Tristan Corbière - um poeta maldito

Tristan Corbière © Jean Vacher
Tristan Corbière, pseudônimo de Édouard-Joachim Corbière (18 de Julho de 1845 - 1 março de 1875), é um escritor francês da segunda metade do século XIX. Nasceu perto de Morlaix, na
Bretanha, região provinciana na qual realizou os primeiros estudos, e onde viria a falecer, dois anos após a publicação de seu livro. Por razões de saúde, viu-se obrigado, desde cedo, a mudar-se assiduamente, passando por lugares como: Nantes, Provença e Roscoff, os dois
últimos em busca de um clima mais ameno. Não se sabe ao certo qual era o mal de que padecia, entretanto, os biógrafos costumam defini-lo como reumatismo articulatório ou
tuberculose. O fato é que a saúde debilitada, e a consequente deformidade física, tiveram grande influência em sua obra poética, cuja metapoesia irônica e sarcástica reflete também a respeito do eu empírico do poeta.
Tristan Corbière escreveu um único livro, Les amours jaunes (1873), passou pela Paris de fins do século XIX praticamente despercebido. Somente os ensaios do poeta Paul Verlaine (1844-1896), reunidos sob o título de Poètes maudits (1884), buscaram dar realce – se bem que dez anos após a sua morte – a esse poeta tão avesso ao convívio social: “Corbière fut traité de fou, son livre passa pour immoral et on l’oublia, jusqu’au moment de l’apparition des Poètes maudits.” (MARTINEAU, 1904, p.78). Ainda segundo Martineau, a biografia de Corbière, traçada por Verlaine, é um tanto superficial, entretanto, a escolha dos poemas citados foi bastante perspicaz.
O desinteresse pelo agrupamento em um movimento com finalidades comuns, talvez herança do individualismo romântico, torna as estéticas do fin de siècle um tanto dispersas, e seu estudo acaba por considerar cada poética a partir de uma certa autonomia. Entretanto, Verlaine conseguiu unificar alguns dos principais anseios de seus “poetas malditos”: 
Grâce à Verlaine, les Poètes Maudits se trouvent ainsi unis dans une même révolte, non seulement contre l’étroit naturalisme du jour, mais contre la gravité des sots, contre le règne despotique de l’éloquence et de la logique. Poètes Maudits, Poètes Absolus: hommes libres.Voilà de quoi ébranler une société chancelante.
(MICHAUD, 1966, p.250). 
Mais tarde foi reconhecido por críticos e poetas importantes como Edmund Wilson e Ezra Pound. 
Fonte e mais em: YOSHIMOTO, Lilian Yuri. Tristan Corbière: o sujeito poético e a busca por uma identidade. (Dissertação Mestrado em Estudos Literários). UNESP/Araraquara, 2012. Disponível no link. (acessado em 28.5.2012) | MICHAUD, G.. Message poétique du symbolisme. Paris: Nizet, 1966. 
:: VERLAINE, Paul. Les Poètes maudits: Tristan Corbière, Arthur Rimbaud, Stéphane Mallarmé. Paris Lèon Vanier, Librare-êditeur, 1884. Disponível no link. (acessado em 4.6.2016).

Tristan Corbière © fonte: Roscoff, manuscrit
ancien fonds Jean Moulin

OBRA DE TRISTAN CORDIÈRE PUBLICADA NO BRASIL

:: Os amores amarelos (Les amours jaunes). Tristan Corbière. [introdução, tradução e notas Marcos Antônio Siscar]. São Paulo: Iluminuras, 1996. 

Antologias (participação)

:: Versos, reverso controverso. [organização e tradução de Augusto de Campos]. São Paulo: Editora Perspectiva, 1988.
:: Poetas franceses do século XIX. [organização e tradução José Lino Grünewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.


BREVE ANTOLOGIA POÉTICA DE TRISTAN CORDIÈRE
Tristan Corbière, projet du timbre-poste dessiné
par Cyril de la Patellière, crayon sur papier, 2010
© L’Adresse Musée de La Poste, Paris

Aventura galante e a ventura
                              Odor della feminità.

Eu faço o ponto, quando belo vai o dia,
Para a passante que, com satisfação,
À ponta da sombrinha me fisgaria
O piscar da pupila, a pele do coração.

E acho que estou feliz – um pouco – é a vida:
O mendigo distrai a fome na bebida…

Um belo dia – triste ofício! – eu, assim,
– Ofício!.. – velejava. Ela passou por mim.
– Ela quem? – A Passante! E a sombrinha também!
Lacaio de carrasco, toquei-a… – porém,

Contendo um sorriso, Ela espiou meus botões
E… estendeu-me a mão, e…
                                                        me deu uns tostões.

                           (Rua dos Mártires.)

.                   

Bonne fortune et fortune

                                  Odor della feminitá.

Moi, je fais mon trottoir, quand la nature est belle,

Pour la passante qui, d’un petit air vainqueur,
Voudra bien crocheter, du bout de son ombrelle,
Un clin de ma prunelle ou la peau de mon cœur…

Et je me crois content — pas trop ! — mais il faut vivre :

Pour promener un peu sa faim, le gueux s’enivre…

Un beau jour — quel métier ! — je faisais, comme ça,

Ma croisière. — Métier !… — Enfin, Elle passa
— Elle qui ? — La Passante ! Elle, avec son ombrelle !
Vrai valet de bourreau, je la frôlai… — mais Elle

Me regarda tout bas, souriant en dessous,

Et… me tendit sa main, et…
                                                       m’a donné deux sous.

                                        (Rue des Martyrs.)

- Tristan Corbière, no livro "Os amores amarelos". [introdução, tradução e notas Marcos Antônio Siscar]. São Paulo: Iluminuras, 1996.

§


Desencorajoso

Foi um poeta verdadeiro: Não tinha canto.
Morto: ele amava o dia e desdenhava o pranto.
Pintor: ele não pintava, esquecido que era…
Ele via muito – e ver é uma cegueira.

– Sonhador: habitava o sonho, que se esvai,

Sem ir com ele às nuvens, de onde se cai,
Sem abrir seu personagem e buscar-se dentro.

– Puro herói de romance: ele adorava a loura

Bruma ao sol que amorena, e a lua que nos doura…
Mas não amava nunca – Ele não tinha tempo. –

– Explorador incansável: Remos a remar

Cá embaixo ele via, do alto de seu olhar,
Lasso de piedade pelas boas remadas…

Mineiro das idéias: tocava a fronte espessa,

Para coçar uma espinha ou coçar a cabeça
Em seu trabalho – Fazer nada. –

– Falava: “Sim, a Musa é estéril! é filha

De amor, ociosidade, prostituição;
Não deformem a moça em ventre de família
Que cobre o garanhão para a reprodução!

