Seamus Heaney - poeta irlandês

Seamus Heaney - foto (...)
Seamus Heaney poeta irlandês, ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 1995 e o Prêmio T. S. Eliot em 2006. Professor de Literatura nas universidades de Oxford e Harvard, ensaísta de reconhecida importância e grande tradutor de poesia, Heaney foi também dramaturgo.
Heaney nasceu a 13 de Abril de 1939 numa quinta agrícola, em Mossbawn, County Derry – era o mais velho dos nove filhos de Patrick e Margaret Heaney, um casal de lavradores –, Seamus Heaney estudou Literatura na Universidade de Belfast e estreou-se como poeta em 1965, com o livro Eleven Poems.  
A propriedade dos pais chamava-se Mossbawn, palavra que se tornará recorrente na sua poesia, atravessada de memórias da sua infância na Irlanda rural. A quinta paterna ficava na Irlanda do Norte, pelo que o poeta nasceu em território do Reino Unido, mas Seamus Heaney deixou claro desde cedo que se considerava um poeta irlandês. Em 1982, protestou mesmo contra a sua inclusão numa importante antologia de poetas ingleses organizada por Blake Morrison e Andrew Motion – The Penguin Book of Contemporary British Poetry –, avisando, em verso: “Be advised my passport’s green./ No glass of ours was ever raised/ to toast the Queen”.
Aos 12 anos, o jovem Seamus ganhou uma bolsa de estudo que lhe permitiu estudar numa escola católica, o St. Columbus College, em Derry. Foi lá que recebeu a notícia de que o seu irmão Christopher, de 4 anos, morrera num acidente de viação. Muito mais tarde, no comovente poema Mid-Term Break, Seamus Heaney recorda que uns vizinhos foram buscá-lo ao colégio e que, ao chegar a casa, encontrou o pai a chorar no alpendre.
Terminados os estudos liceais, mudou-se para Belfast, em cuja universidade estudou língua e literatura inglesas. Um livro do poeta inglês Ted Hughes (1930-1998), que descobre casualmente, impressiona-o tanto que decide tornar-se ele próprio poeta. “De repente”, explicará mais tarde, “a questão da poesia contemporânea era o material da minha própria vida”. Heaney terá oportunidade de conviver com Ted Hughes ainda nos anos 60 e descreve-o, na entrevista a Alexandra Lucas Coelho, como “uma figura muito poderosa, fisicamente”, e com uma grande energia criativa: “Era como estar numa sala com um jovem cavalo”.
Formado em 1961, Heaney frequenta depois um curso de formação de professores e começa a publicar poemas em revistas e a conviver com outros poetas de Belfast, como Derek Mahon ou Michael Longley. E em 1965, no mesmo ano em que se casa com a professora e escritora Marie Devlin – destinatária de boa parte dos seus versos – , publica o seu primeiro livro, Eleven Poems. Mas a sua verdadeira estreia ocorre no ano seguinte, com a edição, na prestigiada Faber and Faber, de Death of a Naturalist, que ganhou vários prêmios literários.
Seamus Heaney - foto: Fergal Kearney
Ainda em 1966, Seamus Heaney é nomeado professor de Literatura Inglesa Moderna na Queen’s University de Belfast, onde se licenciara, e nasce o primeiro dos seus três filhos, Michael.
Em 1972, radica-se com a família na República da Irlanda, em Dublin, continuando a ensinar literatura, enquanto a sua obra poética e o seu trabalho ensaístico vão alcançando crescente reconhecimento crítico. Em 1980, a Faber publica uma escolha da sua poesia e um outro volume com a sua prosa selecionada.
Também a sua carreira acadêmica progride: é convidado, em 1981, para leccionar na prestigiada universidade americana de Harvard e, em 1989, torna-se professor de Poesia na Universidade de Oxford. As frequentes leituras públicas que faz da sua poesia enchem as salas e atraem um exército de jovens fãs, cujo entusiasmo levou a que alguém tivesse posto a correr a expressão  “Heaneyboppers”, um jogo de palavras com “teenyboppers”, termo que designa adolescentes obcecados com ícones da música ou da moda.
A sua popularidade irá tornar-se mundial em 1995, quando recebe o Prémio Nobel da Literatura. O júri sublinhou a “beleza lírica” e a “profundidade ética” de uma poesia que “exalta os milagres quotidianos e o passado vivo”. Heaney tornava-se assim o quarto irlandês consagrado pela Academia Sueca, depois de Yeats, G. B. Shaw e Samuel Beckett.
:: Fonte: Público/Portugal 


PARA BERNARD E JANE MCCABE
Leito do rio, seco, cheio de folhas quase.
Nós, a escutar um rio nas árvores.
.

FOR BERNARD AND JANE MCCABE
The riverbed, dried-up, half full of leaves.
Us, listening to a river in the trees.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.


OBRAS PUBLICADAS EM PORTUGUÊS
Seamus Heaney, by Tai-Shan Schierenberg (2004)
:: Da Terra à Luz: Poemas 1966-1987. Seamus Heaney. [tradução, prefácio e notas de Rui Carvalho Homem]. Lisboa: Relógio D’Água, 1997.
:: Antologia poética. Seamus Heaney. [seleção e tradução de Vasco Graça Moura]. Coleção Campo da Poesia. Porto: Campo das Letras, 1998.
:: Poemas. Seamus Heaney.[tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
:: Luz eléctrica (Electric Light)Seamus Heaney. [tradução e notas de Rui Carvalho Homem]. Edição bilíngue. Vila Nova de Famalicão: Quási Edições, 2003.

Antologias (participação)
:: Leituras, poemas do inglês. [seleção, tradução e prefácio de João Ferreira Duarte]. Lisboa: Relógio de Água, 1993.
:: Poesia Alheia, 124 Poemas traduzidos. [tradução, organização e prefácio Nelson Ascher; 'Orelhas' de Arthur Nestrovski]. Edição bilíngue. Coleção Lazuli. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1998.
:: A forja. (antologia poesia irlandesa).. [tradução Marcelo Tápia]. Edição bilíngue. Coleção Bagatela. São Paulo: Olavobrás, 2003.



Seamus Heaney
poemas de seamus heaney (edição bilíngue)
CAVAR
Entre o dedo e o dedão a caneta
Parruda pousa; como arma pega.

Sob minha janela, um som raspante e claro
Quando a pá penetra a crosta de cascalho:
Meu pai, cavando. Olho para baixo.

Até seu dorso reteso entre os canteiros
Encurvar-se, brotarem vinte anos atrás
Dobrando-se em cadência nos batatais
Onde estava cavando.

A chanca aninhada no rebordo, o cabo
Alçado contra o joelho interno com firmeza.
Ele extirpava talos altos, fincava o fio luzidio
Para espalhar batatas novas que colhíamos
Adorando a fresca dureza nas mãos.

Por Deus, o velho sabia usar uma pá.
Tal qual o velho dele.

Meu avô cortou mais turfa num dia
Do que qualquer outro homem no pântano de Toner.
Uma vez levei leite numa garrafa
Mal rolhada com papel. Ele aprumou-se
Para bebê-lo, e em seguida pôs-se a
Talhar e fatiar com precisão, lançando
Torrões nos ombros, indo mais embaixo atrás
Da turfa boa. Cavando.

O cheiro frio de barro de batata, o chape e o trape
De turfa empapada, os curtos cortes de um fio
Nas raízes vivas despertam em minha cabeça.
Mas pá não tenho para seguir homens como eles.

Entre o dedo e o dedão a caneta
Parruda pousa.
Vou cavar com ela.
.

DIGGING
Between my finger and my thumb
The squat pen rests; snug as a gun.

Under my window, a clean rasping sound
When the spade sinks into gravelly ground:
My father, digging. I look down

Till his straining rump among the flowerbeds
Bends low, comes up twenty years away
Stooping in rhythm through potato drills
Where he was digging.

The coarse boot nestled on the lug, the shaft
Against the inside knee was levered firmly.
He rooted out tall tops, buried the bright edge deep
To scatter new potatoes that we picked,
Loving their cool hardness in our hands.

By God, the old man could handle a spade.
Just like his old man.

My grandfather cut more turf in a day
Than any other man on Toner’s bog.
Once I carried him milk in a bottle
Corked sloppily with paper. He straightened up
To drink it, then fell to right away
Nicking and slicing neatly, heaving sods
Over his shoulder, going down and down
For the good turf. Digging.

The cold smell of potato mould, the squelch and slap
Of soggy peat, the curt cuts of an edge
Through living roots awaken in my head.
But I’ve no spade to follow men like them.

Between my finger and my thumb
The squat pen rests.
I’ll dig with it.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

MORTE DE UM NATURALISTA
O coradouro de linho ulcerava no coração
Da aldeia o ano todo; verde e cabeçudo linho
Lá apodrecera, dobrado com o peso de torrões. 
Dia a dia sufocava sob o sol punitivo.
Bolhas gorgolhavam brandas, varejeiras urdiam
Vigorosa gaze de som ao redor do fedor.
Havia libélulas, borboletas furta-cor,
Mas melhor do que tudo era a cálida e grossa baba
Das ovas das rãs crescendo como coágulo de água
Na sombra das barrancas. Aqui, toda primavera eu 
Entupia potes de geléia com os gelatinosos
Pontinhos que dispunha nos parapeitos de casa,
Nas estantes da escola, e esperava e espreitava, até
Que os pinguinhos gordalhaços rebentassem em lépidos
Girinos nadadores. Miss Walls nos 
Explicava que a rã-papai se chamava rã-touro
E que ele coaxava, e que a rã-mamãe punha centenas
De ovinhos e que eles é que eram ovas. Você
Podia distinguir o tempo pelas rãs também
Porque elas eram amarelas no sol e marrons
Na chuva.

    Então num dia quente, quando a relva
Dos campos cheirava a esterco de vaca e rãs raivosas
Invadiram o coradouro, me esgueirei por sebes
Debaixo de um coaxo crasso que nunca escutara
Antes. O ar estava cerrado com um coro baixo.
No fundo da barranca rãs pançudas se aprumavam
Em torrões; os papos, panos pulsando. Umas pulavam: 
O baque e o chape um obsceno ameaço. Outras na pose
De granadas de lama, a cabeça obtusa peidando.
Enjoei, volteei e corri. Os grandiosos reis da vasa
Ali se congregavam para a vingança e eu sabia
Que se mergulhasse a mão as ovas a agarrariam.
.

DEATH OF A NATURALIST
All year the flax-dam festered in the heart
Of the townland; green and heavy headed
Flax had rotted there, weighted down by huge sods.
Daily it sweltered in the punishing sun.
Bubbles gargled delicately, bluebottles
Wove a strong gauze of sound around the smell.
There were dragonflies, spotted butterflies,
But best of all was the warm thick slobber
Of frogspawn that grew like clotted water
In the shade of the banks. Here, every spring
I would fill jampotfuls of the jellied
Specks to range on window-sills at home,
On shelves at school, and wait and watch until
The fattening dots burst, into nimble –
Swimming tadpoles. Miss Walls would tell us how
The daddy frog was called a bullfrog
And how he croaked and how the mammy frog
Laid hundreds of little eggs and this was
Frogspawn. You could tell the weather by frogs too
For they were yellow in the sun and brown
In rain.

    Then one hot day when fields were rank
With cowdung in the grass the angry frogs
Invaded the flax-dam; I ducked through hedges
To a coarse croaking that I had not heard
Before. The air was thick with a bass chorus.
Right down the dam gross-bellied frogs were cocked
On sods; their loose necks pulsed like sails. Some hopped:
The slap and plop were obscene threats. Some sat
Poised like mud grenades, their blunt heads farting.
I sickened, turned, and ran. The great slime kings
Were gathered there for vengeance and I knew
That if I dipped my hand the spawn would clutch it.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

COLHEITA DE AMORAS-PRETAS
      Para Philip Hobsbaum

Fim de agosto, em semana de pesadas chuvas 
E sol, e as amoras-pretas vinham maduras.
Primeiro, coalho vivo púrpura, uma só
Entre outras, rubras, verdes, duras como nó.
Comia-se a primeira, a polpa doce qual
Vinho encorpado: havia nela sangue estival
Tingindo a língua e dando uma ânsia de colher. 
As rubras tintavam-se e a gana era correr 
Com vasilhas de leite, ervilha e gelatina 
Onde a silva fere e a relva alveja as botinas. 
Pelos campos de feno e milho e batateiras 
Colhíamos até as vasilhas estarem cheias, 
Até os fundos tilintantes se cobrirem
Com as verdes, e em cima torvas bolhas arderem
Qual prato de olhos. As mãos pungindo com picos, 
As palmas como as de Barba-Azul um só visco.

Cachávamos no estábulo as amoras frescas.
Mas quando o tanque enchia estava lá uma seda,
Um fungo cinza-rato tragando as vitualhas.
O suco também fedia. Fora das matas
O fruto era fermento, a polpa doce aziúme.
Queria chorar, sempre. Não era justo que uma
Gostosa colheita cheirasse a podridão.
Todo ano achava que ia durar, sabia que não.
.

