Thiago de Mello – o poeta da floresta

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“Nasci com o ritmo dentro de mim e é da própria vida que nascem os meus poemas. A inspiração vem da vida do homem neste lugar chamado Terra. O que me comove ou me espanta, me dá esperança ou indignação”
- Thiago de Mello

“[...] para aprender com a própria floresta e, sobretudo, com o homem que vive nela e vive dela.”
- Thiago de Mello 


"O dever do poeta é agarrar o fogo sagrado que vem do divino e envolvê-lo em canto de palavra e entregá-lo ao povo”
- Thiago de Mello


2016 - 90 anos do poeta Thiago de Mello!

Amadeu Thiago de Mello (Porantim do Bom Socorro, município de Barreirinha - AM, 30 de março de  1926 -...). É poeta, tradutor, escritor, jornalista, artista gráfico e roteirista. Filho de Pedro Tiago de Melo e de Maria Mituoso de Melo, muda-se com a família para Manaus em 1931. Dez anos mais tarde, segue para o Rio de Janeiro, e, em 1950, matricula-se na Faculdade Nacional de Medicina. Durante a década de 1950, colabora nos periódicos O Comício, veículo de oposição ao governo de Getúlio Vargas (1882 - 1954), e Folha da Manhã. Ao lado do poeta Geir Campos (1924 - 1999), funda a Editora Hipocampo, em 1951. Dirige o Departamento Cultural da Prefeitura Municipal da Cidade do Rio de Janeiro, em 1959. No ano seguinte, assume o posto de adido cultural do Brasil na Bolívia e, posteriormente, em 1963, no exercício da mesma função, transfere-se para Santiago, Chile, onde conhece o poeta Pablo Neruda (1904 - 1973), de quem faz a tradução de uma antologia poética. 
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Vai residir no Rio de Janeiro em 1965, mas, em 1968, perseguido pelo governo militar, viaja para Santiago, onde permanece exilado por dez anos. Período em que publica Faz Escuro Mas Eu Canto, 1965, A Canção do Amor Armado, 1966, Poesia Comprometida com a Minha e a Tua, 1975, e os Estatutos do Homem, 1977. Retorna do exílio em 1978 e, ao lado do cantor e compositor Sérgio Ricardo (1932), participa do show Faz Escuro Mas Eu Canto, dirigido pelo cronista e dramaturgo Flávio Rangel (1934 - 1988) e apresentado em dez capitais brasileiras. Fez para a televisão programas culturais sobre artistas consagrados como Jorge Luis Borges, Manuel Bandeira (em seu centenário), Augusto dos Anjos, Alfredo Volpi, Joan Miró. Teve poemas musicados por Pixinguinha, Ary Barroso, Monsueto, Manduka e Nilson Chaves, entre outros. Fixa-se no município de Barreirinha, Maranhão, onde até hoje se dedica à poesia, envolvendo-se com as comunidades ribeirinhas e com questões ligadas à preservação ecológica da Região Amazônica.


“Quero que o escritor respeite, em primeiro lugar, a matéria-prima que ele utiliza que é a palavra escrita.”
- Thiago de Mello


CRONOLOGIA
1926 - Nasce Thiago de Mello em 30 de março, em Porantim do Bom Socorro, município de Barreirinha, Amazonas;
1931 - Muda-se com a família para Manaus;
1941 - Vai morar no Rio de Janeiro;
1950 - Ingressa na Faculdade Nacional de Medicina. Recebe prêmio conferido pelo Jornal de Letras e publica o poema Tempo por Meus Olhos no jornal Correio da Manhã, em que trabalha como colaborador do Suplemento Literário;
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1951 - Com Geir Campos (1924 - 1999), funda a Editora Hipocampo, e lança o livro Silêncio e Palavra;
1952 - Colabora como cronista no periódico Comício, jornal de oposição ao governo de Getúlio Vargas;
1954 - Abandona o curso de medicina;
1959 - Dirige o Departamento Cultural da Prefeitura Municipal da Cidade do Rio de Janeiro;
1960 - É adido cultural da Embaixada do Brasil na Bolívia;
1963 - Exerce a função de adido cultural da Embaixada do Brasil no Chile. Nessa ocasião conhece o poeta Pablo Neruda e traduz o livro Antologia Poética de Pablo;
1964 - Traduz o livro A Terra Devastada e os Homens Ocos, escrito por T.S. Eliot (1888 - 1965);
1965 - Regressa ao Brasil e reside no Rio de Janeiro;
1968 - Perseguido pelo governo militar, parte como exilado para Santiago;
1971 - Colabora na revista Colóquio Letras, editada em Lisboa;
1974 - Reside na cidade de Mainz, Alemanha, e trabalha como professor na Universidade Johann Guttenberg;
1976 - Escreve na revista Aqui, editada em Lisboa;
1978 - Retorna do exílio e, ao lado do cantor e compositor Sérgio Ricardo (1932), participa do show Faz Escuro Mas Eu Canto, dirigido pelo cronista e dramaturgo Flávio Rangel (1934 - 1988) e apresentado em dez capitais brasileiras. Vai residir na cidade de Barreirinhas, no Maranhão;
1982 - O livro Os Estatutos do Homem é divulgado pelo correio da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura - Unesco;
1983 - Faz a tradução do livro Salmos, do poeta nicaragüense Ernesto Cardenal (1925);
1984 - Traduz o livro A Vida no Amor, de Ernesto Cardenal;
1985 - Faz a versão da coletânea Poesia Completa de Cesar Vallejo;
Thiago de Mello
Foto: Fernanda Serra Azul
1986 - O maestro Cláudio Santoro (1919 - 1989) compõe uma peça sinfônica baseada nos poemas do livro Faz Escuro Mas Eu Canto. A peça é executada na abertura da Assembléia Nacional Constituinte, realizada na Praça dos Três Poderes, em Brasília. Faz tradução do livro Sóngoro Cosongos e Outros Poemas, do poeta cubano Nicolás Guillén (1902 - 1989);
1990 - Redige o texto Nosso Teatro, editado em plaquete de luxo para a noite de reabertura do Teatro Amazonas, após o processo de restauro iniciado em 1986;
1994 - Traduz Debaixo dos Astros, do poeta cubano Eliseo Diego (1920 - 1994) e Versos do Capitão, de Pablo Neruda;
1996 - Faz a tradução de Cântico Cósmico, de Ernesto Cardenal;
1998 - Recebe a Medalha da Ordem de Bernardo O'Higgins em cerimônia realizada na cidade de Santiago. Faz a tradução de Cadernos de Temuco, de Pablo Neruda;
2001 - Traduz Presente de um Poeta, de Pablo Neruda;
2002 – Publica o livro Mamirauá, com textos dele e fotografia de Luiz Cláudio Marigo, um projeto da Sociedade Civil Mamirauá;
2003 - Publica livro infanto-juvenil Amazonas: no coração encantado da floresta, pela Cosac Naify;
2006 - Grava "A criação do mundo", musicados por seu irmão, Gaudêncio Thiago de Mello;  organiza e traduz Poetas da América de Canto Castelhano, pela Global editora.

“Thiago de Mello é um poeta na contramão da modernidade e isso bastaria para distanciá-lo de seus pares, mas há ainda um fator circunstancial a considerar: desde que retornou do exílio, em 1978, voltou a viver na distante Barreirinha, pequena vila de 5 mil habitantes encravada no Baixo Amazonas, em pleno coração da floresta. Quando volta do sul do País, depois de voar até Manaus e de lá num pequeno avião até Parintins, o poeta ainda é obrigado a enfrentar uma longa viagem de barco, de mais de cinco horas, até chegar em casa.”
- José Castello
 
Thiago de Mello - Foto: (...)
PRÊMIO
1960Prêmio Nacional de Poesia Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras;
1972Prêmio Livro do Ano, da Sociedade Brasileira de Escritores;
1975 - Prêmio Associação Paulista dos Críticos de Arte (APCA), pelo seu livro "Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida".
1997 - Prêmio Jabutida Câmara Brasileira do Livro, para o livro "De uma vez por todas";
2000Prêmio Jabuti, da Câmara Brasileira do Livro, para o livro "Campo de Millagres";
2004 - Prêmio FNLIJ, categoria: Melhor livro reconto, pela obra "Amazonas: no coração encantado da floresta".


