2016: 4º centenário da morte de Cervantes e Shakespeare

William Shakespeare e Miguel de Cervantes Saavedra 

"A liberdade é um dos dons mais preciosos que o céu deu aos homens. Nada a iguala, nem os tesouros que a terra encerra no seu seio, nem os que o mar guarda nos seus abismos. Pela liberdade, tanto quanto pela honra, pode e deve aventurar-se a nossa vida."
- Miguel de Cervantes, em "Dom Quixote". 


400 anos de morte de 
William Shakespeare e Miguel de Cervantes
[1616 - 2016]


MIGUEL DE CERVANTES (1547-1616)
Miguel de Cervantes
Miguel de Cervantes Saavedra, O mais célebre dos escritores espanhóis; autor do imortal D. Quixote de la Mancha. Nasceu em Alcalá de Henares (perto de Madrid) no dia 29 de setembro de 1547 e faleceu em Madrid, 22 de abril de 1616) foi soldado antes de se tornar escritor. Tendo tomado parte na batalha de Lepanto (1571), onde perdeu o uso da mão esquerda, caiu, quando regressava à Espanha, em poder de piratas, que o retiveram por cinco anos. Alguns anos após ter retornado ao seu país, Cervantes passou a dedicar-se exclusivamente à literatura. Em 1584, escreveu a pastoral em verso Galatéia. Depois, conseguiu manter em cena cerca de vinte peças teatrais, entre elas A vida em Argel e Numancia. Em 1605, publicou a primeira parte de D. Quixote, do qual em pouco tempo foram vendidos trinta mil exemplares. Contudo, o autor só viria a concluir esta obra dez anos mais tarde. Cervantes deixou ainda, entre outros trabalhos, as Novelas exemplares (1612), uma coleção de contos que por si só já lhe daria direito a ocupar lugar de destaque nas letras; Viagem ao Parnaso (1614), revista dos poetas do tempo; Persiles e Sigismunda (1617), romance cheio de excentricidades, e diversas comédias, entre as quais se destacam O labirinto de amor, O valente espanhol e O juiz dos divórcios.
:: Fonte: LP&M - Vida e Obra acessado em 30.12.2015).

Fontes e referências de pesquisa
:: Biblioteca Nacional de Portugal/ Ilustradores de Quixote. Disponível no link. (acessado em 30.12.2015).
:: Instituto Cervantes/Biblioteca Virtual Miguel de CervantesDisponível no link. (acessado em 30.12.2015).
:: Biblioteca Nacional de España. Colecção Cervantina da Biblioteca Nacional de Espanha. Disponível no link. (acessado em 30.12.2015).
:: Casa Museo de Cervantes - Valladolid. Disponível no link. (acessado em 30.12.2015).
:: Museo Casa Natal de Cervantes. Disponível no link. (acessado em 30.12.2015).


AFORISMOS E CITAÇÕES DE CERVANTES
"O amor não é senão o desejo; e assim, o desejo é o princípio original de que todas as nossas paixões decorrem, como os riachos da sua origem; por isso, sempre que o desejo de um objecto se acende nos nossos corações, pomo-nos a persegui-lo e a procurá-lo e somos levados a mil desordens."
- Miguel de Cervantes, em "A Galateia". 


"Onde há música não pode haver coisa má."
- Miguel de Cervantes, em "Dom Quixote".


"Se o poeta fosse casto nos seus costumes, os seus versos também o seriam. A pena é a língua da alma: como forem os conceitos que nela se conceberem, assim serão os seus escritos."
- Miguel de Cervantes, em "Dom Quixote".


"Cuide de vossa graça, pois aqueles ali não são gigantes, mas moinhos de vento, e aquilo que pensais serem braços são as pás que, girando o vento, movem a mó."
- Miguel de Cervantes, em "Dom Quixote".


"O poeta pode contar ou cantar as coisas, não como foram mas como deviam ser; e o historiador há-de escrevê-las, não como deviam ser e sim como foram, sem acrescentar ou tirar nada à verdade."
- Miguel de Cervantes, em "Dom Quixote".


"Come pouco ao almoço e menos ainda ao jantar, que a saúde de todo o corpo constrói-se na oficina do estômago."
- Miguel de Cervantes, em "Dom Quixote".


"Feliz de quem recebeu do céu um pedaço de pão e não precisa de agradecer a ninguém além do próprio céu."
- Miguel de Cervantes, em "Dom Quixote".


"As obras que se fazem depressa nunca são terminadas com a perfeição devida."
- Miguel de Cervantes, em "Dom Quixote".


"Um dos efeitos do medo é perturbar os sentidos e fazer que as coisas não pareçam o que são."
- Miguel de Cervantes, em "Dom Quixote". 


"Andar por terras distantes e conversar com diversas pessoas torna os homens ponderados."
- Miguel de Cervantes, em "Conversa de cães".


"O deleite imaginado é muito maior que o gozado, embora nos verdadeiros gostos deva ser o contrário."
- Miguel de Cervantes, em "Conversa de cães".