BLACKBERRY-PICKING
       for Philip Hobsbaum

Late August, given heavy rain and sun 
For a full week, the blackberries would ripen. 
At first, just one, a glossy purple clot 
Among others, red, green, hard as a knot. 
You ate that first one and its flesh was sweet 
Like thickened wine: summer's blood was in it 
Leaving stains upon the tongue and lust for 
Picking. Then red ones inked up and that hunger 
Sent us out with milk cans, pea tins, jam-pots 
Where briars scratched and wet grass bleached our boots. 
Round hayfields, cornfields and potato-drills 
We trekked and picked until the cans were full, 
Until the tinkling bottom had been covered 
With green ones, and on top big dark blobs burned 
Like a plate of eyes. Our hands were peppered 
With thorn pricks, our palms sticky as Bluebeard's. 

We hoarded the fresh berries in the byre. 
But when the bath was filled we found a fur, 
A rat-grey fungus, glutting on our cache. 
The juice was stinking too. Once off the bush 
The fruit fermented, the sweet flesh would turn sour. 
I always felt like crying. It wasn't fair 
That all the lovely canfuls smelt of rot. 
Each year I hoped they'd keep, knew they would not.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

SEGUIDOR
Meu pai lavrava com charrua e cavalo.
Os ombros redondos como velas pandos
Entre os varais e o sulco. Bastava um estalo
De língua e os cavalos iam forcejando.

Um conhecedor. Colocava a travessa
E ajustava a relha de aço agudo e vivo.
Rolavam sem quebrar os torrões de terra.
Na borda do campo, a um tirão imprevisto

De rédeas, a junta suarenta virava
E voltava para o terreno. Ele
Estreitava um olho a fitar a lavra,
Traçando o sulco exatamente.

Eu tropeçava nas pegadas das botas,
Caía às vezes na céspede luzida;
Às vezes ele levava-me nas costas
Descendo e subindo ao ritmo da lida

Eu queria crescer e lavrar,
Fechar um olho, firmar os braços.
Tudo o que fiz foi seguir sem parar
Pela fazenda à sombra de seus passos.

Um estorvo, falante, falseando,
Caindo sempre. Mas agora
É meu pai que vive tropeçando
Atrás de mim, e não vai embora.
.

FOLLOWER
My father worked with a horse-plough,
His shoulders globed like a full sail strung
Between the shafts and the furrow.
The horse strained at his clicking tongue. 

An expert. He would set the wing
And fit the bright steel-pointed sock.
The sod rolled over without breaking.
At the headrig, with a single pluck 

Of reins, the sweating team turned round
And back into the land. His eye
Narrowed and angled at the ground,
Mapping the furrow exactly. 

I stumbled in his hob-nailed wake,
Fell sometimes on the polished sod;
Sometimes he rode me on his back
Dipping and rising to his plod. 

I wanted to grow up and plough,
To close one eye, stiffen my arm.
All I ever did was follow
In his broad shadow round the farm. 

I was a nuisance, tripping, falling,
Yapping always. But today 
It is my father who keeps stumbling
Behind me, and will not go away.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

INTERRUPÇÃO LETIVA
Passei toda a manhã na enfermaria do colégio
Contando os sinos a repicarem o fim das aulas.
Às duas os vizinhos me levaram para casa.

Na varanda encontrei meu pai chorando –
Ele sempre enfrentara enterros sem se perturbar –
E Big Jim Evans dizendo que era um revés terrível.

O bebê rulava, ria e embalava o carrinho
Quando entrei, e fiquei desconcertado com os velhos
Que se levantavam para me apertar a mão

E falar que tinham “pena do meu penar”.
Cochichava-se aos estranhos que eu era o mais velho,
Em colégio interno, e minha mãe segurava minha mão

Na dela, a tossir suspiros de cólera sem lágrimas.
Às dez horas a ambulância chegou
Com o corpo, lavado e enfaixado pelos enfermeiros.

Na manhã seguinte subi ao quarto. Fura-neves
E velas serenavam a cabeceira; via-o
Pela primeira vez em seis semanas. Mais pálido

Agora, com um calombo na têmpora esquerda,
Jazia no caixão de quatro pés como no berço.
Sem sinal que se visse, o pára-choque o pegou sem engano.

Caixão de quatro pés, um pé para cada ano.
.

MID-TERM BREAK
I sat all morning in the college sick bay
Counting bells knelling classes to a close
At two o´clock neighbours drove me home.

Inthe porch I met my father crying –
He had always taken funerals in his stride –
And Big Jim Evans saying it was a hard blow.

The baby cooed an laughed and rocked the pram
When I came in, and I was embarrassed
By old men standing up to shake my hand

And tell me they were “sorry for my trouble”.
Whispers informed strangers I was the eldest,
Away at school, as my mother held my hand

In hers and coughed out angry tearless sighs.
At ten o´clock the ambulance arrived
With the corpse, stanched and bandaged by the nurses.

Next morning I went up into the room. Snowdrops
And candles soothed the bedside; I saw him
For the first time in six weeks. Paler now,

Wearing a poppy bruise on his left temple,
He lay in the four foot box as in his cot.
No gaudy sacars, the bumper knocked him clear.

A four foot box, a foot for every year.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

POEMA
      Para Marie

Amor, aperfeiçoarei para você o menino
Que em meu cérebro com diligência manheira
Cava com pá pesada e faz com relva arrimo
Ou patinha no esterco de funda caleira.

Todo ano eu semeava o metro de jardim.
Com camadas de céspede o muro eu erguia
Para ter distantes galinhas e bacorim.
Todo ano, à entrada deles, o monte ruía.

Ou no lodo sugante eu chapinhava
Com gosto e representava fluidez da caleira,
Mas sempre meus bastiões de argila e vasa
Rompiam-se com a vinda da chuva-criadeira.

Amor, aperfeiçoe para mim este menino
De estreitos e imperfeitos limites quebrando ao léu:
Dentro em novos limites agora, ordene o domínio
E quadre o círculo: quatro paredes e um anel.
.

POEM
       For Marie

Love, I shall perfect for you the child
Who diligently potters in my brain
Digging with heavy spade till sods were piled
Or puddling through muck in a deep drain.

Yearly I would sow my yard-long garden.
I’d strip a layer of sods to build the wall
That was to keep out sow and pecking hen.
Yearly, admitting these, the sods would fall.

Or in the sucking clabber I would splash
Delightedly and dam the flowing drain
But always my bastions of clay and mush
Would burst before the rising autumn rain.

Love, you shall perfect for me this child
Whose small imperfect limits would keep breaking:
Within new limits now, arrange the world
And square the circle: four walls and a ring.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

HÉLICON PESSOAL
      Para Michael Longley

Quando menino, eu era doido por poços e
Velhas bombas de água com baldes e sarilho.
Amava a queda negra, o céu cativo, odores
De erva aquática, fungo e musgo umedecido.
Um, na olaria, a tampa de madeira podre.
Eu saboreava o baque intenso quando ia
A pique o balde na extremidade da corda.
Tão fundo que reflexo nele não se via.
Um raso, embaixo de um fosso de pedras secas,
Frutificava como todos os aquários.
Você extirpava longas raízes da vasa
E no fundo surgia um rosto branco aos pairos.
Outros, com ecos, devolviam nossos berros
Com nova e clara música. E um outro era tetro
Porque, do meio de dedaleiras altas e fetos, 
Saltava um rato que estapeava meu reflexo.
Agora, remexer raiz, tocar o limo,
Perscrutar, olho-grande Narciso, nascentes
É abdicar de adulta dignidade. Rino 
Para me ver, tornar as trevas ecoantes. 
.

PERSONAL HELICON
          for Michael Longley
  
As a child, they could not keep me from wells
And old pumps with buckets and windlasses.
I loved the dark drop, the trapped sky, the smells
Of waterweed, fungus and dank moss.
One, in a brickyard, with a rotted board top.
I savoured the rich crash when a bucket
Plummeted down at the end of a rope.
So deep you saw no reflection in it.
A shallow one under a dry stone ditch
Fructified like any aquarium.
When you dragged out long roots from the soft mulch
A white face hovered over the bottom.
Others had echoes, gave back your own call
With a clean new music in it. And one
Was scaresome, for there, out of ferns and tall
Foxgloves, a rat slapped across my reflection.
Now, to pry into roots, to finger slime,
To stare, big-eyed Narcissus, into some spring
Is beneath all adult dignity. I rhyme
To see myself, to set the darkness echoing.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

RÉQUIEM PARA OS TOSADOS
Os bolsos dos capotes cheios de cevada –
Sem rancho em fuga, ou acampamento de brilho –
Íamos rápidos e súbitos na pátria.
O padre atrás nas trincheiras com o andarilho.
Um povo, mal marchando – numa longa andança –
Achamos novas táticas a cada dia:
Perpassávamos rédeas e cavaleiro com a lança
E estourávamos boiada contra uma infantaria,
Depois refúgio em sebes, da cavalaria a perdição.
Até que veio, em Vinegar Hill, o fatal conclave.
Em terraços milhares morreram, foice contra canhão.
A encosta corou, sugando nossa quebrada vaga.
Sepultaram-nos sem mortalha e sem caixão
E em agosto a cevada germinou na vala.
.

REQUIEM FOR THE CROPPIES
The pockets of our greatcoats, full of barley — 
No kitchens on the run, no striking camp — 
We moved quick and sudden in our own country. 
The priest lay behind ditches with the tramp. 
A people, hardly marching — on the hike— 
We found new tactics happening each day: 
We’d cut through reins and rider with the pike 
And stampede cattle into infantry, 
Then retreat through hedges where cavalry must be thrown. 
Until, on Vinegar Hill, the fatal conclave. 
Terraced thousands died, shaking scythes at cannon. 
The hillside blushed, soaked in our broken wave. 
They buried us without shroud or coffin 
And in August the barley grew up out of the grave.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

VIAGEM NOTURNA
O lugar-comum tinha novas fragrâncias
Na viagem noturna pela França:
Chuva e feno e floresta na atmosfera
Circulavam ar quente no carro aberto.

Placas branqueavam inexoráveis
Montreuil, Abbéville, Beauvais:
Em promessa e promessa, indo e vindo,
Cada local o que há no nome cumprindo.

Uma colhedeira a gemer fora de horas
Sangrava sementes na luz do farolete.
Um incêndio na mata ia ardendo lento.
Um por um os cafés fechavam as portas.

Não parei de pensar em você ali a
Mil milhas ao sul onde a Itália
Dá o lombo à França na dura esfera.
Seu lugar-comum ali revivera.
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NIGHT DRIVE
The smells of ordinariness
Were new on the night drive through France:
Rain and hay and woods on the air
Made warm draughts in the open car.

Signposts whitened relentlessly.
Montrueil, Abbéville, Beauvais
Were promised, promised, came and went,
Each place granting its name’s fulfilment.

A combine groaning its way late
Bled seeds across its work-light.
A forest fire smouldered out.
One by one small cafés shut.

I thought of you continuously
A thousand miles south where Italy
Laid its loin to France on the darkened sphere.
Your ordinariness was renewed there.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

RELÍQUIA DE MEMÓRIA
As águas do lago
Petrificam madeira:
Velhos remos e mourões
Ao longo dos anos
Endurecem veios,
Confinam aparições

De seiva e sazão.
Os baixios marulham
Em toma lá, dá cá:
Abluções constantes,
Tal amor que se afoga
Estupefaz estaca

Em estalagmite.
Lava morta,
A estrela que esfria,
Carvão e diamante,
Ou súbito nascer
De meteoro que ardia

São simples demais,
Sem a sedução
Que relíquia armazena –
Um fragmento de pedra
Na estante da escola,
Cor de mingau de aveia.
.

RELIC OF MEMORY
The lough waters
Can petrify wood:
Old oars and posts
Over the years
Harden their grain,
Incarcerate ghosts

Of sap and season.
The shallows lap
And give and take:
Constant ablutions,
Such drowing love
Sturn a stake

To stalagmite.
Dead lava,
The cooling star,
Coal and diamond
Or sudden birth
Of burnt meteor

Are too simple,
Without the lure
That relic stored –
A piece of stone
On the shelf at school,
Oatmeal coloured.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

TERRA PANTANOSA
       Para T. P. Flanagan 

Não temos pradarias
Para esfatiar um sol imenso à tarde –
Em toda parte o olho cede ao
Horizonte usurpador,

É induzido ao olho do ciclope
De um poço. Nosso campo aberto
É pântano que encrosta
Entre as vistas do sol.

Retiraram o esqueleto
Do Grande Alce Irlandês
Da turfeira, posto em pasmoso
Engradado cheio de ar.

Manteiga entranhada
Há mais de cem anos
Foi recuperada branca e salina.
O solo em si é dócil, manteiga negra

Derretendo e se abrindo sob os pés,
Deixando escapar a definição derradeira
Por milhões de anos.
Nunca se vai extrair carvão aqui,

Apenas os troncos encharcados
De grandes abetos, brando como polpa.
Nossos pioneiros avançam
Para dentro e para baixo,

Cada camada arrancada
Como que assentada na anterior.
As covas devem ser infiltração atlântica.
O úmido centro não tem fundo.
.

BOGLAND
         for T. P. Flanagan 

We have no prairies 
To slice a big sun at evening –
Everywhere the eye concedes to 
Encrouching horizon, 

Is wooed into the cyclops' eye 
Of a tarn. Our unfenced country 
Is bog that keeps crusting 
Between the sights of the sun. 

They've taken the skeleton 
Of the Great Irish Elk 
Out of the peat, set it up 
An astounding crate full of air. 

