Gerard Manley Hopkins - poeta inglês

Gerard Manley Hopkins
Gerard Manley Hopkins (poeta e padre jesuíta britânico), nascido a 28 de julho de 1844, em Stratford, Reino Unido. A obra poética de Hopkins foi decisiva para a posterior renovação da lírica inglesa. Educado em Oxford, começou a escrever uma poesia de acentuado conteúdo espiritual e converteu-se ao catolicismo (1866). Depois ingressou na Companhia de Jesus (1868), parou de escrever e queimou seus poemas da juventude. Mudou-se para Gales (1874) para ampliar seus estudos em teologia. Voltou à literatura e escreveu seu poema mais longo, The Wreck of the Deutschland (1875), cuja originalidade residia no emprego de um vocabulário arcaico, acompanhado de uma sintaxe e sistema rítmico insólitos, com predomínio da aliteração, a assonância e a rima interna. Ordenou-se (1877) e passou a ensinar em vários colégios religiosos. Depois ensinou literatura grega em Dublin, Irlanda, enquanto continuava compondo. Seus poemas passaram a demonstram uma crescente tendência ao ascetismo até que morreu em Dublin. Também escreveu sonetos e seus poemas foram publicados (1918) por seu amigo Robert Bridges e tornaram-se referência para as novas gerações, influenciando figuras exponenciais da literatura britânica como T. S. Eliot, Dylan Thomas e W. H. Auden, entre outros. 
Outra edição, publicada em 1930 por Charles Williams, consolidou a fama de Hopkins como um dos poetas mais originais da língua inglesa. Gerard Manley Hopkins morreu em Dublin, aos 44 anos, a 8 de junho de 1889.
:: Fonte: dec.ufcg.edu (acessado em 8.2.2016). 



OBRA DE GERARD MANLEY HOPKINS PUBLICADA NO BRASIL
Poesia
:: Hopkins: a beleza difícil. Gerard Manley Hopkins. [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.
:: Poemas. Gerard Manley Hopkins. [tradução Aíla de Oliveira Gomes]. São Paulo: Companhia das Letras. 1999. 

Antologias/coletâneas (participação)
:: Transversocoletânea de poemas traduzidos. [tradução e organização José Paulo Paes]. Campinas: Editora Unicamp, 1988. 



Gerard Manley Hopkins, by Vincent McDonnell
POEMAS (BILÍNGUE) ESCOLHIDOS DE GERARD MANLEY HOPKINS

PARAGEM-PARAÍSO
Uma noviça toma o véu

          Quis ir para um lugar
                Onde não falte fonte,
      Nem grasse gelo áspero e bifronte;
           Só lírios para olhar.

            Pedi para ficar
                  Onde o vento não ouse,
      Silente, a verde vaga ao porto pouse;
            Longe, o clamor do mar.

(1864)


  HEAVEN-HAVEN
  A nun takes the veil 
I have desired to go
   Where springs not fail,    
To fields where flies no sharp and sided hail

           And a few lilies blow.  
          And I have asked to be
                    Where no storms come,
      Where the green swell is in the havens dumb,
            And out of the swing of the sea. 
 

(1864)
- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

A GRANDEZA DE DEUS
A grandeza de Deus o mundo inteiro a admira.
    Em ouro ou ouropel faísca o seu fulgor;
    Grandiosa em cada grão, cada limo em óleo amor-
tecido. Mas por que não temem sua ira?
Gerações vêm e vão; tudo o que gera, gira
    E gora em mercancia; em barro, em borra de labor;
    E ao homem mancha o suor, o sujo, a sujeição; sem cor
O solo agora é; nem mais, solado, o pé o sentira.

E ainda assim a natureza não se curva;
    Um límpido frescor do ser das coisas vaza;
E quando a última luz o torvo Oeste turva
    Ah, a aurora, ao fim da fímbria oriental, abrasa –
Porque o Espírito Santo sobre a curva
   Terra com alma ardente abre ah! a alva asa.

(1877)



GOD’S GRANDEUR
The world is charged with the grandeur of God.
      It will flame out, like shining from shook foil;
      It gathers to a greatness, like the ooze of oil
Crushed. Why do men then now not reck his rod?
Generations have trod, have trod, have trod;
      And all is seared with trade; bleared, smeared with toil;
      And wears man`s smudge and shares man`s smell: the soil
Is bare now, nor can foot feel, being shod.

And for all this, nature is never spent;
      There lives the dearest freshness deep down things;
And though the last lights off the black West went 
      Oh, morning, at the brown brink eastward, springs –
Because the Holy Ghost over the bent
       World broods with warm breast and with ah! bright wings.

(1877)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

             O FALCÃO:
             A Cristo Nosso Senhor

Vi de manhã o dom do dia em seu jar-
      dim diáfano, delfim de luz, Falcão dia-dilúcido-dourado, cavalgando
      O rio-rolante – sob seu ser – raro ar, e já se alçando
Mais alto, como revoou com rédea de asa a ondear
No seu êxtase! além e alado em pleno ar-
      dor e ainda além, patim na pista em arco; e quando
      O voar venceu o grande vento. O coração pulsando
Por uma ave – o perfazer, a perfeição da coisa no ar!

Beleza bruta, ação, valor, oh, ar, orgulho, por inteiro
      Rendam-se! E a chama que de ti centelha
Bilhões de vezes a mais bela e perigosa, ó Cavaleiro!

      Sem maravilha: é a mão que faz no rego a relha
Brilhar, e a brasa álgida-azul, meu caro companheiro,
       Cai, rói, corrói e sangra, ouro-vermelha.

(1877)


          THE WINDHOVER
          To Christ our Lord

I caught this morning’s minion, king-  
  dom of daylight’s dauphin, dapple-dawn-drawn Falcon, in his riding  
  Of the rolling level underneath him steady air, and striding  
High there, how he rung upon the rein of a wimpling wing  
In his ecstasy! then off, off forth on swing,          
  As a skate’s heel sweeps smooth on a bow-bend: the hurl and gliding  
  Rebuffed the big wind. My heart in hiding  
Stirred for a bird, — the achieve of, the mastery of the thing!  

Brute beauty and valour and act, oh, air, pride, plume, here  
  Buckle! AND the fire that breaks from thee then, a billion          
Times told lovelier, more dangerous, O my chevalier!  

  No wonder of it: sheer plod makes plough down sillion  
Shine, and blue-bleak embers, ah my dear,  
  Fall, gall themselves, and gash gold-vermillion.

(1877)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

   LANTERNA EXTERNA
Uma lanterna move-se na noite escura,
   Que às vezes nos apraz olhar. Quem anda
   Ali? – medito. De onde, para onde o manda
Dentro da escuridão essa luz insegura?

Homens passam por mim, cuja beleza pura
   Em molde ou mente ou mais um dom maior demanda.
   Chovem em nosso ar pesado a sua branda
Luz, até que distância ou morte os desfigura.

Morte ou distância vêm. Por mais que para vê-los
   Volteie a vista, é em vão: eu perco o que persigo.
Longe do meu olhar, longe dos meus desvelos.

Cristo vela. E o olhar de Cristo, em paz ou perigo,
   Os vê, coração quer, amor provê, pé ante pé, com suaves zelos:
Resgate e redenção, primeiro, íntimo e último amigo.

(1877)


THE LANTERN OUT OF DOORS
Sometimes a lantern moves along the night,
That interests our eyes. And who goes there?
I think; where from and bound, I wonder, where,
With, all down darkness wide, his wading light?

Men go by me whom either beauty bright
In mould or mind or what not else makes rare:
They rain against our much-thick and marsh air
Rich beams, till death or distance buys them quite.

Death or distance soon consumes them: wind
What most I may eye after, be in at the end
I cannot, and out of sight is out of mind.

Christ minds; Christ’s interest, what to avow or amend
There, éyes them, heart wánts, care haúnts, foot fóllows kínd,
Their ránsom, théir rescue, ánd first, fast, last friénd.

