Charles Kiefer - entrevistado por Carlos André Moreira

Charles Kiefer - foto: Genaro Joner
Charles Kiefer discute sua obra e fala sobre o porquê de ter assumido a função de retratar o minifúndio alemão no RS.

Kiefer é ministrante de uma das oficinas literárias mais tradicionais do Estado do RS, ele já transitou por romance, novela, conto, poesia, crônica e teoria literária. 

Durante a entrevista, realizada ao longo de uma manhã em sua residência, no bairro Independência, em Porto Alegre, Kiefer revisitou seus temas, explicou como decidiu retratar em seu livro o decadente mundo agrário do colono alemão do interior do Estado, revisitou episódios do passado e foi bastante franco em relação a seus temas, a afetos, desafetos e interesses. Ele também apresentou o nome do novo romance no qual vem trabalhando, Dia de Matar Porco, história que revisita o mito freudiano da morte do pai e cujo cenário é outra vez a zona rural de colonização alemã no Rio Grande do Sul. Leia a seguir a entrevista:

Carlos – As informações oficiais sobre sua bibliografia dizem que sua estreia é Caminhando na Chuva, de 1982, mas o senhor publicou três livros antes, O Lírio do Vale (1977) Caminhantes Malditos e Vozes Negras(ambos de 1978). Por que não aparecem mais?

Charles Kiefer – Eu os excluí. São muito ruins. Aqueles três livros foram escritos sob o império da emoção, para usar uma figura clichê. Escrevi aquilo sem nenhuma técnica. Publiquei o primeiro livro com 17 anos e os outros dois um ano depois. Eu estava completamente imaturo, verdinho, e fiz aquilo no wishful thinking, como dizem os americanos, no puro desejo, sem conhecer nada de teoria da literatura, da vida literária, morando lá no campo, no mato, em Três de Maio, um coloninho de origem alemã metido a arrogante e a escritor. Passei os cinco anos seguintes fazendo uma revisão geral na minha cabeça. Entre outros motivos, porque vim a Porto Alegre e consegui um emprego na editora Mercado Aberto, com o Roque Jacoby, atual secretário de Cultura de Porto Alegre. E conheci pessoalmente lá a Regina Zilberman, o Antonio Hohlfeldt, o José Hildebrando Dacanal, que foi uma pessoa muito importante na minha vida, gosto muito dele, embora hoje ele esteja de mal comigo. Se ele quiser fazer as pazes aqui, publicamente, pelo jornal, eu gostaria. Fechando o parêntese, foi extremamente importante para mim o convívio com aquilo que a gente chama de conselho editorial. Porque eu era secretário e eles eram o conselho. Tem gente que me odeia, acha que eu recusei seus livros, até o João Gilberto Noll acha que eu recusei um livro dele, mas foi o conselho, eu era apenas um estafeta que assinava a carta de devolução dos originais, porque o conselho editorial não queria botar a cara para bater. Então arrumei inimigo por tudo que é lugar aquela época, e alguns se mantêm pouco amigos até hoje.

Carlos – E o que especificamente isso mudou em sua concepção?

Kiefer - Era aí que eu ia chegar. Trabalhando naquele conselho editorial, acompanhando as reuniões, redigindo os pareceres, eu comecei a ler literatura, a estudar literatura e a conversar com eles, eles me indicavam bibliografia, o Sérgius Gonzaga também participou desse processo. Então, a minha oficina literária, já que hoje eu sou especialista nisso, foi muito particular, dentro da editora Mercado Aberto. Nesse processo de aperfeiçoamento, eu olhei para trás e pensei: "bá, mas esses três livros não merecem ser reeditados".

Carlos – O senhor escolhe uma novela de formação para assinalar essa mutação. É um livro no qual o próprio autor está se formando? Foi uma decisão consciente na época?

Kiefer – Foi consciente. Inspirado no Goethe, no sturm und drang, nos Sofrimentos do Jovem Werther, no movimento romântico que Goethe e mais alguns colegas começaram na Universidade de Jena. Eu já havia lido muito o que a literatura alemã chama de Bildungsroman, o romance de formação, e sempre quis fazer, mas considerava que não tinha linguagem para isso. E aí tem outro divisor de águas. Li no Suplemento Literário de Minas Gerais uma notinha de rodapé em que alguém dizia que Dalton Trevisan e Rubem Fonseca, autores que eu lia muito, tinham como livro de cabeceira O Apanhador no Campo de Centeio. Eu nunca tinha ouvido falar do livro. Fui atrás, e aí, da leitura do Salinger, da história do Holden Caulfield, nasce o Caminhando na Chuva. O meu Túlio Schüster é um Holden Caulfield pampiano.

