Óssip Mandelstam - poeta russo

Óssip Mandelstam
Ossip Mandelstam, um dos maiores poetas russos, nasceu a 15 de Janeiro de 1891. A sua obra tornou-se um dos pináculos da literatura russa e o seu trágico destino foi símbolo de toda uma geração. Ele viveu durante 47 anos, travou amizade com Nikolai Gumiliov, Marina Tsvetáeva, Anna Akhmátova, Borís Pasternak, tornou-se inimigo de Estaline e morreu num campo de trânsito estalinista para prisioneiros, sem obituário ou sepultura. O escritor e crítico literário Viktor Chklovski falava assim de Mandelstam: "Foi um homem… estranho… difícil… comovente… e genial!"


"За радость тихую дышать и жить Кого, скажите, мне благодарить?" 
"Pela alegria tranquila de respirar e viver a quem, diga-me, devo agradecer?"

Logo após o nascimento de Mandelstam, a sua família mudou-se para a cidade de Pavlosk, perto de São Petersburgo, e, em 1897, para São Petersburgo. Entre 1899 e 1907, Mandelstam estudou na Escola Comercial de Tenichev. Nesta escola, um pouco mais tarde, estudaram Lev Bruní (pintor vanguardista), Vladímir Nabókov (escritor e entomólogo), entre outros. Depois de terminar a escola, em 1907-1908, Mandelstam frequentou palestras na Sorbonne. Em França, Mandelstam descobriu os épicos franceses antigos, a poesia de François Villon, Charles Baudelaire e Paul Verlaine. Nos anos de 1909 e 1910, Mandelstam viveu em Berlim, onde estudou filologia românica na Universidade de Heidelberg.

"Дано мне тело — что мне делать с ним…" "Foi-me dado o corpo – o que fazer com ele…"

A estreia literária de Mandelstam deu-se em Agosto de 1910, quando foram publicados, na revista "Apollon", cinco poemas seus. Durante esses anos, ele envolveu-se com as ideias e obra dos poetas simbolistas, tornou-se um visitante frequente de Viatcheslav Ivánov (teórico do simbolismo) em cuja casa se reuniam eruditos talentosos da área da literatura e artes. Em 1911, ingressou no departamento romano-germânico da Universidade de São Petersburgo, que não terminou, devido ao desgosto com os estudos sistemáticos. Foi também nesta altura que Mandelstam conheceu o poeta Nikolai Gumiliov (fundador do acmeísmo, um movimento literário que se opunha ao simbolismo) e Anna Akhmátova. A partir de 1912, o poeta começou a participar no círculo literário dos acmeístas "Corporação de Poetas" ("Цех поэтов"). Em 1913, foi publicada pela editora “Akme” a sua primeira colectânea poética A Pedra (Камень), que continha 23 poemas escritos entre 1908 e 1913. Nessa altura, o jovem poeta já tinha granjeado fama. Em Dezembro de 1915, saiu a segunda edição da colectânea A Pedra (editora "O Hiperbóreo"), à qual foram acrescentados textos de 1914-1915.

O início da Primeira Guerra Mundial fez com que Mandelstam encontrasse versos patrióticos, no entanto, em 1916, tornou-se anti belicista. O poeta saudou a Revolução de Fevereiro de 1917, mas reagiu negativamente aos acontecimentos de Outubro, vivendo-os como uma trágica ruptura com a história e cultura ("No terrível auge, um fogo errante…" / "На страшной высоте блуждающий огонь…", de 1918). Por outro lado, o poeta tentou adaptar-se à nova realidade, ver “nos crepúsculos da liberdade” a regeneração e transfiguração do mundo (poema "Glorifiquemos, irmãos, os crepúsculos da liberdade…", de 1918).


Ossip Mandelstam (1891-1938)
Os anos de 1920 foram um tempo de trabalho literário intensivo e diversificado para Mandelstam. Saíram as novas colectâneas poéticas Tristia (Скорбные элегии / Elegias tristes), em 1922, O Segundo Livro (Вторая книга), em 1923, e a terceira edição de A Pedra, em 1923. Os versos do poeta foram publicados em Petrogrado, Moscovo e Berlim. Mais tarde, saiu o livro de ensaios autobiográficos O Rumor do Tempo (Шум времени), em 1925, a colectânea Poesias (Стихотворения), a colectânea de artigos crítico-literários Sobre a Poesia (О поэзии) e a novela O Selo Egípcio (Египетская марка), todas em 1928, nos quais, à maneira das "novelas de Petersburgo" de Nikolai Gógol, retratou o destino do "pequeno Homem" que enfrenta o medo perante a história. Saíram alguns livros para crianças: Os Dois Eléctricos (Два трамвая) e Fogareiro a querosene (Примус), ambos em 1925, Os Balões (Шары), em 1926. Durante muito tempo, Mandelstam trabalhou como tradutor. Dominando perfeitamente as línguas francesa, alemã e inglesa, Mandelstam fez muitas traduções (com o objectivo principal de ganhar dinheiro) de prosas de escritores estrangeiros contemporâneos. Tratou com especial cuidado as traduções poéticas, mostrando grande habilidade para transmitir o som original das obras. Em 1930, Mandelstam visitou a Arménia e o resultado dessa viagem foi a prosa Viagem à Arménia (Путешествие в Армению), de 1931-1933, e o ciclo de poemas Arménia (Армения) que foi parcialmente publicado em 1933.

