Giuseppe Ungaretti - poeta italiano

Giuseppe Ungaretti - foto (...)
Giuseppe Ungaretti poeta italiano nascido em Alexandria, Egito, cujas inovações formais e temáticas introduzidas em sua poesia deram origem ao movimento conhecido como hermetismo e marcaram a renovação da poesia italiana. Filho de pais italianos da Toscana emigrados, seu pai, que trabalhava na construção do canal de Suez, morreu quando ele tinha 2 anos e foi criado pela mãe, que sustentou a família trabalhando em uma padaria. Cresceu e foi educado no Egito até que se transferiu para Paris (1912), a fim de estudar na Sorbonne, onde entrou em contato com escritores e artistas plásticos de vanguarda, entre os quais Guillaume Apollinaire, Pablo Picasso, Giorgio de Chirico, Georges Braque e Amedeo Modigliani, e sofreu a influência do simbolismo francês, sobretudo de Mallarmé. Foi para a Itália (1914) e no ano seguinte é convocado para lutar na Primeira Guerra Mundial. Durante a primeira guerra mundial, servindo no exército italiano escreveu seus dois primeiros livros de poemas, Il porto sepolto (1916), tratando de suas experiências nas trincheiras, e Allegria di naufragi (1919), onde rompeu com a tradição ao rejeitar a rima e a pontuação, além de procurar tirar das palavras todo ornamento. No pós-guerra, aderiu ao fascismo (1921) de Mussolini que chegou a assinar a apresentação de um de seus livros de poesia. Mudou-se para o Brasil (1936) para ser professor de literatura na Universidade de São Paulo (1936), onde permaneceu por seis anos consecutivos. De volta à Itália (1942) continuou suas atividades de catedrático de literatura italiana na Universidade de Roma (1942-1957) e morreu em Milão. Influenciado inicialmente pelo simbolismo francês, sobretudo por Baudelaire e Mallarmé, incorporou os procedimentos da vanguarda futurista, tornando-se um dos principais nomes da poesia moderna. No Brasil, foi traduzido por Haroldo de Campos e Aurora Bernardini, onde foram publicados livros como Alegria do Naufrágio (1919), A Alegria (1931), Sentimento do Tempo (1933) e A Dor (1947). Outras obras importantes foram Il dolore (1947), Traduzioni (2 v., 1946-1950), Un grido e paesaggi (1952) e Morte delle stagioni (1967).
:: Fonte: DEC.UFCG/EduBR. (acessado em 3.3.2016).



Ungaretti, por Mino Maccari
OBRA DE UNGARETTI PUBLICADA NO BRASIL
:: A alegria (L'allegria). Giuseppe Ungaretti. [tradução Sérgio Wax]. Belém: CEJUP, 1992.
:: Razões de uma poesia. Giuseppe Ungaretti. [organizacäo de Liicia Wataghin]. São Paulo: Edusp; Imaginário, 1994.
:: Giuseppe Ungaretti: vida de um homem (escolha poética).. [tradução Luís Pignatelli]. Coleção Cão Vagabundo 14, edição bilíngue. São Paulo: Editora Hiena, 1985, 72p.
:: Invenção da poesia moderna: lições de literatura no Brasil, 1937-1942. Giuseppe Ungaretti. [tradução de Antônio Lázaro de Almeida Prado]. São Paulo: Ática, 1996.
:: Ungaretti: daquela estrela à outra. [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.
:: A alegria (L'allegria). Giuseppe Ungaretti. [tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Editora Record, 2003.


Antologia (participação)

:: Poesia alheia: 124 poemas traduzidos. [tradução e organização Nelson Ascher]. Rio de Janeiro: Imago Edições, 1998.

Giuseppe Ungaretti - foto (...)

BREVE ANTOLOGIA POÉTICA DE UNGARETTI
A alegria        L`allegria 
1914-1919

Eterno
Entre uma flor colhida e o dom de outra
o nada inexprimível


Eterno
Tra un fiore colto e l’altro donato
l’inesprimibile nulla
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos). em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.


§

Tédio
Também esta noite passará

Esta solidão em torno
sombra titubeante de fios viários
sobre o úmido asfalto

Olho como os cocheiros
a meio-sono
cabeceiam


Noia

Anche questa notte passerà

Questa solitudine in giro
titubante ombra dei fili tranviari
sull’umido asfalto

Guardo le teste dei brumisti
nel mezzo sonno
tentennare
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.


§

Tapete
Cada cor se expande e demora
nas outras

Para ficar mais só basta mirá-lo


Tappeto
Ogni colore si espande e si adagia
negli altri colori

Per essere più solo se lo guardi
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.


§

Giuseppe Ungaretti, por Serena Maff
Nasce talvez
É a névoa que nos cancela

Nasce talvez um rio no alto

Escuto agora o canto das sereias
do lago onde a cidade fora


Nasce forse
C'è la nebbia che ci cancella

Nasce forse un fiume quassù

Ascolto il canto delle sirene
del lago dov'era la città

- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Recordação africana
O sol rapta a cidade

Nada mais se vê

Nem mesmo os túmulos resistem muito


Ricordo d’affrica
Il sole rapisce la città

Non si vede più

Neanche le tombe resistono molto

- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Noite de maio
O céu põe sobre
os minaretes
guirlandas de luzes


Notte di maggio
Il cielo pone in capo
ai minareti
ghirlande di lumini

- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Na galeria
Um olho de estrela
nos espia daquele tanque
e filtra sua bênção gelada
sobre este aquário
de tédio sonámbulo


In galleria
Un occhio di stelle
ci spia da quello stagno
e filtra la sua benedizione ghiacciata
su quest’acquario
di sonnambula noia

- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

O porto sepulto
 
         Mariano, 29 de julho de 1916
 

Eis que chega o poeta
e volta depois para a luz com os seus cantos
e os despende

Desta poesia
me resta
aquele nada
de inexaurível segredo


Il porto sepolto
             Mariano il 19 giugno 1916

Vi arriva il poeta
e poi torna alla luce con i suoi canti
e li disperde

Di questa poesia
mi resta
quel nulla
d’inesauribile segreto 

- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Sol-pôr
       Versa, 20 de maio de 1916

O encarnado do céu
desperta oásis
para o nômade de amor


Tramonto
       Versa il 20 maggio 1916

Il carnato del cielo
sveglia oasi
al nomade d’amori

- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Esta noite
Balaustrada de brisa
para apoiar noite adentro
a minha melancolia


Stasera
        Versa il 22 maggio 1916

Balaustrata di brezza
per appogiare stasera
la mia malinconia

- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Danação
Recluso entre coisas mortais

(Mesmo o céu estrelado findará)

Ardo por Deus por quê?


Dannazione

        Mariano il 29 giugno 1916

Chiuso fra cose mortali

(Anche il cielo stellato finirà)

Perchè bramo Dio?

- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Destino
Voltados para a fadiga
feito qualquer
fibra criada
nós por que nos lamentamos?


Destino
          Mariano il 14 luglio 1916

Volti al travaglio
come una qualsiasi
fibra creata
perchè ci lamentiamo noi?

- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Ungaretti, por Paola Imposimato.
Fraternidade
De que regimento,
irmãos?

Palavra que treme
na noite

Folha neonata

No ar de espasmo
involuntária revolta
do homem presente à sua
fragilidade

Fraternidade


Fratelli
      Mariano il 15 luglio 1916

Di che reggimento siete
fratelli?