Carlos – O Túlio de Caminhando na Chuva é um aspirante a intelectual, que tem como modelo um amigo mais velho, que se mostra primeiramente fascinante e depois revela-se com as limitações próprias de um pensador provinciano. Era uma reflexão sua sobre seu lugar naquele momento?

Kiefer - Um intelectual de província era o que eu era naquele momento. É sim uma reflexão sobre o meu lugar e o próprio lugar do Brasil. Estávamos saindo da ditadura, fiz parte disso que a gente chama de geração amordaçada. É uma geração sem voz que, naquele momento de abertura política, resolve escrever.

Carlos – Os livros seguintes, O Pêndulo do Relógio e A Dentadura Postiça, têm uma linguagem bem mais crispada e seca. Por quê?

Kiefer – Eu já escrevia no estilo que aparece nesses livros. Mas o Caminhando na Chuva, no fundo, no fundo, foi escrito pensando naquela coleção Novelas que a Mercado Aberto publicava. Nas reuniões que eu frequentava, ouvia eles comentarem que faltava naquela série uma novela que conversasse com o adolescente. Quando eu vou para casa e me dou conta que sou aquele jovem que está deixando de ser adolescente, em condições estilísticas de fazer isso, eu me sento e escrevo do ponto de vista de um adolescente.

Carlos – O Pêndulo do Relógio é protagonizado por Alfredo Müller, um agricultor que, premido por dívidas, se mata enforcado. Ele se torna um pêndulo oscilante no mesmo momento em que o pêndulo do relógio para. Essa substituição do pêndulo mecânico pelo humano simboliza a mecanização do campo?

Kiefer – Sim. Eu havia aprendido com o Edgar Allan Poe que uma boa alegoria tem no mínimo duas camadas. Uma para o leitor mais ingênuo e uma mais aprofundada. Eu tentei, na medida que pude, fazer isso no Pêndulo. As camadas alegóricas ali são as seguintes: assim como o pêndulo parando representa a chegada do relógio digital, a morte do Alfredo representa a parada na história do Rio Grande do Sul daquele modelo patriarcal, agrário, minifundiário representado pela enxada e pelo ancinho. Está chegando a modernização da agricultura. E em outro nível ele também alegoriza a ideia de que para que o desenvolvimento econômico do campo venha, é preciso acabar com os "Alfredos Müllers". Porque o minifúndio atravanca a expansão do agrobusiness. Essa pequena terra tem de ser entregue para o banco, que vai vender em leilão para um grande proprietário de terras, e aquelas terras vão ficar de extensão para que a maquinização possa operar.


Charles Kiefer - foto: (...)
Carlos – Depois de Caminhando na Chuva, uma história urbana, o senhor inaugura uma fase na qual volta recorrentemente à questão do pequeno agricultor de origem alemã no interior do Estado. Em que momento o senhor descobre esse tema como seu?
Kiefer – Foi um processo de leitura. Descobri que esse era o meu tema lendo Erico Verissimo. Em uma cena de O Tempo e o Vento, em uma festa no Sobrado, alguém comenta, olhando para o salão, que não está ali nenhum representante dos pequenos colonos alemães. Aí pensei: "Ah, tá aí, essa é a minha festa". Isso foi naqueles meses de interregno entre Caminhando na Chuva e O Pêndulo... É aí que eu descubro que eu poderia explorar o tema do minifúndio alemão no Alto Uruguai. Porque o Vale do Taquari já estava mapeado pelo Josué Guimarães. A região de Cachoeira, Santa Cruz do Sul, a Lya Luft já tinha tomado posse. O que sobrava para mim? O Alto Uruguai, minha terra. Isso aprendi com o Dacanal, que me indicou as leituras certas. Entre elas, Arnold Hauser, com quem aprendi que esses mundos em decomposição e destruição precisam ser representados no momento da queda, para serem preservados esteticamente. E o que estava em decadência naquele momento era o minifúndio alemão.

