José de Mesquita - e a cultura matogrossense

José de Mesquita
José Barnabé de Mesquita, nasceu a 10 de março de 1892, em Cuiabá, Capital do Estado de Mato Grosso, filho de José Barnabé de Mesquita (Senior) e Maria Cerqueira de Mesquita. poeta, romancista, contista, ensaísta, historiador, jornalista, genealogista e jurista brasileiro. Bacharel em Ciências e Letras, pelo Liceu Salesiano São Gonçalo de Cuiabá (1907) e em Ciências Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito de São Paulo (1913), tendo sido escolhido orador da turma.
Exerceu os cargos de Professor de Português da Escola Normal, Procurador Geral do Estado de Mato Grosso, Diretor da Secretaria do Governo, Juiz de Direito da Comarca do Registro de Araguaia, Professor da Faculdade de Direito de Cuiabá (Direito Constitucional) e Desembargador do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, que presidiu de 1930 a 1940, aposentando-se em 1945.
Após a sua aposentadoria, dedicou-se à advocacia, tendo exercido, ainda, o cargo de Secretário Geral do Território Federal do Guaporé, hoje Rondônia e Procurador Municipal da Prefeitura de Cuiabá.
Fundador da Academia Mato-Grossense de Letras, presidiu-a, ininterruptamente, desde a sua fundação até o seu falecimento. Representou o Tribunal de Justiça no Congresso Nacional de
Direito Judiciário e na Conferência Brasileira de Criminologia (1936); o Instituto Histórico de Mato Grosso e o Estado, no Congresso Histórico Nacional (1938) e a Academia Mato-Grossense de Letras, no 1º Congresso das Academias (1936).
Foi condecorado pelo Papa Pio XI, com a Comenda da ordem de São Silvestre, pelos serviços prestados à Ação Católica (1933) e foi condecorado pelo Ministro da Guerra com a Medalha do Pacificador, pelos serviços à Pátria (1960).
Faleceu no dia 22 de junho de 1961, em Cuiabá.
** Biografia completa no link

 
José Barnabé de Mesquita, na década de 20

OBRA
Poesia
Poesias. Cuyabá: Typ. J.Pereira Leite, 1919.
Terra do Berço. (poesias), Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927.
Epopéia Mato-Grossense. (sonetos), Cuiabá, 1930.
Do Jardim Místico. (Sonetos). Cuiabá: Revista do Centro Mato-grossense de Letras Anno X, Números XIX e XX — Jan. a Dez. 1931.
Três Poemas da Saudade. (poemas), Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1943.
Escada de Jacó. (sonetos), Cuiabá: Escola Industrial Salesiana, 1945.
Roteiro da Felicidade. (sonetos). Cuiabá, 1946.
Poemas do Guaporé. (poemas), Cuiabá, 1949.



Conto
Capa do livro Cavalhada, José de Mesquita
- Desenho de Alberto Lima
A Cavalhada. (contos regionais), Cuiabá: Oficina das Escolas Profissionais Salesianas, 1928.
Corá. (conto, 1930) — Publicações: em 1932, na Revista Nova, nº 5, São Paulo; em 1959 (1° ed.) e em 1961 (2° ed.), no volume X, “As selvas e o pantanal - Goiás e Mato Grosso”, da coleção Histórias e Paisagens do Brasil, Editora Cultrix, São Paulo.
Espelho de Almas. (Contos). Prêmio da ABL. Rio de Janeiro: A. Coelho Branco Filho, 1932.
No Tempo da Cadeirinha. (contos regionais), Curitiba: Guaíra, 1946.


Romance
Piedade. (romance). Cuiabá: Gráfica das Escolas Profissionais Salesianas, 1937; Cuiabá: Academia Mato-Grossense de Letras; Unemat, 2008. (Col. Obras Raras, v.4).


Crônicas
Gente e Coisas de Antanho. (Crônicas 1924-1934).. [Cadernos Cuiabanos, 4], Cuiabá: Prefeitura Municipal de Cuiabá/Secretaria Municipal de Educação e Cultura, 1978.


Biografia
O Taumaturgo do Sertão. (biografia do Frei José Maria Macerata), Niterói, 1931.


Tese
Atentado contra a Justiça. (tese de direito), Cuiabá, 1932.


Conferências
Pela Boa Causa. (Conferências, 1934) — Publicado em Leituras Católicas, Ano XLVI — Outubro de 1936 — Nº 557, Escolas Profissionais Salesianas de Niterói, Rio de Janeiro.
O Sentido da Literatura Mato-Grossense. (conferência), Niterói, 1937.


Discurso
O Catolicismo e a Mulher. (discurso), Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1926.
Semeadoras do Futuro. (discurso paraninfal, às normalistas de Cuiabá), Cuiabá, 1929.
O Sentimento de Brasilidade na História de Mato Grosso. (discurso), na sua posse no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, 1939.
Professoras Novas para um Mundo Novo. (discurso paraninfal, na solenidade da colação de grau às Professoras, no Liceu Campograndense, Escola Normal Joaquim Murtinho), Campo
Grande, 1939.
Os Jesuítas em Mato Grosso. (Discurso), Centenário da Companhia de Jesus, Revista IHMT, 1940.
O Exército, fator de brasilidade. (discurso) — Publicado em 1941, pela Biblioteca Militar, Gráfica Laemmert, Limitada; Rio de Janeiro.
Nos Jardins de São João Bosco. (discursos acerca da obra Salesiana em Mato Grosso), Cuiabá, 1941.



Ensaios
Ilustração do livro de contos Corá
Elogio histórico ao Dr. Antônio Corrêa da Costa. Cuiabá, 1921.
Elogio fúnebre do General Caetano Manoel de Faria e Albuquerque. Cuiabá, 1926.
Um Paladino do Nacionalismo. (elogio a Couto de Magalhães) Cuiabá, 1929.
João Poupino Caldas. (ensaio biográfico), Cuiabá, 1934.
As Necrópoles Cuiabanas. Cuiabá, 1937.
Manoel Alves Ribeiro. (ensaio biográfico), Cuiabá, 1938.
De Lívia a Dona Carmo. As mulheres na obra de Machado de Assis, 1939 — Publicado em 1940, pela “Federação das Academias de Letras do Brasil”, no livro Machado de Assis (estudos e ensaios), Editora F. Briguiet & Cia., Rio de Janeiro. Publicado em 2006, por Yasmin Jamil Nadaf, no livro Machado de Assis em Mato Grosso, Editora Lidador, Rio de Janeiro.
A Chapada Cuiabana. (Ensaio de Geografia humana e econômica), 9º Congresso Brasileiro de Geografia, Florianópolis, 1940.
A Academia Mato-grossense de Letras. (notícia histórica), Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1941.
Bibliografia Mato-grossense. [em colaboração com Firmo Rodrigues e Rubens de Mendonça], Cuiabá: Escola Industrial Salesiana, 1944.
Genealogia matogrossense. (Edição comemorativa do centenário de nascimento do autor). Cuiabá: AML/IHGMT/FIEMT; São Paulo: Resenha Tributária, 1992.
Imagem de Jaci. (ainda não editado).


Antologia e obras de outros autores (participação)
Who's Who in Latin America. (Quem é quem na América Latina). Part VI, Brazil, pg. 158, Edited by Ronald Hilton, Stanford University Press, 1945, 3rd Edition.
Antologia Ilustrada do Folclore Brasileiro, “Histórias e Lendas de Goiás e Mato Grosso”. (Organização Regina Lacerda).  volume VII, São Paulo: Gráfica e Editora EDIGRAF Ltda, São Paulo - 1ª edição, 1960 e 2ª edição, 1963.
Geografia dos Mitos Brasileiros, de Luís Câmara Cascudo. Belo Horizonte: Editora Itatiaia; São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1983.
Antologia Poética Ibero-Americana. (Organização Gustavo Pavel Égüez). Associação dos Adidos Culturais Ibero-Americanos: Ministério da Cultura - Brasil, 2006.




 POEMAS ESCOLHIDOS

Capa da 1ª edição do Livro Poesia
(1919), de José de Mesquita
Águas batidas
Ó águas que correis encachoeiradas,
abafando entre pedras vossas maguas,
sais como as minhas dores recalcadas,
ó do Monjolo crystalinas águas!

Da lisa lage ás rochas empinadas
ides de encontro e como em rudes fraguas,
tal eu do curto gozo ás prolongadas
penas me vou, pois dentro d’alma trago-as.

O segredo da vossa limpidez
está nisso de serdes bem batidas
nas lapides por onde decorreis.