Parola tremante
nella notte

Foglia appena nata

Nell’aria spasimante
involontaria rivolta
dell’uomo presente alla sua
fragilità

Fratelli

- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Sou uma criatura
Como esta pedra
de São Miguel
tão fria
tão dura
tão ressecada
tão refratária
tão totalmente
exânime

Como esta pedra
é o meu pranto
que não se vê

A morte
desconta-se
vivendo


Sono una Creatura
         Valloncello di Cima Quattro il 5 agosto 1916

Come questa pietra
del S. Michele
così fredda
così dura
così prosciugata
così refrataria
così totalmente
disanimata

Come questra pietra
è il mio pianto
che non si vede

La morte
si sconta
vivendo
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Universo
Do mar
me fiz talhar
um ataúde:
puro frescor


Universo
        Devetachi il 24 agosto 1916

Col mare
mi son fatto
una bara

di freschezza
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Atrito
Com minha fome de lobo
amaino
meu corpo de cordeiro

Sou como
a barca ínfima
e o libidinoso oceano


Attrito
       Locvizza il 23 settembre 1916 

Con la mia fame di lupo
ammaino
il mio corpo di pecorella

Sono come
la misera barca
e come l’oceano libidinoso
- Giuseppe Ungaretti, em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Alegria do náufrago
E pronto retoma
a viagem
como
após-naufrágio
um sobrevivo
lobo do mar


Allegria di naufragi
       Versa il 14 febbrario 1917

E subito riprende
il viaggio
como
dopo il naufragio
un superstite

lupo di mare
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Manhã
Deslumbro-me 
de imenso


Mattina
Santa Maria La Longa il 26 gennaio 1917 

M'illumino 
d'immenso 
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Longe
Longe para longe
feito um cego
que vai pela mão não sabe aonde


Lontano
           Versa il 15 febbrario 1917

Lontano lontano
come un cieco
m’hanno portato per mano
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§
Ritratto di Giuseppe Ungaretti

Junho 
Quando 
me morresse 
esta noite 
e feito um outro 
pudesse olhá-la 
e adormecer-me 
ao rugitar 
das ondas 
afinal
enoveladas 
à cerca de acácias 
de minha casa 

Quando me despertar 
no teu corpo 
que se modula 
feito voz de rouxinol 

Se extenua 
como a cor 
reluzente
do grão maduro 

Na transparência 
da água 
o ouro velino 
da tua pele 
se brunirá de mouro

Librada 
pelos ladrilhos 
estrídulos 
do ar serás 
como pantera 

Ao talho
móvel 
da sombra 
te esfolharás 

Rugindo 
emudecida na 
poeira 
me sufocarás 

Depois 
entreabrirás as pálpebras 

Veremos nosso amor reclinar-se 
feito o entardecer

Depois verei 
sereno 
no horizonte de betume 
de tuas íris morrerem-me 
as pupilas

Agora 
o ar sereno se clausura 
assim como 
na minha terra da Africa 
os jasmins 

Perdi о sono 

Oscilo 
num canto da rua 
qual lucíola

Me Morrerá
esta noite?


Giugno
     Campolongo il 5 luglio 1917

Quando 
mi morirà 
questa notte 
e come un altro 
potrò guardarla 
e mi addormenterò 
al fruscio 
delle onde 
che finiscono 
di avvoltolarsi 
alla cinta di gaggie 
della mia casa 

Quando mi risveglierò 
nel tuo corpo 
che si modula 
come la voce dell'usignolo 

Si estenua 
come il colore 
rilucente 
del grano maturo 

Nella trasparenza 
dell'acqua 
l'oro velino 
della tua pelle 
si brinerà di moro 

Librata 
dalle lastre 
squillanti 
dell'aria sarai 
come una 
pantera 

Ai tagli 
mobili 
dell'ombra 
ti sfoglierai 

Ruggendo 
muta in 
quella polvere 
mi soffocherai 

Poi 
socchiuderai le palpebre 

Vedremo il nostro amore reclinarsi 
come sera 

Poi vedrò 
rasserenato 
nell'orizzonte di bitume 
delle tue iridi morirmi 
le pupille 

Ora 
il sereno è chiuso 
come 
a quest'ora 
nel mio paese d'Affrica 
i gelsumini 

Ho perso il sonno 

Oscillo 
al canto d'una strada 
come una lucciola 

Mi morirà 
questa notte?
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Rosas em chamas
Sobre um oceano
que tilinta
repentina
voga uma outra manhã


Rose in fiamme
           Vallone  il 17 agosto 1917

Su un oceano
di scampanelli
repentina
galleggia un'altra mattina
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Soldados
Se está como 
no outono 
sobre árvores 
folhas


Soldati
Bosco di Courton Iuglio 1918

Si sta come 
d'autunno
sugli alberi

le foglie
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.



Sentimento do Tempo     Sentimento del Tempo    


1919-1935

Uma pomba
De outros dilúvios uma pomba escuto.


Una colomba
         1925

D’altri diluvi una colomba ascolto.
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Duas notas
Anela relvas um arroio

Um lago torvo o céu glauco ofende.


Due note
       1927

Inanella erbe un rivolo,


Un lago torvo il cielo glauco offende.
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Juno
Redonda ao ponto de me dar tormento
A tua coxa destaca de sobre a outra...

Dilate essa tua fúria uma acre noite!


Giunone 
       1931

Tonda quel tanto che mi dà tormento, 
La tua coscia distacca di sull'altra... 

Dilati la tua furia un'acre notte!
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

A MORTE MEDITADA 

Canto primeiro
Ó irmã da sombra 
Noturna quanto mais a luz tem força 
Me persegues, morte.

Num jardim puro 
A luz te deu o ingênuo ardor 
E a paz perdeu-se, 
Pensosa morte, 
Sobre tua boca. 

Desde esse instante 
Te ouço no fluir da mente 
Aprofundar lonjuras 
Émula sofrente do eterno 

Mãe venenosa dos evos 
No pavor do palpitar 
E da solidão 

Beleza punida e risonha

No apaziguar-se da carne 
Sonhadora evasiva 

Atleta sem sono 
Da nossa grandeza

Quando me houveres domado, dize-me: 

Na melancolia dois vivos
Voará longamente minha sombra?


Canto segundo
Escava as íntimas vidas
Da nossa infeliz máscara
(Clausura de infinito)
Com blandícia fanática
A fusca vigília dos pais.

Morte, palavra muda,
Areia deposta como um leito
Pelo Sangue
Te ouço cantar como uma cigarra
Na rosa enlutada dos reflexos.


Canto terceiro 
Incide sobre as rugas secretas 
Da nossa máscara infeliz 
A mofa infinita dos pais. 

Tu, na luz profunda,
Ó Confuso silêncio,
Insiste como as cigarras irosas.


Canto quarto
Tomaram-me pela mão nuvens. 

Queimo sobre colinas tempo e espaço 
Como um teu mensageiro, 
Como um sonho, divina morte.


Canto quinto 
Fechaste os olhos. 

Nasce uma noite 
Plena de furos fictícios, 
De sons mortos 
Feito cortiças 
De redes caídas n`água.

Tuas mãos se fazem como um sopro 
De invioláveis lonjuras,
Inaferráveis com idéias,

E o equívoco da lua
E o balançar, dulcíssimos,
Se as queres pousar-me sobre os olhos
Tocam a alma

És a mulher que passa
Feito uma folha

E deixa nas árvores um fogo de outono.


Canto sexto
Ó bela presa, 
Voz noturna, 
Tuas movências 
Fomentam a febre. 

Só tu, memória demente, 
A liberdade podes capturar.

Sobre tua carne inaferrável, 
E vacilante dentro de espelhos túrbidos, 
Quais delitos, sonho, 
Não me ensinaste a consumar?

Com vós, fantasmas, não tenho mais detença, 

E de vossos remorsos meu coração replena 
Quando se faz dia.


LA MORTE MEDITATA 

Canto primo
       1932

O sorella dell'ombra,
Notturna quanto più la luce ha forza,
M'insegui, morte.

In un giardino puro
Alla luce ti diè l'ingenua brama
e la pace fu persa,
Pensosa morte,
Sulla tua bocca.

Da quel momento
Ti odo nel fliure della mente
Approfondire lontananze,
Emula sofferente dell'eterno.

Madre velenosa degli evi
Nella paura del palpito
E della solitudine,

Bellezza punita e ridente,

Nell'assopirsi della carne
Sognatrice fuggente,

Atleta senza sonno
Della nostra grandezza,

Quando m'avrai domato, dimmi:

Nella malinconia dei vivi
Volerà a lungo la mia ombra?