Butter sunk under 
More than a hundred years 
Was recovered salty and white. 
The ground itself is kind, black butter 

Melting and opening underfoot, 
Missing its last definition 
By millions of years. 
They'll never dig coal here, 

Only the waterlogged trunks 
Of great firs, soft as pulp. 
Our pioneers keep striking 
Inwards and downwards, 

Every layer they strip 
Seems camped on before. 
The bogholes might be Atlantic seepage. 
The wet centre is bottomless.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

ORÁCULO
Escondem-se no tronco 
oco do chorão,
na familiar escuta,
até, como de praxe, 
circularem seu nome
pelas campinas.
A gente os ouve
tocar os degraus
quando se acercam a
chamá-lo para fora:
boca e orelha miúdas
na fenda da madeira,
lóbulo e laringe
dos lugares musguentos.
.

ORACLE
Hide in the hollow trunk
of the willow tree,
its listening familiar,
until, as usual, the
cuckoo your name
across the fields.
You can hear them
draw the poles of stiles
as they approach
calling you out:
small mouth and ear
in a woody cleft,
lobe and larynx
of the mossy places.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

O HOMEM DE TOLLUND
I

Um dia vou a Aarhus
Ver a cabeça pardo-turfa,
As bagens brandas das pálpebras,
O pontudo gorro de pele.
Na planície vizinha onde o 
Desenterraram, a última 
Papa de sementes de inverno 
Agrumada no estômago,
Nu exceto pelo
Gorro, laço e cinto,
Vou me demorar.
Noivo da deusa,
Ela o cingiu com o torque
E abriu o paul,
Os sucos negros laborando a
Conserva de corpo de santo,
Tesouro do alveolar labor
Dos cortadores de turfa.
Hoje o maculado rosto
Repousa em Aarhus.
II

Poderia arriscar blasfémia,
Consagrar o pântano caldeira
Nosso santo solo e a ele
Rogar que faça germinar
A dispersa e tocaiada
Carne de trabalhadores,
Cadáveres descalços
Estendidos em pátios,
Dentes e pele reveladores
Manchando os dormentes
De quatro irmãos jovens arrastados
Por milhas ao longo dos trilhos.
III

Algo de sua triste liberdade
Quando conduzia a carroça
Deveria chegar a mim, 
Dirigindo, dizendo os nomes

Tollund, Grauballe, Nebelgard,
Olhando os dedos apontados
Da gente do campo,
Sem saber sua língua.
Lá na Jutlândia
Nas antigas paróquias homicidas
Vou me sentir perdido,
Infeliz e em casa. 
.

THE TOLLUND MAN

I

Some day I will go to Aarhus
To see his peat-brown head,
The mild pods of his eye-lids,
His pointed skin cap.
In the flat country near by
Where they dug him out,
His last gruel of winter seeds
Caked in his stomach,
Naked except for
The cap, noose and girdle,
I will stand a long time.
Bridegroom to the goddess,
She tightened her torc on him
And opened her fen,
Those dark juices working
Him to a saint's kept body,
Trove of the turfcutters'
Honeycombed workings.
Now his stained face
Reposes at Aarhus.
II

I could risk blasphemy,
Consecrate the cauldron bog
Our holy ground and pray
Him to make germinate
The scattered, ambushed
Flesh of labourers,
Stockinged corpses
Laid out in the farmyards,
Tell-tale skin and teeth
Flecking the sleepers
Of four young brothers, trailed
For miles along the lines.
III

Something of his sad freedom
As he rode the tumbril
Should come to me, driving,
Saying the names
Tollund, Grauballe, Nebelgard,
Watching the pointing hands
Of country people,
Not knowing their tongue.
Out here in Jutland
In the old man-killing parishes
I will feel lost,
Unhappy and at home.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

LIMBO
Ontem de noite em Ballyshannon
Pescadores pegaram na rede
Uma criança com o salmão.
Uma desova ilegítima.

Um pequenino devolvido
Às águas. Mas estou seguro,
No que ela se achava no baixio
A imergi-lo com ternura

Até os gelados nós dos pulsos
Ficarem mortos como o cascalho,
De que ele era um guaru com ganchos
Que a dilaceravam.

Ela avançou sob
O sinal de sua cruz.
Ele foi impelido com os peixes.
Agora o limbo será

Um frio fulgor de almas
Por zona longínqua e salobra.
Mesmo as palmas de Cristo, incuradas,
Pungem e lá não podem pescar.
.

LIMBO
Fishermen at Ballyshannon 
Netted an enfant last night 
Along with the salmon. 
An illegitimate spawning. 

A small one thrown back 
To the waters. But I´m sure 
As she stood in the shallows 
Ducking him tenderly 

Till the frozen knobs of her wrists 
Were dead as the gravel, 
He was a minnow with hooks 
Tearing her open. 

She waded in under 
The sign of her cross. 
He was hauled in with the fish. 
Now limbo will be 

A cold glitter of souls 
Through some far briny zone. 
Even Christ´s palms, unhealed, 
Smart and cannot fish there.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

DIFICULDADE DA INGLATERRA
            Movia-me como agente duplo entre os grandes conceitos.
A palavra “inimigo” tinha a eficácia denteada de uma máquina de cortar grama. Era um mecânico e distante  ruído  além daquela segurança opaca, daquela autônoma ignorância.
“Quando os alemães bombardearam Belfast, as partes Orange de maior acrimônia foram as mais atingidas.”
Eu estava no ombro de alguém, carregado pelo pátio à luz das estrelas para ver o céu fulgindo sobre Anahorish. Adultos baixavam a voz e se agrupavam na cozinha, como que cansados de um passeio.
Depois do blecaute, a Alemanha entrava em cozinhas à luz de lampião por baetas ornadas, pilha seca, pilha úmida, fios capilares,  válvulas abobadadas que chiavam e borbulhavam enquanto o dial absolvia Stuttgart e Lepzig.
“Ele é um artista, este Haw Haw. Pode muito bem largar na mão deles.”
Convivi com os “inimigos do Ulster”, os miseráveis fora dos muros. Adepto da troça, atravessei as fronteiras com senhas pronunciadas com cautela, fortaleci cada discurso com postos de controle e me reportei a ninguém. 
.

ENGLAND’S DIFFICULTY
I moved like a double agent among the big concepts.
            The word ‘enemy’ had the toothed efficiency of a mowing machine. It was a mechanical and distant noise beyond that opaque security, that autonomous ignorance.
            ‘When the Germans bombed Belfast it was the bitterest Orange parts were hit the worst’.
            I was on somebody’s shoulder, conveyed through the starlit yard to see the sky glowing over Anahorish. Grown-ups lowered their voices and resettled in the kitchen as if tired out after na excursion.
            Behind the blackout, Germany called to lamplit kitchens through fretted baize, dry battery, wet battery, capillary wires, domed valves that squeaked and burbled as the dial-hand absolved Stuttgart and Leipzig.
            ‘He’s an artist, this Haw Haw. He can fairly leave it into them’.
            I lodged with ‘the enemies of Ulster’, the scullions outside the walls. An adept at banter, I crossed the lines with carefully enunciated passwords, manned every speech with checkpoints and reported back to nobody.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

MOSSBAWN: DOIS POEMAS EM DEDICATÓRIA
      Para Mary Heaney

1. Luz solar 
Havia uma ausência ensolarada.
No pátio a bomba de água de gálea
aquecia o ferro,
água melificava

no balde suspenso
e o sol se postava
como chapa esfriando
contra a parede

de cada longa tarde.
Então, as mãos delas misturavam
sobre a masseira,
o forno rubescente

emitia a placa de calor
contra ela onde se postava
de avental farinhento
junto a pela janela.

Ora espana o tabuleiro
com uma pena de ganso,
ora assenta, enrodilhada,
de unhas embranquecidas

e canelas saramposas:
eis aqui um espaço
de novo, o pãozinho crescendo ao 
tique-taque de dois relógios.

E eis aqui o amor
como concha de estanho
fincada além do brilho
na caixa de farinha.

2. Os cortadores de semente
Parecem há centenas de anos. Brueghel,
Vai conhecê-los se for fiel meu retrato.
Sob a sebe ajoelham-se em arco ao broquel
De um quebra-vento pelo vento quebrado.
São os cortadores de sementes. O cocar
Do broto está sobre a batata germinada
Que jaz na palha. Com tempo para matar,
Eles ganham tempo. Cada faca amolada
Corta com ócio o tubérculo que se aparta
E tomba na palma da mão: leitosa réstia
De luz e, no centro, uma escura marca d'água.
Ó costumes calendários! Sob a giesta
Amarela sobre eles, componham os frisos
Com todos nós presentes, nós anônimos.
.

MOSSBAWN: TWO POEMS IN DEDICATION
         For Mary Heaney

1. Sunlight
There was a sunlit absence.
The helmeted pump in the yard
heated its iron,
water honeyed

in the slung bucket
and the sun stood
like a griddle cooling
against the wall

of each long afternoon.
So, her hands scuffled
over the bakeboard,
the reddening stove

sent its plaque of heat
against her where she stood
in a floury apron
by the window.

Now she dusts the board
with a goose's wing,
now sits, broad-lapped,
with whitened nails

and measling shins:
here is a space
again, the scone rising
to the tick of two clocks.

And here is love
like a tinsmith's scoop
sunk past its gleam
in the meal-bin.

2. The Seed Cutters
They seem hundreds of years away. Brueghel,
You'll know them if I can get them true.
They kneel under the hedge in a half-circle
Behind a windbreak wind is breaking through.
They are the seed cutters. The tuck and frill
Of leaf-sprout is on the seed potates
Buried under that straw. With time to kill,
They are taking their time. Each sharp knife goes
Lazily halving each root that falls apart
In the palm of the hand: a milky gleam,
And, at the centre, a dark watermark.
O calendar customs! Under the broom
Yellowing over them, compose the frieze
With all of us there, our anonymities.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

RITUAIS FÚNEBRES

I

Assumi uma espécie de virilidade
quando entrei  para erguer os caixões
de parentes mortos.
Foram colocados 

em cômodos maculados,
as pálpebras brilhantes,
as mãos branco-massa
agrilhoadas com rosários.

Os inflados nós nos dedos
tinham desenrugado, as unhas
enegrecidas, os pulsos
obedientemente oblíquos.

O manto castanho-dulce,
leite de cetim acolchoado:
ajoelhei cortesmente
admirando tudo

enquanto a cera derretia
e veiava as velas,
as chamas vacilando
para as mulheres vacilando

atrás de mim.
E sempre, num canto,
a tampa do caixão,
as cabeças dos pregos decoradas

com cruzinhas cintilantes.
Caras máscaras de pedra-sabão,
beijar as frontes de iglu
tinha que bastar

antes de baterem os pregos
e de a negra geleira
de cada enterro
ser carregada.

II

Hoje, quando chega a notícia 
de cada assassínio amistoso,
ansiamos cerimónia,
ritmos costumeiros:

os passos temperados
de um cortejo, dando a volta
a cada casa de janela fechada.
Eu restauraria

as grandes câmaras de Boyne,
prepararia um sepulcro
sob as pedras alveoladas.
De ruelas laterais e atalhos

carros de família ronronam
e se põem em fila,
o campo inteiro em sintonia
com o abafado zumbir

de dez mil motores.
Mulheres sonambulentas,
deixadas para trás, vagam
por cozinhas vazias

imaginando nosso lento triunfo
rumo aos túmulos.
Silencioso como uma serpente
em seu bulevar herboso,

o cortejo arrasta a cauda
além da bocaina do Norte
enquanto a cabeça já aberta
a limiar megalítico.

III

Quando tiverem posto a pedra
de volta na estrada
viajaremos de novo para o Norte
passando os fiordes de Strang e Carling,

a ruminação da memória
minorada por essa vez, arbitragem
de contenda aplacada,
imaginando aqueles sob a colina

dispostos como Gunnar
que jazia formoso
em seu monte sepulcral,
embora morto pela violência

e não vingado.
Dizia-se que ele entoava
versos sobre honra
e que quatro luzes ardiam

nos cantos da câmara:
que se abriu então, no que ele virou
com um jubiloso semblante
para contemplar a Lua.
.

 Seamus Heaney at Bonhams
FUNERAL RITES

I

I shouldered a kind of manhood
stepping in to lift the coffins
of dead relations.
They had been laid out

in tainted rooms,
their eyelids glistening,
their dough-white hands
shackled in rosary beads.

Their puffed knuckles
had unwrinkled, the nails
were darkened, the wrists
obediently sloped.

The dulse-brown shroud,
the quilted satin cribs:
I knelt courteously
admiting it all

as wax melted down
and veined the candles,
the flames hovering
to the women hovering

behind me.
And always, in a corner,
the coffin lid,
its nail-heads dressed

with little gleaming crosses.
Dear soapstone masks,
kissing their igloo brows
had to suffice

before the nails were sunk
and the black glacier
of each funeral
pushed away.

II

Now as news comes in
of each neighbourly murder
we pine for ceremony,
customary rhythms:

the temperate footsteps
of a cortège, winding past
each blinded home.
I would restore

the great chambers of Boyne,
prepare a sepulchre
under the cupmarked stones.
Out of side-streets and bye-roads

purring family cars
nose into line,
the whole country tunes
to the muffled drumming

of ten thousand engines.
Somnambulant women,
left behind, move
through emptied kitchens

imagining our slow triumph
towards the mounds.
Quiet as a serpent
in its grassy boulevard

the procession drags its tail
out of the Gap of the North
as its head already enters
the megalithic doorway.

