Machado de Assis – tradutor

Machado de Assis, por Douglas Docelino

© Pesquisa, seleção, edição e organização: Elfi Kürten Fenske

Por gentileza citar conforme consta no final desse trabalho. 
Página original JULHO/2014 | ** Página atualizada (biografia, fortuna crítica e links atualizados para as primeiras edições dos livros de poesia) AGOSTO/2021.



“A literatura, como Proteu, troca de formas, e nisso
está a condição de sua vitalidade.”

- Machado de Assis



Jean-Michel Massa [in Machado de Assis traducteur]
Jean Michel Massa relaciona 48 textos traduzidos por Machado entre 1856 e 1894: estreando com o poema “On the receipt of my mother’s picture” [“Minha mãe”], publicado como “uma imitação de William Cowper”, e logo depois com o texto “A literatura durante a Restauração”, de Lamartine, em 1857, seguiram-se 16 peças de teatro (a primeira, “La chasse au lion”, de Vattier et De Najac ), 24 poemas, 3 ensaios, 2 romances, 1 conto , 1 fábula e até 1 canção — sendo 39 textos oriundos do francês, 4 do inglês, 3 do alemão, 1 texto cada do italiano e do espanhol. — de autores, entre outros, como Lamartine, Dante Alighieri, Alexandre Dumas Filho, Chateaubriand, Racine, La Fontaine, Alfred de Musset, Molière, Victor Hugo, Beaumarchais, Shakespeare, Charles Dickens, Edgar Allan Poe, Schiller e Heine (ambos a partir de versões francesas) — p. ex. o Canto XXV do “Inferno”, da Divina Comédia , de Dante , monólogo de Hamlet “To be or not to be”, de William Shakespeare , Os trabalhadores do mar, de Victor Hugo, parte de Oliver Twist. , de Charles Dickens, “Suplício de uma mulher”, de Alexandre Dumas Filho e Emile de Girardin , “Prólogo do Intermezzo”, de Heinrich Heine, “O corvo”, de Edgar Allan Poe.
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Fonte: ROSSO, Mauro. Machado, eterno enigma. O Vertebral - artigos, crônicas e utopias. 29 de junho de 2009. Disponível no link. (acessado em 1.8.2014).
:: MASSA, Jean-Michel. Machado de Assis tradutor. 1ª ed., Belo Horizonte: Crisálida, 2008, 128p. 


"[...] mas é preciso atender ao uso das palavras. Não cansam só as línguas que as dizem; elas próprias gastam-se. Quando menos, adoecem. A anemia é um dos seus males freqüentes; o esfalfamento é outro. Só um longo repouso, as pode restituir ao que eram, e torná-las prestáveis." 
- Machado de Assis, em "A simpatia é o meu léxico". Gazeta de Notícias, 12 mar. 1893.



POEMAS TRADUZIDOS POR MACHADO DE ASSIS

poesia traduzida por machado de assis

A ELVIRA
(de Alphonse de Lamartine)

Quando, contigo a sós, as mãos unidas,
Tu, pensativa e muda, e eu, namorado,
Às volúpias do amor a alma entregando,
Deixo correr as horas fugidias;
Ou quando às solidões de umbrosa selva
Comigo te arrebato; ou quando escuto
Alphonse de Lamartine, por Decaisne (1839)
 (Musée de Mâcon)
— Tão só eu, — teus terníssimos suspiros;
E de meus lábios solto
Eternas juras de constância eterna;
Ou quando, enfim, tua adorada fronte
Nos meus joelhos trêmulos descansa,
E eu suspendo meus olhos em teus olhos,
Como às folhas da rosa ávida abelha;
Ai, quanta vez então dentro em meu peito
Vago terror penetra, como um raio!
Empalideço, tremo;
E no seio da glória em que me exalto,
Lágrimas verto que a minha alma assombram!
Tu, carinhosa e trêmula,
Nos teus braços me cinges, — e assustada,
Interrogando em vão, comigo choras!
"Que dor secreta o coração te oprime?"
Dizes tu. "Vem, confia os teus pesares...
Fala! eu abrandarei as penas tuas!
Fala! eu consolarei tua alma aflita!"
Vida do meu viver, não me interrogues!
Quando enlaçado nos teus níveos braços
A confissão de amor te ouço, e levanto
Lânguidos olhos para ver teu rosto,
Mais ditoso mortal o céu não cobre!
Se eu tremo, é porque nessas esquecidas
Afortunadas horas,
Não sei que voz do enleio me desperta,
E me persegue e lembra
Que a ventura coo tempo se esvaece,
E o nosso amor é facho que se extingue!
De um lance, espavorida,
Minha alma voa às sombras do futuro,
E eu penso então: "Ventura que se acaba

Um sonho vale apenas".

*

À ELVIRE
         Oui, l’Anio murmure encore
Le doux nom de Cinthie aux rochers de Tibur;
Vaucluse a retenu le nom chéri de Laure;
         Et Ferrare au siècle futur
Murmurera toujours celui d’Eléonore.
Heureuse la beauté que le poète adore!
         Heureux le nom qu’il a chanté!
Toi qu’en secret son culte honore,
Tu peux, tu peux mourir : dans la postérité
Il lègue à ce qu’il aime une éternelle vie;
Et l’amante et l’amant sur l’aile du génie
Montent, d’un vol égal, à l’immortalité.
Ah ! si mon frêle esquif, battu par la tempête,
Grâce à des vents plus doux, pouvait surgir au port;
Si des soleils plus beaux se levaient sur ma tête;
Si les pleurs d’une amante, attendrissant le sort,
Écartaient de mon front les ombres de la mort!
Peut-être… oui, pardonne, ô maître de la lyre!
Peut-être j’oserais (et que n’ose un amant!)
Égaler mon audace à l’amour qui m’inspire,
Et, dans des chants rivaux célébrant mon délire,
De notre amour aussi laisser un monument!
Ainsi le voyageur qui, dans son court passage,
Se repose un moment à l’abri du vallon,
Sur l’arbre hospitalier dont il goûta l’ombrage,
Avant que de partir, aime à graver son nom.

Vois-tu comme tout change ou meurt dans la nature?
La terre perd ses fruits, les forêts leur parure;
Le fleuve perd son onde au vaste sein des mers;
Par un souffle des vents la prairie est fanée;
Et le char de l’automne, au penchant de l’année,
Roule, déjà poussé par la main des hivers!
Comme un géant armé d’un glaive inévitable,
Atteignant au hasard tous les êtres divers,
Le Temps avec la mort, d’un vol infatigable,
Renouvelle en fuyant ce mobile univers!
Dans l’éternel oubli tombe ce qu’il moissonne:
Tel un rapide été voit tomber sa couronne
         Dans la corbeille des glaneurs.
Tel un pampre jauni voit la féconde automne
Livrer ses fruits dorés au char des vendangeurs.
Vous tomberez ainsi, courtes fleurs de la vie!
Jeunesse, amour, plaisir, fugitive beauté!
Beauté, présent d’un jour que le ciel nous envie,
Ainsi vous tomberez, si la main du génie
         Ne vous rend l’immortalité!

Vois d’un œil de pitié la vulgaire jeunesse,
Brillante de beauté, s’enivrant de plaisir:
Quand elle aura tari sa coupe enchanteresse,
Que restera-t-il d’elle ? à peine un souvenir;
Le tombeau qui l’attend l’engloutit tout entière,
Un silence éternel succède à ses amours;
Mais les siècles auront passé sur ta poussière,
         Elvire, et tu vivras toujours!
Alphonse de Lamartine [tradução Machado de Assis. in: ASSIS, Machado]. Falenas. Rio de Janeiro: B.-L. Garnier, 1870. / Obra Completa, Machado de Assis, vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. 

§§

ESTÂNCIAS A EMA
(de Alexandre Dumas Filho

I - UM PASSEIO DE CARRO
Saímos, ela e eu, dentro de um carro,
Um ao outro abraçados; e como era
Triste e sombria a natureza em torno
Ia conosco a eterna primavera.

No cocheiro fiávamos a sorte
Daquele dia, o carro nos levava
Sem ponto fixo, onde aprouvesse ao homem;
Nosso destino em suas mãos estava.

Quadrava-lhe Saint-Cloud. Eia! pois vamos!
É um sítio de luz, de aroma e riso,
Demais, se as nossas almas conversavam,
Onde estivessem era o paraíso.

Fomos descer junto ao portão do parque;
Era deserto e triste e mudo; o vento
Rolava nuvens cor de cinza; estavam
Seco o arbusto, o caminho lamacento.

Rimo-nos tanto, vendo-te, ó formosa,
(E felizmente ninguém mais te via!)
Arregaçar a ponta do vestido
Que o lindo pé e a meia descobria!

Alexandre Dumas Filho, por Nadar
Tinhas o gracioso acanhamento
Da fidalga gentil pisando a rua;
Desafeita ao andar, teu passo incerto
Deixava conhecer a raça tua.

Uma das tuas mãos alevantava
O vestido de seda; as saias finas
Iam mostrando as rendas e os bordados,
Lambendo o chão, molhando-te as botinas.

Mergulhavam teus pés a cada instante,
Como se o chão quisesse ali guardá-los.
E que afã! Mal podíamos nós ambos
Da cobiçosa terra libertá-los.

Doce passeio aquele! E como é belo
O amor no bosque, em tarde tão sombria!
Tinhas os olhos úmidos, - e a face
A rajada do inverno enrubescia.

Era mais belo que a estação das flores;
Nenhum olhar nos espreitava ali;
Nosso era o parque, unicamente nosso;
Ninguém! estava eu só ao pé de ti!

Perlustramos as longas avenidas
Que o horizonte cinzento limitava.
Sem mesmo ver as deusas conhecidas
Que o arvoredo sem folhas abrigava.

O tanque, onde nadava um níveo cisne
Placidamente, — o passo nos deteve;
Era a face do lago uma esmeralda
Que refletia o cisne alvo de neve.

Veio este a nós, e corno que pedia
Alguma coisa, uma migalha apenas;
Nada tinhas que dar; a ave arrufada
Foi-se cortando as águas tão serenas.

E nadando parou junto ao repuxo
Que de água viva aquele tanque enchia;
O murmúrio das gotas que tombavam
Era o único som que ali se ouvia.

Lá ficamos tão juntos um do outro,
Olhando o cisne e escutando as águas;
Vinha a noite; a sombria cor do bosque
Emoldurava as nossas próprias mágoas.

Num pedestal, onde outras frases ternas,
A mão de outros amantes escreveu,
Fui traçar, meu amor, aquela data
E junto dela pôr o nome teu!

Quando o estio volver àquelas árvores,
E à sombra delas for a gente a flux,
E o tanque refletir as folhas novas,
E o parque encher-se de murmúrio e luz,

Irei um dia, na estação das flores,
Ver a coluna onde escrevi teu nome,
O doce nome que minha alma prende,
E que o tempo, quem sabe? Já consome!

Onde estarás então? Talvez bem longe,
Separada de mim, triste e sombrio;
Talvez tenhas seguido a alegre estrada,
Dando-me áspero inverno em pleno estio.

Porque o inverno não é o frio e o vento,
Nem a erma alameda que ontem vi;
O inverno é o coração sem luz nem flores,
É o que eu hei de ser longe de ti!

II
Correu um ano desde aquele dia,
Em que fomos ao bosque; um ano, sim!
Eu já previa o fúnebre desfecho
Desse tempo feliz, — triste de mim!

O nosso amor nem viu nascer as flores;
Mal aquecia um raio de verão
Para sempre, talvez, das nossas almas
Começou a cruel separação.

Vi esta primavera em longes terras,
Tão ermo de esperanças e de amores,
Olhos fitos na estrada, onde esperava
Ver-te chegar, como a estação das flores.

Quanta vez meu olhar sondou a estrada
Que entre espesso arvoredo se perdia,
Menos triste, inda assim, menos escuro
Que a dúvida cruel que me seguia!

Que valia esse sol abrindo as plantas
E despertando o sono das campinas?
Inda mais altas que as searas louras,
Que valiam as flores peregrinas?

De que servia o aroma dos outeiros?
E o canto matinal dos passarinhos?
Que me importava a mim o arfar da terra,
E nas moitas em flor os verdes ninhos?

O sol que enche de luz a longa estrada,
Se me não traz o que minh'alma espera,
Pode apagar seus raios sedutores:
Não é o sol, não é a primavera!

Margaridas, caí, morrei nos campos,
Perdei o viço e as delicadas cores;
Se ela vos não aspira, o hálito brando,
Já o verão não sois, já não sois flores!

Prefiro o inverno desfolhado e mudo,
O velho inverno, cujo olhar sombrio
Mal se derrama nas cerradas trevas,
E vai morrer no espaço úmido e frio.

É esse o sol das almas desgraçadas;
Venha o inverno, somos tão amigos!
Nossas tristezas são irmãs em tudo:
Temos ambos o frio dos jazigos!

Contra o sol, contra Deus, assim falava
Dês que assomavam matinais albores;
Eu aguardava as tuas doces letras
Com que ao céu perdoasse as belas cores!

Iam assim, um após outro, os dias.
Nada. - E aquele horizonte tão fechado
Nem deixava chegar aos meus ouvidos
O eco longínquo do teu nome amado.

Só, durante seis meses, dia e noite
Chamei por ti na minha angústia extrema;
A sombra era mais densa a cada passo,
E eu murmurava sempre: - Oh! minha Ema!

Um quarto de papel - é pouca coisa;
Quatro linhas escritas - não é nada;
Quem não quer escrever colhe uma rosa,
No vale aberta, à luz da madrugada.

Mandam-se as folhas num papel fechado;
E o proscrito, ansiando de esperança,
Pode entreabrir nos lábios um sorriso
Vendo naquilo uma fiel lembrança.

Era fácil fazê-lo e não fizeste!
Meus dias eram mais desesperados.
Meu pobre coração ia secando
Como esses frutos no verão guardados.

Hoje, se o comprimissem, mal deitava
Uma gota de sangue; nada encerra.
Era uma taça cheia; uma criança,
De estouvada que foi, deitou-a em terra!

É este o mesmo tempo, o mesmo dia.
Vai o no tocando quase ao fim;
É esta a hora em que, formosa e terna,
Conversavas de amor, junto de mim.

O mesmo aspecto: as ruas estão ermas,
A neve coalha o lago preguiçoso;
O arvoredo gastou as roupas verdes,
E nada o cisne triste e silencioso.

Vejo ainda no mármore o teu nome,
Escrito quando ali comigo andaste.
Vamos! Sonhei, foi um delírio apenas,
Era um louco, tu não me abandonaste!

O carro espera: vamos. Outro dia,
Se houver bom tempo, voltaremos, não?
Corre este véu sobre teus olhos lindos,
Olha, não caias, dá-me a tua mão!

Choveu; a chuva umedeceu a terra.
Anda! Ai de mim! Em vão minh'alma espera.
Estas folhas que eu piso em chão deserto
São as folhas da outra primavera!

Não, não estás aqui, chamo-te embalde!
Era ainda uma última ilusão.
Tão longe desse amor fui inda o mesmo,
E vivi dois invernos sem verão.

Porque o verão não é aquele tempo
De vida e de calor que eu não vivi;
É a alma entornando a luz e as flores,
É o que hei de ser ao pé de ti!
- Alexandre Dumas Filho [tradução Machado de Assis]. in: ASSIS, Machado. Falenas. Rio de Janeiro: B.-L. Garnier, 1870 / Obra Completa, Machado de Assis, vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. {Originalmente publicado no Diário do Rio de Janeiro - anno XLV, edição 85, coluna 'Folhetim', Rio de Janeiro, p. 1 -, 6 abril 1865}.