“Entornem a massa, pedreiros das idéias!

Vocês que, amados por seu capricho insensato,
–Tudo é vaidade! -, quando o dia clareia,
Mostram-na com alarde aos olhos dos beatos!

“Ele acariciava, como se afoga um gato,

E vocês prenderam sua asa ou seu véu,
Orgulhosos de empunhar a pluma do pato,
Ou pó-de-mico, para agitar o pincel!”

– Ele dizia: “Ó florinha! Ingênuo Oceano!

Não creiam que nos faltem pintores e poetas!…
O vidraceiro pinta! e tem por sucedâneo
Um cego que canta raspando a palheta,

Ou um cego que pinta com a clarineta!

–É isso a arte?…”
                                    – Restou-lhe no Sublime Besta
Afogar o orgulho vazio e a virgindade.

                      (Mediterrâneo.)

.

Décourageux

Ce fut un vrai poète : Il n’avait pas de chant.
Mort, il aimait le jour et dédaigna de geindre.
Peintre : il aimait son art — Il oublia de peindre…
Il voyait trop — Et voir est un aveuglement.

— Songe-creux : bien profond il resta dans son rêve ;

Sans lui donner la forme en baudruche qui crève,
Sans ouvrir le bonhomme, et se chercher dedans.

— Pur héros de roman : il adorait la brune,

Sans voir s’elle était blonde… Il adorait la lune ;
Mais il n’aima jamais — Il n’avait pas le temps.

— Chercheur infatigable : Ici-bas où l’on rame,

Il regardait ramer, du haut de sa grande âme.
Fatigué de pitié pour ceux qui ramaient bien…

Mineur de la pensée : il touchait son front blême,

Pour gratter un bouton ou gratter le problème
Qui travaillait là — Faire rien. —

— Il parlait : « Oui, la Muse est stérile! elle est fille

“D’amour, d’oisiveté, de prostitution ;
“Ne la déformez pas en ventre de famille
“Que couvre un étalon pour la production!”

“Ô vous tous qui gâchez, maçons de la pensée!

“Vous tous que son caprice a touchés en amants,
” — Vanité, vanité — La folle nuit passée,
“Vous l’affichez en charge aux yeux ronds des manants!

“Elle vous effleurait, vous, comme chats qu’on noie,

“Vous avez accroché son aile ou son réseau,
“Fiers d’avoir dans vos mains un bout de plume d’oie,
“Ou des poils à gratter, en façon de pinceau!”

— Il disait: “Ô naïf Océan! Ô fleurettes,

“Ne sommes-nous pas là, sans peintres, ni poètes!…
“Quel vitrier a peint ! quel aveugle a chanté!…
“Et quel vitrier chante en râclant sa palette,

“Ou quel aveugle a peint avec sa clarinette !

“— Est-ce l’art ?… “
                                                 — Lui resta dans le Sublime Bête
Noyer son orgueil vide et sa virginité.

                            (Méditerranée.)

- Tristan Corbière, no livro "Os amores amarelos". [introdução, tradução e notas Marcos Antônio Siscar]. São Paulo: Iluminuras, 1996.

§

Epitáfio
Salvo os amorosos principiantes ou findos que querem principiar pelo fim há tantas coisas que findam pelo princípio que o princípio principia a findar por estar no fim o fim disso é que os amorosos e outros findarão por principiar a reprincipiar por esse princípio que terá findo por não ser mais que o fim retornado o que principiará por ser igual à eternidade que não tem fim nem princípio e terá findo por ser também finalmente igual à rotação da terra onde se findará por não distinguir mais onde principia o fim de onde finda o princípio o que é todo fim de todo princípio igual a todo princípio final do infinito definido pelo indefinido. – Igual um epitáfio igual um prefácio e vice-versa.
(Sabedoria das Nações)
Tristan Corbière - (caricatura do poeta pelo próprio)
Matou-se de paixão ou morreu de preguiça,
Se vive, é só de vício; e deixa apenas isso:
— Não ser a sua amante foi seu maior suplício —
Não nasceu por nenhum lado
E foi criado como mudo,
Tornou-se um arlequim-guisado,
Mistura adúltera de tudo.
Tinha um não-sei-que, — sem saber onde;
Ouro, — sem trocado para o bonde;
Nervos, — sem nervos; vigor sem “garra”;
Alma, — faltava uma guitarra;
Amor, — mas sem bastante fome.
— Muitos nomes para ter um nome. —
Idealista, — sem idéia. Rima
Rica, — sem matéria-prima;
De volta, — sem nunca ter ido;
Se achando sempre perdido.
Poeta, apesar do verso;
Artista sem arte, — ao inverso;
Filósofo — vide-verso.
Um sério cômico, — sem sal.
Ator: não soube seu papel;
Pintor: dó-ré-mi-fá-sol;
E músico: usava o pincel.
Uma cabeça! — sim, de vento:
Muito louco para ter tento;
Seu mal foi singular de mais.
— Seus pés quebrados, pés demais.
Avis rara — mas de rapina;
Macho... com manha feminina;
Capaz de tudo, — bom para nada;
Com certeza, — por certo errada.
Pródigo como o filho errante
Do Testamento, — herança vacante.
Rebelde, — e com receio do lugar
Comum não saía do lugar.
Colorista sem cavalete;
Incompreendido... — abriu o peito:
Chorou, cantou em falsete;
— E foi um defeito perfeito.
Não foi alguém, nem foi ninguém.
Seu natural era o ar bem
Posto, em pose para a posteridade;
Cínico, na maior ingenuidade;
Impostor, sem cobrar imposto.
— Seu gosto estava no desgosto.
Ninguém foi mais igual, mais gêmeo
Irmão siamês de si mesmo.
Viu-se a si próprio ao microscópio:
Micróbio de seu próprio ópio.
Viajante de rotas perdidas,
S.O.S. sem salva-vidas...
Muito cheio de si para aturar-se,
Cabeça “alta”, espírito ativo,
Findou, sem saber findar-se,
Ou vivo-morto ou morto-vivo.
Aqui jaz, coração sem cor, desacordado,
Um bem logrado malogrado.
.