WILLIAM SHAKESPEARE (1565-1616)
Shakespeare, por Droeshout (1623)
William Shakespeare, Nasceu em Stratford-upon-Avon, Inglaterra, em 23 de abril de 1565, filho de John Shakespeare e Mary Arden. John Shakespeare era um rico comerciante, além de ter ocupado vários cargos da administração da cidade. Mary Arden era oriunda de uma família cultivada. Pouco se sabe da infância e da juventude de Shakespeare, mas imagina-se que tenha freqüentado a escola primária King Edward VI, onde teria aprendido latim e literatura. Em dezembro de 1582, Shakespeare casou-se com Ann Hathaway, filha de um fazendeiro das redondezas. Tiveram três filhos.
A partir de 1552, os dados biográficos são mais abundantes. Em março, estreou no Rose Theatre de Londres uma peça chamada Harry the Sixth, de muito sucesso, que foi provavelmente a primeira parte de Henry VI. Em 1593, Shakespeare publicou seu poema Venus and Adonis e, no ano seguinte, o poema The Rape of Lucrece. Acredita-se que, nessa época, Shakespeare já era um dramaturgo (e um ator, já que os dramaturgos na sua maior parte também participavam da encenação de suas peças) de sucesso. Em 1594, após um período de poucas encenações em Londres, devido à peste, Shakespeare juntou-se à trupe de Lord Chamberlain. Os dois mais célebres dramaturgos do período, Christopher Marlowe (1564-1593) e Thomas Kyd (1558-1594), respectivamente autores de Tamburlaine, the Jew of Malta (Tamburlaine, o judeu de Malta) e Spanish Tragedy (Tragédia espanhola), morreram por esta época, e Shakespeare encontrava-se pela primeira vez sem rival.
Os teatros de madeira elisabetanos eram construções simples, a céu aberto, com um palco que se projetava à frente, em volta do qual se punha a platéia, de pé. Ao fundo, havia duas portas, pelas quais atores entravam e saíam. Acima, uma sacada, que era usada quando tornava-se necessário mostrar uma cena que se passasse em uma ambientação secundária. Não havia cenário, o que abria toda uma gama de versáteis possibilidades, já que, sem cortina, a peça começava quando entrava o primeiro ator e terminava à saída do último, e simples objetos e peças de vestuário desempenhavam importantes funções para localizar a história. As ações se passavam muito rápido. Devido à proximidade com o público, trejeitos e expressões dos atores (todos homens) podiam ser facilmente apreciados. As companhias teatrais eram formadas por dez a quinze membros e funcionavam como cooperativas: todos recebiam participações nos lucros. Escrevia-se, portanto, tendo em mente cada integrante da companhia.
Em 1594, Shakespeare já havia escrito as três partes de Henry VI, Richard III, Titus Andronicus, The Two Gentleman of Verona (Dois cavalheiros de Verona), Love’s Labour’s Lost (Trabalhos de amor perdidos), The Comedy of Errors (A comédia dos erros) e The Taming of the Shrew (A megera domada). Em 1596, morreu o único filho homem de Shakespeare, Hamnet. Logo em seguida, ele escreveu a primeira das suas peças mais famosas, Romeo and Juliet, à qual seguiram-se A Midsummer’s Night Dream (Sonho de uma noite de verão), Richard II e The Merchant of Venice (O mercador de Veneza). Henry IV, na qual aparece Falstaff, seu mais famoso personagem cômico, foi escrita entre 1597-1598. No Natal de 1598, a companhia construiu uma nova casa de espetáculos na margem sul do Tâmisa. Os custos foram divididos pelos diretores da companhia, entre os quais Shakespeare, que deveria ter já alguma fortuna. Nascia o Globe Theatre. Também é de 1598 o reconhecimento de Shakespeare como o mais importante dramaturgo de língua inglesa: suas peças, além de atraírem milhares de espectadores para os teatros de madeira, eram impressas e vendidas sob a forma de livro – às vezes até mesmo pirateados. Seguiram-se Henry V, As You Like It (Como gostais), Jules César – a primeira das suas tragédias da maturidade –, Troilus and Cressida, The Merry Wives of Windsor (As alegres matronas de Windsor), Hamlet e Twelfth Night (Noite de Reis). Shakespeare escreveu a maior parte dos papéis principais de suas tragédias para Richard Burbage, sócio e ator, que primeiro se destacou com Richard III.
Em março de 1603, morreu a rainha Elizabeth. A companhia havia encenado diversas peças para ela, mas seu sucessor, o rei James, contratou-a em caráter permanente, e ela tornou-se conhecida como King’s Men – Homens do Rei. Eles encenaram diversas vezes na corte e prosperaram financeiramente. Seguiram-se All’s Well that Ends Well (Bem está o que bem acaba) e Measure for Measure (Medida por medida), suas comédias mais sombrias, Othello, Macbeth, King Lear, Anthony and Cleopatra e Coriolanus. A partir de 1601 Shakespeare escreveu menos. Em 1608, a King’s Men comprou uma segunda casa de espetáculos, um teatro privado e fechado em Blackfriars. Nesses teatros privados, as peças eram encenadas em ambientes fechados, o ingresso custava mais do que nas casas públicas de espetáculos, e o público, conseqüentemente, era mais seleto. Parece ter sido nessa época que Shakespeare aposentou-se dos palcos: seu nome não aparece nas listas de atores a partir de 1607. Voltou a viver em Stratford, onde era considerado um dos mais ilustres cidadãos. Escreveu então quatro tragicomédias, subgênero que começava a ganhar espaço: Péricles, Cymbeline, The Winter’s Tale (Conto de inverno) e The Tempest (A tempestade), sendo que esta última foi encenada na corte em 1611. Shakespeare morreu em Stratford em *23 de abril de 1616. Foi enterrado na parte da igreja reservada ao clero. Escreveu ao todo 38 peças, 154 sonetos e uma variedade de outros poemas. Suas peças destacam-se pela grandeza poética da linguagem, pela profundidade filosófica e pela complexa caracterização dos personagens. É considerado unanimemente um dos mais importantes autores de todos os tempos.
:: Fonte: LP&M - Vida e Obra (acessado em 30.12.2015).
* Morte de Shakespeare: Em 3 de Maio de 1616, segundo o calendário gregoriano. Ou pelo calendário juliano, usado pela Inglaterra ainda naquele século, no dia 23 de Abril de 1616.