§§

MARIA DUPLESSIS (*(**)
   (de Alexandre Dumas Filho)
      1859 

Fiz promessa, dizendo-te que um dia
Eu iria pedir-te o meu perdão;
Era dever ir abraçar primeiro
A minha doce e última afeição. 

E quando ia apagar tanta saudade
Encontrei já fechada a tua porta;
Soube que uma recente sepultura
Muda fechava a tua fronte morta. 

Soube que, após um longo sofrimento,
Agravara-se a tua enfermidade;
Viva esperança que eu nutria ainda
Despedaçou cruel fatalidade. 

Vi, apertado de fatais lembranças,
A escada que eu subira tão contente;
E as paredes, herdeiras do passado,
Que vêm falar dos mortos ao vivente. 

Subi e abri com lágrimas a porta
Que ambos abrimos a chorar um dia;
E evoquei o fantasma da ventura
Que outrora um céu de rosas nos abria 

Sentei-me à mesa, onde contigo outrora
Em noites belas de verão ceava;
Desses amores plácidos e amenos
Tudo ao meu triste coração falava. 

Fui ao teu camarim, e vi-o ainda
Brilhar com o esplendor das mesmas cores;
E pousei meu olhar nas porcelanas
Onde morriam inda algumas flores... 

Vi aberto o piano em que tocavas;
Tua morte o deixou mudo e vazio,
Como deixa o arbusto sem folhagem,
Passando pelo vale, o ardente estio. 

Tornei a ver o teu sombrio quarto
Onde estava a saudade de outros dias...
Um raio iluminava o leito ao fundo
Onde, rosa de amor, já não dormias. 

As cortinas abri que te amparavam
Da luz mortiça da manhã, querida,
Para que um raio depusesse um toque
De prazer em tua fronte adormecida. 

Era ali que, depois da meia-noite,
Tanto amor nós sonhávamos outrora;
E onde até o raiar da madrugada
Ouvíamos bater hora por hora! 

Então olhavas tu a chama ativa
Correr ali no lar, como a serpente;
É que o sono fugia de teus olhos
Onde já te queimava a febre ardente.

Lembras-te agora, nesse mundo novo,
Dos gozos desta vida em que passaste?
Ouves passar, no túmulo em que dormes,
A turba dos festins que acompanhaste? 

A insônia, como um verme em flor que murcha,
De contínuo essas faces desbotava;
E pronta para amores e banquetes
Conviva e cortesã te preparava.

Hoje, Maria, entre virentes flores,
Dormes em doce e plácido abandono;
A tua alma acordou mais bela e pura,
E Deus pagou-te o retardado sono.

Pobre mulher! em tua última hora
Só um homem tiveste à cabeceira;
E apenas dous amigos dos de outrora
Foram levar-te à cama derradeira.

*

M.D
   Dédié à Thèphile Gautier
         1847

Nous nous étions brouillés, et pourquoi?Je l'ignore. 
Pour rien! pour le soupçon d'un amour inconnu.
Et, moi qui vous ai fuie, aujourd'hui je déplore
De vous avoir quittée et d'être revenu.

Je vous avais écrit que je viendrais, madame,
Pour chercher mon pardon, vous voir à mon retour!
Car je croyais devoir, et du fond de mon âme,
Ma première visite à ce dernier amour.

Et, quand mon âme accourt, depuis longtemps absente,
Votre fenêtre est close et votre seuil fermé;
Et voilà qu'on me dit qu'une tombe récente
Couvre à jamais le front que j'avais tant aimé.

On me dit froidement qu'après une agonie
Qui dura quatre mois, le mal fut le plus fort;
Et la fatalité jette, avec ironie,
A mon espoir trop prompt le mot de votre mort.

J'ai revu, me courbant sous mes lourdes pensées,
L'escalier bien connu, le seuil foulé souvent,
Et les murs qui, témoins des choses effacées,
Pour lui parler du mort, arrêtent le vivant!

Je montai, je rouvris en pleurant cette porte
Que nous avions ouverte en riant tous les deux,
Et, dans mes souvenirs, j'évoquai, chère morte,
Le fantôme voilé de tous nos jours heureux.

Je m'assis à la table où, l'un auprès de l'autre,
Noue revenions souper aux beaux soirs du printemps,
Et de l'amour joyeux, qui jadis fut le nôtre,
J'entendais chaque objet parler en même temps.

Je revis piano dont mon oreille avide
Vous écouta souvent éveiller le concert:
Votre mort a laissé l'instrument froid et vide,
Comme, en partant, l'été laisse l'arbre désert.

J'entrai dans le boudoir, cette oasis divine
Qui nous réjouissait de ses mille couleurs;
Je revis vos tableaux, vos grands vases de Chine,
Où se mouraient encore quelques bouquets de fleurs!

J'ai retrouvé la chambre à la fois douce et sombre;
Et, là, le souvenir veillait fort et sacré.
Un rayon éclairait le lit dormant dans l'ombre,
Mais vous ne dormiez plus dans le lit éclairé!

Je m'assis à côté de la couche déserte,
Triste à voir comme un nid d'hiver au fond des bois,
Et je rivai mes yeux à cette porte ouverte
Que vous aviez franchie une dernière fois.

La chambre s'emplissait de chaleur odorante,
De souvenirs joyeux et pâles : j'entendais
Le murmure alterné de l'horloge ignorante,
Qui sonnait autrefois l'heure que j'attendais!

Je rouvris les rideaux qui, faits de satin rose,
Et voilant le matin le soleil à demi,
Permettaient seulement ce rayon qui dépose
La joie et le réveil sur le front endormi.

Or, c'est là qu'autrefois, ma chère ombre envolée,
Nous restions tous les deux lorsque venait minuit;
Et, depuis ce moment jusqu'à l'aube éveillée,
Nous écoutions passer les heures de la nuit.

Alors vous regardiez, éclairée à sa flamme,
Le feu comme un serpent dans le foyer courir:
Car le sommeil fuyait de vos yeux, et votre âme
Souffrait déjà du mal qui vous a fait mourir.

Vous souvient-il encor, dans le monde où vous êtes,
Des choses de la terre ? – et sur les froids tombeaux,
Entendez vous passer ce cortège de fêtes
Où vous vous épuisiez pour trouver le repos?

Vous souvient-il des nuits où, brûlante, amoureuse,
Tordant sous les baisers votre corps éperdu
Vous trouviez, consumée à cette ardeur fiévreuse,
Dans vos sens fatigués le sommeil attendu?

Ainsi qu'un ver rongeant une fleur qui se fane,
L'incessante insomnie étiolait vos jours,
Et c'est ce qui faisait de vous la courtisane
Prompte à tous les plaisirs, prête à tous les amours.

Maintenant, vous avez parmi les fleurs, Marie,
Sans crainte du réveil, le repos désiré:
Le Seigneur a soufflé sur votre âme flétrie
Et payé d'un seul coup le sommeil arriéré.

Pauvre fille ! on m'a dit qu'à votre heure dernière,
Un seul homme était là pour vous fermer les yeux,
Et que, sur le chemin qui mène au cimetière,
Vos amis d'autrefois étaient réduits à deux 

Eh bien, soyez bénis, vous deux qui, tête nue,
Méprisant les conseils de ce monde insolent,
Avez jusques au bout, de la femme connue,
En vous donnant la main, mené le convoi blanc!

Vous qui l'aviez aimée et qui l'avez suivie,
Qui n'êtes point de ceux qui, duc, marquis ou lord,
Se faisant un orgueil d'entretenir sa vie,
N'ont pas compris l'honneur d'accompagner sa mort.
- Alexandre Dumas Filho  [tradução Machado de Assis]. In: Obra Completa, Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994 / Publicado em "
Novas relíquias". Machado de Assis. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, Waissman, Koogan, 1932 /  Publicado em "Chrysalidas: poesias". Machado de Assis. 1ª ed., Rio de Janeiro: B. L. Garnier 1864 {originalmente publicado em  Diário do Rio de Janeiro, edição 21 - coluna Variedade, Rio de Janeiro, p. 2., 15 abr. 1860}.
(*Nota do tradutorEm 1858, eu e o meu finado amigo F. Gonçalves Braga resolvemos fazer uma tradução livre ou paráfrase destes versos de Alexandre Dumas filho. No dia aprazado apresentamos e confrontamos o nosso trabalho. A tradução dele foi publicada, não me lembro em que jornal.
(**MIRANDA, José Américo; JUCÁ, Gabriela. Poesias de Alexandre Dumas Filho traduzidas por Machado de Assis: comentários e questões. In: INTERFACIS, Belo Horizonte, v. 3, n. 2, 2017. Disponível no link. (acessado em 5.3.2021).

§§

INFERNO, CANTO XXV
         (de Dante Alighieri)

Acabara o ladrão, e, ao ar erguendo
As mãos em figas, deste modo brada:
"Olha, Deus, para ti o estou fazendo!"

E desde então me foi a serpe amada,
Pois uma vi que o colo lhe prendia,
Como a dizer: "não falarás mais nada!"

Outra os braços na frente lhe cingia
Com tantas voltas e de tal maneira
Que ele fazer um gesto não podia.

Ah! Pistóia, por que numa fogueira
Não ardes tu, se a mais e mais impuros,
Teus filhos vão nessa mortal carreira?

Eu, em todos os círculos escuros
Do inferno, alma não vi tão rebelada.
Nem a que em Tebas resvalou dos muros.

E ele fugiu sem proferir mais nada.
Logo um centauro furioso assoma
A bradar: "Onde, aonde a alma danada?”

Dante Alighieri, por Sandro Botticelli
Marema não terá tamanha soma
De reptis quanta vi que lhe ouriçava
O dorso inteiro desde a humana coma.

Junto à nuca do monstro se elevava
De asas abertas um dragão que enchia
De fogo a quanto ali se aproximava.

"Aquele é Caco, — o Mestre me dizia, —
Que, sob as rochas do Aventino, ousado
Lagos de sangue tanta vez abria.

Não vai de seus irmãos acompanhado
Porque roubou malicioso o armento
Que ali pascia na campanha ao lado.

Hércules com a maça e golpes cento,
Sem lhe doer um décimo ao nefando,
Pôs remate a tamanho atrevimento."

Ele falava, e o outro foi andando.
No entanto embaixo vinham para nós
Três espíritos que só vimos quando

Atroara este grito: "Quem sois vós?"
Nisto a conversa nossa interrompendo
Ele, como eu, no grupo os olhos pôs.

Eu não os conheci, mas sucedendo,
Como outras vezes suceder é certo,
Que o nome de um estava outro dizendo,

"Cianfa aonde ficou?" Eu, por que esperto
E atento fosse o Mestre em escutá-lo,
Pus sobre a minha boca o dedo aberto.

Leitor, não maravilha que aceitá-lo
Ora te custe o que vais ter presente,
Pois eu, que o vi, mal ouso acreditá-lo.

Eu contemplava, quando uma serpente
De seis pés temerosa se lhe atira
A um dos três e o colhe de repente.

Com os pés do meio o ventre lhe cingira,
Com os da frente os braços lhe peava,
E ambas as faces lhe mordeu com ira.

Os outros dous às coxas lhe alongava,
E entre elas insinua a cauda que ia
Tocar-lhes os rins e dura os apertava.

A hera não se enrosca nem se enfia
Pela árvore, como a horrível fera
Ao pecador os membros envolvia.

Como se fossem derretida cera,
Um só vulto, uma cor iam tomando,
Quais tinham sido nenhum deles era.

Tal o papel, se o fogo o vai queimando,
Antes de negro estar, e já depois
Que o branco perde, fusco vai ficando.

Os outros dous bradavam: "Ora pois,
Agnel, ai triste, que mudança é essa?
Olha que já não és nem um nem dous!"

Faziam ambas uma só cabeça,
E na única face um rosto misto,
Onde eram dous, a aparecer começa.

Dos quatro braços dous restavam, e isto,
Pernas, coxas e o mais ia mudado
Num tal composto que jamais foi visto.

Todo o primeiro aspecto era acabado;
Dous e nenhum era a cruel figura,
E tal se foi a passo demorado.

Qual camaleão, que variar procura
De sebe às horas em que o sol esquenta,
E correndo parece que fulgura,

Tal uma curta serpe se apresenta,
Para o ventre dos dous corre acendida,
Lívida e cor de um bago de pimenta.

E essa parte por onde foi nutrida
Tenra criança antes que à luz saísse,
Num deles morde, e cai toda estendida.

O ferido a encarou, mas nada disse;
Firme nos pés, apenas bocejava,
Qual se de febre ou sono ali caísse.

Frente a frente, um ao outro contemplava,
E à chaga de um, e à boca de outro, forte
Fumo saía e no ar se misturava.

Cale agora Lucano a triste morte
De Sabelo e Nasídio, e atento esteja
Que o que lhe vou dizer é de outra sorte.

Cale-se Ovídio e neste quadro veja
Que, se Aretusa em fonte nos há posto
E Cadmo em serpe, não lhe tenho inveja.

Pois duas naturezas rosto a rosto
Não transmudou, com que elas de repente
Trocassem a matéria e o ser oposto.

Tal era o acordo entre ambas que a serpente
A cauda em duas caudas fez partidas,
E a alma os pés ajuntava estreitamente.

Pernas e coxas vi-as tão unidas
Que nem leve sinal dava a juntura
De que tivessem sido divididas.

Imita a cauda bífida a figura
Que ali se perde, e a pele abranda, ao passo
Que a pele do homem se tornava dura.

Em cada axila vi entrar um braço,
A tempo que iam esticando à fera
Os dous pés que eram de tamanho escasso.

Os pés de trás a serpe os retorcera
Até formarem-lhe a encoberta parte,
Que no infeliz em pés se convertera.

Enquanto o fumo os cobre, e de tal arte
A cor lhes muda e põe à serpe o velo
Que já da pele do homem se lhe parte,

Um caiu, o outro ergueu-se, sem torcê-lo
Aquele torvo olhar com que ambos iam
A trocar entre si o rosto e a vê-lo.

Ao que era em pé as carnes lhe fugiam
Para as fontes, e ali do que abundava
Duas orelhas de homem lhe saíam.

E o que de sobra ainda lhe ficava
O nariz lhe compõe e lhe perfaz
E o lábio lhe engrossou quanto bastava.

A boca estende o que por terra jaz
E as orelhas recolhe na cabeça,
Bem como o caracol às pontas faz.

A língua, que era então de uma só peça,
E prestes a falar, fendida vi-a,
Enquanto a do outro se une, e o fumo cessa.

A alma, que assim tornado em serpe havia,
Pelo vale fugiu assobiando,
E esta lhe ia falando e lhe cuspia.

Logo a recente espádua lhe foi dando
E à outra disse: "Ora com Buoso mudo,
Rasteje, como eu vinha rastejando!"

Assim na cova sétima vi tudo
Mudar e transmudar; a novidade
Me absolva o estilo desornado e rudo.

Mas que um tanto perdesse a claridade
Dos olhos meus, e turva a mente houvesse,
Não fugiram com tanta brevidade,

Nem tão ocultos, que eu não conhecesse
Puccio Sciancato, única ali vinda
Alma que a forma própria não perdesse;
O outro chorá-lo tu, Gaville, ainda.

*

INFERNO, CANTO XXV
Al fine de le sue parole il ladro
le mani alzò con amendue le fiche,
gridando: «Togli, Dio, ch’a te le squadro!».

Da indi in qua mi fuor le serpi amiche,
perch’ una li s’avvolse allora al collo,
come dicesse ‘Non vo’ che più diche’;

e un’altra a le braccia, e rilegollo,
ribadendo sé stessa sì dinanzi,
che non potea con esse dare un crollo.

Ahi Pistoia, Pistoia, ché non stanzi
d’incenerarti sì che più non duri,
poi che ’n mal fare il seme tuo avanzi?

