Álvares de Azevedo - o poeta da Lira dos vinte anos

Álvares de Azevedo
Manuel Antônio Álvares de Azevedo (São Paulo SP, 12 de setembro de 1831 - Rio de Janeiro RJ, 25 de abril de 1852). Poeta, contista e dramaturgo. Filho de Inácio Manuel Álvares de Azevedo e Maria Luísa Mota Azevedo. Com 2 anos, encontra-se instalado com a família no Rio de Janeiro, onde passa a infância. Inicia os estudos num colégio de Niterói, Rio de Janeiro, onde é tido como incapaz para a aprendizagem. Transfere-se então, em 1840, para o colégio do professor Stoll, no Rio de Janeiro, destacando-se em todas as matérias, menos ginástica. Em 1847, aluno do poeta Gonçalves de Magalhães (1811 - 1882), torna-se bacharel em letras no Colégio Pedro II. No ano seguinte, muda-se para São Paulo e matricula-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e forma, com o poeta Aureliano Lessa (1828 - 1861) e o romancista Bernardo Guimarães (1825 - 1884), a Sociedade Epicuréia, que escandaliza a cidade com suas histórias, verídicas ou não, de orgias e cultos a satã. É dessa época toda a sua produção, englobando os poemas, os contos de A Noite na Taverna, o drama Macário, suas traduções e ensaios literários. Por conta de seus outros interesses, abandona o curso de Direito. Em 1852, tuberculoso, ao passear a cavalo durante as férias pelas ruas do Rio de Janeiro, sofre uma queda, que resulta em tumor na fossa ilíaca. Sofrendo dores terríveis, é operado, sem anestesia, segundo familiares, e não resiste à cirurgia. Embora toda a sua obra tenha sido publicada postumamente (incluindo a Lira dos Vinte Anos, única preparada em vida), Álvares de Azevedo é um dos nomes mais representativos da chamada segunda geração do romantismo brasileiro. Seus poemas, influenciados pelos poetas Lord Byron (1788 - 1824) e Alfred Musset (1810 - 1857), tematizam a morte e o amor, freqüentemente idealizados. É patrono da cadeira número 2 da Academia Brasileira de Letras - ABL.

"O espírito é variável como o vento...
Mais coerente é o corpo, e mais discreto.
Mudaste muita vez de pensamento,
Mas nunca de teu vinho predileto..."
- Álvares de Azevedo, no livro Macário.



Se Eu Morresse Amanhã, recitado por Paulo Autran


"Não há melhor túmulo para a dor do que uma taça cheia de vinho ou uns olhos negros cheios de languidez."
- Álvares de Azevedo, no livro “Macário”.


CRONOLOGIA DE VIDA E OBRA DE ÁLVARES DE AZEVEDO
Álvares de Azevedo
1831 - Nasce Álvares de Azevedo em São Paulo, no dia 12 de setembro. Filho de Inácio Manuel Álvares de Azevedo e Maria Luísa Mota Azevedo.
1833 - A família muda-se para o Rio de Janeiro.
1835 - Morre um irmão mais novo.
1837 - É matriculado num colégio em Niterói, Rio de Janeiro, onde é declarado incapaz para aprendizagem.
1840 - Começa a estudar no colégio do professor Stoll e impressiona o diretor com sua inteligência.
1841 - Dedica-se ao desenho e à leitura; fala francês, inglês e latim.
1844 - Vai para São Paulo com um tio que trabalha na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco e presta exames de admissão na instituição; entretanto, é recusada sua matrícula, por não ter idade suficiente.
1845 - Volta para o Rio de Janeiro e estuda no internato do Colégio Pedro II.
1846 - Tem aulas com o poeta Gonçalves de Magalhães (1811 - 1882); recebe menção honrosa na conclusão do ano letivo.
1847 - Termina o curso, recebendo o grau de bacharel em letras.
1848 - Volta para São Paulo e matricula-se na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Torna-se amigo do poeta Aureliano Lessa (1828 - 1861) e do romancista Bernardo Guimarães (1825 - 1884), com os quais divide moradia e funda a Sociedade Epicuréia, que causa escândalos na época, por suas supostas orgias e culto a satã.
1849 - É escolhido orador da comemoração do aniversário de criação dos cursos jurídicos no Brasil. Seu discurso é publicado pela Tipografia Americana.
1850 - Sua produção literária se intensifica. O suicídio de um colega de curso o deixa abalado
1851 - Impressionado com a morte de outro colega, escreve a uma irmã sobre o pressentimento de que não completaria mais um ano de vida.
1852 - Após complicações advindas de uma queda de cavalo, no município de Itaboraí, no trajeto de Visconde para Porto das Caixas. Cria-se um tumor na fossa ilíaca que tentou ser retirado segundo alguns biólogos sem anestesia, a ferida infecciona e após 40 dias de febre alta falece, às 17 horas, do dia 25 de abril, no Rio de Janeiro em casa. É enterrado no dia seguinte, num cemitério na praia vermelha na zona sul do Rio de Janeiro que mais tarde viria a ser destruído pelo mar em ressaca. Segundo biógrafos seu cachorro teria encontrado seus restos mortais. Hoje está sepultado no Cemitério São João Batista, num jazigo perpétuo da família em uma elevação de terreno sem número (Pois foi o primeiro túmulo do cemitério inaugurado em 1854), no Rio de Janeiro.


"Sinto no meu coração uma
necessidade de amar, de dar a
uma criatura este amor que me bate no
peito. Mas ainda não encontrei uma
mulher - uma só - por quem eu pudesse
bater de amores."
- carta a Luiz; Obras de Manuel Antônio Alvares de Azevedo - Tomo I, página 35; Publicado por Livraria de B. L. Garnier, 1862.