Carlos – Na época do lançamento de Valsa para Bruno Stein, Geraldo Galvão Ferraz chegou a comentar que o senhor finalmente havia se alongado ao tamanho que a história pedia, enquanto nos livros anteriores ela "sufocava nos limites das magras páginas". Concorda?

Kiefer – Concordo. E se fosse refazer Valsa... hoje, ele teria o dobro de páginas. Reescrevi partes da nova edição que saiu pela Record, mas optei por não refazer tudo para não descaracterizar, porque acho meio sacana com os leitores, o cara vai numa livraria e compra a edição antiga em vez da nova... Se eu tivesse condições, e não tenho, porque esse livro vendeu mais de 45 mil exemplares, teria recuperado toda a edição, destruído e lançado uma nova. O engraçado é que o meu novo romance, Dia de Matar Porco, que é a mesma temática, terá um terço do número de páginas do Valsa.... Acho que eu e o Assis Brasil, ambos, caminhamos em direção a uma síntese maior.

Carlos – Mas O Pêndulo do Relógio e A Dentadura Postiça são já sintéticos. Sua obra parece distender a prosa depois do Valsa... O senhor passa a escrever frases mais longas, a usar a imagética ligada à natureza. O que houve?

Kiefer – No início eu tinha muita influência do Arnaldo Campos e do Laury Maciel, meus amigos. Eu era jovem e fui influenciado pelo realismo que eles defendiam como escola, e ao qual eu em um primeiro momento me filiei. O Pêndulo do Relógio é um livro extremamente realista, é quase real-naturalista. Depois, percebi que aquilo era uma pobreza, restringir o verbo por conta de uma escola, me libertei um pouco da escolástica.

Carlos – Bruno Stein é um homem ligado à terra. Mas quando começa a lidar com a terra para fazer esculturas, em vez de tijolos em uma olaria, como se espera de um colono, os outros começam a pensar que ele está ficando maluco. É uma imagem do lugar do artista nessas pequenas comunidades?

Kiefer – Sim. E o segredo talvez esteja em uma frase que o personagem diz na cena do almoço – e que o Walmor Chagas diz super bem na adaptação cinematográfica: "ao ser criada, a criatura cria o criador". Essa é a dialética que tu apontas. A mesma terra que serve para alimentar serve para fazer arte. E esse estranhamento artístico está ligado a outra questão em que sempre pensei muito. Meu pai era músico, foi cantor de rádio. Minha mãe também era artista, mas eram, ambos, colonos, e viveram em um tempo em que isso não era um modo de vida, era uma ilusão, um devaneio. Eles tiveram de ser "trabalhadores-artistas", que é o que eu também sou: um professor que escreve.

Carlos – Bruno Stein parece o único personagem de sua primeira fase perfeitamente tridimensional, um personagem de fato, e não um tipo ou uma alegoria. O senhor concorda?

Kiefer – Isso é porque Bruno Stein foi o único verdadeiro romance que eu escrevi. Os demais são novelas. É um problema conceitual brasileiro que a teoria literária tem dificuldade de lidar.

Carlos – Mas A Face do Abismo é um romance, também, por exemplo.

Kiefer – A Face do Abismo é um romance fragmentado, na verdade são três romances em um. Mas aquilo que a gente chamaria de romance clássico, com urdidura de romance, é Valsa para Bruno Stein. O Pêndulo do Relógio é novela, Quem Faz Gemer a Terra é novela, Os Ossos da Noiva é novela. A Face do Abismo é um romance, mas, na minha ótica, com problemas de estrutura que eu estou reescrevendo e pretendo resolver. É um livro que provavelmente vou ampliar bastante.

Carlos – Mas e como fica o risco que o senhor mencionou de ter duas obras diversas? O senhor já tem usado o recurso de corrigir.

Kiefer – Mas com parcimônia. Se eu reescrever completamente o ...Face do Abismo, como pretendo, ele mudará até de nome. Eu o darei como inédito. Vou excluir a encarnação antiga da minha bibliografia e o substituirei por esse novo. Ainda não sei como vou fazer isso, mas pretendo. A influência do Faulkner é muito grande no Face do Abismo, ele é muito verborrágico. Aquelas passagens da mãe, da velha... Tem de reescrever.

