Laura Riding - poeta modernista norte-americana

Laura (Riding) Jackson
Laura Reichental nasce em Nova York em 16 de janeiro de 1901. Seu pai, imigrante judeu polonês, era alfaiate e um socialista engajado. A mãe, Sadie, era filha de imigrantes judeus. No Brooklyn, Laura tem infância pobre e instável, sendo educada pelos rigorosos princípios políticos de Nathaniel. Entre a política e a poesia, aos 15 anos Laura opta pela última, para reprovação do pai. Mais tarde, consegue uma bolsa de estudos e ingressa na prestigiada Universidade de Cornell, se concentrando em línguas e literatura. Logo abandona a vida universitária para se tornar poeta e pensadora independente. Em 1923 casa-se com o professor de história Louis Gottschalk. Laura Riding Gottschalk (o nome do meio sendo invenção sua), muda-se para Louisville e passa a publicar poemas em revistas literárias pequenas como Contemporary Vérse e Poetry. 1924 é um ano importante: ganha um prêmio da revista The Fugitive, sendo saudada como "a maior revelação da poesia norte-americana" pelo grupo de poetas-críticos (fortemente influenciados por Eliot) que formaria a infantaria da Nova Crítica. Por terem projetos de vida diferentes, Laura e Louis se divorciam. "Os fugitivos" também sentem dificuldade com a personalidade forte de Riding e as relações esfriam. Laura parte para Nova York, onde tem um breve período boêmio, tornando-se amiga íntima de Hart Crane e conhecendo figuras como e.e. cummings, Malcolm Cowley e Edmund Wilson.
Laura (Riding) Jacksonon her front porchin Wabasso, Florida
No fim de 1925, a convite de um admirador, o escritor e poeta inglês Robert Graves (autor do clássico The white goddess), Riding parte para Londres para trabalhar com ele num livro sobre poesia modernista. O impacto de Riding na vida e obra de Graves (então conhecido por suas memórias como ex-combatente na Primeira Guerra, Goodbye to all that) foi imenso. Os 14 anos de parceria emocional e intelectual foram produtivos para ambos. Nos três primeiros anos na Inglaterra, Riding, Graves e sua mulher Nancy formaram o que chamavam de "Trindade", dividindo tarefas domésticas e o cuidado com os filhos de Graves. No mesmo ano, a poeta muda seu nome, legalmente, para Laura Riding. Nesse período conhece a nata do modernismo anglo-americano: Eliot, Stein, Windham Lewis, Yeats e Pound. Seu primeiro livro, The close chaplet, é publicado em 1926 pela editora de Leonard e Virginia Woolf. No ano seguinte lança, em parceria com Graves, um dos diagnósticos pioneiros da poesia contemporânea, A survey of modernist poetry.
O livro causa polêmica por defender, por exemplo, os "modernismos" de Gertrude Stein e cummings, tendo também influência seminal no desenvolvimento da Nova Crítica. Elogiada por poetas em ascensão como Auden e Stephen Spender, a figura "exóticà' de Riding começa a atrair atenção. No intenso e prolífico período londrino, publica livros ambiciosos, como os próprios títulos indicam: Anarquia não é o bastante e Um panfleto contra antologias (este último em parceria com Graves). Com Graves, funda a editora Seizin Press, publicando seus próprios livros, bem como Acquaintance with description, de Stein. Na conservadora Inglaterra, Riding teve de se impor por seus próprios méritos. Ela não se encaixava nos pré-requisitos do "clube". A recepção a seu trabalho, no entanto, quase sempre é hostil (ser uma mulher inteligente, de descendência judaica, norte-americana e poeta, nos tensos e anti-semitas anos 30, não contribuía muito para sua aceitação na cena literária). Como Jed Rasula escreveu: "Numa atmosfera poética controlada pela presença e os pronunciamentos augustos de T.S. Eliot, o primeiro trabalho certamente surgiu como uma afronta à recém-proclamada dignidade que a poesia havia alcançado. Ela surgiu, como Atena, armada até os dentes" (''A renaissance", 167).
Tudo parecia correr bem até que um evento trágico mudaria a vida da chamada "Trindade". Em 1929, durante uma discussão em que estavam presentes Nancy, Graves, e um "discípulo" de Laura (Geoffrey Phibbs), Riding se atira da janela do quarto andar do apartamento londrino (Graves a segue, se atirando do terceiro andar). Laura sobrevive da queda, passando por várias cirurgias e uma temporada no hospital. O acontecimento repercute, pois Graves é uma figura literária conhecida. Em busca de sossego e de uma vida mais barata, tão logo Riding se recupera os dois partem para a França e depois para Majorca, onde vivem seis anos de intensa atividade intelectual. Na ilha espanhola Riding recebe visitas esporádicas de amigos e admiradores, retoma a editora artesanal, sempre envolvida em projetos coletivos (como a revista Epilogue). A vida paradisíaca e utópica na ilha é interrompida pela explosão da Guerra Civil espanhola, em 1936, que os obriga a abandonar a Espanha em poucas horas. De volta a Londres, organiza e publica sua principal obra, Collected poems (1938), reunindo 181 poemas selecionados de seus nove livros anteriores.
Laura (Riding) Jackson
No ano seguinte, a convite de um amigo, o jornalista Tom Matthews, Riding, Graves e alguns amigos partem para os EUA. Em sua estadia, ela conhece Schuyler Jackson (que havia escrito uma crítica altamente elogiosa a Riding na revista Time). Durante a temporada na fazenda de Jackson e sua família (mulher e quatro filhos), os dois se apaixonam. Riding rompe com Graves, que volta para a Inglaterra. Pouco tempo depois, em circunstâncias no mínimo estranhas, a mulher de Jackson enlouquece e é internada num manicômio. Em 1941, Riding casa-se com Schuyler. Nessa época, já havia abandonado a poesia. Em 1943, o casal se muda para uma pequena fazenda em Wabasso, Plórida. Quase isolados do mundo a não ser por intensa correspondência (na casa não havia luz nem telefone), o casal passa a levar uma vida rural, dedicando-se ao antigo projeto de Riding, um dicionário, e ao negócio de frutas cítricas.
Só em 1962 a escritora voltaria à cena literária, agora assinando como Laura (Riding) Jackson, deixando explícita sua identidade de poeta como sendo algo do passado (porém enfatizando sua presença autoral). Nesse ano ela grava um programa para a BBC de Londres, onde explica pela primeira vez as razões por ter abandonado a poesia. Viúva de Schuyler (que morre em 1968), e depois de muito tempo sem ser reeditada (a última edição de Collected poems sendo de 1938), em 1970 sua poesia volta a circular em livro. Nesse retorno, passa a chamar a atenção de uma nova geração de leitores, críticos e escritores, como Paul Auster, que escreve: "Nenhum escritor exigiu mais das palavras do que Laura Riding". Em 1972, Riding publica a prosa meditativa The telling. Nos anos 80, escreve em profusão (não poesia) e publica com freqüência em revistas. Continua polemizando com críticos, enquanto acompanha a reedição de seus livros. Morre em 2 de setembro de 1991. No início do mesmo ano, Riding conquistou o prestigioso Prêmio Bollingen em poesia. O reconhecimento, como costuma acontecer, veio tarde demais.
:: Fonte: por Rodrigo Garcia Lopes, 'biografia/comentário' extraída do livro "Mindscapes - Poemas". São Paulo: Editora Iluminuras, 2004, p. 17-20.



Laura Riding - 1993
OBRA DE LAURA RIDING
Brasil
:: Mindscapes - poemas. Laura Riding. [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.

Estados Unidos
:: A poem: how a poem comes to be. Laura Riding. Lord John Press, 1980.
:: The poems of Laura Riding. A New Edition of the 1938 Collection. New York: Persea Books, 1980.
:: First awakenings: the early poems of Laura Riding. New York: Persea Books, 1992.


"Laura Riding é um dos nomes mais fascinantes e paradoxais da poesia contemporânea. Poucos autores levaram a tal extremo, e com tal coerência de propósitos, a poesia como forma máxima de conhecimento do mundo e de si (...).
Esteve na vanguarda do modernismo dos anos 20 e 30, seja como autora de poemas desafiadores ou como pensadora, narradora e crítica (...).
Poeta reflexiva e iconoclasta,. seus poemas articulam verdadeiras "cenas de linguagem" que investigam os paradoxos e o processo da consciência em seu estado mais alerta."
- Rodrigo Garcia Lopes, em 'Orelha' do livro "Mindscapes - Poemas. Laura Riding". São Paulo: Editora Iluminuras, 2004.

Laura Riding
POEMAS SELECIONADOS DE LAURA RIDING (EDIÇÃO BILÍNGUE)



DE PRIMEIROS DESPERTARES
FIRST AWAKENINGS

PARA UM QUASE AMIGO
Para trás!

Sou pedra. 
       Você tem de rasgar sua carne para escavar meu peito.

Sou tempestade. 
       Ninguém relaxa comigo.

Sou montanha. 
        Moureje até o topo, e vire um solitário.

Sou gelo. 
       Você tem que congelar para que eu derreta.

Sou mar. 
        Não vou devolver você.

Se isto o assusta, 
Para trás! Para trás!

Ainda que, se você for meu amigo, 
Não lhe serei nada disso.
.

TO ONE ABOUT TO BECOME MY FRIEND
Stand off!

I am stone.
       You must tear your flesh to excavate my heart.

I am storm.
         None can rest with me.

I am mountain.
        Toil to the top, be there a solitary.

I am ice.
        You must be frozen that I be melted.

I am sea.
         I would not give you up again.

If this frightens you,
Stand off! Stand off!

Yet, would you be my friend,
I should be none of these to you.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

VERDADE
Sempre procuramos a Verdade.
Ela tem medo de ser pega.
Livros são gaiolas.
Verdade não é um canário
Para ciscar palavras com paciência
E morrer depois de comer todas.

A verdade não gostaria de viver
Na cabeça ou na garganta ou no coração de alguém.
Não tente acha-la ali.

A verdade não é dríade pra ser punida numa arvore
A verdade não é nenhuma náiade.
A verdade certamente se afogaria numa fonte.

Deixe a terra em paz.
A verdade não deixa pegadas.
Não escute
Até o silencio se pôr com a lua.
A verdade não faz ruídos.
Não siga a luz
Que segue o sol
Que segue a noite.
A verdade dança além da luz
E do sol
E da noite.
A verdade não pode ser vista.

Deixe a curiosidade ficar em casa.
Ela pode se perder.
(A verdade freqüenta antros estranhos.)
Se, criança, o segredo se calça,
Um dia será imprudência.

Deixe a verdade em paz.
A verdade não pode ser pega.
Acho que ela não vive nada, não,
Pois teria medo de morrer, então.
.

TRUTH 
We keep looking for Truth. 
Truth is afraid of being caught. 
Books are bird-cages. 
Truth is no canary 
To nibble patiently at words 
And die when they're all eaten up. 

Truth would not like 
To live in people's heads or hearts or throats. 
Don't try to find her there. 

Truth is no dryad to be punished in a tree. 
Truth is no naiad. 
Truth would be surely drowned in a spring. 

Don't worry the earth. 
Truth leaves no footprints.
Don't listen 
Before silence has set with the moon. 
Truth makes no noise. 
Don't follow the light 
That follows the sun 
That follows the night. 
Truth dances beyond the light
And the sun
And the night.
The truth can't be seen.

Let curiosity stay at home. 
It may get lost. 
(Truth has strange haunts.) 
If stealth wears shoes 
It grows up to imprudence. 

Leave truth alone. 
Truth can't be caught. 
I think Truth doesn't live at all because 
She'd have to be afraid of dying, then.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

O MISTERIOSO SEJAQUEMFOR
A película repousa – não nos olhos mas repousa –
No conglomerado, o todo nublado
Em que estamos e não estamos,
Cegos de qualquer jeito.

Uma órbita abarrotada de um olho vazio
Não é fútil o bastante, nem cruel.
Até o imperfeito objeto de uma perfeita visão
É comida, de leve,
Vê só!

Eu sei de nós,
Não sou tão só assim,
Sabemos de mim,
Embora bem pouco.

A fome de contemplar
Implora com mais apetite
Depois de um susto sutil
Quando a película cai novamente
Sobre o sempre súbito estranho,
O mediador notório
Entre eu e a gente,
Entre a gente e eu,
O misterioso sejaquemfor:
Você.
.

THE MYSTERIOUS WHOEVER 
A film lies over — not the eyes but over — 
The conglomerate, the clouded all 
We are in and out of, 
Blind both ways. 

A crammed socket but an empty eye 
Is not too idle, cruel. 
Even the imperfect object of a perfect vision 
Is faintly food, 
For see!

I know of us, 
Am not too lonely, 
We know of me, 
Albeit dimly. 

The hunger to behold 
Craves more heartily 
After a slight startle 
When the film falls anew 
Upon the ever sudden stranger, 
The mediator manifest 
Of me to us, 
Of us to me, 
The mysterious whoever:
You.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

UMA GENTILEZA
Estar viva é estar curiosa. 
Quando perder interesse pelas coisas 
E não estiver mais atenta, álacre 
Por fatos, acabo este minguado inquérito. 
A morte é a condição do supremo tédio. 

Vou deixar que me desintegre 
E aí, por saber da paz que a morte traz, 
Seria bom seguir convencendo o destino 
A ser mais generoso, estender, também, 
O privilégio do tédio a todos vocês. 
.

A KINDNESS
To be alive is to be curious.
When I have lost my interest in things
And am no more alert, alacritous
For fact, I’ll end this bated enquiry.
Death’s the condition of supreme ennui.

I shall permit me to disintegrate
And then, because I know the peace death brings,
It will be good to keep persuading fate
To be more generous, extending, too,
This privilege of boredom to all of you.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

O QUARTO PODER
O jornal reporta pessoas como sempre.
O duplo de papel da carnalidade,
Mantém a vida na moda
E incensa o incerto original.
Lemos com fé, esfregando a lâmpada fictícia,
E logo surgem gênios para se fofocar
Da ampla página, e pela matéria
Sabemos sobre nós, silenciados
Por nossas fotos impressas suspensas
Numa parede frágil.