OBRAS DE ÁLVARES DE AZEVEDO - PRIMEIRAS EDIÇÕES
Álvares de Azevedo ...
Devido a sua morte prematura, todos os trabalhos de Álvares de Azevedo foram publicados postumamente.
Poesia
Lira dos Vinte Anos [única obra preparada para publicação pelo autor] e poesias diversas. [antologia poética], 1853.
O Conde Lopo: poema. [poema épico que resta apenas em fragmentos hoje], (inédito)1886.
O poema do frade: com uma noticia biographica do auctor. 1890.

Contos
Noite na Taverna: contos phantasticos. (18-?), 1878.

Peça de Teatro
Macário. 1855.

Obras completas
Obras. Vol. I. 1853
Obras. Vol. II. [inclui os contos de A Noite na Taverna], 1855.
Obras. Vol. I. (2ª edição). [Acrescentada com as obras inéditas, e um apêndice contendo discursos, poesias e artigos feitos à ocasião da morte do autor], 1862.
Obras. Vol. II. (2ª edição). [Acrescentada com as obras inéditas, e um apêndice contendo discursos, poesias e artigos feitos à ocasião da morte do autor], 1862.
Obras. [inclui O Conde Lopo], 1866.
Obras Completas. [inclui poemas inéditos e o drama Macário], 1941.
Melhores Poemas. (org.). CÂNDIDO, Antônio. 1985.

Discurso
Discurso. 1849.

Carta
Cartas de Álvares de Azevedo. 1976.

Traduções de Álvares de Azevedo para português
Parisina. [Poema], de Lorde Byron
Otelo. [quinto ato], de William Shakespeare.


"...A vida é um escárnio sem sentido. Comédia infame que ensangüenta o lodo..."
- Álvares de Azevedo, em "Glória Moribunda".



Álvares de Azevedo, por Nilo
CRÍTICA FEITA POR MANOEL NEVES
“Lira dos Vinte Anos, único texto que o poeta preparou para a publicação, foi editado postumamente, em 1853, apresente claramente duas faces: a primeira e a terceira partes mostram um Álvares de Azevedo suave, ingênuo, sentimental, elegíaco. É o que Antonio Candido chamou de a face de Ariel. A segunda parte mostra um poeta macabro, satírico e sarcástico, constituindo o que o citado critico chama de a face de Caliban. Nela, uma veia humorística submete as próprias obsessões do romantismo brasileiro a desmistificação prosaicas, num exemplo nacional de ironia romântica. O poeta sensível e recatado da primeira parte dá lugar a um poeta cínico e irreverente, que desfaz o mundo de sonhos e fantasias das outras partes da obra. Essas duas facetas da poética de Álvares de Azevedo exprimem os dois modos fundamentais que o poeta romântico alemão Schiller apontou como espécies da poesia sentimental moderna: o patético e o satírico. Ao primeiro, cabe avocar o real distante; e, ao segundo, agredir o real presente.”


"Todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade da bela mulher a quem amamos."
- Álvares de Azevedo, em "Poemas Malditos".


POEMAS ESCOLHIDOS DE ÁLVARES DE AZEVEDO
A T...
No amor basta uma noite para fazer de um homem um Deus.
PROPÉRCIO

Amoroso palor meu rosto inunda,
Mórbida languidez me banha os olhos,
Ardem sem sono as pálpebras doridas,
Convulsivo tremor meu corpo vibra:
Quanto sofro por ti! Nas longas noites
Adoeço de amor e de desejo
E nos meus sonhos desmaiando passa
A imagem voluptosa da ventura...
Eu sinto-a de paixão encher a brisa,
Embalsamar a noite e o céu sem nuvens,
E ela mesma suave descorando
Os alvacentos véus soltar do colo,
Cheirosas flores desparzir sorrindo
Da mágica cintura.
Sinto na fronte pétalas de flores,
Sinto-as nos lábios e de amor suspiro.
Mas flores e perfumes embriagam,
E no fogo da febre, e em meu delírio
Embebem na minh'alma enamorada
Delicioso veneno.

Estrela de mistério, em tua fronte
Os céus revela, e mostra-me na terra,
Como um anjo que dorme, a tua imagem
E teus encantos onde amor estende
Nessa morena tez a cor de rosa
Meu amor, minha vida, eu sofro tanto!
O fogo de teus olhos me fascina,
O languor de teus olhos me enlanguesce,
Cada suspiro que te abala o seio
Vem no meu peito enlouquecer minh'alma!

Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh'alma à tua!
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo
Na tua alma infantil; na tua fronte
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros
Sentir as virações do paraíso;
E a teus pés, de joelhos, crer ainda
Que não mente o amor que um anjo inspira,
Que eu posso na tua alma ser ditoso,
Beijar-te nos cabelos soluçando
E no teu seio ser feliz morrendo!
- Dezembro, 1851. Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte./ GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1.


Anjos do Mar
As ondas são anjos que dormem no mar,
Que tremem, palpitam, banhados de luz...
São anjos que dormem, a rir e sonhar
E em leito d'escuma revolvem-se nus!

E quando de noite vem pálida a lua
Seus raios incertos tremer, pratear,
E a trança luzente da nuvem flutua,
As ondas são anjos que dormem no mar!

Que dormem, que sonham - e o vento dos céus
Vem tépido à noite nos seios beijar!
São meigos anjinhos, são filhos de Deus,
Que ao fresco se embalam do seio do mar!