CONDECORAÇÕES E HOMENAGENS
. Doutor Honoris Causa da Universidade Federal do Amazonas;
. Doctor Honoris Causa la Universidad Ricardo Palma (URP), Perú/ 2011;
. Título de ‘Cavalheiro das Artes e das Letras’, pelo Ministério da Cultura da França, 1980;
. Cidadão honorário do Rio de Janeiro/RJ;
. Cidadão honorário de Belo Horizonte/MG;
. Cidadão honorário de Manaus/AM.



Confidência para ser gravada na lâmina da água
Caminho bem na minha solidão,
porque sei de mim mesmo o que perdi.
Não tenho mais precisão de mentir,
Enfrento cara a cara o desamor
que mal me disfarcei. Não fui capaz
de ser o que sonhei, Fiquei aquém
das palavras ardentes que inventei
para que um dia triunfasse o amor,
Porque não dei com medo de perder,
o diamante mais puro no meu peito,
inútil de fulgor se consumiu.
- Thiago de Mello, em "Num campo de margaridas", 1986.


Thiago de Mello - Foto: (...)
OBRAS DE THIAGO DE MELLO
[primeiras edições]

Poesia
Silêncio e palavra. Rio de Janeiro: Edições Hipocampo, 1951.
Narciso cego. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1952.
A lenda da rosa. Rio de Janeiro: Editora José Olympio,1956.
Vento geral. [reunião dos livros anteriores e mais dois inéditos: Tenebrosa Acqua e Ponderações que faz o defunto aos que lhe fazem o velório], Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1960.
Faz escuro mas eu canto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1965, 110p.
A canção do amor armado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1966, 259p.
Thiago de Mello - Foto: (...)
Poesia comprometida com a minha e a tua vida. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1975, 87p.
Os estatutos do homem. [ilustração de Aldemir Martins], São Paulo: Editora Martins Fontes, 1977.
Horóscopo para os que estão vivos. (edição de luxo).. [ilustrado e editado por Ciro Fernandes], Rio de Janeiro: Martins Fontes, 1978.
Mormaço na floresta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981, 117p.
Arte e ciência de empinar papagaio.  (edição de luxo), Manaus: Grupo Financeiro Bea, 1982; 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
Vento geral: poesia 1951-1981. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984, 469p.
Num campo de margaridas. (Coleção Poesia sempre, 2).. [capa Edgard Duvivier - texto de orelha de Ênio Silveira], Rio de Janeiro: Philobiblion, 1986, 124p.
De uma vez por todas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1996, 276p.
Campo de milagres. São Paulo: Bertrand Brasil, 1998, 248p.
Poemas preferidos pelo autor e seus leitores. São Paulo: Bertrand Brasil, 2001.
Melhores poemas Thiago de Mello. [Seleção Marcos Frederico Krüger Aleixo], São Paulo, Global Editora, 2009, 304p.
Como sou (antologia poética).. [Seleção Cecilia Reggiani], São Paulo: Global Editora, 2013.
Acerto de contas. São Paulo: Editora Global, 2015.

Memória
Notícia da visitação que fiz no verão de 1953 ao Rio Amazonas e seus barrancos. Rio de Janeiro: Ministério da Educação, 1957; 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989.

Ensaio
Thiago de Mello, por Netto
A estrela da manhã, estudo de um poema de Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Ministério da Educação, 1968.
Borges na luz de Borges. São Paulo: Pontes Editores, 1993.
Amazonas, pátria das águas. (edição de luxo, bilíngüe - português e inglês).. [fotografias de Luiz Cláudio Marigo], São Paulo: Sverner-Bocatto, 1991.
Amazônia, a menina dos olhos do mundo. [Artes], Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992.
O povo sabe o que diz. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993.
A arte de traduzir. 2000.


Crônica
Manaus, amor e memória.  [edição de luxo], Manaus: Suframa, 1984; Rio de Janeiro: Philobiblion, 1984; 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1985.


Infantil e juvenil
Amazonas: no coração encantado da floresta [Ilustração Andrés Sandoval]. Rio de Janeiro: Cosac Naify, 2003.
Almanaque do Aluá. Editora Sapé, 2006, 95p.
ABC da Floresta Amazônica. [autores:  Pollyanna Furtado Lima e Thiago de Mello; com ilustrações de Rodrigo Mafra]. 1ª ed., Brasília: Conhecimento, 2008. v. 1. 40p.



Fotografia
Mamirauá. [texto Thiago de Mello e fotografia Luiz Cláudio Marigo]. Pará: Sociedade Civil Mamirauá, 2002, 127p.: il.

“Os milagres da floresta estão nas mãos do homem.”
- José Márcio Ayres


Thiago de Mello, 1991 - foto: (...)
Áudio
Poesias de Thiago de Mello. Rio de Janeiro: Discos Festa, 1963.
Die Statuten des Menschen. Cantata para orquestra e coro. Música de Peter Jansens, RFA, 1976.
Thiago de Mello, palabra de esta américa. La Habana: Casa de las Américas, 1985
Mormaço na floresta. [declamados por ele próprio], Rio de Janeiro: Som Livre, 1986.
Os Estatutos do homem e poemas inéditos. Rio de Janeiro: Edições Paulinas, 1992.
A criação do mundo. [declamados por ele próprio e musicados por seu irmão, Gaudêncio Thiago de Mello], Karmim, 2006.


Antologias (participação)
Roteiro da Poesia Brasileira – Anos 50. (Seleção e Prefácio André Seffrin). Global Editora, 2007, 240p.


Entrevista
Thiago de Mello, vida é um campo de milagres. [entrevista concedida a José Castello]. O Estado de São Paulo, 08.05.1999. Disponível no link.  (acessado 18.8.2013).
Thiago de Mello - entrevista. [entrevista concedida a Lêda Rivas]. Editora do Viver - caderno de cultura do Diário de Pernambuco. Disponível no link. (acessado 18.8.2013).


"Thiago de Mello é um homem aberto aos anseios coletivos do povo brasileiro. É e sempre será uma voz que canta, por mais impenetrável que pareça, a escuridão da hora que atravessamos. Há anos irrompeu ele como uma força elementar na paisagem idílica da literatura brasileira de então. Hoje, esse homem das selvas amazônicas nos reaparece como um partisan, abrindo uma brecha na selva da violência que ameaça engolir-nos. Abre uma clareira."
- Otto Maria Carpeaux


TRADUÇÕES E EDIÇÕES ESTRANGEIRAS
Thiago de Mello - Foto: (...)
Os Estatutos do Homem. [tradução para mais de trinta idiomas]. Correio da Unesco, 1982.

Alemão
Die Statuten des Menschen [Os Estatutos do Homem]. Wuppertal: Peter Hammer Verlag, 1976.
Die Statuten des Menschen [Os Estatutos do Homem]. Tradução Katharina Wendt; Curt Meyer-Clason / Sankt Gallen. Colônia: Diá, 1986.
Gesang der Bewaffneten Liebe [A Canção do Amor Armado]. Wuppertal: Peter Hammer Verlag, 1976.
Gesang der Bewaffneten Liebe [A Canção do Amor Armado]. Tradução Katharina Wendt. Gütersloh: Gütersloher Verlagshaus Mohn, 1979.
Horoskop für Alles, die am Leben Sind [Horóscopo para os que Estão Vivos]. Wuppertal: Jugenddienst-Verlag, 1984.
Die Statuten des Menschen [Os Estatutos do Homem]. Cantata para orquestra e coro, música de Peters Jansen, RFA, 1976.


Espanhol
Madrugada Campesina. Tradução Armando Uribe. Santiago: Arco CEB, 1962.
Poemas. Tradução Pablo Neruda. (Edição de luxo).. [Ilustração de Eduardo Vilches], Fora do comércio, 1962.
Horóscopo. Santiago: Edição Mario Toral, 1964.
Los Estatutos del Hombre. Tradução Pablo Neruda. Montevidéu: Club de Grabado, 1970.
Canto de Amor Armado. Buenos Aires: Ediciones Crisis, 1973.
Poesia de Thiago de Mello. Havana: Casa de Las Américas, 1977.
Aú És Tiempo. Santiago: Editorial Fondo de la Cultura Económica, 1978.
Palabra de Esta América [áudio]. Havana: Casa de las Américas, 1985.
Poemas y Canciones [áudio]. Havana: Casa de Las Américas, 1968.