A atitude de Mandelstam para com o poder soviético, a partir do final dos anos 20, foi desde um forte ultraje ao arrependimento perante a nova realidade e a glorificação de Estaline. Em 1930-1931, ele escreve o ensaio panfletário A Quarta Prosa (Четвёртая проза), que permaneceu como manuscrito, no qual expressa uma grande rejeição ao regime político da URSS. O mais conhecido exemplo desse ultraje é o epigrama anti-estalinista, escrito em 1933, 


"Мы живём, под собою не чуя  страны…"     "Vivemos sem sentir o país por baixo de nós…"

devido ao qual, em Maio de 1934, o poeta foi detido. Estaline poupou-lhe a vida, dando a ordem de "isolar, mas não liquidar".

Óssip Mandelstam
Depois de ser detido, em meados de Maio de 1934, Mandelstam foi acusado pela escrita e leitura de poemas anti-soviéticos, e desterrado para o norte dos Urais. Depois, de Junho de 1934 a Maio de 1937, foi exilado em Vorónej, onde trabalhou durante algum tempo em jornais, na rádio e no teatro. A sua atitude para com Estaline foi de gratidão envergonhada: "(…) eu dei uma bofetada no poderoso e ele perdoou". Mandelstam tentou escrever versos "soviéticos". A mais conhecida tentativa é o poema panegírico "Quando eu peguei no carvão para o maior elogio..." ("Когда б я уголь взял для высшей похвалы…"), de 1937, que foi chamado de "Ode a Estaline" ("Сталинская ода"). O período em que viveu em Vorónej tornou-se muito proveitoso para o poeta: foram escritos 98 poemas que, depois, compuseram o ciclo "Cadernos de Vorónej" ("Воронежские тетради"). Este ciclo é considerado uma das suas melhores obras líricas. Nestes versos ecoa a solidão, são revividas visões proféticas sombrias.

Em Maio de 1937, Ossip Mandelstam regressou a Moscovo, mas foi-lhe proibido viver na capital. Ele viveu nos arredores de Moscovo, na povoação de Saviolovo, onde escreveu os seus últimos versos, depois viveu em Kalinin (hoje Tver). No início de Março de 1938, Mandelstam foi novamente detido e condenado a 5 anos num campo de trabalhos de correcionais «por actividades contra-revolucionárias». Morreu a 27 de Dezembro de 1938, num campo de trânsito em Vladivostok, e foi reabilitado postumamente. A localização do túmulo do poeta é desconhecida.

O nome de Ossip Mandelstam permaneceu proibido na URSS durante cerca de 20 anos. A esposa e os amigos do poeta guardaram os seus versos, que, nos anos 60 do séc. passado, foi possível publicar. Hoje em dia, toda a sua obra está editada. Em 1991, em Moscovo, foi criada a Associação de Mandelstam, cujo objectivo é reunir, manter, estudar e popularizar a herança criativa de um dos maiores poetas do séc. XX, que, desde 1992, está localizada na Universidade Estatal Russa para as Humanidades.
:: Fonte: PLIASSOVVladimir I.. Ossip Mandelstam. in: Universidade de Coimbra, 2014. (acessado em 26.7.2016).


Ossip Mandelstam (1891-1938)

OBRA DE ÓSSIP MANDELSTAM PUBLICADA EM PORTUGUÊS
:: Ossip Mandelstam: Guarda minha fala para sempre. [seleção, introdução, comentários e notas Nina Guerra, tradução Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.
:: O rumor do tempo e Viagem à Armênia. Óssip Mandelstam. [tradução de Paulo Bezerra]. Coleção Leste. São Paulo: Editora 34, 2000.

Antologias (participação)
:: Poesia russa moderna. [traduções Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]. São Paulo: Perspectiva, 2001.
:: Poesia da recusa. [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.



Óssip Mandelstam
POEMAS ESCOLHIDOS DE ÓSSIP MANDELSTAM O som seco
O som seco e surdo desta
Fruta caindo
No murmúrio sem fim do
Oco silêncio da floresta.

1908

.

Звук осторожный и глухой

Плода, сорвавшегося с древа,
Среди немолчного напева
Глубокой тишины лесной...

1908

- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§


Este meu corpo
Este meu corpo, que alguém me deu,
Que fazer dele, tão um, tão meu?

Respirar, este quieto prazer
― Digam-me ― a quem devo agradecer?

Sou jardineiro ou só flor que fana?
Não estou só na prisão humana.

Sobre as vidraças do infinito
Eis meu calor, meu sopro inscrito.

Minha marca está ali impressa,
Mesmo que não se reconheça.

Que escoe a borra desta hora,
Ela está ali ― não vai embora.

1909
.

Дано мне тело - что мне делать с ним,
Таким единым и таким моим?

За радость тихую дышать и жить
Кого, скажите, мне благодарить?

Я и садовник, я же и цветок,
В темнице мира я не одинок.

На стекла вечности уже легло
Мое дыхание, мое тепло.

Запечатлеется на нем узор,
Неузнаваемый с недавних пор.

Пускай мгновения стекает муть
Узора милого не зачеркнуть.

1909
- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.