Epitaphe

Sauf les amoureux commençans ou finis qui veulent commencer par la fin il y a tant de choses qui finissent par le commencement que le commencement commence à finir par être à la fin la fin en sera que les amoureux et autres finiront par commencer à recommencer par ce commencement qui aura fini par n’être que la fin retournée ce qui commencera par être égal à l’éternité qui n’a ni fin ni commencement et finira par être aussi finalement égal à la rotation de la terre où l’on aura fini par ne distinguer plus où commence la fin d’où finit le commencement ce qui est toute fin de tout commencement égale à tout commencement final de l’infini défini par l’indéfini. — Égale une épitaphe égale une préface et réciproquement.
(Sagesse des Nations)
Il se tua d’ardeur, ou mourut de paresse,
S’il vit, c’est par l´oubli; voici ce qu’il se laisse:
— Son seul regret fut de n’être pas sa maîtresse. —
Il ne naquit par aucun bout,
Fut toujours poussé vent-de-bout,
Et fut un arlequin-ragoût,
Mélange adultère du tout.
Du je-ne-sais-quoi. — mais ne sachant où;
De l’or, — mais avec pas le sou;
Des nerfs, — sans nerf; vigueur sans force;
De l’élan, — avec une entorse;
De l’âme, — et pas de violon;
De l’amour, — mais pire étalon.
— Trop de noms pour avoir un nom. —
Coureur d’idéal, — sans idée;
Rime riche, — et jamais rimée;
Sans avoir été, — revenu;
Se retrouvant partout perdu.
Poète, en dépit de ses vers;
Artiste sans art, — à l’envers;
Philosophe, — à tort à travers.
Un drôle sérieux, — pas drôle.
Acteur: il ne sut pas son rôle;
Peintre: il jouait de la musette;
Et musicien: de la palette.
Une tête! — mais pas de tête;
Trop fou pour savoir être bête;
Prenant pour un trait le mot très.
— Ses vers faux furent ses seuls vrais.
Oiseau rare — et de pacotille;
Très mâle… et quelquefois très fille;
Capable de tout, — bon à rien;
Gâchant bien le mal, mal le bien.
Prodigue comme était l’enfant
Du Testament, — sans testament.
Brave, et souvent, par peur du plat,
Mettant ses deux pieds dans le plat.
Coloriste enragé, — mais blême;
Incompris… — surtout de lui-même;
Il pleura, chanta juste faux;
— Et fut un défaut sans défauts.
Ne fut quelqu’un, ni quelque chose.
Son naturel était la pose.
Pas poseur, — posant pour l’unique;
Trop naïf, étant trop cynique;
Ne croyant à rien, croyant tout.
— Son goût était dans le dégoût.
Trop crû, — parce qu’il fut trop cuit,
Ressemblant à rien moins qu’à lui,
Il s’amusa de son ennui,
Jusqu’à s’en réveiller la nuit.
Flâneur au large, — à la dérive,
Épave qui jamais n’arrive…
Trop Soi pour se pouvoir souffrir,
L’esprit à sec et la tête ivre,
Fini, mais ne sachant finir,
Il mourut en s’attendant vivre
Et vécut, s’attendant mourir.
Ci-gît, — cœur sans cœur, mal planté,
Trop réussi — comme raté.
- Tristan Corbière, no livro "Versos, reverso controverso". [organização e tradução de Augusto de Campos]. São Paulo: Editora Perspectiva, 1988.

§


Infante em seu lençol
(risinho)

O prazer te foi duro, mais fácil é o mal
Deixa-o vir à luz do dia.
À musa funesta já não se faz madrigal;
Vais e o anjo fica — à revelia —

Teu lenço conhece o pus, e teu lençol o fel;
Canta, mas deixa essa mania
De sair à rua estendendo teu chapéu,
Por vinténs de amor ou ironia.

Agora dorme: eis o sono que liberta;
Com tua agonia a Morte brinca esperta,
Como o gato magro e o rato;

Sorrateira, a pata te lança ou te deita.
E o velho paroxismo ainda te deleita:
Torce a boca, escuma... e seja grato.
.

Petit coucher
          (risette)

Le plaisir te fut dur, mais le mal est facile
Laisse-le venir à son jour.
A la Muse camarde on ne fait plus d'idylle;
On s'en va sans l'Ange — à son tour —

Ton drap connaît ta plaie, et ton mouchoir ta bile;
Chante, mais ne fais pas le four
D'aller sur le trottoir quêter dans ta sébile,
Un sou de dégoût ou d'amour.

Tu vas dormir: voici le somme qui délie;
La Mort patiente joue avec ton agonie,
Comme un chat maigre et la souris;

Sa patte de velours te pelotte et te lance.
Le paroxysme encor est une jouissance:
Tords ta bouche, écume... et souris.
- Tristan Corbière, no livro "Os amores amarelos". [introdução, tradução e notas Marcos Antônio Siscar]. São Paulo: Iluminuras, 1996.

§

Natureza morta
Dos cucos o Ângelus soturno
Pôs em sobressalto o noturno
Pêndulo do velho, o cuco,

E o corujão, de sentinela,

Em sua carcaça onde a vela
Incendeia o olho oco.

– Escuta: a coruja emudece…

– Ranger de roda: eis que aparece
O Carro da Morte na estrada…

E a gralha alegre voa junto

Ao teto em luto onde o defunto
Padece a festa antecipada.

                  (Bretanha. – Abril)                                               

.

Nature morte

Des coucous l’Angélus funèbre
A fait sursauter, à ténèbre,
Le coucou, pendule du vieux,

Et le chat-huant, sentinelle,

Dans sa carcasse à la chandelle
Qui flamboie à travers ses yeux.

— Écoute se taire la chouette…

— Un cri de bois : C’est la brouette
De la Mort, le long du chemin…

Et, d’un vol joyeux, la corneille

Fait le tour du toit où l’on veille
Le défunt qui s’en va demain.

                     (Bretagne. – Avril)

- Tristan Corbière, no livro "Os amores amarelos". [introdução, tradução e notas Marcos Antônio Siscar]. São Paulo: Iluminuras, 1996.

§

O cachimbo do poeta
Sou o Cachimbo de um poeta,
Sua ama: que a Besta lhe aquieta.

Quando um sonho cego apanha

A fronte em seu louco trajeto,
Fumego… e ele, no seu teto,
Já não vê as teias de aranha.