(1877)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

           O ECO DE BRONZE E O ECO DE OURO
                 (Canção das virgens da Fonte de S. Winefred)

                                 O ECO DE BRONZE

Como guardar – há algum, algum haverá um, algum algo
     algures, tranca ou trinco ou broche ou braço, laço ou
     trave ou chave capaz de res-
Guardar o belo, guardá-lo, belo, belo, belo... do desgaste?
Oh nenhum franzir de rugas, profundas rugas se avista?
Nenhum sobressalto dos altos álgidos arautos, áridos
     arautos, escuros e escusos arautos do cinza?
Não, nenhum, nenhum. Oh não há nenhum,
Nem podes mais ser, o que ora és, dito perfeito,
Faze o que se há de fazer, o que, faze o que se há de,
Sabedoria gera o desespero:
Sê começo: já que, não, nada pode ser feito
Pare deter o
Tempo e o mal do tempo, cã e cal,
Prega e ruga, falsa, falha, fel da morte, mortalha,
     umbas e térmitas até o tombo final;
Sê começo: só começo ao desespero.
Oh nenhum, não não não não há nenhum:
Sê começo: ao desespero, ao desespero,
Desespero, desespero, desespero, desespero.

                                 O ECO DO OURO
                  Espera!
Há um, sim eu sei de um (Silêncio agora!)
Só que não se sente ao sol,
Não à vista do sol solerte,
À tinta do sol alto ou traiçoeiro o hálito do ar terrestre,
Aquém além existe ah bem quem! um só,
Um. Sim, sei dizer qual a chave, conheço tal recanto,
Onde tudo o que se ama e some de nós, tudo o que é novo
     e vai se esvaindo de nós, sói ser suave de nós e
     súbito finado, findo desfeito,
Desfeito, finito, findo, e todavia, cara e raramente suave
De nós, a ruga-água-sulcada, mais-que-manhã-perfeita face,
A flor do belo, velo do belo, muito muito apta a, ah! voar,
Nunca mais voa, atada pela mais verde verdade
Ao seu melhor ser e à flor da mocidade: é uma sempre-viva de,
     Oh é uma toda-mocidade!
Venham, pois, ares e olhares, trejeitos, tranças, dons de donzela,
      garbo e gala e graça,
Ares fatais, olhares infantis, donaires de donzela, trejeitos suaves,
      tranças soltas, tranças longas trançamores, garbigárrulas,
      galgas galas, gentilgraça –
Resigna-os, designa-os, sela-os, solta-os, move-os com sopro
E com suspiros que se alteiam, altaneiros suspiros liberta-
Os; o belo-em-espectro, liberta-o, desde logo, muito antes
      que a morte de-
Volva o belo, e o belo, belo, belo volva a Deus, o eu
      do belo e o ser do belo.
Vê, nem um fio de cabelo, nem um cílio, nem um só cilício cai;
      cada cabelo
É, cabelo da cabeça. computado.
Mais; o que sutis largáramos em duro e mero molde
Terá vindo e vingado e vagado e vogado com o vento durante o enquanto
      que nos adormeça,
Daqui, dali, confundindo as cemcurvas de um cerebrochumbo
Durante o enquanto, o enquanto em que nos esqueçamos.
Oh, então por que curvos seguirmos? Oh por que sermos tão cavos
      no coração, tão medo-murchos, medo-mortos, tão fartos,
      tão fraudados, tão cansados, tão confusos,
Quando a coisa que livres renunciamos é guardada como o mais caro cuidado
Mais caro cuidado guardada do que a poderíamos ter guardado, guardada
Com muito maior cuidado (e nós, nós a perderíamos), mais puro,
      mais caro
Cuidado guardada. – Onde guardada? Diga-nos onde guardada, onde. –
      Longe, sim, longe, longe,
Longe.


           THE LEADEN ECHO AND THE GOLDEN ECHO
                   (Maidens’ song from St. Winefred’s Well)

                                THE LEADEN ECHO

How to kéep—is there ány any, is there none such, nowhere
       known some, bow or brooch or braid or brace, láce, latch or
       catch or key to keep   
Back beauty, keep it, beauty, beauty, beauty,… from vanishing away?   
Ó is there no frowning of these wrinkles, rankéd wrinkles deep,   
Dówn? no waving off of these most mournful messengers, still
       messengers, sad and stealing messengers of grey?   
No there ’s none, there ’s none, O no there ’s none,           
Nor can you long be, what you now are, called fair,   
Do what you may do, what, do what you may,   
And wisdom is early to despair:   
Be beginning; since, no, nothing can be done   
To keep at bay           
Age and age’s evils, hoar hair,   
Ruck and wrinkle, drooping, dying, death’s worst, winding sheets,
       tombs and worms and tumbling to decay;   
So be beginning, be beginning to despair.   
O there ’s none; no no no there ’s none:   
Be beginning to despair, to despair,           
Despair, despair, despair, despair.   

                                THE GOLDEN ECHO
        Spare!   
There ís one, yes I have one (Hush there!);   
Only not within seeing of the sun,   
Not within the singeing of the strong sun,           
Tall sun’s tingeing, or treacherous the tainting of the earth’s air,   
Somewhere elsewhere there is ah well where! one,   
Oné. Yes I can tell such a key, I do know such a place,   
Where whatever’s prized and passes of us, everything that ’s fresh
        and fast flying of us, seems to us sweet of us and swiftly away
        with, done away with, undone,   
Undone, done with, soon done with, and yet dearly and dangerously sweet           
Of us, the wimpled-water-dimpled, not-by-morning-matchèd face,   
The flower of beauty, fleece of beauty, too too apt to, ah! to fleet,   
Never fleets móre, fastened with the tenderest truth   
To its own best being and its loveliness of youth: it is an ever-
         lastingness of, O it is an all youth!   
Come then, your ways and airs and looks, locks, maiden gear,
         gallantry and gaiety and grace,           
Winning ways, airs innocent, maiden manners, sweet looks, loose
        locks, long locks, lovelocks, gaygear, going gallant, girlgrace—   
Resign them, sign them, seal them, send them, motion them with breath,   
And with sighs soaring, soaring síghs deliver   
Them; beauty-in-the-ghost, deliver it, early now, long before death   
Give beauty back, beauty, beauty, beauty, back to God, beauty’s
         self and beauty’s giver.           
See; not a hair is, not an eyelash, not the least lash lost; every hair   
Is, hair of the head, numbered.   
Nay, what we had lighthanded left in surly the mere mould   
Will have waked and have waxed and have walked with the wind
        what while we slept,   
This side, that side hurling a heavyheaded hundredfold           
What while we, while we slumbered.   
O then, weary then whý should we tread? O why are we so haggard
         at the heart, so care-coiled, care-killed, so fagged,
         so fashed, so cogged, so cumbered,
When the thing we freely fórfeit is kept with fonder a care,   
Fonder a care kept than we could have kept it, kept   
Far with fonder a care (and we, we should have lost it) finer, fonder           
A care kept.—Where kept? Do but tell us where kept, where.—   
Yonder.—What high as that! We follow, now we follow.—
       Yonder, yes yonder, yonder,   
Yonder.

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

         [CADÁVER-CONSOLO]
Não, cadáver-consolo, não vou me repastar contigo, Desesper-
o, nem desligar – por lassos – os últimos laços de homem em mim,
Nem, por mais desvalido, gritar não posso mais. Eu posso, sim,
Posso algo, esperança, ânsia de aurora, não escolher não ser.
Mas ah! mas, tu, terrível, por que rude em mim crescer
Teu destro pé de pedra pune-universo? leão-látego assim
Varar com olhos trevorantes meus pisados ossos e até o fim
Trovão-troar-me a mim, empilhado aqui, no frenesi de fugir de ti e te esquecer?

Por que? para que a minha palha voe; o meu grão, claro e puro, jaza,
Pois que em meio à tortura e à tortura eu (parece) beijei o açoite,
Ou mão, então, meu coração em cor-vigor, riso-roubado, a festejar se compraza.
Festejar quem, porém? o herói que me céuaçoitou, o pé que se abateu s-
obre mim? ou eu que luto? ou qual? ou ambos? Naquele ano, aquela noite,
Brasa no escuro em que eu, mísero, medi-me com (meu Deus!) meu Deus.

(1885)



       [CARRION-COMFORT]
Not, I’ll not, carrion comfort, Despair, not feast on thee;   
Not untwist—slack they may be—these last strands of man   
In me ór, most weary, cry I can no more. I can;   
Can something, hope, wish day come, not choose not to be.   
But ah, but O thou terrible, why wouldst thou rude on me          
Thy wring-world right foot rock? lay a lionlimb against me? scan   
With darksome devouring eyes my bruisèd bones? and fan,   
O in turns of tempest, me heaped there; me frantic to avoid thee and flee?   