Assim tire eu das dores padecidas,
em força, em resistência, em altivez,
o mérito que eleva as nossas vidas.
- José de Mesquita, Symbolos - em "Terra do Berço". Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. (grafia original).



Alchimista
O poeta é como o alchimista:
busca em tudo o ouro do ideal
e, nessa insana conquista,
o, poeta, sublime artista,
em o seu verso por gral.

Cuidosa e pacientemente
da forma fria procura
extrahir a idéa ardente
e, meticulosamente,
lima, bate, amolda, apura....

Si, ás vezes, o ouro radiante
esplende ante o seu olhar
de sonhador triumphante,
quantas vezes, arquejante,
vê baldado o seu lidar!

O poeta é como ,o alchimista
da legenda medieval...
E a tortura que o contrista
é, no seu sonho de artista,
nunca encontrar o ideal.
- José de Mesquita, Illuminuras, Da Arte - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).


Arvore Morta
Essa arvore que vês tão desolada,
secca, sem folhas, balouçando ao vento
os galhos nus, do albor da madrugada
ao decahir da tarde, ora ao relento

da noite, ora nos éstos abrasada
do meio dia tórrido, um rebento
jamais lhe nasce e vive abandonada,
naquelle fim de campo ermo e areento.

Na sua solidão relembra um dia
quando a fronde gloriosa aos céus erguia,
na apotheose dos ninhos e das flores. . .

Arvore morta! Em ti eu vejo a imagem
de uma terra que vive da miragem
de seus passados e áureos esplendores...
- José de Mesquita, Symbolos - em "Terra do Berço". Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. (grafia original).



Aura da Serra
Constante, sempre igual, doce, pura e fagueira,
a aura da serra vai — beijo que a várzea esflora —
ora na furna, ora na agreste capoeira,
aqui no valle em flor, ali no campo-fóra.

Dês que se ganha a chan da montanha altaneira,
vem-nos ao encontro a aflar, numa orchestra sonora,
e, na boca da mata, ali junto á pedreira,
é ainda quem nos faz o terno botafóra.

A ventura, na vida, é como a aura da serra,
que nos vem sem saber como, nem donde veio —
beijo leve do céu acariciando a terra . . .

E o segredo de ter sempre a felicidade
consiste em na gozar, sem ânsia nem receio,
com despreoccupação e com simplicidade.
- José de Mesquita, (Chapada, Nov. MCMXXXIV), In: Revista de Cultura. Rio de Janeiro. Ano IX, (Janeiro – Junho), 1935, Vol. 17, p. 52. (grafia original).



A alma das velhas casas
No silencio do pósmeridio grave e ardente
entrei a velha casa onde vivêra outr’ora,
quando, ainda alma em flor e corpo adolescente,
era luz, era ardor, era sonho, era aurora.

A sala ampla e deserta, a varanda silente,
echoam do meu passo ao ruído e, frio agora,
o quarto onde dormia é lúgubre e dolente
e o terreiro ermo e nu de rosas não se enflora.

É sêcco o algibe. Chora uma rola num galho.
Abro o velho portão. Galgo a estéril, maninha
gleba de morro mal vestida de cascalho. . .

E desses que — ai de mim! Outr’ora aqui viveram
resta, pairando no ar, a alma triste e sosinha
das velhas casas cujos donos já morreram!
- José de Mesquita, Matto--Grrosso evoccativo - em "Terra do Berço". Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. (grafia original).



A Garça
"E vai com a vaza como pelo mundo
a alma do poeta sem manchar as pernas."
- Alberto de Oliveira

Pantanal. Água e céus. Solidão silenciosa.
Num remigio, a cortar as aguadas serenas,
vai a garça a voar, na tarde cor de rosa,
e da água escura á tona a aza lhe aflora apenas.

Passa e no limo abjecto e na vaza asquerosa
não se lhe mancha o alvor e a candidez das pennas,
pois no vôo subtil desliza, donairosa,
sobre as águas de lodo e de impureza plenas.

Alma de poeta, sê qual a garça voando
sobre o vil atascal e sobre a lama impura,
olhos postos no azul, no ether sereno e brando...

Conserva teu ideal, tua illusão querida,
e não turves jamais das azas a brancura
no sórdido paul das torpezas da vida...
- José de Mesquita, Symbolos - em "Terra do Berço". Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. (grafia original).



A linguagem dos lenços
Como é cheia de encanto e de doçura
a linguagem dos lenços na partida,
a lembrarem, na triste despedida,
a esperança e a saudade de mistura!

Quem já sentiu a magoa dolorida
de uma separação acerba e dura
sabe que essa linguagem é a mais pura
e a mais triste linguagem conhecida.

Assim eu.... Lembra-me inda tudo aquillo:
a praia, ao sol, o rio azul, tranquillo,
e, na praia distante, em pranto, os meus....

E, ao partir, como o voar dum lindo bando
de aves do amor e da saudade, o brando
mover dos lenços a dizer-me adeus....
- José de Mesquita, Do Sonho - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



A Passagem do nocturno
Noite. Céu constellado. Um murmúrio brando
vem do rio a fluir quasi insensivelmente.
Por tudo o luar estende o seu manto clareando
a villa, a matta em torno e a solidão ambiente.

No alto — silente nave o mar azul singrando —
vai, a lua a boiar no grande céu dormente.
A doce via-láctea esplende e, fulgurando,
estrellas, aos milhões, rebrilham docemente.

Tudo dorme e repousa. Ha pelo espaço o aroma
forte da seiva. Alem, numa baixada, assoma
o vulto do comboio á luz da lua cheia.

Apita. Chega. E logo, estridulo, ferindo
a noite com seu silvo afasta-se e, fugindo,
some-se ao fim da estrada alva que o luar prateia...
- José de Mesquita, ‘Imprressões e Paisagens, Matto--Grrosso pinturrescco’ - em "Terra do Berço". Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. (grafia original).



A Serra dos Martyrios
Quando criança sempre ouvi falar
dessa serra bellissima e lendária,
empós da qual, numa ânsia tumultuaria,
muitos se foram para não voltar.

Deixavam o socego do seu lar,
em busca de riqueza visionaria,
e, padecendo dôr e angustia varia,
jamais a conseguiram vislumbrar!

E ria-me dos que, na faina obscura,
pela idealização que não se alcança,
sertões a dentro se iam, á aventura...

Mal via então — não fosse uma criança!
que levamos a vida na procura
da Serra dos Martyrios da esperança.
- José de Mesquita, em "Terra do Berço". Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. (grafia original).



A um relógio antigo
Pobre e velho relógio desprezado
que, a olhar humano esconso, ora dormitas
num velho cofre de madeira ao lado
de flores murchas, desbotadas fitas;

assim mudo, assim triste, assim parado,
evocas mil saudades infinitas
das bellas horas dum feliz passado
que tu marcaste em pulsações bem ditas....

O passado morreu.... E tu pensaste
que fôra um ironia inda marcares
novas horas depois das que marcaste.

Então paraste.... Ó meu relógio amigo,
porquê quando pensaste em te aquietares
não se aquietou o coração contigo?
- José de Mesquita, Do Sonho - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



II - Beira mar
Tardinha. Á débil luz do sol que já declina
e se esconde por traz das montanhas distantes,
toda a linda avenida esplende e se illumina
de estranhos, orientaes, imprevistos cambiantes.
E é desde Botafogo, a indolente e divina,
e o Russel e o Flamengo em luzes scintillantes,
até onde a Avenida esplendida termina,
todo um grande fulgor de apotheoses flammantes.
Pelos lindos jardins abrem-se as azáleas.
Começa a despontar a luz do luar medrosa....
E, ao crepúsculo triste, um som de piano evoca
tênues, meigas, subtis, ineffaveis idéas,
como que, a me prender, feminina e amorosa,
a seducção sem fim desta terra carioca....
- José de Mesquita, “Paisagens Cariocas”, Da Natureza - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Beira de rio
Nunca me ha de esquecer a belleza, a poesia
dessa beira de rio, azul, ao sol radiante,
em que dias passei repletos de alegria,
na minha adolescência em flor, linda e distante!

A risonha sazão florigera corria.
Longe ia a cheia atroz ... Era pela vazante.
E a safra de um olor mysterioso embebia
o ar todo a trescalar a mel puro e fragrante.

O “Morrinho” no azul seu vulto delinêa,
e a praia é fulva, ao sol, e o cannavial ondêa,
da várzea para alem, num suave pendor...