E quando nas águas os ventos suspiram,
São puros fervores de ventos e mar:
São beijos que queimam... e as noites deliram,
E os pobres anjinhos estão a chorar!

Ai! quando tu sentes dos mares na flor
Os ventos e vagas gemer, palpitar,
Porque não consentes, num beijo de amor,
Que eu diga-te os sonhos dos anjos do mar!

I
Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!

II
Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!

III
Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!

IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!

V
Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!

VI
Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!
- Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1.


Esperanças
Oh! si elle m’eût aimé...
ALFRED DE VIGNY, Chatterton

Se a ilusão de minh’alma foi mentida
E, leviana, da árvore da vida,
As flores desbotei...
Se por sonhos do amor de uma donzela
Imolei meu porvir e o ser por ela
Em prantos esgotei...

Se a alma consumi na dor que mata
E banhei de uma lágrima insensata
A última esperança,
Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como dos mares pela noite infinda
A estrela da bonança!

Como nas folhas do Missal do templo
Os mistérios de Deus em ti contemplo
E na tu’alma os sinto! 39
Às vezes, delirante, se eu maldigo
As esperanças que sonhei contigo,
Perdoa-me, que minto!

Oh! não me odeies, não! eu te amo ainda,
Como do peito a aspiração infinda
Que me influi o viver...
E como a nuvem de azulado incenso...
Como eu amo esse afeto único, imenso
Que me fará morrer!

Rompeste a alva túnica luzente
Que eu doirava por ti de amor demente
E aromei de abusões...
Deste-me em troco lágrimas aspérrimas...
Ah! que morreram a sangrar misérrimas
As minhas ilusões!

Nos encantos das fadas da ventura
Podes dormir ao sol da formosura
Sempre bela e feliz!
Irmã dos anjos, sonharei contigo:
A alma a quem negaste o último abrigo
Chora... não te maldiz!

Chora e sonha e espera: a negra sina
Talvez no céu se apague em purpurina
Alvorada de amor...
E eu acorde no céu num teu abraço
E repouse tremendo em teu regaço
Teu pobre sonhador!
- AZEVEDO, Álvares de. "Lira dos Vinte Anos". São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Coleção Poetas do Brasil).


Idéias Íntimas
(Fragmento)
La chaise ou je m'assieds, la natte ou je me couche,
La table ou je t'écris,
....................................................
Mes gros souliers ferrés, mon bâton, mon chapeau,
Mes livres pêle-mêle entassés sur leur planche
....................................................
De cet espace étroit sont tout l'ameublement.
LAMARTINE. Jocelyn.

I
Ossian o bardo é triste como a sombra
Que seus cantos povoa. O Lamartine
E' monótono e belo como a noite,
Como a lua no mar e o som da ondas...
Mas pranteia uma eterna monodia,
Tem na lira do gênio uma só corda,
Fibra de amor e Deus que um sopro agita:
Se desmaia de amor a Deus se volta,
Se pranteia por Deus de amor suspira.
Basta de Shakespeare. Vem tu agora,
Fantástico alemão, poeta ardente
Que ilumina o clarão das gotas pálidas
Do nobre Johannisberg! Nos teus romances
Meu coração deleita-se... Contudo
Parece-me que vou perdendo o gosto,
Vou ficando blasé, passeio os dias
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem poetar. Vivo fumando.
Minha casa não tem menores névoas
Que as deste céu d'inverno.... Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos;
Dei-me agora ao charuto em corpo e alma;
Debalde ali de um canto um beijo implora,
Como a beleza que o Sultão despreza,
Meu cachimbo alemão abandonado!
Não passeio a cavalo e não namoro;
Odeio o lasquenet... Palavra d'honra!
Se asim me continuam por dois meses
Os diabos azuis nos frouxos membros,
Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

II
Enchi o meu salão de mil figuras.
Aqui voa um cavalo no galope,
Um roxo dominó as costas volta
A um cavaleiro de alemães bigodes,
Um preto beberrão sobre uma pipa,
Aos grossos beiços a garrafa aperta...
Ao longo das paredes se derramam
Extintas inscrições de versos mortos,
E mortos ao nascer... Ali na alcova
Em águas negras se levanta a ilha
Romântica, sombria à flor das ondas
De um rio que se perde na floresta...
Um sonho de mancebo e de poeta,
El-Dorado de amor que a mente cria
Como um Édem de noites deleitosas...
Era ali que eu podia no silêncio
Junto de um anjo... Além o romantismo!
Borra adiante folgaz caricatura
Com tinta de escrever e pó vermelho
A gorda face, o volumoso abdômen,
E a grossa penca do nariz purpúreo
Do alegre vendilhão entre botelhas
Metido num tonel... Na minha cômoda
Meio encetado o copo inda verbera
As águas d'ouro do Cognac fogoso.
Negreja ao pé narcótica botelha
Que da essência de flores de laranja
Guarda o licor que nectariza os nervos.
Ali mistura-se o charuto Havano
Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo.
A mesa escura cambaleia ao peso
Do titânio Digesto, e ao lado dele
Childe-Harold entreaberto ou Lamartine
Mostra que o romantismo se descuida
E que a poesia sobrenada sempre
Ao pesadelo clássico do estudo.
(...)
- Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1.  [Nota: Poema composto de 14 partes].


Cantiga de viola
A existência dolorida
Cansa em meu peito: eu bem sei
Que morrerei...
Contudo da minha vida
Podia alentar-se a flor
No teu amor!

Do coração nos refolhos
Solta um ai! num teu suspiro
Eu respiro...
Mas fita ao menos teus olhos
Sobre os meus... eu quero-os ver
Para morrer!

Guarda contigo a viola
onde teus olhos cantei...
E suspirei!
Só a idéia me consola
Que morro como vivi...
Morro por ti!