Why? That my chaff might fly; my grain lie, sheer and clear.   
Nay in all that toil, that coil, since (seems) I kissed the rod,           
Hand rather, my heart lo! lapped strength, stole joy, would laugh, chéer.   
Cheer whom though? the hero whose heaven-handling flung me, fóot tród   
Me? or me that fought him? O which one? is it each one? That night, that year   
Of now done darkness I wretch lay wrestling with (my God!) my God.   

(1885)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

Ser estrangeiro é minha sina e vida, em meio
A estrangeiros. Meu pai e minha mãe amados,
Irmãos e irmãs em Cristo de mim apartados,
Só Ele meu partir/meu porto, espada e esteio.

A Inglaterra que eu honro como esposa, cheio
De sonhos de criar, não movem nem cuidados
Nem rogos, nem rogar eu ouso, desolado s-
ócio de um lar que gera guerras em seu seio.

Agora estou na Irlanda e é já a terceira ida
Ao longo exílio. Não que o exílio iniba o gesto
De amor, amar. Mas a palavra mais querida

Que eu crie o céu cinzento ceifa presto
E o inferno enfeia em fel, do povo não ouvida
Ou, se ouvida, olvidada. E eu solitário resto.

(1885)


To seem the stranger lies my lot, my life   
Among strangers. Father and mother dear,   
Brothers and sisters are in Christ not near   
And he my peace/my parting, sword and strife.   

England, whose honour O all my heart woos, wife           
To my creating thought, would neither hear   
Me, were I pleading, plead nor do I: I wear-   
y of idle a being but by where wars are rife.   

I am in Ireland now; now I am at a thírd   
Remove. Not but in all removes I can           
Kind love both give and get. Only what word   

Wisest my heart breeds dark heaven’s baffling ban   
Bars or hell’s spell thwarts. This to hoard unheard,   
Heard unheeded, leaves me a lonely began.   

(1885)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

Gerard Manley Hopkins (1844 - 1889)
Desperto. Um travo dói, de treva, não de dia.
Que horas, que horas-negror nós conhecemos,
Que noite! Que visões, meu coração, que extremos!
E o que virá da luz em mais lenta agonia?

Eu falo a testemunha. E onde antes eu via
Horas eu vejo eras, vida. E o que vivemos
São gritos, gritos, sim, cartas mortas que lemos
Ao ser maior que vive ah! em longe moradia.

Sou câncer-coração, sou fel. Pois Deus me deu
O dom de em mim provar o meu mal: meu fel fui eu;
Selado em osso e pele, em meu sangue, o sabor.

O lêvedo do ser destila amargo breu.
Aos perdidos, talvez, o seu castigo é o seu
Suor de ser, como eu o meu; porém, pior.

(1885)


I wake and feel the fell of dark, not day.
What hours, O what black hours we have spent
This night! what sights you, heart, saw; ways you went!
And more must, in yet longer light’s delay. 

With witness I speak this. But where I say
Hours I mean years, mean life. And my lament
Is cries countless, cries like dead letters sent
To dearest him that lives alas! away.

I am gall, I am heartburn. God`s most deep decree
Bitter would have me taste: my taste was me;
Bones built in me, flesh filled, blood brimmed the curse.

Selfyeast of spirit a dull dough sours. I see
The lost are like this, and their scourge to be
As I am mine, their sweating selves; but worse.

(1885)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

Não, não, pior não há, dor mais dor do que a dor,
Além-ais de aquém-ais torturam-se outra vez.
Onde está teu consolo, ó Mãe, que a tudo vês?
E o teu conforto, onde, ó meu confortador?

Meus gritos em rebanho, arrebanham em cor-
o a dor, a dor do mundo, arquibigorna, e se
Calmam, calam. A Fúria uiva: “Nenhum re-
morso! Que seja fel. Sem mora e sem amor”.

Ah! a mente tem montanhas; precipícios, vias
Terríveis, que ninguém trilhou. Se alguém duvida
É que nunca as buscou. Essas regiões sombrias

Mal pisa o pé, pesado. Aqui! Rasteja a tua lida
No rede(e a um só consolo serve)moínho: os dias
Morrem no sono e a morte apaga toda vida.


(1885)


No worst, there is none. Pitched past pitch of grief,
More pangs will, schooled at forepangs, wilder wring.
Comforter, where, where is your comforting?
Mary, mother of us, where is your relief?

My cries heave, herds-long; huddle in a main, a chief
Woe, wórld-sorrow; on an áge-old anvil wince and sing –
Then lull, then leave off. Fury had shrieked ‘No ling-
ering! Let me be fell: force I must be brief'’.

O the mind, mind has mountains; cliffs of fall
Frightful, sheer, no-man-fathomed. Hold them cheap
May who ne’er hung there. Nor does long our small

Durance deal with that steep or deep. Here! creep,
Wretch, under a comfort serves in a whirlwind: all
Life death does end and each day dies with sleep.


(1885)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

Ah, Paciência, Paciência é tão difícil! Pior,
Pedir Paciência! Mas Paciência, quem a tenta,
Quer guerra, garra; a ela, contudo, só contenta
Perder, cair, curvar-se e seguir sem rumor.

   Ali, Paciência, em paz, deita raíz: rigor
Ou nada. Hera do ser, Paciência enterra, lenta,
As ruinas da derrota. E, lenta, ela acalenta
Mar de folhas a fluir, olhos roxos de dor.

    Ouvimos um ralar de corações: seria
Mortal feri-los mais. Nossos desejos bravos
A Deus, porém, vamos dobrando em rebeldia.

     E onde está aquele que destila, dia a dia,
Só luz? Ele é paciente. Com Paciência os favos
Nos favorece. E já sabemos sua via.

(1885)


Patience, hard thing! the hard thing but to pray,
But bid for, Patience is! Patience who asks   
Wants war, wants wounds; weary his times, his tasks;   
To do without, take tosses, and obey.   

  Rare patience roots in these, and, these away,           
Nowhere. Natural heart’s ivy, Patience masks   
Our ruins of wrecked past purpose. There she basks   
Purple eyes and seas of liquid leaves all day.   

  We hear our hearts grate on themselves: it kills,
To bruise them dearer. Yet the rebellious wills           
Of us we do bid God bend to him even so.   

  And where is he who more and more distills   
Delicious kindness? — He is patient. Patience fills   
His crisp combs, and that comes those ways we know.   

(1885)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

Meu coração carece apenas pena; tento
Meu triste mim viver agora em doce entrega
À piedade; não mais tormento a mente lega
À atormentada mente em mais e mais tormento.

   Vou em busca de paz, sem ter contentamento,
Tateando de impaciência, em trevas, como cega
Visão que pede luz, sede que não sossega
Em mar sempre maior que a sede do sedento.

Alma, mim; ah! Meu João-de-mim, cria juízo,
Descansa, pobre ser; ao teu pensar dá-lhe uma ilha
Nalgum lugar; à paz, raíz-espaço; e o riso,

Deus sabe quando ou quanto; um dia, ei-lo que brilha
Não retorcido e – como um céu que, de improviso,
Entreave montes – luz, maravilhosa milha.

(1885)


My own heart let me more have pity on; let   
Me live to my sad self hereafter kind,   
Charitable; not live this tormented mind   
With this tormented mind tormenting yet.   

  I cast for comfort I can no more get          
By groping round my comfortless, than blind   
Eyes in their dark can day or thirst can find   
Thirst’s all-in-all in all a world of wet.   

Soul, self; come, poor Jackself, I do advise   
You, jaded, let be; call off thoughts awhile           
Elsewhere; leave comfort root-room; let joy size   

At God knows when to God knows what; whose smile
’s not wrung, see you; unforeseen times rather — as skies   
Betweenpie mountains — lights a lovely mile.

(1885)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

          A COROA DE TOM:
          sobre os Desempregados


Tom – coroado em duro e puro aço,
Tom; seu irmão botadesbotado empilha a enxada,
Fazendo faíscas no chão rumo ao lar – Dick, camarada;
Tom Cor-e-ação, Obreiro Tom: só quer o seu pedaço
De pão, e cama agora. Leve, a parca parte (um traço
Só tem: não passar fome, Tom; Tom, doente? não é nada,
Amargo, nunca; e pé à-prova-de-pregos na estrada
De mil espinhos, pensamentos) leva. Não faço
Caso do bem, oh! desigual, comum desde que o pão em dia
Dêem a todos. Baste a pátria – fronte que irradia
Luzes do céu, ou mãe-terra aos que vêm
Fraternizar com pés pesados. Sem amparo ou guia
De mente ou membros; nem coroa de ouro que em
Perigo os ponha, oh não; em solo ou sol nem sola têm;
                     Desolados, sem nem
Um bem da terra, um dom da terra; sem aspira-
Ção nenhuma; ouro raro, aço caro, só mira;
                     Esperança, só espera –
Assim, o Desespero gera o Cão-vadio; a Ira,
O Homem-fera, pior; e o bando agora infesta a era.