E eis-me a ver, a alma inerte e lânguidos os músculos,
incendiarem o poente os rubidos crepúsculos
e baixar o luar do céu todo esplendor ...
- José de Mesquita, ‘Imprressões e Paisagens, Matto--Grrosso pinturrescco’ - em "Terra do Berço". Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. (grafia original).



Castellan
Fosse na linda e clássica cidade
dos doges que surgísseis, de repente,
todos, admirados, certamente,
julgariam voltar á Media Edade.

Tendes no todo heril o ar imponente,
a graça antiga e a sóbria magestade
das castellans de que, ora, com saudade,
vemos fallar no insípido presente.

Ainda ha pouco, ao vos ver, imaginava
que éreis uma “duchessa” e me fazia
pajem e trovador que vos amava,

e, quando, ao luar divino de Veneza,
minha guitarra lânguida gemia
vós me acenáveis da janella accesa....
- José de Mesquita, Do Sonho - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).


Civitas Mater
[A Cuyabá]

Meu carinho filial e meu sonho de poeta
vêm-te, ó doce cidade ideal dos meus amores,
em teu plácido valle, entre collinas, quieta,
como um Éden terreal de encantos seductores

Tuas várzeas gentis estrelladas de flores
sagram-te do sertão a Princesa dilecta
e o sol te elege, quando, em íris multicores,
na esmeralda dos teus palmares se projecta.

Nenhuma outra cidade assim á alma nos fala.
Dos teus muros senis a tradição se exhala
e a nossa Historia inteira em teu brasão reluz.

Ainda hoje em teu ambiente, ó minha urbe querida,
paira dos teus heróes a sombra estremecida
— nobre Villa Real do Senhor Bom Jesus!
- José de Mesquita, em "Terra do Berço". Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. (grafia original).



Confidenciaes
I
Capa do livro Terra do Berço
Meu pobre coração hoje cansado
de sonhar tanto sonho não cumprido
apraz-lhe recordar o doce e amado
perfil dessas por quem tenho soffrido.

Olhos formosos dum fulgor velado,
lábios, fructo de outubro mal partido,
vossos olhares, que eram meu cuidado,
e vossos beijos porquê os hei perdido?

Mas eis que surges, bella e doce eleita,
formosa entre as formosas, de alma feita
de caricias, desejos é reclamos....

Mas, eis que surges e o passado olvido,
pois nada tenho, meu amor, perdido
desde que te encontrei e nos amamos....

II
Como me lembra o antigo tempo, quando
mal nosso doce amor nascendo vinha
e eu não sentia ainda em te fitando
esta certeza de tu seres minha!

Via que o teu olhar em se pousando
no meu, não sei que luz do céu continha
e sentia uma dor me torturando
nesta incerteza de tu seres minha.

Via que, ao me fitares, tu sorrias
de não sei que ineffaveis alegrias
e a imaginal-o sempre me detinha,

sem saber que, a esse tempo tão distante,
já era meu teu coração amante,
toda a tua alma pura já era minha.

III
Os teus olhos velados de ternura,
ó doce santa do meu coração!
têm tal encanto, têm tal expressão,
quando os pousas em mim, toda brandura,

nessas horas de êxtase, que são
as melhores da vida áspera e dura,
que eu sinto em mim não sei que dor obscura
e que íntimos desejos de perdão....

Perdão de não te haver buscado outrora,
de não ter sido sempre devotado
ao teu culto, dulcíssima senhora,

perdão de só te amar tarde, talvez,
e me sinto pequeno, acabrunhado
de tão feliz que o teu amor me fez....
- José de Mesquita, Do Sonho - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Cousas antigas
Eu amo immensamente essas cousas antigas
que tem o ar grave e bom das pessoas amigas.
E ellas me amam também... Sentindo-as ao meu lado,
vejo nellas viver e fallar-me o passado.
Relíquias em que dorme a lembrança saudosa
de um querido ancestral, de alguma avó bondosa,
essas cousas, por certo, hão de saber, inteiras,
as nossas tradicções.... Ouviram, nas lareiras
os antigos contar aos mais novos a historia
de que guardam, talvez, bem nítida memória.

Dorme nellas assim todo um longo passado!
Quantas scenas de amor tem ellas presenciado!
Quantas magoas também! Terras distantes viram.
Que de vezes sem fim ellas não pressentiram
um sorriso feliz num lábio cor de rosa
ou lagrimas rolando em face silenciosa!
Têm, como o céu e o mar, um segredo que occultam.
E ao vel-as na minha alma as saudades avultam....
Cousas antigas! O que nellas leio e vejo!
E o que me evocam á Saudade e ao Desejo!

Si esta velha moldura, este livro, este pente
fallassem como nós, os homens, certamente
doce ouvir-lhes seria as fallas mysteriosas.
O pente: Tranças de ouro, esplendias, formosas,
onde agora occultaes a vossa refulgência?
O livro. Ai! nunca mais, em horas de indolência,
senti folhearem-me essas mãos acariciantes!
A moldura: Onde estaes lampejos irisantes
de crystaes, flores, riso, esplendores de gala,
vozes que, outrora, á noite, enchiam a ampla sala?

Si soubessem fallar! Mas ellas fallam....Quantas
recordações gentis, reminiscências tantas
lhes tenho ouvido, a sós, no intimo de minha alma!
É por isso que eu amo, em meio á noite calma,
com ellas conversar, como num sonho absorto,
revivendo a illusão desse passado, morto....
Para quem as comprehende é uma felicidade,
fazer ressuscitar, numa suave saudade,
tudo o que o tempo encobre em sua cinza fria
e que revive á nossa ardente fantasia!

Um velho móvel tem muito mais eloqüência
que os compêndios da fria e árida sciencia;
um antigo papel guarda em sua leitura
toda a recordação de uma vida obscura....
E nesse ar de tristeza e magoa que lhes vemos,
nós — homens fúteis e vazios — aprendermos
esta grande licção de alcance alto e profundo
de que tudo é illusão e vaidade no mundo.
Por isso é que eu adoro essas causas antigas
que têm o ar grave e bom das pessoas amigas.
- José de Mesquita, Lavôres, Da Arte - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Deslumbramento
Há, na vida, por mais áspera, rude e escura,
horas que valem tudo e compensam as dores
que afligem, dia e noite, a pobre criatura,
neste vale em que há mais espinhos do que flores.

Quem não sentiu jamais essa hora de ventura,
Vaga entre-luz do céu, do averno entre os horrores,
sutil emanação do Amor, que, eterno, dura,
do qual são simples sombra, os mais belos amores ?

Essa Visão de Deus, Graça, Paz, Euforia,
ou nos vem, pela fé ao cérebro cansado,
ou, pelo Amor, nos desce à alma tediosa e fria.

E ficamos, assim, de olhar turvo e tremente,
sentindo esse fulgor do Ser iluminado,
tal como quem fitou o sol de frente a frente !
- José de Mesquita (Março 1938), em "Escada de Jacó".  Cuiabá: Escola Industrial Salesiana, 1945. (grafia original)



Descendo o rio...
Correm as ondas... Seguimos.
Em cima, o céu azulado;
barrancas, de lado a lado.
e, ao longe, alterosos cimos...

Como fiquei isolado,
querida, sem os teus mimos!

Cresce, espuma, embaixo, o rio...
Desce a tarde. A calma desce...
A brisa mansa parece
um mystico murmúrio.

A minha saudade cresce
de hora em hora como o rio...

Uma arvore annosa e pensa
sobre a riba solitária
tem ar de tristeza immensa
da tarde á luz mortuária...
A minha alma pensa, pensa
como essa velha araucária...

Correm as ondas... Não tarda
a noite triste a baixar....
noite fria.... noite parda
de merencório luar...

Vem, como um Anjo da guarda,
meu somno, á noite, velar!
- José de Mesquita, Illuminuras, Da Arte - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Esperança
Prelibação do Bem e único Bem da vida,
És tu, meiga Esperança, amiga do vivente,
Pois só tu sabes dar á alma desilludida
a illusão de um porvir mais bello que o presente.

Esperar é antever, posto que fementida,
a ventura a fulgir, entre o nevoeiro ambiente,
como a aurora boreal nos gelos reflectida,
luz, calor, alegria, entre a noite lugente.

Esperança... Uma restea azul no céu coberto...
taboa de salvação entre o mar de tormenta...
oásis verde de paz na aridez do deserto...