Se um dia tu’alma pura
Tiver saudades de mim,
Meu serafim!
Talvez notas de ternura
Inspirem o doudo amor
Do trovador!
- AZEVEDO, Álvares de. "Lira dos Vinte Anos". São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Coleção Poetas do Brasil).


Na Minha Terra
Laisse-toi donc aimer! Oh! l'amour c'est la vie.
C'est tout ce qu'on regrette et tout ce qu'on envie,
Quand on voit sa jeunesse au couchant décliner.
.....................................................
La beauté c'est le front, l'amour c'est la couronne,
Laisse-toi couronner!
V. HUGO.

I
Amo o vento da noite sussurrante
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;

E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;

A restinga d'areia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;

E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;

E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
As estrelas do céu.

II
Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;

Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!

Sonho da vida que doirou e azula
A fada dos amores,
Onde a mangueira ao vento tremula
Sacode as brancas flores,

E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;

(...)

III
Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,

No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!

E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...
(...)
- Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1. [Nota: Poema composto de 23 quadras, dividido em 3 partes]


Vida
Oh! laisse-moi t’aimer pour que j’aime la vie!
Pour ne point au bonheur dire un dernier adieu
Pour ne point blasphémer les biens que l’homme envie
Et pour ne pas douter de Dieu!
ALEXANDRE DUMAS

I
Oh! fala-me de ti! eu quero ouvir-te
Murmurar teu amor...
E nos teus lábios perfumar do peito
Minha pálida flor.

De tua carta nas queridas folhas
Eu sinto-me viver...
E as páginas do amor sobre meu peito

E, quando, à noite, delirante durmo,
Deito-as no peito meu...
Nos delíquios de amor, ó minha amante,
Eu sonho o seio teu...

A alma que as inspirou, que lhes deu vida
E o fogo da paixão...
E derramou as notas doloridas
Do virgem coração!

Eu quero-as no meu peito, como sonho
Teu seio de donzela,
Para sonhar contigo o céu mais puro
E a esperança mais bela!

II
A nós a vida em flor, a doce vida
Recendente de amor,
Cheia de sonhos, d’esperança e beijos
E pálido langor...

A tua alma infantil junto da minha
No fervor do desejo,
Nossos lábios ardentes descorando
Comprimidos num beijo...

E as noites belas de luar e a febre
Da vida juvenil...
E este amor que sonhei, que só me alenta
No teu colo infantil!

Vem comigo ao luar: amemos juntos
Neste vale tranqüilo...
De abertas flores e caídas folhas...
No perfumado asilo.

Aqui somente a rola da floresta
Das sestas ao calor 
O tremer sentirá dos longos beijos...
E verá teu palor.

À noite encostarei a minha fronte
No virgem colo teu;
Terei por leito o vale dos amores,
Por tenda o azul do céu!

E terei tua imagem mais formosa
Nas vigílias do val:
— Será da vida meu suave aroma
Teu lírio virginal.

IV
Que importa que o anátema do mundo
Se eleve contra nós,
Se é bela a vida num amor imenso
Na solidão — a sós?

Se nós teremos o cair da tarde
E o frescor da manhã:
E tu és minha mãe e meus amores
E minh’alma de irmã?

Se teremos a sombra onde se esfolham
As flores do retiro...
E a vida além de ti — a vida inglória —
Não me vale um suspiro?

Bate a vida melhor dentro do peito
Do campo na tristeza
E o aroma vital, ali, do seio
Derrama a natureza...

E, aonde as flores no deserto dormem
Com mais viço e frescor,
Abre linda também a flor da vida
Da lua no palor.
- AZEVEDO, Álvares de. "Lira dos Vinte Anos". São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Coleção Poetas do Brasil).


No Mar
Les étoiles s'allument au ciel, et la brise du soir
erre doucement parmi les fleurs: rêvez, chantez et
soupirez.
GEORGE SAND.

Álvares de Azevedo
Era de noite - dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!

Ah! que véu de palidez
Da langue face na tez!
Como teus seios revoltos
Te palpitavam sonhando!
Como eu cismava beijando
Teus negros cabelos soltos!
Sonhavas? - eu não dormia;

A minh'alma se embebia
Em tua alma pensativa!
E tremias, bela amante,
A meus beijos, semelhante
Às folhas da sensitiva!

E que noite! que luar!
E que ardentias no mar!
E que perfumes no vento!
Que vida que se bebia
Na noite que parecia
Suspirar de sentimento!

Minha rola, ó minha flor,
Ó madressilva de amor!
Como eras saudosa então!
Como pálida sorrias
E no meu peito dormias
Aos ais do meu coração!

E que noite! que luar!
Como a brisa a soluçar
Se desmaiava de amor!
Como toda evaporava
Perfumes que respirava
Nas laranjeiras em flor!

Suspiravas? que suspiro!
Ai que ainda me deliro
Sonhando a imagem tua
Ao fresco da viração,
Aos ais do meu coração,
Embalada na falua!

Como virgem que desmaia,
Dormia a onda na praia!
Tua alma de sonhos cheia
Era tão pura, dormente,
Como a vaga transparente
Sobre seu leito de areia!

Era de noite - dormias,
Do sonho nas melodias,
Ao fresco da viração;
Embalada na falua,
Ao frio clarão da lua,
Aos ais do meu coração!
- Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1


Desalento
Por que havíeis passar tão doces dias?
A. F. DE SERPA PIMENTEL

Feliz daquele que no livro d’alma
Não tem folhas escritas
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!

Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer
E nem bebeu eflúvios descorando
Numa voz de mulher...