Per tutt’ i cerchi de lo ’nferno scuri
non vidi spirto in Dio tanto superbo,
non quel che cadde a Tebe giù da’ muri.

El si fuggì che non parlò più verbo;
e io vidi un centauro pien di rabbia
venir chiamando: «Ov’ è, ov’ è l’acerbo?».

Maremma non cred’ io che tante n’abbia,
quante bisce elli avea su per la groppa
infin ove comincia nostra labbia.

Sovra le spalle, dietro da la coppa,
con l’ali aperte li giacea un draco;
e quello affuoca qualunque s’intoppa.

Lo mio maestro disse: «Questi è Caco,
che sotto ’l sasso di monte Aventino,
di sangue fece spesse volte laco.

Non va co’ suoi fratei per un cammino,
per lo furto che frodolente fece
del grande armento ch’elli ebbe a vicino;

onde cessar le sue opere biece
sotto la mazza d’Ercule, che forse
gliene diè cento, e non sentì le diece».

Mentre che sì parlava, ed el trascorse,
e tre spiriti venner sotto noi,
de’ quali né io né ’l duca mio s’accorse,

se non quando gridar: «Chi siete voi?»;
per che nostra novella si ristette,
e intendemmo pur ad essi poi.

Io non li conoscea; ma ei seguette,
come suol seguitar per alcun caso,
che l’un nomar un altro convenette,

dicendo: «Cianfa dove fia rimaso?»;
per ch’io, acciò che ’l duca stesse attento,
mi puosi ’l dito su dal mento al naso.

Se tu se’ or, lettore, a creder lento
ciò ch’io dirò, non sarà maraviglia,
ché io che ’l vidi, a pena il mi consento.

Com’ io tenea levate in lor le ciglia,
e un serpente con sei piè si lancia
dinanzi a l’uno, e tutto a lui s’appiglia.

Co’ piè di mezzo li avvinse la pancia
e con li anterïor le braccia prese;
poi li addentò e l’una e l’altra guancia;

li diretani a le cosce distese,
e miseli la coda tra ’mbedue
e dietro per le ren sù la ritese.

Ellera abbarbicata mai non fue
ad alber sì, come l’orribil fiera
per l’altrui membra avviticchiò le sue.

Poi s’appiccar, come di calda cera
fossero stati, e mischiar lor colore,
né l’un né l’altro già parea quel ch’era:

come procede innanzi da l’ardore,
per lo papiro suso, un color bruno
che non è nero ancora e ’l bianco more.

Li altri due ’l riguardavano, e ciascuno
gridava: «Omè, Agnel, come ti muti!
Vedi che già non se’ né due né uno».

Già eran li due capi un divenuti,
quando n’apparver due figure miste
in una faccia, ov’ eran due perduti.

Fersi le braccia due di quattro liste;
le cosce con le gambe e ’l ventre e ’l casso
divenner membra che non fuor mai viste.

Ogne primaio aspetto ivi era casso:
due e nessun l’imagine perversa
parea; e tal sen gio con lento passo.

Come ’l ramarro sotto la gran fersa
dei dì canicular, cangiando sepe,
folgore par se la via attraversa,

sì pareva, venendo verso l’epe
de li altri due, un serpentello acceso,
livido e nero come gran di pepe;

e quella parte onde prima è preso
nostro alimento, a l’un di lor trafisse;
poi cadde giuso innanzi lui disteso.

Lo trafitto ’l mirò, ma nulla disse;
anzi, co’ piè fermati, sbadigliava
pur come sonno o febbre l’assalisse.

Elli ’l serpente e quei lui riguardava;
l’un per la piaga e l’altro per la bocca
fummavan forte, e ’l fummo si scontrava.

Taccia Lucano omai là dov’ e’ tocca
del misero Sabello e di Nasidio,
e attenda a udir quel ch’or si scocca.

Taccia di Cadmo e d’Aretusa Ovidio,
ché se quello in serpente e quella in fonte
converte poetando, io non lo ’nvidio;

ché due nature mai a fronte a fronte
non trasmutò sì ch’amendue le forme
a cambiar lor matera fosser pronte.

Insieme si rispuosero a tai norme,
che ’l serpente la coda in forca fesse,
e ’l feruto ristrinse insieme l’orme.

Le gambe con le cosce seco stesse
s’appiccar sì, che ’n poco la giuntura
non facea segno alcun che si paresse.

Togliea la coda fessa la figura
che si perdeva là, e la sua pelle
si facea molle, e quella di là dura.

Io vidi intrar le braccia per l’ascelle,
e i due piè de la fiera, ch’eran corti,
tanto allungar quanto accorciavan quelle.

Poscia li piè di retro, insieme attorti,
diventaron lo membro che l’uom cela,
e ’l misero del suo n’avea due porti.

Mentre che ’l fummo l’uno e l’altro vela
di color novo, e genera ’l pel suso
per l’una parte e da l’altra il dipela,

l’un si levò e l’altro cadde giuso,
non torcendo però le lucerne empie,
sotto le quai ciascun cambiava muso.

Quel ch’era dritto, il trasse ver’ le tempie,
e di troppa matera ch’in là venne
uscir li orecchi de le gote scempie;

ciò che non corse in dietro e si ritenne
di quel soverchio, fé naso a la faccia
e le labbra ingrossò quanto convenne.

Quel che giacea, il muso innanzi caccia,
e li orecchi ritira per la testa
come face le corna la lumaccia;

e la lingua, ch’avea unita e presta
prima a parlar, si fende, e la forcuta
ne l’altro si richiude; e ’l fummo resta.

L’anima ch’era fiera divenuta,
suffolando si fugge per la valle,
e l’altro dietro a lui parlando sputa.

Poscia li volse le novelle spalle,
e disse a l’altro: «I’ vo’ che Buoso corra,
com’ ho fatt’ io, carpon per questo calle».

Così vid’ io la settima zavorra
mutare e trasmutare; e qui mi scusi
la novità se fior la penna abborra.

E avvegna che li occhi miei confusi
fossero alquanto e l’animo smagato,
non poter quei fuggirsi tanto chiusi,

ch’i’ non scorgessi ben Puccio Sciancato;
ed era quel che sol, di tre compagni
che venner prima, non era mutato;
l’altr’ era quel che tu, Gaville, piagni.
- Dante Alighieri 
[tradução Machado de Assis], em "Poesias Ocidentais". in: Obra Completa, Machado de Assis, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994 / Publicado originalmente em Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901.

§§

O CORVO
(de Edgar Allan Poe)

                Em certo dia, à hora, à hora
                Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
                Ao pé de muita lauda antiga,
       De uma velha doutrina, agora morta,
       Ia pensando, quando ouvi à porta
       Do meu quarto um soar devagarinho,
                E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
       Há de ser isso e nada mais."

                Ah! bem me lembro! bem me lembro!
                Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
                A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Edgar Allan Poe, by Pakstrax
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
                Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
                E que ninguém chamará mais.

                E o rumor triste, vago, brando
                Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
                Nunca por ele padecido.
       Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
       Levantei-me de pronto, e: "Com efeito,
       (Disse) é visita amiga e retardada
                Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
                Há de ser isso e nada mais."

                Minh'alma então sentiu-se forte;
                Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
                Me desculpeis tanta demora.
       Mas como eu, precisando de descanso,
       Já cochilava, e tão de manso e manso
       Batestes, não fui logo, prestemente,
                Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
                Somente a noite, e nada mais.

                Com longo olhar escruto a sombra,
                Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
                Mas o silêncio amplo e calado,
       Calado fica; a quietação quieta;
       Só tu, palavra única e dileta,
       Lenora, tu, como um suspiro escasso,
                Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
                Foi isso apenas, nada mais.

                Entro coa alma incendiada.
                Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
                "Seguramente, há na janela
       Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
       A explicação do caso misterioso
         Dessas duas pancadas tais.
         Devolvamos a paz ao coração medroso,
         Obra do vento e nada mais."

         Abro a janela, e de repente,
         Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
         Não despendeu em cortesias
         Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
         De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
         Movendo no ar as suas negras alas,
         Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
                Trepado fica, e nada mais.

                Diante da ave feia e escura,
                Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
                Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "O tu que das noturnas plagas
       Vens, embora a cabeça nua tragas,
       Sem topete, não és ave medrosa,
                Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
                E o corvo disse: "Nunca mais".

                Vendo que o pássaro entendia
                A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
                Dificilmente lha entendera.
       Na verdade, jamais homem há visto
       Cousa na terra semelhante a isto:
       Uma ave negra, friamente posta
                Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
                Que este é seu nome: "Nunca mais".

                No entanto, o corvo solitário
                Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
                Toda a sua alma resumisse.
       Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
       Não chegou a mexer uma só pluma,
       Até que eu murmurei: "Perdi outrora
                Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
                E o corvo disse: "Nunca mais!"

                Estremeço. A resposta ouvida
                É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
                Que ele trouxe da convivência
       De algum mestre infeliz e acabrunhado
       Que o implacável destino há castigado
       Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
                Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
                Esse estribilho: "Nunca mais".

                Segunda vez, nesse momento,
                Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
                E mergulhando no veludo
       Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
       Achar procuro a lúgubre quimera,
       A alma, o sentido, o pávido segredo
                Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
                Grasnando a frase: "Nunca mais".

                Assim posto, devaneando,
                Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
                Sentia o olhar que me abrasava.
       Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
       Com a cabeça no macio encosto
       Onde os raios da lâmpada caíam,
                Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
                E agora não se esparzem mais.

                Supus então que o ar, mais denso,
                Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
                Do quarto, estavam meneando
       Um ligeiro turíbulo invisível;
       E eu exclamei então: "Um Deus sensível
       Manda repouso à dor que te devora
                Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
                E o corvo disse: "Nunca mais".

“Profeta, ou o que quer que sejas!
                Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
                Onde reside o mal eterno,
       Ou simplesmente náufrago escapado
       Venhas do temporal que te há lançado
       Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
                Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
                E o corvo disse: "Nunca mais".

                “Profeta, ou o que quer que sejas!
                Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
                Por esse céu que além se estende,
       Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
       Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
       No éden celeste a virgem que ela chora
                Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
                E o corvo disse: "Nunca mais".

                “Ave ou demônio que negrejas!
                Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
                Regressa ao temporal, regressa
       À tua noite, deixa-me comigo.
       Vai-te, não fique no meu casto abrigo
       Pluma que lembre essa mentira tua.
                Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
                E o corvo disse: "Nunca mais".

                E o corvo aí fica; ei-lo trepado
                No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
                Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
       Um demônio sonhando. A luz caída
       Do lampião sobre a ave aborrecida
       No chão espraia a triste sombra; e, fora
                Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
                Não sai mais, nunca, nunca mais!

*

THE RAVEN
horizontal space Once upon a midnight dreary, while I pondered weak and weary,
Over many a quaint and curious volume of forgotten lore,
While I nodded, nearly napping, suddenly there came a tapping,
As of some one gently rapping, rapping at my chamber door.
`'Tis some visitor,' I muttered, `tapping at my chamber door -
Only this, and nothing more.'

Ah, distinctly I remember it was in the bleak December,
And each separate dying ember wrought its ghost upon the floor.
Eagerly I wished the morrow; - vainly I had sought to borrow
From my books surcease of sorrow - sorrow for the lost Lenore -
For the rare and radiant maiden whom the angels name Lenore -
Nameless here for evermore.

And the silken sad uncertain rustling of each purple curtain
Thrilled me - filled me with fantastic terrors never felt before;
So that now, to still the beating of my heart, I stood repeating
`'Tis some visitor entreating entrance at my chamber door -
Some late visitor entreating entrance at my chamber door; -
This it is, and nothing more,'

Presently my soul grew stronger; hesitating then no longer,
`Sir,' said I, `or Madam, truly your forgiveness I implore;
But the fact is I was napping, and so gently you came rapping,
And so faintly you came tapping, tapping at my chamber door,
That I scarce was sure I heard you' - here I opened wide the door; -
Darkness there, and nothing more.

Deep into that darkness peering, long I stood there wondering, fearing,
Doubting, dreaming dreams no mortal ever dared to dream before;
But the silence was unbroken, and the darkness gave no token,
And the only word there spoken was the whispered word, `Lenore!'
This I whispered, and an echo murmured back the word, `Lenore!'
Merely this and nothing more.

Back into the chamber turning, all my soul within me burning,
Soon again I heard a tapping somewhat louder than before.
`Surely,' said I, `surely that is something at my window lattice;
Let me see then, what thereat is, and this mystery explore -
Let my heart be still a moment and this mystery explore; -
'Tis the wind and nothing more!'

Open here I flung the shutter, when, with many a flirt and flutter,
In there stepped a stately raven of the saintly days of yore.
Not the least obeisance made he; not a minute stopped or stayed he;
But, with mien of lord or lady, perched above my chamber door -
Perched upon a bust of Pallas just above my chamber door -
Perched, and sat, and nothing more.

Then this ebony bird beguiling my sad fancy into smiling,
By the grave and stern decorum of the countenance it wore,
`Though thy crest be shorn and shaven, thou,' I said, `art sure no craven.
Ghastly grim and ancient raven wandering from the nightly shore -
Tell me what thy lordly name is on the Night's Plutonian shore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

Much I marvelled this ungainly fowl to hear discourse so plainly,
Though its answer little meaning - little relevancy bore;
For we cannot help agreeing that no living human being
Ever yet was blessed with seeing bird above his chamber door -
Bird or beast above the sculptured bust above his chamber door,
With such name as `Nevermore.'

But the raven, sitting lonely on the placid bust, spoke only,
That one word, as if his soul in that one word he did outpour.
Nothing further then he uttered - not a feather then he fluttered -
Till I scarcely more than muttered `Other friends have flown before -
On the morrow he will leave me, as my hopes have flown before.'
Then the bird said, `Nevermore.'

Startled at the stillness broken by reply so aptly spoken,
`Doubtless,' said I, `what it utters is its only stock and store,
Caught from some unhappy master whom unmerciful disaster
Followed fast and followed faster till his songs one burden bore -
Till the dirges of his hope that melancholy burden bore
Of "Never-nevermore."'

But the raven still beguiling all my sad soul into smiling,
Straight I wheeled a cushioned seat in front of bird and bust and door;
Then, upon the velvet sinking, I betook myself to linking
Fancy unto fancy, thinking what this ominous bird of yore -
What this grim, ungainly, ghastly, gaunt, and ominous bird of yore
Meant in croaking `Nevermore.'

This I sat engaged in guessing, but no syllable expressing
To the fowl whose fiery eyes now burned into my bosom's core;
This and more I sat divining, with my head at ease reclining
On the cushion's velvet lining that the lamp-light gloated o'er,
But whose velvet violet lining with the lamp-light gloating o'er,
She shall press, ah, nevermore!

Then, methought, the air grew denser, perfumed from an unseen censer
Swung by Seraphim whose foot-falls tinkled on the tufted floor.
`Wretch,' I cried, `thy God hath lent thee - by these angels he has sent thee
Respite - respite and nepenthe from thy memories of Lenore!
Quaff, oh quaff this kind nepenthe, and forget this lost Lenore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

`Prophet!' said I, `thing of evil! - prophet still, if bird or devil! -
Whether tempter sent, or whether tempest tossed thee here ashore,
Desolate yet all undaunted, on this desert land enchanted -
On this home by horror haunted - tell me truly, I implore -
Is there - is there balm in Gilead? - tell me - tell me, I implore!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

`Prophet!' said I, `thing of evil! - prophet still, if bird or devil!
By that Heaven that bends above us - by that God we both adore -
Tell this soul with sorrow laden if, within the distant Aidenn,
It shall clasp a sainted maiden whom the angels name Lenore -
Clasp a rare and radiant maiden, whom the angels name Lenore?'
Quoth the raven, `Nevermore.'

