Torquato Neto – o anjo torto

Torquato Neto, por João de Deus Netto
"Quando eu recito ou quando eu escrevo uma palavra, um mundo poluído explode comigo e logo os estilhaços desse corpo arrebentado, retalhado em lascas de corte e fogo e morte (como napalm), espalham imprevisíveis significados ao redor de mim. [...] uma palavra é mais que uma palavra, além de uma cilada. Agora não se fala nada e tudo é transparente em cada forma; qualquer palavra é um gesto e em sua orla os pássaros de sempre cantam apenas uma espécie de caos no interior tenebroso da semântica. [...] Escrevo, leio, rasgo, toco fogo e vou ao cinema."
- Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". (Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte). São Paulo: Max Limonad, 1984, p. 98.

Torquato Neto (Teresina PI 1944 - Rio de Janeiro RJ 1972). Poeta, jornalista e compositor. Depois da infância em Teresina, mudou-se para Salvador (BA), em 1960, para cursar o segundo grau. Na Bahia, descobriu a poesia de Carlos Drummond de Andrade e João Cabral de Melo Neto; e conheceu Caetano Veloso, Gilberto Gil, José Carlos Capinam, Maria Bethânia, Gal Costa e Glauber Rocha. Apaixonado por cinema, envolveu-se com atividades cineclubísticas e integrou a equipe do filme Moleques de Rua, dirigido por Alvino Guimarães. Torquato, que até então pretendia tentar carreira diplomática, decidiu na época que seria jornalista. Mudou-se para o Rio de Janeiro em 1962, para terminar o científico e prestar vestibular. Cursou dois anos de Jornalismo na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil, abandonando posteriormente o curso. Em 1963, durante a inauguração do Teatro da UNE, conheceu sua futura mulher, Ana Maria Duarte, baiana de Ilhéus. Em 1965, trabalhou como repórter de setor no aeroporto do Galeão, no Rio.
Torquato Neto (Foto: Acervo TN/
UPJ Produções)
No mesmo ano, compôs, em parceria com Gilberto Gil, Louvação sua primeira composição gravada por Elis Regina, em 1966. Em 1967, era lançado o LP Domingo, de Caetano Veloso e Gal Costa, com três parcerias de Torquato Neto com os baianos: Minha Senhora, Zabelê e Nenhuma Dor. No mesmo ano, casou-se com Ana Maria, com quem teria, em 1970, o filho Thiago. É ainda em 67 que Torquato, Capinam, Caetano, Gil, Gal, Tom Zé, Os Mutantes e o maestro Rogério Duprat se uniram para lançar o Tropicalismo, através de um LP programático: Tropicália ou Panis et Circenses. Influenciado pela exposição que Hélio Oiticica fizera no MAM/RJ, em abril de 67 (Tropicália), o movimento assumia o subdesenvolvimento brasileiro e incorporava "novos dados informativos": "som universal, música pop, tropicalismo, música popular moderna, tudo sob influência de Oswald de Andrade, o grande pai ‘antropofágico’" (Augusto de Campos, Balanço da Bossa e outras bossas). O deslanchar do Tropicalismo foi o III Festival da Música Popular Brasileira da TV Record, promovido em outubro de 67, quando Caetano cantou Alegria, Alegria sob vaias, levando o quarto lugar. Com a promulgação do AI-5 e o endurecimento do regime, em 1968, alguns membros do grupo se exilaram. Um de seus mais ativos letristas, Torquato deixou o Brasil em 1969, quando ganhou uma bolsa de estudos para escrever sobre "as influências africanas da música popular brasileira". 
Viveu na Europa até fins de 1970, entre Londres e Paris. De volta ao Brasil, incentivou e participou de diversas publicações alternativas O Sol, Presença, Flor do Mal, Verbo Encantado, escreveu para grandes jornais e revistas brasileiros, e manteve, de agosto de 1971 a fevereiro de 1972, a famosa coluna Geléia Geral, no diário Última Hora. Sobre a coluna escreveu Paulo Leminski: "Não exagero ao dizer que Torquato criou um padrão de jornalismo cultural. Um padrão baseado na extrema criatividade de linguagem. Na hibridização dos discursos: poéticos, factual, matérias nobres x matérias pobres. Esse jornalismo torquatiano estava a serviço de uma causa, a promoção do Super 8 e do cinema marginal, periférico às glórias e consagrações do Cinema Novo, em vias de academização, comercialização e caretice". Além de participar como ator de filmes de Ivan Cardoso, Nosferatu no Brasil e Luiz Otávio Pimentel, Dirce & Helô, Torquato chegou a realizar, em Teresina, um filme em super-8, Terror da Vermelha, pouco antes de morrer. Torquato Neto teve problemas com o consumo excessivo de álcool nos últimos quatro anos de sua vida, tendo se internado em clínicas especializadas e sanatórios para desintoxicação. Em 10 de novembro de 1972, no Rio de Janeiro, ele se suicidou, deixando dois livros de poemas inéditos: Pesinho pra dentro, pesinho pra fora e O fato e a coisa. Em 1973, era publicado Os últimos dias de paupéria, coletânea de textos jornalísticos, poesia e fragmentos de diários de Torquato, organizada por Ana Maria Duarte e Waly Salomão. A revista Navilouca, projetada por Torquato com Waly Salomão, também só seria publicada postumamente.


"O meu nome é Torquato
O de meu pai é Heli
O da minha mãe Salomé
O resto ainda vem por aí."
- Torquato Neto (aos 9 anos)

Torquato Neto - 13 anos, em Teresina/PI
 (Foto: Acervo TN/ UPJ Produções)


Pessoal intransferível
Escute, meu chapa: um poeta não se faz com versos. É o risco, é estar sempre a perigo sem medo, é inventar o perigo e estar sempre recriando dificuldades pelo menos maiores, é destruir a linguagem e explodir com ela. Nada no bolso e nas mãos. Sabendo: perigoso, divino, maravilhoso.

Poetar é simples, como dois e dois são quatro sei que a vida vale a pena etc. Difícil é não correr com os versos debaixo do braço. Difícil é não cortar o cabelo quando a barra pesa. Difícil, pra quem não é poeta, é não trair a sua poesia, que, pensando bem, não é nada, se você está sempre pronto a temer tudo; menos o ridículo de declamar versinhos sorridentes. E sair por aí, ainda por cima sorridente mestre de cerimônias, "herdeiro" da poesia dos que levaram a coisa até o fim e continuam levando, graças a Deus.

E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: "leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi". - Adeusão.
- Torquato Neto, publicado coluna "Geléia Geral", 3ª feira, 14/9/71.

Torquato Neto - Foto: (...)

OBRA DE TORQUATO NETO
Obra poética e jornalística
[publicação póstuma]
Os Últimos Dias de Paupéria. (Organização Waly Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte), 1ª ed., Rio de Janeiro: Livraria Eldorado Tijuca, 1973; 2ª ed., (ampliada e revisada). Rio de Janeiro: Max Limonad, 1982.
Torquatália - do Lado de Dentro. vol.I - (Organização Paulo Roberto Pires). Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004.
Torquatália: geléia geral.  vol.II - (Organização Paulo Roberto Pires). Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
Torquato Neto ou A carne seca é servida. (Organização Kenard Kruel), 3ª ed., Teresina/PI: Zodíaco, 2012, 704 p.
Juvenílias. [poesia escrita entre 17 -19 anos].. (Organização George Mendes e Paulo José Cunha). Teresina/PI: UPJ Produções, 2012, 162p.
O fato e a coisa. [poemas inéditos escritos de 1962 a 1964, sob pseudônimo de Adriano Jorge].. (organização Paulo José Cunha e George Mendes), Teresina/PI: UPJ Produções, 2012, 106p.