…Eu dou-lhe um céu de paisagens:

Nuvens, mar, deserto, miragens;
– Seu olho morto ali se perde…

E quando a névoa se faz pesada

Crê ver uma sombra passada,
– E minha boquilha ele morde…

Outra tormenta desabrida

Solta-lhe alma, corrente e vida!
…Sinto-me que apago. – Ele dorme –
···················
– Dorme, pois dorme a Besta lassa.
Traga do sonho o conteúdo…
Pobre amigo!… a fumaça é tudo.
– Se é certo que tudo é fumaça.

          (Paris. – Janeiro.)

.

La pipe au poète

Je suis la Pipe d’un poète,
Sa nourrice, et : j’endors sa Bête.

Quand ses chimères éborgnées

Viennent se heurter à son front,
Je fume… Et lui, dans son plafond,
Ne peut plus voir les araignées.

…Je lui fais un ciel, des nuages,

La mer, le désert, des mirages;
— Il laisse errer là son œil mort…

Et, quand lourde devient la nue,

Il croit voir une ombre connue,
— Et je sens mon tuyau qu’il mord…

— Un autre tourbillon délie


Son âme, son carcan, sa vie !

… Et je me sens m’éteindre. — Il dort —
···················
— Dors encor: la Bête est calmée,
File ton rêve jusqu’au bout…
Mon Pauvre !… la fumée est tout.
— S’il est vrai que tout est fumée…

               (Paris. — Janvier.)

- Tristan Corbière, no livro "Os amores amarelos". [introdução, tradução e notas Marcos Antônio Siscar]. São Paulo: Iluminuras, 1996.


§

O poeta e a cigarra
         Para Marcela

Um poeta havendo rimado,
PRENSADO
Viu sua musa desprovida
De madrinha e quase despida:
Nem sequer a menor fatia
De verso... ou de verminharia.
E foi lamentar-se, fominha,
Para sua loura vizinha,
Implorando a ela emprestar
Seu breve nome pra rimar
(Seria uma rima com ela). 
– Ó! Eu vos pagarei, Marcela,
Até agosto, fé no animal!
Os juros mais o capital. 
A vizinha, bem prestimosa,
Será seu mais gentil defeito: 
– Então: tudo a vosso preceito?
Vossa musa é muito ditosa...
Dia e noite, a quem vem de fora,
Rimai meu nome... E vos agrade!
E eu estarei bem à vontade.
Vamos, vamos: cantai agora.

.

Le poète et la cigale
               À Marcelle

Un poète ayant rimé,
IMPRIMÉ
Vit sa muse dépourvue
De marraine, et presque nue:
Pas le plus petit morceau
De vers… ou de vermisseau.
Il alla crier famine
Chez une blonde voisine,
La priant de lui prêter
Son petit nom pour rimer
(C’était une rime en elle).
— Oh! je vous paîrai, Marcelle,
Avant l’août, foi d’animal!
Intérêt et principal. —
La voisine est très prêteuse,
C’est son plus joli défaut:
— Quoi: c’est tout ce qu’il vous faut?
Votre Muse est bien heureuse…
Nuit et jour, à tout venant,
Rimez mon nom.... Qu’il vous plaise!
Et moi j’en serai fort aise.
Voyons: chantez maintenant.
- Tristan Corbière, no livro "Poetas franceses do século XIX". [organização e tradução José Lino Grünewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

§

O sapo
Tristan Corbière (caricatura do poeta
pelo próprio) - Frontispício de
'Les Amours jaunes'.
Um canto na noite sem ar…
No seu metal claro o luar
Grava rasgos de verdescuro.

…Um canto: um eco, enterrado

Vivo, ali, naquele fossado…
– Calou-se: olha ali, no escuro…

– Um sapo! – Por que o pavor,

Perto do teu fiel soldado!
Vê, sem asa, um poeta tosquiado,
Rouxinol da lama… – Horror! –

…Ele canta. – Horror!! – Erro teu…

Não vês a luz que o olho irradia?…
Não: já se foi sob a pedra fria.
······································
Boa noite – o sapo sou eu.

                      (Esta noite, 20 de julho.)

.

Le crapaud

Un chant dans une nuit sans air…
— La lune plaque en métal clair
Les découpures du vert sombre.

… Un chant ; comme un écho, tout vif

Enterré, là, sous le massif…
— Ça se tait : Viens, c’est là, dans l’ombre…

— Un crapaud ! — Pourquoi cette peur,

Près de moi, ton soldat fidèle !
Vois-le, poète tondu, sans aile,
Rossignol de la boue… — Horreur ! —

… Il chante. — Horreur !! — Horreur pourquoi ?

Vois-tu pas son œil de lumière…
Non : il s’en va, froid, sous sa pierre.
······································
Bonsoir — ce crapaud-là c’est moi.

                     (Ce soir, 20 Juillet.)

- Tristan Corbière, no livro "Os amores amarelos". [introdução, tradução e notas Marcos Antônio Siscar]. São Paulo: Iluminuras, 1996.

§

Paisagem má
Praias de ossos. A onda estertora
Seus dobres, som a som, na areia.
Palude pálido. O luar devora
Grandes vermes – é a sua ceia.
Torpor de peste: somente a febre
Coze… O duende danado dorme.
A erva que fede vomita a lebre,
Bruxa medrosa que se some.
A lavadeira branca junta os
Trapos surrados dos defuntos,
Ao sol dos lobos… E os sapos. Ei-los,
Anões de vozes melancólicas,
Que envenenam com suas cólicas
Os cogumelos, seus escabelos.

.


Paysage mauvais

Sables de vieux os – Le flot râle
Des glas: crevant bruit sur bruit...
– Palud pâle, où la lune avale
De gros vers, pour passer la nuit.
– Calme de peste, où la fièvre
Cuit... Le follet damné languit.
– Herbe puante où le lièvre
Est un sorcier poltron qui fuit...
– La Lavandière blanche étale
Des trépassés le linge sale,
Au soleil des loups... – Les crapauds.
Petits chantres mélancoliques
Empoisonnent de leurs coliques,
Les champignons, leurs escabeaux.
- Tristan Corbière, no livro "Versos, reverso controverso". [organização e tradução de Augusto de Campos]. São Paulo: Editora Perspectiva, 1988.