E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos...

Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano
Da noite à viração!

Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores...

E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!

Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!...

Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros
Nem geme a viração...
E dentro, no deserto do meu peito,
Não dorme o coração!
- Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1


Soneto [Pálida à luz da lâmpada sombria]
Pálida à luz da lâmpada sombria,
Sobre o leito de flores reclinada,
Como a lua por noite embalsamada,
Entre as nuvens do amor ela dormia!

Era a virgem do mar, na escuma fria
Pela maré das águas embalada!
Era um anjo entre nuvens d'alvorada
Que em sonhos se banhava e se esquecia!

Era mais bela! O seio palpitando...
Negros olhos as pálpebras abrindo...
Formas nuas no leito resvalando...

Não te rias de mim, meu anjo lindo!
Por ti - as noites eu velei chorando,
Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo!
- Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853).
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biográficas por Antônio Soares Amora. Org. rev. e notas por Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1949. p.568.


Cismar
Fala-me, anjo de luz! és glorioso
À minha vista na janela à noite
Como divino alado mensageiro
Ao ebrioso olhar dos frouxos olhos
Do homem, que se ajoelha para vê-lo,
Quando resvala em preguiçosas nuvens,
Ou navega no seio do ar da noite.
ROMEU

Ai! quando de noite, sozinha à janela
Co’a face na mão te vejo ao luar,
Por que, suspirando, tu sonhas, donzela?
A noite vai bela,
E a vista desmaia
Ao longe na praia
Do mar!

Por quem essa lágrima orvalha-te os dedos,
Como água da chuva cheiroso jasmim?
Na cisma que anjinho te conta segredos?
Que pálidos medos?
Suave morena,
Acaso tens pena
De mim?

Donzela sombria, na brisa não sentes
A dor que um suspiro em meus lábios tremeu?
E a noite, que inspira no seio dos entes
Os sonhos ardentes,
Não diz-te que a voz
Que fala-te a sós
Sou eu?

Acorda! Não durmas da cisma no véu!
Amemos, vivamos, que amor é sonhar!
Um beijo, donzela! Não ouves? no céu
A brisa gemeu...
As vagas murmuraram...
As folhas sussurram:
Amar!
- AZEVEDO, Álvares de. "Lira dos Vinte Anos". São Paulo: Martins Fontes, 1996. (Coleção Poetas do Brasil).


Sonhando
Hier, la nuit d'été que nous prêtait ses voiles,
Était digne de toi, tant elle avait d'étoiles!
V. HUGO.

Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! que rosa, que filha de Deus!
Tão pálida - ao vê-la meu ser devaneia,
Sufoco nos lábios os hálitos meus!

Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A praia é tão longa! e a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma;
De noite - aos serenos - a areia é tão fria,
Tão úmido o vento que os ares perfuma!
És tão doentia!
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A brisa teus negros cabelos soltou,
O orvalho da face te esfria o suor;
Teus seios palpitam - a brisa os roçou,
Beijou-os, suspira, desmaia de amor!
Teu pé tropeçou...
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E o pálido mimo da minha paixão
Num longo soluço tremeu e parou;
Sentou-se na praia; sozinha no chão
A mão regelada no colo pousou!
Que tens, coração,
Que tremes assim?
Cansaste, donzela?
Tem pena de mim!

Deitou-se na areia que a vaga molhou.
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia.
O seio gelou?...
Não durmas assim!
Ó pálida fria,
tem pena de mim!

(...)

E a vaga crescia seu corpo banhando,
As cândidas formas movendo de leve!
E eu vi-a suave nas águas boiando
Com soltos cabelos nas roupas de neve!
Nas vagas sonhando
Não durmas assim;
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E a imagem da virgem nas águas do mar
Brilhava tão branca no límpido véu!
Nem mais transparente luzia o luar
No ambiente sem nuvens da noite do céu!
Nas águas do mar
Não durmas assim!
Não morras, donzela,
Espera por mim!
- Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1


Spleen e Charutos - I. Solidão
Nas nuvens cor de cinza do horizonte
A lua amarelada a face embuça;
Parece que tem frio, e no seu leito
Deitou, para dormir, a carapuça.

Ergueu-se, vem da noite a vagabunda
Sem chale, sem camisa e sem mantilha,
Vem nua e bela procurar amantes;
É douda por amor da noite a filha.

As nuvens são uns frades de joelhos,
Rezam adormecendo no oratório;
Todos têm o capuz e bons narizes,
E parecem sonhar o refeitório.

As árvores prateiam-se na praia,
Qual de uma fada os mágicos retiros...
Ó lua, as doces brisas que sussurram
Coam dos lábios como suspiros!

Falando ao coração que nota aérea
Deste céu, destas águas se desata?
Canta assim algum gênio adormecido
Das ondas mortas no lençol de prata?

Minha alma tenebrosa se entristece,
É muda como sala mortuária...
Deito-me só e triste, e sem ter fome
Vejo na mesa a ceia solitária.

Ó lua, ó lua bela dos amores,
Se tu és moça e tens um peito amigo,
Não me deixes assim dormir solteiro,
À meia-noite vem cear comigo!
- Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1


Spleen e Charutos - III. Vagabundo
Eat, drink and love; what can the rest avail us?
BYRON. Don Juan.

Eu durmo e vivo ao sol como um cigano,
Fumando meu cigarro vaporoso;
Nas noites de verão namoro estrelas;
Sou pobre, sou mendigo, e sou ditoso!

Ando roto, sem bolsos nem dinheiro;
Mas tenho na viola uma riqueza:
Canto à lua de noite serenatas,
E quem vive de amor não tem pobreza.