“Basta ler com atenção que a gente entende tudo”
- Torquato Neto


Antologias (participação)
HOLLANDA, Heloisa Buarque (org.). 26 poetas Hoje. Editora Labor do Brasil, 1976.
ASCHER, Nelson; BONVICINO, Régis; PALMER, Michel (Org.). Nothing The Sun Could Not Explain; 20 Contemporary Brazilian Poets. Los Angeles: Sun & Moon Press, 1997, 312p.
MORICONI, Ítalo (org.). Os cem melhores poemas brasileiros do século. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
MORICONI, Ítalo (org.). Destino: poesia. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2010.
COHN, Sérgio (org.). Poesia.br..  Azougue Editorial, 2013.



Composições (em parceria)
A coisa mais linda que existe. (com Gilberto Gil);
A rua. (com Gilberto Gil);
Ai de mim, Copacabana. (com Caetano Veloso);
Andar, andei. (com Renato Piau);
Brasa samba. (com Silizinho);
Cantiga. (com Gilberto Gil);
Capitão Lampião. (com Caetano Veloso - Inédita);
Chapada do Corisco. (com Carlos Pinto);
Coisa mais linda que existe. (com Gilberto Gil);
Começar pelo recomeço. (com Luiz Melodia);
Consoloção. (com Carlos Galvão - Inédita);
Coro misto fotogênico. (com Geraldo Azevedo);
Daqui pra cá, de lá pra cá. (com Zeca Baleiro e Raimundo Fagner);
Daqui pra lá. (com Sérgio Brito);
Dente por dente. (com Jards Macalé);
Destino. (com Jards Macalé);
Deus vos salve a casa santa. (com Caetano Veloso);
Domingou. (com Gilberto Gil);
Estou sereno, estou tranquilo. (com Toquinho - Inédita);
Fique sabendo. (com João Bosco e Chico Enói - Inédita);
Geléia geral. (com Gilberto Gil);
Torquato Neto - Foto: (...)
Go back. (com Sérgio Brito);
Go back II. (com Geraldo Brito);
Jardim da noite. (com Carlos Galvão - Inédita);
Juliana. (com Caetano Veloso);
Let's play that. (com Jards Macalé);
Liretaro cantábile. (com Feliciano Bezerra);
Lost in the paradise. (com Caetano Veloso);
Louvação. (com Gilberto Gil);
Lua nova. (com Edu Lobo);
Mamãe coragem. (com Caetano Veloso);
Marginália II. (com Gilberto Gil);
Me caso com você. (com Edvaldo Nascimento);
Meu choro pra você. (com Gilberto Gil);
Minha Senhora. (com Gilberto Gil);
Nenhuma dor. (com Caetano Veloso);
O bem, o mal. (com Sérgio Britto);
O homem que deve morrer. (com Nonato Buzar);
O nome do mistério. (com Geraldo Azevedo);
Poema do aviso final. (com Gomes Brasil, James Brito e Mike Soares);
Pra dizer adeus. (com Edu Lobo);
Quase adeus. (com Nonato Buzar e Carlos Monteiro de Souza);
Que película. (com Nonato Buzar);
Que tal. (com Luiz Melodia - Inédita);
Quem dera. (com Jota);
Rancho da boa-vinda. (com Gilberto Gil);
Rancho da rosa encarnada. (com Gilberto Gil e Geraldo Vandré);
Rosa dos ventos. (com João Bosco - Inédita);
Samba da esperança. (com Fred Falcão - Inédita);
Sem essa aranha. (com Carlos Galvão);
Toada. (com Luiz Carlos Sá);
Todo dia é dia D. (com Carlos Pinto);
Tome nota. (com Carlos Galvão);
Três da madrugada. (com Carlos Pinto);
Tudo muito azul. (com Roberto Menescal);
Um dia depois do outro. (com Carlos Galvão - Inédita);
Um dia desses eu me caso com você. (com Paulo Diniz);
Veleiro. (com Edu Lobo);
Vem menina. (com Gilberto Gil);
Venho de longe. (com Gilberto Gil);
Vento de maio. (com Gilberto Gil);
Zabelê. (com Gilberto Gil).


Discografia
Tropicália ou panis et circensis - Philips LP, 1968;
Os últimos dias de Paupéria - Eldorado Editora Compacto simples, 1973;
Torquato Neto - Um poeta desfolha a bandeira e a manhã tropical se inicia - RioArte/Prefeitura do Rio de Janeiro e Governo do Estado do Piauí LP, 1985;
Todo dia é dia D - Dubas Música CD, 2002;
Torquato Neto - Só quero saber do que pode dar certo - 60 anos, (Vários), CD, 2005;
Torquato - Cancioneiro Torquateano - a palavra cantada - 1965/1972 - Halley Gráfica Editora e Fundação Quixote, CD, 2007.


"Ocupa-se um espaço vago como também se ocupa um lugar ocupado: everywhere. E aguentar as pontas, segurar, manter. Ou, como em Teorema (de Pasolini), aplicar e sair do filme. Tiro um sarro: vampiro. O nome do inimigo é medo. Meu nome ninguém conhece. Moro do lado de dentro e nasci na Chapada do Corisco – carrego isso. Plano geral na parede: numa encruzilhada vista do alto as pessoas se movem e correm atrás de algo. Não sei se é uma pelada, não sei se é outra coisa. Corta e lemos a palavra: DESÇA. Fim do cinema, início do cinema. O espaço desocupado, ocupação do espaço. Filmes."
- Torquato Neto, 5 Coluna Geleia Geral. Última Hora, Rio de Janeiro, 30 nov. 1971.


Torquato Neto - o protagonista Vampiro,
no filme Nosferatu no Brasil, de Ivan Cardoso

Filmografia
Filme: Terror da Vermelha
Sinopse: As perambulações de um assassino serial perseguindo suas vítimas pelas ruas do bairro da Vermelha, em Teresina, serve como pano de fundo para investigação do caráter formal do cinema, com a intrusão de elementos plásticos e poéticos avessos à ficção cinematográfica contemporânea, como cartelas e enquadres inusitados. A pesquisa formal se sobrepõe a um percurso afetivo do autor por sua cidade natal. Não revisitaria apenas os locais da sua experiência, mas também os filmes, inclusive o Nosferato no qual atuou. A trilha inclui trabalhos do poeta Torquato musicados por compositores contemporâneos, como Let’s Play That com Jards Macalé, e Mamãe, Coragem com Caetano Veloso.
Ficha técnica
Ano: 1971/1972 - Teresina PI
Torquato Neto
28min, cor, som
Imagens: Torquato Neto e Arnaldo
Montagem: Torquato Neto
Elenco: Edmar Oliveira, Conceição Galvão, Geraldo Cabeludo, Claudete Dias, Torquato Neto, Etim, Durvalino Couto, Paulo José Cunha, Herondina, Edmilson, Carlos Galvão, Xico Ferreira, Arnaldo, Albuquerque, Heli e Saló



Filme: Adão e Eva do Paraíso ao Consumo
Sinopse: (...)
Ficha técnica
Ano: 1972 - Teresina/PI
Formato: super 8
Duração: 3 min.
Direção: Carlos Galvão
Câmara: Arnaldo Albuquerque
Produção: Noronha Filho
Roteiro: Edmar Oliveira
Elenco: Torquato Neto (Adão) e Claudete Dias (Eva).