§


Pária

Que eles paguem por seus países,
Homens livres! – sob o trabuco –
E povoem ninhos felizes!...
– Eu, porém, sou o magro cuco.
– Coração eunuco, amputado
De tudo o que molhe ou que vibre...
A Liberdade é um hino aguado
Para mim: sempre só. Sempre livre.
– A minha Pátria... é todo o mundo;
E já que o planeta é rotundo,
Não temo ver seu fim qual é...
Pátria é onde o meu ser se planta:
Terra ou mar, está sob a planta
De meus pés – quando estou de pé.
Quando me deito, a pátria amada 
É a cama triste e maltratada 
Onde eu espalmo em minha palma
A metade, como eu sem alma;
Cara metade: é uma dama...
A metade da minha cama.
– Uma idéia oca constrói 
Meu ideal; meta – o imprevisto –
Mas a nostalgia me rói...
Do país por mim nunca visto.
Que os carneiros sigam a rota
De Carcassonne a Finisterra... 
– Minha rota me segue. A idiota
Me seguirá por toda a terra.
Meu pendão sobre mim revoa,
Tendo só o céu por coroa:
É a brisa no meu cabelo...
Não importa a língua a dizê-lo,
Topo qualquer papo furado;
E também sei ficar calado.
Meu pensamento é um sopro frio:
É o ar. O ar que me cerca, mudo.
Minha palavra, o eco vazio
Que não diz nada – e isso é tudo.
O meu passado não me intriga.
A única coisa que me liga
É a minha mão na outra, irmã.
Minha memória – Nada. – Traça.
O meu presente é o que se passa
No futuro – Amanhã... amanhã.
Eu não conheço o meu vizinho;
Eu sou aquilo que eu me creio. 
– O eu humano é tão mesquinho...
Eu não me amo nem me odeio.
– Vamos! a vida é uma garota
Que me convida para um beijo...
Meu desejo é: deixá-la rota,
Prostituí-la sem desejo.
– Os Deuses?... – Por acaso eu vim;
Talvez existam – por acaso...
Eles, decerto, ao cabo e ao fim,
Me encontrarão, se for o caso.
– Minha pátria, quando eu morrer, 
Se abrirá bem para acolher
O pó que a mortalha encerra.
Uma mortalha pra meu pó?
Se a minha pátria é a própria terra
Meu osso vai se dar bem, só.
.

Paria

Qu'ils se payent des républiques, 
Hommes libres! – carcan au cou –
Qu'ils peuplent leurs nids domestiques!... 
– Moi je suis le maigre coucou.
– Moi, – coeur eunuque, dératé 
De ce qui mouille et ce qui vibre... 
Que me chante leur Liberté, 
A moi: toujours seul. Toujours libre.
– Ma Patrie... elle est par le monde; 
Et, puisque la planète est ronde, 
Je ne crains pas d'en voir le bout... 
Ma patrie est où je la plante: 
Terre ou mer, elle est sous la plante 
De mes pieds – quand je suis debout.
– Quand je suis couché: ma patrie 
C'est la couche seule et meurtrie 
Où je vais forcer dans mes bras 
Ma moitié, comme moi sans âme; 
Et ma moitié: c'est une femme... 
Une femme que je n'ai pas.
– L'idéal à moi: c'est un songe 
Creux; mon horizon – l'imprévu –
Et le mal du pays me ronge... 
Du pays que je n'ai pas vu.
Que les moutons suivent leur route, 
De Carcassonne à Tombouctou... 
– Moi, ma route me suit. Sans doute 
Elle me suivra n'importe où.
Mon pavillon sur moi frissonne, 
Il a le ciel pour couronne: 
C'est la brise dans mes cheveux... 
Et dans n'importe quelle langue 
Je puis subir une harangue; 
Je puis me taire si je veux.
Ma pensée est un souffle aride: 
C'est l'air. L'air est à moi partout. 
Et ma parole est l'écho vide 
Qui ne dit rien – et c'est tout.
Mon passé: c'est ce que j'oublie. 
La seule chose qui me lie, 
C'est ma main dans mon autre main. 
Mon souvenir – Rien – C'est ma trace. 
Mon présent, c'est tout ce qui passe 
Mon avenir – Demain... demain.
Je ne connais pas mon semblable; 
Moi, je suis ce que je me fais. 
– Le Moi humain est haïssable... 
– Je ne m'aime ni ne me hais.
– Allons! la vie est une fille 
Qui m'a pris à son bon plaisir... 
Le miens, c'est: la mettre en guenille, 
La prostituer sans désir.
– Des dieux?... – Par hasard j'ai pu naître; 
Peut-être en est-il – par hasard... 
Ceux-là, s'ils veulent me connaître, 
Me trouveront bien quelque part.
– Où que je meure, ma patrie 
S'ouvrira bien, sans qu'on l'en prie, 
Assez grande pour mon linceul... 
Un linceul encor: pour que faire?... 
Puisque ma patrie est en terre 
Mon os ira bien là tout seul...
- Tristan Corbière, no livro "Versos, reverso controverso". [organização e tradução de Augusto de Campos]. São Paulo: Editora Perspectiva, 1988.

§

Paris diurna
Ver grande esfera ao céu, rubro cobre a brilhar,
Caçarola imensa onde Deus faz cozinhar
Restos de refeição, maná, úmido em suor –
Sempre o prato do dia – e úmido de amor.
Os cachorros em círculo aguardam lá ao forno,
Ouve-se ao leve a carne rançosa a soar,
Os bêbados também, canecas a virar;
O mísero tirita esperando seu turno.
Crês assim que o sol frita para todo mundo
Gordas férvidas sobras que o ouro em cheio inunda?
Não, o caldo do cão em nós cai lá do céu.
Eles sob o luzir e nós sob a goteira,
Para nós, desventura sem a lumeeira.
Nossa própria substância é o saco de fel.
.