E a folha circula talvez além
Dos limites privados do boato carnal.
E a propaganda é a de um retrato ativo
Que serve a um modelo calado,
Pleiteia um bom lugar na galeria remota,
Garante à criatura a imortalidade empoeirada
De um fantástico memorando
Num arquivo perdido.
.

THE FOURTH ESTATE 
The newspaper reports people as usual. 
The paper double of fleshliness 
Continues to keep life fashionable 
And flatter the uncertain original. 
We read with faith, rubbing the fictive lamp, 
And soon the gossiped genii appear 
Out of the broad page, and by report 
We know ourselves, are quieted 
By the printed pictures of us hung 
Upon a flimsy wall.

And the sheet circulates perhaps beyond 
The private limits of earthly rumor. 
And the advertisement is of an active portrait 
That serves a quiet model, 
Pleads a good place in the remote gallery, 
Secures the creature the dusty immortality 
Of a fantastic memorandum 
In a forgotten file.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

DIMENSÕES
Meçam-me para um funeral
Com minha cova rasa expressando
De um jeito preciso, euclidiano,
Meu ser tridimensional.

Pode ser a vida tão pequena, tão magra?
Meça-me no tempo. Mas o tempo não avança
E é estranho e nada sabe de lei ou de mudança
Mas só de morte, que é nada de nada.

Meçam-me pela beleza.
Mas beleza é o primeiro nome que a morte
Deu à vida, seu primeiro falecer, chama
Que tremeluz, um amaranto que se apaga
E se apaga de novo na sombra mortiça da morte.

Meçam-me não pela beleza, que teme lutar.
Pois a beleza faz trégua com a morte, 
Comprando desonra e morte eterna
Na esperança de sobreviver a vida.

Meçam-me então pelo amor – mas não ainda,
Pois lembro-me de vezes em que ele buscava
Suas próprias medidas em mim,
Mas fugiu, com medo que eu pudesse predizer
Quão ampla e alta eu mesma era, profunda
E de múltiplas medidas, mudando
Minha escala sobre ele e assim provando
Que tanto eu quanto ele éramos nada.

Meçam-me por mim mesma
E não pelo tempo nem amor nem espaço
Nem pela beleza. Dêem-me só esta última graça:
Que em minha lápide eu possa
Ser uma régua eu mesma.
Não gostaria que essas velhas crenças fracassassem
E provassem que até eu era nada.
.

DIMENSIONS
Measure me for a burial
That my low stone may neatly say
In a precise, Euclidean way
How I am three-dimensional.

Yet can life be so thin and small?
Measure me in time. But time is strange
And still and knows no rule or change
But death and death is nothing at all.

Measure me by beauty.
But beauty is death’s earliest name
For life, and life’s first dying, a flame
That glimmers, an amaranth that will fade
And fade again in death’s dim shade.

Measure me not by beauty, that fears strife.
For beauty makes peace with death, buying
Dishonor and eternal dying
That she may keep outliving life.

Measure me then by love – yet, no,
For I remember times when she
Sought her own measurements in me,
But fled, afraid I might foreshow
How broad I was myself and tall
And deep and many-measured, moving
My scale upon her and thus proving
That both of us were nothing at all.

Measure me by myself
And not by time or love or space
Or beauty. Give me this last grace:
That I may be on my low stone
A gage unto myself alone.
I would not have these old faiths fall
To prove that I was nothing at all.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

LIVRE
Pensar é o jeito mais pobre de viajar –
Trilhas na cabeça, 
Sonhos na cama. 

Viver num corpo é o jeito mais triste de viver, 
Trancado em si e só, 
Em carne e ossos. 

Tirem-me da cabeça, 
Tirem-me do corpo, 
Acordem-me da cama. 

Em vez de dama, 
Vagabunda e morta.
.

FREE
Thinking is the poorest way of traveling — 
Paths in the head, 
Dreams in bed. 

Living in a body is the drearest kind of life, 
Locked up all alone 
In flesh and bone. 

Turn me out of head, 
Turn me out of body, 
Wake me out of bed. 

Rather than respectable,
Vagabond and dead.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

DE OS POEMAS DE LAURA RIDING
THE POEMS OF LAURA RIDING


ENCARNAÇÕES
Não renegue,
Não renegue, coisa vinda de coisa,
Não renegue nessa vaidade nova
O velho pó original.

De que cova, de que passado de carne e osso
Sonhando, sonhando jazo
Debaixo da maldição auspiciosa,
Enfeitiçada, viva, esquecendo minha matéria-prima…
A morte não me permite um instante para lembrar

Temendo que, tal pedra de estátua transmutada demais,
Grão por grão eu recorde o pó original
E, olhando para baixo num degrau da memória, repita:
Eu nunca fui isso.
.

INCARNATIONS
Do not deny,
Do not deny, thing out of thing,
Do not deny in the new vanity
The old, original dust.

From what grave, what past of flesh and bone
Dreaming, dreaming I lie
Under the fortunate curse,
Bewitched, alive, forgetting the first stuff…
Death does not give a moment to remember in

Lest, like a statue’s too transmuted stone
I grain by grain recall the original dust
And, looking down a stair of memory, keep saying:
This was never I.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

ORGULHO DA CABEÇA
Fosse encaixada em outra parte e não assim, 
Girando em seu soquete privado e preciso 
Como sol encaixado numa junta da montanha ... 
Mas, aqui, inclinando e soprando em meu pescoço, 
Sem precedente na natura 
Nem nas belezas da arquitetura, 
Esvoaçando meu cabelo como um campo de milho, 
Semeada ao acaso num canto esquecido da colina, 
Minha cabeça está no topo de mim 
Onde vivo mais e a maior parte do tempo, 
Onde minha face lança um olhar introspectivo 
Para o que está fora de mim, 
E encara o desafio de outras coisas 
Com desdém, por ser o que é. 

Deste lugar de honra, gema 
Do continente maior e preguiçoso bem abaixo, 
Eu, ídola da cabeça, 
Uma autocrata sentada, cruzando minhas intenções, 
Olho e me preocupo com o resto com bondade, 
Despacho os riachos de sentido para baixo 
Para que explorem a selvagem terra semidesperta, 
Tremendo continente desta ilha mínima,
E a civilizem o melhor que possam.
.

PRIDE OF HEAD
If it were set anywhere else but so,
Rolling in its private exact socket
Like the sun set in a joint on a mountain…
But here, nodding and blowing on my neck,
Of no precedence in nature
Or the beauties of architecture,
Flying my hair like a field of corn
Chance-sown on the neglected side of a hill,
My head is at the top of me
Where I live mostly and most of the time,
Where my face turns an inner look
On what’s outside of me
And meets the challenge of other things
Haughtily, by being what it is.

From this place of pride,
Gem of the larger, lazy continent just under it,
I, idol of the head,
An autocrat sitting with my purposes crossed under me,
Watch and worry benignly over the rest,
Send all the streams of sense running down
To explore the savage, half-awakened land,
Tremendous continent of this tiny isle,
And civilize it as well as they can.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

SIM E NÃO
Através de um continente imaginário 
Por não poder ser mais descoberto agora
Sobre este planeta totalmente apreendido 
Sem considerar mais candidatos, 
Ai de mim!

Um bicho izoológico andava, 
Sem fado, sem fato, 
Sua história pessoal intacta 
Contra a paródia 
De uma anatomia.

Nem visível nem invisível, 
Removido pela noite sem dia, 
Já terá fugido de sua terra 
E da fantasia até a luz, 
Até o espaço para repor 
Seu falecer inescrevível?

Ah, os minutos piscam e despiscam, 
Fechados e abertos vão e vêm, 
Um por um, nenhum por nenhum, 
O que sabemos, o que não sabemos.
.

YES AND NO
Across a continent imaginary
Because it cannot be discovered now
Upon this fully apprehended planet –
No more applicants considered,
Alas, alas –

Ran an animal unzoological,
Without a fate, without a fact,
Its private history intact
Against the travesty
Of an anatomy.

Not visible not invisible,
Removed by dayless night,
Did it ever fly its ground
Out of fancy into light,
Into space to replace
Its unwritable decease?

Ah, the minutes twinkle in and out
And in and out come and go
One by one, none by none,
What we know, what we don’t know.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

TARDE
A febre da tarde 
Se chama tarde, 
Velho sono arrancado, 
Cedo demais para ser noite, 
Sem outro nome, pois não há nome 
De tarde além da tarde.

O amor tenta falar mas soa 
Tão perto em seu próprio ouvido. 
Os tic-tacs escutam 
O que os tic-tacs retrucam. 
A febre preenche onde gargantas se mostram, 
Mas nesses horrores nada tenta engolir 
Enquanto a sede persegue a tarde 
Até o rouco pôr-do-sol.

O entardecer surge com bocas 
Quando a tarde pode falar. 
A ceia e a cama começam e terminam 
E o amor obscurece o pensar. 
Mais tardes dividem a noite, 
Novo sono arrancado, 
Suspensão desperta entre sonho e sonho 
Nunca soubemos quanto. 
O sol se atrasa por horas de logo e logo 
Então chega a febre veloz chamada dia.
Mas a febre lenta se chama tarde. 
.

AFTERNOON
The fever of afternoon
Is called afternoon,
Old sleep uptorn,
Not yet time for night-time,
No other name, for no names
In the afternoon but afternoon.

Love tries to speak but sounds
So close in its own ear.
The clock-ticks hear
The clock-ticks ticking back.
The fever fills where throats show,
But nothing in these horrors moves to swallow
While thirst trails afternoon
To husky sunset.

Evening appears with mouths
When afternoon can talk.
Supper and bed open and close
And love makes thinking dark.
More afternoons divide the night,
New sleep uptorn,
Wakeful suspension between dream and dream –
We never knew how long.
The sun is late by hours of soon and soon –
Then comes the quick fever, called day.
But the slow fever is called afternoon.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

ADIAMENTO DE SI 
Adiei outro dia. 
Mudei para outra cidade, 
Abri uma nova porta para mim. 
Uma noite passada veio de novo. 
A cama disse: “Dormir, depois voltar?”
Eu disse: “Dessa vez vá em frente”.

Chegando, chegando, mas não, mas não,
Mesmo assim chegando, até que me encontram.
Pois seria seu desapontamento
Por chegar tarde (“Ela não esperou”).
Espero. E cruzo minha mãe.
Acidente são assim.
Ela sorri: longo depois.
Eu me emburro: longo antes.
Cresço até os seis.
Aos seis, garotas apaixonadas pelos pais.
Ele me levanta.
Vê. Esta sou Eu?
Esta sou Eu, penso,
De todos os jeitos até os vinte.
Aos vinte eu digo Ela.
Sua face é como uma flor.
Não temos nomes de flores, desculpe, nesta cidade.
Nem nomes de flores sente necessidade
O diário da identidade.
.

POSTPONEMENT OF SELF
I took another day,
I moved to another city,
I opened a new door to me.
Then again a last night came.
My bed said: ‘To sleep and back again?’
I said: ‘This time go forward.’

Arriving, arriving, not yet, not yet,
Yet yet arriving, till I am met.
For what would be her disappointment
Coming late (`She did not wait’).
I wait. And meet my mother.
Such is accident.
She smiles: long afterwards.
I sulk: long before.
I grow to six.
At six little girls in love with fathers.
He lifts me up.
See. Is this Me?
Is this Me I think
In all the different ways till twenty.
At twenty I say She.
Her face is like a flower.
In a city we have no flower-names, forgive me.
But flower-names not necessary
To diary of identity.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

HELENA EM CHAMAS
Sua beleza, de que falamos,
É só metade de sua sina.
Nada será revelado
Até que as duas metades se cruzem
E a gente se cala
Enquanto ela fala,
E relata toda sua sina,
Ela é, e não é, num fôlego só.

Mas só contamos a metade, temendo saber tudo
Com medo de que tudo seja dito
Nossas bocas se engasguem com o fogo
De seu consumir
E percam o dom da profecia.
.

HELEN'S BURNING
Her beauty, which we talk of,
Is but half her fate.
All does not come to light
Until the two halves meet
And we are silent
And she speaks,
Her whole fate saying,
She is, she is not, in one breath.

But we will tell only half, fear to know all
Lest all should be to tell
And our mouths choke with flame
Of her consuming
And lose the gift of prophecy.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

de ECOS

1

Tenho aprendido tudo em tal tremor na noite passada –
Não com meus olhos peritos no escuro,
Mas com meus dedos duros de susto,
Esticados para tocar um fantasma, fechando-se em mim –
Venho sorrindo.

2

Criar inocentes para que virem monstros 
Não é fertilidade mas fascínio
Nas mulheres.

3

Foi o começo do tempo
Quando o eu ergueu-se do lodo pela primeira vez.
Foi o começo do sofrimento
Quando um anjo falou e de novo se calou.

4

Feita a contagem dos séculos, números suspensos
E pesados sobre as esperanças inumeradas oprimem
O coração que toda mulher acalma sob o vestido
Junto à garganta, onde a memória se afivela na renda,
Um broche antigo.

5

É missão dos homens espantar e caçar
Essa sereia luminar, o dia.
Alguém tem que esperar, alguém tem que guardar a noite.

6

Se existem heróis em algum lugar
Desarme-os rapidamente e lhes dêem
Medalhas, funerais de honra,
E história para terem saudades
Como meteorologistas anunciam a chuva com orgulho.

11

“Eu remendo”, digo,
Sempre que algo se quebra,
“Colando o fim com o começo”.
Então com mãos bem limpas 
E dedos pianizando
E arregaçando as mangas,
Sempre chego a uma mesa vazia.
Os estilhaços não esperam
Que as mangas se arregacem.
Sempre chego atrasada
E digo, “Eu remendo”.

12

Suavemente, descendo no declive da mente,
Voam a flor, a folha, o tempo –
Tudo menos o nome feroz da planta,
Matronímico indestrutível de uma espécie.

13

Os edifícios opiáceos do sono,
Os devaneios monótonos do noturnálito,
As faces interiores líqüidas e amorfas,
Os rasos terrores, nunca é longe acordar.

15

... história trapaceada –
Que roubando o agora só tem antes
E roubando a gente só tem vultos.

17

Perdoe-me, doador, se destruo seu presente!
É tanto quase o que eu queria,
Que só assim ficará perfeito.

18

“Digna duma jóia ", dizem da beleza,
Sem certeza de qual é beleza e qual
É a preciosa mesma.