Ditoso o que deseja um bem e não o alcança!
Feliz o que, sofrendo, ainda no peito alenta
a gloria de esperar contra toda a esperança!
- José de Mesquita, em “Do Jardim Místico”. Cuiabá: Revista do Centro Mato-grossense de Letras Anno X, Números XIX e XX — Jan. a Dez. 1931. (grafia original).



Estranho culto
Eu te amo, mas dum modo estranho, eu te amo
dum mudo singular, incomprehendido.
É um amor que entre lagrimas nascido
amor de dores e de sonhos chamo.

É este o amor pelo qual tenho vivido
e que em versos innumeros proclamo
nos estos da paixão em que me inflammo,
certo de que não sou correspondido.

Antes assim.... Que não me ames, querida....
O amor é tão trivial! Quero a ventura
de desejar-te apenas toda a vida,

e que ao partir deste exílio tristonho,
eu possa contemplar-te, bella e pura,
dentro do sanctuario do meu Sonho....
- José de Mesquita, Do Sonho - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Grandeza humilde
Cultiva sempre essa simplicidade,
que é a flor mais bela que a alma humana ostenta,
e foge aos ouropeis, com que a vaidade
aos néscios e aos fracos alimenta.

Singelo, evita em tudo a fatuidade.
A filaucia valor não te acrescenta.
Sê sempre o mesmo, quer na adversidade,
quer na fortuna próspera e opulenta.

Tal no-lo ensina a própria Natureza
que no mérito, árdua e rija frágua,
não no tamanho, põe sua grandeza.

Vazias amplidões enerva o vê-las,
enquanto a mais humilde poça d’água
reflete o céu com todas as estrelas...
- José de Mesquita, (abril 1940), em "Escada de Jacó".  Cuiabá: Escola Industrial Salesiana, 1945. (grafia original)



Idillio
I
Quando, nas horas de ternura,
recostas o teu rosto em mim,
cerras os olhos na doçura
de um sonho lânguido e sem fim,

e tua voz se torna ainda
mais doce e carinhosa assim,
a tua face rósea e linda
se tinge de um leve carmim,

eu, sem palavras, sinto apenas
que esqueço a vida, o mundo ruim,
nas horas doces e serenas
em que te vejo ao pé de mim.

II
Quando, nas horas de tristeza,
pousas em mim o teu olhar
numa ânsia muda em que a alma presa
como que adeja e quer voar,

e vejo os teus olhos formosos
velados de um grande pesar,
cheios de lagrimas, chorosos,
timidamente a me fitar,

sinto que te amo mais, querida,
vendo-te assim por mim chorar,
nessa expressão de dor sentida
que diz tão bem com teu olhar.

III
Quando, nas horas de desejo,
te estreito ao seio, meu amor,
e, num delírio ardente, beijo
a tua linda bocca em flor,

as tuas mãos febris aperto
e vejo que te foge a cor
e, como num deliquo incerto,
tu te abandonas num torpor,

sinto que cresce, violento,
desta paixão o immenso ardor.
Busco apagal-o....E mais o augmento
a cada novo beijo, amor....
- José de Mesquita, “Epithalamio” - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Insomnia
Cada do livro Gente e Coisas de Antanho
Na solidão da noite calma,
á luz tristonha do luar,
não sei porque me punge n’alma
uma tristeza singular.

O espaço imita, amplo e silente,
enorme e escuro mausoléu
e a lua pallida e dormente
rola nostálgica no céu....

Ninguém me entende, acaso? É duro
viver sem ter a quem amar!
Onde encontrar a que eu procuro?
Hei de morrer sem a encontrar?

A lua rola no infinito
na sua lânguida nudez.
Lua, não ouves o meu grito
ou não o entenderás, talvez?

Lua dulcíssima e inconstante,
tudo ama ao lívido luar....
Só eu vou pela vida adiante
sem encontrar a que hei de amar.


A febre de um desejo immenso
infunde-me um mortal calor....
Já não resisto, não me venço.
Vem, si é que existes, meu amor!

Este meu quarto solitário
pede alguém para o povoar,
seja um fantasma funerário
feito de neve e de luar.

Lua, tão branca e descorada,
tu bem me queres parecer
alguém que vem de uma noitada
febril, ruidosa de prazer.

Por estas horas quanta gente
se ama ás caricias do luar!
É a ronda do desejo, a ardente
legião da carne a desvairar.

Quantos amores indiscretos,
ó lua, a tua luz gentil!
Voar de pollen... Chiar de insectos...
Doce chilrear de beijos mil...

Quantas volúpias e desejos,
lua, tu vens, ora, incitar!
De quanto drama e quantos beijos
tens sido cúmplice, luar?

A febre me requeima as veias.
Sinto uma estranha lassidão...
Hora de fadas e sereias,
luar de peccado e tentação...

A insomnia negra me tortura,
talvez ella ande a me buscar.
Mas, quem? Não sei. Talvez procura
e ha de morrer sem me encontrar...
- José de Mesquita, Illuminuras, Da Arte - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Legenda
Vinham de muito longe aquelles sertanistas,
rompendo a selva espessa, a solidão bravia,
valle aberto em rechans, serra ouriçada em cristas,
rios e igarapés, sem descansar um dia.

Vinham de muito alem, em busca de conquistas
de índios e do ouro bom que nesta terra havia
e, destemido, o bando heróico de paulistas,
palmo a palmo, o sertão perigoso corria....

Traz dos coxiponés e do ouro e dos diamantes,
depois de muito esforço e lida foram dar
a Cuyabá, e, ali, os bravos bandeirantes

ergueram o arraial, entre as verdes collinas,
sendo governador o Conde de Assumar,
capitão general de São Paulo e das Minas.
- José de Mesquita, Da Natureza - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Medieval
Alta a lua no céu libra-se grande e bella.
No silencio da noite uma flauta suspira.
O céu todo estrellado e duma cor saphira
parece uma gloriosa e triumphal umbella.

O lago, em cujo seio o castello se mira,
imita, no sossego, uma formosa tela
que hábil pintor ali gravasse. Longe, a ourela
de um cerro galga o espaço e pelo céu se atira.

Suave perfume o bosque adormecido exhala.
Ha um cicio continuo, um canto prolongado
que num sonho feliz nosso espírito embala.

E o castello feudal sobre o lago pousado
banha-se no luar alvíssimo de opala
e abre, no alto, um vitral, como um olhar parado....
- José de Mesquita, Da Natureza - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Minha Musa
Todos os versos meus são teus, querida,
mesmo os que fiz sem bem te conhecer,
porquê tu foste em toda a minha vida
a que sempre esperei antes de ver.

Tu realizas o ideal do meu passado,
a alegria feliz do meu presente,
o sonho do futuro desejado,
e eu só vivo por ti, unicamente.

E neste e em todos os meus versos, minha
doce Musa, o teu nome hás de encontrar
enchendo cada estrophe e cada linha
como um eterno rythmo a vibrar.
- José de Mesquita, Primeiros tempos - Do Amor, em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Miragem
Elle viera passar ali um dia,
um dia por acaso certamente....
Partiu sem um pesar, alegremente,
quando a noite nostálgica descia.

Mal se fallaram.... No entretanto, viva
lembrança ella guardava delle e, agora,
sem se explicar porquê toda se cora
si essa recordação alguém lhe aviva.

Fica-se ás vezes, uma hora inteira
na janella do oitão, triste e silente,
olhando a estrada larga, ao sol ardente,
fechada pela rústica porteira.

Fica a olhar e a scismar que elle, decerto,
nem pensa nella, pobre caipirinha,
pois, moço da cidade, elle já tinha
alguma outra mais bella lá por perto....

E os seus olhos procuram pela estrada
alguém que venha, alguém que se pareça
com elle e assim se fica até que desça
de todo a noite tépida e estrellada.

Eil-a a fitar a noite ampla e infinita....
Mas, de súbito, cheia de receio,
sente que lhe palpita o lindo seio
por sob a blusa azul que o vento agita.

Ella se vê já quasi moça e bella....
E vem lhe um vago, um tímido desejo:
estende os lábios procurando um beijo
e beija o vidro frio da janella....

Sente-se tão tristonha e abandonada,
naquelle instante de indizível magoa....
E lança os lindos olhos rasos d’água
pela deserta escuridão da estrada....

Elle não virá mais, diz-te a consciência
mas ficas a esperar — pobre criança!
O amor é essa miragem da esperança
no infinito deserto da existência....
- José de Mesquita, Illuminuras, Da Arte - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Musa consolatrix
Contempla esta alameda ensombrada onde as aves
trinam a esvoaçar entre os floridos ramos;
ouve-lhes o gorjear, os cânticos suaves....
A selva é como um templo ande nos prosternamos.