`Be that word our sign of parting, bird or fiend!' I shrieked upstarting -
`Get thee back into the tempest and the Night's Plutonian shore!
Leave no black plume as a token of that lie thy soul hath spoken!
Leave my loneliness unbroken! - quit the bust above my door!
Take thy beak from out my heart, and take thy form from off my door!'
Quoth the raven, `Nevermore.'

And the raven, never flitting, still is sitting, still is sitting
On the pallid bust of Pallas just above my chamber door;
And his eyes have all the seeming of a demon's that is dreaming,
And the lamp-light o'er him streaming throws his shadow on the floor;
And my soul from out that shadow that lies floating on the floor
Shall be lifted - nevermore!
-  Edgar Allan Poe 
[tradução Machado de Assis]. in: ASSIS, Machado. "Poesias Ocidentais" - Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901 / Obra Completa, Machado de Assis, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

§§

PRÓLOGO DO INTERMEZZO
(de Heinrich Heine)

Um cavalheiro havia, taciturno,
Que o rosto magro e macilento tinha.
Vagava como quem de algum noturno
Sonho levado, trépido caminha.
Tão alheio, tão frio, tão soturno,
Que a moça em flor e a lépida florinha,
Quando passar tropegamente o viam,
Às escondidas dele escarneciam.

Heinrich Heine, por Moritz Daniel Oppenheim (1831)
A miúdo buscava a mais sombria
Parte da casa, por fugir à gente;
Daquele posto os braços estendia
Tomado de desejo impaciente.
Uma palavra só não proferia.
Mas, pela meia-noite, de repente,
Estranho canto e música escutava,
E logo alguém que à porta lhe tocava.

Furtivamente então entrava a amada
O vestido de espumas arrastando,
Tão vivamente fresca e tão corada
Como a rosa que vem desabrochando;
Brilha o véu; pela esbelta e delicada
Figura as tranças soltas vão brincando;
Os meigos olhos dela os dele fitam,
E um ao outro de ardor se precipitam.

Com a força que amor somente gera,
O peito a cinge, agora afogueado;
O descorado as cores recupera,
E o retraído acaba namorado,
O sonhador desfaz-se da quimera...
Ela o excita, com gesto calculado;
Na cabeça lhe lança levemente
O adamantino véu alvo e luzente.

Ei-lo se vê em sala cristalina
De aquático palácio. Com espanto
Olha, e de olhar a fábrica divina
Quase os olhos lhe cegam. Entretanto,
Junto ao úmido seio a bela ondina
O aperta tanto, tanto, tanto, tanto...
Vão as bodas seguir-se. As notas belas
Vêm tirando das cítaras donzelas.

As notas vêm tirando, e deleitosas
Cantam, e cada uma a dança tece
Erguendo ao ar as plantas graciosas.
Ele, que todo e todo se embevece,
Deixa-se ir nessas horas amorosas...
Mas o clarão de súbito fenece,
E o noivo torna à pálida tristura
Da antiga, solitária alcova escura.

*

II. LYRISHCES INTERMEZZO 
(Bruchstücke) 

Es war’ mal ein Ritter trübselig und stumm, 
Mit hohen, schneeweissen Wangen; 
Er schwankte und schlenderte schlotternd herum,
In dumpfen Träumen befangen. 
Er war so hölzern, so täppisch, so links, 
Die Blümlein und Mägdlein, die kicherten rings, 
Wenn er stolpernd vorbeigegangen. 

Oft sass er im finstersten Winkel zu Haus; 
Er hatt sich vor Menschen verkrochen. 
Da streckte er sehnend die Arme aus, 
Doch hat er kein Wörtlein gesprochen. 
Kam aber die Mitternachtstunde heran, 
Ein seltsames Singen und Klingen begann – 
An die Türe da hört er es pochen. 

Da kommt seine Liebste geschlichen herein 
Im rauschenden Wellenschaumkleide, 
Sie blüht und glüht wie ein Röselein, 
Ihr Schleier ist eitel Geschmeide. 
Goldlocken umspielen die schlanke Gestalt, 
Die Äuglein grüssen mit süsser Gewalt – 
In die Arme sinken sich beide. 

Der Ritter umschlingt sie mit Liebesmacht, 
Der Hölzerne steht jetzt in Feuer, 
Der Blasse errötet, der Träumer erwacht, 
Der Blöde wird freier und freier. 
Sie aber, sie hat ihn gar schalkhaft geneckt, 
Sie hat ihm ganz leise den Kopf bedeckt 
Mit dem weissen, demantenen Schleier. 

In einem kristallenen Wasserpalast 
Ist plötzlich gezaubert der Ritter. 
Er staunt, und die Augen erblinden ihm fast 
Vor alle dem Glanz und Geflitter. 
Doch hält ihn die Nixe umarmet gar traut, 
Der Ritter ist Bräutgam, die Nixe ist Braut, 
Ihre Jungfrauen spielen die Zither. 

Sie spielen und singen, und singen so schön, 
Und heben zum Tanze die Füsse; 
Dem Ritter, dem wollen die Sinne vergehn, 
Und fester umschliesst er die Süsse –
Da löschen auf einmal die Lichter aus, 
Der Ritter sitzt wieder ganz einsam zu Haus, 
In dem düstern Poetenstübchen.
- Heinrich Heine [
tradução Machado de Assis]. publicado em "A Semana, 14 abr. 1894". in: ASSIS, Machado. "Poesia dispersas / Obra Completa, Machado de Assis, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. {originalmente publicado em A Semana - edição 37, Rio de Janeiro, p. 291, 14 abril 1894}.

§§

AS ONDINAS
(Noturno, de Heinrich Heine, 1863)

Beijam as ondas a deserta praia;
Cai do luar a luz serena e pura;
Cavaleiro na areia reclinado
Sonha em hora de amor e de ventura. 

As ondinas, em nívea gaze envoltas,
Deixam do vasto mar o seio enorme;
Tímidas vão, acercam-se do moço,
Olham-se e entre si murmuram: “Dorme!” 

Uma — mulher enfim — curiosa palpa
De seu penacho a pluma flutuante,
Outra procura decifrar o mote
Que traz escrito o escudo rutilante.
Esta, risonha, olhos de vivo fogo,
Tira-lhe a espada límpida e lustrosa,
E, apoiando-se nela, a contemplá-la
Perde-se toda em êxtase amorosa.

Fita-lhe aquela namorados olhos,
E, após girar-lhe em torno embriagada,
Diz: “Que formoso estás, ó flor da guerra,
Quanto te eu dera por te ser amada!”

Uma, tomando a mão ao cavaleiro,
Um beijo imprime-lhe; outra, duvidosa,
Audaz por fim, a boca adormecida
Casa num beijo à boca desejosa.
 
Faz-se de sonso o jovem; caladinho
Finge do sono o plácido desmaio,
E deixa-se beijar pelas ondinas
Da branca lua ao doce e brando raio.
- Heinrich Heine [tradução Machado de Assis]. In: Obra Completa, Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994 / Publicado em "Novas relíquias". Machado de Assis. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, Waissman, Koogan, 1932 /  Originalmente publicado em "Chrysalidas: poesias". Machado de Assis. 1ª ed., Rio de Janeiro: B. L. Garnier 1864.

§§

OS ANIMAIS ISCADOS DA PESTE
            (de La Fontaine)

Mal que espalha o terror e que a ira celeste
       Inventou para castigar
Os pecados do mundo, a peste, em suma, a peste,
Capaz de abastecer o Aqueronte num dia,
       Veio entre os animais lavrar;
       E, se nem tudo sucumbia,
       Certo é que tudo adoecia.
Já nenhum, por dar mate ao moribundo alento,
       Catava mais nenhum sustento.
Não havia manjar que o apetite abrisse,
       Raposa ou lobo que saísse
       Contra a presa inocente e mansa,
       Rola que à rola não fugisse,
       E onde amor falta, adeus, folgança!
O leão convocou uma assembléia e disse:
"Sócios meus, certamente este infortúnio veio
       A castigar-nos de pecados.
       Que o mais culpado entre os culpados
Morra por aplacar a cólera divina.
Para a comum saúde esse é, talvez, o meio.
Em casos tais é de uso haver sacrificados;
       Assim a história no-lo ensina.
Sem nenhuma ilusão, sem nenhuma indulgência,
       Pesquisemos a consciência.
Quanto a mim, por dar mate ao ímpeto glutão,
       Devorei muita carneirada.
       Em que é que me ofendera? em nada.
       E tive mesmo ocasião
Jean de La Fontaine par Hyacinthe Rigaud, en 1690
De comer igualmente o guarda da manada.
Portanto, se é mister sacrificar-me, pronto.
       Mas, assim como me acusei,
Bom é que cada um se acuse, de tal sorte
Que (devemos querê-lo, e é de todo ponto
Justo) caiba ao maior dos culpados a morte."
"— Meu senhor, acudiu a raposa, é ser rei
Bom demais; é provar melindre exagerado.
       Pois então devorar carneiros,
Raça lorpa e vilã, pode lá ser pecado?
       Não. Vós fizestes-lhes, senhor,
       Em os comer, muito favor.
       E no que toca aos pegureiros,
Toda a calamidade era bem merecida,
       Pois são daquelas gentes tais
Que imaginaram ter posição mais subida
       Que a de nós outros animais".
Disse a raposa, e a corte aplaudiu-lhe o discurso.
       Ninguém do tigre nem do urso,
Ninguém de outras iguais senhorias do mato,
       Inda entre os atos mais daninhos,
       Ousava esmerilhar um ato;
       E até os últimos rafeiros,
       Todos os bichos rezingueiros,
Não eram, no entender geral, mais que uns santinhos.
Eis chega o burro: — "Tenho idéia que no prado
De um convento, indo eu a passar, e picado
Da ocasião, da fome e do capim viçoso,
       E pode ser que do tinhoso,
       Um bocadinho lambisquei
Da plantação. Foi um abuso, isso é verdade."
Mal o ouviu, a assembléia exclama: "Aqui del-rei!"
Um lobo, algo letrado, arenga e persuade
Que era força imolar esse bicho nefando,
Empesteado autor de tal calamidade;
       E o pecadilho foi julgado
                Um atentado.
Pois comer erva alheia! ó crime abominando!
       Era visto que só a morte
Poderia purgar um pecado tão duro.
       E o burro foi ao reino escuro.

Segundo sejas tu miserável ou forte
Áulicos te farão detestável ou puro.

*

LES ANIMAUX MALADES DE LA PESTE 
Un mal qui répand la terreur,
Mal que le Ciel en sa fureur
Inventa pour punir les crimes de la terre,
La Peste [puisqu'il faut l'appeler par son nom]
Capable d'enrichir en un jour l'Achéron,
Faisait aux animaux la guerre.
Ils ne mouraient pas tous, mais tous étaient frappés :
On n'en voyait point d'occupés
A chercher le soutien d'une mourante vie ;
Nul mets n'excitait leur envie ;
Ni Loups ni Renards n'épiaient
La douce et l'innocente proie.
Les Tourterelles se fuyaient :
Plus d'amour, partant plus de joie.
Le Lion tint conseil, et dit : Mes chers amis,
Je crois que le Ciel a permis
Pour nos péchés cette infortune ;
Que le plus coupable de nous
Se sacrifie aux traits du céleste courroux,
Peut-être il obtiendra la guérison commune.
L'histoire nous apprend qu'en de tels accidents
On fait de pareils dévouements :
Ne nous flattons donc point ; voyons sans indulgence
L'état de notre conscience.
Pour moi, satisfaisant mes appétits gloutons
J'ai dévoré force moutons.
Que m'avaient-ils fait ? Nulle offense :
Même il m'est arrivé quelquefois de manger
Le Berger.
Je me dévouerai donc, s'il le faut ; mais je pense
Qu'il est bon que chacun s'accuse ainsi que moi :
Car on doit souhaiter selon toute justice
Que le plus coupable périsse.
- Sire, dit le Renard, vous êtes trop bon Roi ;
Vos scrupules font voir trop de délicatesse ;
Et bien, manger moutons, canaille, sotte espèce,
Est-ce un péché ? Non, non. Vous leur fîtes Seigneur
En les croquant beaucoup d'honneur.
Et quant au Berger l'on peut dire
Qu'il était digne de tous maux,
Etant de ces gens-là qui sur les animaux
Se font un chimérique empire.
Ainsi dit le Renard, et flatteurs d'applaudir.
On n'osa trop approfondir
Du Tigre, ni de l'Ours, ni des autres puissances,
Les moins pardonnables offenses.
Tous les gens querelleurs, jusqu'aux simples mâtins,
Au dire de chacun, étaient de petits saints.
L'Ane vint à son tour et dit : J'ai souvenance
Qu'en un pré de Moines passant,
La faim, l'occasion, l'herbe tendre, et je pense
Quelque diable aussi me poussant,
Je tondis de ce pré la largeur de ma langue.
Je n'en avais nul droit, puisqu'il faut parler net.
A ces mots on cria haro sur le baudet.
Un Loup quelque peu clerc prouva par sa harangue
Qu'il fallait dévouer ce maudit animal,
Ce pelé, ce galeux, d'où venait tout leur mal.
Sa peccadille fut jugée un cas pendable.
Manger l'herbe d'autrui ! quel crime abominable !
Rien que la mort n'était capable
D'expier son forfait : on le lui fit bien voir.
Selon que vous serez puissant ou misérable,
Les jugements de cour vous rendront blanc ou noir.
- Jean de La Fontaine [
tradução Machado de Assis]. in: ASSIS, Machado. "Poesias Ocidentais" - Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901 / Obra Completa, Machado de Assis, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.

§§

OS DEUSES DA GRÉCIA (*)
(de Friedrich Schiller)

Quando, coos tênues vínculos de gozo,
Ó Vênus de Amatonte, governavas
Felizes raças, encantados povos
 Dos fabulosos tempos;

Quando fulgia a pompa do teu culto,
E o templo ornavam delicadas rosas,
Ai! quão diverso o mundo apresentava
 A face aberta em risos!

Na poesia envolvia-se a verdade;
Plena vida gozava a terra inteira;
E o que jamais hão de sentir na vida
 Então sentiam homens.

Lei era repousar no amor; os olhos
Nos namorados olhos se encontravam;
Friedrich Schiller, por Gerhard von Kügelgen
Espalhava-se em toda a natureza
 Um vestígio divino.

Onde hoje dizem que se prende um globo
Cheio de fogo, — outrora conduzia
Hélios o carro de ouro, e os fustigados
 Cavalos espumantes.

Povoavam Oréades os montes,
No arvoredo Doríades viviam,
E agreste espuma despejava em flocos
 A urna das Danaides.

Refúgio de uma ninfa era o loureiro;
Tantália moça as rochas habitava;
Suspiravam no arbusto e no caniço
 Sirinx, Filomela.

Cada ribeiro as lágrimas colhia
De Ceres pela esquiva Persefone;
E do outeiro chamava inutilmente
 Vênus o amado amante.

Entre as raças que o pio tessaliano
Das pedras arrancou, - os deuses vinham;
Por cativar uns namorados olhos
   Apolo pastoreava.

Vínculo brando então o amor lançava
Entre os homens, heróis e os deuses todos;
Eterno culto ao teu poder rendiam,
   Ó deusa de Amatonte!

Jejuns austeros, torva gravidade
Banidos eram dos festivos templos;
Que os venturosos deuses só amavam
   Os ânimos alegres.

Só a beleza era sagrada outrora;
Quando a pudica Tiêmone mandava,
Nenhum dos gozos que o mortal respira
   Envergonhava os deuses.

Eram ricos palácios vossos templos;
Lutas de heróis, festins, e o carro e a ode,
Eram da raça humana aos deuses vivos
    A jucunda homenagem.

Saltava a dança alegre em torno a altares;
Louros c'roavam numes; e as capelas
De abertas, frescas rosas, lhes cingiam
    A fronte perfumada.