21

Entre verbo e mundo jazem
Murchas eternidades de já.

23.

O amor é muito tudo, feito fogo. 
Muita coisa queimando, 
Mas só uma combustão.

24

Meu endereço? Nos cafés, catedrais,
Campos verdes, terminais de mármore –
Logo prolifera em mim.
Quando? Qualquer momento me encontra,
Migalha reiterada
Expandida no espaço.

25

Façamos que conversamos
Ou vão pensar que morremos, e nos ressuscitar.
Hora, acene com brilho.
Nos resgate do resgate.
.

from ECHOES

1

Since learning all in such a tremble last night—
Not with my eyes adroit in the dark,
But with my fingers hard with fright,
Astretch to touch a phantom, closing on myself—
I have been smiling.

2

Mothering innocents to monsters is
Not of fertility but fascination
In women.

3

It was the beginning of time
When selfhood first stood up in the slime.
It was the beginning of pain
When an angel spoke and was quiet again.

4

After the count of centuries numbers hang
Heavy over the unnumbered hopes and oppress
The heart each woman stills beneath her dress
Close to the throat, where memory clasps the lace,
An ancient brooch.

5

It is a mission for men to scare and fly
After the siren luminary, day.
Someone must bide, someone must guard the night.

6

If there are heroes anywhere
Unarm them quickly and give them
Medals and fine burials
And history to look back on
As weathermen point with pride to rain.

11

‘I shall mend it,’ I say,
Whenever something breaks,
‘By tying the beginning to the end.’
Then with my hands washed clean
And fingers piano-playing
And arms bare to go elbow-in,
I come to an empty table always.
The broken pieces do not wait
On rolling up of sleeves.
I come in late always
Saying, ‘I shall mend it.’

12

Gently down the incline of the mind
Speeds the flower, the leaf, the time—
All but the fierce name of the plant,
Imperishable matronymic of a species.

13

The poppy edifices of sleep,
The monotonous musings of night-breath,
The liquid featureless interior faces,
The shallow terrors, waking never far.

15

. . . cheated history—
Which stealing now has only then
And stealing us has only them.

17

Forgive me, giver, if I destroy the gift!
It is so nearly what would please me,
I cannot but perfect it.

18

‘Worthy of a jewel,’ they say of beauty,
Uncertain what is beauty
And what the precious thing.

21

Between the word and the world lie
Fading eternities of soon.

23

Love is very everything, like fire:
Many things burning,
But only one combustion.

24

My address? At the cafés, cathedrals,
Green fields, marble terminals—
I teem with place.
When? Any moment finds me,
Reiterated morsel
Expanded into space.

25

Let us seem to speak
Or they will think us dead, revive us.
Nod brightly, Hour.
Rescue us from rescue.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

MUITO FUNCIONA
Muito funciona em fazer o mundo
Mais seguro por ser mais bonito.
Mas belezas demais esmagam a prova.
Beleza demais é um Letes.

A sucessão das coisas lindas
Deleita, não ilumina.
Não sabemos nada, nada ainda.
Beleza será verdade só uma vez.

Troque o multiplicado desnorteio
Por uma única apresentação do fato pela beleza;
E a revelação será instantânea.
Morreremos depressa.
.

THERE IS MUCH AT WORK
There is much at work to make the world
Surer by being more beautiful.
But too many beauties overwhelm the proof.
Too much beauty is Lethe.

The succession of fair things
Delights, does not enlighten.
We still know nothing, nothing.
Beauty will be truth but once.

Exchange the multiplied bewilderment
For a single presentation of fact by fairness;
And the revelation will be instantaneous.
We shall all die quickly.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

A DEFINIÇÃO DE AMOR
A definição de amor em várias línguas 
Estabelece, de um jeito esquisito, 
Identidade de episódios 
Tornando coloquial 
O paralelo do mito. 

Mas, intraduzível, 
O amor permanece 
Um futuro nos cérebros. 
A fala inventa a memória 
Onde nunca tivesse havido 
Olvido ou história. 
E, ao nos lembrar, esquecemos, 
Confundindo futuro com passado, 
Nos preocupamos de repente 
Voltamos a um outrora 
Não ainda amanhã.
.

THE DEFINITION OF LOVE
The definition of love in many languages
Quaintly establishes
Identities of episodes
And makes the parallel
Of myth colloquial.

But, untranslatable,
Love remains
A future in brains.
Speech invents memory
Where there has been
Neither oblivion nor history.
And we remembering forget,
Mistake the future for the past,
Worrying fast
Back to a long ago
Not yet to-morrow.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

TAMANHO NATURAL É DEMAIS
Para a microscopia do pensar pequeno
(Com espaço bastante para pensar ao menos)
Eu disse, “Espelho restrito, constrição fiel,
Se espatife, seja do meu tamanho”.

Depois ouvi folhas roçarem em meus ouvidos
E um vento pequeno como folha soprou
Minha mente até um canto de minha mente,
Onde o vento sobre o chão vazio não cessava
E um anão grande pegava e pegava nada.
.

LIFE-SIZE IS TOO LARGE
To the microscopy of thinking small
(To have room enough to think at all)
I said, “Cramped mirror, faithful constriction,
Break, be large as I”.

Then I heard little leaves in my ears rustling
And a little wind like a leaf blowing
My mind into a corner of my mind,
Where wind over empty ground went blowing
And a large dwarf picked and picked up nothing.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

O MAPA DOS LUGARES
O mapa dos lugares passa.
A realidade do papel se rasga.
Onde terra e água estão,
Estão apenas onde já estavam
Quando palavras se liam aqui e aqui
Antes de navios acontecerem ali.

Agora de pé sobre nomes nus,
Sem geografias na mão,
E o papel é lido como antigamente,
E os navios no mar
Dão voltas e voltas.
Tudo sabido, tudo encontrado.
A morte cruza consigo por toda parte.
Buracos nos mapas dão em lugar nenhum.
.

THE MAP OF PLACES
The map of places passes.
The reality of paper tears.
Land and water where they are
Are only where they were
When words read here and here
Before ships happened there.

Now on naked names feet stand,
No geographies in the hand,
And paper reads anciently,
And ships at sea
Turn round and round.
All is known, all is found.
Death meets itself everywhere.
Holes in maps look through to nowhere.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

MORTE COMO MORTE
Conceber a morte como morte,
É dificuldade conseguida facilmente,
Brancura se precipitando entre
Imagens de entendimento,
A morte essa mão fria e veloz
Sobre a testa quente de suicídio.
Assim é conseguida facilmente
Por um instante só. Fornalhas, outra vez,
Rugem nas orelhas, de novo o inferno revolver-se,
E o olho elástico detém o paraíso
A uma visível distância da cegueira,
E atordoado o corpo ecoa
“Assim, assim, como nada mais.”

Como nada – uma similaridade
Sem semelhança. O olho profético,
Que se fecha à dificuldade,
Se abre se comparado,
Dividindo a realidade
Como um presente simples demais, para a qual
Gratidão não tem linguagem,
Nem previsão tem visão.
.

DEATH AS DEATH
To conceive death as death
Is difficulty come by easily,
A blankness fallen among
Images of understanding,
Death like a quick cold hand
On the hot slow head of suicide.
So is it come by easily
For one instant. Then again furnaces
Roar in the ears, then again hell revolves,
And the elastic eye holds paradise
At visible length from blindness,
And dazedly the body echoes

Like this, like this, like nothing else.’
Like nothing — a similarity
Without resemblance. The prophetic eye,
Closing upon difficulty,
Opens upon comparison,
Halving the actuality
As a gift too plain, for which
Gratitude has no language,
Foresight no vision.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

OS PROBLEMAS DE UM LIVRO
O problema de um livro é, primeiro, não ser 
Pensamentos para ninguém 
E ficará tão inescrito 
Quanto permanecerá não lido 
E construir um autor palavra por palavra 
E ocupar sua cabeça 
Até que a cabeça feche pra balanço 
Para publicar a todos 
Seu esvaziamento.

O segundo problema de um livro 
É ficar desperto e pronto 
À escuta como um dono de pousada 
Querendo, não querendo hóspedes, 
Indeciso entre a esperança de folga nenhuma 
E a esperança de folga. 
Vacilantes, as páginas cochilam 
E piscam para os dedos que passam 
Com sorriso proprietário, e fecham-se.

O terceiro problema de um livro é 
Dar seu sermão e virar as costas 
Suscitando comoção nas margens 
Onde a língua cruza o olho, 
Sem declarar nenhuma experiência de pânico, 
Nenhuma cumplicidade neste tumulto. 
A provação de um livro é não dar pistas 
De ser provação, é ser neutro e leigo 
No sentido reto do impresso.

O problema de um livro, principalmente,
É ser só livro na superfície;
Vestir capa como capa,
Se enterrar em morte-livro
Mas se sentir tudo menos livro,
Respirar palavras vivas, mas com o hálito
Das letras; endereçar vivacidade
Nos olhos que lêem, ser respondido
Com letras e livrescidade.
.

THE TROUBLES OF A BOOK
The trouble of a book is first to be 
No thoughts to nobody, 
Then to lie as long unwritten 
As it will lie unread, 
Then to build word for word an author 
And occupy his head 
Until the head declares vacancy 
To make full publication 
Of running empty. 

The trouble of a book is secondly 
To keep awake and ready 
And listening like an innkeeper, 
Wishing, not wishing for a guest, 
Torn between hope of no rest 
And hope of rest. 
Uncertainly the pages doze 
And blink open to passing fingers 
With landlord smile, then close.

The trouble of a book is thirdly 
To speak its sermon, then look the other way, 
Arouse commotion in the margin, 
Where tongue meets the eye, 
But claim no experience of panic, 
No complicity in the outcry. 
The ordeal of a book is to give no hint 
Of ordeal, to be flat and witless 
Of the upright sense of print.

The trouble of a book is chiefly 
To be nothing but book outwardly; 
To wear binding like binding, 
Bury itself in book-death, 
Yet to feel all but book; 
To breath live words, yet with the breath 
Of letters; to address liveliness 
In reading eyes, be answered with 
Letters and bookishness.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

ELEGIA NUMA TEIA DE ARANHA
O que dizer enquanto a aranha 
Dizer enquanto a aranha o que 
Enquanto a aranha a aranha o que 
A aranha faz que o que 
Faz que faz que morre não faz 
Não vive e então não 
Pernas pernas e então nenhuma 
Enquanto a aranha faz morre 
Morte aranha morte 
Ou não a aranha ou 
O que dizer enquanto 
Dizer sempre 
Morte sempre 
O morrer de sempre 
Ou viva ou morta 
O que dizer enquanto eu 
Enquanto eu ou a aranha 
Não eu e eu o que 
Faz o que faz morre 
Não enquanto a aranha morre 
Morte aranha morte 
Morte sempre eu 
Morte antes do sempre 
Morte depois do sempre 
Morta ou viva 
Agora e sempre 
O que dizer agora 
Agora e sempre 
O que dizer agora 
Agora enquanto a aranha 
O que faz a aranha 
A aranha o que morre 
Morre enquanto então enquanto 
Então sempre morte sempre 
O morrer de sempre 
Sempre agora eu 
O que dizer enquanto eu
Enquanto eu o que 
Enquanto eu digo 
Enquanto a aranha 
Enquanto eu sempre 
Morte sempre 
Enquanto morte o que 
Morte eu digo diga 
Morta aranha não importa 
Que meticulosa morte 
Viva ou morta 
Morta não importa 
Que meticulosa eu 
O que dizer enquanto 
Enquanto quem enquanto a aranha 
Enquanto a vida enquanto o espaço 
O morrer de oh que pena 
Pobre quão meticulosa morre 
Realidade não importa 
Morte sempre 
O que dizer 
Enquanto quem 
Morte sempre 
Enquanto a morte enquanto a aranha 
Enquanto eu quem eu 
O que dizer enquanto 
Agora antes depois sempre 
Quando então a aranha o que 
Dizer o que enquanto agora 
Pernas pernas então nenhuma 
Enquanto a aranha 
Morte aranha morte 
A gênia que não consegue parar de saber 
O que dizer enquanto a aranha 
Enquanto eu disser 
Enquanto eu ou a aranha 
Viva ou morta o morrer de 
Quem não consegue parar de saber 
Quem morte quem eu 
A aranha quem enquanto 
O que dizer enquanto 
Quem não consegue parar 
Quem não pode 
Não pode parar 
Parar 
Não pode 
A aranha 
Morte 
Eu 
Nós 
Os gênios 
Saber 
O que dizer enquanto a 
Quem não pode 
Enquanto a aranha o que 
O que faz morre 
Morte aranha morte 
Quem não pode 
Morte parar morte 
Para saber dizer o que 
Ou não a aranha 
Ou se eu disser 
Ou se eu não disser
Quem não pode parar de saber 
Quem conhecem os gênios.
Quem diz o eu
Quem ele nós não podemos
Morte parar morte
Para saber dizer eu
Oh pena pobre belezinha
Que meticulosos vida amor
Não importa espaço aranha
Que hórrida realidade
O que dizer enquanto
O que enquanto
Quem não pode
Como parar
O saber do sempre
Quem estes este espaço
Antes depois aqui
Vida agora minha cara
A cara amor a
As pernas reais enquanto
Que hora morte sempre
O que dizer então
Que hora a aranha
.