Thiago de Mello - Foto: (...)
Francês
Chant de l'Amour Armé [A Canção do Amor Armado]. Tradução Régine Mellac. Paris: Éditions du Cerf, 1979.
Amazonas: no coração encantado da floresta, França: Syros Jeunesse, 2005.


Inglês
What Counts Is Life. Estados Unidos: Geo Pflaum Publisher, 1970. 
Amazonas, Land of Water. Tradução Charles Cutler. Massachusetts: The Massachusetts Review, 1986.
Statutes of Man, Selected Poems. Tradução Richard Chappel. Londres: Spenser Books, 1994.
I Go on Shaped Like a Word: A Tribute to Thiago de Mello. Estados Unidos: Center for Amazonian Literature and Culture: Smith College, 1996.


Português (Portugal)
Os Estatutos do Homem. Lisboa: Edições Itau, 1968.
Poesia Comprometida com a Minha e a Tua Vida. Lisboa: Moraes Editora, 1975.
A Canção do Amor Armado. Lisboa: Moraes Editora, 1975.


"Misturando prosa e poesia, crônica e até anúncio imobiliário, o amazonense de Barreirinha, o cidadão do mundo, o personagem de nossa época, o poeta de A Canção do Amor Armado penetra na memória, obtendo a síntese do urbano e do telúrico, do lírico e do social. Comprometido com a sua terra e com a sua gente, de uma vez por todas Thiago de Mello assume a expressão de um poeta verdadeiramente universal."
- Carlos Heitor Cony


Pablo Neruda, Matilde Neruda e
Thiago de Mello, 1963
Thiago y Santiago
Thiago, A Santiago, como un vago mago,
has encantado en canto y poesía.
Sin San, has hecho de Santiago, Thiago,
un volantin de tu pajarería.
Al Este y al Oeste de Santiago
diste el Norte y el sur de tu alegría.
Muchos dones nos diste, un solo estrago:
llevaste el corazón de Anamaría.

Te perdonamos porque com tu bella,
de rosa en rosa y de estrella en estrella,
te llamará el Brasil a su desfile.

Te irás, hermano, com la que elegistes.
Tendrás razón, pero estaremos tristes,
que hará Santiago sin Thiago de Chile.
- Pablo Neruda


TRADUÇÕES REALIZADAS POR THIAGO DE MELLO
Português
ARCE, Homero.  Os Íntimos Metais. (Edição bilíngue).. [tradução Thiago de Mello, e Ilustrado por Pablo Neruda]. Santiago de Chile, Cadernos Brasileiros, 1964.
CARDENAL, Ernesto. Cântico Cósmico(Cántico cósmico).. [tradução Thiago de Mello]. São Paulo: Hucitec, 1996. 
CARDENAL, Ernesto. Oração por Marilyn Monroe. [tradução Thiago de Mello].  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
CARDENAL, Ernesto. Salmos. [tradução Thiago de Mello].  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983.
CARDENAL, Ernesto. Vida no Amor. [tradução Thiago de Mello].  Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1984. (Vida no amor). Prosa.
CERRUTO, Óscar. Pátria de sal cativa (Patria de sal cautiva). Poesia.. [tradução Thiago de Mello]. La Paz: Centro de Estudos Brasileiros, 1959.
DIEGO, Eliseo. Debaixo dos Astros. [tradução Thiago de Mello]. São Paulo: Hucitec, 1994.
ELIOT, T. S.. A Terra Desolada e Os Homens Ôcos. [tradução Thiago de Mello (português); Flavian Levine (espanhol)]. Santiago de Chile: Editorial Universitária, 1963.
GUILLÉN, Nicolás. Sóngoro Cosongo e Outros Poemas. [tradução Thiago de Mello].  Rio de Janeiro: Philobiblion, 1987.
Thiago de Mello, por  (...)
MELLO, Thiago de (Org.). Poetas da América de Canto Castelhano. [Organização, seleção, tradução e notas Thiago de Mello], São Paulo: Global Editora, 2006, 496p.
NERUDA, Pablo. Antologia Poética de Pablo Neruda. [tradução Thiago de Mello]. Rio de Janeiro: Letras e Artes, 1962. Poesia.
NERUDA, Pablo. Cadernos de Temuco: 1919-1920. (Cuadernos de Temuco). Poesia. [tradução Thiago de Mello]. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
NERUDA, Pablo. Farewell. [tradução Thiago de Mello]. Santiago de Chile: Cadernos Brasileiros, 1963.
NERUDA, Pablo. Prólogos. [tradução Thiago de Mello].  Rio de Janeiro, Bertrand Brasil: 2000.
NERUDA, Pablo. Versos do Capitão. [tradução Thiago de Mello]. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.
NERUDA, Pablo. Presentes de um Poeta. [tradução Thiago de Mello]. São Paulo: Vergara & Riba, 2001.
SABINES, Jaime. Antologia. [tradução Thiago de Mello].  Rio de Janeiro: Bertrand, no prelo. Seleção do autor.
VALLEJO, César. Poesia Completa. [tradução Thiago de Mello]. Rio de Janeiro: Philobiblion, 1987. Reimpressão: Belo Horizonte: Itatiaia, 2005.


Espanhol
ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia. [tradução Thiago de Mello; e Armando Uribe Arce]. Santiago de Chile: Cadernos Brasileiros, 1963.
BANDEIRA, Manuel. La Estrella de la Mañana. [tradução Thiago de Mello]. Cadernos Brasileiros, Santiago de Chile, 1962.
MELLO, Thiago de (Org.). Panorama de la Poesia Brasileña. [tradução Thiago de Mello; e Adán Méndez]. Santiago de Chile: Embaixada do Brasil, 1993.
Pena Filho, Carlos. Memorias del buey Serapián. [Por: Thiago de Mello]. Santiago do Chile: Centro de Estudos Brasileiros, 1963. Capa com gravura de Eduardo Vilches.

Thiago de Mello - Foto: (...)

"Eu tenho a felicidade, neste livro, de ser fielmente traduzido para uma extensa e delicada linguagem. Aqui foram pesadas as equivalências, os minerais do substantivo, o arroz dos adjetivos, os grãos da interjeição. Foram seguidas as veias da minha poesia, limpando o quartzo castelhano para que este enfrentasse a luz torrencial. Tudo isso foi feito com bondade e paixão pelo meu grande amigo e bom companheiro, o poeta Thiago de Mello. Eu próprio o vi emboscado em minhas contradições, desfraldando o fogo e a água com o seu valente coração. Eu o vi trabalhar com uma paciência que não lhe conhecia, e meter as mãos na farinha para que, de tanta pedra, saíra, como dizem os camponeses, o pão como uma flor."
- Pablo Neruda, no prefácio da primeira antologia de seus poemas que apareceu no Brasil (Rio de Janeiro, Letras e Artes, 1963).


Thiago de Mello, 2001 - Foto: (...)

“Precisamos do menino que você guarda em você e que ajuda a ser mais homem o homem que você é. Aguente o barco, querido amigo! Muitas madrugadas, cheias de orvalho macio, esperam por você. Andarilho da liberdade, você tem ainda muitos trilhos a percorrer; seus braços longos, muitas crianças a abraçar; suas mãos, muitos poemas a escrever."
- Paulo Freire

POEMAS ESCOLHIDOS


A boca da noite
O que não fiz ficou vivo
pelo avesso. O que não tive
pertence à dor do meu canto.
A estrela que mais amei
acende o meu desencanto.
Vinagre? Sombra de vinho?
De noite, a vida engoliu
(é doce a boca da noite)
as dores do meu caminho.
O meu voo se apazigua
quando a tormenta me abraça.
O que tenho se enriquece
de tudo que não retive.
Diamante? Flor de carvão.
- Thiago de Mello, em "Poemas Preferidos pelo autor e seus leitores", 2001.


A fruta aberta
Agora sei quem sou.
Sou pouco, mas sei muito,
porque sei o poder imenso
que morava comigo,
mas adormecido como um peixe grande
no fundo escuro e silencioso do rio
e que hoje é como uma árvore
plantada bem alta no meio da minha vida.

Thiago de Mello - Foto: (...)
Agora sei as coisa como são.
Sei porque a água escorre meiga
e porque acalanto é o seu ruído
na noite estrelada
que se deita no chão da nova casa.
Agora sei as coisas poderosas
que valem dentro de um homem.