Canto secondo
          1932

Scava le intime vite
Della nostra infelice maschera
(Clausura d’infinito)
Com blandizia fanatica
La buia veglia dei padri

Morte, muta parola,
Sabbia deposta come um letto
Dal sangue,
Ti odo cantare come uma cicala
Nella rosa abbrunata dei riflessi.


Canto terzo
      1932

Incide le rughe segrete
della nostra infelice maschera
la beffa infinita dei padri.

Tu, nella luce fonda,
o confuso silenzio,
insisti come le cicale irose.


Canto quarto
         1932

Mi presero per mano nuvole.

Brucio sul colle spazio e tempo,
Come un tuo messaggero,
Come il sogno, divina morte.


Canto quinto
     1932

Hai chiuso gli occhi.

Nasce una notte
Piena di finte buche,
Di suoni morti
Come di sugheri
Di reti calate nell'acqua.

Le tue mani si fanno come un soffio
D'inviolabili lontananze,
Inafferrabili come le idee,

E l'equivoco della luna
E il dondolio, dolcissimi,
Se vuoi posarmele sugli occhi,
Toccano l'anima.

Sei la donna che passa
Come una foglia

E lasci agli alberi un fuoco d'autunno.


Canto sesto
         1932

O bella preda,
Voce notturna,
Le tue movenze
Fomentano la febbre.

Solo tu, memoria demente,
La libertà potevi catturare.

Sulla tua carne inafferrabile
E vacillante dentro specchi torbidi,
Quali delitti, sogno,
Non m'insegnasti a consumare?

Con voi fantasmi, non ho mai riteggno,

E dei vostri rimorsi ho pieno il cuore

Quando fa giorno
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.



O caderno do velho     Il taccuino del vecchio

1919-1935

ÚLTIMOS COROS PARA A TERRA PROMETIDA

14
Símil à luz crescente,
Ou, no zênite, o amor,

Se por um só momento
Ela do Sul declina,
Já se sabe que é morte.


15
Se é volúpia que os cinge
À busca exasperando-se do claro
Em nuvem ele a vê
Que insaciável talha
Ao encavalar-se de tufões, freios.


16
Daquela estrela à outra
A noite se encarcera
Em turbinosa vazia desmesura.

Daquela solidão de estrela
Àquela solidão de estrela.


17
Invisto reluzir de ofuscados
Espaços onde imemorável
Vida passam astros
Insanos do gravame solidão.


24
Grifos azuis de milhafre me aferrem 
E no pino do sol 
Me deixem sobre a areia 
Cair, pasto de corvos.

Às espáduas não mais sofrer o lastro 
Da lama, polido pelo fogo, 
Por bicos rapinantes, 
Pelas azedas presas dos chacais.

Depois o beduíno há de mostrar 
Dessepulta, na areia, 
Tacteando com o bastão, 
Uma ossada branquíssima. 


25
Sem lua em Siracusa desabava 
A noite e a agua plúmbea 
E tarda no seu fosso ressurgia. 

Andávamos sozinhos por ruinas,

Dos confins moveu-se um cordeiro.


27
O amor já não é como tormenta 
Que no ofuscar noturno 
Ainda acorrentava-me até pouco 
Entre insônia e insânia

Vagalumear de um farol
Para o qual vai tranqüilo
O velho capitão.


ULTIMO CORI PER LA TERRA PROMESSA
                        Roma, 1952-1960

14
Somiglia a luce in crescita,
Od al colmo, l’amore.

Se solo d’un momento
Essa dal Sud si parte,
Già puoi chiamarla morte.


15
Se voluttà li cinge,
In cerca disperandosi di chiaro
Egli in nube la vede
Che insaziabile taglia
A accavallarsi d'uragani,. freni.


16
Da quella stella all’altra
Si carcera la notte
In turbinante vuota dismisura,

Da quella solitudine di stella
A quella solitudine di stella.


17
Rilucere inveduto d'abbagliati
Spazi ove immemorabile
Vita passano gli astri
Dal peso pazzi della solitudine.


24
Mi afferri nelle grinfie azzurre il nibbio
E, all'apice del sole,
Mi lasci sulla sabbia
Cadere in pasto ai corvi.

Non porterò piu sulle spalle il fango,
Mondo mi avranno il fuoco,
I rostri crocidanti
L'azzannare afroroso di sciacalli.

Poi mostrerà il beduino,
Dalla sabbia scoprendolo
Frugando col bastone,
Un ossame bianchissimo.


25
Calava a Siracusa senza luna
La notte e l'acqua plumbea
E ferma nel suo fosso riappariva,

Soli andavamo dentro la rovina,

Un cordaro si mosse dal remoto.


27
L’amore più non è quella tempesta
Che nel notturno abbaglio
Ancora mi avvinceva poco fa
Tra l’insonnia e le smanie,

Balugina da un faro
Verso cui va tranquillo

Il vecchio capitano.
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.



Últimos dias         Derniers jours 

1919

Perfeição do negro
            a André Breton
             Pelo Mont de Pieté *

ecos  
                    ruídos
           nos chegam
às vezes
                                 estamos tão longe
                                                         de tudo


Perfections du noir
             à André Breton 
             pour le Mont de Piété

des échos
             de bruits
      nous arrivent
parfois
                            nous sommes si loin
                                                        de tout
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

(*) Trata-se da primeira coletânea de poemas de Breton, publicada em 1919.

§

pombos passeiam
                                     confiantes
       sobre o piso
                       que a lua estende

sobre tuas mãos
                    que perturbam
       antílopes apoiaram seus rins
                                                       e voam

só resta uma nuvem
                                que se desata

                                                               o céu árido
                                                                      como aço

des pigeons se promènent
                                    confiants
      sur le pavé
                      que la lune étend

sur tes mains
                   qui troublent
      des antilopes ont appuyé leurs reins
                                                      et s’envolent

il ne reste qu’un nuage
                               qui se délie

                                                              le ciel se fait aride
                                                                     comme l’acier
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

casas surgem
                                       e vogam
                   perderam-se de vista
     ninguém lhes sabe o itinerário 


o alabastro dos  minaretes                                       seus corpos escorriam
         deixa ao ar                                                                                              como um óleo
                    um arrulho                                                                            deixam suas formas
                                     de jasmins                                                               a tumba de vidro


um rebanho                                                                                           com meus dentes
                   de homens                                                                                          dilacerei
           desembarcado                                                                                       tuas artérias
         ressona
                          entre outros fardos  
         um forte odor                                                      nós bebemos tanto
                                          de cordas                                  rimos tanto


há alguém estendido
      num divã                                                                 o céu se cobria
            de ar damasquinado                                                        de corvos


sobre um corno da lua
                                                          um corvo                                               no ar recantos
                                                     empoleirado                                                       de grama


                apenas o efeito                                                                                      fresca
                   duma ponta
                            de nuvem


                                           e o deserto suando
                                                    como bronze


des maisons surgissent
                                          et voguent
                     on les a perdues de vue
                   aucun ne sait l’itinéraire


l’albâtre des minarets                                                     leurs corps s’écoulaient                                                              
        laisse à l’air                                                                                         comme une huile
                un roucoulement                                                                 ils laissent leur formes
                                           de jasmins                                                à des caveaux de verre


un troupeau                                                                                                 avec mes dents
                  d’hommes                                                                                         j’ai déchiré
            débarqué                                                                                             tes artères
         ronfle
                             parmi d’autres colis
         une forte odeur                                                  nous avons tant bu
                                          de cordages                                 et tant ri


quelqu’un est étendu                                               le ciel se couvrait
      dans un fauteuil                                                                de corbeaux
            d’air damasquiné


sur une corne de la lune
                                           un corbeau                                                       l’air a des coins
                                                 perché                                                                   de gazon


                             ce n’est que l’effet                                                               frais
                                           d’un bout
                                            de nuage