ELEGY IN A SPIDER'S WEB
What to say when the spider 
Say when the spider what 
When the spider the spider what 
The spider does what 
Does does dies does it not 
Not live and then not 
Legs legs then none 
When the spider does dies 
Death spider death 
Or not the spider or 
What to say when 
To say always 
Death always 
The dying of always 
Or alive or dead 
What to say when I 
When I or the spider 
No I and I what 
Does what does dies 
No when the spider dies 
Death spider death 
Death always I 
Death before Always
Death after always 
Dead or alive 
Now and always 
What to say always 
Now and always 
What to say now 
Now when the spider 
What does the spider 
The spider what dies 
Dies when then when 
Then always death always 
The dying of always 
Always now I 
What to say when I 
When I what 
When I say 
When the spider 
When I always 
Death always 
When death what 
Death I says say 
Dead spider no matter 
How thorough death 
Dear or alive 
No matter death 
How thorough I 
What to say when 
When who when the spider 
When life when space 
The dying of oh pity 
Poor how thorough dies 
No matter reality 
Death always 
What to say 
When who 
Death always 
When death when the spider 
When I who I 
What to say when 
Now before after always 
When then the spider what 
Say what when now 
Legs legs then none 
When the spider 
Death spider death 
The genii who cannot cease to know 
What to say when the spider 
When I say 
When I or the spider 
Dead or alive the dying of 
Who cannot cease to know 
Who death who I 
The spider who when 
What to say when 
Who cannot cease 
Who cannot 
Cannot cease 
Cease 
Cannot 
The spider 
Death 
We 
The genii 
To know 
What to say when the 
Who cannot 
When the spider what 
Does what does dies 
Death spider death 
Who cannot 
Death cease death 
To know say what 
Or not the spider 
Or if I say 
Or if I do not say 
Who cannot cease to know 
Who know the genii 
Who say the I 
Who they we cannot 
Death cease death 
To know say I 
Oh pity poor pretty 
How thorough life love 
No matter space spider 
How horrid reality 
What to say when 
What when 
Who cannot 
How cease 
The knowing of always 
Who these this space 
Before after here 
Life now my face 
The face love the 
The legs real when 
What time death always 
What to say then 
What time the spider
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

ABRIR DE OLHOS 
Pensamento dando para pensamento 
Faz de alguém um olho. 
Um é a mente cega-de-si, 
O outro é pensamento ido 
Para ser visto de longe e não sabido. 
Assim se faz um universo brevemente. 

A suposição imensa nada em círculos, 
E cabeças ficam mais sábias 
Enquanto notam a grandeza, 
E a dimensão imbecil 
Espaça a Natureza, 

E ouvidos reportam primeiro os ecos, 
Depois os sons, distinguem palavras 
Cujos sentidos chegam por último ─
Vocabulários jorram das bocas 
Como por encanto. 
E assim falsos horizontes se ufanam em ser 
Distância na cabeça 
Que a cabeça concebe lá fora. 

O maravilhar-se, que escapa dos olhos, 
Regressa a cada lição. 
O tudo, antes segredo, 
Agora é o conhecível, 
A vista da carne, a grandeza da mente. 

Mas e quanto ao sigilo,
Pensamento individido, pensando
Um todo simples de ver?
Essa mente morre sempre instantaneamente
Ao prever em si, de repente demais,
A visão evidente demais,
Enquanto lábios sem boca se abrem
Mudamente atônitos para ensaiar
O verso simples e impronunciável. 
.

OPENING OF EYES
Thought looking out on thought
Makes one an eye.
One is the mind self-blind,
The other is thought gone
To be seen from afar and not known.
Thus is a universe very soon.

The immense surmise swims round and round,
And heads grow wise
Of marking bigness,
And idiot size
Spaces out Nature.

And ears report echoes first,
Then sounds, distinguish words
Of which the sense comes last
From mouths spring forth vocabularies
As if by charm.
And thus do false horizons claim pride
For distance in the head
The head conceives outside.

Self-wonder, rushing from the eyes,
Returns lesson by lesson.
The all, secret at first,
Now is the knowable,
The view of flesh, mind’s muchness.

But what of secretness,
Thought not divided, thinking
A single whole of seeing?
That mind dies ever instantly
Of too plain sight foreseen
Within too suddenly,
While mouthless lips break open
Mutely astonished to rehearse
The unutterable simple verse.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

OCEANO, FILOSOFIA FALSA
Primeiro de todas as falsas filosofias,
O oceano arenga para os doidos,
Os lógicos possessos do romance.
Seu olhar oscilante, essa massa oscilante,
Se abraçam em perda perpétua —
Oceano é pó rejeitado
Peneirado numa metáfora
Por uma fina renúncia,
É uma lenta diluição.

À deriva, ritmos mesmerizam
O livro mudo de sonhos.
As linhas entoam mas tão inaudíveis
O trajeto é veraz demais e não conhece
Nem naufrágio nem seqüela.

Otimismos em desespero
Embarcam nesse apático frenesi.
Cérebros frustrados em seus olhos
Descansam nessa imagem de monotonia
E desmaiam, agradecidos.
Ah, corações tão peculiarmente íntegros,
O Céu vos proteja, diante de tal argumento,
Para que continueis persuadidos e íntegros,
O Céu vos proteja, se puder,
Enquanto visões se ampliam até um zero aquoso
E a profecia se expande até a extinção.
.

SEA, FALSE PHILOSOPHY
Foremost of false philosophies,
The sea harangues the daft,
The possessed logicians of romance.
Their swaying gaze, that swaying mass
Embrace in everlasting loss—
Sea is the spurned dust
Sifted with fine renunciation
Into a metaphor,
A slow dilution.

The drifting rhythms mesmerize
The speechless book of dreams.
The lines intone but are not audible.
The course is overtrue and knows
Neither a wreckage nor a sequel.

Optimisms in despair
Embark upon this apathetic frenzy.
Brains baffled in their eyes
Rest on this picture of monotony
And swoon with thanks.
Ah, hearts whole so peculiarly,
Heaven keep you by such argument
Persuaded and unbroken,
Heaven keep you if it can
As visions widen to a watery zero
And prophecy expands into extinction.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

POR UMA TOSCA ROTAÇÃO
Por uma tosca rotação –
Como se uma roda d'água
Hesitasse e o boi de olhos vendados
Avançasse novamente a cada passo
Sobre a trilha familiar e intima –
Em meu quinhão caiu uma cegueira
Que era apenas uma visão tapada
Que virou um coração inexpressivo,
Virou um desejo de não sei o quê
Por causa de cegueira e inexpressividade
De coração.

Em meu quinhão caiu,
Por causa de confiança, falsos sinais, recomeços,
Velocidade lenta e uma razão pesada,
Uma visibilidade de visão tapada – estes pensamentos –
E então o conteúdo, a linguagem da mente
Que não sabe como parar.

Rodando assim, a tragédia do ser-um-eu 
Enquanto a trilha batida registra
Outro giro, e mais um.

Em meu quinhão caiu
Tanto desperdício e lucro,
Por uma tosca rotação
Bem pouca, demais,
Vã repetição,
A imagem parecida demais,
Ilusão de bem-estar,
Luxúria vil e ternura de si.

Tombe, bicho pobre,
De pobre conteúdo.
Voe, roda, seja singular,
Para que em nome da natureza
Este giro rangente nunca cesse.
.

BY CRUDE ROTATION
By crude rotation —
It might be as a water-wheel
Is stumbled and the blindfolded ox
Makes forward freshly with each step
Upon the close habitual path —
To my lot fell a blindness
That was but a blindedness,
And then an inexpressive heart,
And next a want I did not know of what
Through blindedness and inexpressiveness
Of heart.

To my lot fell
By trust, false signs, fresh starts,
A slow speed and a heavy reason,
A visibility of blindedness — these thoughts —
And then content, the language of the mind
That knows no way to stop.

Thus turning, the tragedy of selfhood
And self-haunting smooths with turning,
While the worn track records
Another, and one more.

To my lot fell
Such waste and profit,
By crude rotation
Too little, too much,
Vain repetition,
The picture over-like,
Illusion of well-being,
Base lust and tenderness of self.

Fall down, poor beast,
Of poor content.
Fly, wheel, be singular
That in the name of nature
This creaking round spins out.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

SONO TRANSGREDIDO
Uma hora do dia foi subtraída
Para fazê-lo durar mais uma hora.
O dia dilatado cresceu
No que tinha sido interrompido.
Mais uma hora do sono foi subtraída,
Até que todo o sono fosse transgredido,
Embora o curso do dia
Durasse mais, mais se adiasse.

E o sono, sumido.
E o mesmo dia nunca termina,
Um dia enorme, e a insônia,
Um gradual entardecer rumo a logo se deitar.

Logo, logo.
E o sono, esquecido,
Tipo: o que foi nascer?
E nenhuma morte até aqui, o fim tão lento,
Parecemos partir mas permanecemos.

E se permanecemos
Algo mais há de ser feito
E nunca termine embora muito termine.
Pois o muito mantém os olhos bem abertos,
Muito aberto é muito mais sono esquecido,
Sono esquecido é sono transgredido,
Sono transgredido é a mente durando bem mais,
Mais pensamento, mais dizendo,
Em vez de dormindo, piscado, piscando,
Piscando de pé e por causa de sonhos
Que são iguais a todas as coisas comuns,
As coisas comuns iguais a todos os sonhos.
.

SLEEP CONTRAVENED
An hour was taken
To make the day an hour longer.
The longer day increased
In what had been unfinished.
Another hour from sleep was taken, 
Till all sleep was contravened,
Yet the day’s course
More long and more undone.

And the sleep gone.
And the same day goes on and on,
A mighty day, with sleeplessness
A gradual evening toward soon lying down.

Soon, soon.
And sleep forgotten,
Like: What was birth?
And no death yet, the end so slowly,
We seem departing but we stay.

And if we stay
There will be more to do
And never through though much is through.
For much keeps the eyes so much open,
So much open is so much sleep forgotten,
Sleep forgotten is sleep contravened,
Sleep contravened is so much longer mind,
More thought, more speaking,
Instead of sleep, blinking, blinking,
Blinking upright and with dreams
Same as all usual things,
Usual things same as all dreams.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

FIM DO MUNDO
O tímpano está no fim.
A íris ficou transparente.
O sentido se desgasta.
Até o sentido está transparente.
A pressa alcança a pressa.
A terra arredonda a terra.
A mente encosta a mente.
Claro espetáculo: cadê o olho?

Tudo perdido, nenhum perigo
Força a mão heróica.
Corpos não se opõem mais
Um contra o outro. O mundo acabado
É semelhança em toda parte.
Caem os nomes do contraste
No centro que se expande.
O mar seco estende o universal.

Nem súplica nem negativa
Perturbam a evidência geral.
A lógica tem lógica, e eles ficam
Trancados nos braços um do outro,
Senão seriam loucos,
Com tudo perdido e nada que prove
Que até o nada sobrevive ao amor.
.

WORLD’S END
The tympanum is worn thin.
The iris is become transparent.
The sense has overlasted.
Sense itself is transparent.
Speed has caught up with speed.
Earth rounds out earth.
The mind puts the mind by.
Clear spectacle: where is the eye?

All is lost, no danger
Forces the heroic hand.
No bodies in bodies stand
Oppositely. The complete world
Is likeness in every corner.
The names of contrast fall
Into the widening centre.
A dry sea extends the universal.

No suit and no denial
Disturb the general proof.
Logic has logic, they remain
Locked in each other’s arms,
Or were otherwise insane,
With all lost and nothing to prove
That even nothing can live through love.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

QUASE
Obscuridade quase expressa 
Que nunca foi ainda mas sempre 
Era para ser a próxima e a próxima 
Quando o lapso do ontem no amanhã 
Devia ser arrumado pelo menos até já, 
Pelo menos até já, até ontem ─ 
Caos quase reconquistado 
No qual a verdade, como se uma vez mais, 
Ainda não tivesse caído ou se erguido ─
O que há de novo? Qual é? 
Você que nunca foi ainda 
Ou eu que nunca sou até?
.

NEARLY
Nearly expressed obscurity
That never was yet but always
Was to be next and next when
The lapse of to-morrow into yesterday
Should be repaired at least till now,
At least till now, till yesterday –
Nearly recaptured chaos
That truth, as for a second time,
Has not yet fallen or risen to –
What news? And which?
You that never were yet
Or I that never am until?
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

FÉ SOBRE AS ÁGUAS
Um fantasma se ergueu quando as ondas se ergueram,
E ficou, quando as ondas baixaram, como coluna
Quebrada: é arcaica
A espiritualidade do mar,
Água assombrada por uma imaginação
Como fogo anteriormente.

Mais fantasma quando fantasma algum,
Quando as ondas explicam
O que é olho pro olho...

E golfinhos caçoam,
E as gaivotas ventríloquas,
Seus gritos tri-elementais e angulares...

A fantasia definha.
Um desassossego de leito de morte inflama a mente
E uma névoa quente ataca a face
Com premonição mortal.
.

FAITH UPON THE WATERS
A ghost rose when the waves rose,
When the waves sank stood columnwise
And broken: archaic is
The spirituality of sea,
Water haunted by an imagination
Like fire previously.

More ghost when no ghost,
When the waves explain
Eye to the eye...

And dolphins tease,
And the ventriloquist gulls,
Their angular three-element cries...

Fancy ages.
A death-bed restlessness inflames the mind
And a warm mist attacks the face
With mortal premonition.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

Ó VOCÁBULOS DO AMOR
Ó vocábulos do amor,
Ó zona de respostas sonhadas
Onde asa em asa se recolhe
Nos negros séculos do sono
E lábios espessos comprimem
Compêndios de silêncio –

Gargantas unham o espelho do cego triunfo,
Olhos prosseguem a visão no coração do terror.
Urro dentro de urro
Sucumbe ao indistinguível
Muro dentro de muro
Abraçando o último vocábulo esmagado,
A unidade falada dos esforços.

Ó vocábulos do amor,
O fim de um fim é um eco,
Um grito último sucede a um último grito.
O fim da finalidade
É o toque de doidice da perfeição.
Ruína brota de ruína.
Um resto procria um universo de fragmento.
Horizontes dispersam a inteligibilidade
E novamente é ontem.
.

O VOCABLES OF LOVE
O vocables of love,
O zones of dreamt responses
Where wing on wing folds in
The negro centuries of sleep
And the thick lips compress
Compendiums of silence—

Throats claw the mirror of blind triumph,
Eyes pursue sight into the heart of terror.
Call within call
Succumbs to the indistinguishable
Wall within wall
Embracing the last crushed vocable,
The spoken unity of efforts.

O vocables of love,
The end of an end is an echo,
A last cry follows a last cry.
Finality of finality
Is perfection's touch of folly.
Ruin unfolds from ruin.
A remnant breeds a universe of fragment.
Horizons spread intelligibility
And once more it is yesterday.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

ALÉM 
Dor é impossível de se descrever 
Dor é a impossibilidade de descrever 
Descrever o que não é possível descrever 
O que deve ser uma coisa além da descrição 
Além da descrição para não ser conhecido 
Além do conhecido mas não mistério 
Não mistério mas dor não claro mas dor 
Mas dor além mas aqui além 
.