(1887)


         TOM’S GARLAND:
         upon the Unemployed 


Tom — garlanded with squat and surly steel   
Tom; then Tom’s fallowbootfellow piles pick   
By him and rips out rockfire homeforth — sturdy Dick;   
Tom Heart-at-ease, Tom Navvy: he is all for his meal   
Sure, ’s bed now. Low be it: lustily he his low lot (feel          
That ne’er need hunger, Tom; Tom seldom sick,
Seldomer heartsore; that treads through, prickproof, thick   
Thousands of thorns, thoughts) swings though. Commonweal   
Little I reck ho! lacklevel in, if all had bread:   
What! Country is honour enough in all us — lordly head,           
With heaven’s lights high hung round, or, mother-ground   
That mammocks, mighty foot. But nó way sped,
Nor mind nor mainstrength; gold go garlanded   
With, perilous, O nó; nor yet plod safe shod sound;   
                  Undenizened, beyond bound           
Of earth’s glory, earth’s ease, all; no one, nowhere,   
In wide the world’s weal; rare gold, bold steel, bare   
                In both; care, but share care —   
This, by Despair, bred Hangdog dull; by Rage,   
Manwolf, worse; and their packs infest the age.           

(1887)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

              DA NATUREZA, FOGO HERACLITIANO,
                                  E DO
                     CONFORTO DA RESSUREIÇÃO
Nuvem-novelo, tufos coxos, coxins frouxos / fluem, flutuam sobre o estrado
Armado no ar: céu-fanfarrões, em gangues gaias / se aglomeram; cintilam passo a passo
Rebocaindo, calcaindo cegantes, / onde haja um olmo pelo, espaço,
Fitas de luz, cordas de sombra em longos lios / lançam-se, laçam, lado a lado.
Gozosamente o vento violuzente / arrasta, arrosta o solo dissecado
Das rugas do pós-chuva; em sulco e charco cresta e crasso
Limo disperso em posta, pasta, / crosta; estanca, estaca o traço
Das máscaras e marcas do homem / que a lenta luta em lodo calcinado
Pé-imprimiu no chão. Multinutrida, / a natureza é fogo e lava.
Mas o mais caro, raro, o mais / claro calor que leva –
O homem, seu fogo-fátuo / sua marca-na-mente, já se entreva!
Ambos na vastidão, tudo na imensidão da treva
Sugado. Ó piedade e indig / nação! A forma do homem que brilhava,
Pura, indiversa, estrela, / a morte moi, nem sobreleva
                          Marca alguma do ser que em breve a
Imensidão na trave ou torve / o tempo. Basta! A ressureição res-
plende, clarao do coração! Longe, / arfar da dor, dias sem alegria, pequenez.
                          Em meu convés de viés luz uma vez
Um farol, lume eterno. / Carne falida e mortal lama
Vertam ao verme residual; / em fumo o mundo mude a chama:
                          Irrompe a flama, e trompa clama
E eu sou súbito o que Cristo é, / pois ele foi, por amor, tal
Qual eu sou, e este João, pulha, pobre palha, / hulha, maravalha, diamante imortal,
                                É diamante imortal.

(1888)


               THAT NATURE IS A HERACLITEAN FIRE,
                               AND OF THE
                  COMFORT OF THE RESURRECTION
Cloud-puffball, torn tufts, tossed pillows / flaunt forth, then chevy on an air-   
built thoroughfare: heaven-roysterers, in gay-gangs / they throng; they glitter in marches.
Down roughcast, down dazzling whitewash, / wherever an elm arches,   
Shivelights and shadowtackle in long / lashes lace, lance, and pair.   
Delightfully the bright wind boisterous / ropes, wrestles, beats earth bare           
Of yestertempest’s creases; / in pool and rutpeel parches   
Squandering ooze to squeezed  / dough, crust, dust; stanches, starches   
Squadroned masks and manmarks / treadmire toil there   
Footfretted in it. Million-fuelèd, / nature’s bonfire burns on.   
But quench her bonniest, dearest / to her, her clearest-selvèd spark           
Man, how fast his firedint, / his mark on mind, is gone!   
Both are in an unfathomable, all is in an enormous dark   
Drowned. O pity and indig / nation! Manshape, that shone   
Sheer off, disseveral, a star, / death blots black out; nor mark   
                Is any of him at all so stark          
But vastness blurs and time / beats level. Enough! the Resurrection,   
A heart’s-clarion! Away grief’s gasping, / joyless days, dejection.   
                Across my foundering deck shone   
A beacon, an eternal beam. / Flesh fade, and mortal trash   
Fall to the residuary worm; / world’s wildfire, leave but ash:          
                In a flash, at a trumpet crash,   
I am all at once what Christ is, / since he was what I am, and   
This Jack, joke, poor potsherd, / patch, matchwood, immortal diamond,   
                Is immortal diamond.

(1888)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

Justus quidam tu es, Domine, si disputem tecum: verumtamen justa l
oquar ad te: Quare via impiorum prosperatur? Etc.

Senhor, és justo, eu sei, mas se te ouso agora
Contraditar, também é justo este meu pleito.
Por que somente o mau prospera e sempre gora
Meu sonho de florir, desolado e desfeito?

Um inimigo, ó caro amigo, não me fora
Tão desamigo ou mal maior houvera feito
Para me destruir. Mais vive e mais vigora
O escravo da paixão do que eu que ora rejeito

A vida por tua causa. Admira, em mata e messe
As folhas cobram cor! De laços se carrega
A umbelífera em flor. À volta, o vento tece-

A; aves alam-se – eu não; cego, meu ser se nega.
Eis-me, eunuco do Tempo, em mim nada floresce.
Minhas, Senhor, de mim, ruins raízes rega.

(1889)


Justus quidem tu es, Domine, si disputem tecum: verumtamen j
usta loquar ad te: Quare via impiorum prosperatur? Etc.

Thou art indeed just, Lord, if I contend   
With thee; but, sir, so what I plead is just.   
Why do sinners’ ways prosper? and why must   
Disappointment all I endeavour end?   

  Wert thou my enemy, O thou my friend,
How wouldst thou worse, I wonder, than thou dost   
Defeat, thwart me? Oh, the sots and thralls of lust   
Do in spare hours more thrive than I that spend,   

Sir, life upon thy cause. See, banks and brakes   
Now leavèd how thick! lacèd they are again           
With fretty chervil, look, and fresh wind shakes   

Them; birds build — but not I build; no, but strain,   
Time’s eunuch, and not breed one work that wakes.   
Mine, O thou lord of life, send my roots rain.   

(1889)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

A R.  B.
A alegre luz que gera a idéia, a força pura,
Viva e voraz, como uma chama de estopim,
Brilha uma vez mas dura pouco, e ainda assim
À mente muda em mãe de um canto que perdura.

Nove meses, ou mais, nove anos ela o apura
E dentro o gesta, gasta, gosta e alenta, enfim:
Viuva de uma visão perdida, vive; com seu fim
Sabido, a mão perfaz, nunca mais insegura.

Fogo maior, senhor da musa – uma só graça
Pede meu ser: o arroubo de uma inspiração.
Mas, se por minhas lentas linhas já não passa

A vaga, o vôo, a voz, o canto, a criação,
Meu mundo-inverno, onde esse júbilo não grassa,
É, com alguns suspiros, nossa explicação.

(1889)


TO R.  B.
The fine delight that fathers thought; the strong
Spur, live and lancing like the blowpipe flame,
Breathes once and, quenchèd faster than it came,
Leaves yet the mind a mother of immortal song.

Nine months she then, nay years, nine years she long
Within her wears, bears, cares and combs the same:
The widow of an insight she lives, with aim
Now known and hand at work now never wrong.

Sweet fire the sire of muse, my soul needs this;
I want the one rapture of an inspiration.
O then if in my lagging lines you miss

The roll, the rise, the carol, the creation,
My winter world, that scarcely breathes that bliss
Now, yields you, with some sighs, our explanation.

(1889)

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§

Ecoa isso, ecoa,
Cuco, ave, abre as fontes-ouvidos, coração-nascentes, suavemente voa
Num revôo, um rebôo, uma canção
De troncos trincados e buracos do chão, oco oco oco chão:
Toda a paisagem nasce de súbito a um som.