III

When they have put the stone
back in its mouth
we will drive north again
past Strang and Carling fjords

the cud of memory
allayed for once, arbitration
of the feud placated,
imagining those under the hill

disposed like Gunnar
who lay beautiful
inside his burial mound,
though dead by violence

and unavenged.
men said that he was chanting
verses about honour
and that four lights burned

in corners of the chamber:
which opened then, as he turned
with a joyful face
to look at the moon.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

NORTE
Retornei a uma longa praia,
a curva batida de uma baía,
e só encontrei os seculares
poderes do trovão atlântico.

Encarei os convites
não mágicos da Islândia,
as colônias patéticas
da Groelândia, e súbito

aqueles incursores fabulosos,
os que jazem em Orkney e Dublin,
mediram forças
com as longas espadas ferrugentas,

aqueles na sólida
barriga de navios de pedra,
os talhados e cintilantes
nos calhaus dois veios em degelo,

eram vozes que o oceano sufocou
prevenindo-me, erguidas de novo
em violência e epifania.
A língua nadadora da nau

flutuava em retrospecto –
disse que o martelo de Tor pendeu
para a geografia e o comércio,
obtuso ligações e vinganças,

os ódios e os pelas-costas
do Parlamento, mentiras e mulheres,
exaustões nomeadas paz,
memória incubando o sangue derramado.

Disse: “Deite-se
na lavra-palavra, escave
a espira e o brilho
de seu cérebro sulcado.

Componha na treva.
Espere aurora boreal
na longa pilhagem
mas não cascata de luz.

Conserve o olho claro
como a bolha do sincelo,
creia na sensação do tesouro nodoso
que suas mãos conheceram”. 
.

NORTH
I returned to a long strand, 
the hammered curve of a bay,   
and found only the secular 
powers of the Atlantic thundering. 

I faced the unmagical 
invitations of Iceland, 
the pathetic colonies 
of Greenland, and suddenly 

those fabulous raiders, 
those lying in Orkney and Dublin   
measured against 
their long swords rusting, 

those in the solid 
belly of stone ships, 
those hacked and glinting 
in the gravel of thawed streams 

were ocean-deafened voices 
warning me, lifted again 
in violence and epiphany. 
The longship’s swimming tongue 

was buoyant with hindsight— 
it said Thor’s hammer swung 
to geography and trade, 
thick-witted couplings and revenges, 

the hatreds and behind-backs 
of the althing, lies and women,   
exhaustions nominated peace,   
memory incubating the spilled blood. 

It said, ‘Lie down 
in the word-hoard, burrow   
the coil and gleam 
of your furrowed brain. 

Compose in darkness.   
Expect aurora borealis   
in the long foray 
but no cascade of light. 

Keep your eye clear 
as the bleb of the icicle, 
trust the feel of what nubbed treasure   
your hands have known.’
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

SONHOS DE OSSO

I

Osso branco achado
na pastagem:
a rude, porosa
linguagem do toque

e a amarelenta, estriada
impressão na relva –
um miúdo navio-túmulo.
Inerte como pedra,

sílex-sina, pepita
de greda,
toco nele de novo,
meto-o na

funda da memória
para atirá-lo contra a Inglaterra
e seguir-lhe a queda
em campos estranhos.

II

Osso-casa:
um esqueleto
nos velhos cárceres
da língua.

Rechaço
de dicções,
dosséis elisabetanos,
estratagemas normandos,

as eróticas flores de maio
de Provença
e os latins cobertos de hera
de clérigos

até o zangarreio
do bardo, o lampejo
férreo de consoantes
dividindo o verso.

III

Nas encofradas
riquezas da gramática
e das declinações
Eu acho ban-hus,

sua lareira, seus bancos,
caniçada e caibros,
onde a alma
adejou um pouco

no forro do teto.
Havia um pequeno pote
para o cérebro,
e um caldeirão

de gerações
volteava no centro:
amor-covil, sangue-bosque,
sonho-caramanchel.

IV

Retornam passadas
filologia e fórmulas poéticas,
reentram na memória
onde o covil do osso

é um ninho de amor
na relva.
Seguro a cabeça de minha dama
como um cristal

e ossifico-me
contemplando: sou seixos
em suas escarpafuras,
um gigante de greda

esculpido em sua chapada.
Logo minhas mãos, no fosso
submerso de sua espinha,
avançam rumo às passagens.

V

E terminamos
nos embalando
entre as bordas
de uma trincheira.
Enquanto aprecio 
por prazer
o calçamento de suas juntas,
os degraus giratórios

de seus cotovelos,
o valo de seu supercílio
e o longo postigo
da clavícula,

começo a percorrer
o Hadrian`s Wall
de seu ombro, sonhando
com o Maiden Castle.

VI

Certa manhã em Devon
achei uma toupeira morta
ainda com orvalho em rosário.
Imaginara a toupeira

uma sega ossuda,
mas lá estava ela
miúda e fria
como o aço de um cinzel.

Disseram-me: “Sopre,
sopre de volta o pêlo à cabeça.
Aqueles pontinhos
eram os olhos.

E apalpe os ombros”.
Toquei Peninos pequenos e distantes,
uma pele de grama e grão
fluindo para o sul.
.

BONE DREAMS 

I

White bone found
on the grazing:
the rough, porous
language of touch

and its yellowing, ribbed
impression in the grass —
a small ship-burial.
As dead as stone,

flint-find, nugget
of chalk,
I touch it again,
I wind it in

the sling of mind
to pitch it at England
and follow its drop
to strange fields.

II

Bone-house:
a skeleton
in the tongue's
old dungeons.

I push back
through dictions,
Elizabethan canopies,
Norman devices,

the erotic mayflowers
of Provence
and the ivied latins
of churchmen

to the scop's
twang, the iron
flash of consonants
cleaving the line.

III

In the coffered
riches of grammar
and declensions
I found bān-hūs,

its fire, benches,
wattle and rafters,
where the soul
fluttered a while

in the roofspace.
There was a small crock
for the brain,
and a cauldron

of generation
swung at the centre:
love-den, blood-holt,
dream-bower.

IV

Come back past
philology and kennings,
re-enter memory
where the bone's lair

is a love-nest
in the grass.
I hold my lady's head
like a crystal

and ossify myself
by gazing: I am screes
on her escarpments,
a chalk giant

carved upon her downs.
Soon my hands, on the sunken
fosse of her spine,
move towards the passes.

V

And we end up
cradling each other
between the lips
of an earthwork.

As I estimate
for pleasure
her knuckles' paving,
the turning stiles

of the elbows,
the vallum of her brow
and the long wicket
of collar-bone,

I have begun to pace
the Hadrian's Wall
of her shoulder, dreaming 
of Maiden Castle.

VI

One morning in Devon
I found a dead mole
with the dew still beading it.
I had thought the mole

a big-boned coulter
but there it was
small and cold
as the thick of a chisel.

I was told, “Blow,
blow back the fur on his head.
Those little points
were the eyes.

And feel the shoulders.”
I touched small distant Pennines,
a pelt of grass and grain
running south.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

RAINHA DA TURFEIRA
Eu jazia esperando
entre face-turfa e muro de propriedade,
entre planuras de urze
e pedra vidro-denteada.

Meu corpo era braile
para as influências furtivas:
sóis da alba que apalpavam minha cabeça
e esfriavam em meus pés,

por meus tecidos e peles
as nascentes do inverno
digeriram-me,
as raízes incultas

ponderaram e morreram
nas covas
do estômago e das órbitas.
Eu jazia esperando

no fundo de calhau,
meu cérebro enegrecendo,
um jarro de ovas
fermentando sonhos 

subterrâneos de báltico âmbar.
Bagas feridas debaixo das unhas,
o tesouro vital reduzindo-se
no pote da pélvis.

Meu diadema cariou-se,
pedras de gema tombaram
na banquisa de turfa
como os rumos da história.

Meu cinto era uma geleira negra
enrugando, teceduras tingidas
e o bordado fenício
maceraram nas suaves

morenas de meus seios.
Conhecia o frio do inverno
como o focinhar de fiordes
em minha coxas –

a pluma empapada, a pesada
faixa de couro curtido.
Meu crânio hibernava
no úmido ninho de meu cabelo.

Que eles roubaram.
Fui tosada
e despida
pela pá de um cortador de turfa

que de novo me cobriu
e vedou  a comba delicadamente
entre as janelas de pedra
em minha cabeça e meus pés.

Até a mulher de um lorde o subornar.
A trança de meu cabelo
um viscoso cordão umbilical
de turfeira, fora cortada

e elevei-me das trevas,
osso talhado, crânio-louça,
costuras roçadas, tufos,
centelhas na ribeira.
.

THE BOG QUEEN
I lay waiting
between turf-face and demesne wall,
between heathery levels
and glass-toothed stone.

My body was braille
for the creeping influences:
dawn suns groped over my head
and cooled at my feet,

through my fabrics and skins
the seeps of winter
digested me,
the illiterate roots

pondered and died
in the cavings
of stomach and socket.
I lay waiting

on the gravel bottom,
my brain darkening.
a jar of spawn
fermenting underground

dreams of Baltic amber.
Bruised berries under my nails,
the vital hoard reducing
in the crock of the pelvis.

My diadem grew carious,
gemstones dropped
in the peat floe
like the bearings of history.

My sash was a black glacier
wrinkling, dyed weaves
and Phoenician stitchwork
retted on my breasts'

soft moraines.
I knew winter cold
like the nuzzle of fjords
at my thighs––

the soaked fledge, the heavy
swaddle of hides.
My skull hibernated
in the wet nest of my hair.

Which they robbed.
I was barbered
and stripped
by a turfcutter's spade

who veiled me again
and packed coomb softly
between the stone jambs
at my head and my feet.

Till a peer's wife bribed him.
The plait of my hair
a slimy birth-cord
of bog, had been cut

and I rose from the dark,
hacked bone, skull-ware,
frayed stitches, tufts,
small gleams on the bank.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

O HOMEM DE GRAUBALLE
Como se mergulhado
em breu, ele jaz
num travesseiro de turfa 
e parece chorar

o rio negro de si mesmo.
O veio dos pulsos
é como roble de turfeira,
o globo do calcanhar

como um ovo de basalto.
O peito do pé encolheu
frio como um pé de cisne
ou do brejo úmida raiz.

Os quadris são a aresta
e a bolsa de um mexilhão,
a espinha uma enguia presa
num lampejo de lama.

A cabeça eleva-se,
o queixo é uma viseira
saliente sobre a abertura
da garganta cortada

que crestou e enrijou.
A ferida curada
abre-se para dentro a um sombrio
lugar de sabugo.

Quem diria “cadáver”
para seu vívido molde?
Quem diria “corpo”
para seu opaco repouso?

E o cabelo oxidado,
um emaranhado inverossímil 
como o de um feto.
Vi primeiro seu rosto torcido

numa fotografia,
uma cabeça e um ombro
tirados da turfa,
feridos como bebê a fórcipe,

mas agora ele jaz
aperfeiçoado em minha memória
até o corno rubro
das unhas,

posto na balança
com beleza e atrocidade:
com Gaulino Agonizante
por demais restrito

a seu escudo,
com o peso concreto
de cada vítima encapuzada,
retalhada e desovada.
.

THE GRAUBALLE MAN
As if he had been poured
in tar, he lies
on a pillow of turf
and seems to weep

the black river of himself.
The grain of his wrists
is like bog oak,
the ball of his heel

like a basalt egg.
His instep has shrunk
cold as a swan's foot
or a wet swamp root.

His hips are the ridge
and purse of a mussel,
his spine an eel arrested
under a glisten of mud.

The head lifts,
the chin is a visor
raised above the vent
of his slashed throat

that has tanned and toughened.
The cured wound
opens inwards to a dark
elderberry place.

Who will say 'corpse'
to his vivid cast?
Who will say 'body'
to his opaque repose?

And his rusted hair,
a mat unlikely
as a foetus's.
I first saw his twisted face

in a photograph,
a head and shoulder
out of the peat,
bruised like a forceps baby,

but now he lies 
perfected in my memory,
down to the red horn
of his nails,

hung in the scales
with beauty and atrocity:
with the Dying Gaul
too strictly compassed

on his shield,
with the actual weight
of each hooded victim,
slashed and dumped.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

PUNIÇÃO
Posso sentir o tirão
da corda em sua
nuca, o vento
no peito mudo.

Ele infla os mamilos
em contas de âmbar,
freme o frágil cordame
das costelas.

Posso ver o corpo
submerso no pântano,
a pedra pesando,
os talos e ramos flutuantes.

Sob os quais no princípio
ela era arvoreta escorchada
que é extraída
osso-roble, cérebro-pinha:

a cabeça calva
um restolho de milho negro,
a venda uma suja bandagem,
o laço um anel

para guardar
as lembranças do amor.
Pequena adúltera,
antes de a terem punido

tinha cabelo loiro-linho,
era subnutrida, e o rosto
negro-breu era belo.
Pobre bode expiatório,

eu quase a amo
mas teria atirado, sei,
as pedras do silêncio.
Sou o artificioso voyeur

das combas escurecidas
e expostas do cérebro,
das cilhas dos músculos
e dos ossos numerados:

eu que fiquei calado
quando as irmãs traiçoeiras,
coifadas com breu,
choraram junto ao parapeito,

que fui conivente 
no civilizado ultraje,
todavia entendi a exata
e tribal, íntima vingança.
.