                                                                          et le désert sonnait
                                                                               comme l’airain
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

nada resta
              de imóvel
     senão renques de luzes
                                      no fundo do abismo
      e assobios
                     que retornam


il ne reste
              d’immobile
    que des rangées de lumières
                                           au fond du gouffre
          et des sifflements
                                   qui reviennent
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

sem morada
     sem família
         sem família
             sem amores
                 sem amigos
                     sem lembranças
                         sem esperança
o que vem fazer aqui


sans maison
    sans famille
        sans famille
            sans amours
                sans amis
                    sans souvenirs
                        sans espoir
que vient-il faire ici
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

nu
      como a noite
       como uma pedra
                    no leito de um rio
  polida
como uma pedra                                                       onde fui eu tombar
              de vulcão
         roída


alguém a colheu
           em sua funda                                                                 põe de lado
                                                                                                  este objeto
                                                                                                        perdido


il est nu
         comme la nuit
         comme une pierre
               au lit d’un fleuve
      polie
   comme une pierre                                                  où suis?je tombé
                            de volcan

              rongée
quelqu’un l’a cuellie
                         dans sa fronde                                  mettez donc de côté
                                                                                                    cet objet
                                                                                                         perdu
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§


Ah quisera me extinguir
como um revérbero
à primeira luz
da manhã


Ah je voudrais m’éteindre
comme un réverbère
à la première lueur

du matin
- Giuseppe Ungaretti (tradução Haroldo de Campos), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

A dor          Il dolore 
1937-1946

Tudo perdi             Tutto ho perduto 
1937
Ungaretti, per Lucera
Tudo perdi
Tudo perdi da infância
E não mais poderei 
Deslembrar-me num grito.

A infância está enterrada
No fim das madrugadas
E agora, invisível espada,
Separa me de tudo.

De mim lembro que exultava te amando,
E eis me perdido
No infinito das noites.

Desespero que incessante aumenta
A vida mais não é,
Detida no fundo da garganta,
Que uma rocha de gritos.


Tutto ho perduto
Tutto ho perduto dell'infanzia
E non potrò mai più
Smemorarmi in un grido.

L'infanzia ho sotterrato
Nel fondo delle notti
E ora, spada invisibile,
Mi separa da tutto.

Di me rammento che esultavo amandoti,
Ed eccomi perduto
In infinito delle notti.

Disperazione che incessante aumenta
La vita non mi è più,
Arrestata in fondo alla gola,

Che una roccia di gridi.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Se tu meu irmão
Se tu voltasses a me encontrar vivente,
E a mão estendida,
Ainda poderia,
Num repente do oblívio, reapertar-te
A mão, meu mano.

Mas de ti, de ti, mais não me circundam
Que sonhos, vislumbres,
Os fogos sem fogo do passado.

A memória só desenrola imagens
E eu para mim mesmo 
Já nada mais sou 
Que o aniquilante nada do pensar.


Se tu mio fratello
Se tu mi rivenissi incontro vivo,
con la mano tesa,
ancora potrei,
di nuovo in uno slancio d'oblio, stringere,
fratello, una mano.

Ma di te, di te più non mi circondano
che sogni, barlumi,
i fuochi senza fuoco del passato.

La memoria non svolge che le immagini
e a me stesso, io stesso
non sono già più

che l'annientante nulla del pensiero.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§


Dia após dia               Giorno per giorno

1940-1946

Dia após dia 


"Ninguém, minha mãe, sofreu tanto assim...' 
E o rosto já sumido 
Mas vivo ainda o olhar 
Do travesseiro volvia à janela
E pássaros enchiam o dormitório 
À cata das migalhas que o pai punha
para entreter o filho...


2
Ora só em sonho poderei beijar 
As mãos que confiavam... 
E converso, trabalho, 
Estou apenas mudado, temo, fumo... 
Como se dá que agüente tanta noite?...


3
Hão de trazer-me os anos 
Quem sabe quais horrores, 
Mas sentia-te ao meu lado, 
De ti traria consolo...


4
Já nunca sabereis como ilumina 
A sombra que vem pôr-se ao lado, tímida 
Quando não mais espero...


5
Ora onde está, onde está a voz ingênua 
Que ecoando ao correr pelo aposento 
Aliviava a aflição do homem cansado?...
A terra já a desfez, protege-a 
Um passado de fábula,.. 



Toda voz outra é um eco que se apaga
Agora que uma chama-me
Dos cumes imortais...



No céu procuro teu rosto feliz, 
E meus olhos em mim nada mais vejam 
Quando aprouver a Deus também fechá-los...


8
E amo-te, amo-te, e é um destroçar contínuo!...


9
Enfurecida terra, imane mar 
Separa-me do lugar do túmulo 
Onde ora se dispersa 
O atormentado corpo...
Não conta... Ouço cada vez mais distinta 
Aquela voz de alma 
Que na terra eu não soube defender... 
Ilha-me, amiga sempre mais festiva
Minuto após minuto,
Em seu segredo simples...


10
Voltei aos morros, aos amados pinhos 
E do ritmo do ar o pátrio acento 
Que contigo não ouço,
Quebra-me a cada sopro...


11
Passa a andorinha e com ela о verão, 
E eu também, me digo, passarei... 
Mas que reste do amor que me atormenta
Não só sinal, um breve embaciamento,
Se do inferno consigo me aquietar...


12
Do machado, o desenganado ramo 
Ao cair, mal se lamenta, menos 
Do que a folha ao leve toque da brisa...
E foi a fúria que abateu a tenra 
Forma e a prestimosa 
Caridade de uma voz me consome... 


13 
Não mais furores traz a mim o estio, 
Nem primavera os seus pressentimentos; 
Podes morrer, outono, 
Com tuas estultas glórias: 
Por um desejo esquálido, o inverno 
Abre das estações a mais clemente!...


14
Já desceu nos meus ossos 
A secura do outono, 
Mas, pela sombra alongado, 
Sobrevém infinito 
Um demente fulgor:
A tortura secreta do abismado
Crepúsculo...


15
Reevocarei sempre sem remorso 
Uma encantada agonia dos sentidos? 
Escuta, cego: "Uma alma partiu
Do castigo comum ainda incólume...”

Vai me abater menos não mais ouvir 
Os gritos vivos de sua pureza 
Do que sentir em mim quase apagado 
O assustador estremecer da culpa?


16
Dos laivos que retinem das vidraças 
Entalha um reflexo na toalha a sombra, 
Voltam ao lustro lábil de uma talha 
Hortências fofas do canteiro, um ébrio andorinhão, 
O arranha-céu em labaredas de nuvens,
Na árvore, um menino a saltitar...

Inesgotável estampido de ondas 
Dá-se que chegue então no cômodo 
E, à inquieta firmeza de uma linha 
Azul, cada parede desvanece...


17
É doce e quiçá aqui por perto passes 
Dizendo: "Este sol e tanto espaço te 
Acalmem. No puro vento ouvir podes 
O tempo caminhar e minha voz. 
Em mim juntei aos poucos e encerrei
O ímpeto mudo da tua esperança
Sou para ti a aurora e o intacto dia”.


Giorno per giorno

1
“Nessuno, mamma, ha mai sofferto tanto..."
E il volto già scomparso
Ma gli occhi ancora vivi
Dal guanciale volgeva alla finestra,
E riempivano passeri la stanza
Verso le briciole dal babbo sparse
Per distrarre il suo bimbo...


2
Ora potrò baciare solo in sogno
Le fiduciose mani...
E discorro, lavoro,
Sono appena mutato, temo, fumo...
Come si può ch'io regga a tanta notte?...


3
Mi porteranno gli anni
Chissà quali altri orrori,
Ma ti sentivo accanto,
M'avresti consolato...


4
Mai, non saprete mai come m'illumina
L'ombra che mi si pone a lato, timida,
Quando non spero più...


5
Ora dov’è, dov’è l’ingenua voce
Che in corsa risuonando per le stanze
Sollevava dai crucci un uomo stanco?...
La terra l’ha disfatta, la protegge
Un passato di favola…


6
Ogni altra voce è un’eco che si spegne
Ora che una mi chiama
Dalle vette immortali….


7
In cielo cerco il tuo felice volto,
Ed i miei occhi in me null'altro vedano
Quando anch'essi vorrà chiudere Iddio...


8
E t'amo, t'amo, ed è continuo schianto!...


9
Inferocita terra, immane mare 
Mi separa dal luogo della tomba 
Dove ora si disperde 
Il martoriato corpo... 
Non conta... Ascolto sempre più distinta 
Quella voce d'anima 
Che non seppi difendere quaggiù... 
M'isola, sempre più festosa e amica 
Di minuto in minuto, 
Nel suo segreto semplice...