Paris diurne
Vois aux cieux le grand rond de cuivre rouge luire,
Immense casserole où le bon Dieu fait cuire 
La manne, l'arlequin, l'éternel plat du jour:
C'est trempé de sueur et c'est trempé d'amour.
Les Laridons en cercle attendent près du four, 
On entend vaguement la chair rance bruire, 
Et les soiffards aussi sont là, tendant leur buire; 
Le marmiteux grelotte en attendant son tour.
Crois-tu que le soleil frit donc pour tout le monde 
Ces gras graillons grouillants qu'un torrent d'or inonde? 
Non, le bouillon de chien tombe sur nous du ciel.
Eux sont sous le rayon et nous sous la gouttière.
A nous le pot au noir qui froidit sans lumière.
Notre substance à nous, c'est notre poche à fiel.
- Tristan Corbière, no livro "Poetas franceses do século XIX". [organização e tradução José Lino Grünewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

§

Rapsódia do surdo
À Madame D

O homem de arte lhe diz: – Perfeito. O tratamento 

Já terminou. Você está surdo. Cem por cento. 
Seu ouvido pifou. O caso está encerrado. –
E ele compreende bem, não o tendo escutado.
– Muito obrigado, mas uma vez que fizeram
Desta cabeça um túmulo vazio,
Daqui por diante entenderei tudo o que quero
Com justo orgulho e brio...
Com o olho. – Bem, mas e se o olho se equipara
À ex-orelha? – Não. – Para que se gabar?
...Se eu vaiei muito alto o grotesco na cara, 
Na cara, e baixamente, ele irá me babar.
Eis me, pois, manequim mudo de mim. Se alguém
Pela rua, amanhã, me tomar pela mão,
Dizendo: olá, paspalho... ou mais doce, meu bem,
E eu lhe responderei: – Não há de que, pois não! –
Se algum amigo fala, odeio o entender.
Se algum outro se cala: estaria ofendido?…
Sempre, como um enigma, espero surpreender
Um palavra oblíqua… Não. – Fui esquecido!
– Ou ainda – outra nota – um ser oficioso,
Que parece pastar no maxilar moroso,
Intenta me falar… E eu ponho à minha frente
Um sorriso idiota, o ar inteligente.
– Boné de lã cinzento na alma soterrada,
E – coice de asno, enfim! – uma pobre coitada,
Vendedora ambulante, egressa da Paixão,
Pode vir babujar de santa compaixão
Minha trompa-de-Eustáquio, aos gritos, que eu me calo
Sem ao menos poder lhe pisar sobre um calo!
– Tolo como uma virgem, só como um leproso
Estou lá, mas ausente... E dizem: – É um absurdo
Poeta amordaçado, ouriço auto-espinhoso?
Um sacudir de ombros quer dizer: sou surdo.
–Tântalo acústico ante uma orgia sonora,
Vejo palavras no ar que não posso comer;
Papa-moscas de som que um mosquito devora
Ou cabeça-de-turco a quem quiser bater.
Ó música celeste: escutar sobre a cal
Roçar um caracol! A gilete ou navalha
A raspar numa rolha!... uma área teatral! 
Um osso que se serra! um senhor! uma palha!
– Nada – Eu falo sob mim... E me vejo falá-lo
De araque, sem saber se é hindu isso que eu falo...
Clarineta sem som falhando ao sopro fraco
De um cego gago que se engana de buraco.
– Vai, pêndulo maluco a oscilar meu juízo!
Bate esse bom tantã, um caldeirão rachado
Que à voz de uma mulher faz soar como um guizo,
Um cuco!... e algumas vezes um mosquito alado...
– Vai te deitar, meu coração, fecha a janela.
Dessa lanterna surda apaguemos a vela,
E tudo o que vibrou – não sei mais em que clave – 
Masmorra que se vê fechar com tranca e chave.
– Seja muda pra mim, Estátua contemplada.
E ambos, um ao outro, em doce vice-versa, 
Você não me diz nada, eu não respondo nada…
E nada mais vai perturbar nossa conversa.
O silêncio é de ouro 
                       
                         (São João Crisóstomo)
.

Rapsodie du sourd

À Madame D

L'homme de l'art lui dit: – Fort bien, restons-en là. 

Le traitement est fait: vous êtes sourd. Voilà 
Comme quoi vous avez l'organe bien perdu. –
Et lui comprit trop bien, n'ayant pas entendu.
– "Eh bien, merci Monsieur, vous qui daignez me rendre 
La tête comme un bon cercueil. 
Désormais, à crédit, je pourrai tout entendre 
Avec un légitime orgueil...
À l'oeil – Mais gare à l'oeil jaloux, gardant la place 
De l'oreille au clou!... – Non – À quoi sert de braver? 
... Si j'ai sifflé trop haut le ridicule en face, 
En face, et bassement, il pourra me baver!...
Moi, mannequin muet, à fil banal! – Demain, 
Dans la rue, un ami peut me prendre la main, 
En me disant: vieux pot.... ou rien, en radouci; 
Et je lui répondrai – Pas mal et vous, merci! –
Si l'un me corne un mot, j'enrage de l'entendre; 
Si quelqu'autre se tait: serait-ce par pitié?... 
Toujours, comme un rebus, je travaille à surprendre 
Un mot de travers... – Non – On m'a donc oublié!
– Ou bien – autre guitare – un officieux être 
Dont la lippe me fait le mouvement de paître, 
Croit me parler... Et moi je tire, en me rongeant, 
Un sourire idiot – d'un air intelligent!
– Bonnet de laine grise enfoncé sur mon âme! 
Et – coup de pied de l'âne... Hue! – Une bonne-femme 
Vieille Limonadière, aussi, de la Passion! 
Peut venir saliver sa sainte compassion 
Dans ma trompe-d'Eustache, à pleins cris, à plein cor, 
Sans que je puisse au moins lui marcher sur un cor!
– Bête comme une vierge et fier comme un lépreux, 
Je suis là, mais absent... On dit: Est-ce un gâteux, 
Poète muselé, hérisson à rebours?... – 
Un haussement d'épaule, et ça veut dire: un sourd.
– Hystérique tourment d'un Tantale acoustique! 
Je vois voler des mots que je ne puis happer; 
Gobe-mouche impuissant, mangé par un moustique, 
Tête-de-truc gratis où chacun peut taper.
Ô musique céleste: entendre, sur du plâtre, 
Gratter un coquillage! un rasoir, un couteau 
Grinçant dans un bouchon!... un couplet de théâtre! 
Un os vivant qu'on scie! un monsieur! un rondeau!...
– Rien – Je parle sous moi... Des mots qu'à l'air je jette 
De chic, et sans savoir si je parle en indou... 
Ou peut-être en canard, comme la clarinette 
D'un aveugle bouché qui se trompe de trou.
– Va donc, balancier soûl affolé dans ma tête! 
Bats en branle ce bon tam-tam, chaudron fêlé 
Qui rend la voix de femme ainsi qu'une sonnette, 
Qu'un coucou!... quelquefois: un moucheron ailé...
– Va te coucher, mon cœur! et ne bats plus de l'aile. 
Dans la lanterne sourde étouffons la chandelle, 
Et tout ce qui vibrait là – je ne sais plus où –
Oubliette où l'on vient de tirer le verrou.
– Soyez muette pour moi, contemplative Idole, 
Tous les deux, l'un par l'autre, oubliant la parole, 
Vous ne me direz mot: je ne répondrai rien... 
Et rien ne pourra dédorer l'entretien.
Le silence est d'or 
                 (Saint Jean Chrysostome).
- Tristan Corbière, no livro "Versos, reverso controverso". [organização e tradução de Augusto de Campos]. São Paulo: Editora Perspectiva, 1988.