§



Silentium
Ainda não é nascida,
É só canção e poesia,
E está em plena harmonia
Com tudo o que é vida.

O seio da onda arfa em paz,
Mas como um louco brilha o dia
E a espuma pálido-lilás
Jaz no azul-névoa da bacia.

Que em meus lábios pairasse
A quietude original
Como uma nota de cristal
Pura desde que nasce!

Volve à poesia e a canção,
Sê só espuma, Afrodite,
Coração, desdenha o coração
Que com a vida coabite!

1910
.

Silentium
Она еще не родилась,
Она и музыка и слово,
И потому всего живого
Ненарушаемая связь.

Спокойно дышат моря груди,
Но, как безумный, светел день,
И пены бледная сирень
В черно-лазоревом сосуде.

Да обретут мои уста
Первоначальную немоту,
Как кристаллическую ноту,
Что от рождения чиста!

Останься пеной, Афродита,
И слово в музыку вернись,
И сердце сердца устыдись,
С первоосновой жизни слито!

1910
- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.


§


A concha
Talvez te seja inútil minha vida,
Noite; fora do golfo universal,
Como concha sem pérola, perdida,
Me arremessaste no teu areal.

Moves as ondas, como indiferente,
E cantas sem cessar tua melodia.
Mas hás de amar um dia, finalmente,
A mentira da concha sem valia.

Jazerás a seu lado pela areia
E pouco faltará para que a escondas
Nessa casula onde ela se encandeia
À sonora campânula das ondas,

E as paredes da frágil concha, pouco
A pouco, se encherão do eco da espuma,
Tal como a casa de um coração oco,
Cheio de vento, de chuva e de bruma...

1911
.

Раковина

Быть может, я тебе не нужен,
Ночь; из пучины мировой,
Как раковина без жемчужин,
Я выброшен на берег твой.

Ты равнодушно волны пенишь
И несговорчиво поешь;
Но ты полюбишь, ты оценишь
Ненужной раковины ложь.

Ты на песок с ней рядом ляжешь,
Оденешь ризою своей,
Ты неразрывно с нею свяжешь
Огромный колокол зыбей;

И хрупкой раковины стены, —
Как нежилого сердца дом, —
Наполнишь шепотами пены,
Туманом, ветром и дождем...

1911
- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.


§


Odeio o brilho frio

Odeio o brilho frio
Das estrelas iguais.
Salve, alto desvario
Das torres ogivais!

Pedra, muda-se em véu

Ou transforma-te em teia!
No peito azul do céu
A agulha aguda alteia!

O vôo é minha meta.

Uma asa em mim se estira.
Mas a que alvo a seta
Do pensamento mira?

Quando a hora já se for,

Talvez eu volte a voar.
Lá, me negam o amor.
Aqui, não ouso amar.

1912

.

Я ненавижу свет

Однообразных звезд.
Здравствуй, мой давний бред,-
Башни стрельчатый рост!

Кружевом, камень, будь

И паутиной стань,
Неба пустую грудь
Тонкой иглою рань!

Будет и мой черед -

Чую размах крыла.
Так - но куда уйдет
Мысли живой стрела?

Или свой путь и срок

Я, исчерпав, вернусь:
Там - я любить не мог,
Здесь - я любить боюсь...

1912

- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.


§


Não posso tocar

Não posso tocar, no escuro,
Teu vulto vago e sombrio.
“Senhor!”, por erro, murmuro,
Alheio ao que balbucio.

De mim, tal uma ave enorme,

O nome de Deus se evola.
À frente, um abismo informe,
Atrás, vazia, a gaiola.

1912

.

Образ твой, мучительный и зыбкий,

Я не мог в тумане осязать.
"Господи!"- сказал я по ошибке,
Сам того не думая сказать.

Божье имя, как большая птица,

Вылетало из моей груди.
Впереди густой туман клубится,
И пустая клетка позади.


1912
- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Não é a lua

Não é a lua, não, é um mostrador.
Que culpa tenho se as estrelas baças
Me parecem leitosas, sem fulgor?

Batiúshkov não merece piedade.

"Que horas são?", perguntaram-lhe uma vez,
E ele só respondeu: "Eternidade."

1912

.

Нет, не луна, а светлый циферблат

Сияет мне, — и чем я виноват,
Что слабых звезд я осязаю млечность?

И Батюшкова мне противна спесь:

Который час, его спросили здесь,
А он ответил любопытным: вечность!


1912
- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§


Cassino

Não gosto de prazer premeditado.
O mundo, às vezes, é um borrão escuro.
Eu, meio bêbado, estou condenado
A ver as cores de um viver obscuro.

O vento brinca e às nuvens descabela.

A âncora cai no fundo do oceano.
E inanimada, como numa tela,
A alma pende sobre o abismo insano.

Mas amo estar nas dunas do cassino,

A larga vista da janela baça,
Um fio de luz na toalha que desbota,

À minha volta o mar verde-citrino,

Vinho, como uma rosa, em minha taça
E eu a seguir o voo da gaivota.

1912

.

Казино

Я не поклонник радости предвзятой,
Подчас природа — серое пятно.
Мне, в опьяненьи легком, суждено
Изведать краски жизни небогатой.

Играет ветер тучею косматой,

Ложится якорь на морское дно,
И бездыханная, как полотно,
Душа висит над бездною проклятой.