Filme: Dirce & Helo
Sinopse: Na rua, dois rapazes se encontram. O filme se encaminha para sugestões homoeróticas de delicadeza e violência. Acompanhadas pela câmera veloz, as performances de Torquato Neto e Zé Português dialogam com a trilha sonora, composta por músicas cantadas por Luiz Melodia, como Negro Gato. Elementos gráficos e cartazes compõem a narrativa.
Ficha Técnica
Ano: 1971 - Rio de Janeiro RJ
Duração: 16min, cor, som
Direção, Imagens e montagem: Luiz Otávio Pimentel
Elenco: Torquato Neto e Zé Português
Trilha sonora: Luiz Melodia


Scarlet Moon  e Torquato Neto - no filme
 'Nosferatu no Brasil', de Ivan Cardoso, 1971.
Filme: Nosferatu no Brasil
Sinopse: Budapeste, século XIX: Nosferatu (Torquato Neto) é morto por um príncipe. De férias no Brasil, agora em cores, vampiriza várias nativas. Mítica masterpiece superoitista. Da série "quotidianas kodaks".
Ficha técnica
Ano/Local: 1971 - Rio de Janeiro/RJ
Duração: 26min50, cor-b/p, som
Direção, fotografia e produção: Ivan Cardoso
Elenco: Torquato Neto, Scarlet Moon, Daniel Más, Helena Lustosa, Cristiny Nazareth, Zé Português, Ciça Afonso Pena, Ricardo Horta, Marcelino, Ana Araújo, Martha Flaskman e outros.


Filme: A Múmia volta a atacar
Sinopse: "Colagem de vários clichês de filmes de terror de múmia intercalando sequências novas, com trechos dos filmes The Mummys Tomb e The Mummy's Ghost. O filme não pôde ser concluído a diversos acontecimentos estranhos que impediram a finalização das filmagens bem como o alto custo das bandagens..." (RFL-IC/Ivampirismo)
Curta-metragem / Sonoro / Ficção
Formato original: Super8, Cor, 25min, 153m, 24q
Ano: 1972 - Rio de Janeiro/RJ
Direção: Ivan Cardoso
Elenco: Zé Português, Wilma Dias, Helena Lustosa, Torquato Neto, Neville D' Almeida, Ciça Afonso Pena, Jorge Salomão, Óscar Ramos, Clarice Pelegrino, Lon Chaney Jr..


Título: Torquato Neto: o anjo torto da tropicália
Vídeo para a série televisiva Documento Especial
Ficha técnica
Ano: 1992
Direção: Ivan Cardoso
Com: Augusto de Campos, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Edu Lobo, Tom Zé, Julio Medaglia, Décio Pignatari, Rogerio Sganzerla, Julio Bressane, Carlos Imperial, Waly Salomão, José Mojica Marins, José Simão, Macalé, Luis Melodia e Torquato Neto.
Documento especial disponível em: Parte I e Parte II



Torquato Neto - (Foto: Acervo TN/UPJ Produções)


POEMAS ESCOLHIDOS

A descoberta do mundo
Na ante-sala da vida
O menino autoridade
Disse - não! - à ama-seca.
A coitada espavoriu-se:
- Mas por que não, meu lindinho?
Olhou-a firme o menino
Você é tão feia, Raimunda!
- Torquato Neto, em “Juvenílias”. (Organização George Mendes e Paulo José Cunha). Teresina/PI: UPJ Produções, 2012, p. 116.



Torquato Neto (Foto: Acervo TN/UPJ Produções)
À parte
tenho andado um bocado
                  abobalhado,
                  alucinado,
 à procura não sei o quê.
                por que não acho?   

amigos,
amores,
alegrias
amanhãs,
e o pior:
            ontens.
cadê o presente?
- Torquato Neto (31/10/61).



Andar andei
Não é o meu país
É uma sombra que pende
Concreta
Do meu nariz
Em linha reta
Não é minha cidade
É um sistema que invento
Me transforma
E que acrescento
À minha idade
Nem é o nosso amor
É a memória que suja
A história que enferruja
O que passou
Não é você
Nem sou mais eu
Adeus meu bem
( adeus adeus)
você mudou
mudei também
adeus amor
adeus e vem
- Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". [Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte]. São Paulo: Max Limonad, 1982.  (musicado por Renato Piau).



Cogito
Torquato Neto,  nas escadarias do Colégio dos Maristas, Salvador/BA
(Foto: Acervo TN/UPJ Produções)
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.
- Torquato Neto, em "Os cem melhores poemas brasileiros do século", [seleção e organização Ítalo Moriconi]. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001, p. 269.



Desejo
Mas...
se eu pudesse um dia
com as mãos o sol pegar;
a lua apertar entre meus pés e
trêmulo de prazer
em plena Via Láctea, todos os astros reter comigo,
um gozo frenético e sem fim,
apesar de tanta infelicidade
eu chegaria a ter pena de mim mesmo
pois, indiscutivelmente,
eu estaria louco,
demente!
- Torquato Neto (BA, 02/07/61), em "Torquatália - do lado de dentro". [Organização Paulo Roberto Pires]. Rio de Janeiro: Editora Rocco Ltda., 2004, p. 35.



Lembrança do tempo que não houve
A minha juventude já não é. Foi
coisa que passou tão de repente que em nada me
marcou
nem fez nascer de mim lembranças e saudades.
Não lhe vi o nascimento. Talvez que num enterro
que há dias me cruzou no meu caminho
sem que eu soubesse do defunto ou dos parentes
ela também passasse, não sei. Minha juventude,
não a tive.
Apodreci depressa e faltam-me o relógio e o braço
e os olhos.

As coisas andam más, não sei, prossigo em diante
sem poder fazer voltar atrás o tempo
sem vontade de esperar o tempo
completamente sem coragem de cortar o fio.

Nas minhas mãos suporto a vida
a que desci. Chamaram-me Torquato, aceitei.
Fizeram-me criança, homem, coisa: nada fiz.
O meu pavor é como se não fosse
a solidão do próprio homem acrescentada nessa
angústia que é só
minha.

Talvez mentira deste tempo tresloucado
ou mais uma visão sem pé nem rumo: no desespero
em si
eu divisei finalidade para este novo sentimento
Torquato Neto (Foto: Acervo TN/UPJ Produções)
obliquamente repousado em mim. Não sei de
nada,
nada sou – que posso ser? Uma agonia a mais a
debater-se
nas paredes do mundo? Mais uma frustração
nessa batalha?
Apenas sei que nada mais devolvo
à vida. Nem mais peço do que a hora
em que definitivamente poderei viver do meu
vazio.
Não mereci do bom, rejeito o meio termo.
Apodreço sem sentir,
nada mais sinto, estou em pedra. Não me consome
o fogo,
não me derrota a água, não existo. Não me faz em
sombra o sol.
EU NÃO EXISTO. Não penso coisa alguma.
– Je ne pense pas, donc, je ne suis pas.