Aprendi contigo, amada.
Aprendi com a tua beleza,
com a macia beleza de tuas mãos,
teus longos dedos de pétalas de prata,
a ternura oceânica do teu olhar,
verde de todas as cores
e sem nenhum horizonte;
com  tua pele fresca e enluarada,
a tua infância permanente,
tua sabedoria fabulária
brilhando distraída no teu rosto.

Grandes coisas simples aprendi contigo,
com o teu parentesco com os mitos mais terrestres,
com as espigas douradas no vento,
com as chuvas de verão
e com as linhas da minha mão.
Contigo aprendi
que o amor reparte
mas sobretudo acrescenta,
e a cada instante mais aprendo
com o teu jeito de andar pela cidade
como se caminhasses de mãos dadas com o ar,
com o teu gosto de erva molhada,
com a luz dos teus dentes,
tuas delicadezas secretas,
a alegria do teu amor maravilhado,
e com a tua voz radiosa
que sai da tua boca
inesperada como um arco-íris
partindo ao meio e unindo os extremos da vida,
e mostrando a verdade
como uma fruta aberta.
- Thiago de Mello (Sobrevoando a Cordilheira dos Andes, 1962). em "Faz escuro mas eu canto", Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1999, p. 60.


A magia
Eu venho desse reino generoso,
onde os homens que nascem dos seus verdes
continuam cativos esquecidos
e contudo profundamente irmãos
das coisas poderosas, permanentes
como as águas, os ventos e a esperança.
Vem ver comigo o rio e as suas leis.
Vem aprender a ciência dos rebojos,
vem escutar os cânticos noturnos
no mágico silêncio do igapó
coberto por estrelas de esmeralda.
- Thiago de Mello, em "Mormaço na floresta", 1981.


Água de remanso
Cismo o sereno silêncio:
sou: estou humanamente
em paz comigo: ternura.

Paz que dói, de tanta.
Mas orvalho. Em seu bojo
estou e vou, como sou.

Ternura: maneira funda,
cristalina do meu ser.
Água de remanso, mansa
brisa, luz de amanhecer.

Nunca é a mágoa mordendo.
Jamais a turva esquivança,
o apego ao cinzento, ao úmido,
a concha que aquece na alma
uma brasa de malogro.

É ter o gosto da vida,
amar o festivo, o claro,
é achar doçura nos lances
mais triviais de cada dia.

Pode também ser tristeza:
tranquilo na solidão macia.
Apaziguado comigo,
meu ser me sabe: e me finca
no fulcro vivo da vida.

Sou: estou e canto.
- Thiago de Mello, em "Faz escuro mas eu canto", 17ª ed., São Paulo: Bertrand Brasil, 1999.



Amor mais que imperfeito
Não do amor. De mim duvido.
Do jeito mais que imperfeito
Thiago de Mello - foto: (...)
que ainda tenho de amar.

Com frequência reconheço
a minha mão escondida
dentro da mão que recebe
a rosa de amor que dou.

Espiando o meu próprio olhar,
escondido atrás estou
dos olhos com que me vês.
Comigo mesmo reparto
o que pretende ser dádiva,
mas de mim não se desprende.

Por mais que me prolongue
no ser que me reparte,
de repente me sinto
o dono da alegria
que estremece a pele
e faz nascer luas
no corpo que abraço.

Não do amor. De mim duvido
quando no centro mais claro
da ternura que te invento
engasto um gosto de preço.
Mesmo sabendo que o prêmio
do amor é apenas amar.
- Thiago de Mello, em "Mormaço na floresta", 1981.



Arte de amar
Não faço poemas como quem chora,
nem faço versos como quem morre.
Quem teve esse gosto foi o bardo Bandeira
quando muito moço; achava que tinha
os dias contados pela tísica
e até se acanhava de namorar.
Faço poemas como quem faz amor.
É a mesma luta suave e desvairada
enquanto a rosa orvalhada
se vai entreabrindo devagar.
A gente nem se dá conta, até acha bom,
o imenso trabalho que amor dá para fazer.

Perdão, amor não se faz.
Quando muito, se desfaz.
Fazer amor é um dizer
(a metáfora é falaz)
de quem pretende vestir
com roupa austera a beleza
do corpo da primavera.
O verbo exato é foder.
A palavra fica nua
para todo mundo ver
o corpo amante cantando
a glória do seu poder.
- Thiago de Mello, em "De uma vez por todas", 1996.



Arabesco
Já próximos escutamos o rumor
dos cavalos que correm pela treva.
Até agora, porém, nada aprendemos:
não conquistamos nem a paz dos loucos
nem a mudez das fragas solitárias.
E enquanto a noite enorme, que nos ronda,
estende as suas mãos para afagar-nos
na areia das palavras desenhamos
o arabesco invisível desta mágoa:
— somos frágeis demais e não sabemos
sequer o que nos falta para sermos
completos como um deus — ou como um pássaro.
- Thiago de Mello, em "Vento geral", 1960.



As ensinanças da dúvida
Tive um chão (mas já faz tempo)
todo feito de certezas
tão duras como lajedos.

Agora (o tempo é que fez)
tenho um caminho de barro
umedecido de dúvidas.

Mas nele (devagar vou)
me cresce funda a certeza
de que vale a pena o amor
- Thiago de Mello, em "Mormaço na floresta", 1981.



Como um rio
Thiago de Mello - Foto: (...)
Ser capaz, como um rio
que leva sozinho
a canoa que se cansa,
de servir de caminho
para a esperança.
E de lavar do límpido
a mágoa da mancha,
como o rio que leva,
e lava.

Crescer para entregar
na distância calada
um poder de canção,
como o rio decifra
o segredo do chão.

Se tempo é de descer,
reter o dom da força
sem deixar de seguir.
E até mesmo sumir
para, subterrâneo,
aprender a voltar
e cumprir, no seu curso,
o ofício de amar.

Como um rio, aceitar
essas súbitas ondas
feitas de água impuras
que afloram a escondida
verdade nas funduras.

Como um rio, que nasce
de outros, saber seguir
junto com outros sendo
e noutros se prolongando
e construir o encontro
com as águas grandes
do oceano sem fim.

Mudar em movimento,
mas sem deixar de ser
o mesmo ser que muda.
Como um rio.
- Thiago de Mello, em "Mormaço na floresta", 1981.



Da eternidade
Da eternidade venho. Dela faço
parte, desde o começo da vida
dos que me fizeram ser
até chegar ao que sou.
Transporto com a minha vida
a eternidade no tempo.
Menino deslumbrado com as águas,
os ventos, as palmeiras, as estrelas,
prolonguei sem saber a eternidade
que neste instante navega
no meu sangue fatigado.
- Thiago de Mello (Santiago, 93), do livro ‘De uma vez por todas, (1996)’, reunido em "Melhores poemas Thiago de Mello”. [Seleção Marcos Frederico Krüger Aleixo], São Paulo: Global Editora, 2009.



Diário de um brasileiro
O brasileiro convive bem com o escândalo moral.
Os ladrões infestam os salões de luxo,
os Bancos estouram, os banqueiros
são cumprimentados com reverência,
o Presidente do Congresso chama o senador
de bandido, sim senhor, vossa excelência.

O Presidente diz pela televisão
que "é preciso acabar com a roubalheira
nos dinheiros públicos".
As pessoas das cidades grandes
vivem amedrontadas, qualquer
transeunte pode ser um assaltante.
As meninas cheiram cola. Depois
vão dar o que têm de mais precioso
ao preço de um soco na cara desdentada.

O brasileiro convive com o escândalo
como se fosse o seu pão de cada dia,
com uma indiferença letal.

Como se dormir na casa com um rinoceronte,
mas rinoceronte mesmo,
fosse a coisa mais natural do mundo,
chegando a cheirar a camélias.

O povo, um dia.

Do povo vai depender
a vida que vai viver,
quando um dia merecer.
Vai doer, vai aprender.
- Thiago de Mello, em "De uma vez por todas", 1996.