Но я люблю на дюнах казино,

Широкий вид в туманное окно
И тонкий луч на скатерти измятой;

И, окружен водой зеленоватой,

Когда, как роза, в хрустале вино,—
Люблю следить за чайкою крылатой!


1912
- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Valquírias arfam

Ilustração: © Loui Jover
Valquírias arfam. Finam violinos.
A ópera perora com seus ais.
Mármore. Escadarias. Nos umbrais,
Librés empunham os casacos finos.

Vai caindo a cortina de cetim.

Um tolo bisa do seu camarote.
Cocheiros dançam ao fogo. O chicote
Aguarda a carruagem. Eia! Fim.

1913

.

Валкирии

Летают Валкирии, поют смычки —
Громоздкая опера к концу идёт.
С тяжёлыми шубами гайдуки
На мраморных лестницах ждут господ.

Уж занавес наглухо упасть готов,

Ещё рукоплещет в райке глупец,
Извозчики пляшут вокруг костров…
«Карету такого-то!» — Разъезд. Конец.

1913

- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§


Lembremos Roma  

Lembremos Roma – A urbe sobranceira
Que o grande domo aclama com seu brilho
E os apóstolos louvam em concílio.
Arco-íris suspenso na poeira.

O Aventino ainda espera um soberano 

Nas Sete Festas em vigília muda,
Mas a lua canônica não muda 
O velho calendário ano após ano.

Descendo sobre o Fórum, vasta lua

Cobre o mundo inferior de cinza escura.
Ah, como é gélida a minha tonsura 
Católica sobre a cabeça nua.

1913

.

Рим

Поговорим о Риме — дивный град!
Он утвердился купола победой.
Послушаем апостольское credo:
Несется пыль, и радуги висят.

На Авентине вечно ждут царя —

Двунадесятых праздников кануны, —
И строго-канонические луны —
Двенадцать слуг его календаря.

На дольный мир глядит сквозь облак хмурый

Над Форумом огромная луна,
И голова моя обнажена —
О, холод католической тонзуры!

1913
- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§


Insônia. Homero.

Insônia. Homero. Velas rijas. Naves:
Contei a longa fila até a metade.
Barcos em bando, revoada de aves
Que se elevou outrora sobre a Hélder.

Uma cunha de grous cortando os céus — 

Sobre a fronte dos reis cai a espuma divina —
Para onde seguis? Não fosse por Helena,
O que seria Troia para vós, aqueus?

O mar e Homero — a tudo move o amor!

A quem ouvir? Mas Homero está quieto
E o mar, escuro, declamando, com clamor,
Ruge e estertora à beira do meu leito.

1915

.

Бессонница. Гомер. Тугие паруса.

Я список кораблей прочел до середины:
Сей длинный выводок, сей поезд журавлиный,
Что над Элладою когда-то поднялся.
Как журавлиный клин в чужие рубежи—
На головах царей божественная пена—
Куда плывете вы? Когда бы не Елена,
Что Троя вам одна, ахейские мужи?
И море, и Гомер — всё движется любовью.
Кого же слушать мне? И вот Гомер молчит,
И море черное, витийствуя, шумит
И с тяжким грохотом подходит к изголовью.

1915

- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§


Vivemos sem sentir o chão nos pés
Vivemos sem sentir o chão nos pés,
A dez passos não se ouve a nossa voz.

Uma palavra a mais e o montanhez
Do Kremlin vem: chegou a nossa vez.

Seus dedos grossos são vermes obesos.
Suas palavras caem como pesos.

Baratas, seus bigodes dão risotas.
Brilham como um espelho as suas botas.

Cercado de um magote subserviente,
Brinca de gato com essa subgente.

Um mia, outro assobia, um outro geme,
Somente ele troveja e tudo treme.

Forja decretos como ferraduras:
Nos olhos! Nos quadris! Nas dentaduras!

Frui as sentenças como framboesas.
O amigo Urso abraça suas presas.*

Novembro de 1933
.

Мы живем, под собою не чуя страны,
Наши речи за десять шагов не слышны
А где хватит на полразговорца,
Там припомнят кремлёвского горца.
Его толстые пальцы, как черви, жирны,
А слова, как пудовые гири, верны,
Тараканьи смеются усища,
И сияют его голенища.

А вокруг него сброд тонкошеих вождей,
Он играет услугами полулюдей.
Кто свистит, кто мяучит, кто хнычет,
Он один лишь бабачит и тычет,
Как подкову, кует за указом указ:
Кому в пах, кому в лоб, кому в бровь, кому в глаз.
Что ни казнь у него - то малина
И широкая грудь осетина.

Ноябрь 1933

- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§


De “Oitavas”

IV
Borboleta, ó muçulmana, 
Toda talhada em mortalha,
Da vida à morte você plana
Um estante e logo se atalha.
Do albatroz saem em segredo
Antenas em ponta. Faceira
Mortalha a modo de bandeira,
Dobra essas asas – tenho medo.

VI
Diz, desenhista dos desertos,
Fabro de areias movediças,
A audácia das linhas que atiças
Supera a dos ventos abertos?
Mas o que tem comigo a ver
As dúvidas de Jeová?
Seu saber vem do be-a-bá
E o be-a-bá bebe o saber.