Anunciava o galhofeiro Baco
O Tirso de Evoé; sátiros fulvos
Iam tripudiando em seu caminho;
    Iam bailando as Mênades.

A dança revelava o ardor do vinho;
De mão em mão corria a taça ardente,
Pois que ao fervor dos ânimos convida
    A face rubra do hóspede.

Nenhum espectro hediondo ia sentar-se
Ao pé do moribundo. O extremo alento
Escapava num ósculo, e voltava
    Um gênio a tocha extinta.

E além da vida, nos infernos, era
Um filho de mortal quem sustentava
A severa balança; e coa voz pia
    Vate ameigava as Fúrias.

Nos Elísios o amigo achava o amigo;
Fiel esposa ia encontrar o esposo;
No perdido caminho o carro entrava
    Do destro automedonte.

Continuava o poeta o antigo canto;
Admeto achava os ósculos de Alceste;
Reconhecia a Pílades o sócio,
    E o rei tessálio as flechas.

Nobre prêmio o valor retribuía
Do que andava nas sendas da virtude;
Ações dignas do céu, filhas dos homens,
    O céu tinham por paga.

Inclinavam-se os deuses ante aquele
Que ia buscar-lhe algum mortal extinto;
E os gêmeos lá no Olimpo alumiavam
    O caminho ao piloto.

Onde és, mundo de risos e prazeres?
Por que não volves, florescente idade?
Só as musas conservam os teus divinos
    Vestígios fabulosos.

Tristes e mudos vejo os campos todos;
Nenhuma divindade aos olhos surge;
Dessas imagens vivas e formosas
    Só a sombra nos resta.

Do norte ao sopro frio e melancólico,
Uma por uma, as flores se esfolharam;
E desse mundo rútilo e divino
    Outro colheu despojos.

Os astros interrogo com tristeza,
Selene, e não te encontro; à selva falo
Falo à vaga do mar, e à vaga, e à selva,
    Inúteis vozes mando.

Da antiga divindade despojada,
Sem conhecer os êxtases que inspira,
Desse esplendor que eterno a fronte lhe orna
    Não sabe a natureza.

Nada sente, não goza do meu gozo;
Insensível à força com que impera,
O pêndulo parece condenado
    Às frias leis que o regem.

Para se renovar, abre hoje a campa,
Foram-se os numes ao país dos vates;
Das roupas infantis despida, a terra
    Inúteis os rejeita.

Foram-se os numes, foram-se; levaram
Consigo o belo, e o grande, e as vivas cores,
Tudo que outrora a vida alimentava,
    Tudo que é hoje extinto.

Ao dilúvio dos tempos escapando,
Nos recessos do Pindo se entranharam:
O que sofreu na vida eterna morte,
    Imortalize a musa!

*

DIE GÖTTER GRIECHENLANDS 
Da ihr noch die schöne Welt regieret,
An der Freude leichtem Gängelband
Selige Geschlechter noch geführet,
Schöne Wesen aus dem Fabelland!
Ach, da euer Wonnedienst noch glänzte,
Wie ganz anders, anders war es da!
Da man deine Tempel noch bekränzte,
Venus Amathusia!

Da der Dichtung zauberische Hülle
Sich noch lieblich um die Wahrheit wand, –
Durch die Schöpfung floß da Lebensfülle,
Und was nie empfinden wird, empfand.
An der Liebe Busen sie zu drücken,
Gab man höhern Adel der Natur,
Alles wies den eingeweihten Blicken,
Alles eines Gottes Spur.

Wo jetzt nur, wie unsre Weisen sagen,
Seelenlos ein Feuerball sich dreht,
Lenkte damals seinen goldnen Wagen
Helios in stiller Majestät.
Diese Höhen füllten Oreaden,
Eine Dryas lebt' in jenem Baum,
Aus den Urnen lieblicher Najaden
Sprang der Ströme Silberschaum.

Jener Lorbeer wand sich einst um Hilfe,
Tantals Tochter schweigt in diesem Stein,
Syrinx' Klage tönt' aus jenem Schilfe,
Philomelas Schmerz aus diesem Hain.
Jener Bach empfing Demeters Zähre,
Die sie um Persephone geweint,
Und von diesem Hügel rief Cythere,
Ach, umsonst! dem schönen Freund.

Zu Deukalions Geschlechte stiegen
Damals noch die Himmlischen herab;
Pyrrhas schöne Töchter zu besiegen,
Nahm der Leto Sohn den Hirtenstab.
Zwischen Menschen, Göttern und Heroen
Knüpfte Amor einen schönen Bund,
Sterbliche mit Göttern und Heroen
Huldigten in Amathunt.

Finstrer Ernst und trauriges Entsagen
War aus eurem heitern Dienst verbannt;
Glücklich sollten alle Herzen schlagen,
Denn euch war der Glückliche verwandt.
Damals war nichts heilig, als das Schöne,
Keiner Freude schämte sich der Gott,
Wo die keusch erröthende Kamöne,
Wo die Grazie gebot.

Eure Tempel lachten gleich Palästen,
Euch verherrlichte das Heldenspiel
An des Isthmus kronenreichen Festen,
Und die Wagen donnerten zum Ziel.
Schön geschlungne, seelenvolle Tänze
Kreisten um den prangenden Altar,
Eure Schläfe schmückten Siegeskränze,
Kronen euer duftend Haar.

Das Evoe muntrer Thyrsusschwinger
Und der Panther prächtiges Gespann
Meldeten den großen Freudebringer,
Faun und Satyr taumeln ihm voran;
Um ihn springen rasende Mänaden,
Ihre Tänze loben seinen Wein,
Und des Wirthes braune Wangen laden
Lustig zu dem Becher ein.

Damals trat kein gräßliches Gerippe
Vor das Bett des Sterbenden. Ein Kuß
Nahm das letzte Leben von der Lippe,
Seine Fackel senkt' ein Genius.
Selbst des Orkus strenge Richterwage
Hielt der Enkel einer Sterblichen,
Und des Thrakers seelenvolle Klage
Rührte die Erinyen.

Seine Freuden traf der frohe Schatten
In Elysiens Hainen wieder an,
Treue Liebe fand den treuen Gatten
Und der Wagenlenker seine Bahn;
Linus' Spiel tönt' die gewohnten Lieder,
In Alcestens Arme sinkt Admet,
Seinen Freund erkennt Orestes wieder,
Seine Pfeile Philoktet.

Höhre Preise stärken da den Ringer
Auf der Tugend arbeitvoller Bahn;
Großer Thaten herrliche Vollbringer
Klimmten zu den Seligen hinan.
Vor dem Wiederforderer der Todten
Neigte sich der Götter stille Schaar;
Durch die Fluten leuchtet dem Piloten
Vom Olymp das Zwillingspaar.

Schöne Welt, wo bist du? – Kehre wieder,
Holdes Blüthenalter der Natur!
Ach, nur in dem Feenland der Lieder
Lebt noch deine fabelhafte Spur.
Ausgestorben trauert das Gefilde,
Keine Gottheit zeigt sich meinem Blick,
Ach, von jenem lebenwarmen Bilde
Blieb der Schatten nur zurück.

Alle jene Blüthen sind gefallen
Von des Nordes schauerlichem Wehn;
Einen zu bereichern unter Allen,
Mußte diese Götterwelt vergehn.
Traurig such' ich an dem Sternenbogen,
Dich, Selene, find' ich dort nicht mehr;
Durch die Wälder ruf' ich, durch die Wogen,
Ach! sie wiederhallen leer!

Unbewußt der Freuden, die sie schenket,
Nie entzückt von ihrer Herrlichkeit,
Nie gewahr des Geistes, der sie lenket,
Sel'ger nie durch meine Seligkeit,
Fühllos selbst für ihres Künstlers Ehre,
Gleich dem todten Schlag der Pendeluhr,
Dient sie knechtisch dem Gesetz der Schwere,
Die entgötterte Natur.

Morgen wieder neu sich zu entbinden,
Wühlt sie heute sich ihr eignes Grab,
Und an ewig gleicher Spindel winden
Sich von selbst die Monde auf und ab.
Müßig kehrten zu dem Dichterlande
Heim die Götter, unnütz einer Welt,
Die, entwachsen ihrem Gängelbande,
Sich durch eignes Schweben hält.

Ja, sie kehrten heim, und alles Schöne,
Alles Hohe nahmen sie mit fort,
Alle Farben, alle Lebenstöne,
Und uns blieb nur das entseelte Wort.
Aus der Zeitfluth weggerissen, schweben
Sie gerettet auf des Pindus Höhn;
Was unsterblich im Gesang soll leben,
Muß im Leben untergehn.

- Friedrich Schiller  [
tradução Machado de Assis]. in: ASSIS, Machado. Falenas. Rio de Janeiro: B.-L. Garnier, 1870 / Obra Completa, Machado de Assis, vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994.
(*Nota do tradutorNão sei alemão; traduzi estes versos pela tradução em prosa francesa de um dos mais conceituados intérpretes da língua de Schiller.

§§

SOUVENIRS D'EXIL

(de Charles Ribeyrolles)
                        ca. 1859

Flor a abrir entre nós, surge agora um infante;
Fronte loura a sorrir em nossa proscrição,
Os numes vêm cercá-lo em seu berço galante,
E para erguê-lo ao céu todos lhe abrem a mão.

Mas ele que será? Calvinista ou romano?
Ou turco, ou querubim de Lutero, ou judeu?
E que santo do céu a este lírio humano,
Ao costume fiel, dará o nome seu?

É o beijo das mães, entre nós... o batismo,
Esse amoroso olhar que nos embala então!
Nós não temos por dogma a fé do barbarismo
E nem numes fatais de sangue e de opressão.

Batizamo-lo em ti, ó liberdade santa,
Alma dos bravos desce — eis um berço infantil.
O teu signo de luz, tua altivez lhe implanta,
Os velhos bendirão a tua mão viril!

Espírito de luz — eia, marchar — avante!
Nossos ossos em pó reflorirão por dom!
Mas conservai a fé, e o futuro radiante,
Lutar é um dever — lembra-te, Charles Frond!

*

SOUVENIR D'EXIL
Un enfant nous est né, dans l’exil; tête blonde,
Fleur qui s’ouvre, il est là. Qu’en ferons nous? Les Dieux,
Autour de son berceau, guettent et font la ronde,
Chacun lui veut donner sa carte pour les cieux.

Le baptisera-t-on Romain ou Calviniste?
Chérubin de Luther ou fils en Loyola?
Sera-t-il juif ou Turc, et quel saint sur la liste
Lui donnera son nom? – C’est la règle – …halte-là!

Le baptême, chez nous, est le baiser des mères,
Ce long et doux regard qui nous berce en naissant;
Nous n’aimons point le dogme aux pieuses colères,
Et nous ne suivons pas les Dieux buveurs de sang.

Nous baptisons nos fils en toi, Liberté sainte!
Descends, âme des forts, sur ce berceau d’un jour;
Mets au coeur tes fiertés, au front ta chaste empreinte;
Et les vieux s’en iront te bénissant d’amour.

O les petits enfants! menez bien vos années:
Sur nos vieux os blanchis que de gerbes croitront!
Mais gardez bien la foi, gagnez les destinées:
Le combat est devoir; – souviens-toi, CHARLES FROND.
(Rio de Janeiro, 27 Janvier 1859)
- Charles Ribeyrolles [tradução Machado de Assis]. in: ASSIS, Machado. "Poesia dispersas / Obra Completa, Machado de Assis, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. {publicado originalmente em Courrier du Brésil, nº 49, p. 4., 2 de décembre de 1860}

§§

TO BE OR NOT TO BE
“Ser ou não ser” – Hamlet, Ato 3 Cena 1
    (de Shakespeare)

Ser ou não ser, eis a questão. Acaso
É mais nobre a cerviz curvar aos golpes
Da ultrajosa fortuna, ou já lutando
Extenso mar vencer de acerbos males?
Morrer, dormir, não mais. E um sono apenas,
Que as angústias extingue e à carne a herança
Da nossa dor eternamente acaba,
Sim, cabe ao homem suspirar por ele.
Machado de Assis & William Shakespeare,
por Cavalcante
Morrer, dormir. Dormir? Sonhar, quem sabe!
Ai, eis a dúvida. Ao perpétuo sono,
Quando o lodo mortal despido houvermos,
Que sonhos hão de vir? Pesá-lo cumpre.
Essa a razão que os lutuosos dias
Alonga do infortúnio. Quem do tempo
Sofrer quisera ultrajes e castigos,
Injúrias da opressão, baldões do orgulho,
Do mal prezado amor choradas mágoas,
Das leis a inércia, dos mandões a afronta,
E o vão desdém que de rasteiras almas
O paciente mérito recebe,
Quem, se na ponta da despida lâmina
Lhe acenara o descanso? Quem ao peso
De uma vida de enfados e misérias
Quereria gemer, se não sentira
Terror de alguma não sabida cousa
Que aguarda o homem para lá da morte,
Esse eterno país misterioso
Donde um viajor sequer há regressado?
Este só pensamento enleia o homem;
Este nos leva a suportar as dores
Já sabidas de nós, em vez de abrirmos
Caminho aos males que o futuro esconde,
E a todos acovarda a consciência.
Assim da reflexão à luz mortiça
A viva cor da decisão desmaia;
E o firme, essencial cometimento,
Que esta idéia abalou, desvia o curso,
Perde-se, até de ação perder o nome.

*

“TO BE OR NOT TO BE”
 Spoken by Hamlet, Act 3 Scene 1
.
To be, or not to be: that is the question:
Whether ’tis nobler in the mind to suffer
The slings and arrows of outrageous fortune,
Or to take arms against a sea of troubles,
And by opposing end them? To die: to sleep;
No more; and by a sleep to say we end
The heart-ache and the thousand natural shocks
That flesh is heir to, ’tis a consummation
Devoutly to be wish’d. To die, to sleep;
To sleep: perchance to dream: ay, there’s the rub;
For in that sleep of death what dreams may come
When we have shuffled off this mortal coil,
Must give us pause: there’s the respect
That makes calamity of so long life;
For who would bear the whips and scorns of time,
The oppressor’s wrong, the proud man’s contumely,
The pangs of despised love, the law’s delay,
The insolence of office and the spurns
That patient merit of the unworthy takes,
When he himself might his quietus make
With a bare bodkin? who would fardels bear,
To grunt and sweat under a weary life,
But that the dread of something after death,
The undiscover’d country from whose bourn
No traveller returns, puzzles the will
And makes us rather bear those ills we have
Than fly to others that we know not of?
Thus conscience does make cowards of us all;
And thus the native hue of resolution
Is sicklied o’er with the pale cast of thought,
And enterprises of great pith and moment
With this regard their currents turn awry,
And lose the name of action.–Soft you now!
The fair Ophelia! Nymph, in thy orisons
Be all my sins remember’d.
- William Shakespeare 
[tradução Machado de Assis]. em "Poesias Ocidentais". in: Obra Completa, Machado de Assis, vol. III. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994 / Publicado originalmente em Poesias Completas, Rio de Janeiro: Garnier, 1901.

§§

LÚCIA
   1860
   (de Alfred de Musset)

Nós estávamos sós; era de noite;
Ela curvara a fronte, e a mão formosa,
Na embriaguez da cisma,
Tênue deixava errar sobre o teclado;
Era um murmúrio; parecia a nota
De aura longínqua a resvalar nas balças
E temendo acordar a ave no bosque;
Em torno respiravam as boninas
Das noites belas as volúpias mornas;
Do parque os castanheiros e os carvalhos
Brando embalavam orvalhados ramos;
Ouvíamos a noite; entrefechada,
A rasgada janela
Deixava entrar da primavera os bálsamos;
A várzea estava erma e o vento mudo;
Na embriaguez da cisma a sós estávamos
E tínhamos quinze anos! 

