Carlos Drummond de Andrade - amor natural

Le bonheur de vivre, by Matisse
O amor natural
Guardados durante anos, os poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade estão reunidos nesta excepcional coletânea. O Amor Natural é uma obra inquietante, pois revela uma face nova, mais despojada, porém extremamente fascinante, do poeta. São textos repletos de vida e sensualidade, onde o autor se introjeta ao mesmo tempo em que se expõe, desbravando o corpo enquanto busca, na fluidez e sensualidade da linguagem, a própria nudez da alma.
Carlos Drummond de Andrade - foto: (...)
Quase todos os poemas encontrados aqui são inéditos, à exceção de uns poucos publicados em revistas eróticas durante a década de setenta. Apesar de muitos deles terem servido de base para uma tese sobre o erotismo drummondiano, o autor optou por guardá-los em segredo, confiando a seus herdeiros a tarefa de publicá-los após sua morte.
Embora o senso de humor e a leveza — traços marcantes do estilo do autor — estejam presentes em toda a obra, o elemento mais forte é, sem dúvida, a paixão, a sensualidade à flor da palavra. Como define Affonso Romano de Sant’Anna, as palavras às vezes copulam semanticamente, e o que encontramos nestas páginas é o êxtase poético de um autor que, ao mergulhar fundo em suas próprias sensações, desnuda também o leitor, que se vê frente a frente com suas próprias contradições ao pensar nos limites entre o erótico e o pornográfico, o sexo e o amor.
- trecho da orelha do livro "O amor natural". Rio de Janeiro: Record, 1992.

A outra porta do prazer
A outra porta do prazer,
porta a que se bate suavemente,
seu convite é um prazer ferido a fogo
e, com isso, muito mais prazer.

Amor não é completo se não sabe
coisas que só amor pode inventar.
Procura o estreito átrio do cubículo
aonde não chega a luz, e chega o ardor
de insofrida, mordente

fome de conhecimento pelo gozo.
- Carlos Drummond de Andrade, em "O amor natural". Rio de Janeiro: Record, 1992.


Amor - pois que é palavra essencial
Amor – pois que é palavra essencial
comece esta canção e toda a envolva.
Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,
reúna alma e desejo, membro e vulva.
Quem ousará dizer que ele é só alma?
Quem não sente no corpo a alma expandir-se
até desabrochar em puro grito
de orgasmo, num instante de infinito?
O corpo noutro corpo entrelaçado,
fundido, dissolvido, volta à origem
dos seres, que Platão viu completados:
é um, perfeito em dois; são dois em um.
Integração na cama ou já no cosmo?
Onde termina o quarto e chega aos astros?
Que força em nossos flancos nos transporta
a essa extrema região, etérea, eterna?
Ao delicioso toque do clitóris,
já tudo se transforma, num relâmpago.
Em pequenino ponto desse corpo,
a fonte, o fogo, o mel se concentraram.
Vai a penetração rompendo nuvens
e devassando sóis tão fulgurantes
que nunca a vista humana os suportara,
mas, varado de luz, o coito segue.
E prossegue e se espraia de tal sorte
que, além de nós, além da própria vida,
como ativa abstração que se faz carne,
a idéia de gozar está gozando.
E num sofrer de gozo entre palavras,
menos que isto, sons, arquejos, ais,
um só espasmo em nós atinge o climax:
é quando o amor morre de amor, divino.
Quantas vezes morremos um no outro,
no úmido subterrâneo da vagina,
nessa morte mais suave do que o sono:
a pausa dos sentidos, satisfeita.
Então a paz se instaura. A paz dos deuses,
estendidos na cama, qual estátuas
vestidas de suor, agradecendo
o que a um deus acrescenta o amor terrestre.
- Carlos Drummond de Andrade, em "O amor natural". Rio de Janeiro: Record, 1992.


A carne é triste depois da felação
A carne é triste depois da felação
Depois do sessenta-e-nove a carne é triste.
É areia, o prazer? Não há mais nada
Após esse tremor? Só esperar
Outra convulsão, outro prazer
tão fundo na aparência mas tão raso
na eletricidade do minuto?
Já dilui o orgasmo na lembrança
E gosma
escorre lentamente de tua vida
- Carlos Drummond de Andrade, em "O amor natural". Rio de Janeiro: Record, 1992.



Capa do livro 'O Amor natural,' de Drummond
ilustrações Milton Dacosta
PUBLICAÇÕES DO LIVRO "O AMOR NATURAL"
:: O amor natural. [ilustração Milton Dacosta]. Rio de Janeiro: Record, 1992; 1994.
:: O amor natural. In: Poesia completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003. 
:: O amor natural. São Paulo: Companhia das Letras, 2014. 


ALGUMA BIBLIOGRAFIA SOBRE O LIVRO "O AMOR NATURAL"
BARBOSA, Rita de Cássia. Poemas eróticos de Carlos Drummond de Andrade. (Série Princípios, 110). São Paulo: Ática, 1987, 62p.
LIMA, Francesco Jordani Rodrigues de.. Amor – a palavra essencial da poesia erótica de Drummond. Revista Diadorim, vol. 1, 2006. Disponível no link. (acessado em 26.5.2015).
PRADO, Priscila Finger do; RODRIGUES, Inara.  A representação de eros em O amor natural. Disc. Scientia. Série: Artes, Letras e Comunicação, S. Maria, v. 10, n. 1, p. 1-14, 2009. Disponível no link. (acessado em 26.5.2015).
PRADO, Priscila Finger do. O amor natural: o espetáculo póstumo de Drummond. Miscelânea, Unesp-Assis, vol. 6, jun./nov.2009, p. 139-155. Disponível no link. (acessado em 26.5.2015).


Drummond,  por Kleber Sales
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© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske

Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Carlos Drummond de Andrade - poesia erótica. Templo Cultural Delfos, maio/2015. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Post atualizado em 23.2.2018.



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Um comentário:

  1. TUA BUNDA

    Tua bunda que loucura
    O meu desejo d'a beijar
    De lhe dar minha ternura
    Num nunca mais acabar

    LC

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