PUNISHMENT
Ican feel the tug
of the halter at the nape
of her neck, the wind
on her naked front.

It blows her nipples
to amber beads,
it shakes the frail rigging
of her ribs.

I can see her drowned
body in the bog,
the weighing stone,
the floating rods and boughs.

Under which at first
she was a barked sapling
that is dug up
oak-bone, brain-firkin:

her shaved head
like a stubble of black corn,
her blindfold a soiled bandage,
her noose a ring

tostore
the memories of love.
Little adulteress,
before they punished you

you were flaxen-haired,
undernourished, and your
tar-black face was beautiful.
My poor scapegoat,

I am love you
but would have cast, I know,
the stones of silence.
I am the artful voyeur

of your brain´s exposed
and darkened combs,
your muscles´wedding
and all your numbered bones:

I who have stood dumb
when your betraying sisters,
cauled in tar,
wept by the railings,

who would connive
in civilized outrage
yet understand the exact
and tribal, intimate revenge.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

FRUTO ESTRANHO
Eis a cabeça da moça, uma exumada cabaça.
Rosto oval, pele passa, pedras passas como dentes.
Desenfaixaram a úmida avenca do cabelo
E colocaram em exposição um caracol,
Deixaram o ar entrar na beleza coriácea.
Cabeça de sebo, perecível preciosidade:
O nariz partido é negro como torrão de turfa,
As órbitas vazias poços de antigos fermentos.
Diodorus Siculus confessou
Um gradual conforto entre pessoas semelhantes.
Assassinada, desprezada, anônima, terrível
Decapitada moça, a olhar de frente machado
E beatificação, a olhar de frente
O que começara a dar a impressão de reverência.
.

STRANGE FRUIT
Here is the girl's head like an exhumed gourd.
Oval-faced, prune-skinned, prune-stones for teeth.
They unswaddled the wet fern of her hair
And made an exhibition of its coil,
Let the air at her leathery beauty.
Pash of tallow, perishable treasure:
Her broken nose is dark as a turf clod,
Her eyeholes blank as pools in the old workings.
Diodorus Siculus confessed
His gradual ease with the likes of this:
Murdered, forgotten, nameless, terrible
Beheaded girl, outstaring axe
And beatification, outstaring
What had begun to feel like reverence. 
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

ATO DE UNIÃO
I

Esta noite, um primeiro movimento, um pulso,
Como chuva que nos pântanos ganha ímpeto 
Para a queda e a cheia: um pântano-caudal,
Talho rompendo o leito forrado de fetos.
Seu dorso é linha firme na costa oriental
E braços e pernas estão jogados
Além das gradativas colinas. Osculo
A arquejante província, berço do passado.
Sou o alto reino que em seu ombro fortaleço
E que você não lisonjeia nem ignora.
Conquista é uma mentira. Eu envelheço
Cedendo-lhe uma semi-independente orla 
Dentro de cujas fronteiras minha presente 
Herança culmina inexoravelmente.

II

E ainda sou imperialmente
Macho, deixando-a com a agonia,
Na colônia o processo erodente,
O aríete, de dentro a explosão razia.
O ato gerou quinta-coluna que se aferra
A uma unilateral posição inaudita.
O coração dele sob o seu é da guerra
Um tambor reunindo força. Os parasitas
E ignorantes punhozinhos já em bodejo
De suas bordas, e sei que estão levantados
Contra mim através das águas. Não prevejo
Tratado que lhe salve de todo o marcado
E distendido corpo, a grande agonia
Que a deixa em carne viva, em sulco, dia a dia.
.

ACT OF UNION
I

Tonight, a first movement, a pulse,
As if the rain in bogland gathered head
To slip and flood: a bog-burst,
A gash breaking open the ferny bed.
Your back is a firm line of eastern coast
And arms and legs are thrown
Beyond your gradual hills. I caress
The heaving province where our past has grown.
I am the tall kingdom over your shoulder
That you would neither cajole nor ignore.
Conquest is a lie. I grow older
Conceding your half-independant shore
Within whose borders now my legacy
Culminates inexorably.

II

And I am still imperially
Male, leaving you with pain,
The rending process in the colony,
The battering ram, the boom burst from within.
The act sprouted an obsinate fifth column
Whose stance is growing unilateral.
His heart beneath your heart is a wardrum
Mustering force. His parasitical
And ignmorant little fists already
Beat at your borders and I know they're cocked
At me across the water. No treaty
I foresee will salve completely your tracked
And stretchmarked body, the big pain
That leaves you raw, like opened ground, again
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

1. O MINISTÉRIO DO MEDO 
       Para Seamus Deane

Bom, como disse Kavanagh, vivemos 
Em lugares importantes. A solitária escarpa 
De St. Columb’s College, onde me aquartelei 
Por seis anos, sobranceava seu Bogside.
Encarei novos mundos: a inflamada garganta 
De Brandywell, a iluminada pista de corrida 
De cães, a goela da lebre. Na primeira semana 
Senti tanta saudade que nem sequer comi 
A sobra de biscoitos para suavizar meu exílio. 
Joguei-os sobre a cerca certa noite 
Em setembro de 1951 
Quando as luzes das casas de Lecky Road 
Eram âmbar na neblina. Era uma ação 
Furtiva.
            Depois Belfast, depois Berkeley.
Nós dois sob disfarce,
A cometer versos até se transformarem 
Numa vida: de gordos envelopes que chegavam 
Nas férias a magros volumes
Despachados “com os cumprimentos do autor”.
Aqueles poemas a mão, arrancados da espiral
De seu caderno de exercícios, deixavam-me perplexo —
Vogais e idéias jogadas soltas
Como as sementes que o vento levava dos sicômoros. 
Tentei escrever sobre os sicômoros 
E inovei uma rima do sul de Derry 
Com bushed e lullede ecoando pushed  e pulled.
Aquelas chancas ferradas de além da montanha 
Andavam, por Deus, pelos primorosos 
Campos da elocução.
         Terão nossos sotaques
Mudado? “Católicos, em geral, não falam 
Tão bem como os alunos das escolas protestantes.” 
Lembra-se daquela essência? Complexos 
De inferioridade, essência de que os sonhos eram feitos. 
“Qual é o seu nome, Heaney?”
               “Heaney, padre.”
                                          “Está
Bem.”
No meu primeiro dia, a correia de couro
Estalava epiléptica na sala de estudos,
Os ecos salpicando sobre nossas cabeças curvas,
Mas ainda assim escrevia para casa que a vida
De internato não era tão ruim, retraindo como sempre.

Nas férias longas, então, eu revivia
No banco de beijos de um Austin Dezesseis
Parado junto a uma empena, o motor ligado,
Meus dedos firmes como hera nos ombros dela,
Uma luz acesa a esperá-la na cozinha.
E a caminho de casa, a liberdade
Do verão minguando noite após noite, o ar
Todo luar e odor de feno, policiais
Brandiam as lanternas carmim, rodeando
O carro como gado negro, a apontarem
A boca da automática para meu olho:
“Qual é o seu nome, motorista?”.
                                                “Seamus...”
                                                                      Seamus?

Certa vez leram minhas cartas num bloqueio
E luziram os fachos sobre os hieróglifos,
“Dicções esbeltas” em letra bem floreada.

Ulster era britânica, mas sem direitos
À lírica inglesa: a nossa volta, embora
Sem mencioná-lo, o ministério do medo.
.

1. THE MINISTRY OF FEAR 
                for Seamus Deane 

Well, as Kavanagh said, we have lived   
In important places. The lonely scarp 
Of St Columb’s College, where I billeted   
For six years, overlooked your Bogside. 
I gazed into new worlds: the inflamed throat   
Of Brandywell, its floodlit dogtrack,   
The throttle of the hare. In the first week   
I was so homesick I couldn’t even eat   
The biscuits left to sweeten my exile.   
I threw them over the fence one night   
In September 1951 
When the lights of houses in the Lecky Road   
Were amber in the fog. It was an act   
Of stealth. 
                  Then Belfast, and then Berkeley. 
Here’s two on’s are sophisticated, 
Dabbling in verses till they have become   
A life: from bulky envelopes arriving   
In vacation time to slim volumes 
Despatched `with the author’s compliments’. 
Those poems in longhand, ripped from the wire spine   
Of your exercise book, bewildered me— 
Vowels and ideas bandied free 
As the seed-pods blowing off our sycamores.   
I tried to write about the sycamores 
And innovated a South Derry rhyme 
With hushed and lulled full chimes for pushed and pulled.   
Those hobnailed boots from beyond the mountain   
Were walking, by God, all over the fine   
Lawns of elocution. 
                              Have our accents 
Changed? ‘Catholics, in general, don’t speak 
As well as students from the Protestant schools.’   
Remember that stuff? Inferiority 
Complexes, stuff that dreams were made on.   
‘What’s your name, Heaney?’ 
                                          ‘Heaney, Father.’ 
                                                                     ‘Fair 
Enough.’ 
             On my first day, the leather strap 
Went epileptic in the Big Study, 
Its echoes plashing over our bowed heads, 
But I still wrote home that a boarder’s life 
Was not so bad, shying as usual. 

On long vacations, then, I came to life   
In the kissing seat of an Austin 16 
Parked at a gable, the engine running,   
My fingers tight as ivy on her shoulders,   
A light left burning for her in the kitchen.   
And heading back for home, the summer’s   
Freedom dwindling night by night, the air   
All moonlight and a scent of hay, policemen   
Swung their crimson flashlamps, crowding round   
The car like black cattle, snuffing and pointing 
The muzzle of a Sten gun in my eye:   
‘What’s your name, driver?’ 
                                          ‘Seamus ...’ 
                                                         Seamus? 

They once read my letters at a roadblock 
And shone their torches on your hieroglyphics,   
‘Svelte dictions’ in a very florid hand. 

Ulster was British, but with no rights on   
The English lyric: all around us, though   
We hadn’t named it, the ministry of fear.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

OSTRAS
Nossas conchas craqueavam nos pratos.
Minha língua era um estuário se enchendo.
Meu palato curvado de estrelas:
Enquanto eu degustava as Plêiades salgadas
Órion mergulhava o pé na água. 

Vivas e violadas,
Jaziam nos leitos de gelo:
Bivalves: o bulbo partido
E o suspiro galanteador do oceano.
Milhões delas rompidas, arrancadas, dispersadas. 

Fôramos de carro àquela costa
Através de flores e calcários
E lá estávamos, brindando à amizade,
Depondo uma lembrança perfeita
No frescor do colmo e da louça de barro.

Nos Alpes, metidos em neve e feno,
Os romanos carrearam ostras rumo ao sul até Roma:
Vi alcofas úmidas vomitarem
A fronde-lambida, salmora-picante
Glutonia de privilégio

E me irritava que minha fé não pudesse repousar
Na clara luz, qual poesia ou liberdade
Inclinando-se do mar. Comi o dia.
Deliberadamente, para que seu travo
Me avivasse todo em verbo, puro verbo.
.

OYSTERS
Our shells clacked on the plates.
My tongue was a filling estuary,
My palate hung with starlight:
As I tasted the salty Pleiades
Orion dipped his foot into the water.

Alive and violated
They lay on their beds of ice:
Bivalves: the split bulb
And philandering sigh of ocean.
Millions of them ripped and shucked and scattered.

We had driven to the coast
Through flowers and limestone
And there we were, toasting friendship,
Laying down a perfect memory
In the cool thatch and crockery.

Over the Alps, packed deep in hay and snow,
The Romans hauled their oysters south to Rome:
I saw damp panniers disgorge
The frond-lipped, brine-stung
Glut of privilege

And was angry that my trust could not repose
In the clear light, like poetry or freedom
Leaning in from the sea. I ate the day
Deliberately, that its tang
Might quicken me all into verb, pure verb.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

VÍTIMA 

                   I

Bebia sem parceiro
E pedia mais um
Pontando a prateleira
Com dedo gasto, sem
Nunca elevar a voz,
Rum com groselha,
Ou a cerveja escura, 
Só com um levantar de olho 
E um discreto gesto
De raspar colarinho.
Fechado o bar, galocha
E boné de pala, ia
Noite chuvosa adentro,
Vivendo de pensão
Mas bom para o batente.
Eu gostava do jeito,
Seguro mas matreiro,
Tato cara-de-pau,
Olhar de pescador
Ligeiro e costas atentas.

Como compreenderia
Esta outra minha vida?
Às vezes, no tamborete,
Cortando a canivete
Um naco de tabaco
E sem me olhar no olho,
Na pausa após um trago
Aludia à poesia.
Ficávamos eu e ele
E, sempre diplomático 
E sem superioridade,
Eu achava um jeitinho 
De falar de enguias,
De cavalo e carreta
Ou dos membros do IRA.

Mas também na minha arte
As costas dele atentam:
Morreu numa explosão
Bebendo em toque de
Recolher que outros acataram, 
Três noites após matarem
Os treze homens em Derry.
PÁRAS TREZE, nos muros,
BOGSIDE ZERO. Na quarta-
Feira todos prenderam
A respiração, trêmulos.