Lúcia era loira e pálida;
Nunca o mais puro azul de um céu profundo
Em olhos mais suaves refletiu-se.
Eu me perdia na beleza dela,
E aquele amor com que eu a amava — e tanto! —
Era assim de um irmão o afeto casto,
Tanto pudor nessa criatura havia! 

Nem um som despertava em nossos lábios;
Ela deixou as suas mãos nas minhas;
Tíbia sombra dormia-lhe na fronte,
E a cada movimento — na minh’alma
Eu sentia, meu Deus, como fascinam
Os dous signos de paz e de ventura:
Mocidade da fronte
E primavera d’alma.
A lua levantada em céu sem nuvens
Com uma onda de luz veio inundá-la;
Ela viu sua imagem nos meus olhos,
Um riso de anjo desfolhou nos lábios
E murmurou um canto. 

........................................ 

Filha da dor, ó lânguida harmonia!
Língua que o gênio para amor criara —
E que, herdara do céu, nos deu a Itália!
Língua do coração — onde alva idéia,
— Virgem medrosa da mais leve sombra, —
Passa envolta num véu e oculta aos olhos!
Que ouvirá, que dirá nos teus suspiros
Nascidos do ar, que ele respira — o infante?
Vê-se um olhar, uma lágrima na face,
O resto é um mistério ignoto às turbas,
Como o do mar, da noite e das florestas! 

Estávamos a sós e pensativos.
Eu contemplava-a. Da canção saudosa
Como que em nós estremecia um eco.
Ela curvou a lânguida cabeça...
Pobre criança! — no teu seio acaso
Desdêmona gemia? Tu choravas,
E em tua boca consentias triste
Que eu depusesse estremecido beijo;
Guardou-a a tua dor ciosa e muda:
Assim, beijei-te descorada e fria,
Assim, depois tu resvalaste à campa;
Foi, com a vida, tua morte um riso,
E a Deus voltaste no calor do berço.

Doces mistérios do singelo teto
Onde a inocência habita;
Cantos, sonhos d’amor, gozos de infante,
E tu, fascinação doce e invencível,
Que à porta já de Margarida, — o Fausto
Fez hesitar ainda,
Candura santa dos primeiros anos
Onde parais agora?
            Paz à tua alma, pálida menina!
Ermo de vida, o piano em que tocavas
Já não acordará sob os teus dedos!
Alfred de Musset [tradução Machado de Assis]. In: Obra Completa, Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994 Publicado originalmente em "Chrysalidas: poesias". Machado de Assis. 1ª ed., Rio de Janeiro: B. L. Garnier 1864

§§

ALPUJARRA (*)
      (Ballada, de Adam Mickiewicz)
                     1862

Jaz em ruínas o torrão dos mouros;
Pesados ferros o infiel arrasta;
Inda resiste a intrépida Granada;
Mas em Granada a peste assola os povos.

Cum punhado de heróis sustenta a luta
Fero Almansor nas torres de Alpujarra;
Flutua perto a hispânica bandeira;
Há de o sol d’amanhã guiar o assalto.

Deu sinal, ao romper do dia, o bronze;
Arrasam-se trincheiras e muralhas;
No alto dos minaretes erguem-se as cruzes;
Do castelhano a cidadela é presa.

Só, e vendo as coortes destroçadas,
O valente Almansor após a luta
Abre caminho entre as inimigas lanças,
Foge e ilude os cristãos que o perseguiam. 

Sobre as quentes ruínas do castelo,
Entre corpos e restos da batalha,
Dá um banquete o Castelhano, e as presas
E os despojos pelos seus reparte.

Eis que o guarda da porta fala aos chefes:
“Um cavaleiro, diz, de terra estranha
Quer falar-vos; — notícias importantes
Declara que vos traz, e urgência pede”.

Era Almansor, o emir dos Muçulmanos,
Que, fugindo ao refúgio que buscara,
Vem entregar-se às mãos do Castelhano,
A quem só pede conservar a vida. 

“Castelhanos”, exclama, o emir vencido
No limiar do vencedor se prostra;
Vem professar a vossa fé e culto
E crer no verbo dos profetas vossos.

“Espalhe a fama pela terra toda
Que um árabe, que um chefe de valentes,
Irmão dos vencedores quis tornar-se,
E vassalo ficar de estranho cetro!” 

Cala no ânimo nobre ao Castelhano
Um ato nobre... O chefe comovido,
Corre a abraçá-lo, e à sua vez os outros
Fazem o mesmo ao novo companheiro. 

Às saudações responde o emir valente
Com saudações. Em cordial abraço
Aperta ao seio o comovido chefe,
Toma-lhe das mãos e pende-lhe dos lábios. 

Súbito cai, sem forças, nos joelhos;
Arranca do turbante, e com mão trêmula
O enrola aos pés do chefe admirado,
E junto dele arrasta-se por terra. 

Os olhos volve em torno e assombra a todos:
Tinha azuladas, lívidas as faces,
Torcidos lábios por feroz sorriso,
Injetados de sangue ávidos olhos. 

“Desfigurado e pálido me vedes,
Ó infiéis! Sabeis o que vos trago?
Enganei-vos: eu volto de Granada,
E a peste fulminante aqui vos trouxe”.

Ria-se ainda — morto já — e ainda
Abertos tinha as pálpebras e os lábios;
Um sorriso infernal de escárnio impresso
Deixara a morte nas feições do morto.
 
Da medonha cidade os castelhanos
Fogem. A peste os segue. Antes que a custo
Deixado houvessem de Alpujarra a serra,
Sucumbiram os últimos soldados.

*

BALLADA ALPUJARA 
Już w gruzach leżą Maurów posady,
Naród ich dźwiga żelaza,
Bronią się jeszcze twierdze Grenady,
Ale w Grenadzie zaraza. 

Broni się jeszcze z wież Alpuhary,
Almanzor z garstką rycerzy,
Hiszpan pod miastem zatknął sztandary,
Jutro do szturmu uderzy. 

O wschodzie słońca ryknęły spiże,
Rwą się okopy, mur wali,
Już z minaretów błysnęły krzyże,
Hiszpanie zamku dostali. 

Jeden Almanzor, widząc swe roty
Zbite w upornej obronie,
Przerznął się między szable i groty,
Uciekł i zmylił pogonie.

Hiszpan na świeżej zamku ruinie,
Pomiędzy gruzy i trupy,
Zastawia ucztę, kąpie się w winie,
Rozdziela brańce i łupy. 

Wtem straż oddźwierna wodzom donosi,
Że rycerz z obcej krainy,
O ważne posłuchanie co rychlej prosi,
Ważne przywożąc nowiny. 

Był to Almanzor, król muzułmanów,
Rzucił bezpieczne ukrycie,
Sam się oddaje w ręce Hiszpanów,
I tylko błaga o życie. 

„Hiszpanie!” – Woła – „Na waszym progu
Przychodzę czołem uderzyć,
Przychodzę służyć waszemu Bogu,
Waszym prorokom uwierzyć. 

Niechaj rozgłosi sława przed światem,
Że Arab, że król zwalczony,
Swoich zwycięzców chce zostać bratem,
Wasalem obcej korony.” 

Hiszpanie męstwo cenić umieją,
Gdy Almanzora poznali,
Wódź go uścisnął, inni koleją
Jak towarzysza witali. 

Almanzor wszystkich wzajemnie witał,
Wodza najczulej uścisnął,
Objął za szyję, za ręce chwytał,
Na ustach jego zawisnął. 

A wtem osłabnął, padł na kolana,
Ale rękami drżącemi
Wiążąc swój zawój do nóg Hiszpana,
Ciągnął się za nim po ziemi. 

Spojrzał dokoła, wszystkich zadziwił,
Zbladłe, zsiniałe miał lice,
Śmiechem okropnym usta wykrzywił,
Krwią mu nabiegły źrenice. 

„Patrzcie o giaury! Jam siny, blady,
Zgadnijcie czyim ja posłem?
Jam was oszukał, wracam z Grenady,
Ja wam zarazę przyniosłem!”... 

„Pocałowaniem wszczepiłem duszę,
Jad, co was będzie pożerać...
Pójdźcie i patrzcie na me katusze,
Wy tak musicie umierać.” 

Rzuca się, krzyczy, ściąga ramiona;
Chciałby uściśnieniem wiecznem
Wszystkich Hiszpanów przykuć do łona;
Śmieje się – śmiechem serdecznym. 

Śmiał się – już skonał – jeszcze powieki,
Jeszcze się usta nie zwarły,
I uśmiech piekielny został na wieki
Do zimnych liców przywarły. 

Hiszpanie trwożni z miasta uciekli;
Dżuma za nimi w ślad biegła,
Z gór Alpuhary nim się wywlekli,
Reszta ich wojska poległa... 
- Adam Mickiewicz [tradução Machado de Assis]. In: Obra Completa, Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994 Publicado originalmente em "Chrysalidas: poesias". Machado de Assis. 1ª ed., Rio de Janeiro: B. L. Garnier 1864.
(*Nota do tradutorEste canto é extraído de um poema do poeta polaco Mickiewicz, denominado Conrado Wallenrod. Não sei como corresponderá ao original; eu servi-me da tradução francesa do polaco Christiano Ostrowski.
(**) Observação: O poema original tem dois versos (estrofes) há mais do que a tradução publicada em 'Crisalidas'.

§§

CLEÓPATRA (*)
Canto de um escravo
        (de Mme. Emile de Girardin)
 
Filha pálida da noite,
Nume feroz de inclemência,
Sem culto nem reverência,
Nem crentes e nem altar,
A cujos pés descarnados...
A teus negros pés, ó morte!
Só enjeitados da sorte
Ousam frios implorar; 

Toma a tua foice aguda,
A arma dos teus furores;
Venho c’roado de flores
Da vida entregar-te a flor;
É um feliz que te implora
Na madrugada da vida,
Uma cabeça perdida
E perdida por amor. 

Era rainha e formosa,
Sobre cem povos reinava,
E tinha uma turba escrava
Dos mais poderosos reis.
Eu era apenas um servo,
Mas amava-a tanto, tanto,
Que nem tinha um desencanto
Nos seus desprezos cruéis. 

Vivia distante dela
Sem falar-lhe nem ouvi-la;
Só me vingava em segui-la
Para a poder contemplar;
Era uma sombra calada
Que oculta força levava,
E no caminho a aguardava
Para saudá-la e passar. 

Um dia veio ela às fontes
Ver os trabalhos... não pude,
Fraqueou minha virtude,
Caí-lhe tremendo aos pés.
Todo o amor que me devora,
Ó Vênus, o íntimo peito,
Falou naquele respeito,
Falou naquela mudez. 

Só lhe conquistam amores
O herói, o bravo, o triunfante;
E que coroa radiante
Tinha eu para oferecer?
Disse uma palavra apenas
Que um mundo inteiro continha:
— Sou um escravo, rainha,
Amo-te e quero morrer. 

E a nova Ísis que o Egito
Adora curvo e humilhado
O pobre servo curvado
Olhou lânguida a sorrir;
Vi Cleópatra, a rainha,
Tremer pálida em meu seio;
Morte, foi-se-me o receio,
Aqui estou, podes ferir.

Vem! que as glórias insensatas
Das convulsões mais lascivas,
As fantasias mais vivas,
De mais febre e mais ardor,
Toda a ardente ebriedade
Dos seus reais pensamentos,
Tudo gozei uns momentos
Na minha noite de amor.

Pronto estou para a jornada
Da estância escura e escondida;
O sangue, o futuro, a vida
Dou-te, ó morte, e vou morrer;
Uma graça única — peço
Como última esperança:
Não me apagues a lembrança
Do amor que me fez viver.

Beleza completa e rara
Deram-lhe os numes amigos;
Escolhe dos teus castigos
O que infundir mais terror,
Mas por ela, só por ela
Seja o meu padecimento
E tenha o intenso tormento
Na intensidade do amor. 

Deixa alimentar teus corvos
Em minhas carnes rasgadas,
Venham rochas despenhadas
Sobre o meu corpo rolar,
Mas não me tires dos lábios
Aquele nome adorado,
E ao meu olhar encantado
Deixa essa imagem ficar. 

Posso sofrer os teus golpes
Sem murmurar da sentença;
A minha ventura é imensa
E foi em ti que eu a achei;
Mas não me apagues na fronte
Os sulcos quentes e vivos
Daqueles beijos lascivos
Que já me fizeram rei.
- Emile de Girardin [tradução Machado de Assis]. In: Obra Completa, Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994 / Publicado originalmente em "Chrysalidas: poesias". Machado de Assis. 1ª ed., Rio de Janeiro: B. L. Garnier 1864.
(*) Nota do tradutor: Este canto é tirado de uma tragédia de M.me Emile de Girardin. O escravo, tendo visto coroado o seu amor pela rainha do Egito, é condenado a morrer. Com a taça em punho, entoa o belo canto de que fiz esta mal amanhada paráfrase.

§§

A JOVEM CATIVA (*)
           1861
       (de André Chenier)

— “Respeita a foice a espiga que desponta;
Sem receio ao lagar o tenro pâmpano
Bebe no estio as lágrimas da aurora;
Jovem e bela também sou; turvada
A hora presente de infortúnio e tédio
Seja embora; morrer não quero ainda! 

De olhos secos o estóico abrace a morte;
Eu choro e espero; ao vendaval que ruge
Curvo e levanto a tímida cabeça.
Se há dias maus, também os há felizes!
Que mel não deixa um travo de desgosto?
Que mar não incha a um temporal desfeito? 

Tu, fecunda ilusão, vives comigo.
Pesa em vão sobre mim cárcere escuro,
Eu tenho, eu tenho as asas da esperança:
Escapa da prisão do algoz humano,
Nas campinas do céu, mais venturosa,
Mais viva canta e rompe a filomela. 

Deve acaso morrer? Tranqüila durmo,
Tranqüila velo; e a fera do remorso
Não me perturba na vigília ou sono;
Terno afago me ri nos olhos todos
Quando apareço, e as frontes abatidas
Quase reanima um desusado júbilo.
 
Desta bela jornada é longe o termo.
Mal começo; e dos olmos do caminho
Passei apenas os primeiros olmos.
No festim em começo da existência
Um só instante os lábios meus tocaram
A taça em minhas mãos ainda cheia. 

Na primavera estou, quero a colheita
Ver ainda, e bem como o rei dos astros,
De sazão em sazão findar meu ano.
Viçosa sobre a haste, honra das flores,
Hei visto apenas da manhã serena
Romper a luz, — quero acabar meu dia. 

Morte, tu podes esperar; afasta-te!
Vai consolar os que a vergonha, o medo,
O desespero pálido devora.
Pales inda me guarda um verde abrigo,
Ósculos o amor, as musas harmonias;
Afasta-te, morrer não quero ainda!”— 

Assim, triste e cativa, a minha lira
Despertou escutando a voz magoada
De uma jovem cativa; e sacudindo
O peso de meus dias langorosos,
Acomodei à branda lei do verso
Os acentos da linda e ingênua boca. 

Sócios meus de meu cárcere, estes cantos
Farão a quem os ler buscar solícito
Quem a cativa foi; ria-lhe a graça
Na ingênua fronte, nas palavras meigas;
De um termo à vinda há de tremer, como ela,
Quem aos seus dias for casar seus dias.

*

LA JEUNE CAPTIVE
"L'épi naissant mûrit de la faux respecté;
Sans crainte du pressoir, le pampre tout l'été
Boit les doux présents de l'aurore;
Et moi, comme lui belle, et jeune comme lui,
Quoi que l'heure présente ait de trouble et d'ennui,
Je ne veux point mourir encore.