Novembro 1933 – janeiro 1934
.

Восьмистишия

3
О, бабочка, о, мусульманка,
В разрезанном саване вся, –
Жизняночка и умиранка,
Такая большая – сия!
С большими усами кусава
Ушла с головою в бурнус.
О флагом развернутый саван,
Сложи свои крылья – боюсь!

9
Скажи мне, чертежник пустыни,
Арабских песков геометр,
Ужели безудержность линий
Сильнее, чем дующий ветр?
– Меня не касается трепет
Его иудейских забот –
Он опыт из лепета лепит
И лепет из опыта пьет...

Ноябрь 1933 — январь 1934
- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Dos “Cadernos de Vorôniej”

1
Liberta-me, libera-me, Vorôniej*, –
Devolve-me ou devora-me em teu sorvo, –
Desinverna-me ou vara-me de nojo –
Voraz neve, Vorôniej – dente, corvo!
.
Vorôniej, abril de 1935

2
Como pedra do céu na terra, um dia,
Um verso condenado caiu, sem pai, sem lar;
Inexorável – a invenção da poesia
Não pode ser mudada, e ninguém a irá julgar.
.
Vorôniej, 20 de janeiro de 1937

3
O que lutou contra o óxido e o bolor,
Qual prata feminina se incendeia,
E o trabalho silencioso prateia
O arado de ferro e a voz do inventor.
.
Vorôniej, 1937
.

Воронежские тетради

1
Пусти меня, отдай меня, Воронеж:
Уронишь ты меня иль проворонишь,
Ты выронишь меня или вернешь,—
Воронеж — блажь, Воронеж — ворон, нож...
.
Апрель 1935

2
Как землю где-нибудь небесный камень будит,
Упал опальный стих, не знающий отца.
Неумолимое — находка для творца —
Не может быть другим, никто его не судит.
.
Воро́неж, 20 января 1937

3
Как женственное серебро горит,
Что с окисью и примесью боролось,
И тихая работа серебрит
Железный плуг и песнотворца голос.
.
Воро́неж, 1937

- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.
* Vorôniej: cidade em que Mandelstam foi confinado, entre 1934 e 1937, por ordem de Stálin.

§

Intradução: o som (mandelstam)

O
som
seco
e
surdo
desta

fruta
cain
do

no
mur
múr
io
sem
fim
do

oco
silêncio
da flor
esta

1908
.

Звук осторожный и глухой
Плода, сорвавшегося с древа,
Среди немолчного напева
Глубокой тишины лесной...

1908
- Óssip Mandelstam (О́сип Мандельшта́м), no livro "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§


Nos bosques, ouropêndulas. Vogais
São a medida única dos versos.
Por ano, uma só vez, e nada mais,
Se mede a natureza com Homero.
A longa dilação já se prepara
Desde manhã: o dia abre em cesura.
Pascem os bois. E o langor de ouro pára,
A meio-junco, a nota que amadura.

1914
.

Есть иволги в лесах, и гласных долгота
В тонических стихах единственная мера.
Но только раз в году бывает разлита
В природе длительность, как в метрике Гомера.
Как бы цезурою зияет этот день:
Уже с утра покой и трудные длинноты,
Волы на пастбище, и золотая лень
Из тростника извлечь богатство целой ноты.

1914
- Óssip Mandelstam (tradução Haroldo de Campos). em "Poesia russa moderna". [traduções Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]. São Paulo: Perspectiva, 2001.

§

A era
Minha era, minha fera, quem ousa,
Olhando nos teus olhos, com sangue,
Colar a coluna de tuas vértebras?
Com cimento de sangue - dois séculos -
Que jorra da garganta das coisas?
Treme o parasita, espinha langue,
Filipenso ao umbral de horas novas.
Todo ser enquanto a vida avança
Deve suportar esta cadeia
Oculta de vértebras. Em torno
Jubila uma onda. E a vida como
Frágil cartilagem de criança
Parte seu ápex: morte da ovelha,
A idade da terra em sua infância.
Junta as partes nodosas dos dias:
Soa a flauta, e o mundo está liberto,
Soa a flauta, e a vida se recria.
Angústia! A onda do tempo oscila
Batida pelo vento do século,
E a víbora na relva respira
O ouro da idade, áurea medida.
Vergônteas de nova primavera!
Mas a espinha partiu-se da fera,
Bela era lastimável. Era,
Ex-pantera flexível, que volve
Para trás, riso absurdo, e descobre
Dura e dócil, na meada dos rastros,
As pegadas de seus próprios passos.

1923
.

Век
Век мой, зверь мой, кто сумеет
Заглянуть в твои зрачки
И своею кровью склеит
Двух столетий позвонки?
Кровь-строительница хлещет
Горлом из земных вещей,
Захребетник лишь трепещет
На пороге новых дней.
Тварь, покуда жизнь хватает,
Донести хребет должна,
И невидимым играет
Позвоночником волна.
Словно нежный хрящ ребенка
Век младенческой земли --
Снова в жертву, как ягненка,
Темя жизни принесли.
Чтобы вырвать век из плена,
Чтобы новый мир начать,
Узловатых дней колена
Нужно флейтою связать.
Это век волну колышет
Человеческой тоской,
И в траве гадюка дышит
Мерой века золотой.
И еще набухнут почки,
Брызнет зелени побег,
Но разбит твой позвоночник,
Мой прекрасный жалкий век!
И с бессмысленной улыбкой
Вспять глядишь, жесток и слаб,
Словно зверь, когда-то гибкий,
На следы своих же лап.