É natural, mas fede
Tudo é muito natural. É como o mar
noturno, as ondas vão, as ondas vêm.
É como a cotidiana hipocrisia,
eu nem sei mais como se diz bom-dia.
É como o beija-flor querendo o sumo
da flor que entrega sem saber que dá.
É a gaivota planando, é natural,
o peixe que ela viu já foi-se embora,
desesperança alada, de perfil.
De frente é o olhar, que logo se desvia
da legião deserdada, é natural.
É a cascata descendo, é o girassol
humilde na esperança de uma luz
que lhe brinde o favor da poluição.
É tudo, tudo, muito natural.
A paloma cagando na cabeça
da princesa esculpida em solidão.
É como aquela antiga mão do índio
que eu vi tremendo na perfuratriz
num sovacão da mina boliviana.
É como a história natural das águas
que fazem dos rebojos o mau fim
dos homens que perseguem seringueiras,
destino duro do meu tio Joaquim.
É tudo natural na Venezuela:
o povo come ardências de óleo sujo
enquanto as autopistas te deslumbram
e forjas teorias on the rocks.
A solidariedade se transforma
em favor, os crimes em memória,
ninguém mais se comove e se acostuma
à dor da mordidura em pleno peito.
Quero voltar pro morro, é natural,
pois lá é que estão as curvas da chinela
da morena que um dia, fatigada,
queria mais, que eu fosse dentro dela,
como um rei, um brinquedo, uma agonia,
e então nós fomos juntos sendo a vida,
mas de repente a morte, é natural.
Tudo é tão natural, é como o céu
estrelado demais da minha terra
cobrindo o sonho opaco de um menino
— mordido de carapanã, caralho! —
que sequer sabe onde começa a fome.
As vozes do Salgueiro, na avenida,
porta-estandarte verde, me perguntam:
— E você sabe onde termina o céu?
E você sabe onde ermina a terra?
E você sabe onde termina o mar?
Canto que não, naturalmente não.
Tenho muitos mistérios misturados,
curtidos em salmoura fedorenta.
Alguns serão matéria de mercado,
como o meu coração que, tantas vezes
exposto esteve em campos de amapolas,
mas nunca foi comprado, é natural.
Outros serão caterva de alçapões:
químico, turvo, o mundo me penetra
pelos poros mais podres, me rebelo,
não posso me entregar. Homem do Atlântico
pasto da luz latino-americana,
conheço a petroquímica ao reverso:
um fogo que se entrega à atmosfera,
fedento triste e inútil, enquanto hormônios,
enquanto pernas, enquanto fervores,
na solidão soturna das cidades,
na entressombra dourada das favelas,
se abraçam procurando a primavera
numa chama que nunca vai jamais
erguer a liberdade, é natural,
desse escuro porão, refúgio do homem,
mordido pelo sol do escorpião.
- Thiago de Mello, em "Poesia comprometida com a minha e a tua vida", 1975.



Fio da vida
Já fiz mais do que podia
Nem sei como foi que fiz.
Muita vez nem quis a vida
a vida foi quem me quis.

Para me ter como servo?
Para acender um tição
na frágua da indiferença?
Para abrir um coração

no fosso da inteligência?
Não sei, nunca vou saber.
Sei que de tanto me ter,
acabei amando a vida.

Vida que anda por um fio,
diz quem sabe. Pode andar,
contanto (vida é milagre)
que bem cumprido o meu fio.
- Thiago de Mello, em "Campo de milagres", 1998.



Já faz tempo que escolhi
Thiago de Mello - Foto: (...)
A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser.
Não se trata de escolher
entre cegueira e traição.
Mas entre ver e fazer
de conta que nada vi
ou dizer da dor que vejo
para ajudá-la a ter fim,
já faz tempo que escolhi.
- Thiago de Mello, em "Mormaço na floresta", 1981.



Lição de escuridão
Caboclo companheiro meu de várzea,
contigo cada dia um pouco aprendo
as ciências desta selva que nos une.

Contigo, que me ensinas o caminho dos ventos,
me levas a ler, nas lonjuras do céu,
os recados escritos pelas nuvens,
me avisas do perigo dos remansos
e quando devo desviar de viés a proa da canoa
para varar as ondas de perfil.

Sabes o nome e o segredo de todas as árvores,
a paragem calada que os peixes preferem
quando as águas começam a crescer.
Pelo canto, a cor do bico, o jeito de voar.
identificas todos os pássaros da selva.
Sozinho (eu mais Deus, tu me explicas).
atravessas a noite no centro da mata.
corajoso e paciente na tocaia da caça.
a traição dos felinos não te vence.

Contigo aprendo as leis da escuridão,
quando me apontas na distância da margem,
viajando na noite sem estrelas,
a boca (ainda não consigo ver) do Lago Grande
de onde me fui pequenino e te deixei.

De novo no chão da infância,
contigo aprendo também
que ainda não tens olhos para ver
as raízes de tua vida escura,
não sabes quais são os dentes que te devoram
nem os cipós que te amarram à servidão.

Nos teus olhos opacos
aprendo o que nos distingue.
Já repartes comigo a ciência e a paciência.
Quero contigo repartir a esperança,
estrela vigilante em minha fronte
e em teu olhar apenas um tição
encharcado de engano e cativeiro.
- Thiago de Mello (Barreirinha -1981), em "Mormaço na floresta", 1981.



Thiago de Mello - Foto: (...)
Memória da esperança
Na fogueira do que faço
por amor me queimo inteiro.
Mas simultâneo renasço
para ser barro do sonho
e artesão do que serei.
Do tempo que me devora
me nasce a fome de ser.
Minha força vem da frágil
flor ferida que se entreabre
resgatada pelo orvalho
da vida que já vivi.
Qual a flama que darei
para acender o caminho
da criança que vai chegar?
Não sei. Mas sei que já dança,
canção de luz e de sombra,
na memória da esperança.
- Thiago de Mello (dia dos meus 55 anos, 30 de março de 1981), em "Faz mormaço na floresta", 1981.



Na manhã do milênio
De que valeu o assombro indignado
e esta perseverança que me acende
em pleno dia a estrela que me guia,
seguro do meu chão e do meu sonho?
De que valeram todos os prodígios
da ciência mergulhando nas funduras
mais escuras da terra e dominar
jamais imaginadas vastidões
para encontrar a luz fossilizada?
Do que valeu meu passo peregrino
pelo tempo, meu grito solidário,
a entrega ardente, o castigo injusto,
o viver afastado do meu povo,
só porque desfraldei em plena praça
a bandeira do amor? Do que valeu
se hoje, manhã deste milênio novo,
avança, imensa e escura bem na fronte
a marca suja da miséria humana,
gravada em cinza pela indiferença
dos que pretendem donos ser da vida,
avança escura uma legião de crianças
deserdadas do amor e todavia
capazes de sorrir: maior milagre
do século perverso que findou?
De que valeram todas as palavras
que proferi na trova da esperança?
Tão pouco, talvez nada. Não consola
saber que fiz, que fiz a minha parte,
que reparti com tantos o diamante,
que olhei o sol de frente e não fugi
(nem do meu próprio medo).
De consolo não cuido. Pois valeu.
"Que tudo vale a pena quando a alma
não é pequena."
Não sei o tamanho
da minha alma. Só sei que vou varando
o fim do rio, já posso discernir
a margem que me chama. Mas obstinado
confiante sigo no poder distante
da estrela alucinante. Que destino
de estrela é o de brilhar.
E mesmo extinta
brilhante permanece sobre o mundo.
- Thiago de Mello, em "Poemas preferidos pelo autor e seus leitores", 2001.



Narciso cego
Tudo o que de mim se perde
acrescenta-se ao que sou.
Contudo, me desconheço.
Pelas minhas cercanias
passeio — não me frequento.

Por sobre fonte erma e esquiva
flutua-me, íntegra, a face.
Mas nunca me vejo: e sigo
com face mal disfarçada.
Oh que amargo é o não poder
rosto a rosto contemplar
aquilo que ignoto sou;
distinguir até que ponto
sou eu mesmo que me levo
ou se um nume irrevelável
que (para ser) vem morar
comigo, dentro de mim,
mas me abandona se rolo
pelos declives do mundo.

Desfaço-me do que sonho:
faço-me sonho de alguém
oculto. Talvez um Deus
sonhe comigo, cobice
o que eu guardo e nunca usei.

Cego assim, não me decifro.
E o imaginar-me sonhado
não me completa: a ganância
de ser-me inteiro prossegue.
E pairo — pânico mudo —
entre o sonho e o sonhador.
- Thiago de Mello, em "Narciso cego", 1952.