§


Sob um retrato de Corbière

Tristan Corbière - (caricatura do poeta pelo próprio)
Em cores feito por ele e datado de 1868
Jovem filósofo à deriva 
De volta sem nunca ter estado,
Peito de poeta do mal plantado: 
Por que ainda querem que eu viva?
O Amor? Sonhei-o, O coração de par em par
Como um postigo escancarado
Bate sob o hálito gelado
Dos mais bizarros golpes de ar;
Mergulharias nele? Eu não, se fosse ELA!...
Olha a coriza, coração, fecha a janela.
Eu queria morrer pela mulher amada,
Me abrir de alto a baixo e lhe dar de presente,
Como um conhac, meu coração ainda quente...
Eu cantaria (em falso como de costume)
E iria me deitar, só, sob um falso lume:
Eternidade, morte, vida, sono ou nada.
Ah! se me compreendessem! Se por piedade
Uma mulher me amasse só pela metade.
Eu lhe diria: oh! vem, anjo que me consentes!
············································································
...E a levaria para o asilo de dementes.
Abortaram-me vida! Uma vida, por pouco.
Vocês sabem como é: olhem para esta testa!
Genial? De mau gênio, ou pior, meio louco, 
Mas sem me suportar... Ah, se eu fosse uma besta!
A morte, eu sei, é uma mulher de sexo frígido,
Ávida enquanto há vida; e depois, sem paixão.
Para deitar com ela é preciso estar rígido...
E a morte, enfim, não é; é a própria negação.
Queria ser um ponto a mais, sem deixar traços,
Ponto morto varrido à noite do espaços
...E não o sou. Ponto.
Queria ser o cão de alguma prostituta,
Lamber um grão de amor não pago, de verdade;
Ou deusa canibal lá na África bruta,
Ou louco, mas total, e não pela metade.
.


Sous un portrait de Corbière
En couleurs fait par lui 56et daté de 1868
Jeune philosophe en dérive
Revenu sans avoir été,
Cœur de poète mal planté:
Pourquoi voulez-vous que je vive?
L’amour!... je l’ai rêvé, mon cœur au grand ouvert
Bat comme un volet en pantenne
Habité par la froide haleine
Des plus bizarres courants d’air;
Qui voudrait s’y jeter?... pas moi si j’étais ELLE!...
Va te coucher, mon cœur, et ne bats plus de l’aile.
J’aurais voulu souffrir et mourir d’une femme,
M’ouvrir du haut en bas et lui donner en flamme,
Comme un punch, ce cœur-là, chaud sous le chaud soleil...
Alors je chanterais (faux, comme de coutume)
Et j’irais me coucher seul dans la trouble brume:
Éternité, néant, mort, sommeil, ou réveil.
Ah! si j’étais un peu compris! Si, par pitié
Une femme pouvait me sourire à moitié,
Je lui dirais: oh! viens, ange qui me consoles!...
············································································
... Et je la conduirais à l’hospice des folles.
On m’a manqué ma vie!... une vie à peu près;
Savez-vous ce que c’est: regardez cette tête.
Dépareillé partout, très bon, plus mauvais, très
Fou, mais ne me souffrant... Encor, si j’étais bête!
La mort... ah oui, je sais: cette femme est bien froide,
Coquette dans la vie; après, sans passion
Pour coucher avec elle il faut être trop roide...
Et puis, la mort n’est pas, c’est la négation.
Je voudrais être un point épousseté des masses,
Un point mort balayé dans la nuit des espaces,
...Et je ne le suis point!
Je voudrais être alors chien de femme publique,
Lécher un peu d’amour qui ne soit pas payé;
Ou déesse à tous crins sur la côte d’Afrique,
Ou fou, mais réussi; fou, mais pas à moitié.
- Tristan Corbière, no livro "Versos, reverso controverso". [organização e tradução de Augusto de Campos]. São Paulo: Editora Perspectiva, 1988.


§


Um soneto

Com a respectiva receita
Aprontar o papel e formar bem as letras:
Versos fiados a mão e de um pé uniforme, 
Em fila, pelotão de quatro, lado a lado, 
Ao marcar a cesura um desses quatro dorme,
Soldadinho de chumbo, dorme em pé, entalado.
Sobre a railway do Pindo eis a linha, eis a forma e os 
Quatro fios de telégrafo, logo, obrigado. 
Em cada estaca, a rima – exemplo: clorofórmios. 
– Cada verso é um fio pela rima igualado.
– Telegrama final: 20 palvras medes... 
(Um soneto – é um soneto – ) ó Musa de Arquimedes! 
– A prova do soneto é por uma adição:
– 4 e 4 são 8! Eia, adiante, procede à 
Soma de 3 mais 3! Solta o Pégaso a rédea: 
“Ó lira! Ó delírio! Ó ...” – Soneto – Atenção!
.

Un sonnet

Avec la manière de s’en servir
Réglons notre papier et formons bien nos lettres:
Ver filés à la main et d’un pied uniforme, 
Emboîtant bien le pas, par quatre en peloton; 
Qu’en marquant la césure, un des quatre s`endorme… 
Ça peut dormir debout comme soldats de plomb.
Sur le railway du Pinde est la ligne, la forme; 
Aux fils du tèlèlegraphe: – on en suit qutre, en long; 
A chaque pieu, la rime – example: chloroforme. 
– Chaque vers est um fil, et la rime un jalon.
– Télégramme sacré – 20 mots. – Vite à mon aide... 
(Sonnet – c‘est un sonnet –) ô Muse d’Archimède! 
– La preuve d’un sonnet est par l’addition:
– Je pose 4 et 4 = 8! Alors je procède, 
Em posant 3 et 3! – Tenons Pégase raide: 
“O lyre! O délire! O ...” – Sonnet – Attention!
- Tristan Corbière, no livro "Versos, reverso controverso". [organização e tradução de Augusto de Campos]. São Paulo: Editora Perspectiva, 1988.