BEYOND
Pain is impossible to describe
Pain is the impossibility of describing
Describing what is impossible to describe
Which must be a thing beyond description
Beyond description not to be known
Beyond knowing but not mystery
Not mystery but pain not plain but pain
But pain beyond but here beyond
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

VENHAM EMBORA, PALAVRAS
Venham embora, palavras, das bocas,
Das línguas nas bocas
Dos corações imprudentes nas línguas
E das bocas em cabeças cautelosas –

Venham embora, palavras, para onde
O sentido não se engrosse
Com a substância impaciente da voz,
Nem a aparência das palavras é curiosa,
Como letras nos livros encarando
Tudo que o homem achava estranho
E punha para dormir no branco
Como o arcaico manuscrito
Dos sonhos da manhã, negritado no espanto.

Venham embora, palavras, para o milagre
Mais natural que a arte escrita.
Tem um quê de demônio,
Mas sei um jeito de amansar
Esse seu redemoinho quando a fala blasfema
Contra a metade quieta da linguagem
E, manipulando o boato das bocas,
Você seduz a prolixidade para que se arruíne.
É fazer voar você da casa de onde, um dia,
Você fugiu sorrateiramente como anjos sigilosos
Em tarefas de misericórdia incerta:
Para contar comigo uma história aqui
De suma misericórdia e nunca desperdiçada
Preces mesquinhas por eloqüência –
O maravilhar do humano pelo humano.
Eu sei de um jeito: inselvagens, vamos agradecer
E espalhar as maiores notícias
Onde nunca um ouvido dobrado ousará fazer
Uma divisão surda da inteireza.

Aquela fluente história-pela-metade
Papeia contra este silêncio
Para o qual, palavras, venham embora agora
Num despeito todo-misericordioso
De traição primeira e prateada
Contra o todo dourado do historiar.

Começamos com tudo no fim barulhento
Onde o dividir mortal ameniza a misericórdia
Pela elocução tosada do sentido humano;
Nunca conseguiram mais do que selvagerias
De sua bondade-livro.

As palavras se desenrolem então, 
Não de bocas forasteiras, e sim da voz
Que assombrou ali como um fantasma mudo assombrando
O nascer prematuramente, ansioso por causa da morte.
Não são nossas essas bocas peritas em lábia,
Em falsidade e repetição
Cujo frenesi você confundiu
Com a ardência profética e leal
A ser melhorada só em precisão.

Venham embora, palavras –
Aquilo foi uma vaidade estrangeira,
Um sobressalto precipitado e uma vaidade
Que do sono desperto da verdade partiu
Na primeira vez em que acordou de si como uma história,
Pensando em que tempo foi ou teria sido
Quando a iluminação falada se espalhou:
O que eram tempo, palavras, ela.

Venham embora, palavras,
E contemos uma história aqui,
Esquecendo tudo o que já foi dito:
Aquele inferno de bocas apressadas se muda
Para um paraíso cancelado de mercês
Pelo regresso em fuga das palavras a este plano
Cuja graça expande em máximos anéis
Até os limites da máxima historidade.

Mas nunca a verdade circule, até
As palavras provarem que a linguagem é
O jeito como as palavras vindas de longe, vivem soando
Por estágios de pequeneza imensa
Centrando a fala absoluta
Na primeva insonoridade da verdade.

Venham embora, palavras:
Eu sou uma consciência de vocês
Não para ser deixada sem resposta
Além do número perfeito da traição.
É uma paixão doendo
Com a qual eu convoco –
Em que a convocação seja abominável como
A memória de carne de homem acariciada demais
Com palavras como mãos gentis demais.
Então venham embora, palavras,
Antes que mentiras reivindiquem a primazia do pecado
E bocas esfareladas se contorçam para falar melhor que nós.
.

COME, WORDS, AWAY
Come, words, away from mouths,
Away from tongues in mouths
And reckless hearts in tongues
And mouths in cautious heads—

Come, words, away to where
The meaning is not thickened
With the voice's fretting substance,
Nor look of words is curious
As letters in books staring out
All that man ever thought strange
And laid to sleep on white
Like the archaic manuscript
Of dreams at morning blacked on wonder.

Come, words, away to miracle
More natural than written art.
You are surely somewhat devils,
But I know a way to soothe
The whirl of you when speech blasphemes
Against the silent half of language
And, labouring the blab of mouths,
You tempt prolixity to ruin.
It is to fly you home from where
Like stealthy angels you made off once
On errands of uncertain mercy:
To tell with me a story here
Of utmost mercy never squandered
On niggard prayers for eloquence—
The marvelling on man by man.
I know a way, unwild we'll mercy
And spread the largest news
Where never a folded ear dare make
A deaf division of entirety.

That fluent half-a-story
Chatters against this silence
To which, words, come away now
In an all-merciful despite
Of early silvered treason
To the golden all of storying.

We'll begin fully at the noisy end
Where mortal halving tempered mercy
To the shorn utterance of man-sense;
Never more than savageries
Took they from your bounty-book.

Not out of stranger-mouths then
Shall words unwind but from the voice
That haunted there like dumb ghost haunting
Birth prematurely, anxious of death.
Not ours those mouths long-lipped
To falsity and repetition
Whose frenzy you mistook
For loyal prophetic heat
To be improved but in precision.

Come, words, away—
That was an alien vanity,
A rash startling and a preening
That from truth's wakeful sleep parted
When she within her first stirred story-wise,
Thinking what time it was or would be
When voiced illumination spread:
What time, what words, what she then.

Come, words, away,
And tell with me a story here,
Forgetting what's been said already:
That hell of hasty mouths removes
Into a cancelled heaven of mercies
By flight of words back to this plan
Whose grace goes out in utmost rings
To bounds of utmost storyhood.

But never shall truth circle so
Till words prove language is
How words come from far sound away
Through stages of immensity's small
Centering the utter telling
In truth's first soundlessness.

Come, words, away:
I am a conscience of you
Not to be held unanswered past
The perfect number of betrayal.
It is a smarting passion
By which I call—
Wherein the calling's loathsome as
Memory of man-flesh over-fondled
With words like over-gentle hands.
Then come, words, away,
Before lies claim the precedence of sin
And mouldered mouths writhe to outspeak us.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

TANTAS PERGUNTAS QUANTO RESPOSTAS
O que é começar?
É ter pés pra começar.
O que é terminar?
É nada ter com que recomeçar,
E não querer.

O que é ver?
É conhecer em parte.
O que é falar?
É juntar parte com parte
E fazer um todo
Do muito ou pouco.
O que é sussurrar?
É suavizar
A ganância de falar mais rápido
Que sua substância.
O que é gritar?
É tornar gigante
Onde falar não dura muito mais.

O que é ser?
É ter um nome.
O que é morrer?
É ter um nome e só.
O que é nascer?
É escolher o eu inimigo
E dele aprender o impossível.
E o que é ter fé?
É escolher um deus mais fraco do que o eu,
E rezar por elogios?

O que é perguntar?
É achar uma resposta.
O que é responder?
Será achar uma pergunta?
.

AS MANY QUESTIONS AS ANSWERS
What is to start?
It is to have feet to start with.
What is to end?
It is to have nothing to start again with,
And not to wish.

What is to see?
It is to know in part.
What is to speak?
It is to add part to part
And make a whole
Of much or little.
What is to whisper?
It is to make soft
The greed of speaking faster
Than is substance for.
What is to cry out?
It is to make gigantic
Where speaking cannot last long.

What is to be?
It is to bear a name.
What is to die?
It is to be name only.
And what is to be born?
It is to choose the enemy self
To learn impossibility from.
And what is to have hope?
Is it to choose a god weaker than self,
And pray for compliments?

What is to ask?
It is to find an answer.
What is to answer?
Is it to find a question?
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

TERRA
Não tenho medos extensos da Terra:
Seu nome universal é “Nenhum lugar”.
Se é Terra para você, é seu segredo.
Os registros externos terminam ali,
E você pode descrevê-la como parece,
E como parece, ela é,
Calma aparente
Em meio a pressa aparente.

Céus não vistos, ou só vistos,
Espaço escuro ou claro, espaço extraterrestre,
É um tempo antes da Terra existir
De onde você ruma
Ao perfeito agora.

Quase o lugar que ainda não é,
Aqui potencial de toda parte –
Não tenho medos extensos dela:
Seu destino é simples,
Ser ainda mais o que será.

A Terra é o coração que erra
Até tornar sua mente
Mas ainda pulsa ignorância
De tudo o que sabe –
Como milhas renegam o presente compacto
Que são o passado suspeito-de-si.
Não tenha grandes medos da Terra:
Só medos extensos serão destruídos.
.

EARTH
Have no wide fears for Earth:
Its universal name is 'Nowhere'.
If it is Earth to you, that is your secret.
The outer records leave off there, 
And you may write it as in seems,
And as it seems, it is,
A seeming stillness
Amidst seeming speed.

Heavens unseen, or only seen,
Dark or bright space, unearthly space, 
Is a time before Earth was
From which you inward move
Toward perfect now.

Almost the place it is not yet, 
Potential here of everywhere –
Have no wide fears for it:
Its destiny is simple,
To be further what it will be.

Earth is your heart
Which has become your mind
But still beats ignorance
Of all it knows –
As miles deny the compact present
Whose self-mistrusting past thay are.
Have no wide fears for Earth:
Destruction only on wide fears shall fall.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

E UM DIA
O curso de um dia nunca é constante.
As horas experimentam dor e prazer.
Na hora da cama só conhece vertigem.
Mas quanto dura um dia?
Tanto quanto o amor, dizem uns.
Mas o amor vai embora cedo,
Antes que o amanhã e a morte se manifestem.
E quanto tempo dura o dia-a-dia?
Uns dizem desde sempre.
Mas começando quando?

No mesmo instante em pela primeira vez
Os olhos se arregalaram e não viram tudo –
Num não tão tarde quando, pela última vez,
O tempo durou não mais que um dia,
Um dia de adivinhar:
Por quanto tempo é permitido
Chamar de tanto o que é tão pouco?
.

AND A DAY
The course of a day is never steady.
The hours experiment with pain and pleasure.
By bedtime all you know is giddiness.
But how long is a day?
Some say as long as love.
But love leaves off early,
Before to-morrow and death set in.
How long has day on day been?
Some say for ever.
But starting from when?

From no sooner than first when
Eyes opened far and saw not all —
From no later than last when
Was time for no more than a day,
A day of guessing:
How long is it permitted
So little done so much to call?
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

COM A FACE
Com a face segue um espelho
Como com a mente um mundo.
A semelhança diz ao olho que duvida
Que a estranheza não é estranha.
Num primeiro tempo e conhecimento,
A identidade ainda não familiar
Olha para trás ao si de pouco depois,
E parece consigo.

Hoje parece já.
Com a quase-realidade segue o tempo.
Com a mente segue um mundo.
Com o coração segue um clima.
Com a face segue um espelho
Como com o corpo um medo.
Jovem si-mesmo encara uma parede
Onde um futuro mudo fala sem pressa,
E entre então e então
O pré-ser envelhece.

O espelho mistura-se com o olho.
Logo será o próprio olho.
Logo será o olho que era
O espelho mesmo ser.
A morte, imagem derradeira, vai brilhar
Transparente e não de outra maneira
Tal qual o sol negro descrito
Com tantas lucilâncias.
.

WITH THE FACE
With the face goes a mirror
As with the mind a world.
Likeness tells the doubting eye
That strangeness is not strange.
At an early hour and knowledge
Identity not yet familiar
Looks back upon itself from later,
And seems itself.

To-day seems now.
With reality-to-be goes time.
With the mind goes a world.
Wit the heart goes a weather.
With the face goes a mirror
As with the body a fear.
Young self goes staring to the wall
Where dumb futurity speaks calm,
And between then and then
Forebeing grows of age.

The mirror mixes with the eye.
Soon will it be the very eye.
Soon will the eye that was
The very mirror be.
Death, the final image, will shine
Transparently not otherwise
Than as the dark sun described
With such faint brightnesses.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

O VENTO, O RELÓGIO, O NÓS
Enfim o vento entrou no relógio —
Cada minuto por si.
Não há mais sessenta,
Não há mais doze,
É tão tarde quanto cedo.

A chuva desbotou os números.
As árvores nem ligam para o que acontece.
O tempo virou uma paisagem
De folhas suicidas e galhos estóicos —
Que se despintam tão logo pintam.
Ou talvez seja exagero dizer isso,
Com o relógio se devorando
E os minutos com licença para morrer.

O mar não tem imagem alguma.
Ao mar, então, que agora é tempo,
E cada coração mortal um marinheiro
Jurado a se vingar do vento,
A relançar a vida aos dentes frágeis
De onde saiu o primeiro sopro,
Um desafio idiota ao que não sabia
Berrando ao redor do relógio estudioso.

Agora não há tic-tacs nem brisa.
O barco foi a pique com seus homens,
O mar com o barco, o vento com o mar.
O vento enfim entrou no relógio,
O relógio enfim entrou no vento,
O mundo enfim saiu de si.

Podemos enfim fazer sentido, eu e vocês,
Sobreviventes solitárias no papel,
A ousadia do vento e o zelo do relógio
Viram uma linguagem muda,
E eu a história que nela se calou —
Algo mais a ser dito sobre mim?
Direi mais que a falsidade que se afoga
Possa repetir-me palavra por palavra,
Sem que o escrito se altere por um hálito
De querer dizer talvez outra coisa?
.

THE WIND, THE CLOCK, THE WE
The wind has at last got into the clock —
Every minute for itself.
There’s no more sixty,
There’s no more twelve,
It’s as late as it’s early.

The rain has washed out the numbers.
The trees don’t care what happens.
Time has become a landscape
Of suicidal leaves and stoic branches —
Unpainted as fast as painted.
Or perhaps that’s too much to say,
With the clock devouring itself
And the minutes given leave to die.

The sea’s no picture at all.
To sea, then: that’s time now,
And every mortal heart’s a sailor
Sworn to vengeance on the wind,
To hurl life back into the thin teeth
Out of which first it whistled,
An idiotic defiance of it knew not what
Screeching round the studying clock.

Now there’s neither ticking nor blowing.
The ship has gone down with its men,
The sea with the ship, the wind with the sea.
The wind at last got into the clock,
The clock at last got into the wind,
The world at last got out of myself.