                   II

Dia de frio silêncio 
Úmido, sotaina e
Sobrepeliz ao vento:
Debaixo de chuva e flores
Caixão após caixão
Boiavam pela porta
Da catedral lotada
Qual ramos em água lenta.
O funeral em comum
Foi-se desfraldando,
Imbricando, entesando,
Até nos atuar e prender,
Irmãos em confraria.

Mas não ficaria em casa 
Nem por sua própria gente,
Fosse ameaça ao telefone,
Bandeiras pretas drapejando.
Eu o vejo entrando naquele 
Ofensivo bar bombardeado, 
Remorso e terror fundidos 
No rosto ainda reconhecível,
O afrontado olhar encurralado
Cegando com o clarão.

Percorrera quilômetros 
Pois bebia como peixe
Toda noite, naturalmente
Nadando rumo à isca
De locais quentes e claros,
Malha e murmúrio foscos
À deriva entre copos
Na fumaça gregária.
Que culpa tinha ele
Na última noite em que rompeu
Nossa cumplicidade de tribo?
“Agora, você é tido
Como homem instruído”,
Ouço-o dizer. “Para isso
Não tenho a resposta certa.”

                   III

Não pude ir ao enterro,
Os quietos participantes
E os falantes de um lado
Deixaram a rota dele
E se unindo ao respeitável
Ronrom do carro fúnebre...
Andam em ritmo igual
Com a habitual e
Lenta consolação
De um motor vadio,
A fileira erguida, mão
Sobre punho, frio sol
Na água, a terra
Confinada sob a névoa: manhã
Em que ele me levou em seu barco,
A hélice rangendo, girando
Indolentes braças brancas,
E em que provei a liberdade.
Sair na matina, mudar
Com firmeza o curso da quilha,
Desprezar a pesca, e sorrir
Ao sentir um ritmo embalando
A gente, milha após lenta milha,
Dentro do refúgio da gente
Algures, bem longe, do outro lado...

Espectro que fareja a aurora,
Cambaleante em chuva de meia-noite,
Interrogue-me de novo.
.

CASUALTY

I   

He would drink by himself   
And raise a weathered thumb   
Towards the high shelf,   
Calling another rum   
And blackcurrant, without   
Having to raise his voice,   
Or order a quick stout   
By a lifting of the eyes   
And a discreet dumb-show   
Of pulling off the top;   
At closing time would go   
In waders and peaked cap   
Into the showery dark,   
A dole-kept breadwinner   
But a natural for work.   
I loved his whole manner,   
Sure-footed but too sly,   
His deadpan sidling tact,   
His fisherman’s quick eye   
And turned observant back.   

Incomprehensible   
To him, my other life.   
Sometimes, on the high stool,   
Too busy with his knife   
At a tobacco plug   
And not meeting my eye,   
In the pause after a slug   
He mentioned poetry.   
We would be on our own   
And, always politic   
And shy of condescension,   
I would manage by some trick   
To switch the talk to eels   
Or lore of the horse and cart   
Or the Provisionals.   

But my tentative art   
His turned back watches too:   
He was blown to bits   
Out drinking in a curfew   
Others obeyed, three nights   
After they shot dead   
The thirteen men in Derry.   
PARAS THIRTEEN, the walls said,   
BOGSIDE NIL. That Wednesday   
Everyone held   
His breath and trembled.   

                   II   

It was a day of cold   
Raw silence, wind-blown   
surplice and soutane:   
Rained-on, flower-laden   
Coffin after coffin   
Seemed to float from the door   
Of the packed cathedral   
Like blossoms on slow water.   
The common funeral   
Unrolled its swaddling band,   
Lapping, tightening   
Till we were braced and bound   
Like brothers in a ring.   

But he would not be held   
At home by his own crowd   
Whatever threats were phoned,   
Whatever black flags waved.   
I see him as he turned   
In that bombed offending place,   
Remorse fused with terror   
In his still knowable face,   
His cornered outfaced stare   
Blinding in the flash.   

He had gone miles away   
For he drank like a fish   
Nightly, naturally   
Swimming towards the lure   
Of warm lit-up places,   
The blurred mesh and murmur   
Drifting among glasses   
In the gregarious smoke.   
How culpable was he   
That last night when he broke   
Our tribe’s complicity?   
‘Now, you’re supposed to be   
An educated man,’   
I hear him say. ‘Puzzle me   
The right answer to that one.’ 

                   III   

I missed his funeral,   
Those quiet walkers   
And sideways talkers   
Shoaling out of his lane   
To the respectable   
Purring of the hearse...   
They move in equal pace   
With the habitual   
Slow consolation   
Of a dawdling engine,   
The line lifted, hand   
Over fist, cold sunshine   
On the water, the land   
Banked under fog: that morning   
When he took me in his boat,   
The Screw purling, turning   
Indolent fathoms white,   
I tasted freedom with him.   
To get out early, haul   
Steadily off the bottom,   
Dispraise the catch, and smile   
As you find a rhythm   
Working you, slow mile by mile,   
Into your proper haunt   
Somewhere, well out, beyond...   

Dawn-sniffing revenant,   
Plodder through midnight rain,   
Question me again.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

A MUSA GUTURAL
Fim do estio, e à meia-noite 
Senti o cheiro do calor do dia: 
À janela do hotel sobre o estacionamento 
Absorvi o lodoso ar noturno do lago 
E observei a moçada sair da discoteca. 

As vozes subiam indistintas e confortantes 
Qual bolhas oleosas que a trenca nutriente soltava 
Naquele ocaso Äa trenca viscosa 
Outrora chamada "peixe doutor" porque seu visco, 
Diziam, curava as feridas do peixe que a tocasse. 

Uma moça de traje branco 
Era cortejada entre os carros: 
No que sua voz inçava e chapinhava em risos 
Senti-me como um lúcio velho todo chagas 
Ansiando a nado o contato com vida boca-branda.
.

THE GUTTURAL MUSE
Late summer, and at midnight 
I smelt the heat of the day: 
At my window over the hotel car park 
I breathed the muddied night airs off the lake 
And watched a young crowd leave the discothèque. 

Their voices rose up thick and comforting 
As oily bubbles the feeding tench sent up 
That evening at dusk Äthe slimy tench 
Once called the "doctor fish" because his slime 
Was said to heal the wounds of fish that touched it. 

A girl in a white dress 
Was being courted out among the cars: 
As her voice swarmed and puddled into laughs 
I felt like some old pike all badged with sores 
Wanting to swim in touch with soft-mouthed life.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

UM SONHO DE CIÚME
Passeando com você e outra senhora
Por um bosquete, o relvado em cicio
Tocou nosso alusivo silêncio
E as árvores se abriram a uma umbrosa
E imprevista clareira onde sentámos.
A lhama luz nos tirou, penso, o alento.
Falamos de desejo e ser ciumento,
A conversa um só de três soltos mantos
Ou branca toalha aberta em piquenique
Qual livro de etiquetas em desertos.
“Mostre-me”, à companheira eu disse, “o que
Cobiço: no peito a estrela malva.”
E ela anuiu. Ó amor, nem estes versos
Nem prudência seu ferido olhar salvam.
.

A DREAM OF JEALOUSY
Walking with you and another lady
In wooded parkland, the whispering grass
Ran its fingers through our guessing silence
And the trees opened into a shady
Unexpected clearing where we sat down.
I think the candour of the light dismayed us.
We talked about desire and being jealous,
Our conversation a loose single gown
Or a white picnic tablecloth spread out
Like a book or manners in the wilderness.
"Show me", I said to our companion, "what
I have much coveted, your breast's mauve star."
And she consented. O neither these verses
Nor my prudence, love, can heal your wounded stare.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

CANÇÃO
Sorveira qual moça de batom.
Entre o atalho e a estrada principal
Alnos a distância molhada e gotejante
Alheiam-se em meio aos juncos.

Há as flores de lama do dialeto
E as perpétuas de perfeito diapasão
E este instante em que o pássaro canta bem perto
Da música do que acontece.
.

SONG
A rowan like a lipsticked girl.
Between the by-road and the main road
Alder trees at a wet and dripping distance
Stand off among the rushes.

There are the mud-flowers of dialect
And the immortelles of perfect pitch
And that moment when the bird sings very close
To the music of what happens.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

O METRÔ
Íamos nós sob o arco do túnel correndo,
Você de mantô de noiva na dianteira
E eu, eu qual deus lépido a ganhar terreno
Antes que você mudasse em bambueira

Ou nova branca flor com laivos carmíneos 
E os botões do esvoaçante mantô desprendidos
Caíam um por um num caudal
Entre o metrô e o Albert Hall.

Lua-de-mel, na lua, tarde para o concerto,
Nossos ecos morrem no corredor, e então
Venho como Hansel por pedras ao luar veio
Refazendo o trajeto, colhendo botão

Para acabar à luz e ao vento da estação
Após o último trem, o trilho úmido
Desnudo e tenso como eu, toda atenção
A seu passo em pós e, se me volto, perdido. 
.

THE UNDERGROUND
There we were in the vaulted tunnel running,
You in your going-away coat speeding ahead
And me, me then like a fleet god gaining
Upon you before you turned to a reed

Or some new white flower japed with crimson
As the coat flapped wild and button after button
Sprang off and fell in a trail
Between the Underground and the Albert Hall.

Honeymooning, mooning around, late for the Proms,
Our echoes die in that corridor and now
I come as Hansel came on the moonlit stones
Retracing the path back, lifting the buttons

To end up in a draughty lamplit station
After the trains have gone, the wet track
Bared and tensed as I am, all attention
For your step following and damned if I look back.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

Seamus Heaney, by Colin Davidson
LICOR DE ABRUNHO
O tempo claro de zimbro
anuviou-se em inverno.
Ela nutriu de gim os abrunhos
e lacrou a vasilha de vidro.

Quando a desarrolhei
senti o odor da perturbada
calma acre de um arbusto
subindo da despensa.

Quando o entornei
tinha um gume cortante
e flamejava
como Betelgeuse.

Brindo a você
com defumados azul-negros,
brunidos abrunhos, amargos
e fidedignos.
.

SLOE GIN
The clear weather of juniper
darkened into winter.
She fed gin to sloes
and sealed the glass container.

When I unscrewed it
I smelled the disturbed
tart stillness of a bush
rising through the pantry.

When I poured it
it had a cutting edge
and flamed
like Betelgeuse.

I drink to you
in smoke-mirled, blue-black, 
polished sloes, bitter
and dependable.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

TCHEKHOV EM SAKHALIN
      Para Derek Mahon

Desse modo, ele iria “a medicina honrar”.
Mas antes o conhaque bebeu frente ao mar
De costas para o que o levara e que eram provas.
A cabeça oscilando livre como as tróicas
De Tyumin, ele olhou do alto da escotilha
De seus trinta anos e enxergou uma milha
No fundo de si mesmo, como água-cristal:
Do alto do deque do vapor lago Baikhal.
Moscou tão longe, qual mocidade perdida.
E ele quem era, para saborear bebida
Fina que os literatos, pasmos afinal,
Enviaram com ele à colônia penal —
Ele que, digamos, nasceu sob o balcão?
Por isso ao menos soube apreciá-la. Não,
Chantre algum a voz plena junto a iconóstase
Alcançou júbilo mais santo do que ele desta
Garrafa aquecendo e luzindo como diamante
Num salão um atrevido e jovem decote,
Inviolável e provocante.
A garrafa esfriou ao sol da meia-noite.
Ao se reequilibrar e quebrá-la nas pedras
Ela tiniu como de um condenado os ferros
Que o acossavam. Durante os meses por vir
Ela tiniu como seu fardo de ser livre
Para buscar o tom justo — nem trato ou tese —
E escapar ao açoite. Quem pensou pudesse
Purgar-lhe o sangue escravo e libertá-lo assim
Toldou um condenado guia em Sakhalin.
.

CHEKHOV ON SAKHALIN
       For Derek Mahon

So, he would pay his "debt to medicine".
But first he drank cognac by the ocean
With his back to all he travelled there to face.
His head was swimming free as the troikas

Of Tyumin, he looked down from the rail
Of his thirty years and saw a mile
Into himself as if he were clear water:
Lake Baikhal from the deckrail of the steamer.

So far away, Moscow was like lost youth.
And who was he, to saviour in his mouth
Fine spirits that the puzzled literati
Packed off with him to a penal colony –

Him, born, you may say, under the counter?
At least that meant he knew its worth. No cantor
In full throat by the iconostasis
Got holier joy than he got from that glass

That shone and warmed like diamonds warming
On some pert young cleavage in a salon,
Inviolable and affronting.
He felt the glass go cold in the midnight sun.

When he staggered up and smashed it on the stones
It rang as clearly as the convicts' chains
That haunted him. All through the months to come
It rang on like the burden of his freedom

To try for the right tone – not tract, not thesis –
And walk away from floggings. He who thought to squeeze
His slave's blood out and waken the free man
Shadowed a convict guide through Sakhalin.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

AS CRIANÇAS DA FERROVIA
Quando escalávamos o clivo do corte
Ficávamos à altura dos copos brancos
Dos postes telegráficos e fios chiantes.

Como belo desenho vergavam milhas
A leste e milhas a oeste ao longe, cedendo
Sob o fardo das andorinhas.