Carlos – A partir de um dado momento, o senhor se volta para a violência e a crueldade, lançando mão até do grotesco, como em Os Ossos da Noiva, em que se esmagam os ossos do cadáver da protagonista, como no conto de Logo tu Repousarás Também em que soldados jogam futebol com a cabeça de um morto. Essa crueldade na obra é sintoma de alguma mudança de visão do mundo?

Kiefer - No sentido geral, não. O que eu tento alegorizar aí é a violência da civilização, do processo civilizatório. E nesse sentido, eu, que sou professor, acho uma piada o que se faz no Rio Grande do Sul e se quer fazer no Brasil, que é educação sem repressão. Não. Educação sem violência simbólica não existe. Nem em casa, na família, na escola, em lugar nenhum. Nem na sociedade. Então essa violência que aparece e que pegaste muito bem é isso. A chegada na cidade vai me mostrar que na cidade vencem os mais fortes. Que a selva da cidade é muito pior que a selva do campo. Como ética e esteticamente eu acho que escritor precisa tratar de temas socialmente importantes, fiz essa opção, porque uma das coisas mais aparentes na sociedade brasileira é a violência. O (Luis Augusto) Fischer uma vez disse em um texto que "O Escorpião da Sexta-Feira é um livro demoníaco". É, até pode se considerar assim no sentido de que a violência simbólica, social, familiar, a violência pessoal, se a gente apelar para o campo religioso, seria uma expressão do "outro lado". Mas não sei se o livro é maniqueísta para ser chamado assim.

Carlos – Esse livro é uma redescoberta da cidade real? O senhor, antes, tinha a representação fictícia concentrada em um espaço que o senhor senhor inventou e controlava. Em O Escorpião... o retrato já é dos cenários reais do período, da noite de Porto Alegre, sua boemia, seus espaços de transgressão.

Kiefer – Sim, é. E observa que quase todos aqueles espaços representados na obra estão desaparecendo. O Garagem Hermética já desapareceu. Um clube que tinha ali na Cristóvão Colombo também, foi destruído, o Dante. O Cláudio, um aluno meu, que criou aquele lugar, que no livro eu chamo de O Inferno de Dante, porque ali está representado o caminho para o inferno feito pelo próprio personagem, que vai caçar as mulheres naquele bar.

Carlos – Suas primeiras novelas são realistas. No entanto, estão situadas no espaço da fictícia Pau d'Arco. Foi um prurido de usar Três de Maio ou Santa Rosa? Foi um ato de proteção?

Kiefer – Isso e mais. Foi um ato literário. A Yoknapathawpha do Faulkner me influenciou muito literariamente. E a Santa Fé do Erico. Quer dizer, lá naquela cabeça de guri de interior que eu tinha nos primeiros livros, o escritor inventa uma cidade e situa seus personagens nesse espaço que ele criou e não terá problemas com família, com amigos, etc... É, é isso. E resolvi homenagear uma árvore que havia muito na minha região e que hoje praticamente não existe mais, que é o Ipê Roxo. Pau d'Arco é o Ipê Roxo.

Carlos – O senhor é um escritor de esquerda com formação socialista. Mas o misticismo foi ganhando lugar em sua obra nos últimos anos, com a presença do sobrenatural. Por quê?

Kiefer – Vou te dizer uma coisa. É a primeira vez que eu vou fazer isso, vou abrir umsod, um segredo, em hebraico. Há anos eu sou estudante da Cabala. Sou cabalista e sou líder de um grupo de estudos. Esse lado místico é muito importante na minha vida, mas nunca declarei isso, estou abrindo isto publicamente pela primeira vez. Vem daí.


Charles Kiefer - foto: Genaro Joner
Carlos – Isso explicaria sua guinada para o fantástico, em livros como Nós que Inventamos a Eternidade?
Kiefer – Eu não misturo as coisas. Observa que o meu fantástico é rigorosamente fantástico segundo o Tzvetan Todorov: o fantástico não é o mágico, é diferente, é o espaço da dúvida. No instante em que o leitor ou o personagem tiverem certeza, acabou o fantástico. Tem um interstício entre a fantasia e a realidade e ali há uma camada muito tênue, onde acontece o fantástico. Se alguma coisa foi explicada, deixou de ser fantástico. O fantástico é uma dúvida.

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:: Entrevista publicada originalmente no jornal Zero Hora, 24 de maio de 2013 - por Carlos André Moreira.



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Página atualizada em 11.3.2014.



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