At last we can make sense, you and I,
You lone survivors on paper,
The wind’s boldness and the clock’s care
Become a voiceless language,
And I the story hushed in it —
Is more to say of me?
Do I say more than self-choked falsity
Can repeat word for word after me,
The script not altered by a breath
Of perhaps meaning otherwise?
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

O MUNDO E EU
Isto não é bem o que quero dizer, não, 
Nada mais do que o sol é o sol. 
Mas como significar mais corretamente 
Se o sol brilha aproximadamente? 
Que mundo mais desajeitado! 
Que hostis implementos de sentido! 
Talvez isto seja o sentido mais preciso 
Que talvez fiquem bem o saber disso. 
Ou então, acho que o mundo e eu, sim, 
Devemos viver como estranhos até o fim – 
Um amor azedo, ambos duvidando um pouco 
Se um dia houve algo como amar o outro. 
Não, melhor termos quase certeza 
Cada um de nós onde é que exa-
tamente eu e exatamente o mundo falha 
Em se cruzar por um segundo, e uma palavra. 
.

THE WORLD AND I
This is not exactly what I mean 
Any more than the sun is the sun, 
But how to mean more closely 
If the sun shines but approximately? 
What a world of awkwardness! 
What hostile implements of sense! 
Perhaps this is as close a meaning 
As perhaps becomes such knowing. 
Else I think the world and I 
Must live together as strangers and die – 
A sour love, each doubtful whether 
Was ever a thing to love the other. 
No, better for both to be nearly sure 
Each of each--exactly where 
Exactly I and exactly the world 
Fail to meet by a moment, and a word. 
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

NENHUMA TERRA AINDA
O mar demorado, como é fugaz,
De agüidéia a agüidéia
Tão rápida em sentir surpresa e vergonha.
Onde momentos não são tempo
Mas tempo são momentos.
Tanto nem sim nem não,
Tanto único amor, ter o amanhã
Por um fracasso inevitável de agora e já.

Deitados na água barcos e homens fortes,
Mestres em fraqueza, partem para algum lugar:
O mais poderoso dorminhoco em sua cama
É incapaz de conhecer lugares nobres assim.
Então a fé embarcou na terra do marinheiro
Em busca de absurdos em nome do céu –
Descobrimento, uma fonte sem fonte,
Lenda de neblina e paciência perdida.

O corpo nadando em si mesmo
É o querido da dissolução.
Com gotejante boca diz uma verdade
Que não pode mentir, em palavras ainda não nascidas
Da primeira imortalidade,
Onissábia impermanência.

E o olho empoeirado cujas agudezas
Tornam-se aguadas na mente
Onde ondas de probabilidade
Escrevem a visão com letra de maré
Que só o tempo pode ler.
E a terra seca ainda não,
Salvação e solidão absolutas –
Ostentando sua constância
Como uma ilha sem água ao redor
Numa água sem terra alguma.
.

THERE IS NO LAND YET
The long sea, how short-lasting, 
From water-thought to water-thought 
So quick to feel surprise and shame. 
Where moments are not time 
But time is moments. 
Such neither yes nor no, 
Such only love, to have to-morrow 
By certain failure of now and now. 

On water lying strong ships and men 
In weakness skilled reach elsewhere: 
No prouder places from home in bed 
The mightiest sleeper can know. 
So faith took ship upon the sailor's earth 
To seek absurdities in heaven's name — 
Discovery but a fountain without source, 
Legend of mist and lost patience. 

The body swimming in itself 
Is dissolution's darling. 
With dripping mouth it speaks a truth 
That cannot lie, in words not born yet 
Out of first immortality, 
All-wise impermanence. 

And the dusty eye whose accuracies 
Turn watery in the mind 
Where waves of probability 
Write vision in a tidal hand 
That time alone can read. 
And the dry land not yet, 
Lonely and absolute salvation — 
Boasting of constancy 
Like an island with no water round 
In water where no land is.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

POETA PALAVRA MENTIROSA
Você chegou comigo, eu cheguei com você, à estação que devia ser inverno, e não é: não retornamos.

Não retornamos: não voltamos ao começo: nem nos movemos. Eu levei você, você me levou, ao próximo e próximo espaço de tempo e ao último – e é o último. Fique contra mim, então, e encare e olhe bem através de mim, então. Não é muro algum para ser escalado e deixado para trás como as velhas estações, como os poetas que eram as estações.

Fique contra mim, então, e encare e olhe bem através de mim, então. Não sou nenhum poeta como você que tem a cada espaço de tempo saltado as altas palavras rumo a próxima profundidade e estação, sempre a próxima estação, sempre a última, e a próxima. Sou um muro de verdade: só lhe resta olhar bem através de mim.

É um muro falso, um poeta: é uma palavra mentirosa. É um muro que fecha e não se fecha.

Isto não é nenhum muro que fecha e não se fecha. É um muro para se olhar dentro, não é nenhuma outra alta temporada. Além dele não existem altos e baixos de mais viagens, sem meio do caminho. Fique contra mim, então, e encare e olhe bem através de mim, então. Como muro de poeta fico, embora não seja um poeta como um muro sendo erguido entre o próximo e próximo vão e tornados falsos e intransponíveis. Enfim, sou um muro de verdade: só lhe resta olhar bem através de mim.

E a fábula não é mais sobre a ida: não é mais uma fábula de poeta de uma falsa ida rumo a uma visão. A fábula é sim sobre um ver de verdade rumo a um saber: só resta olhar através do muro agora, através mesmo.

Não é um muro, não é um poeta. Não é um muro mentiroso, não é uma palavra mentirosa. É uma beira escrita de tempo. Nem mais um passo, ou em minha boca, meus olhos, você vai despencar. Chegue perto, encare e olhe bem através de mim, fale enquanto você vê. Mas, oh, rebanho de vidas totalmente apaixonadas, nem mais um passo agora. Senão em minha boca, em meus olhos, vocês vão despencar, e não ser mais vocês.

Em minha boca, em meus olhos, estou dizendo, estou dizendo. Não sou nenhum poeta como muro transitório que o conduza por um tão lento terreno de tempo, como o que mediu seu único espaço de tempo com ciclos interrompidos de estação outra e outra vez. Não te conduzo. Você chegou comigo, eu cheguei com você, a seu último ciclo e estação: só assim eu viria com você, só assim.

Estou dizendo, estou dizendo, eu sou, é, tamanho muro, tamanho poeta, tamanho não mentir, tamanho não conduzir. Espere a vista, e olhe bem, saiba que por tal parar assim nenhum de vocês há de vir depois.

Virá o que? Virá até este eu, até este não-eu, esta estação que não mente quando a morte mantém o ano em tempo — este todos-os-anos.

Você não veria, não saberia, não contaria o tempo? Então o que você faria? Então por quê você veio aqui? Para saltar um muro que não é muro, e sim um muro de verdade? Para me atravessar e despencar em meus olhos e boca que não são as suas? Para me depreciar aos gritos como se eu fosse um muro ou poeta enquanto seu caminho passava ao ápice da queda que parecia?

Estou dizendo, estou dizendo, eu sou, é: tamanho muro, tamanho fim de viagem gradual. E se você não escutar, venha tropeçando em cima de mim, em meus olhos, minha boca, e ser o seu dizer às avessas de vocês mesmos expirando zangadamente durante estações instantâneas que enganaram vocês usando o tempo.

Meus olhos, minha boca, minhas mãos hesitantes, minha cabeça intransmutável: em que meus olhos, minha boca, minhas mãos, minha cabeça, meu corpo-eu, não é nenhum simulacro mortal como o que eternamente vocês construíram contra a própria morte, pra manter vocês eternamente no alardeado caminho da morte, nuncamente? Estou dizendo, estou dizendo, não sou feito de vocês, desse jeito.

Este corpo-eu, este muro, este discurso poeteiro, é aquela última barreira há tanto tempo evitada durante suas mudanças elípticas: de seu saltar, seu evitar, cri-cris de estação, eu o fiz, dito e feito. E se agora poeteiramente soa com como-se-mais-uma-vez, este é o estupor montado de sua eterna perseverança vestida pronta e lírica, poeteiramente — o proibido mais-uma-vez vestido como tempo.

Pareço soar, cantar, rimar, tudo poetizar? Que vergonha de mim, então! Então sorria-me seu humor repugnantissíssimo de poeta-patético  carola, seus olhos revirados de branca hipocrisia — deveria eu ser mais uma fada da sua fama versificada — ou transformado em seu cérebro historiado, onde as linhas significam mais atuais. Que vergonha de mim, então!

Seja dada a nossa pressa, minha vergonha é sua. Por quanto tempo pareço acenar como um muro além do qual se estende um período mais longo dessa travessia de carne: é sua mentira de carne e meu arvoredo de palavras que parecem ser carne? Seja dada a nossa pressa! Estou dizendo, estou dizendo. Nesse muro se lê “Pare!”. Este poeta versa: “Poeta: palavra mentirosa”!

Então, não desmoronar o muro, como acontece com muros? Eu não disse: “Encare bem através de mim”? É um muro de verdade, vai desmoronar. É um muro de muros, encare bem através dele: a leitura chega de mansinho, o nome da morte passa com a estação que ela não era.

A morte é um muro mesmo. Passar por muros, topar com muros, é um morrer e um aprender. Morte é um saber-de-morte. A morte que se sabe é a verdade vista na parada. O nome da morte passa. A boca que se morte-move esquece a palavra.

E a primeira página é a última da morte. E seja dada a nossa pressa, ou então o muro parecerá não se desmoronar, e continuar falsamente. E na primeira página se lê: “Seja dada a nossa pressa!” E na primeira página se lê: “Vai devagar, esta é só a primeira página”.

Vai devagar, é só a página antes da primeira página, não é preciso pressa. A página antes da primeira página relata morte, pressa, lentidão: quão verdadeira a verdade agora no virar da página, em tempo de relatar. Verdade atrás de verdade seria verdade. E na primeira página se lê, na página que é a primeira página antes da primeira apenas: “Este era-uma-vez quando as estações fracassaram, e o tempo encarava bem através do muro e nem tentava saltá-lo, é a hora, a estação, estações, ano e anos, sem muro, com muro, onde quando e quando a mentira clássica se dissolve e nuamente o tempo é salpicado com o doce dilúvio da verdade ainda não impura, mas salgada maredocemente — Ó,  causa sacramental pelo qual o tempo se renovelhecerá e nenhuma outra estação ainda mudará”. Estou dizendo, estou dizendo.
.

POET: A LYING WORD 
You have now come with me, I have now come with you, to the season that should be winter, and is not: we have not come back. 

We have not come back: we have not come round: we have not moved. I have taken you, you have taken me, to the next and next span, and the last — and it is the last. Stand against me then and stare well through me then. It is a wall not to be scaled and left behind like the old seasons, like the poets who were the seasons. 

Stand against me then and stare well through me then. I am no poet as you have span by span leapt the high words to the next depth and season, the next season always, the last always, and the next. I am a true wall: you may but stare me through. 

It is a false wall, a poet: it is a lying word. It is a wall that closes and does not. 

This is no wall that closes and does not. It is a wall to see into, it is no other season's height. Beyond it lies no depth and height of further travel, no partial courses. Stand against me then and stare well through me then. Like wall of poet here I rise, but am no poet as walls have risen between next and next and made false end to leap. A last, true wall am I: you may but stare me through. 

And the tale is no more of the going: no more a poet's tale of a going false-like to a seeing. The tale is of a seeing true-like to a knowing: there's but to stare the wall through now, well through. 

It is not a wall, it is not a poet. It is not a lying wall, it is not a lying word. It is a written edge of time. Step not across, for then into my mouth, my eyes, you fall. Come close, stare me well through, speak as you see. But, oh, infatuated drove of lives, step not across now. Into my mouth, my eyes, shall you thus fall, and be yourselves no more. 

Into my mouth, my eyes, I say, I say. I am no poet like transitory wall to lead you on into such slow terrain of time as measured out your single span to broken turns of season once and once again. I lead you not. You have now come with me, I have now come with you, to your last turn and season: thus could I come with you, thus only. 

I say, I say, I am, it is, such wall, such poet, such not lying, such not leading into. Await the sight, and look well through, know by such standing still that next comes none of you. 

Comes what? Comes this even I, even this not-I, this not lying season when death holds the year at steady count — this every-year. 

Would you not see, not know, not mark the count? What would you then? Why have you come here then? To leap a wall that is no wall, and a true wall? To step across into my eyes and mouth not yours? To cry me down like wall or poet as often your way led past down-falling height that seemed? 

I say, I say, I am, it is: such wall, such end of graded travel. And if you will not hark, come tumbling then upon me, into my eyes, my mouth, and be the backward utterance of yourselves expiring angrily through instant seasons that played you time-false. 

My eyes, my mouth, my hovering hands, my intransmutable head: wherein my eyes, my mouth, my hands, my head, my body-self, are not such mortal simulacrum as everlong you builded against very-death, to keep you everlong in boasted death-course, neverlong? I say, I say, I am not builded of you so. 

This body-self, this wall, this poet-like address, is that last barrier long shied of in your elliptic changes: out of your leaping, shying, season-quibbling, have I made it, is it made. And if now poet-like it rings with one-more-time as if, this is the mounted stupor of your everlong outbiding worn prompt and lyric, poet-like — the forbidden one-more-time worn time-like. 

Does it seem I ring, I sing, I rhyme, I poet-wit? Shame on me then! Grin me your foulest humour then of poet-piety, your eyes rolled up in white hypocrisy — should I be one sprite more of your versed fame — or turned from me into your historied brain, where the lines read more actual. Shame on me then! 

And haste unto us both, my shame is yours. How long I seem to beckon like a wall beyond which stretches longer length of fleshsome traverse: it is your lie of flesh and my flesh-seeming stand of words. Haste then unto us both. I say, I say. This wall reads " Stop!" This poet verses " Poet: a lying word!" 

Shall the wall then not crumble, as to walls is given? Have I not said: " Stare me well through"? It is indeed a wall, crumble it shall. It is a wall of walls, stare it well through: the reading gentles near, the name of death passes with the season that it was not. 

Death is a very wall. The going over walls, against walls, is a dying and a learning. Death is a knowing-death. Known death is truth sighted at the halt. The name of death passes. The mouth that moves with death forgets the word. 