Repeat that, repeat,
Cuckoo, bird, and open ear wells, heart-springs, delightfully sweat,
With a ballad, with a ballad, a rebound
Off trundled timber and scoops of the hillside ground, hollow hollow hollow ground:
The whole landscape flushes on a sudden at a sound.

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.

§
 ***

Gerard Manley Hopkins in 1866
                  O NAUFRÁGIO DO DEUTSCHLAND

                           À
             memória feliz de cinco freiras franciscanas
             banidas pelas leis Falk
             afogadas entre a meia-noite e a manhã de
            7 de dezembro de 1875

PRIMEIRA PARTE

1

                   Mestre de min
           Deus! doador do ar e da dor;
    Fibra do mundo, mar sem fim;
         Senhor de morte e amor;
  Ligaste ossos e veias em mim, carne criaste-
  Me, e quase desfizeste, após, horror,
       Teu feito: e ora me tanges com tua haste?
De novo teu dedo doa e dói e eu digo sim.

2

                   Sim – fui falar
           Ah! ao raio açoite dos céus;
     Ouviste-me mais luz que língua confessar
         Terror de ti, ó Cristo, ó Deus;
  Sabes o muro, hora, altar, noite escura;
  O ardor do peito ao som e ao trom de ti que leva meus
       Passos para baixo com horror de altura:
E o diafragma teso com o peso, ao fogo da tensão sem ar.

3

                   Franzir da Face
           À frente, inferno pranto
     Atrás, onde um, um só lugar que satisfaça?
          Girei asas de encanto
  E em vôo-coração fugi ao coração do Alto.
  Meu coração, mas foste pomboalado, ah! quanto,
        Paz mensageiro, eu o proclamo, arauto,
Para luzir de flama a flama, alçar de graça a graça.

4

                   Eu sou só pó
             De uma ampulheta – ao pé da
   Parede, nó do movimento, mó
           Que me coa e ecoa à queda;
 Quieto como água parada, até a pedra, a areia,
 Porém encordoado sempre, a cair da aresta
        Em riste do rochedo, com a veia
Da bíblica proposta, pressão, princípio, Cristo só.

5

                   Minha mão beijo
             Para as estrelas, lindistante
   Claroestelar, e a Ele adejo,
           Glória em trovão, triunfante;
 Beijo-me a mão para o milmanchado oriente;
 Pois mesmo sob o mundo em esplendor, radiante,
         O seu mistério preme, imprime a mente;
E eu me rendo quando compreendo e me abençoo se o vejo.

6

                   Não de alegria
             Vem a pressão que o imprime
   Nem do céu (só o sábio o saberia)
           Desce a tensão que oprime –
 Pressão, tensão, de que estrelas e estrondos são o agente,
 Que a culpa escora e aos corações cora e redime –
          Mas que cavalga o tempo como a um rio corrente
(E aqui o fiel vacila, o sem-fé fabula e se desvia).

7

                   Data da ida
             À Galiléia, daquele dia;
  Tumba casulo-cálida de uma triste ventre-vida;
           Joelho de virgem, estrebaria;
 A densa e dispersa Paixão, o suor tremente;
 De onde a efusão, de onde a expansão que se irradia,
          Ainda antes sentida, do ventre de uma enchente –
O que ninguém saberia, só o coração, na extrema lida,

8

                  Revela! Bem ou mal,
           Vale a melhor ou a pior
    Palavra ao fim! Qual polpa ao pal-
         Par, de pele e velo o licor
 Jorra! – e o ser de jus, doce ou acre, com isto
 Trans, luz, borda! – Cedo ou tarde, como for,
         Ao herói do Calvário, aos pés de Cristo –
Se o quer ou não, com fé ou sem – vai o homem afinal.

9

                  Sê adorado entre nós,
           Forma trinúmera, Deus;
   Tortura o teu rebelde, no antro atroz,
       A malícia do homem, com naufrágio e escarcéus.
  Além do dizer doce, aquém da foz das falas,
  És inverno e calor, eu o sei, raios e céus;
       Pai e pastor do coração que abalas:
Tens densas descaídas e é quando mais suave é tua voz.
10

                 Com bigorna e brado
             E com seu fogo forja a mente
    Ou antes, sim, antes, primavera-alado
         Vou por ele, flui nele, mestremente:
 Quer presto como Paulo, no rastro do astro que o ilumina,
 Quer como Agostinho, argúcia e tino, em paz paciente,
    Tem piedade de nós, em nós todos domina,
Mestre, mas sê adorado, pare sempre sê, Rei, adorado.

SEGUNDA PARTE

11

           “Uns me chamam alfange,
           Ou roda e trilho; flama,
      Farpa ou flagelo”, a Morte range
         E a tempestade clama a sua fama.
  Mas nós sonhamos ter raíz na terra – Pó!
  A carne cai diante de nós e, flor da mesma lama,
     Ondulamos nos campos, – olvidando só
Que a foice é cega e ceifa e a relha é turva e tange.

12

           Num sábado, de Bremen, confiantes
           Partem – a América é seu rumo.
     Marujos, mulheres, homens, tripulantes,
           Duzentas almas, em resumo.
 Ó Pai, sob tuas plumas, nem presságio da desgraça,
 De que a meta era a morte e o mar, para um quarto deles, era o túmu-
    Lo; e todavia o lado amargo do arco da tua graça
Não os abarca, nem os milhões de anéis do teu perdão foram bastantes?

13

             Em neve e névoa, ao lêu,
             Longe do porto seguiu
    O Deutschland, no domingo; o mesmo céu,
           O ar infinito, hostil.
  E o mar escuma-escama, trevaturvo, sob a mira da ira
  Do és-nordeste o maldito ponto, o vento vil;
        A neve fogo-fátua e o rede-vira-moinho gira
Rumo ao fundo, o viuvante, desfilho, despai, o fundo breu.

14

              Deriva a sota-vento em treva,
              Não racha em rocha ou fraga –
      Afunda em mole areia. A noite o leva.
           Em Kentish Knock naufraga.
  Bate nos bancos, casco e quilha espreme:
  O mar varre o convés e com estrondo o traga;
     Vela e compasso, hélice e leme
Não mais podem mover ou desviar: a nave entreva.

15

              A Esperança ganhou cãs.
              A Esperança em luto e des-
      Espero e pranto e lutas vãs
           Há doze horas se desfez.
  E treva sem trégua dobrou o dia de dor,
  Sem socorro, só fogo e faróis, até que de vez
     Vidas sem vida vieram se depor
Nas mortalhas gemendo, – tremendo no horror das rajadas malsãs.

16

              Um vem dos mastros para salvar
              As mulheres se esvaindo no convés,
       Com uma corda em torno da cintura, do ar
           É lançado à morte, de viés,
  Com todo o feixe de músculos e o impávido peito:
  Viram-no por horas, indo-e-vindo, através
     Do velo-valo da vaga; o que poderia ter feito
Contra os nós dos novelos do ar, os arremeços das mós do mar?

17

              Era o dedo de Deus – o seu frio,
              Como combatê-lo? no tombadilho iam tombar
        (Que os esmagava) ou na água (que os afogava) em desvario
               Entre os destroços sob a folia do mar.
  A noite uivava ouvindo turva a turba em torvelinho,
  O gemer das mulheres, as crianças carentes a chorar –
      Até que uma leoa se levantou quebrando o burburinho,
Uma profetisa triunfou sobre o tumulto, uma língua virginal luziu.

18

               Ah! tocado em teu casulo de osso,
               Retoma sob a estranha pulsação,
        Expulsando palavras deste solitário poço,
               Aqui, mãe-do-ser-em-mim, coração,
   Indomável perseguidor do mal, mas vera profecia,
   Ora, lágrimas? Sim, lágrimas; que mole madrigal à mão!
       Riso jamais grisalho e rio de alegria,
O que há de ser este gaudio? que bem é esse que vem do teu fosso?
19

               Irmã, uma irmã chama
               Um mestre, seu mestre e meu! –
         E o mar a bordo turbilhona e trama;
                O sal escorchante do escarcéu
    A cega; mas ela na procela só vê uma escura,
    Uma só ancora: alçar-se a Deus, ao Seu
        Ouvido, e a voz da alta sóror que ora
Pelos homens nas vergas e nas gáveas supera a borrasca que brama.