Deus falla pela voz do vento, em phrases graves....
Attentos, a escutal-O, aqui nos concentramos....
Ha hymnarios de amor por entre as verdes naves,
pipilos de prazer e harmoniosos reclamos.

Ouve o rumor que faz a água a correr sonora,
a casquinar veloz, pela campina a fora;
sente o olor virginal dos lírios mal abertos....

Natureza! Só tu sabes lenir as dores.
e fazer vicejar todo um moital de flores
nos sombrios jardins dos corações desertos....
- José de Mesquita, Da Natureza - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Mundo Interior
Na ampla sala deserta e illuminada
aberta para a noite mysteriosa,
para o doce silencio da explanada
onde se espalha a luz do luar medrosa,

eu, só, a alma tristonha, desolada
de se sentir tão só, tão desditosa,
vou contemplando a noite constellada,
na ampla sala deserta e silenciosa....

Ouço na aragem leve que perpassa
vozes de outrora e vejo na vidraça
visões dum doce sonho enganador....

E nas cousas reaes apenas vejo,
na incerta névoa fosca do desejo,
vagas visões dum mundo interior....
- José de Mesquita, Do Sonho - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Musica
Musica.... Som que accordas
o silencio da dor,
no rythmo dos arcos e das cordas
suave e evocador

Dialecto da saudade
enternecido, mysterioso e triste,
Tu lazes entender a vaga affinidade
de tudo quanto existe.

És tu que nos infundes, doce e calma,
o prazer de ser triste e a gloria de ser bom.
O som é a linguagem da alma....
A alma foi feita p’ra entender o som.

Quem dirá dessa incógnita magia
que nos invade o coração tristonho
como a suave nostalgia
de alguma terra vista em sonho,

quando vemos, á noite, num teclado
qualquer,
correr, ao leve luar prateado,
a caricia de uns dedos de mulher?

E isto que ora me evoca o violino?
Século dezeseis ou dezessete.
Uma marquesa de rostinho pequenino
dançando o minuete.

E as emoções que me desperta
o choro do violão
quando, na grande noite deserta,
conta tudo o que soffre um coração?

Si da guitarra, em vez, o som escuto
porque é que, incontinenti,
capa traçada ao hombro, ar resoluto,
vejo D. Juan passar ligeiramente?

E que direi daquella
voz de magoa sentida e de enlevo sem fim
que lembra o Rialto, quando o céu se estrella,
— a voz do bandolim?

E a flauta, essa nostálgica? Exilada
da vida antiga, nella chora
a alma livre de Pan encarcerada,
que já não corre empós de Syrinx como outrora.

Ainda por vezes erra
nas notas della uma das velhas illusões:
cuida que esta marcando, antes da guerra,
a cadenciada marcha das legiões....

Suas irmans no seu destino triste,
— a harpa, já não suspira
nos coros da Tragédia, nem assiste
aos festins de Caprea e de Baia a lyra.

Mas eis que o orgam dolente soa,
— voz do silencio, alma da solidão,
que evoca as cathedraes medievas onde echôa
a tristeza do canto-chão.

O orgam é o preferido
das almas doces dos contemplativos,
mystico, seduzido
pelos tristes e lânguidos motivos

Num contraste sublime,
vibra a nota encarnada e ardente de um clarim,
contraste que na cor assim se exprime:
rubro raio rasgando um céu de azul cetim.

Quero a gamma da musica
inteira, o som inteiro,
desde a viola tremula, em surdina,
até a epilepsia do pandeiro.

Musica, tu és a única evocadora
que não precisa de outra evocação,
a arte completa.... A vida sem ti fôra
sem expressão.

Quanta cousa revelas num harpejo!
Tudo resumes, soberana Arte,
desde a delicia do primeiro beijo
até o adeus do ultimo olhar que parte....

Como o passado em tuas notas falla,
nessas valsas de vinte ou trinta annos talvez,
que os nossos paes dançaram numa sala
em que se viram a primeira vez!

Quem não conhece a musica das águas
e a do vento sentida como um choro
cheio de estranhas magoas?
Quem nunca ouviu a voz do silencio sonoro?

Ha musica em cada uma
vibração, seja da alma ou da matéria. Assim
ha rythmo na vaga a abrir-se em branca espuma
e no desabrochar dum calix de jasmim.

Ha uma canção azul no céu, antes do dia,
linda como um desejo adolescente,
e uma outra cheia de melancolia
no céu poente.

A paisagem é um canto. O dia é um hymno:
partitura do céu, inda incerto a clarear,
vivíssimo do azul, á hora do sol á pino,
smorzando da luz crepuscular....

Trêmulos de água ao luar, cheia de vagos frisos....
Serenatas de velas no mar largo
Até as serpes têm a musica dos guizos.
Só o paul é sempre abandono e lethargo.

Nada
é mudo sob o céu.... Tudo-aza, chilro, flor,
traduz uma emoção contida ou extravasada.
A alma tem a musica do amor.

Musica, tu, por certo,
és a melhor amiga,
que nos embala o berço, e longe ou perto,
nos cerra os olhos cheios de fadiga....

Lembro-me que, um dia,
pequenino que eu era, ao lado meu, alguém
me embalava a cantar quando eu dormia....
Ai! hoje não me embala mais ninguém!

Mas, me ficou daquelle tempo antigo
pela musica um culto
tão grande que trazel-o não consigo
occulto.

E amo-a tanto que a pena mais doida
que tenho de deixar a vida é não poder
alem da vida,
quando morrer,

ouvir ainda o eco plangente e fundo
do canto-chão funéreo
que, como o ultimo rythmo do Mundo,
ha de levar-me para o cemitério....
- José de Mesquita, Lavôres, Da Arte - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Necropolitana
[A Cruce salus]

Inútil é buscar a salvação no gozo,
Na gloria ou na riqueza esplendida e dourada.
Nossa vida se esfaz, qual fumo vaporoso,
E do tudo que foi, com pouco resta o nada.

O viver mais feliz, como o mais desditoso,
vem aqui terminar sua fallaz jornada.
E, mais cedo ou mais tarde, o dia temeroso
nos leva a adormecer sob a argilla gelada.

Que resta alli á flor de tanta sepultura,
da que formosa foi, do que teve riqueza ?
Nada mais que uma Cruz bem solitária e obscura.

Esta é a grande lição: só a Cruz invencida,
symbolo do soffrer, que vence a natureza,
nos salva e, mesmo após a morte, nos dá vida !
- José de Mesquita (Maio MCMXXXVII), em "Revista de Cultura". Rio de Janeiro. Ano XI, (janeiro – junho de 1937), nº 21, p. 348.



Nel mezzo del camin...
Si, quasi ao fim da vida ou della em meio,
permittido nos fosse reencetal-a,
percorrer novamente toda a escala
dos dias mil desse passado cheio;

recuperar a flor o viço e a gala
de quando desatou ao sol seu seio;
volver o rio á fonte donde veio,
em meio á matta virgem que trescala;

buscar a ave cansada o antigo ninho;
tornar o homem ás graças descuidadas
da infância doce, do primeiro lar, —

— soffrendo, embora, as urzes do caminho,
revivendo afflicções, magoas passadas,
quem não desejaria reencetar?
- José de Mesquita, Do Sonho - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Nocturno
Eil-a que dorme. Branda e suavemente
arfam-lhe os seios sob a camiseta
muito alva, de fina cambraieta
leve, macia, quasi transparente.

Pelo collo se espalha a cabelleira
escura e o rosto virgem resplandece
num halo de pureza que parece
uns ares lhe imprimir de linda freira.

Olhos cerrados, bocca entrefechada
— essa boca ideal que tanto aspiro!
Passa a mão pelo seio e, num suspiro,
estremece, de súbito, assustada.

Sonha, talvez? Que sonhos terá ella?
Eil-a a dormir, tão pallida e serena....
Um suave perfume de açucena
entra por entre as frestas da janella.

E em quanto o albente luar pelo telhado
vem lhe beijar a face linda e calma,
meu coração inquire de minha alma
porquê lhe arfou o seio alvoroçado?

A alma, entanto, fitando a noite bella
interroga dos céus a immensidade:
— porque fez Deus a luz, a claridade,
quando bastava a luz dos olhos della?

O coração, porem — mas que curioso!
perscruta, inquieto, a causa do suspiro....
Sobra lua no céu fazendo o giro
do plenilúnio lento e vagaroso.