Qu'un stoïque aux yeux secs vole embrasser la mort,
Moi je pleure et j'espère; au noir souffle du Nord
Je plie et relève ma tête.
S'il est des jours amers, il en est de si doux!
Hélas! quel miel jamais n'a laissé de dégoûts?
Quelle mer n'a point de tempête?

L'illusion féconde habite dans mon sein.
D'une prison sur moi les murs pèsent en vain.
J'ai les ailes de l'espérance:
Échappée aux réseaux de l'oiseleur cruel,
Plus vive, plus heureuse, aux campagnes du ciel
Philomène chante et s'élance.

Est-ce à moi de mourir? Tranquille je m'endors,
Et tranquille je veille; et ma veille aux remords
Ni mon sommeil ne sont en proie.
Ma bienvenue au jour me rit dans tous les yeux;
Sur des fronts abattus, mon aspect dans ces lieux
Ranime presque de la joie.

Mon beau voyage encore est si loin de sa fin!
Je pars, et des ormeaux qui bordent le chemin
J'ai passé les premiers à peine,
Au banquet de la vie à peine commencé,
Un instant seulement mes lèvres ont pressé
La coupe en mes mains encor pleine.

Je ne suis qu'au printemps, je veux voir la moisson; 
Et comme le soleil, de saison en saison,
Je veux achever mon année.
Brillante sur ma tige et l'honneur du jardin,
Je n'ai vu luire encor que les feux du matin;
Je veux achever ma journée.

Ô mort! tu peux attendre; éloigne, éloigne-toi;
Va consoler les coeurs que la honte, l'effroi,
Le pâle désespoir dévore.
Pour moi Palès encore a des asiles verts,
Les Amours des baisers, les Muses des concerts.
Je ne veux point mourir encore."

Ainsi, triste et captif, ma lyre toutefois
S'éveillait, écoutant ces plaintes, cette voix,
Ces voeux d'une jeune captive;
Et secouant le faix de mes jours languissants,
Aux douces lois des vers je pliais les accents
De sa bouche aimable et naïve.

Ces chants, de ma prison témoins harmonieux,
Feront à quelque amant des loisirs studieux
Chercher quelle fut cette belle:
La grâce décorait son front et ses discours,
Et, comme elle, craindront de voir finir leurs jours
Ceux qui les passeront près d'elle.
- André Chenier [tradução Machado de Assis]. In: Obra Completa, Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994 / Publicado originalmente em "Chrysalidas: poesias". Machado de Assis. 1ª ed., Rio de Janeiro: B. L. Garnier 1864.
(*Nota do tradutor: Foi com alguma hesitação que eu fiz inserir no volume estes versos. Já bastava o arrojo de traduzir a maviosa elegia de Chenier. Poderia eu conservar a grave simplicidade do original? A animação de um amigo decidiu-me a não imolar o trabalho já feito; aí fica a poesia; se me sair mal, corre por conta do amigo anônimo.

§§

CEGONHAS E RODOVALHOS
(de Bouillet)

            A Anísio Sempônio Rufo 

Salve, rei dos mortais, Semprônio invicto,
Tu que estreaste nas romanas mesas
O rodovalho fresco e a saborosa
    Pedi-rubra cegonha!
Desentranhando os mármores de Frígia,
Ou já rompendo ao bronze o escuro seio,
Justo era que mandasse a mão do artista
    Teu nobre rosto aos evos. 

Por que fosses maior aos olhos pasmos
Das nações do Universo, ó pai dos molhos,
Ó pai das comezainas, em criar-te
    Teu século esfalfou-se.
A tua vinda ao mundo prepararam
Os destinos, e acaso amiga estrela
Ao primeiro vagido de teus lábios
    Entre nuvens luzia. 

Antes de ti, no seu vulgar instinto,
Que comiam romanos? Carne insossa
Dos seus rebanhos vis, e uns pobres frutos,
    Pasto bem digno deles;
A escudela de pau outrora ornava,
Com o saleiro antigo, a mesa rústica,
A mesa em que, três séculos contados,
    Comeram senadores.

E quando, por salvar a pátria em risco,
Os velhos se ajuntavam, quantas vezes
O cheiro do alho enchia a antiga cúria,
    O pórtico sombrio,
Onde vencidos reis o chão beijavam;
Quantas, deixando em meio a mal cozida,
A sensabor chanfana, iam de um salto
    À conquista do mundo! 

Ao voltar dos combates, vencedores,
Carga de glória a nau trazia ao porto,
Reis vencidos, tetrarcas subjugados,
    E rasgadas bandeiras...
Iludiam-se os míseros! Bem hajas,
Bem hajas tu, grande homem, que trouxeste
Na tua ovante barca à ingrata Roma
    Cegonhas, rodovalhos! 

Maior que esse marujo que estripava,
Coo rijo arpéu, as naus cartaginesas
Tu, Semprônio, coas redes apanhavas
    Ouriçado marisco;
Tu, glotão vencedor, cingida a fronte
Coo verde mirto, a terra percorreste,
Por encontrar os fartos, os gulosos
    Ninhos de finos pássaros. 

Roma desconheceu teu gênio, ó Rufo!
Dizem até (vergonha!) que negara
Aos teimosos desejos que nutrias
    O voto da pretura.
Mas a ti, que te importa a voz da turba?
— Efêmero rumor que o vento leva
Como a vaga do mar. Não, não raiaram
    Os teus melhores dias. 

Virão, quando aspirar a invicta Roma
As preguiçosas brisas do oriente;
Quando Coa mitra d'ouro, o descorado,
    O cidadão romano,
Pelo foro arrastar o tardo passo
E sacudir da toga roçagante,
Ás virações os tépidos perfumes
    Como um sátrapa assírio.
 
Virão, virão, quando na escura noite,
A orgia imperial encher o espaço
De viva luz, e embalsamar as ondas
    Com os seus bafos quentes;
Então do sono acordarás, e a sombra,
A tua sacra sombra irá pairando
Ao ruído das músicas noturnas
    Nas rochas de Capréia.

Ó mártir dos festins! Queres vingança?
Tê-las-ás e à farta, à tua grã memória;
Vinga-te o luxo que domina a Itália;
    Ressurgirás ovante
Ao dia em que na mesa dos romanos
Vier pompear o javali silvestre,
Prato a que der os finos molhos Tróia
    E rouxinol as línguas.

*

CIGONES ET TURBOTS
    À Asinius Sempronins Rufus.

Salut, Sempronius, mortel inimitable!
Ô toi qui le premier fis servir sur ta table
La cigogne au pied rouge et le turbot marin.
L’artiste, éternisant ta divine effigie,
Devait tailler pour toi les marbres de Phrygie
Et graver tes traits sur l’airain.

Pour te montrer plus grand aux nations béantes,
Père des bons festins et des sauces piquantes,
Ton siècle s’épuisa dans ton enfantement.
Les destins dès longtemps préparaient ta venue,
Et quelque astre inconnu dut briller sous la nue
À ton premier vagissement!

Avant toi, les Romains, dans leur instinct vulgaire,
De la chair des troupeaux et des fruits de la terre
Rassasiaient leur faim, digne de vils pasteurs;
Et l’écuelle de bois et la salière antique
Ornèrent, trois cents ans, cette table rustique
Où ruminaient les sénateurs.

Quand ils se rassemblaient pour sauver la patrie,
Souvent l’odeur de l’ail emplissait la curie,
Jusqu’au portique sombre où s’inclinaient les rois,
Et laissant à moitié quelque brouet immonde,
Ils s’élançaient, d’un bond, à l’empire du monde,
Gorgés de raves et de pois.

Au retour des combats, après quelque victoire,
Leur nef jetait au port sa cargaison de gloire,
Tétrarques, chefs vaincus, étendards en lambeaux…
Mais ils se trompaient tous, honneur à toi, grand homme,
Ta voile triomphante a rapporté dans Rome
Des cigognes et des turbots!

Plus fort que ce marin dont le croc d’abordage
Éventrait à grand bruit les vaisseaux de Carthage,
Aux hérissons de mer tu lanças tes réseaux,
Et, conquérant gourmet, ceint de myrte et de lierre,
Avec tes cuisiniers tu parcourus la terre,
Pour assiéger des nids d’oiseaux!

Rome alors, ô Rufus, méconnut ton génie,
Et l’on dit que le peuple, avec ignominie,
Refusa la préture à tes vœux obstinés…

Mais que t’importe, à toi, le bruit que fait la foule?
Sa rumeur éphémère est un flot qui s’écoule,
Tes beaux jours ne sont pas sonnés!

Ils viendront, ils viendront, quand, sur la capitale,
Soufflera mollement la brise orientale;
Quand, sous sa mitre d’or, le pale citoyen
Traînant par le forum sa démarche indolente,
Secoûra les parfums de sa robe volante,
Comme un satrape assyrien.

Ils viendront quand, la nuit, l’impériale orgie
Jettera sous les cieux sa lueur élargie
Ou de sa chaude haleine embaumera les mers;
Et tu t’éveilleras, et ton ombre sacrée
Viendra planer parfois sur les rocs de Caprée,
Au bruit des nocturnes concerts.

Ô martyr des festins! le luxe d’Italie
Vengera largement ta mémoire avilie,
Et tu pourras surgir de la poudre du sol,
Le jour où fumera, sur la table romaine,
Un sanglier sauvage, à la sauce troyenne,
Plein de langues de rossignol. 
- Louis Bouillet [tradução Machado de Assis]. In: Obra Completa, Machado de Assis, vol. II, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994 / Publicado Phalenas (Falenas). Machado de Assis. Rio de Janeiro: B.L. Garnier, Editor, 1870.

§§

O PRIMEIRO BEIJO 
     (G. BLEST GANA)

Lembranças daquela idade
De inocência e de candor,
Não turbeis a soledade
Das minhas noites de dor;
                Passai, passai,
Lembranças do que lá vai. 

Minha prima era bonita...
Eu não sei por que razão
Ao recordá-la, palpita
Com violência o coração.
Pois se ela era tão bonita,
Tão gentil, tão sedutora,
Que agora mesmo, inda agora,
Uma como que ilusão
Dentro em meu peito se agita,
E até a fria razão
Me diz que era bem bonita. 

Como eu, a prima contava
Quatorze anos, me parece;
Mas minha tia afirmava
Que eram só, — nem tal me esquece!
Treze os que a prima contava.
Fique-lhe à tia essa glória,
Que em minha vivaz memória
Jamais a prima envelhece,
E sempre está como estava,
Quando, segundo parece,
Já seus quatorze anos contava. 

Quantas horas, quantas horas
Passei ditoso ao seu lado!
Quantas passamos auroras
Ambos correndo no prado,
Ligeiros como essas horas!
Seria amor? Não seria;
Nada sei; nada sabia;
Mas nesse extinto passado,
De conversas sedutoras,
Quando me achava a seu lado
Adormeciam-me as horas.

De como lhe eu dei um beijo
É curiosíssima história.
Desde esse ditoso ensejo
Inda conservo a memória
De como lhe eu dei um beijo.
Sós, ao bosque, um dia, qual
Aquele antigo casal
Cuja inocência é notória,
Fomos por mútuo desejo,
A ali começou a história
De como lhe eu dei um beijo. 

Crescia formosa flor
Perto de uma ribanceira;
Contemplando-a com amor,
Diz ela desta maneira;
— Quem me dera aquela flor!
De um salto à flor me atirei;
Faltou-me o chão; resvalei.
Grita, atira-se ligeira
Levada pelo terror,
Chega ao pé da ribanceira...
E eu, eu não lhe trouxe a flor.

De ventura e de alegria
A coitadinha chorava;
Vida minha! repetia,
E em meus braços me apertava
Com infantil alegria.
De gelo e fogo me achei
Naquele transe. E não sei
Como aquilo se passava,
Mas um beijo nos unia,
E a coitadinha chorava
De ventura e de alegria. 

Depois,.. revoltoso mar
É nossa pobre existência!
Fui obrigado a deixar
Aquela flor de inocência
Sozinha à beira do mar.
Ai! do mundo entre os enganos
Hei vivido muitos anos,
E apesar dessa experiência
Costumo ainda exclamar:
Ditada minha existência,
Ficaste à beira do mar! 
Lembranças daquela idade
De inocência e de candor,
Alegrai a soledade
Das minhas noites de dor.
                Chegai, chegai,
Lembranças do que lá vai.

*

EL PRIMER BESO
Recuerdos de aquélla edad
de inocencia y de candor,
no turbéis la soledad
de mis noches de dolor:

pasad, pasad,
recuerdos de aquélla edad.

Mi prima era muy bonita,
y no sé por qué razón
al recordarla palpita
con violencia el corazón.
Era, es cierto, tan bonita,
tan gentil, tan seductora,
que al pensar en ello ahora,
algo como una ilusión
aquí en el pecho se agita,
y hasta mi fría razón
me dice: ¡era muy bonita!

Ella, como yo, contaba
catorce años, me parece,
mas mi tía aseguraba
que eran solamente trece
los que mi prima contaba.
Dejo a mi tía esa gloria,
pues mi prima en mi memoria
jamás, jamás envejece,
y siempre está como estaba
cuando, según me parece,
ya sus catorce contaba.

¡Cuántas horas, cuántas horas
de dicha pasé a su lado!

¡Pasamos cuántas auroras
los dos corriendo en el prado,
ligeros como esas horas!
¿Nos amábamos? Lo ignoro:
sólo sé lo que hoy deploro,
lo que jamás he olvidado,
que en pláticas seductoras,
cuando me hallaba a su lado,
se me dormían las horas.

De cómo le di yo un beso,
es peregrina la historia;
hasta ahora, lo confieso,
con placer hago memoria
de cómo la di yo un beso.
Un dial solos los dos,
cual la pareja de Dios,
cuya inocencia es notoria,
nos fuimos a un bosque espeso,
y allí comenzó la historia
de cómo la di yo un beso.

Crecía una hermosa flor
cerca de un despeñadero;
mirándola con amor
ella me dijo: 'Me muero,
me muero por esa flor'.
Yo a cogerla me lancé,
más faltó tierra a mi pie;
ella, un grito lastimero
dando, llena de terror,
corrió hasta el despeñadero...
y yo me alcé con la flor...

Dos lágrimas de alegría
surcaron su rostro bello,
y diciendo-. '¡Vida mía!',
me echó los brazos al cuello
con infantil alegría.

Fuego y hielo sentí yo
que por mis venas corrió,
y no sé cómo fue aquello,
pero un beso nos unía...,
dejando en su rostro bello
dos lágrimas de alegría.

Después... ¡Revoltosa mar
es nuestra pobre existencia!
Yo me tuve que ausentar,
y aquella flor de inocencia
quedó a la orilla del mar.
Del mundo entre los engaños
he vivido muchos años,
y a pesar de mi experiencia,
suelo a veces exclamar:
¡La dicha de mi existencia
quedó a la orilla del mar!

Recuerdos de aquella edad
de inocencia y de candor,
alegrad la soledad
de mis noches de dolor;

¡llegad, llegad,
recuerdos de aquella edad!
- Guillermo Blest Gana [tradução Machado de Assis]. In: Obra Completa, Machado de Assis, vol. III, Nova Aguilar, Rio de Janeiro, 1994 / Toda poesia de Machado de Assis. [organização Cláudio Murilo Leal]. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008. {originalmente publicado em Semana Ilustrada, edição n. 458 - Rio de Janeiro, p. 3662-3663, 19 de setembro de 1869}.