20

               A primeira, entre cinco, descendente
               De um convento de irmãs devotas
         (Ó Deutschland, nome que dói duplamente!
                Ó mundo desviado das rotas!
   Mas Gertrudes, lírio, e Lutero vêm da mesma vila,
   O lírio de Cristo e a fera das florestas remotas:
        Desde a aurora da vida a verdade se destila:
Abel é irmão de Caim, sugam os mesmos peitos, provêm da mesma semente.)

21

                Desamadas pelo amor nelas imerso,
                Banidas do país natal,
         O Reno as recusou. O Tâmisa era adverso.
                Onda, neve, caudal
    Rilharam, mas brilhas mais alto, Órion de luz,
    Tuas palmas pazpausadas pensavam o bem e o mal,
        Ó mártir-mestre: à vista de tua cruz
Flocos de furacão eram fólios em flor – chuvas-lírios do céu doce-asperso

22

                Cinco! o número e o tema
                E a cifra do Cristo crucificado.
         Marca, a marca é de homem, sua algema,
                E a palavra é Sacrificado.
   Mas Ele a imprime, escarlate, em quem recaem suas escolhas,
   O elevado-antes-do-tempo, o que é mais prezado e apreciado,
       Estigma, sinal, signo de cinco folhas,
Para lavrar na lã da ovelha, purpurar as pétalas da rosa-emblema.

23

                Glória, frade Francisco, ao teu fervor,
                Afeiçoado à Vida que se evade;
          Com os nós dos pregos em ti, nicho da lança, dor
               De Sua crucificada amoridade
    E selo de Sua arcanjovinda! e essas vidas diletas,
    Cinco-folhas e filhas do teu orgulho e bondade,
        Estão sóror-seladas nas águas insurretas
Para banhar-se nas bênçãos da Sua chuva-ouro, arfar ao Seu olhar todo-fulgor.

24

                Além, no ameno ocidente,
                Em Gales, numa fronte pastoral,
          Eu, sob um teto, aqui, insciente,
                E elas, no olho do vendaval.
     Ela para o ar quase-treva, o espasmo da espuma, a espessa
     Fúria dos flocos, para a turba que treme e teme o final,
        Clamava: “Ó Cristo, Cristo, vem depressa”:
A cruz ela chama de Cristo e cristianiza a dor com o seu melhor presente.

25

                A grandeza do grito! Qual o seu sentido?
                Arfa, arqui e arcano Ar.       
          É o amor do ser como o seu amante terá sido?
                Arfa, corpo da Morte sem par.
     Diferente era a mente daqueles homens, quando, outrora,
     Com um estamos perdidos em Genesaré, vieram te acordar,
         Ou será que ela implora pela coroa nessa hora,
Quanto maior o combate, tanto maior o conforto ao chegar por ter combatido?

26

                Pois para gáudio do ser
                O gris seio-torrente veio-corrente
        Vai gorar, o azul gaio vai nascer
                De um maio vário e viridente!
    Azul-pulsar e brasa-brisa do alto; ou noite que não se alcança,
    Com fogos de sinos e a Via-Láctea, falena luzfalecente,
      Qual, em vossa medida, é o céu da esperança,
Tesouro nunca visto nem sentido, de que só se ouviu dizer?

27

               Não, não foi essa a razão.
               O ranger do carro, o seu tremor,
        Trabalho do tempo, é que gera a oração
                No coração-encharcado-de-amargor,
     Não o perigo, elétrico terror; mais além se sente
    Que o apelo de Paixão é mais doce quando deriva da dor:
        Outra, eu penso, a cadência de sua mente,
O seu bordão, no embate da borrasca, nas garras do mar-dragão.


28

               Mas como posso... abram-me espaço,
               Deêm-me um... Floresce, fantasia –
        Vare-te a visão? Vês, brilhando baço,
               O que ela... ali então! o Guia,
    Ipse, o único um, Cristo, Cabeça, Soberano,
    Ele vem curar o transe extremo em que a lançou em agonia,
      Sarar, salvar, senhor de vivos e mortos, sobre-humano,
Que Ele cavalgue (ela a louvá-lo), em Seu triunfo, e perfaça a sentença, último passo.

29

               Ah! é um coração enorme,
               É um olho que vê!
        Leu a terrível noite informe
               E soube o quem e o porquê;
    Nomeando-a por quem, se não esse de quem passado
    E presente, céu e terra são a palavra que os lê? –
      Um Simão Pedro, esta alma! em estado
De tarpeiana dureza à tormenta, mas um luz-farol que não dorme.

30

              Jesus, coração-luz,
              Jesus, virgem-nato de Maria,
        Que festa se fez nesta noite, cruz
              Da irmã que te deu alegria! –
    Festa da mulher única sem mancha, inocente,
    Pois assim concebido, assim conceber-te ela poderia,
        Mas aqui houve coração-espasmo, parto da mente,
Palavra que te ouviu e guardou e te nominou a ti: Jesus.

31

               Sim, ela te houve pela dor,
               Pela paciência, mas piedade para os mais!
       Coração, sangra a veia mais amarga por
                Esses inconfessos, inconfortados, os demais –
    Não, não inconfortados, a Providência bem-luz-vinda,
    O dedo de uma doce, oh delicadeza de pluma, a que o seio em paz
          De uma virgem poderia obedecer, ser um sino, soar e ainda
Reunir o rebanho! – é o naufrágio a colheita, é para ti o grão que a
        tempestade vai depor?

32

                Eu te admiro, prócer da procela,
                Do Arquidilúvio, do dano do ano;
        Rochedo e rachadura, vala e vela,
                O dique, o cais e o oceano;
    Mas que estanca e extingues uma mente movente;
    Grão e granito do ser: além do humano
          Desígnio, Deus, entronizado à frente
Da Morte com soberania que prevê mas provê, se vela mas nos vela.

33

                 Com mercê sobressai
                 Da massa das marés, uma arca
        Para quem ouve, para o moroso de amor cai
                Mais baixo do que a morte abarca;
   Veia viva para a visita das prece-presas, aquém-amém,
   Das expirantes penitentes almas – derradeira marca,
       Nosso gigante passio-inspirado que revém,
Pulsando à procela dos seus passos, o Cristo de um piedoso Pai.

34

                 Arde em todo o orbe, neo-nado,
                 Duplo nome da chama,
        Céu-posto, coração-carnato, virgencasulado
                  Milagre-em-Maria-de-flama,
   Dois-numerado Ele em três do trovão-trono!
   Não clarão do dia-do-Juízo, nem breu do céu quando chama;
      Gentil mas régio, a demandar o de que é dono;
Suave chuva, aclare o are, não-fogo de fulgor raio-lançado.

35

                 Ó Dama, em tanta dor
                 Deposta, entre nossa areia,
         Revive em tuas vias, no seio-céu do Valor:
               Que o nosso Rei retorne à aldeia!
    Que ressurreine em nós, arcoirize nossa treva, seja um rubrolume Leste,
    Iluminando-a, à rara-e-cara Bretanha, enquanto Seu reino campeia 
            Orgulho, rosa, príncipe, herói nosso, arcipreste,
Fogo do lar do amor dos corações, dos regimentos dos nossos pensamentos Grão-Senhor.

(1876)


               THE WRECK OF THE DEUTSCHLAND
                        To the
          happy memory of five Franciscan nuns
          exiles by the Falk laws
          drowned between midnight and morning of
          Dec. 7th, 1875

PART THE FIRST.

1

                Thou mastering me   
            God! giver of breath and bread;   
        World’s strand, sway of the sea;   
            Lord of living and dead;   
    Thou hast bound bones and veins in me, fastened me flesh,           
    And after it almost unmade, what with dread,   
        Thy doing: and dost thou touch me afresh?   
Over again I feel thy finger and find thee.   

2

                I did say yes   
            O at lightning and lashed rod;           
        Thou heardst me truer than tongue confess   
            Thy terror, O Christ, O God;   
    Thou knowest the walls, altar and hour and night:   
    The swoon of a heart that the sweep and the hurl of thee trod   
        Hard down with a horror of height:          
And the midriff astrain with leaning of, laced with fire of stress.   

3

                The frown of his face   
            Before me, the hurtle of hell   
        Behind, where, where was a, where was a place?   
            I whirled out wings that spell          
    And fled with a fling of the heart to the heart of the Host.   
    My heart, but you were dovewinged, I can tell,   
        Carrier-witted, I am bold to boast,   
To flash from the flame to the flame then, tower from the grace to the grace.   