1923
- Óssip Mandelstam (tradução Haroldo de Campos). em "Poesia russa moderna". [traduções Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman]. São Paulo: Perspectiva, 2001.

§


No esmalte azul-pálido,
Que é possível em Abril,
Erguiam ramos as bétulas
E um tudo-nada anoiteciam.
Na aguda, breve ramada,
Na teia imóvel - filigrana,
Como em pranto de porcelana,
Rede com precisão traçada –
No vidrado do firmamento
O gentil pintor a urdisse,
Na cônscia força do momento,
No olvido da morte triste.

1909

.

На бледно-голубой эмали,

Какая мыслима в апреле,
Березы ветви поднимали
И незаметно вечерели.
Узор отточенный и мелкий,
Застыла тоненькая сетка,
Как на фарфоровой тарелке
Рисунок, вычерченный метко,-
Когда его художник милый
Выводит на стеклянной тверди,
В сознании минутной силы,
В забвении печальной смерти.

1909

- Ossip Mandelstam: Guarda minha fala para sempre [seleção, introdução, comentários e notas Nina Guerra, tradução Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

§

O corpo me é dado – e com que fim,
Meu corpo único, tão de mim
Pela alegria chã de respirar,
Silenciosa, a quem devo louvar?
Sou jardineiro e sou flor – cativo
Na prisão do mundo sozinho não vivo.
E já nos vidros da eternidade
Cai meu calor, meu sopro respirado.
Nela se grava um desenho pra sempre,
Irreconhecível de tão recente.
Escorra do momento a água turva –
O desenho amado não esbate à chuva.

1909
.

Дано мне тело - что мне делать с ним,
Таким единым и таким моим?
За радость тихую дышать и жить
Кого, скажите, мне благодарить?
Я и садовник, я же и цветок,
В темнице мира я не одинок.
На стекла вечности уже легло
Мое дыхание, мое тепло.
Запечатлеется на нем узор,
Неузнаваемый с недавних пор.
Пускай мгновения стекает муть
Узора милого не зачеркнуть.

1909
- Ossip Mandelstam: Guarda minha fala para sempre [seleção, introdução, comentários e notas Nina Guerra, tradução Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

§

É húmido e sonoro o ar sombrio;
Não há medo no bosque apaziguante.
A leve cruz dos passeios sozinho
Submisso carrego novamente.
De novo para a terra em letargia
A queixa voará, qual pato bravo,
Participo duma vida sombria
Onde todos estão sós lado a lado!
Um tiro. Sobre o lago adormecido
Pesadas se tornam as asas dos patos.
Pela sua vida dupla, reflectida,
Os pinheiros tornam-se assombrados.
Em reflexo estranho o céu brumoso –
A turva dor universal, ali –
Permite-me também ser nebuloso,
Permite-me que não te ame, a ti.

1911, 1935
.

Воздух пасмурный влажен и гулок;
Хорошо и не страшно в лесу.
Лёгкий крест одиноких прогулок
Я покорно опять понесу.
И опять к равнодушной отчизне
Дикой уткой взовьется упрек,-
Я участвую в сумрачной жизни,
Где один к одному одинок!
Выстрел грянул. Над озером сонным
Крылья уток теперь тяжелы.
И двойным бытием отраженным
Одурманены сосен стволы.
Небо тусклое с отсветом странным -
Мировая туманная боль -
О, позволь мне быть также туманным
И тебя не любить мне позволь.

1911, 1935
- Ossip Mandelstam: Guarda minha fala para sempre [seleção, introdução, comentários e notas Nina Guerra, tradução Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

§

Eu não podia sentir no nevoeiro
Tua imprecisa imagem de ansiedade,
Oh meu Deus, foi o sussurro que primeiro
Me saiu do peito bem contra vontade.
O nome de Deus, como pássaro grande,
Do meu peito a voar se despedia!
À minha frente paira uma névoa espessa,
Atrás ficava uma gaiola vazia...

1912
.

Образ твой, мучительный и зыбкий,
Я не мог в тумане осязать.
"Господи!"- сказал я по ошибке,
Сам того не думая сказать.
Божье имя, как большая птица,
Вылетало из моей груди.
Впереди густой туман клубится,
И пустая клетка позади.

1912
- Ossip Mandelstam: Guarda minha fala para sempre [seleção, introdução, comentários e notas Nina Guerra, tradução Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

§

Caminheiro
Sinto é um medo, um medo insuperável
Defronte das alturas misteriosas.
E dizer que me agradam andorinhas
No céu e do campanário o alto voo!
Caminheiro de outrora, cá me iludo
Pensando ouvir à borda do abismo
A pedra a ceder, a bola de neve,
O relógio batendo eternidade.
Se assim fosse! Mas não sou o peregrino
Que vem dos fólios antigos desbotados,
E o que em mim real canta é esta angústia:
Certo – desce uma avalancha das montanhas!
E toda a minha alma está nos sinos,
Só que a música não salva dos abismos!

1912
.