A minha juventude não foi. Foi álcool evaporado de
repente
que subiu aos infernos e ficou por lá
acocorado à frente do pai diabo – e eu nada sei.
- Torquato Neto (Rio de Janeiro, janeiro de 1963)



Let´s Play That
quando eu nasci
um anjo louco muito louco
veio ler a minha mão
não era um anjo barroco
era um anjo muito louco, torto
com asas de avião
eis que esse anjo me disse
apertando a minha mão
com um sorriso entre dentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
vai bicho desafinar
o coro dos contentes
let´s play that.
 - Torquato Neto, em "Os Últimos Dias de Paupéria", [Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte]. São Paulo: Max Limonad, 1982.  (musicado por Jards Macalé).



Literato cantabile
agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início;

agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.

você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:

só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim do fim de tudo
e o tem do tempo vindo;

não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento
- Torquato Neto, em "Os Últimos Dias de Paupéria", [Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte]. São Paulo: Max Limonad, 1982. (musicado por Feliciano Bezerra).



Torquato Neto - Foto: (...)
Na praça procurou-se pelos pombos
Na praça procurou-se pelos pombos
(como num último pedir de moribundo
- e os pombos dormiam.
Dormiam muito sós nos seus silêncios
e nos seus medos
de quem
de cima
(calado)
observa tudo
e sentia aquela angústia
propriedade particular dos deuses.
E faziam amor
sem coisa alguma mais do que amor.
Sem cicatrizes impressas em nenhum lombo.
Sem momentos despejados na areia.
Sem músicos.
Sem cruzeiros...
- Torquato Neto (Rio, março, 1963), em "O Fato e A Coisa", Teresina/PI: UPJ Produções, 2012, p.81.



Nenhuma dor
Minha namorada tem segredos
Tem nos olhos mil brinquedos
De magoar o meu amor

Minha namorada muito amada
Não entende quase nada
Nunca vem de madrugada
Procurar por onde estou

É preciso, ó doce namorada
Seguirmos firmes na estrada
Que leva a nenhuma dor

Minha doce e triste namorada
Minha amada idolatrada
Salve-salve o nosso amor
- Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". [Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte]. São Paulo: Max Limonad, 1982. (musicado por Caetano Veloso).



Torquato Neto, no D'Engenho de Dentro, hospital
psiquiátrico do Rio - Foto: Marlene Mendes
Nostalgia
ao amanhecer,
quando o mar tão grande,
gigante tenebroso,
balanceando as águas vem varrer
d'arreia branquinha da nossa praia
as marcas dos teus passos
as marcas do teu corpo nu,
as marcas de ti, que eu quero bem,
junto comigo,
a lua que já morre
chora enormes prantos, com saudades de ti,
querida:
com saudades do teu carinho.
- Torquato Neto, em “Juvenílias”. (Organização George Mendes e Paulo José Cunha). Teresina/PI: UPJ Produções, 2012, p. 28.



O nome do mistério
Eu poderia dizer
Que agora é tarde e o nosso amor é outro
Que o nosso tempo agora
é o fim de tudo
e só nos resta alguns papéis
para rasgar
eu poderia dizer que agora é tarde e o nosso amor é morto
que o nosso amor agora é o fim do mundo
e não sobra nada mais
para esperar
eu poderia dizer mas eu não digo
o nome do mistério, o nome disso
e vou por mim aqui silencifrado
de volta ao lar, meu bem querendo ir
- Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". [Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte]. São Paulo: Max Limonad, 1982. (musicado por Geraldo Azevedo).



Torquato Neto - Foto: Ivan Cardoso
O poeta é a mãe das armas
O Poeta é a mãe das armas
& das Artes em geral —
alô, poetas: poesia
no país do carnaval;
Alô, malucos: poesia
não tem nada a ver com os versos
dessa estação muito fria.

O Poeta é a mãe das Artes
& das armas em geral:
quem não inventa as maneiras
do corte no carnaval
(alô, malucos), é traidor
da poesia: não vale nada, lodal.

A poesia é o pai da artimanha de sempre: 
quentura no forno quente
do lado de cá, no lar
das coisas malditíssimas;
alô poetas: poesia!
poesia poesia poesia poesia!
O poeta não se cuida ao ponto
de não se cuidar: quem for cortar meu cabelo
já sabe: não está cortando nada
além da MINHA bandeira ////////// =
sem aura nem baúra, sem nada mais pra contar.
Isso: ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. ar. a
r: em primeiríssimo, o lugar.

poetemos pois
- Torquato Neto, /8/11/71 & sempre, em "Os Últimos Dias de Paupéria", (Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte). São Paulo: Max Limonad, 1982.



Panorama visto da ponte
Azulejos retorcidos pelo tempo
Fazem paisagem agora no abandono
A que eu mesmo releguei um mal distante.

Faz muito tempo e a paisagem é a mesma
Não muda nunca - sempre indiferente
A céus que rolem eu infernos que se ergam.

Alguns vitrais. E em cinerama elástico
O mesmo campo, o mesmo amontoado
Das lembranças que não querem virar cinzas.

Três lampiões. As côres verde e rosa
A brisa dos amores esquecidos
E a pantera, muito negra, das paixões.

Não passa um rio enlameado e doce
Nem relva fresca encobre a terra dura.
É só calor e ferro e fogo e brasa

Que insistem como cobras enroladas
Nos grossos troncos, medievais, das árvores.
Uma eterna camada de silêncio

E o sol cuspindo chumbo derretido.
O céu é azul - e como não seria?
mas tão distante, tão longínquo e azul...
- Torquato Neto, em "Os Últimos Dias de Paupéria", (Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte). São Paulo: Max Limonad, 1982.



Torquato Neto Foto: (folha ilustrada)
Poema do aviso final
É preciso que haja alguma coisa
alimentando o meu povo;
uma vontade
um certeza
uma qualquer esperança.
É preciso que alguma
coisa atraia a vida
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminhos.
É preciso que haja algum respeito,
ao menos um esboço
ou a dignidade humana se afirmará
a machadadas.
- Torquato Neto, em "O Fato e A Coisa", Teresina/PI: UPJ Produções, 2012.



Poema conformista
Nunca escorreu pelo meu corpo a aurora,
nunca senti na minha boca o traspassar de noites,
nunca dormi ao lado das estrelas – que isto
são coisas absolutamente sem importância
que, de resto, outros sonhadores
já tiveram o cuidado de sonhar.
Eu em mim
incrivelmente existo e me basto.

O temer e o esperar passaram por completo.
E a vontade de ver o invisível
e tocar o intocável
e calcular o necessariamente incalculável
também passaram e não prossigo nisto.
Sou exatamente o que me basto para continuar
sendo.
E nisto me basto.

Quando não pude alcançar o lado oposto
e me perdi e não voltei atrás,
eu prossegui pelo caminho e não parei.
Quando na volta preferi vir só
eu me bastei com meus distensos músculos
e não cortei demais a minha carne
em pedaços inúteis.

Minha incerteza quando doi a afasto
e não me engano em pensar o que não posso
nem me abandono a construir filosofias que a
encharquem.
Se não componho as sinfonias que escuto
ninguém o sabe: eu não sou músico.
Quando não sei se devo ou se não devo prosseguir
em escrever poemas e asneiras,
eu nada faço e me recolho: o poeta que não sou
pode nascer ainda.