Ninguém me habita
Ninguém me habita. A não ser
o milagre da matéria
que me faz capaz de amor,
e o mistério da memória
que urde o tempo em meus neurônios,
para que eu, vivendo agora,
possa me rever no outrora.
Ninguém me habita. Sozinho
resvalo pelos declives
onde me esperam, me chamam
(meu ser me diz se as atendo)
feiúras que me fascinam,
belezas que me endoidecem.
- Thiago de Mello, em "De uma vez por todas", 1996.



Thiago de Mello - Foto: (...)
Não aprendo a lição
A lição de conviver,
senão de sobreviver
no mundo feroz dos homens,
me ensina que não convém
permitir que o tempo injusto
e a vida iníqua me impeçam
de dormir tranquilamente.
Pois sucede que não durmo.

Frente à verdade ferida
pelos guardiães da injustiça,
ao escárnio da opulência
e o poderio dourado
cujo esplendor se alimenta
da fome dos humilhados,
o melhor é acostumar-se,
o mundo foi sempre assim.
Contudo, não me acostumo.

A lição persiste sábia:
convém cabeça, cuidado,
que as engrenagens esmagam
o sonho que não se submete.
E que a razão prevaleça
vigilante e não conceda
espaços para a emoção.
Perante a vida ofendida
não vale a indignação.
Complexas são as causas
do desamparo do povo.
Mas não aprendo a lição.
Concedo que me comovo.
- Thiago de Mello, em "Poesia comprometida com a minha e a tua vida", 1975.



Num campo de margaridas
Sonhei que estavas dormindo
num campo de margaridas
sonhando que me chamavas,
que me chamavas baixinho
para me deitar contigo
num campo de margaridas.
No sonho ouvia o meu nome
nascendo como uma estrela,
como um pássaro cantando.

Mas eu não fui, meu amor,
que pena!, mas não podia,
porque eu estava dormindo
num campo de margaridas
sonhando que te chamavas
que te chamavas baixinho
e que em meu sonho chegavas,
que te deitavas comigo
e me abraçavas macia
num campo de margaridas.
- Thiago de Mello, em "Num campo de margaridas", 1986.



O saber escasso
Pouco sabem as flores que de novo
ressurgem neste campo: não percebem
que alguém de longa e loura cabeleira
já não passeia pela verde alfombra,
e que entre as mãos que agora vão colhê-las
estão ausentes duas muito pálidas.

Ignorantes, porém, mais do que as flores,
nós o somos: jamais compreenderemos
porque esse deus eternamente oculto
ressuscita defuntas primaveras,
mas não desperta a moça que hoje dorme
na planície sem cor da deslembrança.
- Thiago de Mello, em "Narciso cego", 1952.



O coração latino-americano
Incas, ianomamis, tiahuanacos, aztecas,
mayas, tupis-guaranis, a sagrada intuição
das nações mais saudosas. Os resíduos.
A cruz e o arcabuz dos homens brancos.
O assombro diante dos cavalos,
a adoração dos astros.
Uma porção de sangues abraçados.
Os heróis e os mártires que fincaram no
tempo
a espada de uma pátria maior.
A lucidez do sonho arando o mar.
As águas amazônicas, as neves da
cordilheira.
O quetzal dourado, o condor solitário
o uirapuru da floresta, canto de todos os
pássaros.
A destreza felina das onças e dos pumas.
Rosas, hortênsias, violetas, margaridas,
flores e mulheres de todas as cores,
todos os perfis. A sombra fresca
das tardes tropicais. O ritmo pungente,
rumba, milonga, tango, marinera,
samba-canção.
O alambique de barro gotejando
a luz-ardente do canavial.
O perfume da floresta que reúne,
em morna convivência, a árvore altaneira
e a planta mais rasteirinha do chão.
O fragor dos vulcões, o árido silêncio
do deserto, o arquipélago florido,
a pampa desolada, a primavera
amanhecendo luminosa nos pêssegos e nos
jasmineiros,
a palavra luminosa dos poetas,
o sopro denso e perfumado do mar,
a aurora de cada dia, o sol e a chuva
reunidos na divina origem do arco-íris.
Cinco séculos árduos de esperança.
De tudo isso, e de dor, espanto e pranto,
para sempre se fez, lateja e canta
o coração latino-americano.
- Thiago de Mello, em "De uma vez por todas", 1996.



O ofício de escrever
Lendo é que fico sabendo
O que escrevi já caiu
na ida. Não me pertence.
Thiago de Mello - Foto: (...)
Leio e me assombro: as palavras
que arrumei com paciência,
severo de inteligência,
cuidando bem da cadência,
perseverante, escolhendo
não escondo, as mais sonoras,
e as que gostam mais de mim,
Dando a cada uma o lugar
merecido no meu verso
(e que desta ciência os segredos
me deu o tempo de ofício,
um exercício de anos)
Pois as palavras começam
a dizer coisas que nunca
ousei pensar nem sonhar,
pássaros desconhecidos
pousando no meu pomar.
É quando descubro a rosa
— rosa em carne de palavra,
não é rosa da roseira —
Que chamei para o meu poema,
Rosa linda, venha cá,
Venha enfeitar o meu canto,
Se transmuda, mal a leio,
Num sonho que vai se abrir,
No espinho que vai ferir.
Só nesse instante descubro
que a rosa, para ser rosa,
no esplendor da identidade
com qualquer rosa do mundo
precisa ser inventada
- Thiago de Mello, em "Campo de milagres", 1998.



O silêncio da floresta
Tem consistência física,
espessamente doce,
o silêncio noturno da floresta.
Não é como o do vento e vastidão,
cujos dentes de neve
morderam a minha solidão.
Nem como o silêncio aterrador
(no seu âmago o tempo brilha imóvel)
do deserto chileno de Atacama,
onde, um entardecer,
estirado entre areia e pedras,
escutei cheio de assombro
o latir do meu próprio coração.

O silêncio da floresta é sonoro:
os cânticos dos pássaros da noite
fazem parte dele, nascem dele,
são a sua voz aconchegante.

Sozinho no centro da noite amazônica,
escuto o poder mágico do silêncio,
agora quando os pássaros
conversam com as estrelas,
e recito silenciosamente
o nome lindo da mulher que eu amo.
- Thiago de Mello, em "Num campo de margaridas", 1986.



O sonho da argila
O vocábulo puro, em que me amparo,
esquiva-se a meu jugo; e raro canto.
Que a palavra da boca é sempre inútil
se o sopro não lhe vem do coração.

Mudo, contemplo os valerosos feitos
de quem funda caminhos sobre os mares
e edifica cidades e ergue torres
de cujo topo logre dominar
o mundo inteiro — e ver que o mundo é pouco.

Antes os que, cegos, trabalham a terra,
sorvendo-lhe os tesouros mais esconsos,
sem assombro, no convívio dos bois,
com eles aprendendo ser humildes,
e dormem, vinda a noite, sossegados,
— permaneço calado, e todavia
algo em mim lhes inveja esse dormir.

Não me pranteio por saber-me turvo
ou por não me caber a paz dos brutos.
Sei que morro amanhã, mas não me louvo
a sóbria face que disfarça o medo.

Move-me ao canto ver que a sombra cresce
dentro de mim, enquanto um sol avaro
esplende oculto — em céus só vislumbrados
quando a argila, grotesca e ousada, sonha.
E ver o inútil dessa argila em sonho,
mais que mover-me ao canto, me comove.
- Thiago de Mello, em "Narciso cego", 1952.



Os astros íntimos
Consulto a luz dos meus astros,
cada qual de cada vez.
Primeiro olho o do meu peito:
um sol turvo é o meu defeito.
A minha amada adormece
desgostosa do que sou:
a estrela da minha fronte
de descuidos se apagou.

Ela sonha mal do rumo
que minha galáxia tomou.
Não sabe que uma esmeralda
se esconde na dor que dou.

A cara consigo ver,
sem tremor e sem temor,
da treva engolindo a flor.
Percorre a mata um espanto.

A constelação que outrora
ardente cruzava o campo
da vida, hoje mal demora
no fulgor de um pirilampo.

Mas vale ver que perdura
serena em seu resplendor,
mesmo de luz esgarçada,
a nebulosa do amor.
- Thiago de Mello, em "Campo de milagres", 1998.