E minha alma pergunta, ansiosa e louca,
aos resedás e às rosas perfumosas:
— para que existem resedás e rosas
diante da linda flor daquella bocca?

Na sua teima, o coração ainda
procura a causa do estremecimento,
do sobressalto súbito e violento
que, em sonhos, lhe turbou a face linda.

E a alma, levada agora em doido anseio,
pensa em ser um pequeno passarinho
e ir se esconder no perfumoso ninho
quente e sensual do seu moreno seio.

Mas eil-a que desperta. A trança preta
lhe cai aos hombros e ella, bocejando,
se ergue do leito puro, a rir, mostrando
os pesinhos por sob a camiseta....

Ha como o despertar de uma alvorada
quando elle se ergue e vêm se, de repente,
as graças do seu corpo adolescente
sob a camisa curta e decotada.

E, num sonho de amor que continua,
ella, de pé, no quarto pequenino,
fica a se olhar no espelho byzantino
que lhe reflecte a linda espádua nua.

Fica a se olhar dos pés ao collo e ao seio,
a analysar-se assim, linha por linha,
e no rosto gentil uma covinha
se abre, num mixto de prazer e enleio.

Um riso de criança satisfeita....
Mas, de repente, cora e treme, vendo
que a luz do dia vem apparecendo
e, através da cortina, o sol a espreita.

Esconde-se no oriente a ultima estrella
quando ella abre a persiana cor de creme
e no horizonte vago, ao longe, treme
a própria luz do sol, ciosa de vel-a....
- José de Mesquita, Primeiros tempos - Do Amor, em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



O ângelus do sertão
Tarde. Pleno sertão. No immenso descortino
do horizonte em que a serra ao longe se perfila,
num mixto de violeta e ce. azul turquezino,
desce a sombra por sobre a paisagem tranquilla.

Na suggestão do calmo ambiente vespertino
urna angustia sem nome em nossa alma se instilla.
Fecha da várzea o amplo tapete esmeraldino
a linha senhorial dos buritys em fila.

Aves passam pelo ar ruflando azas ligeiras.
Sob a rústica ponte o córrego adormece.
E emquanto a noite negra envolve a solidão

vem dos cerrados, das baixadas e capoeiras,
o piar das nhambus tão triste que parece
o ângelus merencório e doce do sertão.
- José de Mesquita, ‘Imprressões e Paisagens, Matto--Grrosso pinturrescco’ - em "Terra do Berço". Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. (grafia original).



Ode á Arte
Arte immortal, perenne e eterno fluido
que promanas de fontes mysteriosas,
os teus louvores nestes rudes versos
a cantar me proponho.

És tu que, desde as épocas primevas,
nessa lenta ascensão da humanidade
para o progresso e a perfeição suprema
nos guias e confortas.
Arte, consoladora e doce amiga,
que de mil formas a minha alma encantas,
e que da vida no árido deserto
abres risonho oásis,

tu és a eterna deusa, o eterno nume,
quer Athene te chames, quer Minerva,
quer na florida Hellade te adorem,
quer no Lácio glorioso.

Estruja os ares épica fanfarra
ou, doce, no silencio, chore a avena,
és sempre a mesma, em rythmos variados,
em multiplices formas.

Envolva-te, num halo, a espádua nua
a loura coma e em teu olhar espreite
o gênio da Victoria, á mão sustendo
o flammivomo gládio,

e em teu olhar sinta eu passar os bellos
e fulgidos relâmpagos de gloria
que nas antigas citadellas guiavam
os illicos guerreiros.

ou de outro aspecto calmo, te revistas,
grácil e puro, cheio da belleza
feminil, que não tem marciaes ardores
mas um suave encanto,

e exsurjas, radiosa e triumphante,
da equorea espuma que a alvorada tinge,
como Aphrodite as formas ostentando
do seu corpo divino,

quer na festiva embriaguez das praças
as multidões te acclamem desvairadas,
quer do Pantheon na meia luz saudosa
meus olhos te descubram,

és sempre a Arte, a eterna suggestiva
da Belleza por quem nossa alma anseia
nesse anhelo sublime, indefinido,
que em nosso imo palpita.

És sempre a Arte, quer no mármor branco
do estatuário o escopro te modele,
quer vibres nas esplendidas estrophes
de um poema parnasiano...

És sempre a Arte divina, quer refuljas
no perystilo de um palácio antigo,
ou nos vitraes dum templo ou das pyramides
que a areia adusta beija.

Seja o céu que te envolva o céu sombrio
dessas regiões phantasticas do Norte
ou seja o lindo céu vivido e claro
do azul Mediterrâneo;

abriguem-te em seus muros as immensas
cathedraes byzantinas ou medievas,
onde um sol melancólico se côa
através das ogivas,

ou durmas, entre a lânguida doçura
dos sombrios castellos silenciosos
que, das tílias á sombra merencórea,
o velho Rheno embala,

ou, ainda, do sol da bella Itália
beijem-te os raios, numa galeria
de museu ou num tépido villino
sossegado e dormente...

E, assim, não reconheces os limites
convencionaes de pátria: o mundo inteiro
por pátria tens e em toda a parte existes,
ó Arte immorredoura!

Acima das pequenas contingências
que nós, míseros seres, veneramos,
pairas, com a solemne affirmativa
desse algo mais que humano.

E passam como as ondas, como as nuvens,
as gerações, os povos e as idades,
e tu, sempre grandiosa, imperecível,
subsistes no teu sólio....

Pouco importa que os Bárbaros te insultem,
buscando nodoar o teu renome....
Vingas-te, revivendo, victoriosa,
em novas Renascenças,

e, impassível, serena, a tua effigie
surge consoladora aos nossos olhos,
a chlamide cruzada, o olhar sereno,
e o sorriso divino.

Ó Arte, eu que te adoro e te venero,
quer Esthetica ou Rythmo te chames,
quer em luz, quer em forma ou harmonia
meus sentidos affectes,

propus-me, na rudeza destes versos,
a cantar teus louvores sempiternos,
mas não o pude, e nesse caso, baste-me
este prazer de amar-te.
- José de Mesquita, Lavôres, Da Arte - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Palmeira Real
Só, no ermo, a fitar o firmamento mudo,
erecta e sobranceira, abrindo no ar, altiva,
as palmas verdes como um heráldico escudo,
ha uma palmeira pensativa.

Ou ruja a trovoada em bramidos de hyena
ou brilhe a primavera esplendida e festiva,
seja tarde de outono ou de verão, serena,
scisma a palmeira pensativa.

Ás vezes, o luar, pelas noites de outono,
banha-a de sua luz magoada e suggestiva
e, lânguida, a scismar, num torpor de abandono,
sonha a palmeira pensativa.

Outras vezes o sol, na sua gloria de ouro,
beija-a, morde-a, incendeia-a em sua chamma viva,
e ella impassível, fita o sol formoso e louro,
numa attitude pensativa....

Ah! talvez este anseio infindável cessasse,
si a doce Natureza, um dia, compassiva,
esta alma torturada e triste transformasse
numa palmeira pensativa!
- José de Mesquita, Illuminuras, Da Arte - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).




Perfeição
Non sit pax tua in ore hominum . . .
(Imitação, III, XXVIII, 2)

Segue a vida real, bem ampla e illuminada,
surdo ás acclamações e aos apupos cruéis,
olhos postos no azul, vai pela tua estrada,
brotem rosas em flor ou espinhos a teus pés.

Pobre do que sentir sua alma perturbada
pelos ápodos vis ou pelos ouropeis!
Vai, tranquillo, a fluir . . . Lembra que a água parada
não tarda em transformar-se em pântano, em marneis.

Quando a alma se eleva á virtude mais alta,
indifferente á dor e ao gozo que inebria,
e a chacota, que fere e ao encômio, que exalta

é que da Perfeição o vértice attingiu:
— nem já lhe doe o mal, que a cerca, noite e dia,
nem o bem que buscou e não conseguiu !
- José de Mesquita (Maio MCMXXXVII), em "Revista de Cultura". Rio de Janeiro. Ano IX, (Janeiro – Junho), 1935, Vol. 17, p. 109.



Phrases Lyricas
Ás vezes, alta noite, o lasso pensamento
entregue á doce scisma, ao meigo devanear,
eu sinto que um estranho e suave sentimento
o coração me invade aos poucos, lento e lento,
que eu não sei bem dizer si é gozo , si é penar.

Na solidão do céu a colméia brilhante
das estrellas dardeja um dulcido clarão.
É tudo calma e paz, do verme rastejante
as alturas, do musgo ao carvalho gigante,
da myosotis azul aos astros da amplidão.