Como o dedo apagaria o sol
congelaria a aurora no meu corpo
e afastaria estrelas – mas não quero,
outros sonhadores já sonharam isso.
Como eu disse, sou exatamente o que me basto
para prosseguir,
e não quero mais.
- Torquato Neto, em "O Fato e A Coisa", Teresina/PI: UPJ Produções, 2012.



Poema essencialmente noturno
À falta da pessoa,
hoje amarei a ausência também do sentimento antigo
e lembrarei que os dias já foram azuis
e as noites somente escuras
quando desconhecíamos a palavra medo
e não sentíamos medo.

Amarei o antigo sentimento da ternura casta
palpável, àquele tempo, em mim,
distribuída entre os aposentos da casa enorme,
os três degraus da entrada
o sol nascendo pelos punhos da rede
e o muro do colégio das freiras, quente.
(que estas lembranças me bastam)

Porque não ha a pessoa
e eu caminho só e triste pelas calçadas do Rio
e não chego a nenhum destino, porque não tenho destino,
eu hoje amarei a distância que separa eu menino
de mim desesperado, aqui
e me perderei pelos caminhos enrolados uns nos outros
e rolarei de gozo sobre a minha sombra
e chorarei depois porque não sei voltar
- Torquato Neto, em "O Fato e A Coisa", Teresina/PI: UPJ Produções, 2012.



Posição de ficar
No princípio era o verbo amar
Mas os sentimentos extinguiram-se
E retesaram-se os membros: não houve amor
Desde então
Agora, sabemos inútil procurar nos livros a fórmula derradeira deste verbo.
As coisas fizeram-se lúcidas
Notou-se o fato
E sentiu-se o medo
Deixaríamos o corpo livre se pudéssemos,
Mas o corpo está preso a tantos acontecimentos abstratos.
Choraríamos se fosse possível,
Mas não há mais lágrimas
E o rosto retesado pelo medo
É pulsação imaginada e só imaginada, insensível a quaisquer prantos
E no entanto nada procuramos.
Temos as mãos fechadas, não as forcem.
Nossas celas as sabemos impenetráveis, não as forcem.
Temos tanto sono, mas o venceremos,
Não nos forcem.
Conjugaremos o irrepreensível verbo esquecer, não perdoar.
Não perdoamos.
Em toda esta fraqueza nos sentimos fortes como os primeiros mártires,
Estamos na arena,
Sentimos medo e deixaremos nossos restos ao vosso escárnio.
Desaprendemos tudo.
Ambíguos em nós mesmos, amamos agora o silêncio das covas
E as esperamos: este o nosso fim.
- Torquato Neto, em "Os Últimos Dias de Paupéria", (Organização Wally Salomão e Ana Maria Silva de Araújo Duarte). São Paulo: Max Limonad, 1982.



Torquato Neto no filme 'O Padre e as Moças'
de Ivan Cardoso, (foto Ivan Cardoso 1972)
Pra dizer adeus
Adeus
Vou prá não voltar
E onde quer que eu vá
Sei que vou sózinho

Tão sozinho amor
Nem é bom pensar
Que eu não volto mais
Desse meu caminho

Ah! pena eu não saber
Como te contar
Que esse amor foi tanto
E no entanto eu queria dizer

Vem
Eu só sei dizer
Vem
Nem que seja só
Pra dizer adeus
- Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". (Organização Wally Salomão e Ana Maria S. de Araújo Duarte). São Paulo: Max Limonad, 1982. (musicado por Edu Lobo).



Quem dera
Quem dera
um dia eu encontrar
o amor igual ao que eu sonhei
um amor como na vida quase nunca a gente vê
quem dera saber na verdade
aonde é que a felicidade
guardou até hoje distante
esse amor que é o meu sonho de ter
que a ele eu irei de mansinho
levando nas mãos meu carinho
levando a certeza que a vida
sem ele era só
morrer
- Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". (Organização Wally Salomão e Ana Maria S. de Araújo Duarte). São Paulo: Max Limonad, 1982. (musicado por Jota).



Soneto da contradição enorme
Faço força em esconder o sentimento
Do mundo triste e feio que eu vejo.
Tento esconder de todos o desejo
Que eu não sinto em viver todo o momento

Que passa. Mas que nunca passa inteiro.
Deixa comigo o rosto da lembrança
E o fantasma de só desesperança
Que me empurra e de mim me faz obreiro

De sonhos. Faço força em esconder
Do mundo, a dor, a mágoa e a cabeça
Que pensa tão-somente em não viver.

Faço força mas sei que não consigo
E em versos integral eu me derramo
Para depois sofrer. E então, prossigo.
- Torquato Neto, em “Torquatália - do Lado de Dentro”. vol. I, (Organização Paulo Roberto Pires). Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2004, p. 46.



Todos cantam sua terra, também vou cantar a minha
sou um homem desesperado andando à margem do rio Parnaíba
sou um homem com Glauber Rocha na cabeça e uma câmara na mão
andando fico à margem de minha terra:
TRISTERESINA.
terra nos olhos da lente.
só filmo planos gerais.
planos.
o meduna.
ando pelas ruas mas tudo de repente é novo para mim:
a vermelha. a grama. o meu caso de amor. a estação da estrada de
ferro teresina-são luís um dia de manhã.
minha terra tem palmeiras de babaçu onde canta o buriti.
e a melhor água do mundo.
e um poço.
e um menino.
como posso agora cantar minha terra;
estando tão longe-perto dela.
como posso eu e essa miséria louca
descobrir destruir as ruínas do lar
citação: Não teremos destruído nada se não destruirmos as ruínas
-Torquato Neto, publicado na revista Arraia Pajeurbe, nº 2 Fortaleza/CE, 2004.



Torquato Neto - Foto: (...)
Todo dia é dia D
Desde que saí de casa
Trouxe a viagem de volta
Gravada na minha mão
Enterrada no umbigo, dentro e fora assim comigo
Minha própria condução.
Todo dia é dia dela
Pode não ser pode ser
Abro a porta e a janela
Todo dia, é dia D
Há urubus no telhado
E a carne seca é servida
Escorpião encravado na sua própria ferida
Não escapa, só escapo pela porta da saída
Todo dia é mesmo dia
De amar-te e a morte morrer
Todo dia é mais dia, menos dia
É dia D
- Torquato Neto, em "Os Últimos Dias de Paupéria", (Organização Wally Salomão e Ana Maria S. de Araújo Duarte). São Paulo: Max Limonad, 1982. (musicado por Carlos Pinto).



Três da madrugada
Três da madrugada
Quase nada
Na cidade abandonada
Nessa rua que não tem mais fim
Três da madrugada
Tudo e nada
A cidade abandonada
E essa rua não tem mais
Nada de mim...
Nada
Noite alta madrugada
Na cidade que me guarda
E esta cidade me mata
De saudade
É sempre assim...
Triste madrugada
Tudo é nada
Minha alegria cansada
E a mão fria mão gelada
Toca bem de leve em mim.
Saiba:
Meu pobre coração não vale nada
Pelas três da madrugada
Toda palavra calada
Nesta rua da cidade
Que não tem mais fim
Que não tem mais fim...
- Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". (Organização Wally Salomão e Ana Maria S. de Araújo Duarte). São Paulo: Max Limonad, 1982. (musicado por Carlos Pinto).