10
Sono tornato ai colli, ai pini amati
E del ritmo dell'aria il patrio accento
Che non riudrò con te,
Mi spezza ad ogni soffio…


11
Passa la rondine e con essa estate,
E anch'io, mi dico, passerò...
Ma resti dell'amore che mi strazia
Non solo segno un breve appannamento
Se dall'inferno arrivo a qualche quiete...


12
Sotto la scure il disilluso ramo
Cadendo si lamenta appena, meno
Che non la foglia al tocco della brezza...
E fu la furia che abbattè la tenera
Forma e la premurosa
Carità d'una voce mi consuma...


13
Non più furori reca a me l'estate,
Nè primavera i suoi presentimenti;
Puoi declinare, autunno,
Con le tue stolte glorie:
Per uno spoglio desiderio, inverno,
Distende la stagione più clemente!...


14
Già m’è nelle ossa scesa
l’autunnale secchezza,
Ma, protratto dalle ombre,
Sopravviene infinito
Un demente fulgore:
La tortura segreta del crepuscolo
Inabissato...


15
Rievocherò senza rimorso sempre
Un’incantevole agonia di sensi?
Ascolta, cieco: «Un’anima è partita
Dal comune castigo ancora illesa...”

Mi abbatterà meno di non più udire
I gridi vivi della sua purezza
Che di sentire quasi estinto in me
Il fremito pauroso della colpa?


16
Agli abbagli che squillano dai vetri
Squadra un riflesso alla tovaglia l’ombra,
Tornano al lustro labile d’un orcio
Gonfie ortensie dall’aiuola, un rondone ebbro,
Il grattacielo in vampe delle nuvole,
Sull’albero, saltelli d’un bimbetto...

Inesauribile fragore di onde
Si dà che giunga allora nella stanza
E alla freschezza inquieta d’una linea
Azzurra, ogni parete si dilegua...


17
Fa dolce e forse qui vicino passi
Dicendo: “Questo sole e tanto spazio
Ti calmino. Nel puro vento udire
Puoi il tempo camminare e la mia voce.
Ho in me raccolto a poco a poco e chiuso
Lo slancio muto della tua speranza.

Sono per te l’aurora e intatto giorno”.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

O Tempo é mudo                  Il tempo è muto
1940-1945

O tempo é mudo
O tempo é mudo em imóveis canaviais…

Longe do embarque errava uma canoa…
Extenuado, inerte o remador… Céus
Já decaídos e báratros de fumos…

Em vão debruçado à orla das lembranças,
Talvez cair fosse mercê… 

                                               Não soube

Que é a mesma ilusão o mundo e a mente,
Que no mistério de suas próprias ondas
A voz terrena encontra seu naufrágio.


Il tempo è muto 
Il tempo è muto fra canneti immoti...

Lungi d'approdi errava una canoa...
Stremato, inerte il rematore... I cieli
Già decaduti a baratri di fumi...

Proteso invano all'orlo dei ricordi,
Cadere forse fu mercé...

                                          Non seppe

Ch'è la stessa illusione mondo e mente,
Che nel mistero delle proprie onde
Ogni terrena voce fa naufragio.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Amargo acordo
Ou então no meio-dia de um outubro,
No meio de densas nuvens descendentes
Dos morros harmoniosos,
Os cavalos dos Dióscuros,
A cujo flanco estática
Uma criança pousara, 
Sobre as ondas despegam-se

(A um recordar amarguíssimo de acordos,
Para sombras de bananeiras
E de errantes gigantes, 
Tartarugas entre blocos
De enormes águas impassíveis:
Sob outra ordem de astros
Entre insólitos gaviões)

Vôo até a esplanada onde o menino
Remexendo na areia,
Pela luz do relâmpago inflamada
A transparência dos amados dedos
Molhados pela chuva contra o vento,
Agarrava todos os elementos: quatro.

Mas a morte incolor e sem sentidos
Que ignora, como sempre, qualquer lei,
Já o rocava
Com seus dentes lascivos.


Amaro accordo
Oppure in un meriggio d’un ottobre
Dagli armoniosi colli
In mezzo a dense discendenti nuvole
I cavalli dei Dioscuri,
Alle cui zampe estatico
S’era fermato un bimbo,
Sopra i flutti spiccavano

(Per un amaro accordo dei ricordi
Verso ombre di banani
E di giganti erranti
Tartarughe entro blocchi
D’enormi acque impassibili:
Sotto altro ordine d’astri
Tra insoliti gabbiani)

Volo sino alla piana dove il bimbo
Frugando nella sabbia,
Dalla luce dei fulmini infiammata
La trasparenza delle care dita
Bagnate dalla pioggia contro vento,
Ghermiva tutti e quattro gli elementi.

Ma la morte è incolore e senza sensi
E, ignara d’ogni legge, come sempre,
Già lo sfiorava

Coi denti impudichi.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§


Tu te despedaçaste 
Os muitos, grandes, soltos, seixos gris 
Ainda frementes das secretas fundas 
De originárias flamas sufocadas 
Ou aos terrores de enxurradas virgens
Desabando em carícias implacáveis,
– Sobre o ofuscar da areia, enrijecidos 
Em um vácuo horizonte, não te lembras?

E a reclinada, que se abria ao único 
Recolher-se da sombra em todo o vale, 
Araucária, arquejando agigantada, 
Envolta no árduo sílex de ermas fibras 
Refratária, mais que as outras condenadas,
A boca fresca de mato e borboletas 
Onde se desgarrava das raízes,
– Não lembras dela delirante muda 
Três palmos acima de um redondo caco 
Em perfeito equilíbrio 
Mágica, sobrestando?

De ramo em ramo, corruíra leve, 
Os olhos ávidos ébrios de surpresa 
las conquistando seu cimo matizado, 
Temerária, música criança, 
Só para rever no brilhante imo 
De um fundo e quieto báratro marinho 
Cágados fabulosos
Despertar entre as algas.
Da natureza extremada, a tensão 
E as pompas submarinas, 
Fúnebres presságios. 

2
Erguias os braços como asas 
E ao vento devolvias o nascimento 
Correndo no peso do ar imóvel.

Ninguém jamais viu repousar
Teu leve pé dançarino.

Graça, feliz, 
Não terias tido como não quebrar-te 
Numa cegueira tão endurecida 
Tu, sopro simples, cristal, 

Lampejo demasiado humano 
Para o ímpio, encarniçado, zoante 
Rugido de um sol desnudo.


Tu ti spezzasti
1
I molti, immani, sparsi, grigi sassi
Frementi ancora alle segrete fionde
Di originarie fiamme soffocate
Od ai terrori di fiumane vergini
Ruinanti in implacabili carezze,
- Sopra l'abbaglio della sabbia rigidi
In un vuoto orizzonte, non rammenti?

E la recline, che s'apriva all'unico
Raccogliersi dell'ombra nella valle,
Araucaria, anelando ingigantita,
Volta nell'ardua selce d'erme fibre
Più delle altre dannate refrattaria,
Fresca la bocca di farfalle e d'erbe
Dove le radici si tagliava,
- Non la rammenti delirante muta
Sopra tre palmi d'un rotondo ciottolo
In un perfetto bilico
Magicamente apparsa?

Di ramo in ramo fiorrancino lieve,
Ebbri di meraviglia gli avidi occhi
Ne conquistavi la screziata cima,
Temerario, musico bimbo,
Solo per rivedere all'ilmo lucido
D'un fondo e quieto baratro di mare
Favolose testuggini
Ridestarsi fra le alghe.
Della natura estrema la tensione
E le subacquee pompe,
Funebri moniti.