§

Você ri
Tristan Corbière
Você ri. – Ora, a dor! – Arruma 
Um grão, Mefisto gozador, 
De absinto! Teu lábio espuma... 
E diz que isto vem do amor.
Faz de ti tua obra póstuma, 
Castra o amor...ora, o amo – torpor! 
Teu pulmão aspira em resposta uma 
Gosma de glória, ó vencedor!
Basta. 
Vai e deixa comigo 
Tua bolsa – última amante –
Teu revólver – último amigo...
Pobre espoleta agonizante! 
...Ou bebe a borra de ser vida 
Sobre a toalha desservida...
.

Tu ris

Tu ris. – Bien! – Fais de l’amertume, 
Prends le pli, Méphisto blangueur, 
De l’absinthe! et ta lèvre ècume... 
Dis que cela vient de ton coeur.
Fais de toi oeuvre posthume, 
Châtre l’amour...l’amour – longueur! 
Ton poumon cicatrisé hume 
Des miasmes de gloire, ô vainqueur!
Assez, n’est-ce-pas? va-t-en! 
Laisse 
To bourse – dernière maîtresse –
Ton revolver – dernier ami...
Drôle de pistolet fini! 
...Ou reste, et bois ton fond de vie, 
Sur une nappe desservie....
- Tristan Corbière, no livro "Versos, reverso controverso". [organização e tradução de Augusto de Campos]. São Paulo: Editora Perspectiva, 1988.
§

FORTUNA CRÍTICA DE TRISTAN CORDIÈRE
Tristan Corbière (1845-1875).
ALMEIDA, Isabel Maria Gonçalves. O Só de António Nobre e Les Amours jaunes de Tristan Corbière: Poéticas da ausência. (Dissertação Mestrado em Estudos Portugueses e Brasileiros). Faculdade de Letras da Universidade do Porto (PT), 2005. Disponível no link. (acessado em 4.6.2016).
BRETON, A.. Tristan Corbière. In: ______. Anthologie de l’humour noir. Paris: J.-J. Pauvert, 1972. 
CAMPOS, Augusto de.. Antipoesia no Simbolismo. In: ______. Verso, reverso e controverso. São Paulo: Perspectiva, 1978. p. 211-255. 
LAFORGUE, Jules. Um estudo sobre Tristan Corbière. [tradução brasileira de Régis Bonvicino]. in: 'Litanias da lua'. São Paulo: Iluminuras, 1989.
MARTINEAU, R.. Tristan Corbière. Paris: Mercure de France, 1904. 
MICHAUD, G.. Message poétique du symbolisme. Paris: Nizet, 1966. 
ROUSSELOT, Jean. Tristan Corbière. Paris, Seghers, Poètes d’aujourd’hui nº 23, 1951.  
SCANDOLARA, Adriano. Tristan Corbière e os seus amores amarelos. in: escamandro, 6.2.2013. Disponível no link. (acessado em 4.6.2016).
SISCAR, Marcos Antonio. Les amours jaunes: os amores amarelos de Tristan Corbiere. (Dissertação Mestrado em Teoria e História da Literatura). Universidade Estadual de Campinas - Unicamp, 1991. Disponível no link. (acessado em 4.6.2016).
SISCAR, Marcos Antonio. A Pele de Asno de Tristan Corbière. Inimigo Rumor, Rio de Janeiro - RJ, v. 2, p. 80-103, 1997.
SISCAR, Marcos Antonio. Desencorajoso / Pobre Rapaz / Paris Noturna, de Tristan Corbière (poemas - tradução). Revista "Caras", 1996.
SISCAR, Marcos Antonio. Paisagem Má, de Tristan Corbière (poema - tradução). São Paulo: Folha de São Paulo, 1996.
SISCARMarcos Antônio. O princípio como fim. In : CORBIÈRE, Tristan. Os amores amarelos. [trad. Marcos Antônio Siscar]. São Paulo: Iluminuras, 1996. pp. 9-43.
SONNENFELD, Albert. L’Oeuvre Poétique de Tristan Corbière. Paris: Presses Universitaires de France, 1960. 
VERLAINE, Paul. Les Poètes Maudits. (Texto integral organizado por Jacques Lemaire). poetes.com. Disponível no link. (acessado em 4.6.2016).
WILSON, Edmund. “T. S. Eliot”, Castelo de Axel. [tradução de Jose Paulo Paes]. São Paulo, Companhia das Letras, 2004.
YOSHIMOTO, Lilian Yuri. Tristan Corbière: o sujeito poético e a busca por uma identidade. (Dissertação Mestrado em Estudos Literários). UNESP/Araraquara, 2012. Disponível no link. (acessado em 28.5.2012).
YOSHIMOTO, Lilian Yuri. O Simbolismo maldito de Tristan Corbière. Revista do SELL, v. 3, p. 399-425, 2011.
YOSHIMOTO, Lilian YuriO sono como processo criativo em Les amours jaunes de Tristan Corbière. In: III Colóquio da Pós-Graduação em Letras, 2011, Assis. Literatura e vida social, 2011.
YOSHIMOTO, Lilian Yuri. Tristan Corbière: um simbolista ou um moderno?. In: X SEL - Seminário de Estudos Literários, 2010, Assis. Releituras do cânone, 2010. Disponível no link. (acessado em 4.6.2016).
YOSHIMOTO, Lilian Yuri; SILVA, Silvana Vieira da.. Tristan Corbière: o sujeito poético e a busca da identidade. In: XI Seminário de Pesquisa/V Simpósio de Literatura "Questões literárias contemporâneas (1980-2010)", 2010, Araraquara, 2010.
YOSHIMOTO, Lilian YuriSILVA, Silvana Vieira da.. Tristan Corbière e a imagética do interstício. Lettres Françaises, Unesp. Disponível no link. (acessado em 4.6.2016).

Tristan Corbière Aimé Vacher et Ludovic Alexandre
 Morl aix Croissant vers 1870




Tristan Corbière, par Antoon Derkinderen
© Obra de Tristan Corbière é de domínio público

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske em colaboração com José Alexandre da Silva

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Trabalhos sobre o autor:
Caso, você tenha algum trabalho não citado e queira que ele seja incluído - exemplo: livro, tese, dissertação, ensaio, artigo - envie os dados para o nosso "e-mail de contato", para que possamos incluir as referências do seu trabalho nesta pagina. 

Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten. (pesquisa, seleção e organização). Tristan Corbière - um poeta maldito. Templo Cultural Delfos, junho/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
____** Página atualizada em 17.7.2016.



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