Não invejo ninguém, nem ouço a raiva
Nas cavernas do peito, sufocante,
Quando à noite na treva em mim se entornam
Os reflexos do baile fascinante.

Namoro e sou feliz nos meus amores;
Sou garboso e rapaz... uma criada
Abrasada de amor por um soneto
Já um beijo me deu subindo a escada....

Oito dias lá vão que ando cismado
Na donzela que ali defronte mora.
Ela ao ver-me sorri tão docemente!
Desconfio que a moça me namora!..

Tenho por meu palácio as longas ruas;
Passeio a gosto e durmo sem temores;
Quando bebo, sou rei como um poeta,
E o vinho faz sonhar com os amores.

O degrau das igrejas é meu trono,
Minha pátria é o vento que respiro,
Minha mãe é a lua macilenta,
E a preguiça a mulher por quem suspiro.

Escrevo na parede as minhas rimas,
De painéis a carvão adorno a rua;
Como as aves do céu e as flores puras
Abro meu peito ao sol e durmo à lua.

Sinto-me um coração de lazzaroni;
Sou filho do calor, odeio o frio;
Não creio no diabo nem nos santos...
Rezo a Nossa Senhora, e sou vadio!

Ora, se por aí alguma bela
Bem doirada e amante da preguiça
Quiser a nívea mão unir à minha
Há de achar-me na Sé, domingo, à Missa.
- Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1


Spleen e Charutos - VI. O Poeta Moribundo
Poetas! amanhã ao meu cadáver
Minha tripa cortai mais sonorosa!...
Façam dela uma corda, e cantem nela
Os amores da vida esperançosa!

Cantem esse verão que me alentava...
O aroma dos currais, o bezerrinho,
As aves que na sombra suspiravam,
E os sapos que cantavam no caminho!

Coração, porque tremes? Se esta lira
Nas minhas mãos sem força desafina;
Enquanto ao cemitério não te levam,
Casa no marimbau a alma divina!

Eu morro qual nas mãos da cozinheira
O marreco piando na agonia...
Como o cisne de outrora... que gemendo
Entre os hinos de amor se enternecia.

Coração, porque tremes? Vejo a morte,
Ali vem lazarenta e desdentada...
Que noiva!... E devo então dormir com ela?...
Se ela ao menos dormisse mascarada!

Que ruínas! que amor petrificado!
Tão antediluviano e gigantesco!
Ora, façam idéia que ternuras
Terá essa lagarta posta ao fresco!

Antes mil vezes que dormir com ela,
Que dessa fúria o gozo, amor eterno...
Se ali não há também amor de velha,
Dêem-me as caldeiras do terceiro Inferno!

No inferno estão suavíssimas belezas,
Cleópatras, Helenas, Eleonoras;
Lá se namora em boa companhia,
Não pode haver inferno com Senhoras!

Se é verdade que os homens gozadores,
Amigos de no vinho ter consolos,
Foram com Satanás fazer colônia,
Antes lá que do Céu sofrer os tolos! -

Ora! e forcem um'alma qual a minha
Que no altar sacrifica ao Deus-Preguiça
A cantar ladainha eternamente
E por mil anos ajudar a Missa!
- Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1


Um Cadáver de Poeta
Levem ao túmulo aquele que parece um cadáver! Tu
não pesaste sobre a terra: a terra te seja leve!
L. UHLAND.

I
De tanta inspiração e tanta vida
Que os nervos convulsivos inflamava
E ardia sem conforto...
O que resta? uma sombra esvaecida,
Um triste que sem mãe agonizava...
Resta um poeta morto!

Morrer! e resvalar na sepultura,
Frias na fronte as ilusões ? no peito
Quebrado o coração!
Nem saudades levar da vida impura
Onde arquejou de fome... sem um leito!
Em treva e solidão!

Tu foste como o sol; tu parecias
Ter na aurora da vida a eternidade
Na larga fronte escrita...
Porém não voltarás como surgias!
Apagou-se teu sol da mocidade
Numa treva maldita!

Tua estrela mentiu. E do fadário
De tua vida a página primeira
Na tumba se rasgou...
Pobre gênio de Deus, nem um sudário!
Nem túmulo nem cruz! como a caveira
Que um lobo devorou!...

II
Morreu um trovador - morreu de fome.
Acharam-no deitado no caminho:
Tão doce era o semblante! Sobre os lábios
Flutuava-lhe um riso esperançoso.
E o morto parecia adormecido.
Ninguém ao peito recostou-lhe a fronte
Nas horas da agonia! Nem um beijo
Em boca de mulher! nem mão amiga
Fechou ao trovador os tristes olhos!
Ninguém chorou por ele... No seu peito
Não havia colar nem bolsa d'oiro;
Tinha até seu punhal um férreo punho...
Pobretão! não valia a sepultura!

Todos o viam e passavam todos.
Contudo era bem morto desde a aurora.
Ninguém lançou-lhe junto ao corpo imóvel
Um ceitil para a cova!... nem sudário!

O mundo tem razão, sisudo pensa,
E a turba tem um cérebro sublime!
De que vale um poeta - um pobre louco
Que leva os dias a sonhar - insano
Amante de utopias e virtudes
E, num tempo sem Deus, ainda crente?
(...)
- Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1. [Nota: Poema composto de 7 partes].


Canto Segundo
And her head droo'd as when the lily lies
O'er charged with rain.
Don Juan.

I
Dorme! ao colo do amor, pálido amante,
Repousa, sonhador, nos lábios dela!
Qual em seio de mãe, febril infante!
No olhar, nos lábios da infantil donzela
Inebria teu seio palpitante!
O murmúrio do amor em forma bela
Tem doçuras que esmaiam no desejo
Dos sonhos ao vapor, na onda de um beijo!