2.
Alzavi le braccia come ali
E ridavi nascita al vento
Correndo nel peso dell'aria immota.

Nessuno mai vide posare
Il tuo lieve piede di danza.

3.
Grazia, felice,
Non avresti potuto non spezzarti
In una cecità tanto indurita
Tu semplice soffio e cristallo,

Troppo umano lampo per l'empio,
Selvoso, accanito, ronzante
Ruggito d'un sole d'ignudo.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Ao encontro de um pinho        Incontro a um pino
                             1943

Ao encontro de um pinho
E quando na ébria espuma as ondas punge 
O clamor do crepúsculo ofuscando-as, 
Na Pátria me encontrei 
Da foz do rio, os meus movidos passos 
(Mudava o tempo, das sombras,
De arco em arco pênseis 
os vibráteis cílios, melancólico) 
Para um pinho aéreo torcido pelos fogos 
Dos últimos raios súplices
Que, hóspede almejado de pedras memoriosas,
Invicto macerando-se alastrou.


Incontro a un pino
E quando all'ebbra spuma le onde punse
Clamore di crepuscolo abbagliandole,
In Patria mi rinvenni
Dalla foce del fiume mossi i passi
(D'ombre mutava il tempo,
D'arco in arco poggiate
Le vibratili ciglia malinconico)
Verso un pino aereo attorto per i fuochi
D'ultimi raggi supplici
Che, ospite ambito di pietrami memori,

Invito macerandosi protrasse.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§


Roma ocupada            Roma occupata 

1943-1944

Loucos meus passos
As velhas ruas 
– Loucos meus passos como de um autômato –
que como por encanto se moviam
Ao meu correr,
Agora já não se abrem mais em graças 
Plenas de tempo
Revelando, mudadas a cada meu humor,
Os signos vácuos que as fizeram vivas
Caso nos meçam.

E quando os vidros tinem no crepúsculo, 
– Mas as casas não têm mais alegria –
Se por hábito finalmente paro
Desiludido, procurando calma,
Nas sombras cautelosas
Dos quartos abrigados,
Apesar de ser doce a voz que têm,
Nem um só dos esparsos objetos, 
De mim envelhecido,
Ou a resíduos de imagens amarrado
Por qualquer fato que a mim acontecera,
Pode voltar a envolver-me inesperado, 
Derretendo-me o dizer do coração.

Abriram-se assim os braços estendidos 
– Os olhos carnais
De simuladas lágrimas desfeitos,
O ouvido absurdo, –
À humilde esperança
Que arrebatava o tenso Michelangelo 

De emurar todo espaço em um instante
Sem conceder à alma
Sequer o recurso de alquebrar-se.

Com desolado frêmito asas dava
A uma urbe, qual semente arcana, 
Eternizava em si, certo, o céu – cúpula
Febrilmente supérstite.


Folli i miei passi
Le usate strade
Folli i miei passi come d'un automa 
Che una volta d'incanto si muovevano
Con la mia corsa,
Ora più svolgersi non sanno in grazie
Piene di tempo
Svelando, a ogni mio umore rimutate,
I segni vani che le fanno vive
Se ci misurano.

E quando squillano al tramonto i vetri,
Ma le case più non ne hanno allegria 
Per abitudine se alfine sosto
Disilluso cercando almeno quiete,
Nelle penombre caute
Delle stanze raccolte
Quantunque ne sia tenera la voce 
Non uno dei presenti sparsi oggetti,
Invecchiato con me,
O a residui d'immagini legato
Di una qualche vicenda che mi occorse,
Può inatteso tornare a circondarrni
Sciogiiendomi dal cuore le parole.

Appresero così le braccia offerte
I carnali occhi
Disfatti da dissimulate lacrime,
L'orecchio assurdo,
Quell'umile speranza
Che travolgeva il teso Michelangelo

A murare ogni spazio in un baleno
Non concedendo all'anima
Nemmeno la risorsa di spezzarsi.

Per desolato fremito aIe dava
A un'urbecome una semenza, arcana,
Perpetuava in sé il certo cielo, cupola

Febbrilmente superstite.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Nas veias
Nas veias quase túmulos vazios
O desejo ainda galopante,
Em meus ossos o congelado cerne,
Na alma a saudade surda,
A indomável nequícia, dissolve;

Do remorso, latido interminável,
No escuro indescritível
Terrível clausura,
Resgata-me, e teus cílios piedosos
Do longo sono, soçobra;

Teu signo róseo de improviso,
Mente geratriz, remonte
E retorne a surpreender-me;
Ressuscita, inesperada
Medida incrível, paz;

Faz, na aérea paisagem, com que eu possa
Ressilabar as ingênuas palavras.


Nelle vene
Nelle vene già quasi vuote tombe
L'ancora galoppante brama,
Nelle mie ossa che si gelano il sasso,
Nell'anima il rimpianto sordo,
L'indomabile nequizia, dissolvi;

Dal rimorso, latrato sterminato,
Nel buio inenarrabile
Terribile clausura,
Riscattami, e le tue ciglia pietose
Dal lungo tuo sonno, sommuovi;

Il roseo improvviso tuo segno,
Genitrice mente, risalga
E riprenda a sorprendermi;
Insperata risùscitati,
Misura incredibile, pace;

Fa, nel librato paesaggio, ch'io possa

Risillabare le parole ingenue.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§
Ungaretti, por (...)

Defuntos em montanhas
Poucas coisas permanecem visíveis
E, para sempre, o abril
Que arrasta denso a nuvem insolúvel,
Mas de repente esplendido:
Alvor, no Coliseu,
Emerso de altos fumos,
Precipitando em órbitas
Num azul nenhuma sorte excita
Nem mais perturba.

Tal como nas distâncias,
Aparições incertas que transcorrem
O claror empenhando
Nos limites do erro,
A poucos passos vindos
Os passantes à base da parede
Perdiam sua estatura
Dilatando o deserto das alturas, 
E a surpresa se, sombras, falavam.

Atento aos ecos de fundos
Desse estranho tambor, 
Ao qual suprema ânsia eu respondia
Da vontade, queimando
Ao parecer exausta?
De remotos eventos sobrevindos,
Não me atraíam, ainda familiares
Na lembrança, os pensamentos do orgulho:
Não era nostalgia e nem o delírio;
Nem inveja da calma inalterável.

Foi então que entrando em São Clemente,
Vindo de Masaccio, o crucifixo,
Acolheram-me, o alento separando-nos
Enquanto a raiva eqüestre
Já convertida em rocha emudecida,
Despertos, no brancor
Das tumbas abolidas,
Defuntos, em montanhas
Nascidas leves de levianas nuvens.

Remontando de pertinazes fumos
Foi então que entrevi
Porque a esperança continua acesa.


Defunti su montagne
Poche cose mi restano visibili
E, per sempre, l'aprile
Trascinante la nuvola insolubile,
Ma d'improvviso splendido:
Pallore, al Colosseo
Su estremi fumi emerso,
Col precipizio alle orbite
D'un azzurro che sorte più non eccita
Né turba.

Come nelle distanze
Le apparizioni incerte trascorrenti
Il chiarore impegnando
A limiti d'inganni,
Da pochi passi apparsi
I passanti alla base di quel muro
Perdevano statura
Dilatando il deserto dell'altezza,
E la sorpresa se, ombre, parlavano.

Agli echi fondi attento
Dello strano tamburo,
A quale ansia suprema rispondevo
Di volontà, bruciante
Quanto appariva esausta?
Non, da remoti eventi sobbalzando,
M'allettavano, ancora familiari
Nel ricordo, i pensieri dell'orgoglio:
Non era nostalgia, né delirio;
Non invidia di quiete inalterabile.

Allora fu che, entrato in San Clemente,
Dalla crocefissione di Masaccio
M'aécolsero, d'un alito staccati
Mentre l'equestre rabbia
Convertita giù in roccia ammutoliva,
Desti dietro il biancore
Delle tombe abolite,
Defunti, su montagne
Sbocciate lievi da leggere nuvole.