Thiago de Mello - Foto: (...)

Sagrada alegria
Não me indago, muito menos
me respondo, sobre a vida
(se existe) depois da vida.
Não invejo (me comove)
a fé que funda a serena
certeza da eternidade.
Do que suceda no reino
que se inaugura na morte,
não me concerne. No mundo
dos homens, meu lindo chão,
quero ser capaz de amar,
mas não sonho galardão
que não seja o da alegria
do amor no meu coração.
- Thiago de Mello, em "Num campo de margaridas", 1986.



Sei que os tempos são difíceis,
Sei que os tempos são difíceis,
sei que os tempos são de dores,
sei que os dias são ásperos demais
e que o inimigo do homem cada dia
se disfarça menos.
Pois apesar de tudo
eu te digo simplesmente:
resiste!
Resiste, companheiro capricórnio,
resiste, companheiro de qualquer signo!
Resiste, porque o zodíaco é um sol
para quem vive ofendido
no mais profundo da vida.
Resiste, companheiro,
é o que digo a teu amor
porque sei que vais vencer
a luta que é a tua vida
na alegria do teu povo.
Ainda que os braços do inimigo
pareçam tão largos como asas de moinho,
luta, avança, companheiro,
não desanimes nunca,
- e verás a verdade chegar
dentro da manhã
manhã geral de amor
que vai chegar.
- Thiago de Mello, em "Horóscopo para os que estão vivos", 1982.



Silêncio e palavra
I
A couraça das palavras
protege o nosso silêncio
e esconde aquilo que somos
Que importa falarmos tanto?
Apenas repetiremos.
Ademais, nem são palavras.
Sons vazios de mensagem,
são como a fria mortalha
do cotidiano morto.
Como pássaros cansados,
que não encontraram pouso
certamente tombarão.
Muitos verões se sucedem:
o tempo madura os frutos,
branqueia nossos cabelos.
Mas o homem noturno espera
a aurora da nossa boca.

II
Se mãos estranhas romperem
a veste que nos esconde,
Thiago de Mello - Foto: (...)
acharão uma verdade
em forma não revelável.
(E os homens têm olhos sujos,
não podem ver através.)
Mas um dia chegará
em que a oferenda dos deuses,
dada em forma de silêncio,
em palavra transfaremos.
E se porventura a dermos
ao mundo, tal como a flor
que se oferta – humilde e pura – ,
teremos então cumprido
a missão que é dada ao poeta.
E como são onda e mar,
seremos homem e palavra.
- Thiago de Mello, em "Silêncio e palavra", 1951.



Sonho domado
Sei que é preciso sonhar.

Campo sem orvalho, seca
A frente de quem não sonha.

Quem não sonha o azul do voo
perde seu poder de pássaro.

A realidade da relva
cresce em sonho no sereno
para não ser relva apenas,
mas a relva que se sonha.

Não vinga o sonho da folha
se não crescer incrustado
no sonho que se fez árvore.

Sonhar, mas sem deixar nunca
que o sol do sonho se arraste
pelas campinas do vento.

É sonhar, mas cavalgando
o sonho e inventando o chão
para o sonho florescer.
- Thiago de Mello, em "Mormaço na floresta", 1981.



Só sei cantar
Sou simplesmente um cantor.
Já disse que nada invento
nem produzo formatos diferentes.
Minha terra tem palmeiras
onde canta o sabiá.
Canto a luz da primavera,
canto a chuva da floresta,
canto a dor dos deserdados,
e a alvorada da justiça.
Canto o olhar da minha amada
e as pernas dela também.
Canto a plumagem celeste
do tucano que me acorda
e canto o peito encarnado
do rouxinol que chegou
dos altos do Rio Negro
para ver de perto o vôo
das pipiras azuladas.
(Alguns, da arte só pela arte,
me torcem a cara quando
canto em nome do meu povo
a aurora da liberdade.)
Canto o que suja e o que lava,
canto o que dói e o que abranda,
canto a rosa e seu espinho
e a cantiga de ciranda
que se faz de fogo e neve,
canto o amor, de novo canto,
só para aprender a amar.
Mas não canto o que bem quero
pelo gosto de cantar
que às vezes sabe a desgosto.
Canto o que a vida me pede,
imperiosa ou macia,
porque sabe que cantar
é um modo de repartir.
Sou poeta, só sei cantar.
- Thiago de Mello, em "De uma vez por todas", 1996.



Tercetos de amor
Só agora aprendi
que amar é ter e reter.
Foi quando te vi.

Vi quando a rosa se abriu.
Como a eternidade
pode ser tão fugaz?

Não sei quando é o mar,
ou se é o sol dos teus cabelos.
Tudo são funduras.

Na entressombra, o sabre
se estira na relva morna.
O nenúfar se abre.

Brilha um dorso: és tu.
Encontro no teu ventre
a explicação da luz.
- Thiago de Mello, em "Num campo de margaridas", 1986.



Toada de ternura
Thiago de Mello - Foto: (...)
Meu companheiro menino,
perante o azul do teu dia,
trago sagradas primícias
de um reino que vai se erguer
de claridão e alegria.

É um reino que estava perto,
de repente ficou longe:
não faz mal, vamos andando
porque lá é o nosso lugar.

Vamos remando, Leonardo,
porque é preciso chegar.
Teu remo ferindo a noite,
vai construindo a manhã.
Na proa do teu navio
chegaremos pelo mar.

Talvez cheguemos por terra,
na poeira do caminhão,
um doce rastro varando
as fomes da escuridão.
Não faz mal se vais dormindo,
porque teu sono é canção.

Vamos andando, Leonardo.
Tu vais de estrela na mão,
tu vais levando o pendão.
Tu vais plantando ternuras
na madrugada do chão.

Meu companheiro menino,
neste reino serás homem,
como o teu pai sabe ser.
Mas leva contigo a infância,
como uma rosa de flama
ardendo no coração:
porque é de infância, Leonardo,
que o mundo tem precisão.
- Thiago de Mello, em "Faz escuro mas eu canto", 1965.



Um menino chega ao mundo
Chegou ao mundo um menino
mais sozinho que a primeira
estrela que acende a noite.
Nenhum pano o envolvia.
Além, do suave fulgor;
trazia o condão da infância
que aos homens faz tanta falta.

Bois não rodeavam o menino.
Nem burros, Puro silêncio
orlava o claro mistério
de um coração sem pecado.

Os pastores da comarca
cuidavam na madrugada
dos seus rebanhos. Os anjos
que navegam no céu
ao trabalho se deram
de anunciar que um menino
chegava com um recado
ao tempo da eternidade.

Mais que rês, trezentos mil
magos são que hoje dominam
os sortilégios das mirras,
dos incensos e dos ouros.
Mas nenhum deles chegou
com oferenda à criança.

As estrelas que nos cobrem
já mal sabem de caminhos
que levem o homem à frágua
onde se forjam milagres.

Os homens fugiram todos.
Infância já infunde medo:
Aquele recém-chegado
reacendia brasas murchas
e recordava que cinzas
escondem constelações

O menino, atravessando
mordidas e escuridões
não achou sequer lugar
numa estalagem do mundo.
Aconchegada na rua,
perdida ficou a infância
por entre as gretas escusas
da indiferença dos homens.
- Thiago de Mello, em "Silêncio e palavra", 1951.



Volto armado de amor
para trabalhar cantando
na construção da manhã.
Anor dá tudo o que tem.
Reparto a minha esperança
e planto a clara certeza
da vida nova que vem.

Um dia, a cordilheira em fogo,
quase calaram para sempre
o meu coração de companheiro.
Mas atravessei o incêndio
e continuo a cantar.

Ganhei sofrendo a certeza
de que o mundo não é só meu.
Mais que viver, o que importa
(antes que a vida apodreça)
é trabalhar na mudança
de que é preciso mudar.

Cada um na sua vez,
cada qual no seu lugar.
- Thiago de Mello, em "Mormaço na floresta", 1981.

Thiago de Mello - foto: (...)