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OUTRAS OBRAS TRADUZIDAS POR MACHADO DE ASSIS

:: Oliver Twist. Charles Dickens. [tradução de Machado de Assis e Ricardo Lísias]. 1ª ed., São Paulo: Hedra, 2002. {publicado originalmente em Jornal da Tarde, Rio de Janeiro, de 23/4/1870 a 23/8/1870} Machado de Assis - UFSC. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
 :: Os trabalhadores do mar (Les travailleurs de la mer). Victor HugoRio de Janeiro: Tipografia Perseverança, 1866 | Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021) | Machado de Assis - UFSC. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
:: Os trabalhadores do mar (Les travailleurs de la mer). Victor Hugo. [tradução Machado de Assis]. Best Books Brazil, 2010.
:: Os trabalhadores do mar. Victor Hugo. [tradução Machado de Assis, Marília Garcia; ilustrações Victor Hugo]. São Paulo: Cosac & Naify, 2013. 
:: Suplício de uma mulher. Emile de Gerardin e Alexandre Dumas Filho. [tradução Machado de Assis]. in: ASSIS, Machado. Teatro de Machado de Assis. [organização João Roberto Faria]. São Paulo: Martins Fontes, 2003. {Publicada originalmente Machado de Assis: obra completa. Rio de Janeiro: W. M. Jackson, 1937} | Machado de Assis - UFSC. Disponível no link. (acessado em 17.7.2014).
:: Queda que as mulheres têm para os tolos (De l’amour des femmes pour les sots). atribuído a Victor Henaux (Liège, F. Renard, 1859).. [tradução de Machado de Assis]. Rio de Janeiro: Typographia Paula Brito, 1860. {originalmente publicado no periódico A Marmota (Rio de Janeiro, 19, 23, 26 e 30/4 e 3/5/1861} | Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021)  | Revista Prosa Verso e Arte. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
:: Queda que as mulheres têm para os tolos (De l’amour des femmes pour les sots). Victor Henaux. [tradução de Machado de Assis; organização Ana Cláudia Suriani da Silva e Eliane Fernanda Cunha Ferreira]. Edição Bilíngue. Campinas: Editora Unicamp. 2008.


POESIA DE MACHADO DE ASSIS 

(INCLUI TRADUÇÕES OU IMITAÇÕES COMO ELE ESCREVIA)
- primeiras edições - (links atualizados)
:: Chrysalidas: poesias. Machado de Assis. Rio de Janeiro: B. L. Garnier 1864 | Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
:: Phalenas (Falenas). Machado de Assis. Rio de Janeiro: B.L. Garnier, Editor, 1870 | Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
:: Phalenas (Falenas)Machado de Assis. Rio de Janeiro: B.L. Garnier, Editor, 1870 | BLPL - Literatura Brasileira - UFSC. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
:: Americanas. Machado de Assis. Rio de Janeiro: H. Garnier; Livreiro-Editor, 1875 | Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
:: Americanas. Machado de Assis. Rio de Janeiro: H. Garnier; Livreiro-Editor, 1875 | BLPL - Literatura Brasileira - UFSC. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
:: Poesias completas. Machado de Assis. 1ª ed., Rio de Janeiro: H. Garnier; Livreiro-Editor, 1901. {Contém: Chrysalidas, Phalenas, Americanas, Occidentaes / Ao organizar este volume de suas Poesias Completas, Machado de Assis reuniu os livros Crisálidas (1864), Falenas (1870) e Americanas (1875), expurgando-os de algumas poesias e acrescentando um novo conjunto, intitulado Ocidentais} | Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
:: Poesias completas. Machado de Assis. 1ª ed., Rio de Janeiro: H. Garnier; Livreiro-Editor, 1901 | BLPL - Literatura Brasileira - UFSC. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
:: Poesias completas. Chrysalidas, Phalenas, Americanas, Occidentaes. Machado de Assis. 2ª ed., Rio de Janeiro: Garnier, 1902 Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível no link e link. (acessado em 24.8.2021).
:: Outras relíquias: (proza e verso). Machado de Assis. Rio de Janeiro: Livraria Garnier, 1910 Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
:: Novas relíquias. Machado de Assis. Rio de Janeiro: Editora Guanabara, Waissman, Koogan, 1932 Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).

MACHADO DE ASSIS - POESIA TRADUZIDA - PUBLICADO EM REVISTAS, JORNAIS E FOLHETINS

:: "Souvenirs d'exil". de Charles Ribeyrolles. tradução Machado de Assis. In: Courrier du Brésil, nº 49, p. 4., 2 de décembre de 1860 | Fundação Biblioteca Nacional / Memória BN. Disponível no link. Disponível no link. (acessado em 30.11.2018).
:: "Maria Duplessis (A Dama das Camélias)", de Alexandre Dumas Filho. tradução Machado de Assis. In: Diário do Rio de Janeiro, edição 21 - coluna Variedade, Rio de Janeiro, p. 2., 15 abr. 1860. | Fundação Biblioteca Nacional / Memória BN. Disponível no link.  (acessado em 30.11.2018).
:: "As ondinas" (noturno, de Heinrich Heine). tradução Machado de Assis. In: Bibliotheca Brasileira, edição n. 2., Rio de Janeiro, p. 231-232., agosto de 1863. Disponível no link.  (acessado em 30.11.2018).
:: "Versos a Emma (A Dama das Perolas)", de Alexandre Dumas Filho. tradução Machado de Assis. In: Diário do Rio de Janeiro - anno XLV, edição 85, coluna 'Folhetim', Rio de Janeiro, p. 1 -, 6 de abril de 1865. | Fundação Biblioteca Nacional / Memória BN. Disponível no link. (acessado em 30.11.2018). 
:: "Cegonhas e rodovalhos". de Bouillet. tradução Machado de Assis. In: Semana Ilustrada, edição n. 424 - Rio de Janeiro, p. 3390-3391., 24 de janeiro de 1869. | Fundação Biblioteca Nacional / Memória BN. Disponível no link. (acessado em 30.11.2018).  
:: "O primeiro beijo". de Guillermo Blest Gana. tradução Machado de Assis. In: Semana Ilustrada, edição n. 458 - Rio de Janeiro, p. 3662-3663, 19 de setembro de 1869. Disponível no link. (acessado em 30.11.2018).  
:: "O canto XXV - Inferno", de Dante. tradução Machado de Assis. In: A Instrução Pública, edição n. 1, Rio de Janeiro, p. 3-4., 28 jan. 1875. | Fundação Biblioteca Nacional / Memória BN. Disponível no link. (acessado em 30.11.2018). 
:: "Prólogo do Intermezzo", de Heinrich Heine. tradução Machado de Assis. In: A Semana - edição 37, Rio de Janeiro, p. 291, 14 de abril de 1894. | Fundação Biblioteca Nacional / Memória BN. Disponível no link. (acessado em 30.11.2018).

POESIA DE MACHADO DE ASSIS - EDIÇÕES ATUAIS

:: Toda poesia de Machado de Assis. [organização Cláudio Murilo Leal]. Rio de Janeiro: Editora Record, 2008.
:: A poesia completa: edição anotada: recepção críticaMachado de Assis. [organização e fixação dos textos de Rutzkaya Queiroz dos Reis]. São Paulo: Nankin/Edusp, 2009. 


“Daqui o nascimento de uma entidade: o tradutor dramático, espécie de criado de servir que passa de uma sala a outra, os pratos de uma cozinha estranha. Ainda mais essa!”
- Machado de Assis (1859)

TEATRO

:: Teatro de Machado de Assis. coleção 'Dramaturgos do Brasil'. [organização João Roberto Faria]. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
:: Machado de Assis - Do teatro: textos críticos e escritos diversos. [organização, introdução e notas João Roberto Faria] Editora Perspectiva, 2008.

FORTUNTA CRÍTICA - MACHADO DE ASSIS TRADUTOR

Machado de Assis - ilustração 1873
ABL. Esta a glória que fica, eleva, honra e consola. Machado de Assis. In: Revista Brasileira - ABL, Fase VII, ano XIV, n. 55, abril-maio-junho, 2008. Disponível no link. (acessado em 26.8.2021).
BARRETO, Eleonora Frenkel. O original na tradução de Machado de Assis. Disponível no link. (acessado em 17.7.2014).
BARRETO, Junia. Traições editoriais: os trabalhadores do mar, de Victor Hugo a Machado de Assis. Traduzires 1 – Maio 2012. Disponível no link. (acessado em 29.7.2014).
BONACIN, Larissa Degasperi; SCHÄFFEL, Dicleia Maria Bastos. Tradução poética: “O corvo” aos olhos de Machado de Assis e Fernando Pessoa. Eletras, vol. 20, n.20, jul. 2010. Disponível no link. (acessado em 30.7.2014).
BRUNISMANN, Danielle Franco; RUFFINI, Mirian. A estilística de Machado de Assis em Oliver Twist e “Miss Dollar”. In: TradTerm, São Paulo, v.35, junho/2020, p. 164-185. Disponível no link. (acessado em 24.8.2021).
CALLIPO, Daniela Mantarro. Rimas de sândalo e ouro: a presença de Victor Hugo nas crônicas de Machado de Assis. Signótica, v. 1, n. 1, Goiânia, p. 17-42, 2006.
CAMELO, Franciano. A relação narrador/leitor na tradução machadiana de Oliver Twist. Machado de Assis em Linha, v. 9, p. 46-65, 2012.
CAMELO, Franciano. English fiction via translation in nineteenth-century Brazil: Charles Dickens and Machado de Assis. revista Idéias (UFSM), v. 26, p. 01-28, 2010.
CAMELO, Franciano. Machado de Assis e a (re)escrita de "Oliver Twist". (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal de Santa Maria, UFSM, 2013. Disponível no link. (acessado em 30.7.2014).
CARNEIRO LEÃO. Victor Hugo no Brasil. Rio de Janeiro: José Olympio,1960.
CATALOGO. Machado de Assis. Exposição Comemorativa do sexagésimo aniversário do falecimento de Joaquim Maria Machado de Assis. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional/ Divisão de Publicações e Divulgação, 1968 | BN Digital. Disponível no link. (acessado em 26.8.2021). 
CATÁLOGO. Machado de Assis: 100 anos de uma cartografia inacabada. Catálogo da exposição realizada na Fundação Biblioteca Nacional, 23 de setembro a 8 de novembro de 2008. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional, 2008. Disponível no link. (acessado em 26.8.2021).
COSTA, Lúcia Lima da. Machado de Assis tradutor: o labirinto da representação. (Tese Doutorado em Literatura Comparada). Faculdade de Letras, Rio de Janeiro, UFRJ, 2006. 
CUNHA, Fernanda Oliveira. Fabulosas crônicas: La Fontaine nas crônicas de Machado de Assis. (Dissertação de Mestrado em Letras). Universidade Estadual Paulista, UNESP, Assis, 2015. Disponível no link. (acessado em 17.5.2016).
ESTEVES, Lenita M. R.. Uma tradução singular: Oliver Twist, por Machado de Assis e Ricardo Lísias. ComCiência  nº 140, Campinas jul. 2012. Disponível no link. e link. (acessado em 29.7.2014).
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FLORES, Diego do Nascimento Rodrigues. Machado de Assis, tradutor de Hugo. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal do Espírito Santo, UFES, Vitória, 2007. Disponível no link. (acessado em 26.8.2021).
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KORACAKIS, Teodoro. Machado de Assis, colaborador da Semana Ilustrada (1860 – 1875). In: Filologia, CiFEFiL, s/data. Disponível no link. (acessado em 30.7.2014).
MAFRA, Adriano; SCHRULL, Munique Helena. Análise de quatro traduções do poema The Raven de Edgar Allan Poe. Cenários - revista de estudos da linguagem, v. 1, n. 3 - 2011. Disponível no link. (acessado em 23.7.2014).
MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo. Machado de Assis desconhecido. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1955.
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MASSA, Jean-Michel. Machado de Assis tradutor. 1ª ed., Belo Horizonte: Crisálida, 2008, 128p. 
MASSA, Jean-Michel (org.). Três peças francesas traduzidas por Machado de Assis. [organização, introdução e notas, Jean-Michel Massa; tradução dos textos do organizador, Oséias Silas Ferraz]. Belo Horizonte: Crisálida, 2008. 
MASSA, Jean-Michel. Um amigo português de Machado de Assis: Antônio Moutinho de Sousa. [tradução Lúcia Granja].Machado Assis linha, Rio de Janeiro. v. 5, n. 10, p. 10-25, dezembro 2012. Disponível no link. (acessado em 17.7.2014).
MEDEIROS, J.. Machado de Assis e a arte de subverter o original. In: O Estado de S. Paulo, 28/4/2002, p. D10.
MELLO FRANCO, Afonso; LACOMBE, Américo (orgs.). Machado de Assis.Rio de Janeiro: Editora Três, 2003.
MIASSO, Audrey Ludmilla do Nascimento. Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis. São Carlos/SP: EdUFSCAR, 2017.
MIASSO, Audrey Ludmilla do Nascimento. Epígrafes e diálogos na poesia de Machado de Assis. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal de São Carlos, 2016. Disponível no link. (acessado em 30.11.2018).
MIRANDA, José Américo. Machado de Assis e as traduções que publicou em Crisálidas. In: Machadiana Eletrônica, Vitória, v. 3, n. 5, p. 227-252, jan.-jun. 2020. Disponível no link. (acessado em 5.3.2021).
MIRANDA, José Américo; JUCÁ, Gabriela. Poesias de Alexandre Dumas Filho traduzidas por Machado de Assis: comentários e questões. In: INTERFACIS, Belo Horizonte, v. 3, n. 2, 2017. Disponível no link. (acessado em 5.3.2021).
MOREIRA, Marisol Santos. Impressões sobre Heine em Machado de Assis. In: Apario, Boletim 37. Disponível no link. (acessado em 1.8.2014).
PATRIMÔNIO, cultural. Obra literária de Machado de Assis é declarada Patrimônio Cultural carioca. In: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro / Decreto nº 29.903, de 26 de setembro de 2008. {inclui uma relação de pseudônimos usados por Machado de Assis}. Disponível no link. (acessado em 30.11.2018).
PENJON, Jacqueline. Machado de Assis: um século de traduções francesas. In: E-Letras com Vida, n. 2 Jan./Jun. 2019, pp. 188-201.
PIMENTEL, A. Fonseca. A presença alemã na obra de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Livraria São José, 1974. 
PUGLIA, Daniel. Dois lugares, dois tempos: Charles Dickens e Machado de Assis. In: Márcia Abreu. (Org.). Trajetórias do Romance: circulação, leitura e escrita nos séculos XVIII e XIX. Campinas: Mercado de Letras, 2008, v. , p. 483-496.
RICIERI, Francine Fernandes Weiss. A poesia machadiana: versões, traduções, revisões e diálogos – uma musa de roupas embebidas. In: Manuscrítica: revista de crítica genética. n. 14. 2006. Disponível no link. (acessado em 17.7.2014).
RESENHA. Trabalhadores do Mar, Os – Victor Hugo. Blog O esplanador. 23.10.2013. Disponível no link. (acessado em 27.7.2014).
RODRIGUES, Maria Fernanda. Pesquisador descobre livro de Machado de Assis ignorado por um século e meio e nunca publicado. In: O Estadão, 17 setembro de 2016. Disponível no link. (acessado em 26.8.2021). 
ROSSO, Mauro. Machado, eterno enigma. O Vertebral - artigos, crônicas e utopias. 29 de junho de 2009. Disponível no link. (acessado em 1.8.2014).
SETTE, Lourdes. Machado tradutor de Assis: A construção da identidade de tradutor no século XIX. In: Scientia Traductionis, n.14, 2013. Disponível no link. (acessado em 1.8.2014).
TELES, Adriana da Costa. Machado e Shakespeare: intertextualidades. São Paulo: Perspectiva/Fapest, 2017.
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2 comentários:

  1. Machado de Assis era negro, não o coloque como branco!

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  2. não é possível que pintaram machado de assis como branco... ele era negro! como se um negro nao pudesse ser um escritor grande

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