4

                I am soft sift           
            In an hourglass—at the wall   
        Fast, but mined with a motion, a drift,   
            And it crowds and it combs to the fall;   
    I steady as a water in a well, to a poise, to a pane,   
    But roped with, always, all the way down from the tall           
        Fells or flanks of the voel, a vein   
Of the gospel proffer, a pressure, a principle, Christ’s gift.   

5

                I kiss my hand   
            To the stars, lovely-asunder   
        Starlight, wafting him out of it; and           
            Glow, glory in thunder;   
    Kiss my hand to the dappled-with-damson west:   
    Since, tho’ he is under the world’s splendour and wonder,   
        His mystery must be instressed, stressed;   
For I greet him the days I meet him, and bless when I understand.          

6

                Not out of his bliss   
            Springs the stress felt   
        Nor first from heaven (and few know this)   
            Swings the stroke dealt—   
    Stroke and a stress that stars and storms deliver,           
    That guilt is hushed by, hearts are flushed by and melt—   
        But it rides time like riding a river   
(And here the faithful waver, the faithless fable and miss).   

7

                It dates from day   
            Of his going in Galilee;           
        Warm-laid grave of a womb-life grey;   
            Manger, maiden’s knee;   
    The dense and the driven Passion, and frightful sweat;   
    Thence the discharge of it, there its swelling to be,   
        Though felt before, though in high flood yet—           
What none would have known of it, only the heart, being hard at bay,   

8

                Is out with it! Oh,   
            We lash with the best or worst   
        Word last! How a lush-kept plush-capped sloe   
            Will, mouthed to flesh-burst,           
    Gush!—flush the man, the being with it, sour or sweet,   
    Brim, in a flash, full!—Hither then, last or first,   
        To hero of Calvary, Christ, ’s feet—   
Never ask if meaning it, wanting it, warned of it—men go.   

9

                Be adored among men,           
            God, three-numberèd form;   
        Wring thy rebel, dogged in den,   
            Man’s malice, with wrecking and storm.   
    Beyond saying sweet, past telling of tongue,   
    Thou art lightning and love, I found it, a winter and warm;           
        Father and fondler of heart thou hast wrung:   
Hast thy dark descending and most art merciful then.   
10

                With an anvil-ding   
            And with fire in him forge thy will   
        Or rather, rather then, stealing as Spring           
            Through him, melt him but master him still:   
    Whether at once, as once at a crash Paul,   
    Or as Austin, a lingering-out sweet skill,   
        Make mercy in all of us, out of us all   
Mastery, but be adored, but be adored King.           

PART THE SECOND

11

            ‘Some find me a sword; some   
            The flange and the rail; flame,   
        Fang, or flood’ goes Death on drum,   
            And storms bugle his fame.   
    But wé dream we are rooted in earth—Dust!          
    Flesh falls within sight of us, we, though our flower the same,   
        Wave with the meadow, forget that there must   
The sour scythe cringe, and the blear share come.   

12

            On Saturday sailed from Bremen,   
            American-outward-bound,           
        Take settler and seamen, tell men with women,   
            Two hundred souls in the round—   
    O Father, not under thy feathers nor ever as guessing   
    The goal was a shoal, of a fourth the doom to be drowned;   
        Yet did the dark side of the bay of thy blessing           
Not vault them, the million of rounds of thy mercy not reeve even them in?   

13

            Into the snows she sweeps,   
            Hurling the haven behind,   
        The Deutschland, on Sunday; and so the sky keeps,   
            For the infinite air is unkind,           
    And the sea flint-flake, black-backed in the regular blow,   
    Sitting Eastnortheast, in cursed quarter, the wind;   
        Wiry and white-fiery and whirlwind-swivellèd snow   
Spins to the widow-making unchilding unfathering deeps.   

14

            She drove in the dark to leeward,           
            She struck—not a reef or a rock   
        But the combs of a smother of sand: night drew her   
            Dead to the Kentish Knock;   
    And she beat the bank down with her bows and the ride of her keel:   
    The breakers rolled on her beam with ruinous shock;           
        And canvas and compass, the whorl and the wheel   
Idle for ever to waft her or wind her with, these she endured.   

15

            Hope had grown grey hairs,   
            Hope had mourning on,   
        Trenched with tears, carved with cares,           
            Hope was twelve hours gone;   
    And frightful a nightfall folded rueful a day   
    Nor rescue, only rocket and lightship, shone,   
        And lives at last were washing away:   
To the shrouds they took,—they shook in the hurling and horrible airs.           

16

            One stirred from the rigging to save   
            The wild woman-kind below,   
        With a rope’s end round the man, handy and brave—   
            He was pitched to his death at a blow,   
    For all his dreadnought breast and braids of thew:           
    They could tell him for hours, dandled the to and fro   
        Through the cobbled foam-fleece, what could he do   
With the burl of the fountains of air, buck and the flood of the wave?   

17

            They fought with God’s cold—   
            And they could not and fell to the deck           
        (Crushed them) or water (and drowned them) or rolled   
            With the sea-romp over the wreck.   
    Night roared, with the heart-break hearing a heart-broke rabble,   
    The woman’s wailing, the crying of child without check—   
        Till a lioness arose breasting the babble,           
A prophetess towered in the tumult, a virginal tongue told.   

18

            Ah, touched in your bower of bone   
            Are you! turned for an exquisite smart,   
        Have you! make words break from me here all alone,   
            Do you!—mother of being in me, heart.           
    O unteachably after evil, but uttering truth,   
    Why, tears! is it? tears; such a melting, a madrigal start!   
        Never-eldering revel and river of youth,   
What can it be, this glee? the good you have there of your own?   
19

            Sister, a sister calling           
            A master, her master and mine!—   
        And the inboard seas run swirling and hawling;   
            The rash smart sloggering brine   
    Blinds her; but she that weather sees one thing, one;   
    Has one fetch in her: she rears herself to divine           
        Ears, and the call of the tall nun   
To the men in the tops and the tackle rode over the storm’s brawling.   

20

            She was first of a five and came   
            Of a coifèd sisterhood.   
        (O Deutschland, double a desperate name!          
            O world wide of its good!   
    But Gertrude, lily, and Luther, are two of a town,   
    Christ’s lily and beast of the waste wood:   
        From life’s dawn it is drawn down,   
Abel is Cain’s brother and breasts they have sucked the same.)           

21

            Loathed for a love men knew in them,   
            Banned by the land of their birth,   
        Rhine refused them. Thames would ruin them;   
            Surf, snow, river and earth   
    Gnashed: but thou art above, thou Orion of light;           
    Thy unchancelling poising palms were weighing the worth,   
        Thou martyr-master: in thy sight   
Storm flakes were scroll-leaved flowers, lily showers—sweet heaven was astrew in them.   
22

            Five! the finding and sake   
            And cipher of suffering Christ.          
        Mark, the mark is of man’s make   
            And the word of it Sacrificed.   
    But he scores it in scarlet himself on his own bespoken,   
    Before-time-taken, dearest prizèd and priced—   
        Stigma, signal, cinquefoil token          
For lettering of the lamb’s fleece, ruddying of the rose-flake.   

23

            Joy fall to thee, father Francis,   
            Drawn to the Life that died;   
        With the gnarls of the nails in thee, niche of the lance, his   
            Lovescape crucified           
    And seal of his seraph-arrival! and these thy daughters   
    And five-livèd and leavèd favour and pride,   
        Are sisterly sealed in wild waters,   
To bathe in his fall-gold mercies, to breathe in his all-fire glances.   

24

            Away in the loveable west,           
            On a pastoral forehead of Wales,   
        I was under a roof here, I was at rest,   
            And they the prey of the gales;   
    She to the black-about air, to the breaker, the thickly   
    Falling flakes, to the throng that catches and quails          
        Was calling ‘O Christ, Christ, come quickly’:   
The cross to her she calls Christ to her, christens her wild-worst Best.   

25

            The majesty! what did she mean?   
            Breathe, arch and original Breath.   
        Is it love in her of the being as her lover had been?           
            Breathe, body of lovely Death.   
    They were else-minded then, altogether, the men   
    Woke thee with a we are perishing in the weather of Gennesareth.   
        Or is it that she cried for the crown then,   
The keener to come at the comfort for feeling the combating keen?           

26

            For how to the heart’s cheering   
            The down-dugged ground-hugged grey   
        Hovers off, the jay-blue heavens appearing   
            Of pied and peeled May!   
    Blue-beating and hoary-glow height; or night, still higher,           
    With belled fire and the moth-soft Milky Way,   
        What by your measure is the heaven of desire,   
The treasure never eyesight got, nor was ever guessed what for the hearing?   