And the first page is the last of death. And haste unto us both, lest the wall seem to crumble not, to lead mock-onward. And the first page reads: " Haste unto us both!" And the first page reads: " Slowly, it is the first page only." 

Slowly, it is the page before the first page only, there is no haste. The page before the first page tells of death, haste, slowness: how truth falls true now at the turn of page, at time of telling. Truth one by one falls true. And the first page reads, the page which is the page before the first page only: " This once-upon-a-time when seasons failed, and time stared through the wall nor made to leap across, is the hour, the season, seasons, year and years, no wall and wall, where when and when the classic lie dissolves and nakedly time salted is with truth's sweet flood nor yet to mix with, but be salted tidal-sweet — O sacramental ultimate by which shall time be old-renewed nor yet another season move." I say, I say.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

POR CAUSA DAS ROUPAS 
Sem costureiros para conectar 
A boa vontade do corpo 
Ao propósito da mente, 
Devíamos ser dois mundos 
Em vez de um mundo e sua sombra, 
A carne.

A cabeça é um mundo 
E o corpo um outro - 
O mesmo, mas algo mais lento 
E mais deslumbrado e anterior, 
A divergência sendo corrigida 
No vestido.

Há um cheiro de Cristo 
No tecido: abaixo do queixo 
Não se quer mal algum. 
Igual, imune 
À prova capital, o saber floresce 
Do seio protegido da luz, e as coxas 
São humildes.

A união da matéria com a mente 
Pelo método da indumentária 
Não destrói nossa nudez 
Nem abafa a sineta do pensamento. 
O momento apenas une-se à sua hora 
Muda.

No íntimo existe o brilho do conhecimento 
E por fora existe o sombrio da aparência. 
Mas ao vestir o manto e a touca 
Só com mãos e face aparecendo, 
Internalizamos o sombrio e brilhamos 
Suavemente.

Por causa disso, pela graça neutra 
Da agulha, nos apossamos de nossos triunfos 
E de nossas derrotas 
Numa conjugação equilibrada e única: 
Hesitamos entre senso e insensatez, 
E vivemos.
.

BECAUSE OF CLOTHES
Without dressmakers to connect
The good-will of the body
With the purpose of the head,
We should be two worlds
Instead of a world and its shadow
The flesh.

The head is one world
And the body is another –
The same, but somewhat slower
And more dazed and earlier,
The divergence being corrected
In dress.

There is an odour of Christ
In the cloth: bellow the chin
No harm is meant. Even, immune
From capital test, wisdom flowers
Out of the shaded breast, and the thighs
Are meek.

The union of matter with mind
By the method of raiment
Destroys no our nakedness
Nor muffles the bell of thought.
Merely the moment to its dumb hour
Is joined.

Inner is the glow of knowledge
And outer is the gloom of appearance.
But putting on the cloak and cap
With only the hands and the face showing,
We turn the gloom in and the glow forth
Softly.

Wherefore, by the neutral grace
Of the needle, we possess our triumphs
Together with our defeats
In a single balanced couplement:
We pause between sense and foolishness,
And live.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

O PORQUÊ DO VENTO
Frequentemente temos considerado o vento,
Os imutáveis porquês do vento.
De outro tempo nenhum de nós se espanta.
Já conhecemos essas mudanças 
Nossa saúde não é diferente.
Acordamos com um calafrio,
Vamos pra cama com febre:
Esses são os turnos pelos quais a natureza,
Pelos quais, bem ou doentes,
Vivemos variavelmente,
Tantos nós misturados, e um mundo tão variável.
É a regra do que medra,
Um dia ser de um jeito, no outro, de outro.
Não especulamos.
Quando chega o frio fechamos a janela.
Aquilo é inverno, e entendemos.
Também nosso sangue não faz o mesmo,
Ora gela, ora queima por dentro,
De acordo com os climas ritminstáveis
De nossas convivências com a gente?

Mas quando o vento salta como um cão sem dentes
E nem sequer somos mordidos,
Só como se censurados pelo que não sabemos,
E isso não podemos responder –
O que fazer, senão entender?
E isso não podemos,
Embora quando o vento está solto
Nossas mentes vão arfando, infeccionadas de vento,
Até nossos corações maternos,
Perseguindo em porquês de sangue
A lógica desse massacre do pensamento.

Quando o vento corre, a gente corre com ele.
Não podemos entender porque não existimos
Quando o vento leva nossas mentes.
Estes são lapsos como um ódio pela terra.
Ficamos como se em lugar nenhum,
Soprados de interrupção a interrupção,
Daí fugimos para o que somos
E acusamos nossa sóbria natureza
De selvagem deserção de si mesma,
E perguntamos o motivo como um traidor
A mendigar ao rei um porquê da traição.

Devemos aprender melhor 
O que somos e não somos. 
Não somos o vento. 
Não somos cada humor nômade que tenta 
Nossas mentes com vertigem desterrada. 
Devemos distinguir melhor 
Entre nós mesmos e estranhos. 
Há tanta coisa que não somos. 
Há tanta coisa que não é. 
Há tanta coisa que não precisamos ser. 
Nos rendemos ao vento imenso 
Contra nossa letrada insignificância. 
Mas sempre voltamos e lamentamos: 
“Por que fiz isso?”
.

THE WHY OF THE WIND
We have often considered the wind,
The changing whys of the wind.
Of other weather we do not so wonder.
These are changes we know.
Our own health is not otherwise.
We wake up with a shiver,
Go to bed with a fever:
These are the turns by which nature persists,
By which, whether ailing or well,
We variably live,
Such mixed we, and such variable world.
It is the very rule of thriving
To be thus one day, and thus the next.
We do not wonder.
When the cold comes we shut the window.
That is winter, and we understand.
Does our own blood not do the same,
Now freeze, now flame within us,
According to the rhythmic-fickle climates
Of our lives with ourselves?

But when the wind springs like a toothless hound
And we are not even savaged,
Only as if upbraided for we know not what
And cannot answer—
What is there to do, if not to understand?
And this we cannot,
Though when the wind is loose
Our minds go gasping wind-infected
To our mother hearts,
Seeking in whys of blood
The logic of this massacre of thought.

When the wind runs we run with it.
We cannot understand because we are not
When the wind takes our minds.
These are lapses like a hate of earth.
We stand as nowhere,
Blow from discontinuance to discontinuance,
Then flee to what we are
And accuse our sober nature
Of wild desertion of itself,
And ask the reason as a traitor might
Beg from the king a why of treason.

We must learn better
What we are and are not.
We are not the wind.
We are not every vagrant mood that tempts
Our minds to giddy homelessness.
We must distinguish better
Between ourselves and strangers.
There is much that we are not.
There is much that is not.
There is much that we have not to be.
We surrender to the enormous wind
Against our learned littleness,
But keep returning wailing
‘Why did I do this?’
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

QUANDO O AMOR VIRA PALAVRAS
O ainda infeito se torna o inescrito 
Pela atividade de outros 
E a pena imóvel de nós mesmos 
Se levanta, em prontidão adiada, 
Sobre o papel insuave do tempo –
Temas da escrivaninha agora, 
Todos aqueles projetos implícitos 
Resgatados dos papéis por nossas mentes, 
Aquela literatura perdida que só a morte lê. 

E esperamos obras um do outro 
Que excedam não tanto a beleza 
Ou a fama entre nossos suspiros físicos 
Quanto a quietude, memorável 
Não além do pensamento, que se move, desestranhamente, 
Sem as reluzentes espadas da história. 

E eu lhe direi, "O que é preciso agora 
É um poema sobre o amor, com o qual esquecêssemos o beijo 
E ser para os lábios mais amor que beijo". 
Ou, fracassando seu coração tagarela, 
Eu mesmo escreverei este beijo falado, 
Imprimindo-o na boca do tempo 
Talvez finalmente demais, mas devagar, 
Já que a execução agora é prudente 
Com a soneca reflexiva que a língua tira 
Entre o pensado e o dito.

Assim, enfim, instruir a nós mesmos 
No nada que agora estamos fazendo, 
Esses dias inaturais de inatividade, 
Ao contar a coisa num tom natural. 
Devemos ser corajosos: 
Ousando o futuro sedentário 
Sem outra esperança de paixão além das palavras, 
E encontrando o que sentimos no que pensamos, 
E conhecendo o sentimento diminuído 
Para a idade mais sábia de uma ação um dia tola. 
Como se dissesse, onde um dia eu poderia ter levantado, 
Curvada para beijar como um vento cego procurando 
Uma boca firme para descobrir a própria, 
Agora me sento socialmente na cadeira do amor, 
Feliz por ter você ou outra pessoa encarando 
A distância trazida pelo inclinar de minha cabeça; 
E então, se me permitem, ir para minha outra sala 
E escrever sobre um assunto que tocasse todos os assuntos 
Com a pressão compacta de sala 
Lotando o mundo entre meus cotovelos; 
Mais adiante, para a cama, e suavemente, 
Deixar que a noite conclua, meus lábios ainda abertos, 
Que um beijo aconteceu, ou outra coisa ter sonhado. 
A noite, um dia, foi a cronista 
Sussurrando boatos lascivos para a manhã. 
Mas agora a história do anoitecer 
É o sorriso mesmo da ceia e do depois, 
Não é um infante nos braços da enfermeira Romance, 
É a hora tardia na qual eu e você 
Podíamos ter escrito ou lido talvez até mesmo isto. 

Às vezes vamos nos declarar falsamente, 
Jovens num sentido anterior da estória 
Impossível diante da hora abreviada das palavras. 
Mas não importa o quanto nos demoramos contra a exatidão, 
Ampliando a página de tanto errar
Das necessidades sobrevividas do acaso, 
Não podemos nos enganar por muito tempo, 
Agora livres daqueles gestos 
Que fizeram do mundo um conto elástico, 
De semelhança nenhuma com nosso propósito. 
Pois nós quisemos dizer, e dizemos, só um 
Consenso de experiência, 
Apesar da diferença em nossos nomes 
E de parecer termos nascido 
Cada um com um enredo cambiante e perda 
De sentimento (embora nossa terra seja isso) 
Em casa em tamanho lugar temporal. 
Agora só nos resta casar nossas palavras 
Com um sim coletivo de reconhecimento – 
Não tínhamos, até agora, ouvido a nós mesmos falar 
Por causa do vigor e furor tagarelas 
Dos amores animados demais enquanto algazarram ao caírem, 
Dos nossos lábios impensados como letras excessivas. 

É difícil lembrar 
Que estamos fazendo nada, 
A fim de nada, desejando fazer nada. 
De uma nuvem espúria de desapontamento 
Devemos extrair a gota sincera de alívio 
Que corresponda à lágrima em nossos pensamentos 
Sem motivo para escorrê-la. 
Somos felizes. 
Estes engajamentos da mente, 
Improdutivos do impulso do beijo, 
Tocam o coração como o amor essencial, 
Livre da curiosidade teatral 
Que um dia dirigiu nossos desejos 
Até um fim de vergonha e floreio berrantes, 
De modo que atuávamos estes papéis sombrios 
Abandonados entre susto e pompa. 

Agora há pouco para se ver 
E menos ainda a se esconder. 
O ato de escrever “Eu amo você” 
Contém o amor, senão completamente, 
Pelo menos com ternura o bastante 
Para fazer do resto uma sombra ao nosso redor 
Imaculada penumbra 
Não substanciada pelas alucinações do amor. 
É mais verdadeiro ao coração falar, agora sabemos, 
Do que segredar o alarme atrevido, 
Corado com as surpresas da timidez, 
Que se avulta entre a coragem de amar 
E o costume de tatear por resultados. 

Os resultados vieram primeiro, nossa linguagem 
Traz suas cicatrizes: não podemos 
Falar do amor se versos ceceiam 
Com acentos memoráveis demais, 
Cativando o que nós, em vez de amor, amorfizemos. 
Primeiro vem o presságio, depois o que queremos dizer. 
Não quisemos dizer o arfar ou a quentura; 
Isto não é nenhum esfriar, abafando 
O grito bandeirado que um dia o amor acenou diante de nós. 
Aquilo foi uma dúvida, e uma persuasão –
Por meio do crer, com a arte da dúvida, 
Daquilo que, em nossa teimosia, tínhamos menos certeza. 
Há menos a dizer sobre o depois 
Mas mais a se dizer. 
Não sobrou, verdade, palavra alguma para o beijo. 
Podemos falar sobre nós mesmos; 
E os personagens fugazes que fomos –
Nervosos com o tempo no palco excitável –
Se rendem a seus autores duradouros 
De modo que é possível estudar, ainda vivos, 
Qual amor ou elocução pode nos preservar 
Daquela outra literatura 
Que rapidamente exercemos para perpetuar 
O palavrório mortal da aparência. 

Não pense que sou severa 
Por banir o beijo, antigo, 
Ou como nossas mãos e faces pudessem se roçar 
Quando nossos pensamentos sentem um amor e um alvoroço 
Menos que escrevível e uma graça 
De prontidão não totalmente verbal. 
Estar amando é erguer a pena 
E usá-la também, e o avanço 
Da decisão calada para o deleite 
De nos encontrar não meramente fluentes 
Mas na ligadura das palavras que se abraçam 
É por meio da metáfora do amor, 
E ainda motivo de um beijo entre nós, 
Embora a gente não se beije – ou com tanta intenção, 
Que o gosto se perde no gosto do pensamento. 

Não pensemos, por ser tão protestado 
À linguagem última e condição, 
Que não amamos mais. 
Nós só deixamos de vir a ser – e somos. 
Poucas as perplexidades e os intervalos 
De um 'tímido acaso que nos são permitidos: 
Mesmo que quiséssemos ser afoitos de novo, não poderíamos, 
Nem tomar a trilha indistinta e demorada 
E tropeçar até a razão como um cavalo 
Rumina medo diante da longa virada de volta, 
E nós o cavaleiro triste, inexperiente em montaria, 
Treinado à maneira fugitiva. 
Mas um flerte ainda governa nossos corações 
Em nome da consciência.  Erguemos os olhos 
Do manuscrito diante de nós 
Para encontrar um presente assustado piscando ao passado 
Com a visão desfigurada e um semblante reprovador,
Apontando ao olhar do tempo em direção à memória 
Como se tivéssemos apagado as relíquias 
De modo a ter algo sobre o qual escrever. 
E paramos, pela duração da consciência, 
Discernindo na névoa petulante 
A face maltratada de alguém que conhecemos, 
Faminta pra ser salva de nosso rancor. 
E amamos: separamos os traços 
Do desvanecimento e compomos com eles 
Uma semelhança com aquele que não esperou, 
E deveria ter esperado, aprendido a esperar. 
Erguemos os olhos para saudar a nós mesmos 
Convictos de que nenhum de nós está ausente 
Ou deveria estar, da escritura doméstica de palavras 
Que se lêem bem-vindas a tudo o que somos. 