Da pertinaci fiumi risalito
Fu allora che intravidi

Perchè m'accende ancora la speranza.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Meu rio tu também
1
Meu rio tu também, Tibre fatal,
Ora que a noite perturbada escorre;
Ora que persistente
E como a custo irrompido da pedra
Um gemido de ovelhas se propaga
Perdido pela estrada apavorada;
Pois a espera sem descanso do mal,
Dos males o mais cruel,
Pois a espera do mal imprevisível
Entrava ânimo e passos;
Que infinitos soluços e estertores
Regelam casas, indivisas covas;
Agora que a noite corre já lanhada,
Que a cada instante somem de repente
Ou receiam a ofensa tantos signos
Vindos, quase formas divinas, a luzir
Pela ascensão de milênios humanos;
Ora que já assolada corre a noite,
E quanto um homem pode sofrer sei;
Agora, enquanto escravo
O mundo de abismal pena sufoca;
Ora que insuportável o tormento
Desata entre os irmãos ira mortal;
Ora que ousam dizer
Os meus blasfemos lábios:
“Cristo, pulsar absorto,
Por que de nós tão longe
Tua bondade?”

2
Ora que ovelhinhas com carneiros
Desnorteiam-se atônitas, e nas ruas
Que já foram urbanas, se desolam;
Ora que um povo prova
Depois dos raptos das emigrações,
A estultice iníqua
Das deportações;
Agora que nos fossos
Com fantasia retorta
E mãos despudoradas
Das humanas feições o homem lacera
A imagem divina
E a piedade contrai-se em grito pétreo;
Agora que a inocência
Um mero eco reclama,
E geme até no coração mais duro;
Quando soam em vão os outros gritos,
Na noite triste vejo claramente.

Na noite triste eu aprendo agora,
Sei que o inferno se exibe sobre a terra
À medida de quanto
O homem se subtrai, insano,
À pureza da Tua paixão.

3
Chaga no coração
Soma de tanta dor
Que vai espalhando sobre a terra o homem;
Teu coração é a apaixonada sé
Do amor não frustro.
Cristo, pulsar absorto,
Astro encarnado nas humanas trevas,
Irmão sempre imolado
Perenemente para edificar
Humanamente o homem,
Santo, Santo que sofres,
Mestre, irmão, Deus pai de nós, os débeis,
Santo, Santo que sofres
Para livrar da morte os mortos
E sustentar-nos, infelizes vivos,
De um pranto que é só meu não mais pranteio,
Eis que Te chamo, Santo,
Sofrente Santo.


Mio fiume Anche tu
1
Mio fiume anche tu, Tevere fatale,
Ora che notte già turbata scorre;
Ora che persistente
E come a stento erotto dalla pietra
Un gemito d'agnelli si propaga
Smarrito per le strade esterrefatte;
Che di male l'attesa senza requie,
Il peggiore dei mali,
Che l'attesa di male imprevedibile
Intralcia animo e passi;
Che singhiozzi infiniti, a lungo rantoli
Agghiacciano le case tane incerte;
Ora che scorre notte già straziata,
Che ogni attimo spariscono di schianto
O temono l'offesa tanti segni
Giunti, quasi divine forme, a splendere
Per ascensione di millenni umani;
Ora che già sconvolta scorre notte,
E quanto un uomo può patire imparo;
Ora ora, mentre schiavo
Il mondo d'abissale pena soffoca;
Ora che insopportabile il tormento
Si sfrena tra i fratelli in ira a morte;
Ora che osano dire
Le mie blasfeme labbra:
"Cristo, pensoso palpito,
Perchè la Tua bontà
S'è tanto allontanata?"

2
Ora che pecorelle cogli agnelli
Si sbandano stupite e, per le strade
Che già furono urbane, si desolano;
Ora che prova un popolo
Dopo gli strappi dell'emigrazione,
La stolta iniquità
Delle deportazioni;
Ora che nelle fosse
Con fantasia ritorta
E mani spudorate
Dalle fattezze umane l'uomo lacera
L'immagine divina
E pietà in grido si contrae di pietra;
Ora che l'innocenza
Reclama almeno un eco,
E geme anche nel cuore più indurito;
Ora che sono vani gli altri gridi;
Vedo ora chiaro nella notte triste.

Vedo ora nella notte triste, imparo,
So che l'inferno s'apre sulla terra
Su misura di quanto
L'uomo si sottrae, folle,
Alla purezza della Tua passione.

3
Fa piaga nel Tuo cuore
La somma del dolore
Che va spargendo sulla terra l'uomo;
Il Tuo cuore è la sede appassionata
Dell'amore non vano.

Cristo, pensoso palpito,
Astro incarnato nell'umane tenebre,
Fratello che t'immoli
Perennemente per riedificare
Uamnamente l'uomo,
Santo, Santo che soffri,
Maestro e fratello e Dio che ci sai deboli,
Santo, Santo che soffri
Per liberare dalla morte i morti
E sorreggere noi infelici vivi,
D'un pianto solo mio non piango più,
Ecco, Ti chiamo, Santo,

Santo, Santo che soffri.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§
Ungaretti, por (...)

Ocorrerá?
Sempre tendendo à angústia
E ao limite da morte:
Ventura terrífica;
Mas, anelante de graça,
Em tanta Tua agonia
Vinhas redescobrir,
Sem nunca dar-te paz,
Que, no princípio e nos sumos suspiros
Por uma só esperança  consolados,
Os homens são iguais,
Filhos de um só, de um sempiterno Sopro.

Trágica Pátria, ensinaste-o pródiga
A cada livre fala,
E das origens tiveram sua pureza
As imagens remotas,
As mais novas, raiz imemorável.

Mas na mente dos povos poderá
Não mais tornar-se fértil
A palavra inspirada,
E que Tu no Teu imo,
Mais generosa quanto mais sofrida,
Não a reencontres formosa, ainda,
Quanto mais queime oculta?

Há vinte séculos mata-Te o homem
E tu incessantemente vivificas-te,
Humilde intérprete do Deus unânime.
Pátria lassa das almas,
Ocorrerá, universal nascente,
Que tu não mais refuljas?

Sonho, grito, milagre estarrecente,
Semente de amor na noite humana,
Esperança, flor, canto,
Ocorrerá que a cinza prevaleça?


Accadrà?
Tesa sempre in angoscia
E al limite di morte:
Terribile ventura;
Ma, anelante di grazia,
In tanta Tua agonia
Ritornavi a scoprire,
Senza darti mai pace,
Che nel principio e nei sospiri sommi
Da una stessa speranza consolati,
Gli uomini sono uguali,
Figli d'un solo, d'un eterno Soffio.

Tragica Patria, l'irisegnasti prodiga
A ogni favella libera,
E ne ebbero purezza dell'origine
Le immagini remote,
Le nuove, immemorabile radice.

Ma nella mente ora avverrà dei popoli
Che non più tomi fertile
La parola ispirata,
E che Tu nel Tuo cuore,
Più generosa quanto più patisci,
Non la ritrovi ancora, più incantevole
Quanto più ascosa bruci?

Da venti secoli T'uccide l'uomo
Che incessante vivifichi rinata,
Umile interprete del Dio di tutti.
Patria stanca delle anime,
Succederà, universale fonte,
Che tu non più rifulga?

Sogno, grido, miracolo spezzante,
Seme d'amore nell'umana notte,
Speranza, fiore, canto,
Ora accadrà che cenere prevalga?
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§


As lembranças            I ricordi

1942-1946

O anjo do pobre
Ora que invade as obscuras mentes
Mais áspera aflição de sangue e terra,
Ora que nos mensura a cada frêmito 
O silêncio de tanta injusta morte,

Anjo do pobre, é hora que tu acordes,
Gentileza supérstite da alma ...

Com o gesto inextinguível de séculos
Ponha-te à testa do teu velho povo,
Em meio às sombras ...


L'angelo del povero
Ora che invade le oscurate menti
Più aspra pietà del sangue e della terra,
Ora che ci misura ad ogni palpito
Il silenzio di tante ingiuste morti,

Ora si svegli l'angelo del povero,
Gentilezza superstite dell'anima...