Éramos novos e achávamos que nada sabíamos
De valor. Achávamos que palavras percorriam
Os fios nas bolsas cintilantes de gotas de chuva.

Cada uma semeada com a luz
Do céu, o brilho dos trilhos, e nós mesmos
Em escala tão infinitesimal 

Poderíamos correr pelo buraco de uma agulha.
.

THE RAILWAY CHILDREN
When we climbed the slopes of the cutting
We were eye-level with the white cups
Of the telegraph poles and the sizzling wires.

Like lovely freehand they curved for miles
East and miles west beyond us, sagging
Under their burden of swallows.

We were small and thought we knew nothing
Worth knowing. We thought words travelled the wires
In the shiny pouches of raindrops,

Each one seeded full with the light
Of the sky, the gleam of the lines, and ourselves
So infinitesimally scaled

We could stream through the eye of a needle.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

O REI DAS SEBES
     Para John Montague

I

Como um intruso
abrisse esquecida cancela
e aparasse a vegetação
emaranhada nas grades –

pouco adiante da sebe
ele deixou um morse obscuro
ao longo da ribeira,
uma tortuosa ferida

de erva silenciosa, coberta
de teias. Se paro
ele pára
como a Lua.

Vive nas orelhas
e nos pés, tempo-olho,
todo prata e escuta
andador sem toca.

Sob a ponte
seu reflexo oscila
através da corrente,
sedutor, mariposa.

Estou acossado
pelo furtivo farfalho,
o rasto imprevisto,
o pólen depositado.
.

THE KING OF THE DITCHBACKS
       for John Montague

I

As if a trespasser
unbolted a forgotten gate
and ripped the growth
tangling its lower bars –

just beyond the hedge
he has opened a dark morse
along the bank,
a crooked wounding

of silent, cobwebbed
grass. If I stop
he stops
like the moon.

He lives in his feet
and eyes, weather-eyed,
all pad and listening,
a denless mover.

Under the bridge
his reflection shifts
sideways to the current,
mothy, alluring.

I am haunted
by his stealthy rustling,
the unexpected spoor,
the pollen settling.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

OS ESCRIBAS
Nunca me empolguei com eles. 
Se eram excelentes, eram rabugentos 
e espins como o azevim 
que liquesciam para a tinta. 
E se jamais me liguei a eles 
eles jamais me recusaram meu lugar. 

Na quietude do scriptorium 
uma pérola negra crescia neles 
como a velha crosta seca nas penas. 
Na margem de textos de encômio 
garatujavam e agadanhavam. 
Resmungavam se o dia estava escuro 
ou muito giz tornara o velino brando 
ou muito pouco o deixara oleoso. 

Sob as garupas dos caracteres 
reuniram tropas de cóleras míopes. 
O ressentimento semeou nos fetos 
desencaracolados das versais. 

De quando em quando eu me punha 
longe dali e em minha ausência via 
a inclinada cursiva de um dorso, e os sentia 
aperfeiçoarem-se contra mim página por página. 

Que se lembrem desta não desprezível 
contribuição a sua arte invejosa.
.

THE SCRIBES
I never warmed to them. 
If they were excellent they were petulant 
and jaggy as the holly tree 
they rendered down for 
ink. And if I never belonged among them, 
they could never deny me my place. 

In the hush of the scriptorium 
a black pearl kept gathering in them 
like the old dry glut inside their quills. 
In the margin of texts of praise 
they scratched and clawed. 
They snarled if the day was dark 
or too much chalk had made the vellum bland 
or too little left it oily. 

Under the rumps of lettering 
they herded myopic angers. 
Resentment seeded in the uncurling 
fernheads of their capitals. 

Now and again I started up 
miles away and saw in my absence 
the sloped cursive of each back and felt them 
perfect themselves against me page by page 

Let them remember this not inconsiderable 
contribution to their jealous art.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

NA ESTRADA
A estrada em frente
desenrolava-se
a velocidade estável,
os beiras gotejavam.

Em minhas mãos 
como troféu arrebatado, 
a esfera vazia 
do volante.

O rapto de dirigir
tornava as estradas uma:
a visão-serafim, toscana
vereda, os verdes

robledos de Dordogne
ou esse trilho entre milhos
onde o moço rico
perguntou:

Mestre, o que tenho de
fazer para ser salvo?
Ou a estrada onde o pássaro
de dorso vermelho-terra

e de cauda preta e 
branca, como parquete
de sílex e azeviche,
volteava sobre mim

em visitação.
Venda tudo o que possui
e doe aos pobres.
Eu estava no alto e longe

como alma humana
que fumega da boca
em ondulante, tenor
latim em letra gótica.

Eu lamentava a dor,
pomba de Noé,
uma pânica sombra
cruzando a senda do cervo.

Se baixasse à terra
seria através de
uma janelinha leste
por que uma vez passei à força,

escalando o céu
por superstição,
ébrio e feliz
numa empena de capela.

Iria pernoitar
na laje do exílio,
depois me alojar na fenda
desse muro de adro

onde mão após mão
vai se desgastando
no frio, peito-embotado
granito votivo.

E siga me.
Eu migraria
por alta boca de caverna
em rocha de aveia, sol-cálida,

descendo pela passagem 
cerne-tenra, chão-de-barro,
roça-rosto, asa-adejo,
à mais profunda câmara.

Lá bebe um cervo
talhado na rocha,
o lombo e o pescoço
erguem-se com os contornos,

o perfil inciso
curva-se num tenso
focinho expectante
e uma narina flâmea

numa nascente seca.
Para meu livro de mudanças
eu meditaria
essa vigília pedra-rosto

até que o há muito atônito
espírito irrompesse
para fazer poeira
na fonte da exaustão.
.

ON THE ROAD
The road ahead 
kept reeling in
at a steady speed, 
the verges dripped.

In my hands
like a wrested trophy, 
the empty round
of the steering wheel.

The trance of driving 
made all roads one:
the seraph-haunted, Tuscan 
footpath, the green

oak-alleys of Dordogne
or that track through corn 
where the rich young man 
asked his question –

Master, what must I 
do to be saved?
Or the road where the bird 
with an earth-red back

and a white and black 
tail, like parquet
of flint and jet, 
wheeled over me

in visitation. 
Sell all you have
and give to the poor. 
I was up and away

like a human soul
that plumes from the mouth 
in undulant, tenor 
black-letter Latin.

I was one for sorrow, 
Noah's dove,
a panicked shadow 
crossing the deerpath.

If I came to earth
it would be by way of 
a small east window
I once squeezed through,

scaling heaven
by superstition, 
drunk and happy 
on a chapel gable.

I would roost a night 
on the slab of exile, 
then hide in the cleft 
of that churchyard wall

where hand after hand 
keeps wearing away
at the cold, hard-breasted 
votive granite.

And follow me.
I would migrate
through a high cave mouth
into an oaten, sun-warmed cliff,

on down the soft-nubbed, 
clay-floored passage, 
face-brush, wing-flap,
to the deepest chamber.

There a drinking deer 
is cut into rock,
its haunch and neck 
rise with the contours,

the incised outline 
curves to a strained 
expectant muzzle 
and a nostril flared

at a dried-up source. 
For my book of changes 
I would meditate
that stone-faced vigil

until the long dumbfounded 
spirit broke cover
to raise a dust
in the font of exhaustion.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

ALFABETOS

I

Uma sombra que o pai dele faz na parede,
Mãos e dedões juntos, dedos em mordidela,
Como cabeça de coelho. Ele entende
Que ele vai entender mais quando entrar na escola.

Lá primeiro desenha fumaça com giz e
Depois traça a forquilha chamada Y.
Isso é escrever. Um dorso e um pescoço de cisne
Formam o 2 que ele vê e fala então.

Dois caibros e uma viga sobre um quadro-negro
São a letra que uns fazem ah! e outros eta!
Há diagrama, há cabeçalhos, e há um jeito
Certo e errado de se pegar a caneta.

Antes de tudo é “copiar”, depois “inglês”,
Marcado correto com um enxadão oblíquo.
Cheiros de tinta pairam na classe em mudez.
Pende à janela um globo, colorido O.
.

ALPHABETS

I

A shadow his father makes with joined hands 
And thumbs and fingers nibbles on the wall 
Like a rabbit’s head. He understands 
He will understand more when he goes to school.

There he draws smoke with chalk the whole first week, 
Then draws the forked stick that they call a Y. 
This is writing. A swan’s neck and swan’s back 
Make the 2 he can see now as well as say.

Two rafters and a cross-tie on the slate 
Are the letter some call ah, some call ay. 
There are charts, there are headlines, there is a right 
Way to hold the pen and a wrong way.

First it is ‘copying out,’ and then ‘English,’ 
Marked correct with a little leaning hoe. 
Smells of inkwells rise in the classroom hush. 
A globe in the window tilts like a coloured O.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

TERMINUS

I

Quando por lá cavoucava, encontrava
Uma glande e um pino enferrujado.

Se erguesse os olhos, uma chaminé de fábrica
E uma montanha adormecida.

Se escutasse, uma balduína manobrando
E um cavalo a trote.

Surpreende que eu tenha considerado
Fazer reconsiderações?

II

Quando falaram do estoque prudente do esquilo
Ele brilhou como presente em natividade.

Quando falaram da riqueza da iniqüidade
No bolso as moedas abrasaram como chapa.

Eu era o dreno do marco e as bordas do dreno
sofrendo o limite de cada demanda.

III

Era mais fácil carregar dois baldes do que um.
Eu cresci no meio.

A mão esquerda pôs o peso de ferro padrão.
A direita deixou um último grão na balança.

Baronias, províncias reuniram-se onde nasci.
Quando me postei nas alpondras do centro

Era o último conde a cavalo no meio do rio
Ainda o parlamentar, ao alcance da voz dos pares.
.

TERMINUS

I

When I hoked there, I would find
An acorn and a rusted bolt.

If I lifted my eyes, a factory chimney
And a dormant mountain.

If I listened, an engine shunting
And a trotting horse.

Is it any wonder when I thought
I would have second thoughts?

II

When they spoke of the prudent squirrel’s hoard
It shone like gifts at a nativity.

When they spoke of the mammon of iniquity
The coins in my pocket reddened like stove-lids.

I was the march drain and the march drain’s banks
Suffering the limit of each claim.

III

Two buckets were easier carried than one.
I grew up in between.

My left hand placed the standard iron weight.
My right tilted a last grain in the balance.

Baronies, parishes met where I was born.
When I stood on the central stepping stone

I was the last earl on horseback in midstream
Still parleying, in earshot of his peers.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

DA FRONTEIRA DA ESCRITA 
O aperto e o vácuo circundam o acosto
do carro neste espaço, os soldados revistam
marca o número e, quando um baixa o rosto

na janela, outros você descortina
num monte ao longe, com o olhar de cima insistente
e armas em punho que o põem clandestino

e tudo é puro interrogação
até que um rifle acena e você segue adiante
com cautelosa e apática aceleração –

um tanto mais vazio, um tanto doente
como sempre com tal frêmito interno,
subjugado, sim, e obediente.

Assim dirige rumo à fronteira da escrita
onde outra vez isso acontece. Armas em trípodas;
o sargento ao microfone em dita e redita

referindo a você, esperando o trom
do passe; o atirador perdendo
peso ao sol a mirá-lo qual falcão.

E de arranco transpõe, acusado mais solto,
como se passado por trás de queda-d`água
na corrente negra de um asfalto

além de carros blindados, fugido
entre as tropas em vaivém que se precipita
qual reflexo de árvores no pára-brisa polido.
.

FROM THE FRONTIER OF WRITING 
The tightness and the nilness round that space 
when the car stops in the road, the troops inspect 
its make and number and, as one bends his face 

towards your window, you catch sight of more 
on a hill beyond, eyeing with intent 
down cradled guns that hold you under cover 

and everything is pure interrogation 
until a rifle motions and you move 
with guarded unconcerned acceleration— 

a little emptier, a little spent 
as always by that quiver in the self, 
subjugated, yes, and obedient. 

So you drive on to the frontier of writing 
where it happens again. The guns on tripods; 
the sergeant with his on-off mike repeating 

data about you, waiting for the squawk 
of clearance; the marksman training down 
out of the sun upon you like a hawk. 

And suddenly you're through, arraigned yet freed, 
as if you'd passed from behind a waterfall 
on the black current of a tarmac road 

past armor-plated vehicles, out between 
the posted soldiers flowing and receding 
like tree shadows into the polished windscreen.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

A ISCA
Assim nova similitude nos é dada
E dizemos: a alma é comparável

A uma isca que uma criança descobre
Sob a tampa corrediça de um porta-lápis,

Vislumbrada uma vez e imaginada a vida toda
À tona e livre e enrolando-se de parte alguma –

Uma estrela cadente voltando às trevas.
Escapa dele e o queima sem prévio aviso

Como a gota simples que o Rico implorou
Precipitando-se num grande abismo.

A seguir sai, o elmo polido de herói
Exposto a meia-nau sobre as águas agitadas.

Sai, alternativamente, luz de brinquedo
Puxada através dele rio acima, a prender nada.
.

THE SPOONBAIT
So a new similitude is given us
And we say: The soul may be compared

Unto a spoonbait that a child discovers
Beneath the sliding lid of a pencil case,

Glimpsed once and imagined for a lifetime
Risen and free and spooling out of nowhere –

A shooting star going back up the darkness.
It flees him and it burns him all at once

Like the single drop that Dives implored
Falling and falling into a great gulf.