Tudo dorme e repousa. A idéa apenas vela,
porquê ella é como o fogo eterno das vestaes,
porquê ella é como um astro em meio da procella,
a abrir, no alto do céu, a sua luz tão bella,
zombando do tufão, rindo dos vendavaes.

É doce recordar-se, a noite, bem sozinho....
recordar-se é viver o que se já viveu.
Assim a um viajar, na curva do caminho,
apraz olhar atraz, lembrar o doce ninho,
a antiga placidez da terra em que nasceu.

A vida se condensa inteira no que amamos,
seja realidade ou chimera esse amor,
seja um ente real ou um sonho que ideamos,
seja um pouco de céu, seja um ninho, entre ramos,
seja um rio, uma planta, uma estrella, uma flor....

E eu que todo o ideal, todo o sonho dourado
ponho em ti, doce amor, que és tudo para mim,
apraz-me recordar o teu perfil amado,
vendo, na evocação, o teu rosto adorado
cheio de graça meiga e de encanto sem fim.

Das horas de prazer e enlevo em que te vejo
faço momentos bons dum êxtase ideal
e daquellas em que, curto, longe, o desejo,
á espera dum feliz e encantador ensejo,
séculos de tortura e angustia sem igual;

eu que vivo de ti, ó minha flor singela,
penso, longe de ti, que não posso viver....
E enquanto corre a noite, enluarada e bella,
fico triste, a scismar, debruçado á janella,
conto as horas da noite, a espera de te ver.
- José de Mesquita, Primeiros tempos - Do Amor, em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Prelúdio
Eu imagino uma mulher
que eu hei de amar e me ha de amar,
e que eu, esteja onde estiver,
a todo tempo, hei de encontrar.

Á força já de imaginal-a
sinto-a real diante de mim:
vejo-lhe o riso, ouço-lhe a falla....
Já se viu caso extranho assim?

Constantemente eu imagino
a hora ditosa della vir
e, entanto, o meu cruel destino
não m’a fez inda descobrir.

Em quantas outras julguei della
ver as feições e me enganei!
Nenhuma era tão meiga e bella
Como essa que eu imaginei!

Ás vezes cuido vel-a andando
nas ruas, entre a multidão,
e vivo sempre me enganando
nessa dulcíssima illusão.

Já a vi nos templos e nas praças,
nas rezas e nos carnavaes,
e, a rir, por dentro das vidraças,
como nas telas medievaes.

E nunca a vi.... E sempre a vejo....
E ando a buscal-a sem siquer
saber quem busco em meu desejo,
sem conhecer essa mulher....

Quando a encontrar como hei de amal-a!
Que immenso, allucinado amor!
Mas quando, como hei de encontral-a?
Ha tanto sonho enganador....

Não obstante eu imagino
que hei de encontral-a, onde estiver,
a esphinge atroz do meu destino,
essa fantástica mulher....

É uma mulher que tem da onda
a mysteriosa alma no olhar
e um riso, como o da Gioconda,
de uma belleza singular.

É uma mulher? É uma menina?
Precisamente eu não o sei.
Minha alma apenas a imagina
mas não sei mesmo si a verei....

Mas hei de vel-a, onde estiver....
Ha de o destino m’a indicar,
porquê ella é a única mulher
que eu hei de amar e me ha de amar.
- José de Mesquita, Primeiros tempos - Do Amor, em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).




Redençâo
Da vida, muita vez, semeamos nas estradas
urzes que vão ferir incautos pés alheios
e vêmos, com piedade e de ternura cheios,
duma palavra só mil dores germinadas.

E buscamos, então, entre ânsias e receios,
resgatar toda angústia e tristeza causadas,
sentindo esse travor de lágrimas jorradas
como linfa a brotar de cristalinos veios.

Mas o mal que se fez um dia não se esquece
e sómente se póde encontrar lenitivo
partilhando da dôr daquele que o padece,

pois para redimir os gravames passados,
o mais que se consegue é, entre pezares vivos,
fazer, em vez de um só, dois desaventurados.
- José de Mesquita, (Setembro 1938), em "Escada de Jacó".  Cuiabá: Escola Industrial Salesiana, 1945. (grafia original)



Saudade
Muitas vezes minha alma, em largo vôo
abrindo as azas, infinito a fora,
é como uma ave em plácido revôo,
rompendo o espaço quando nasce a aurora.

É assim quando o passado, a sós, remôo,
— esse passado tão distante agora —
e ao coração de corda em corda, echôo
todas as notas que vibrei outrora.

A saudade é uma viajem que fazemos
a outros céus, a outras terras, a outras vidas,
que nunca mais — pobres de nós — veremos.

E que bom esquecer a realidade
e, como uma águia da azas estendidas,
mergulhar no infinito da saudade!
- José de Mesquita, Do Sonho - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Semeador
O Poeta é lavrador de uma gleba abençoada
que o ante-verão flori e o inverno não destouca.
O prazer de semear lhe é tarefa sagrada
e diante dele toda a glória humana é pouca.

Cirano, muita vez, celebra a sua Amada,
a qual nem lhe percebe a paixão alta e louca,
e vê, com que pesar ! de baixo da sacada,
o beijo de Roxana abotoar noutra bôca.

Mas — e é a compensação que sorri aos Poetas —
quanta vez sua lira, em sonânsias secretas,
num coração discreto a paixão despertou

— Margarida gentil, de alma e de corpo lindo —
e, como Alain Chartier, é beijado, dormindo,
sem nem siquer saber o lábio que o beijou!
- José de Mesquita, (Setembro 1936), em "Escada de Jacó".  Cuiabá: Escola Industrial Salesiana, 1945. (grafia original)



Solidão
Noite bella e enluarada.
Ha uns aromas de cecêm
no ar. Dorme a branca estrada.
Dum lado e doutro ninguém...

A alta esphera constellada
é como formoso harém
de estrellas... Boceja a estrada
sozinha á lua... Ninguém....

A lua grande e prateada
sobe e sobe mais alem....
Cantam... E, á cantiga, a estrada
parece dormir. Ninguém....

É uma saudosa ballada
que muito enlevo contem.
Tristonha e deserta, a estrada
dormita.... E, em torno, ninguém...

Que solidão! Isolada,
nem um transeunte vem
e, ao luar, a triste estrada
parece dizer: ninguém....

A noite, lenta e pausada,
faz sua rota.... porem
ninguém vem e dorme a estrada
toda a noite, sem ninguém....

Ao raiar da madrugada
ouvem-se passos.... Alguém?
É o vento, apenas, na estrada
erguendo as folhas.... Ninguém.

Alma que vives — coitada!
á procura de teu bem,
és tal e qual essa estrada
onde não passa ninguém.
- José de Mesquita, Illuminuras, Da Arte - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Teu olhar
Quanta luz nesse olhar vejo, querida,
quando o repousas docemente em mim!
É elle que alumia a minha vida....
Quanta luz nesse olhar vejo, querida!
O sol do estio não rebrilha assim!

Nelle do amor todo o clarão refulge
e que doçura tem meiga e sem fim!
Toda, a tua alma á flor dos olhos fulge.
Nelle do amor todo o clarão refulge.
Nem o luar é tão suave assim!

Teus olhos são dois astros rutilantes;
deixa que a sua luz se esparza em mim,
agora e sempre, agora como dantes....
Teus olhos são dois astros rutilantes....
Que o teu olhar me siga sempre assim!

Á hora da morte quero-o como círio,
perto, quando sentir próximo o fim,
no ultimo instante, no final delírio....
Á hora da morte quero-o como cirio,
pois não ha cirio que illumine assim!

Deixal-o em mim pousar-se docemente,
illuminando este caminho ruim
por onde vou tão só, tão tristemente....
Deixal-o em mim pousar-se docemente,
como um sonho de amor que não tem fim.
- José de Mesquita, em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).



Trilogia das horas
I - A Hora Rosa
Setembro. Eis a sazão feliz de rizo e flores.
A primavera andou a disparzir em tudo
a alegria e do céu azul ao triste e mudo
ádyto da floresta ha festivos tumores.

O prado se vestiu dum manto de velludo;
rivalizam-se o mar e o céu nas suas cores.
No matinal concerto alígeros cantores
accordam a soidão do grande bosque rudo.

Viça, pelos jardins, a alegria das rosas.
Ás luzes da manhan, álacres e ruidosas,
avesinhas, ás mil, revoam, aos casaes....

E em quanto tudo ri, canta, viça e fulgura,
da primavera eu colho a flor mais bella e pura
nos teus lábios gentis, doces e virginaes.