Col gesto inestinguibile dei secoli
Discenda a capo del suo vecchio popolo,

In mezzo alle ombre...
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Não gritem mais
Parem de matar os mortos,
Não gritem mais, não gritem
Se ouvir ainda os quiserem,
Se imperecer ainda esperam.

Eles, sussurro imperceptível,
Não fazem mais ruído
Que o mato quando cresce,
Alegre, onde homem não passa.


Non gridate più
Cessate d’uccidere i morti,
Non gridate più, non gridate
Se li volete ancora udire,
Se sperate di non perire.

Hanno l’impercettibile sussurro,
Non fanno più rumore
Del crescere dell’erba,

Lieta dove non passa l’uomo.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

As lembranças
As lembranças, inútil infinito,
Mas sós e unidas contra o mar, intacto
No meio de estertores infinitos...

O mar,
Voz de grandeza libertada,
Inocência inimiga das lembranças,
Rápida em apagar os doces traços
De um pensamento fiel...

O mar, as suas caricias acidiosas
Quanto ferozes e quanto desejadas,
E à agonia delas,
Presente sempre, renovada sempre,
No pensamento vígil, a agonia....

As lembranças,
O derramar-se vão
De areia que se move
Sem pesar sobre a areia,
Breves ecos protelados,
Sem voz, ecos do adeus
A minutos, pareciam felizes...


I ricordi
I ricordi, un inutile infinito,
ma soli e uniti contro il mare, intatto
in mezzo a rantoli infiniti..

Il mare,
voce d'una grandezza libera,
ma innocenza nemica nei ricordi,
rapido a cancellare le orme dolci
d'un pensiero fedele...

Il mare, le sue blandizie accidiose
quanto feroci e quanto,. quanto attese,
e alla loro agonia,
presente sempre, rinnovata sempre,
nel vigile pensiero l'agonia...

I ricordi,
il riversarsi vano
di sabbia che si muove
senza pesare sulla sabbia,
echi brevi protratti,
senza voce echi degli addii

a minuti che parvero felici...
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.

§

Terra
Poderia haver sobre a foice
Um claro brilho, e o rumor
Volte e perder-se por graus
Pelas grutas, e poderia o vento
De outro sal queimar os olhos...

Poderias, a quilha submersa
Ouvir deslocar-se ao largo,
Ou o gavião irar-se ao bicar,
Já sem presa, o espelho...

Do grão de noites e dias
Repletas mostrastes as mãos,
Dos avos tiremos, delfinos
Pintados tu viste, em secretos
Muros imateriais, e atrás
Dos navios, depois, vivos voar,
E terra és ainda de cinzas
De inventores, sem nenhum repouso.

Cauto poderia tontas borboletas
O olival ramalhando de um átimo a outro 
Despertar,
Vigília inspirada restarás de extintas,
Insones intervenções de ausentes,
O vigor das cinzas – as sombras
Na rápida oscilação da prata.

Que o vento contínuo, marulhando,
De palmas e abetos o estrépito
Para sempre abafe, silente,
O grito dos mortos: mais forte.


Terra
Potrebbe esserci sulla falce
Una lucentezza, e il rumore
Tornare e smarrirsi per gradi
Dalle grotte, e il vento potrebbe
D'altro sale gli occhi arrossare...

Potresti la chiglia sommersa
Dislocarsi udire nel largo,
O un gabbiano irarsi a beccare,
Sfuggita la preda, lo specchio...

Del grano di notti e di giorni
Ricolme mostrasti le mani,
Degli avi tirreni delfini
Dipinti vedesti a segreti
Muri immateriali, poi, dietro
Alle navi, vivi volare,
E terra sei ancora di ceneri
D'inventori senza riposo.

Cauto ripotrebbe assopenti farfalle
Stormire agli ulivi da un attimo all'altro
Destare,
Veglie inspirate resterai di estinti,
Insonni interventi di assenti,
La forza di ceneri - ombre
Nel ratto oscillamento degli argenti.

Il vento continui a scrosciare,
Da palme ad abeti lo strepito
Per sempre desoli, silente
Il grido dei morti è più forte.
- Giuseppe Ungaretti (tradução  Aurora Bernardini), em "Ungaretti: daquela estrela à outra". [tradução Haroldo de Campos e Aurora Bernardini; organização Lucia Wataghin]. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003.


TRADUÇÃO GERALDO HOLANDA CAVALCANTI

Ungaretti, por Paolo Ongaro
Esta noite
       Versa, 22 de maio de 1916

Balaustrada de brisa
para apoiar nesta noite
minha melancolia



Stasera
       Versa il 22 maggio 1916

Balaustrata di brezza
per appoggiare stasera
la mia malinconia

- Giuseppe Ungaretti, em "A alegria" (L'allegria). [tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Record, 2003.

§

Eterno
Entre uma flor colhida e outra ofertada
o inexprimível nada



Eterno
Tra un fiore colto e l'altro donato

l'inesprimibile nulla

- Giuseppe Ungaretti, em "A alegria" (L'allegria). [tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Record, 2003.

§


O porto sepulto
    Mariano, 29 de julho de 1916
Ali chega o poeta
e depois regressa à luz com seus cantos
e os dispersa

Desta poesia
me sobra
aquele nada
de inesgotável segredo



Il porto sepolto
    Mariano il 29 giugno 1916 

Vi arriva il poeta
e poi torna alla luce con i suoi canti
e li disperde

Di questa poesia
mi resta
quel nulla
d'inesauribile segreto
 
- Giuseppe Ungaretti, em "A alegria" (L'allegria). [tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Record, 2003.

§

Peso
    Mariano, 29 de junho de 1916

Aquele camponês
se fia na medalha
de Santo Antonio
e segue tranquilo

Mas bem só e bem nua
sem qualquer miragem
carrego minha alma



Peso
    Mariano il 29 giugno 1916

Quel contadino
si affida alla medaglia
di Sant'Antoni
e va leggero

Ma ben sola e ben nuda
senza miraggio
porto la mia anima
 
- Giuseppe Ungaretti, em "A alegria" (L'allegria). [tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti]. Edição bilíngue. Rio de Janeiro: Record, 2003.

§


Vagamundo
       Campo de Mailly, maio de 1918
Em parte
alguma
do mundo
me sinto
em casa

Em cada
clima
novo
que encontro
reconheço
abatido
que
um dia
a ele também já estive
afeiçoado

E dele me despego sempre
estrangeiro

Nascendo
de volta de épocas demasiado
vividas

Gozar um único
minuto da vida
primal

Busco um país
inocente



Girovago
       Capo di Mailly maggio 1918

In nessuna
parte
di terra
mi posso
accasare

A ogni
nuovo
clima
che incontro
mi trovo
languente
che
una volta
già gli ero stato
assuefatto

E me ne stacco sempre
straniero

Nascendo
tornato da epoche troppo
vissute

Godere un solo
minuto di vita
iniziale

Cerco un paese
innocente
 
- Giuseppe Ungaretti, em "A alegria" (L'allegria). [tradução e notas de Geraldo Holanda Cavalcanti]. Edição bilingue. Rio de Janeiro: Record, 2003.


TRADUÇÃO NELSON ASCHER


Giuseppe Ungaretti
Vigília
     Cima Quatro, 23 de Dezembro de 1915

Toda uma noite em claro
caído ao lado
de um companheiro
massacrado
com sua boca
arreganhada
exposta à lua cheia
com o hematoma
de suas mãos
cravado
em meu silêncio
escrevi
cartas cheias de amor
Não tinha nunca estado
tão
aferrado à vida


Veglia
    Cimma Quattro il 23 dicembre 1915

Un’intera nottata
buttato vicino
ad un compagno
massacrato
con la sua bocca
digrignata
volta al plenilunio
con la gestione
delle sue mani
penetra
nel mio silenzio
ho scritto
lettere piene d’amore
Non sono mai stato
tanto
attaccato alla vita
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Giuseppe Ungaretti - foto (...)

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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Giuseppe Ungaretti - poeta italiano. Templo Cultural Delfos, março/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 10.3.2016.



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