27

            No, but it was not these.   
            The jading and jar of the cart,           
        Time’s tasking, it is fathers that asking for ease   
            Of the sodden-with-its-sorrowing heart,   
    Not danger, electrical horror; then further it finds   
    The appealing of the Passion is tenderer in prayer apart:   
        Other, I gather, in measure her mind’s          
Burden, in wind’s burly and beat of endragonèd seas.   


28

            But how shall I … make me room there:   
            Reach me a … Fancy, come faster—   
        Strike you the sight of it? look at it loom there,   
            Thing that she … there then! the Master,           
    Ipse, the only one, Christ, King, Head:   
    He was to cure the extremity where he had cast her;   
        Do, deal, lord it with living and dead;   
Let him ride, her pride, in his triumph, despatch and have done with his doom there.   

29

            Ah! there was a heart right!           
            There was single eye!   
        Read the unshapeable shock night   
            And knew the who and the why;   
    Wording it how but by him that present and past,   
    Heaven and earth are word of, worded by?—           
        The Simon Peter of a soul! to the blast   
Tarpeian-fast, but a blown beacon of light.   

30

            Jesu, heart’s light,   
            Jesu, maid’s son,   
        What was the feast followed the night           
            Thou hadst glory of this nun?—   
    Feast of the one woman without stain.   
    For so conceivèd, so to conceive thee is done;   
        But here was heart-throe, birth of a brain,   
Word, that heard and kept thee and uttered thee outright.           

31

            Well, she has thee for the pain, for the   
            Patience; but pity of the rest of them!   
        Heart, go and bleed at a bitterer vein for the   
            Comfortless unconfessed of them—   
    No not uncomforted: lovely-felicitous Providence           
    Finger of a tender of; O of a feathery delicacy, the breast of the   
        Maiden could obey so, be a bell to, ring of it, and   
Startle the poor sheep back! is the shipwrack then a harvest, does
       tempest carry the grain for thee?   

32

            I admire thee, master of the tides,   
            Of the Yore-flood, of the year’s fall;          
        The recurb and the recovery of the gulf’s sides,   
            The girth of it and the wharf of it and the wall;   
    Stanching, quenching ocean of a motionable mind;   
    Ground of being, and granite of it: past all   
        Grasp God, throned behind          
Death with a sovereignty that heeds but hides, bodes but abides;   

33

            With a mercy that outrides   
            The all of water, an ark   
        For the listener; for the lingerer with a love glides   
            Lower than death and the dark;           
    A vein for the visiting of the past-prayer, pent in prison,   
    The-last-breath penitent spirits—the uttermost mark   
        Our passion-plungèd giant risen,   
The Christ of the Father compassionate, fetched in the storm of his strides.   

34

            Now burn, new born to the world,           
            Doubled-naturèd name,   
        The heaven-flung, heart-fleshed, maiden-furled   
            Miracle-in-Mary-of-flame,   
    Mid-numbered He in three of the thunder-throne!   
    Not a dooms-day dazzle in his coming nor dark as he came;           
        Kind, but royally reclaiming his own;   
A released shower, let flash to the shire, not a lightning of fire hard-hurled.   

35

            Dame, at our door   
            Drowned, and among our shoals,   
        Remember us in the roads, the heaven-haven of the Reward:           
            Our King back, oh, upon English souls!   
    Let him easter in us, be a dayspring to the dimness of us, be a crimson-cresseted east,   
    More brightening her, rare-dear Britain, as his reign rolls,   
        Pride, rose, prince, hero of us, high-priest,   
Our hearts’ charity’s hearth’s fire, our thoughts’ chivalry’s throng’s Lord.

(1876)   

- Gerard Manley Hopkins, em "Hopkins: a beleza difícil". [introdução e traduções de Augusto de Campos]. São Paulo: Perspectiva, 1997.


****

TRADUÇÃO AÍLA DE OLIVEIRA GOMES

Acordo e sinto o travo da treva, não o dia,
Que horas passamos esta noite ― ó negras horas ―
Que visões, coração, tiveste! Por onde andaste? Em que vias?
E mais virá, antes da luz de tão longa demora.
     Alguém o testemunha. E, se falo de horas sofridas,
Quero dizer anos, toda a vida. E meu lamento arfante
São gritos sem conta, qual cartas perdidas, remetidas
Ao ente mais amado que habita, ai de mim, tão distante!

     Sou fel, coração carbonizado; o decreto de Deus
Mais inescrutável faz-me sentir-me amargo: meu gosto sou eu;
Meus ossos, carne, sangue vertem maldição, amargor.
     Fermento de meu espírito azeda a massa insossa. Vejo
Que os condenados são isto, e, tal como o meu, seu flagelo,
Seus próprios eus perspirantes: só que pior.


I wake and feel the fell of dark, not day.
What hours, O what black hours we have spent
This night! what sights you, heart, saw; ways you went!
And more must, in yet longer light’s delay.

With witness I speak this. But where I say
Hours I mean years, mean life. And my lament
Is cries countless, cries like dead letters sent
To dearest him that lives alas! away.

I am gall, I am heartburn. God`s most deep decree
Bitter would have me taste: my taste was me;
Bones built in me, flesh filled, blood brimmed the curse.

Selfyeast of spirit a dull dough sours. I see
The lost are like this, and their scourge to be
As I am mine, their sweating selves; but worse.

(1885)
- Hopkins, em "Poemas". Gerard Manley Hopkins. [tradução Aíla de Oliveira Gomes]. São Paulo: Companhia das Letras. 1999. 
Alfred William Garrett, William Alexander Comyn Macfarlane 
and Gerard Manley Hopkins - by Thomas C. Bayfield (1866)



FORTUNA CRÍTICA DE GERARD MANLEY HOPKINS
Gerard Hopkins by Anne Spalding
BISERRA, Wiliam Alves. Oração e confissão na poesia mística de Gerard Manley Hopkins. IHU On-Line (UNISINOS. Impresso), v. 1, p. 32-35, 2008.  
BRITTO, Paulo Fernando Henriques. As liberdades de Hopkins. Mais! - Folha de São Paulo, São Paulo, 15 jun. 1997.  
CAMARGO, Luís Gonçales Bueno de.. Tradução da poesia e da prosa de Gerard Manley Hopkins. (Dissertação Mestrado em Teoria e História Literária). Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, 1993. Disponível no link. (acessado em 8.2.2016). 
CAMARGO, Luís Gonçales Bueno de.. Tradução da poesia e da prosa d Gerard Manley Hopkins. (Monografia Graduação em Letras). Universidade Estadual de Campinas, UNICAMP, 1987.
CAMARGO, Luís Gonçales Bueno de.. Gerard Malney Hopkins. In: José Paulo Paes. (Org.). Transverso. Campinas: Editora Unicamp, 1988, v. , p. 23-38. 
DICK, André. A tensão sonora e religiosa da poética de Hopkins. [entrevista realizada com poeta e tradutor Alípio Correia de Franca Neto]. IHU On-Line, edição 282, ano VIII, 17.11.2008. Disponível no link. (acessado em 8.2.2016). 
DICK, André. Um poeta inserido no contexto social e religioso de seu tempo. [entrevista realizada com o médico e padre Aníbal Gil Lopes]. IHU On-Line, edição 282, ano VIII, 17.11.2008. Disponível no link. (acessado em 8.2.2016).
DICK, André. Oração e confissão na poesia mística de Hopkins [entrevista realizada com o doutorando Wiliam Alves Biserra]. IHU On-Line, edição 282, ano VIII, 17.11.2008. Disponível no link. (acessado em 8.2.2016).
FRANCA NETO, Alípio Correia de.; MILTON, John. Literatura inglesa. Curitiba: IESDE Brasil S.A, 2009.
RIPATRAZONE, Nick. O poema mais triste já escrito. in: Orservatório da Imprensa, edição 810, 5.8.2014. Disponível no link. (acessado em 8.2.2016).
 



Gerard Manley Hopkins
OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: IHU ON-LINE - Revista do Instituto Humanitas Unisinos / Antologia de poemas de Gerard Manley Hopkins


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FENSKE, Elfi Kürten; SILVA, José Alexandre da.. (pesquisa, seleção e organização). Gerard Manley Hopkins - poeta inglês. Templo Cultural Delfos, fevereiro/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 8.2.2016.



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