II - A Hora Purpura
Meio dia. Ha um torpor em toda a natureza,
um silencio profundo, um grande desalento.
Fulge, esplendido, o sol no alto do firmamento
sem nuvens, de uma estranha e lânguida belleza.

A luz desce, em caudaes, como a jorrar, violento,
salto d’água se espalha em toda a redondeza
e, á luz, refulge o valle e reverbera, accesa
em arco-íris, dum rio a água no curso lento.

Aves, dentre o sombrio e plácido arvoredo,
pipilam docemente e, lânguida e sentida,
uma voz de mulher vibra no ambiente quedo

e, naquella hora triste, aquella voz dorida
como que nos incute ao espírito, em segredo,
a anciã da Morte e o tédio infinito da Vida....


III - A Hora Violeta
Surge A primeira estrella.... Um tom brando e macio
de violeta e de cinza encobre o espaço de onde
desce a ultima luz do sol que já se esconde
no cabeço do monte escarpado e sombrio.

Começa a apparecer, por sob a verde fronde,
a estranha procissão dos lampeiros.... O rio,
indômito e feroz, selvático e bravio,
ruge como uma voz que, em plena selva, estronde.

Nas alamedas vão de braços, mão unidas,
pares a conversar — namorados, amantes —
presos de vago enleio amoroso e sensual....

E enquanto a Noite envolve as amplas avenidas
ha um sussurro de prece e beijos delirantes
na suave emoção da doce hora nupcial....
- José de Mesquita, Da Natureza - em "Poesias". Cuiabá, 1919. (grafia original).

  
José de Mesquita, presidindo a Corte de Apelação em Cuiabá, em 1935

FORTUNA CRÍTICA DE JOSÉ DE MESQUITA
BARBOSA JUNIOR, Dimas Evangelista. O nacionalismo estético em Piedade de José de Mesquita. (Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Letras). Universidade do Estado de Mato Grosso, UNEMAT, 2012.
CAMPOS, Douglas da Silva. Mato Grosso por José de Mesquita. (Trabalho de Conclusão do curso de Graduação em Letras). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2010.
CARVALHO, Carlos Gomes de. A poesia em Mato Grosso. Cuiabá: Verdepantanal, 2003.
CARVALHO, Carlos Gomes de. Panorama da Literatura e da Cultura em Mato Grosso. Vol. II. Cuiabá: Verdepantanal, 2004.
COUTINHO, Afrânio; SOUZA,  J. Galante de. Enciclopédia de Literatura Brasileira. São Paulo: Editora Global; Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional/DNL: Academia Brasileira de Letras - 2ª edição, 2001.
FERREIRA, Miriã Oliveira Ferreira. José Barnabé de Mesquita: dez contos, dez espelhos. (Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Letras). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2008.
GONÇALVES, Guiomar Ferreira Néris. Representação do feminino no conto A burguezinha de José de Mesquita. (Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Letras). Universidade do Estado de Mato Grosso, UNEMAT, 2009.
Capa do livro Espelho de Almas
INOCÊNCIO, Mirian de Oliveira. Regionalismo e Folclore em José de Mesquita. (Trabalho de Conclusão do Curso de Graduação em Letras). Universidade do Estado de Mato Grosso, UEMT, 2009.
JUSTINO, Karina Aparecida. Anacronismo e Dialética nos Sonetos de José de Mesquita. (Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Letras). Tangará da Serra. Universidade do Estado de Mato Grosso, UNEMAT, 2009.
MACHADO FILHO, Oswaldo. Os jogos da responsabilidade penal e da determinação psicológica em José de Mesquita: as mulheres e os crimes célebres em Mato Grosso - século XIX.. Territórios e Fronteiras, Cuiabá, v. 5, p. 171-206, 2004.
MASUTTI, Vinícius. José de Mesquita, o poeta de outra época. Especial para o Diário de Cuiabá, edição nº 13080 07/08/2011. Disponível no link. (acessado 0.9.2013).
MELLO, Franceli Aparecida da Silva. O leitor de carne e osso e os leitores de papel e tinta: representações de leitura e de leitores no romance Piedade de José de Mesquita. Polifonia (UFMT), v. 1, p. 81-94, 2010.
MENDONÇA, R. de. História da Literatura Mato-grossense. Cáceres: Ed. Unemat, 2005.
PEREIRA, Liduina Maria de Sousa. Sentidos do Amor Influenciado Pelo Lugar na Sociedade: um estudo da personagens protagonistas femininas dos Romances Lucíola e Piedade de José de Alencar e José de Mesquita, respectivamente. (Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Letras). Universidade do Estado de Mato Grosso, UNEMAT, 2013.
PINTO, Luiz Renato de Souza. Questões de raça e religiosidade em José de Mesquita. In: X Congresso Internacional da ABRALIC, 2006, Rio de Janeiro. Anais do X Congresso Internacional da ABRALIC, 2006.
PINTO, Luiz Renato de Souza. Rica/bendita; pobre/mal-dita; as cores da mulher em José de Mesquita. 1919/1961. (Dissertação Mestrado em História). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2005.
RIBEIRO, Rafaela Freitas. Literatura e história: um diálogo possível no romance "Piedade" de José de Mesquita. (Trabalho de Conclusão de Curso de Graduação em Letras). Universidade Federal do Mato Grosso, UFMT, 2012.
RONDON, Gisleny Antonia de Jesus; SILVA, Rosana Rodrigues da. A cultura mato-grossense em periódicos: a poesia de José de Mesquista. Revista de Letras Norte@mentos – Revista de Estudos Linguísticos e Literários, Edição 3 – Estudos Literários 2009/1.
SILVA, Nilzanil Maria José Soares e. Momentos da crítica literária em Mato Grosso na produção de José de Mesquita. (Dissertação Mestrado em Estudos de Linguagem). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2006.
SOUZA, Wender Marcell Leite. Piedade, de José de Mesquita: uma costura de textos. (Dissertação Mestrado em Estudos de Linguagem). Universidade Federal de Mato Grosso, UFMT, 2012. Disponível no link.(acessado 8.9.2013).
REVISTA IHGMT. Edição em homenagem a José de Mesquita. Tomo CXXXVII - CXXXVII, Ano LXIV. Edição do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, Cuiabá, 1992. Disponível no link.  (acessado 8.9.2013).

José Barnabé de Mesquita em 1912

OBRA POÉTICA DE JOSÉ DE MESQUITA ONLINE
Poesias. Cuiabá, 1919. Disponível no link
Terra do Berço. (poesias), Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1927. Disponível no link
Epopéia Mato-Grossense. (sonetos), Cuiabá, 1930. Disponível no link
Do Jardim Místico. (Sonetos). Cuiabá: Revista do Centro Mato-grossense de Letras Anno X, Números XIX e XX — Jan. a Dez. 1931. Disponível no link
Coletânea de Poesias e Sonetos (1937—1941). Rio de Janeiro: Revista de Cultura. Disponível no link
Sonetos. Cuiabá: Revista da Academia Mato-grossense de Letras Ano VI — Tomos XI e XII, 1938. Disponível no link
Três Poemas da Saudade. (poemas), Cuiabá, 1943. Disponível no link
Escada de Jacó. (sonetos), Cuiabá, 1945. Disponível no link
Roteiro da Felicidade. (sonetos). Cuiabá, 1946. Disponível no link
Poemas do Guaporé. (poemas), Cuiabá, 1949. Disponível no link
 ** (Links acessados em 8.9.2013) 


OBRAS ONLINE: (ROMANCE, CONTOS E CRÔNICAS)
Piedade. Cuiabá: Escolas Profissionais Salesianas, 1937. Disponível no link
A Cavalhada. (contos regionais), Cuiabá, 1928. Disponível no link
Corá. (conto), 1930. Disponível no link
Espelho de Almas. (contos), Prêmio da ABL. Rio de Janeiro: A. Coelho Branco Filho, 1932. Disponível no link
No Tempo da Cadeirinha. (contos regionais), Curitiba, 1946. Disponível no link
Gente e Coisas de Antanho. (Crônicas 1924-1934). Cuiabá, 1978. Disponível no link
 ** (Links acessados em 8.9.2013)



José de Mesquita
REFERÊNCIAS E OUTRAS FONTES DE PESQUISA
Biblioteca Digital José de Mesquita 


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© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske


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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). José de Mesquita - e a cultura matogrossense. Templo Cultural Delfos, setembro/2013. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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Página atualizada em 30.9.2013.



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