Fontes e referências de pesquisa
:: The Shkespeare - Quartos Archive [Digital collection of pre-1642 editions of William Shakespeare's plays].. (em inglês). Disponível no link. (acessado em 30.12.2015).
:: Works by William Shakespeare at Project Gutenberg. Disponível no link. (acessado em 30.12.2015).

Soneto 76
Por que meu verso é sempre tão carente
De mutações e variação de temas?
Por que não olho as coisas do presente
Atrás de outras receitas e sistemas?
Por que só escrevo essa monotonia
Tão incapaz de produzir inventos
Que cada verso quase denuncia
Meu nome e seu lugar de nascimento?
Pois saiba, amor, só escrevo a seu respeito
E sobre o amor, são meus únicos temas.
E assim vou refazendo o que foi feito,
Reinventando as palavras do poema.
   Como o sol, novo e velho a cada dia,
   O meu amor rediz o que dizia.

Sonnet 76
Why is my verse so barren of new pride,
So far from variation or quick change?
Why with the time do I not glance aside
To new-found methods, and to compounds strange?
Why write I still all one, ever the same,
And keep invention in a noted weed,
That every word doth almost tell my name,
Showing their birth, and where they did proceed?
O know sweet love I always write of you,
And you and love are still my argument;
So all my best is dressing old words new,
Spending again what is already spent:
   For as the sun is daily new and old,
   So is my love still telling what is told.

- William Shakespeare. "Sonnet 76". em: CARNEIRO, Geraldo (tradução e organização). O discurso do amor rasgado. Poemas, cenas e fragmentos de William Shakespeare. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2012.


Soneto 12
Quando a hora dobra em triste e tardo toque
E em noite horrenda vejo escoar-se o dia,
Quando vejo esvair-se a violeta, ou que
A prata a preta têmpora assedia;
Quando vejo sem folha o tronco antigo
Que ao rebanho estendia sombra franca
E em feixe atado agora o verde trigo
Seguir o carro, a barba hirsuta e branca;
Sobre tua beleza então questiono
Que há de sofrer do Tempo a dura prova,
Pois as graças do mundo em abandono
Morrem ao ver nascendo a graça nova.
    Contra a foice do Tempo é vão combate,
    Salvo a prole, que o enfrenta se te abate.


Sonnet XII
When I do count the clock that tells the time,
And see the brave day sunk in hideous night;
When I behold the violet past prime,
And sable curls, all silvered o'er with white; 
When lofty trees I see barren of leaves,
Which erst from heat did canopy the herd,
And summer's green all girded up in sheaves,
Borne on the bier with white and bristly beard,
Then of thy beauty do I question make,
That thou among the wastes of time must go,
Since sweets and beauties do themselves forsake
And die as fast as they see others grow;
    And nothing 'gainst Time's scythe can make
                                          [defence
    Save breed, to brave him when he takes thee
                                          [hence.

- William Shakespeare, em "42 Sonetos". [tradução e apresentação Ivo Barroso]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006.


OUTROS DATAS COMEMORATIVAS EM 2016
:: Centenários 2016 - personagens e obras. Acesse AQUI!

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske
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** Página atualizada em 30.12.2015.



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Um comentário:

  1. Não gostei de ler "Dom Quixote".Acredito que pela época em que foi escrito.Influencia a linguaguem e o modo de usá-la.Em geral não consigo apreciar as obras de outrora ( muito distantes no tempo mesmo).
    Talvez seja um erro, julgar Cervantes por "Dom Quixote".
    De Shakespeare, não li nada.
    Vou ler com atenção os poemas acima.
    Obrigado , Elfi!

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