Then exit, the polished helmet of a hero
Laid out amidships above scudding water.

Exit, alternatively, a toy of light
Reeled through him upstream, snagging on nothing.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

A LEITERIA 
Caudas de escuma espiralavam do escoadouro.
Paramos no barranco do outro lado e olhamos
Uma água leitosa escapar do furado flanco
Do próprio leite, a farrusca da substância entornada
Em alvos pisos de limbo onde operários em turnos
Patinhavam o tempo todo, e a leiteria
Ficava a distância qual astro-nau deque-luzente.

Lá vamos nós, olho-meigos novilhos de orvalho,
Assombrados e simulados na fluorescência.
.

THE MILK FACTORY 
Scuts of froth from the discharge pipe.
We halted on the other bank and watched
A milky water run from the pierced side
Of milk itself, the crock of its substance spilt
Across white limbo floors where shift-workers
Waded round the clock, and the factory
Kept its distance like a bright-decked star ship.

There we go, soft-eyed calves of the dew,
Astonished and assumed into florescence.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

A ÁRVORE DO DESEJO
Pensei nela como a árvore do desejo que secou
E que vi levantada, raízes e fronde, ao céu,
Arrastando uma chuva de tudo o que enteceu

De carência em carência em carência o alburno
E a corcha robustos: cunha o pino e chaveta
Dela correram como uma cauda de cometa

Recém-estampada e dissolvida. Tive a visão
De uma etérea fronte-fronde através de nuvem úmida,
De visagem de rostos onde a árvore fora vida.
.

THE WISHING TREE
I thought of her as the wishing tree that died
And saw it lifted, root and branch, to heaven,
Trailing a shower of all that had been driven

Need by need by need into its hale
Sap-wood and bark: coin and pin and nail
Came streaming from it like a comet-tail

New-minted and dissolved. I had a vision
Of an airy branch-head rising through damp cloud,
Of turned-up faces where the tree had stood. 
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

A VISÃO DA LAMA
Estátuas com coração exposto e coroas de arame
Farpado ainda em nichos, lebres correndo sob
Inertes bojos de jatos, escritores de menu
E punks com sprays de aerossol bem-sucedidos
Com o melhor de si. Link-ups de satélite 
Nos borrifavam com as benções do papa, helicópteros
Sustinham círculo encantado para ídolos
Em turnê e vítimas em macas. Sonambulávamos
A fronteira entre pânico e formulas, para o cinema
Testávamos nossos primeiros modelos nativos
E o derradeiro mímico, observando-nos de longe,
Avantajados e aéreos como um homem que
No trampolim só se aquece, pois não sabe mergulhar.

E então no interior brumoso ela surgiu,
A nossa visão da lama, qual lamacenta rosa
De janela que se inventara no vapor esplendoroso,
Uma roda diáfana, concêntrica no próprio eixo
De nebulosa sujidade, maculada mas luzente.
Ouvíramos falar do sol imóvel e do sol
Que mudava de cor, mas foi-nos concedido
O barro original, transfigurado e giratório.
E então os poentes ensombraram, o limpador
Jamais desembaciava de todo o para-brisa,
Reservatórios sabiam a lodo, uma tênue felpa
Aparecia no cabelo e nos sobrolhos, e alguns
Passaram a exibir uma nódoa na fronte
Para estarem prontos para que o viesse. Vigílias
Começaram em volta de gretas lodosas,
Em altares os juncos expeliram lírios
E em rodizio inválidos iam e vinham
Em camas de aluguel nas filas dos chuveiros. 

Uma geração que vira um sinal!
As noites envoltos em orvalho umbroso em que cheiramos
Mofo na verbena, ou despertamos com leve
Hálito-sulco no travesseiro, em que se falava
Apenas sobre quem a vira e nosso medo
Tinha um toque de orgulho secreto, somente nós mesmos
Bastávamos a nossa vida. Quando o arco-íris
Arqueou-se fluxo-fulvo e correu qual lombo de rato d`água, 
De tal modo que motoristas acostaram para ver,
Nós o quisemos longe, e contudo, presumimos,
Era um teste que nos provaria além da expectativa.

Vivemos, claro, para aprender a tolice disso.
Um dia ela consumiu-se e a empena leste
Onde a corola tremula se equilibrara
Voltou a ser ruína rija, com dentes-de-leão
Oscilando no topo das abas, e musgo
A dormir em sua evolução. Enquanto câmeras
Varriam o lugar de todos os ângulos, peritos
Deram início ao palavrório post factum e todos
Nos concentramos para as grandes explicações.
Esquecemos de estalo que a visão era nossa,
Única chance de conhecermos o incomparável
E mergulharmos no futuro. O que seria origem
Dissipamos na notícia. O local clarificado
Não reouvera nem a nós nem a si mesmo – exceto
Que se diria sobrevivermos. Diga-o, pois, veja-nos,
Nós com chance de ser homem-lama, convictos e alheios,
Figurar em nossos olhos para os olhos do mundo. 
.

THE MUD VISION
Statues with exposed hearts and barbed-wire crowns
Still stood in alcoves, hares flitted beneath
The dozing bellies of jets, our menu-writers
And punks with aerosol sprays held their own
With the best of them. Satellite link-ups
Wafted over us the blessings of popes, heliports
Maintained a charmed circle for idols on tour
And casualties on their stretchers. We sleepwalked
The line between panic and formulae, screentested
Our first native models and the last of the mummers,
Watching ourselves at a distance, advantaged
And airy as a man on a springboard
Who keeps limbering up because the man cannot dive.

And then in the foggy midlands it appeared,
Our mud vision, as if a rose window of mud
Had invented itself out of the glittery damp,
A gossamer wheel, concentric with its own hub
Of nebulous dirt, sullied yet luccent.
We had heard of the sun standing still and the sun
That changed colour, but we were vouchsafed
Original clay, transfigured and spinning.
And then the sunsets ran murky, the wiper
Could never entirely clean off the windscreen,
Reservoirs tasted of silt, a light fuzz
Accrued in the hair and the eyebrows, and some
Took to wearing a smudge on their foreheads
To be prepared for whatever. Vigils
Began to be kept around pudddled gaps,
On altars bulrushes ousted the lilies
And a rota of invalids came and went
On beds they could lease placed in range of the shower.

A generation who had seen a sign!
Those nights when we stood in an umber dew and smelled
Mould in the verbena, or woke to a light
Furrow-breath on the pillow, when the talk
Was all about who had seen it and our fear
Was touched with a secret pride, only ourselves
Could be adequate then to our lives. When the rainbow
Curved flood-brown and ran like a water-rat's back
So that drivers on the hard shoulder switched off to watch,
We wished it away, and yet we presumed it a test
That would prove us beyond expectation.

We lived, of course, to learn the folly of that.
One day it was gone and the east gable
Where its trembling corolla had balanced
Was starkly a ruin again, with dandelions
Blowing high up on the ledges, and moss
That slumbered on through its increase. As cameras raked
The site from every angle, experts
Began their post factum jabber and all of us
Crowded in tight for the big explanations.
Just like that, we forgot that the vision was ours,
Our one chance to know the incomparable
And dive to a future. What might have been origin
We dissipated in news. The clarified place
Had retrieved neither us nor itself -- except
You could say we survived. So say that, and watch us
Who had our chance to be mud-men, convinced and estranged,
Figure in our own eyes for the eyes of the world.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§

A ILHA EVANESCENTE
Mal presumimos ter-nos encontrado para sempre
Entre as colinas azuis e essas praias sem areia
Onde passamos nossa noite esvairada em prece e vígilia,

Mal colhemos madeira flutuante, fizemos lar
E penduramos nosso caldeirão qual firmamento,
A ilha quebrou-se debaixo de nós qual uma onda.

O solo a nos suster parecia manter-se firme
Somente quando o abraçávamos in extremis.
Tudo o que creio lá ter ocorrido foi uma visão.
.

THE DISSAPEARING ISLAND
Once we presumed to found ouselves for good 
Between its blue hills and those sandless shoes 
Where we spent our desperate night in prayer and vigil, 

Once we had gathered driftwood, made a hearth 
And hung our cauldron like a firmament 
The island broke beneath us like a wave 

The land sustaining us seemed to hold firm 
Only when we embraced it in extremis. 
All I believe that happened there was a vision.
- Seamus Heaney, 'Poemas'. [tradução, introdução e notas de José Antonio Arantes]. Edição bilíngue. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

§
Seamus Heaney, Queen Elizabeth II and Mary McAleese
A laçada da colheita 
Quando deste a laçada da colheita
maduro o teu silêncio insinuou-se
em trigo que não ganha ferrugem
mas que ao apertar-se volta a volta reluz
a ganhar forma numa coroa,
de palha um nó de amor descartável.
Mãos a que varas de freixo deram calos
e espicaçaram uma vida de combate de galos
que sabiam seus dons e certeiras labutaram
até sonâmbulos os teus dedos se moverem:
digo-o e nos dedos como braille o sinto,
respigando do palpável o não dito,
e se espreito pelas laçadas de ouro, eis
nos vejo a ir entre dormentes e carris
por uma tarde de mosquitos e altas hastes,
fumo azul a subir, sebes com arados, velhos trastes,
um anúncio de leilão na parede do anexo –
tu, com uma laçada da colheita na lapela,
eu com a cana de pesca, já de saudades cheio
do grande gozo dessas tardes, e a tua vara que veio
ceifando pontas de ervas e de arbustos bate
fora do tempo, e bate, sem que salte
nada: esse recanto originário, de língua que ficou
ainda atada na palha que a tua mão atou.
O fim da tarde é a paz
podia ser o mote que esta coisa frágil traz
e no armário de pinho pus pregado –
como um laço armado
que ao espírito do grão há pouco deu contorno
mas brunido pela sua passagem, ainda morno.
.

The Harvest Bow 
As you plaited the harvest bow
You implicated the mellowed silence in you
In wheat that does not rust
But brightens as it tightens twist by twist
Into a knowable corona,
A throwaway love-knot of straw.
Hands that aged round ashplants and cane sticks
And lapped the spurs on a lifetime of game cocks
Harked to their gift and worked with fine intent
Until your fingers moved somnambulant:
I tell and finger it like braille,
Gleaning the unsaid off the palpable,
And if I spy into its golden loops
I see us walk between the railway slopes
Into an evening of long grass and midges,
Blue smoke straight up, old beds and ploughs in hedges,
An auction notice on an outhouse wall--
You with a harvest bow in your lapel,
Me with the fishing rod, already homesick
For the big lift of these evenings, as your stick
Whacking the tips off weeds and bushes
Beats out of time, and beats, but flushes
Nothing: that original townland
Still tongue-tied in the straw tied by your hand.
The end of art is peace
Could be the motto of this frail device
That I have pinned up on our deal dresser--
Like a drawn snare
Slipped lately by the spirit of the corn
Yet burnished by its passage, and still warm.
Seamus Heaney, em "Antologia poética. Seamus Heaney". [seleção e tradução de Vasco Graça Moura]. Coleção Campo da Poesia. Porto: Campo das Letras, 1998.

Seamus Heaney - foto: (...)
FORTUNA CRÍTICA DE SEAMUS HEANEY
GONÇALVES FILHO, Antonio. Morre Seamus Heaney, o poeta maior dos irlandeses. in: Estadão, cultura, 30 de agosto de 2013. Disponível no link. (acessado em 8.9.2016).


Soneto 7 - de 'Clearances'
Ele disse-lhe mais nos últimos minutos
quase, do que em toda a vida de ambos juntos.
Estará na Nova Álea na segunda que vem,
virei ter contido e hás-de alegrar-te quando eu
passar a porta… Assim já achas bem?
Inclinou a cabeça sobre a dela que soergueu.
Ela não ouvia mas nós sentimos júbilo.
E ele chamava-lhe boa menina. E então ela morreu,
a batida do pulso deixou de procurar-se
e a todos, estando ali, algo ocorreu.
O espaço que rodeávamos ficou a esvaziar-se
para dentro de nós o mantermos e penetrava certas
clareiras subitamente abertas.
Alto choro se ouviu e uma pura mudança aconteceu.
.

Sonet 7 - from 'Clearances'
In the last minutes he said more to her
Almost than in their whole life together.
'You'll be in New Row on Monday night
And I'll come up for you and you'll be glad
When I walk in the door . . . Isn't that right?'
His head was bent down to her propped-up head.
She could not hear but we were overjoyed.
He called her good and girl. Then she was dead,
The searching for a pulsebeat was abandoned
And we all knew one thing by being there.
The space we stood around had been emptied
Into us to keep, it penetrated
Clearances that suddenly stood open.
High cries were felled and a pure change happened.
Seamus Heaney, em "Antologia poética. Seamus Heaney". [seleção e tradução de Vasco Graça Moura]. Coleção Campo da Poesia. Porto: Campo das Letras, 1998.



Seamus Heaney
OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: Seamus Heaney - Home
:: Seamus Heaney - Biographical - Nobelprize
:: Seamus Heaney - Poetry Foundation
:: Seamus Heaney - poetryarchive
:: Seamus Heaney Poems - Poem Hunter


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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Seamus Heaney - poeta irlandês. Templo Cultural Delfos, setembro/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 8.9.2016.




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