São os trincos do ser.
- Anne Carson, no livro "Autobiografia do vermelho: um romance em versos". [tradução Ismar Tirelli Neto]. Editora 34, 2021, p. 10.

Anne Cason - foto: Miquel Taverna



ADAPTAÇÃO PARA O TEATRO | BRASIL

Peças de teatro
Espetáculo: Autobiografia do Vermelho | Com Bianca Comparato. Direção Daniela Thomas / Baseado no romance em verso de Anne Carson | Ano: 2026

 
Anne Cason - foto: Toni Albir / EFE


«Ensaio sobre aquilo em que mais penso», Anne Carson
Ensaio 5

O erro.
E suas emoções.
Na iminência do erro, uma condição para o medo.
No meio do erro, um estado de tolice e derrota.
A percepção de termos errado traz vergonha e remorso.
Ou não?

Vamos analisar.
Muita gente, por exemplo Aristóteles, acha que o erro
é um acontecimento mental interessante e valioso.
Na discussão sobre metáforas de sua Retórica
Aristóteles diz que há três tipos de palavras.
As estranhas, as comuns e as metafóricas.

"As palavras estranhas simplesmente nos confundem;
as palavras comuns transmitem o que já sabemos;
mas com metáforas podemos alcançar algo novo e fresco"
(Retórica, 1410b10-3)
No que consiste o frescor da metáfora?
Aristóteles diz que a metáfora faz com que a mente sinta a si mesma

no ato de se enganar.
Ele visualiza a mente seguindo pela superfície plana da língua comum 

quando de repente
a superfície se rompe ou se complica.
Surge o inesperado.

Primeiro parece estranho, contraditório ou uma coisa errada.
E então faz sentido.
É neste momento que, segundo Aristóteles,
a mente vira para si mesma e diz:
“É tão verdadeiro, e ainda assim eu me enganei!”
Com os enganos verdadeiros da metáfora, pode-se aprender uma lição.

Não só que as coisas não são o que parecem,
e por isso nos enganamos sobre elas,
mas que também esse engano é valioso.
Aferre-se a isso, diz Aristóteles,
há muito o que ver e sentir por aqui.
As metáforas ensinam a mente

a gostar do erro
e a aprender
com a justaposição do que vem e o que não vem ao caso.
Existe um provérbio chinês que diz:
uma pincelada não faz dois caracteres.
E ainda assim,

é exatamente isso que faz um bom engano.
Aqui vai um exemplo.
É um fragmento de um antigo poema grego
que contém um erro de aritmética.
O poeta parece não saber
que 2+2=4.

Álcaman fragmento 20:
[?] fez três estações, verão
e inverno e a terceira, outono,
e a quarta, primavera, quando
tudo floresce mas de comer o bastante não há.
 
Álcman viveu em Esparta no século VII a.C.
Ora, Esparta era um lugar pobre
e é pouco provável
que Álcman levasse uma vida opulenta ou saciada.
Este fato é o pano de fundo de suas observações
que levam à fome.

A fome sempre
parece um engano.
Álcman nos faz sentir esse engano
com ele
através do emprego eficaz de um erro de cálculo.
Para um espartano pobre cuja

despensa está vazia
ao fim do inverno –
a primavera chega, enfim,
como uma reflexão tardia da economia natural,
quarto elemento de uma série de três,
tornando instável sua aritmética.

E encavalgando os seus versos.
O poema de Álcman se interrompe a meio do caminho de um pé iâmbico
sem explicar
de onde a primavera veio
ou por que os números não nos ajudam
a melhor controlar o real

Gosto de três coisas no poema de Álcman.
A primeira, ele é pequeno,
leve, e mais que perfeitamente econômico.
A segunda, parece sugerir tons como o verde-claro sem nunca os nomear.

A terceira é que ele consegue pôr em jogo grandes questões metafísicas (como Quem fez o mundo) sem análises patentes. Vocês viram que o verbo "fez" no primeiro verso
não tem sujeito: [?]

É muito incomum em grego um verbo sem sujeito; na verdade, é um erro de gramática. Os filólogos rigorosos lhes dirão que esse erro é apenas um acidente da transmissão, que o poema tal como nos chegou

é certamente um fragmento de um texto maior, e que Álcman, muito provavelmente, nomeou, sim, o agente da criação nos versos que precedem estes que temos.
Pois é bem possível.

Mas vocês bem sabem que o objetivo maior da filologia
é reduzir todo prazer textual
a um acidente histórico.
E fico desconfortável quando qualquer pessoa afirma saber exatamente o que um poeta quis dizer.
Então deixemos o ponto de interrogação

no começo do poema
e admiremos a coragem de Álcman de encarar o que há entre os colchetes.
A quarta coisa de que eu gosto
no poema de Álcman
é a impressão que ele passa

de ter deixado a verdade escapar sem querer.
Tantos poetas aspiram a esse tom de lucidez desprevenida mas poucos a alcançam com tal simplicidade.
É claro que sua simplicidade é falsa.
Não tem nada de simples ali, Álcman

é um inventor exímio
ou o que Aristóteles chamaria de "imitador"
da realidade.
Imitação (mimesis em grego)
é o nome genérico que Aristóteles dá aos enganos verdadeiros da poesia.
O que eu gosto nesse termo

é a facilidade com que ele aceita
que aquilo a que nos prestamos quando fazemos poemas é
o erro,
a criação obstinada do erro,
as deliberadas difusão e complicação de enganos,
a partir das quais poderá surgir
o inesperado.

Assim um poeta como Álcman põe de lado medo, ansiedade, vergonha, remorso e tantas outras emoções bestas associadas ao cometimento de enganos

para trazer o quê da questão.
O quê da questão para os humanos é a imperfeição.

Álcman quebra as regras da aritmética, compromete a gramática e bagunça a métrica de seu verso para nos enredar nessa questão. No final do poema, o fato permanece, e é provável que a fome de Álcman também.

Mas algo mudou no quociente das nossas expectativas.
Pois ao fazer com que elas se enganassem,
Álcman aperfeiçoou algo.
Na verdade, fez
algo mais do que aperfeiçoar.
E com uma só pincelada.

- Anne Carson, no livro "Sobre aquilo em que mais penso: ensaios". [tradução Sofia Nestrovski]. Editora 34, 2023.



© Pesquisa, seleção, edição e organizaçãoElfi Kürten Fenske


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COMO CITAR:
FENSKE, Elfi Kürten
. (pesquisa, seleção, edição e organização). Anne Carson - um dialogo entre o clássico e o contemporâneo. In: Templo Cultural Delfos, fevereiro/2026. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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:: Página atualizada em 1.2.2026.
:: Página original de FEVEREIRO/2026


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