Um dia desses eu me caso com você
de tanto me perder, de andar sem sono
por essa noite sem nenhum destino
por essa noite escura em que abandono
uns sonhos do meu tempo de menino
de tanto não poder mais ter saudade
de tudo o que já tive e já perdi
dona menina, eu me resolvo agora
a ir-me embora pra longe daqui.
Torquato e Ana Duarte, sua mulher, em Paris 
(Foto: Acervo TN/UPJ Produções)

um dia desses eu me caso com você
você vai ver, você vai ver
um dia desses, de manhã, com padre e
[pompa
você vai ver como eu me caso com você

meu tempo de brincar já foi-se embora
e agora, o que é que eu vou fazer?
não tenho onde morar, vou caminhando
sem sono, sem mistérios, sem você;
pra terra onde nasci
não volto nunca mais
e esta cidade alheia tem segredos
que eu faço tudo pra não compreender

meu pobre coração não vale nada
anda perdido, não tem solução
mas se você quiser ser minha namorada
vamos tentar, não é?
não custa nada
até pode dar certo
e se não der
eu pego um avião, vou pra xangai
e nunca mais eu volto pra te ver.
- Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". (Organização Wally Salomão e Ana Maria S. de Araújo Duarte). São Paulo: Max Limonad, 1982. (musicado por Paulo Diniz).


Via crucis
abriu-se a porta este meu ser entrou
desajeitado e tonto
verificados os lábios que sangravam
e as mãos que não se retorciam
meu eu assinou a ficha inicial e na parede marcou
exatamente
o tempo.
dormiam-se nas covas do silêncio
as quatro musas que nunca invocarei.
- Torquato Neto (jan, 1963), em "O Fato e A Coisa", (organização Paulo José Cunha e George Mendes) Teresina/PI: UPJ Produções, 2012.



[Virtude]
a) A virtude é a mãe do vício
    conforme se sabe;
    acabe logo comigo
    ou se acabe.

Torquato Neto com a mãe Dona Salomé 
 (Foto: Acervo TN/UPJ Produções)
b)  A virtude e o próprio vício
     - conforme se sabe -
     estão no fim, no início
     da chave.
 
c)  Chuvas da virtude, o vício,
     conforme se sabe;
     é nela própriamente que eu me ligo,
     nem disco nem filme:
     nada, amizade. Chuvas de virtude:
     chaves.

d)   (amar-te/  a morte/  morrer:
      há urubús no telhado e carne seca
      é servida: um escorpião encravado
      na sua própria ferida, não escapa: só escapo
      pela porta de saída).

e)   A virtude, a mãe do vício
       como eu tenho vinte dedos,
       ainda, e ainda é cedo:
       você olha nos meus olhos
       mas não vê nada, se lembra?

f)    A virtude
       mais o vício: início da
       MINHA
       transa, início, fácil, termino:
       "como dois mais dois são cinco"
        como Deus é precipício,
        durma,
        e nem com Deus no hospício
        (durma) nem o hospício
        é refúgio. Fuja.
- Torquato Neto, em "Os Últimos Dias de Paupéria", (Organização Wally Salomão e Ana Maria S. de Araújo Duarte). Ed. Max Limonad, 1982.



Jards Macalé e Paulo José cantam e recitam
Torquato Neto


"É preciso acabar de vez com o clichê de que Torquato Neto era um maníaco depressivo, ignorando-se a obra do compositor e, pior ainda, escamoteando dados sobre sua pessoa. Por exemplo: ignora-se a militância de quem foi o primeiro a contestar sem medo e incomoda até hoje. Ele teve a coragem de brigar com as esquerdas, com o pessoal do cinema novo. Ele não era um homem de rebanho, ele só era fiel com a revolução. Lutou pela imprensa underground contra a caretice do Pasquim. É preciso resgatar a dignidade humana, contra todo o reacionarismo que só lhe viu como um poeta-suicida. Todo ser inteligente pensa na morte. Louvação é um hino à vida. A visão trágica que alguns têm sobre TN é perigosa porque pode esvaziar o conteúdo de sua obra. Fomos internados no mesmo hospício - o Engenho de Dentro - e tenho certeza que eram poucos os que o compreendiam. para mim, concluindo, TN era o nosso Maiakóvski. Morreu assim que deu o seu recado, aos 28 anos, quando encheu o saco. Não ficou aqui para pedir emprego para ninguém."
- Rogério Duarte, em "É preciso de vez acabar com o clichê". Fogo Cerrado, novembro de 1992.


Torquato Neto, por (...)


FORTUNA CRÍTICA
ALBIN, Ricardo Cravo. MPB, a história de um século. Rio de Janeiro: Atrações Produções Ilimitadas/MEC/Funarte, 1997.
ALBIN, Ricardo Cravo. O livro de ouro da MPB. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.
ALBIN, Ricardo Cravo. Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira. Criação e Supervisão Geral Ricardo Cravo Albin. Rio de Janeiro: Instituto Antônio Houaiss, Instituto Cultural Cravo Albin e Editora Paracatu, 2006.
ALMEIDA, Laura Beatriz Fonseca de. Um poeta na medida do impossível.  (Tese Doutorado em Teoria Literária).  Universidade de São Paulo, USP, 1993.
ALMEIDA, Laura Beatriz Fonseca de. Um poeta na medida do impossível. Inimigo Rumor – Revista de poesia. Rio de Janeiro: Sette Letras. nº 3 set-dez, 1997.
ALVES, Ana Cristina Tannús.  Torquato Neto: a espacialidade desenhada na inconstância do eu. In: Marisa Martins Gama-Khalil; Jucelén Cardoso; Rosana Gondim Rezende. (Org.). O espaço (en)cena. 1ª ed., São Carlos: Claraluz, 2008, v., p. 185-204.
ALVES, Valeria Aparecida. Desafinando o coro dos contentes: Torquato Neto e a produção cultural no Brasil nas décadas de 1960 e 1970. (Tese Doutorado em História).  Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP, 2011.
ALVES, Valeria Aparecida; MATOS, Maria Izilda Santos de. O tropicalismo: propostas e inovações. In: DÂNGELO, Newton. (Org.). História e cultura popular: saberes e linguagens. 1ª ed., Uberlândia: EDUFU, 2010, v. H673c, p. 253-274.
AMARAL, Euclides. Alguns Aspectos da MPB. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2008. 2ª ed. Esteio Editora, 2010.
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BEZERRA FILHO, Feliciano José. A Escritura de Torquato Neto. (Dissertação Mestrado em Comunicação e Semiótica). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, PUC/SP, 1997, 72p.
Torquato Neto, por Arnaldo Albuquerque
BEZERRA FILHO, Feliciano José. A escritura de Torquato Neto. São Paulo: Publisher Brasil, 2004.
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Torquato Neto - (1971)
Foto: Ivan Cardoso 
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PIRES, André Monteiro Guimarães Dias. Torquato Neto entre nós ou pequena música para atravessar um rosto. Ipotesi (UFJF), Juiz de Fora, v. 8, p. 175-176, 2004.
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Torquato Neto - Foto: (...)
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VAZ, Toninho. Pra mim chega, a biografia de Torquato Neto. São Paulo: Editora Casa Amarela, 2004.
VELOSO, Caetano. Alegria, alegria. Rio de Janeiro: Editora Pedra Q Ronca, 1977.
VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia de Letras, 1997.
WISNIK, José Miguel. Sem receitas: ensaios e canções. São Paulo: Publifolha, 2004.