FORTUNA CRÍTICA
ALEIXO, Marcos Frederico Krüger. Introdução à Poesia no Amazonas: com apresentação de autores e textos. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 1992.
ALEIXO, Marcos Frederico Krüger. Poesia e poetas do Amazonas. 1ª ed., Manaus: Valer, 2006. v. 1. 326p.
CONY, Carlos Heitor. De uma vez por toda. Disponível no link. (acessado 18.8.2013).
COSTA JUNIOR, Waldemir Rodrigues. Geografia e Literatura: a "produção" de Manaus enquanto lugar vivido e percebido contada na obra de Thiago de Mello e Milton Hatoum. (Graduação em Geografia). Universidade Federal do Amazonas, UFAM, 2008.
DIAS, Edinea Mascarenhas. A ilusão do fausto: Manaus, 1890-1920. Manaus: Valer, 1999, 189p. 
Thiago de Mello - foto: (...)
FIGUEIREDO, José Maria Pinto de (Zemaria Pinto). Thiago de Mello, de uma vez por todas, agora. Disponível no link. (acessado 18.8.2013).
FIGUEIREDO, José Maria Pinto de (Zemaria Pinto). Thiago na luz de Thiago - 45 anos de ternura e poesia. Disponível no link. (acessado 18.8.2013).
FIGUEIREDO, José Maria Pinto de; MELLO, Thiago de. A poesia se encontra na floresta –[I -encontro amazônico de poetas da América Latina]. 1ª ed., Manaus: Editora Valer, 2001. v. 1. 380p.
FORTUNA, Felipe. Thiago de Mello: os enganos da utopia. Disponível no link. (acessado 18.8.2013).
LIMA, Pollyanna Furtado. Thiago de Mello: fortuna crítica (1951-1960).. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal do Amazonas, UFAM, 2012.
LIMA, Pollyanna Furtado; Vários.. Fundamentos para um estudo da fortuna crítica de Thiago de Mello. In: II Encontro de Estudos Literários da UEMS: Desafios da Teoria e da Crítica Literária no Final do Século XX e XXI, 2011, Campo Grande. Revista de Estudos Literários da UEMS. Campo Grande: UEMS, 2011. v. 1. p. 124-138.
MARQUES, Marcos Aurelio. Literatura e geografia: a poética do lugar em Thiago de Mello. (Dissertação Mestrado em Geografia). Universidade Federal de Rondônia, UNIR, 2010.
MARQUES, Marcos Aurelio. O caboclo e a floresta: a poética do lugar em Thiago de Mello. In: Maria Auxiliadora da Silva; Harlan Rodrigo Ferreira da Silva. (Org.). Geografia, literatura e arte: reflexões. 1ª ed., 2010, v. 1, p. 157-167.
MARQUES, Marcos Aurelio. Thiago de Mello: uma poética do lugar. 1ª ed., Manaus: Valer, 2012. v. 1. 140p.
MARQUES, Marcos Aurelio. Thiago de Mello: uma poética do lugar. In: II Encontro Nacional de Leituras, 2011, Humaitá. Literatura: vereda interdisciplinar e multicultural, 2011. v. 1. p. 136-146.
MOISÉS, Carlos Felipe. Canto do amor armado, Thiago de Mello (resenha). Colóquio. Letras, Lisboa, Portugal, v. 28, p. 88-89, 1975.
NASCIMENTO, Cássia Maria Bezerra do; MONTEIRO, Gilson Vieira.. Thiago de Mello na Mídia: poesia viva e insubmissa. II Conferência Sul-Americana e VII Conferência Brasileira de Mídia Cidadã - “Amazônia e o direito de comunicar”, Belém/PA, 17 a 22 de outubro de 2011. Disponível no link(acessado 18.8.2013).
Thiago de Mello - Foto: (...)
RAMOS, Conceição de Maria de Araujo. A dinâmica da água em Thiago de Mello e García Lorca: uma leitura fenomenológica. (Dissertação Mestrado em Letras Área de Concentração Literatura Brasileira). Universidade Federal de Alagoas, UFAL, 1994.
RAMOS, Conceição de Maria de Araujo. A poética da água: uma leitura fenomenológica de Thiago de Mello e de García Lorca. 1ª ed., Maceió: Catavento, 1999. v. 1000. 141p.
RAMOS, Conceição de Maria de Araujo. As imagens poéticas da água em Thiago de Mello e García Lorca. In: XVII Jornada de Estudos Linguísticos do Nordeste, 1999, Fortaleza. Programa e Resumos, 1999. p. 257.
RAMOS, Conceição de Maria de Araujo. Thiago de Mello: um rio de água-vida. Terras das Águas - revista de estudos amazônicos, Brasília, v. 1, n.2, p. 137-149, 1999.
REBELLO, Ivone da Silva. Selva Selvagem e Amazonas, pátria da água: uma aproximação intertextual entre José Casemiro Borges e Thiago de Mello.. In: Anais da 61ª Reunião Anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência). São Paulo: SBPC, 2009.
SANTOS, Gifrancisco. Uma poesia a serviço da vida. Musa rara - Literatura e adjacências, 2.11. 2012. Disponível no link. (acessado 18.8.2013).

 
Adélia Prado e Thiago de Mello - Foto: (...)

"O poeta Thiago de Mello toma tão de assalto seu lugar entre os melhores poetas do Brasil, que parece um salteador ou ladrão. Mas é simplesmente um poeta que fez o seu aprendizado em silêncio. Que guardou seus cadernos de caligrafia em vez de publicá-los. Que decidiu só aparecer com a letra já segura de um mestre."
- Gilberto Freyre



Thiago de Mello - Os estatutos do Homem


Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)
[A Carlos Heitor Cony]

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
Thiago de Mello - foto: (...)
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.
- Thiago de Mello (Santiago do Chile, abril de 1964)

 
Thiago de Mello e Gilberto Gil - Foto Zanone Fraissat/folhapress.
“A candente autenticidade de seus versos decorre, além do mais, da firme coerência que existe entre a obra e o modo de ser do poeta. Não se fechando em gabinetes, ele se põe por inteiro nessa luta em busca da justiça e da dignidade, e tem pago duro preço por isso, inclusive detenções arbitrárias e o amargor do exílio."
- Ênio Silveira

Thiago de Mello, Rita Alves e Antonio Cândido - Foto: (...)

“Imenso, em sua ternura vestida de branco, o poeta passeia por entre a bruma da memória. E não tropeça, e não vacila, porque esse é o caminho que ele trilha, com seu andar cambaio de caboclo suburucu, desde sempre.”
- Zé Maria (José Maria Pinto de Figueiredo), poeta e professor de literatura da UFAM.


Ferreira Gullar e Thiago de Mello
Foto: Renata Jubran


Flor de açucena
Quando acariciei o teu dorso,
campo de trigo dourado,
minha mão ficou pequena
como uma flor de açucena
que delicada desmaia
sob o peso do orvalho.
Mas meu coração cresceu
e cantou como um menino
deslumbrado pelo brilho
estrelado dos teus olhos.
- Thiago de Mello (Porantim, 1992).

Thiago de Mello - Foto: (...)
CASA THIAGO DE MELLO
"Numa como que volta às origens, dei o risco da casa que, em Barreirinha, no coração da Amazônia, o poeta nativo constrói com zelo e amor." 

- Lucio Costa
Projeto Lucio Costa  - 1978
Localização: Barreirinha, Amazonas. 
A cobertura, inicialmente prevista de palha, foi feita de telha. Projeto publicado no livro “Lucio Costa: registro de uma vivência” (pg. 20 e 229). A casa pertence até hoje a Thiago de Mello, que mais tarde solicitou a Lucio Costa projeto para edificação complementar no mesmo terreno, para abrigar sua biblioteca e local de trabalho.
Casa do poeta Thiago de Mello, projeto Lucio Costa, 1978
 (Foto: Acervo Lucio Costa - 1982)

Maquete da Casa Thiago de Mello, projeto Lucio Costa


Epitáfio
O canto desse menino
talvez tenha sido em vão.
Mas ele fez o que pôde.
Fez sobretudo o que sempre
lhe mandava o coração.
- Thiago de Mello, em "Faz escuro mas eu canto", 1966.


Thiago de Mello - Foto: (...)
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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Thiago de Mello - o poeta da floresta. Templo Cultural Delfos, agosto/2013. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 11.1.2016.



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Um comentário:

  1. Gostaria de ter acesso ao poema Ritmo da Terra. Não consegui localizá-lo neste e em outros sites que fazem menção ao autor. Alguém pode indicar outra fonte? Obrigada!

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