Пешеход
Я чувствую непобедимый страх
В присутствии таинственных высот.
Я ласточкой доволен в небесах,
И колокольни я люблю полет!
И, кажется, старинный пешеход,
Над пропастью, на гнущихся мостках,
Я слушаю, как снежный ком растет
И вечность бьет на каменных часах.
Когда бы так! Но я не путник тот,
Мелькающий на выцветших листах,
И подлинно во мне печаль поет;
Действительно, лавина есть в горах!
И вся моя душа — в колоколах,
Но музыка от бездны не спасет!

1912
- Ossip Mandelstam: Guarda minha fala para sempre [seleção, introdução, comentários e notas Nina Guerra, tradução Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

§

Inseparável do medo é a queda,
Medo é mesmo do vazio o sentimento.
Quem das alturas nos atira a pedra,
Rejeitando ela o jugo do momento?
E tu, com teus passos hirtos de monge,
Mediste em tempos a nave empedrada:
Calhaus e sonhos rudes – não está longe
A sede de morte, a grandeza ansiada!
Maldito sejas, gótico abrigo,
Quem entra é pelo tecto enganado,
Na lareira não arde o lenho amigo.
Vivendo eternamente poucos haja,
Mas, viver ao momento subjugado –
Que terrível sorte e que frágil casa!

1912
.

Паденье - неизменный спутник страха,
И самый страх есть чувство пустоты.
Кто камни нам бросает с высоты,
И камень отрицает иго праха?
И деревянной поступью монаха
Мощеный двор когда-то мерил ты:
Булыжники и грубые мечты -
В них жажда смерти и тоска размаха!
Так проклят будь готический приют,
Где потолком входящий обморочен
И в очаге веселых дров не жгут.
Немногие для вечности живут,
Но если ты мгновенным озабочен -
Твой жребий страшен и твой дом непрочен!

1912
- Ossip Mandelstam: Guarda minha fala para sempre [seleção, introdução, comentários e notas Nina Guerra, tradução Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

§

Um friozinho faz cócegas na nuca,
é impossível ver de imediato:
também a mim me corta o tempo como
a ti se desgasta e camba o salto.
A si mesma se vence a vida, o som
derrete pouco a pouco, falta sempre
qualquer coisa, até falta o tempo
para ter qualquer coisa que se lembre.
Dantes era melhor, é bem verdade;
esse velho sussurrar de outrora
em nada se pode comparar,
ó sangue, ao teu sussurrar de agora.
Pelos vistos não é gratuito
este leve mexer dos lábios,
e abanam, mexem-se os ramos
que condenaram a ser cortados.

1922
.

Холодок щекочет темя,
И нельзя признаться вдруг,-
И меня срезает время,
Как скосило твой каблук.
Жизнь себя перемогает,
Понемногу тает звук,
Всё чего-то не хватает,
Что-то вспомнить недосуг.
А ведь раньше лучше было,
И, пожалуй, не сравнишь,
Как ты прежде шелестила,
Кровь, как нынче шелестишь.
Видно, даром не проходит
Шевеленье этих губ,
И вершина колобродит,
Обреченная на сруб.

1922
- Ossip Mandelstam: Guarda minha fala para sempre [seleção, introdução, comentários e notas Nina Guerra, tradução Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

§

Se for preso pelos nossos inimigos,
Se as pessoas não falarem comigo, 
Se de tudo e de todos for privado:
Do direito a respirar e abrir portas,
Do direito a afirmar que haverá vida
E que, como juiz, o povo julga -
Se me tratarem como animal,
Se me atirarem o comer pro chão -,
A dor não amordaço, não me calo,
Mas o que for de desenhar, desenho,
E ao abalar o sino nu dos muros,
Ao despertar o canto escuro inimigo,
Vou atrelar dez bois à minha voz
E no escuro o arado enterro e guio -
E nas profundas da noite, noite alerta,
Olhos se acendem para a terra fértil,
E, pois, na hoste de fraternos olhos apertado,
Co peso de toda a colheita eu cairei,
De impetuoso juramento é a seara -
E romperá de anos ardentes uma alcateia,
Como tempestade madura vai Lenine
Murmurar. Não haverá putrefacção na terra,
Assassinará razão e vida o Estaline.

Fevereiro-Março de 1937
.

Если б меня наши враги взяли
И перестали со мной говорить люди;
Если б меня лишили всего в мире:
Права дышать и открывать двери
И утверждать, что бытие будет
И что народ, как судия, судит, —
Если б меня смели держать зверем,
Пищу мою на пол кидать стали б, —
Я не смолчу, не заглушу боли,
Но начерчу то, что чертить волен,
И, раскачав колокол стен голый
И разбудив вражеской тьмы угол,
Я запрягу десять волов в голос
И поведу руку во тьме плугом —
И в глубине сторожевой ночи
Чернорабочей вспыхнут земли очи,
И в легион братских очей сжатый
Я упаду тяжестью всей жатвы,
Сжатостью всей рвущейся вдаль клятвы —
И промелькнет пламенных лет стая,
Прошелестит спелой грозой: Ленин,
Но на земле, что избежит тленья,
Будет губить разум и жизнь Сталин.
- Ossip Mandelstam: Guarda minha fala para sempre [seleção, introdução, comentários e notas Nina Guerra, tradução Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

§

Concha
Talvez tu de mim não queiras nada
Ó noite; desde o fundo abissal
Do mar sou lançado - concha muda
E sem pérola - em teu areal.
Com indiferença vais cantando,
Espumas agitando, e a mentira
Da inútil concha vais amar,
De alta estima a cobrirá tua lira.
Junto dela te deitas na areia,
Com teus paramentos vais vesti-la,
O enorme sino do mar crespo
A ela unirás para toda a vida.
E os muros da concha esboroada
— Coração de lar desabitado —
Encherás do murmúrio da espuma,
De neblina, de vento e de chuva...