II
Que importa a perdição manchasse um dia
A alvura virginal das roupas santas
E o mundo a esse corpo que tremia
Rompesse o véu que tímido alevantas?
E à noite lhe pousasse a fronte fria
Nesse leito em que trêmulo te encantas
E ao batejo venal murchasse flores,
Flores que abriam a infantis amores?

III
Que importa? se o amor teu rosto beija,
Se a beijas nua e sobre o peito dela
Teu peito juvenil ama e lateja!
Se tua langue palidez revela
Que tua alma febril sonha e deseja
Desmaiar-lhe de amor, gemer com ela,
Ébrio de vida, a soluçar d'enleio,
Pálido sonhador morrer-lhe ao seio!

IV
Que importa o mundo além? teu mundo é esse
Onde na vida o coração te alegra!
Teu mundo é o serafim que às noites desce
E que lava no amor a mancha negra!
É a névoa de luz onde não lê-se
Escrita à porta vil a infame regra
Que assinala o bordel à mão poluta
E diz nas letras fundas ? prostituta!

V
A essa pobre mulher na fronte bela
Anátema, escreveu a turba fria!
Banhe o remorso o travesseiro dela,
Corram-lhe a mil da pálpebra sombria
Prantos do coração, não há erguê-la
A eterna maldição. E quem diria
A solitária dor, da noite ao manto
Que lavra o seio à cortesã em pranto?

VI
Ah! Madalenas míseras! ardentes
Quantos olhos azuis se não inundam
Nos transes do prazer em prantos quentes
Quando os seios febris em ais abundam,
Que o amante nos óculos trementes
Crê sonhos que do amor no mar se afundam!
Que suspiros no beijo que delira
Que são lágrimas só! que são mentira!

VII
E quantas vezes na cheirosa seda
Da longa trança desatada, solta,
Onde o moço de gozos embebeda
A fronte à febre juvenil revolta;
Quando a vida, o frescor, a imagem leda
De esp'rança que morreu ao leito volta;
As lágrimas na dor ferventes correm...
Como em céu de verão estrelas morrem?

(...)

IX
Amar uma perdida! que loucura!
Mas tão bela! que seio de Madona!
Nunca amara tão nívea criatura
Como aquela mulher que ali ressona!
(...)
- Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série O Poema do Frade.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1. [Nota: "O Poema do Frade" é composto de 5 cantos; o segundo é composto de 28 oitavas].


Meu Desejo
Meu desejo? era ser a luva branca
Que essa tua gentil mãozinha aperta:
A camélia que murcha no teu seio,
O anjo que por te ver do céu deserta....

Meu desejo? era ser o sapatinho
Que teu mimoso pé no baile encerra....
A esperança que sonhas no futuro,
As saudades que tens aqui na terra....

Meu desejo? era ser o cortinado
Que não conta os mistérios do teu leito;
Era de teu colar de negra seda
Ser a cruz com que dormes sobre o peito.

Meu desejo? era ser o teu espelho
Que mais bela te vê quando deslaças
Do baile as roupas de escomilha e flores
E mira-te amoroso as nuas graças!

Meu desejo? era ser desse teu leito
De cambraia o lençol, o travesseiro
Com que velas o seio, onde repousas,
Solto o cabelo, o rosto feiticeiro....

Meu desejo? era ser a voz da terra
Que da estrela do céu ouvisse amor!
Ser o amante que sonhas, que desejas
Nas cismas encantadas de languor!
- Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1


Meu Sonho
EU
Cavaleiro das armas escuras,
Onde vais pelas trevas impuras
Com a espada sanguenta na mão?
Porque brilham teus olhos ardentes
E gemidos nos lábios frementes
Vertem fogo do teu coração?

Cavaleiro, quem és? o remorso?
Do corcel te debruças no dorso....
E galopas do vale através...
Oh! da estrada acordando as poeiras
Não escutas gritar as caveiras
E morder-te o fantasma nos pés?

Onde vais pelas trevas impuras,
Cavaleiro das armas escuras,
Macilento qual morto na tumba?...
Tu escutas.... Na longa montanha
Um tropel teu galope acompanha?
E um clamor de vingança retumba?

Cavaleiro, quem és? - que mistério,
Quem te força da morte no império
Pela noite assombrada a vagar?

O FANTASMA
Sou o sonho de tua esperança,
Tua febre que nunca descansa,
O delírio que te há de matar!...
- Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1


O Lenço Dela
Quando a primeira vez, da minha terra
Deixei as noites de amoroso encanto,
A minha doce amante suspirando
Volveu-me os olhos úmidos de pranto.

Um romance cantou de despedida,
Mas a saudade amortecia o canto!
Lágrimas enxugou nos olhos belos...
E deu-me o lenço que molhava o pranto.

Quantos anos contudo já passaram!
Não olvido porém amor tão santo!
Guardo ainda num cofre perfumado
O lenço dela que molhava o pranto...

Nunca mais a encontrei na minha vida,
Eu contudo, meu Deus, amava-a tanto!
Oh! quando eu morra estendam no meu rosto
O lenço que eu banhei também de pranto!
- Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1


Crepúsculo do Mar
Que rêves-tu plus beau sur ces lointaines plages
Que cette chaste mer qui baigne nos rivages?
Que ces mornes couverts de bois silencieux,
Autels d’où nos parfurns s'élèvent dans les cieux?
LAMARTINE

No céu brilhante do poente em fogo 
Com auréola ardente o sol dormia,
Do mar doirado nas vermelhas ondas
Purpúreo se escondia.