"[...]de véu e grinalda com um palhaço empacotado ao lado. Não acredito em amor de múmias e é por isso que eu / FICO / E vou ficando por causa de este / AMOR / Pra mim, chega. / Vocês aí, peço o favor de não sacudirem demais o Thiago. Ele pode acordar."
- Torquato Neto "fragmento do último bilhete), em "Pra mim chega - a biografia de Torquato Neto", de Toninho Vaz. São Paulo: Editora Casa Amarela, 2005, p. 200.



NAVILOUCA, REVISTA DE POESIA
Capa da edição única da revista Navilouca
 -  O Almanaque dos Aqualoucos
Os poetas Torquato Neto e Wally Salomão lançaram em 1974 a única edição de Navilouca, revista de poesia que, infelizmente, Torquato não pode ver impressa. Desde 1972, quando ela começou a ganhar forma, já se esperava uma obra que ficou como um marco da produção contracultural da época, uma revista que corria por fora dentro do circuito de poetas-inventores que surgiram entre os anos 60 e 70. A edição conta ainda com a participação luxuosa da tríade concretista, que de algum modo apadrinhou a geração desbundada da poeisa brasileira que corria muito pela canção nos anos de chumbo. Uma revista de arte, arte poética e gráfica. Almanaque dos Aqualoucos, ali Torquato escrevia em letras gigantes: O poeta é a mãe das artes e das manhas em geral. Uma obra-farol, registro de uma época em que a poesia brasileira tomava novo corpo, outros rumos. A edição é raríssima. Mas eterna. Fonte: LadoDentro
NAVILOUCArevista. (ed. única). Rio de Janeiro: Gernasa e Artes Gráficas, 1974.

Navilouca – o almanaque dos aqualoucos
O Torquato Neto veio com a ideia de fazer a Navilouca em 1971. Ele convidou o Waly Salomão para ser o co-editor e me chamou para ser o fotógrafo. Foi outra coisa inesperada, porque eu não tinha experiência quase nenhuma. Já me garantia na fotografia, mas não era profissional, tinha apenas começado a me exercitar. A Navilouca teve grande importância porque reuniu os principais expoentes da vanguarda da época. Segundo o Décio Pignatari, foi a primeira publicação pop-construtivista feita no Brasil. Foi por causa da Navilouca que me aproximei do Luciano Figueiredo e do Óscar Ramos. O Luciano já morava na casa do Óscar, no Cosme Velho, onde foram feitas todas as reuniões editoriais e a programação visual da revista.
- Ivan Cardoso, em “O Mestre do Terrir”. São Paulo: Imprensa Oficial, 2008.

Torquato Neto com os pais Dona Salomé e Dr. Heli
 (Foto: Acervo TN/UPJ Produções)

Gilberto Gil, casamento de Ana Duarte e Torquato Neto
 (Foto: Acervo TN/UPJ Produções)


Vinicius de Moraes, Tom Jobim, Francis Hime, Edu Lobo, Caetano Veloso, Chico Buarque,
 Dori Caymmi,  Paulinho da Viola, Torquato Neto, Braguinha, Luiz Bonfá, Maria Helena Toledo, 
Zé Ketti, Lenita Plocynska, Capinam, Sidney Miller, Eumir Deodato, Olivia Hime, Helena Gastal, 
Luis Eça, João Araújo, Nelson Mota, Dircinha Batista, Tuca, Jandira Negrão de Lima e (...)
 Foto: Paulo Scheuenstuhl, para a revista "Realidade", em agosto de 1967,
 na Casa de Vinicius de Moraes, no Rio de Janeiro. (Acervo Ana Maria Toledo)


Torquato Neto e Vinicius de Moraes - (Foto: Acervo Vinicius)

Torquato Neto e Chico Buarque de Holanda - (Foto: Acervo TN/UPJ Produções)

Torquato Neto, Caetano Veloso e José Carlos Capinam - Foto: (...)

Torquato Neto, Nana Caymmi e Gilberto Gil, em 26/06/1968,
na Passeata dos Cem Mil reuniu estudantes,
artistas e intelectuais no Rio de Janeiro.

Torquato Neto, Helena Lustosa, Ricardo Horta, Ciça Afonso Pena,
Vilma Dias e Marcos Pontes. Rio, 1972.
 Foto do filme
'
A Múmia Volta a Atacar', de Ivan Cardoso.


Texto de Torquato Neto, morto aos 28 sobre Hendrix, morto aos 27
(14/10/1970)
"onde, em mim, a morte de Jimi Hendrix repercutiu com mais violência? há mais de um ano, em Londres, eu havia dito com absoluta certeza: ele vai morrer. onde, em Jimi Hendrix, eu vi o espectro da morte? eu havia estado com ele, Carlo e Noel - mais uns três sujeitos - naquele enorme apartamento de Kensington e quase não falamos nada durante o tempo que fumamos haxixe e escutamos aquele álbum branco dos beatles e mais alguns discos que não me lembro - nem poderia lembrar. por que é que eu não sei, mesmo agora, escrever qualquer coisa mais sobre Hendrix, a não ser que, naquele dia, conferi a perfeita extensão de sua música em sua cara - obedecendo à ordem com que as duas coisas me foram apresentadas? eu sei que não posso escrever jamais qualquer coisa sobre o assunto, sobre a tremenda curtição daquela noite etc etc. agora o homem está morto, menos ainda. Eu não ousaria - como não ouso sequer contar esse fato aos poucos amigos que ainda tenho. Interessa agora saber o seguinte: por que, diante o impacto que o conhecimento pessoal, social com o homem produziu sobre mim, ao ponto de não conseguir, depois, pelo menos “recordar” o tempo aproximado que tivemos, eu e Carlo, naquele apartamento - por que - sabendo de antemão sobre Jimi Hendrix - por que ainda me surpreendi e me abalei com a notícia de sua morte, no dia dela? Ou seja, voltando ao início: onde, em mim, a notícia conseguiu repercutir ainda com violência, me pegando de “surpresa”? A gente sabe que toda morte nos comunica uma certa sensação de alívio, de descanso. não existe, pra mim, a menor “diferença” entre Hendrix que eu ouvia antes e o que posso ouvir depois, agora, de sua morte. ele sempre foi claro, limpo, preto. eu disse: o homem vai morrer, e não demora mais dois anos. Beneto e Ana ouviram, em Londres. Eu ouvia os discos, sabia o homem - e, por cima, ainda o conheci pessoalmente e juntos, numa noite gelada de Londres, curtimos o barato de queimar haxixe e escutar os beatles, com Carlo, Noel e mais uns três caras que estavam lá, criolos. torno a perguntar: onde? onde em mim? Jimi era “o homem que vai morrer” mas não havia datas em sua vida. por que então uma data de jornal ainda me espanta e fere? eu não sei (não posso, nem quero explicar por que eu, e muita gente mais, sabia de tudo desde muito tempo. posso, com simplicidade, dizer apenas que eu sabia ler a sua música)."
** Fonte: Krudu.blog


Originais - poesias e canções do poeta Torquato Neto
(Acervo TN/UPJ Produções) 
ACERVO TORQUATO NETO
Torquato Neto, nascido no ano de 1944 em Teresina-PI, foi compositor, jornalista, poeta e um dos mentores intelectuais do movimento tropicalista. E 38 anos (2011) depois de sua morte, foram enviadas a sua cidade natal, inúmeras poesias e fotos inéditas. 
Curadoria e responsável: George Mendes
Site Oficial Torquato Neto
Outras informações: UPJ Produções

Título: Torquato Neto: Baú do Torquato
Sinopse: Torquato Neto, nascido no ano de 1944 em Teresina-PI, foi compositor, jornalista, poeta e um dos mentores intelectuais do movimento tropicalista. Após 38 anos de vida, o poeta partiu. E 38 anos depois de sua morte, foram enviadas a sua cidade natal, inúmeras poesias e fotos inéditas. Esse vídeo é apenas um registro sobre a chegada desses arquivos ao primo de Torquato, George Mendes.
Direção e som direto: Márcio Bigly
Imagens e edição: Talyta Magno
Ano/local: 2010 – Teresina/PI
Tempo: 9 min.
Disponível no link.