1911
.

Раковина
Быть может, я тебе не нужен,
Ночь; из пучины мировой,
Как раковина без жемчужин,
Я выброшен на берег твой.
Ты равнодушно волны пенишь
И несговорчиво поешь;
Но ты полюбишь, ты оценишь
Ненужной раковины ложь.
Ты на песок с ней рядом ляжешь,
Оденешь ризою своей,
Ты неразрывно с нею свяжешь
Огромный колокол зыбей;
И хрупкой раковины стены, —
Как нежилого сердца дом, —
Наполнишь шепотами пены,
Туманом, ветром и дождем...
- Ossip Mandelstam: Guarda minha fala para sempre [seleção, introdução, comentários e notas Nina Guerra, tradução Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.

§

Toma de minhas mãos para tua alegria
Um naco deste sol e um pingo de mel —
Como as abelhas de Perséfone instruíram.
Impossível desatar nau livre de amarras,
Impossível ouvir sombra de peles calçada
E o medo da vida maninha superar.
Ficam os beijos, só nos restam alguns beijos,
Penugentos tais as abelhas pequeninhas
Que ao saírem da colmeia já fenecem.
Que zumbem nas diáfanas selvas da noite,
Sua pátria e de Taiguet a espessa floresta,
Seu alimento é tempo, melissa, hortelã.
Toma, para teu júbilo, a prenda bravia —
Desairoso e seco colar de abelhas mortas
Que, morrentes, o mel em sol demudaram.

1920
.

Возьми на радость из моих ладоней
Немного солнца и немного меда,
Как нам велели пчелы Персефоны.
Не отвязать неприкрепленной лодки,
Не услыхать в меха обутой тени,
Не превозмочь в дремучей жизни страха.
Нам остаются только поцелуи,
Мохнатые, как маленькие пчелы,
Что умирают, вылетев из улья.
Они шуршат в прозрачных дебрях ночи,
Их родина — дремучий лес Тайгета,
Их пища — время, медуница, мята.
Возьми ж на радость дикий мой подарок,
Невзрачное сухое ожерелье
Из мертвых пчел, мед превративших в солнце.
- Ossip Mandelstam: Guarda minha fala para sempre [seleção, introdução, comentários e notas Nina Guerra, tradução Filipe Guerra]. Lisboa: Assírio & Alvim, 1996.


Óssip Mandelstam
FORTUNA CRÍTICA DE ÓSSIP MANDELSTAM
BELÉM, Euler de França. Stálin destruiu o poeta Óssip Mandelstam mas perdeu a batalha histórica. A poesia continua a infernizá-lo. in: Jornal Opção, edição 2020, 26.3.2014. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).
BERNARDINI, Aurora Fornoni. Ossip Mandelstam. 15. Colaboração à Revista Eletrônica Kalinka ? Traduções de poemas de Ossip Mandelstam e Fiódor Sologub ( outubro-dezembro de 2010). Revista da Cátedra Jaime Cortesão (USP), v. I, p. 3-3, 2010.
FERRAZ, Paulo. Óssip Mandelstam: a vida por um epigrama. in: Confraria do vento, junho de 2014. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).
FERREIRA, Jerusa de Carvalho Pires.. Memória, palavras, murmúrios e silêncios: Óssip Mandelstam. Remate de Males, v. 26.1, p. 145-153, 2006.
FERREIRA, Jerusa de Carvalho Pires.. Ossip Mandelstan - O doloroso oficio de convocar o pessoal. Jornal da Tarde, São Paulo, 29 jul. 2000.
GILFRANCISCO. Uma Palavra sobre Mandelstam. in: Germina, julho, 2006. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).
LARROYED, Aline Azevedo. Ossip Mandelstam - Traduzindo o Silêncio. (Dissertação Mestrado em Literatura). Universidade de Brasília, UnB, 2001.
LITTELL, Robert. De Mandelstam para Stálin: Um Epigrama Trágico. [tradução de Mauro Gama; revisão de Marco Lucchesi]. Rio de Janeiro: Record, 2010. 
POESIA. 5 poemas de Ossip Mandelstam. [tradução de Francisco Araújo]. in: dEsEnrEdoS - ano II - número 4 - teresina - piauí - janeiro fevereiro março 2010. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).
POPOFF, Alexandra. As esposas: As mulheres nos bastidores da vida e da obra de prodígios da literatura russa. Barueri SP: Selo Amarilys. Editora Manole, 2012.
SCHNAIDERMAN, Boris. Criação/poesia. in: Estudos Avançados, 12, 32, 1998. Disponível no link. (acessado em 26.7.2016).


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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Óssip Mandelstam - poeta russo. Templo Cultural Delfos, julho/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
____
** Página atualizada em 26.7.2016.


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