E então de novo às palavras 
Depois – era? – um beijo ou exclamação 
Entre face e face, súbito demais para ser registrado. 
Sendo nosso amor agora um vão de mente 
Em cuja ponte e não no corpo singular 
Cavalga as águas da desunião 
Com sorriso rabugento e valor gemente, 
Podemos fazer do amor um milagre 
Como a ligação de idéia e idéia e outra idéia, 
O que é feito não quando as atravessamos 
Mas quando sabemos que as palavras são o que queremos dizer. 
Nos abstemos de nos mexer, parecendo-nos agora 
Mais como nós mesmos para manter a vigilância escrita 
E deixar que o alcance do amor nos cerque 
Com a carinhosa acusação de sermos poetas.
.

WHEN LOVE BECOMES WORDS
The yet undone, become the unwritten 
By the activity of others 
And the immobile pen of ourselves 
Lifted, in postponed readiness, 
Over the yet unsmooth paper of time— 
Themes of the writing-table now, 
All those implicit projects 
By our minds rescued from enactment, 
That lost literature which only death reads. 

And we expect works of one another 
Of exceeding not so much loveliness 
Or fame among our physical sighs 
As quietness, eventful 
Not beyond thought, which moves unstrangely, 
Without the historic sword-flash. 

And I shall say to you, “There is needed now 
A poem upon love, to forget the kiss by 
And be more love than kiss to the lips.” 
Or, failing your heart's talkativeness, 
I shall write this spoken kiss myself, 
Imprinting it on the mouth of time 
Perhaps too finally, but slowly, 
Since execution now is prudent 
With the reflective sleep the tongue takes 
Between thought and said. 

Thus, at last, to instruct ourselves 
In the nothing we are now doing, 
These unnatural days of inaction, 
By telling the thing in a natural tone. 
We must be brave: 
Daring the sedentary future 
With no other hope of passion than words, 
And finding what we feel in what we think, 
And knowing the rebated sentiment 
For the wiser age of a once foolish deed. 
As to say, where I once might have risen, 
Bent to kiss like a blind wind searching 
For a firm mouth to discover its own, 
I now sit sociably in the chair of love, 
Happy to have you or someone facing 
At the distance bought by the lean of my head; 
And then, if I may, go to my other room 
And write of a matter touching all matters 
With a compact pressure of room 
Crowding the world between my elbows; 
Further, to bed, and soft, 
To let the night conclude, my lips still open, 
That a kiss has been, or other thing to dream. 
The night was formerly the chronicler, 
Whispering lewd rumours to the morning. 
But now the story of the evening 
Is the very smile of supper and after, 
Is not infant to the nurse Romance, 
Is the late hour at which I or you 
May have written or read perhaps even this. 

Sometimes we shall declare falsely, 
Young in an earlier story-sense 
Impossible at the reduced hour of words. 
But however we linger against exactness, 
Enlarging the page by so much error 
From the necessities of chance survived, 
We cannot long mistake ourselves, 
Being quit now of those gestures 
Which made the world a tale elastic, 
Of no held resemblance to our purpose. 
For we have meant, and mean, but one 
Consensus of experience, 
Notwithstanding the difference in our names 
And that we have seemed to be born 
Each to a changing plot and loss 
Of feeling (though our earth it is) 
At home in such a timeward place. 
We cannot now but match our words 
With a united nod of recognition— 
We had not, hitherto, heard ourselves speak 
For the garrulous vigour and furore 
Of the too lively loves as they clattered 
Like too many letters from our hasty lips. 

It is difficult to remember 
That we are doing nothing, 
Are to do nothing, wish to do nothing. 
From a spurious cloud of disappointment 
We must extract the sincere drop of relief 
Corresponding to the tear in our thoughts 
That we have no reason to shed. 
We are happy. 
These engagements of the mind, 
Unproductive of the impulse to kiss, 
Ring to the heart like love essential, 
Safe from theatric curiosity 
Which once directed our desires 
To an end of gaudy shame and flourish, 
So that we played these doleful parts 
Abandoned between fright and pomp. 

There is now little to see 
And yet little to hide. 
The writing of “I love you” 
Contains the love if not entirely 
At least with lovingness enough 
To make the rest a shadow round us 
Immaculately of shade 
Not love's hallucinations substanced. 
It is truer to the heart, we know now, 
To say out than to secrete the bold alarm, 
Flushed with timidity's surprises, 
That looms between the courage to love 
And the habit of groping for results. 

The results came first, our language 
Bears the scars of them: we cannot 
Speak of love but the lines lisp 
With the too memorable accent, 
Endearing what, instead of love, we love-did. 
First come the omens, then the thing we mean. 
We did not mean the gasp or hotness; 
This is no cooling, stifling back 
The bannered cry love waved before us once. 
That was a doubt, and a persuasion— 
By the means of believing, with doubt's art, 
What we were, in our stubbornness, least sure of. 
There is less to tell of later 
But more to say. 
There are, in truth, no words left for the kiss. 
We have ourselves to talk of; 
And the passing characters we were— 
Nervous of time on the excitable stage— 
Surrender to their lasting authors 
That we may study, still alive, 
What love or utterance shall preserve us 
From that other literature 
We fast exerted to perpetuate 
The mortal chatter of appearance. 

Think not that I am stern 
To banish now the kiss, ancient, 
Or how our hands or cheeks may brush 
When our thoughts have a love and a stir 
Short of writable and a grace 
Of not altogether verbal promptness. 
To be loving is to lift the pen 
And use it both, and the advance 
From dumb resolve to the delight 
Of finding ourselves not merely fluent 
But ligatured in the embracing words 
Is by the metaphor of love, 
And still a cause of kiss among us, 
Though kiss we do not—or so knowingly, 
The taste is lost in the taste of the thought. 

Let us not think, in being so protested 
To the later language and condition, 
That we have ceased to love. 
We have ceased only to become—and are. 
Few the perplexities, the intervals 
Allowed us of shy hazard: 
We could not if we would be rash again, 
Take the dim loitering way 
And stumble on till reason like a horse 
Stood champing fear at the long backward turn, 
And we the sorry rider, new to the mount, 
Old to the fugitive manner. 
But dalliance still rules our hearts 
In the name of conscience. We raise our eyes 
From the immediate manuscript 
To find a startled present blinking the past 
With sight disfigured and a brow reproachful, 
Pointing the look of time toward memory 
As if we had erased the relics 
In order to have something to write on. 
And we leave off, for the length of conscience, 
Discerning in the petulant mist 
The wronged face of someone we know, 
Hungry to be saved from rancour of us. 
And we love: we separate the features 
From the fading and compose of them 
A likeness to the one that did not wait 
And should have waited, learned to wait. 
We raise our eyes to greet ourselves 
With a conviction that none is absent 
Or none should be, from the domestic script of words 
That reads out welcome to all who we are. 

And then to words again 
After—was it—a kiss or exclamation 
Between face and face too sudden to record. 
Our love being now a span of mind 
Whose bridge not the droll body is 
Striding the waters of disunion 
With sulky grin and groaning valour, 
We can make love miraculous 
As joining thought with thought and a next, 
Which is done not by crossing over 
But by knowing the words for what we mean. 
We forbear to move, it seeming to us now 
More like ourselves to keep the written watch 
And let the reach of love surround us 
With the warm accusation of being poets.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

NADA ATÉ AQUI
Até aqui só o luar,
Onde a mente está;
Nada naquele lugar, neste domínio,
A nos dominar;
Só suas sombras sem faces para anunciar
Que talvez elas venham –
Nem eles mesmos sabem
Para onde as projetam.

Ainda aqui, tudo o que fica
Quando cada um tem sido o universo:
Universo algum, mas cada um, ou nada.
Eis o aumento futuro que se recurva
Para tudo o que foi.

O que fomos, então,
Antes de começar o ser de nós mesmos?
Até aqui só estranheza,
Aonde os momentos da mente regressam.
Por pouco perdemos nosso lugar
Ao partir para lugares mais estranhos.

Até aqui quase
A antiga agonia íntima
De nunca ter partido;
E palavras mais baixas que um sussurro que,
Se vigiadas – covas de homens vivos –
Pudessem trazer seus nomes e rostos para casa.

Faz uma promessa carinhosa a si mesma,
Mulher de verdade, que ali
Mais presenças se prometem
Do que parece à luz difícil.
Não aparece a não ser a manhã do luar –
Como se contar sob sua luz fosse espalhar
O aspecto da noite passada livre das traças.
.

NOTHING SO FAR
Nothing so far but moonlight
Where the mind is;
Nothing in that place, this hold,
To hold;
Only their faceless shadows to announce
Perhaps they come —
Nor even do they know
Whereto they cast them.

Yet here, all that remains
When each has been the universe:
No universe, but each, or nothing.
Here is the future swell curved round
To all that was.

What were we, then,
Before the being of ourselves began?
Nothing so far but strangeness
Where the moments of the mind return.
Nearly, the place was lost
In that we went to stranger places.

Nothing so far but nearly
The long familiar pang
Of never having gone;
And words below a whisper which
If tended as the graves of live men should be
May bring their names and faces home.

It makes a loving promise to itself,
Womanly, that there
More presences are promised
Than by the difficult light appear.
Nothing appears but moonlight’s morning —
By which to count were as to strew
The look of day with last night’s rid of moths.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§

COMO NASCE UM POEMA
HOW A POEM COMES TO BE
(1980)


COMO NASCE UM POEMA
Para James F. Mathias

A necessidade nos acossa como acusação de impotência: 
Você pode ou não falar mais alto, 
Provar que está presente? 
O que você precisa encontrar para dizer, 
Para passar o saber que você existe 
À revelia dos crentes ou descrentes 
Da nossa espécie em cada um, 
Você pode chegar junto ao chegar perto deles 
E deixar o assunto de aceitação 
Suspenso entre sua oferta 
E seu destino com eles no tempo. 
(Isto se chama "prosa"!) 
Ou você pode convidar ouvintes, 
Sem esperar por eles ─
Fazendo do que você acha para dizer 
Um testemunho de si, se ausente de ouvintes. 
(Assim o poema se constrói: 
Para ser entregue numa distância curta. 
Mesmo sem plateia, fala.)

A realidade num poema é inextensível. 
Abrange a vontade de falar mais alto, 
Mas, se presume incluir 
A vontade visitante de ouvir o que é dito, 
Finge ser uma Presença além da sua mesma.

O que mais pode ser feito? 
Não falamos mais um com o outro? 
Pomos palavras no ar e no papel 
Que viajam entre nós como se o real, 
Sob a proteção do tempo, 
Com nem tudo perdido entre uma e outra, 
Estas, aquelas e suas outras, 
Ou perdidas de uma vez?

Não fosse isto um poema 
Eu falaria sobre o falar, 
Escreveria sobre o falar (e sobre o escrever), 
Que se guardaria para o outro, outros, 
Se construiria para todo mundo, 
Ou para ninguém, contendo em si sua força viajante, 
Sem precisar de uma graça de tempo para resgatá-Io 
De uma perda total. 
Ou eu falaria, escreveria, assim, 
Esforçando-me para construir, quero dizer, 
Algo ligando nossos entendimentos 
Numa realidade de palavras, de eus, de outros, 
Mais dizível, mais penetrável, habitável, aberta.
.

HOW A POEM COMES TO BE
for James F. Mathias

Necessity haunts us as an accusation of impotence:
Can you or can you not speak up,
Prove yourself present?
What do you have to find to say,
To deliver the knowledge that you are
To the mercies of the believing and not-believing
Of our kind in one another,
You may gather as you approached them,
And leave the issue of acceptance
Suspended between your offering
And its fate with them in time.
(This is named ‘prose’!)
Or you may call for listeners,
And not wait upon them –
Making what you find to say
Self-witnessing, be listeners absent.
(Thus does the poem constructs itself:
As for delivery within narrow throw.
If there is no attendance, it yet speaks.)

Reality in a poem is inextensible.
It embraces the will to speak up,
But, if it presumes to include
Visiting will to hear the said,
It feigns Presence to it besides its own.

What else can be done?
Do we not speak to one another?
Put words into the air and on paper
That travel between us as real,
Under the protection of time,
Not all lost between one and another,
These, those, and their others,
Or lost all at once?

Were this not a poem
I would speak on speaking,
Write on speaking (and writing),
That saved itself for the other, others,
Constructed itself for one and all,
Or none, contained its travel-force within it,
Needed no grace of time to rescue it
From total loss.

Or I would so speak, so write,
Endeavour to construct, I mean,
Something binding our understandings
In a reality of words, selves, others,
More utterable, enterable, occupiable, open.
- Laura Riding "Mindscapes - poemas". [seleção tradução e introdução Rodrigo Garcia Lopes]. São Paulo: Iluminuras, 2004.


§


Laura Riding
FORTUNA CRÍTICA SOBRE LAURA RIDING
LOPES, Rodrigo Garcia. Mindscapes: Laura Riding's poetry and poetics. (Tese Doutorado em Letras). Universidade Federal de Santa Catarina, UFSC, 2000. Disponível no link. (acessado em 6.8.2016).
LOPES, Rodrigo Garcia. Pensagens: a poesia de Laura Riding. in: Cadernos da Escola de Comunicação UniBrasil, n. 1 - Out/Nov 2003. Disponível no link. (acessado em 6.8.2016).
SCANDOLARA, Adriano. As “pensagens” de Laura Riding (1901 – 1991). in: escamandro - poesia tradução crítica, 5.7.2013. Disponível no link. (acessado em 6.8.2016).


OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: Fundation Laura Riding Jackson
:: Laura Riding Jackson - Poetry Foundation


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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Laura Riding - poeta modernista norte-americana. Templo Cultural Delfos, agosto/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 6.8.2016.




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