Desenho de Torquato Neto - (Acervo TN/UPJ Produções)

Agora não se fala mais
toda palavra guarda uma cilada
e qualquer gesto é o fim
do seu início:

Agora não se fala nada
e tudo é transparente em cada forma
qualquer palavra é um gesto
e em sua orla
os pássaros de sempre cantam
nos hospícios.

Você não tem que me dizer
o número de mundo deste mundo
não tem que me mostrar
a outra face
face ao fim de tudo:

só tem que me dizer
o nome da república do fundo
o sim do fim
do fim de tudo
e o tem do tempo vindo:

não tem que me mostrar
a outra mesma face ao outro mundo
(não se fala. não é permitido:
mudar de idéia. é proibido.
não se permite nunca mais olhares
tensões de cismas crises e outros tempos.
está vetado qualquer movimento
- Torquato Neto, em "Os últimos dias de paupéria". (Organização Wally Salomão e Ana Maria S. de Araújo Duarte). São Paulo: Max Limonad, 1982.



Torquato Neto
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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Torquato Neto - o anjo torto. Templo Cultural Delfos, agosto/2013. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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Página atualizada em 27.8.2013.



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2 comentários:

  1. Escrevi o verbete do Torquato Neto para o Dicionário Cravo Albin da MPB (www,dicionariompb.com.br) do qual foram retirados város dados rerrentes ao poeta, por isso venho agradecer a citação. Contudo, peço que incluam também na bibliografia crítica os seguintes livros, nos quais me basiei pra obter informações da carreira do torquato, além de entrevistas com vários parceiros dele, q me cedram dados pros campos DADOS BIOGRÁFICOS, DAdos artísticos e discografia, usados aqui po vocês. anotem aí e aceitem como mais uma colaboração em homenagem ao cara. abração. amaral

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  2. ALBIN, Ricardo Cravo. MPB, a história de um século. Rio de Janeiro: Atrações Produções Ilimitadas/MEC/Funarte, 1997.
    ALBIN, Ricardo Cravo. O livro de ouro da MPB. Rio de Janeiro: Ediouro, 2003.
    ALBIN, Ricardo Cravo. Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira - Criação e Supervisão Geral Ricardo Cravo Albin. Rio de Janeiro: Instituto Antônio Houaiss, Instituto Cultural Cravo Albin e Editora Paracatu, 2006.
    AMARAL, Euclides. Alguns Aspectos da MPB. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2008. 2ª ed. Esteio Editora, 2010.
    BRITO, Paulo Henriques. Torquato Neto. Centro de Cultura Alternativa/ Rio Arte / Projeto Torquato Neto/ Secretaria de Cultura, Desportos e Turismo do Piauí, 1985.
    BUENO, André. Antologia ano 1 - Prêmio Torquato Neto/ Um poeta não se faz com versos. Diversas Manifestações da Cultura Alternativa Décadas 60-70. Rio de Janeiro: RioArte, 1984.
    CABRAL, Sérgio. Elizeth Cardoso - Uma vida. Rio de Janeiro: Lumiar Editora, S/D.
    CALADO, Carlos. Tropicália - a história de uma revolução musical. São Paulo: Editora 34, 1997.
    CAMPOS, Augusto de. Balanço da bossa e outras bossas. Coleção Debates. São Paulo: Editora Perspectiva, 1974.
    CHAVES, Xico e CYNTRÃO, Sylvia. Da paulicéia à centopéia desvairada - as vanguardas e a MPB. Rio de Janeiro: Elo Editora, 1999.
    CYNTRÃO, Sylvia Helena. (Org.) A forma da festa -Tropicalismo: explosão e seus estilhaços. DF: Editora Universidade de Brasília, 1999.
    COUTINHO, Eduardo Granja. Velhas histórias, memórias futuras. Rio de Janeiro: Editora Uerj, 2002.
    DUARTE, Paulo Sergio, e NAVES, Santuza Cambraia. Do samba-canção à Tropicália. Rio de Janeiro: Faperj/Relume Dumará, 2003.
    ECHEVERRIA, Regina Lico. Furacão Elis. São Paulo: Editora Globo, 1994.
    FRANCHETTI, Paulo e PÉCORA, Alcyr. Caetano Veloso - Literatura Comentada. Rio de Janeiro: Editora Abril, 1981.
    FAVARETO, Celso. Alegoria, Alegria. Editora Kairós: São Paulo, 1978.
    GIL, Gilberto. Todas as contas - Gil 60. Rio de Janeiro: Gegê Edições, 2003.
    GÓES, Fred. Gilberto Gil - Literatura Comentada. Rio de Janeiro: Editora Abril, 1981.
    HOLANDA, Heloísa Buarque de. 26 poetas hoje. Rio de Janeiro: Editora Labor, 1976.
    HOLANDA. Heloísa Buarque de. Impressões de viagem. São Paulo: Editora Brasiliense, 1980.
    HOLLANDA, Heloísa Buarque e PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Poesia Jovem Anos 70. Rio de Janeiro: Editora Abril, 1982.
    MARCONDES, Marcos Antônio. (Ed.). Enciclopédia da música brasileira - erudita, folclórica e popular. 2 v. São Paulo: Arte Editora/Itaú Cultural, 1977.
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    MATTOSO, Glauco. O que é poesia marginal - Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.
    MÍCCOLIS, Leila. Do Poder Ao Poder. Rio Grande do Sul: Ed. Tchê, 1987.
    MONTEIRO, André. A ruptura do escorpião. São Paulo: Cone Sul, 2000.
    MOREIRA, Rodrigo. Eu quero é botar meu bloco na rua. Rio de Janeiro: Editora Muiraquitã, 2000.
    NAVES, Santuza Cambraia. Da bossa nova à Tropicália. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
    PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Retrato de época/Poesia marginal anos 70. Rio de Janeiro: Editora Mec/Funarte, 1981.
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    SCHEVERRIA, Regina. Furacão Elis. São Paulo: Editora Globo, 1994.
    SEVERIANO, Jairo e HOMEM DE MELLO, Zuza. A canção no tempo vol. 2. São Paulo: Editora 34, 1998.
    SOUZA, Tárik de. O som nosso de cada dia. Rio Grande do Sul: L&PM Editores Ltda, 1983.
    SOUZA, Tárik de. Et alli. Brasil Musical. Rio de Janeiro: Art Bureau Representações e Edições de Arte,1988.
    VELOSO, Caetano. Alegria, alegria. Rio de Janeiro: Editora Pedra Q Ronca, 1977.
    VELOSO, Caetano. Verdade tropical. São Paulo: Companhia de Letras, 1997.

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