Como da noite o bafo sobre as águas
Que o reflexo da tarde incendiava,
Só a idéia de Deus e do infinito
No oceano boiava!

Como é doce viver nas longas praias
Nestas ondas e sol e ventania!
Como ao triste cismar encanto aéreo
Nas sombras preludia!

O painel luminoso do horizonte
Como as cândidas sombras alumia
Dos fantasmas de amor que nós amamos
Na ventura de um dia!

Como voltam gemendo e nebulosas,
Brancas as roupas, desmaiado o seio,
Inda uma vez a murmurar nos sonhos
As palavras do enleio!

Aqui nas praias, onde o mar rebenta
E a escuma no morrer os seios rola,
Virei sentar-me no silêncio puro
Que o meu peito consola!

Sonharei... lá enquanto, no crepúsculo,
Como um globo de fogo o sol se abisma
E o céu lampeja no clarão medonho
De negro cataclisma...

Enquanto a ventania se levanta
E no ocidente o arrebol se ateia
No cinábrio do empíreo derramando
A nuvem que roxeia...

Hora solene das idéias santas
Que embala o sonhador nas fantasias,
Quando a taça do amor embebe os lábios
Do anjo das utopias!

Oceano de Deus! Que moribundo,
A cantiga do nauta mais sentida
Tão triste suspirou nas tuas ondas,
Como um adeus à vida?

Que nau cheia de glória e d'esperanças,
Floreando ao vento a rúbida bandeira,
Na luz do incêndio rebentou bramindo
Na vaga sobranceira?

Por que ao sol da manhã e ao ar da noite
Essa triste canção, eterna, escura,
Como um treno de sombra e de agonia,
Nos teus lábios murmura?

É vermelho de sangue o céu da noite,
Que na luz do crepúsculo se banha:
Que planeta do céu do roto seio
Golfeja luz tamanha?

Que mundo em fogo foi bater correndo
Ao peito de outro mundo; — e uma torrente
De medonho clarão rasgou no éter
E jorra sangue ardente?

Onde as nuvens do céu voam dormindo,
Que doirada mansão de aves divinas
Num véu purpúreo se enlutou rolando
Ao vento das ruínas?
- AZEVEDO, Álvares de. "Lira dos Vinte Anos". São Paulo: Martins Fontes, 1996. (ColeçãoPoetas do Brasil)


Panteísmo
MEDITAÇÃO
O dia descobre a terra: a noite descobre os céus.
MARQUÊS DE MARICÁ.

Eu creio, amigo, que a existência inteira
É um mistério talvez; ? mas n'alma sinto
De noite e dia respirando flores,
Sentindo as brisas, recordando aromas
E esses ais que ao silêncio a sombra exala
E enchem o coração de ignota pena
Como a íntima voz de um ser amigo,
Que essas tardes e brisas, esse mundo
Que na fronte do moço entorna flores,
Que harmonias embebem-lhe no seio ?
Têm uma alma também que vive e sente...

A natureza bela e sempre virgem
Com suas galas gentis na fresca aurora,
Com suas mágoas na tarde escura e fria,
E essa melancolia e morbideza
Que nos eflúvios do luar ressumbra ?
Não é apenas uma lira muda
Onde as mãos do poeta acordam hinos
E a alma do sonhador lembranças vibra...

Por essas fibras da natura viva,
Nessas folhas e vagas, nesses astros,
Nessa mágica luz que me deslumbra
E enche de fantasia até meus sonhos ?
Palpita porventura um almo sopro,
Espírito do céu que as reanima,
E talvez lhes murmura em horas mortas
Estes sons de mistério e de saudade,
Que lá no coração repercutidos
O gênio acordam que enlanguesce e canta!

(...)

São idéias talvez... Embora riam
Homens sem alma, estéreis criaturas:
Não posso desamar as utopias,
Ouvir e amar à noite entre as palmeiras
Na varanda ao luar o som das vagas,
Beijar nos lábios uma flor que murcha,
E crer em Deus como alma animadora
Que não criou somente a natureza,
Mas que ainda a relenta em seu bafejo,
Ainda influi-lhe no sequioso seio
De amor e vida a eternal centelha !

Por isso, ó meu amigo, à meia-noite
Eu deito-me na relva umedecida,
Contemplo o azul do céu, amo as estrelas,
Respiro aromas, e o arquejante peito
Parece remoçar em tanta vida,
Parece-me alentar-se em tanta mágoa,
Tanta melancolia, e nos meus sonhos,
Filho de amor e Deus, eu amo e creio!
- Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1


Seio de Virgem
Quand on te voit, il vient à maints
Une envie dedans les mains
De te tâter, de te tenir...
Clément Marot

O que eu sonho noite e dia,
O que me dá poesia
E me torna a vida bela,
O que num brando roçar
Faz meu peito se agitar,
E' o teu seio, donzela!

Oh! quem pintara, o cetim
Desses limões de marfim,
Os leves cerúleos veios,
Na brancura deslumbrante
E o tremido de teus seios!

Quando os vejo, de paixão
Sinto pruridos na mão
De os apalpar e conter...
Sorriste do meu desejo?
Loucura! bastava um beijo
Para neles se morrer!

Minhas ternuras, donzela,
Votei-as à forma bela
Daqueles frutos de neve...
Aí duas cândidas flores
Que o pressentir dos amores
Faz palpitarem de leve.

Mimosos seios, mimosos,
Que dizem voluptuosos:
"Amai-nos, poetas, amai!
"Que misteriosas venturas
"Dormem nessas rosas puras
E se acordarão num ai!"

Que lírio, que nívea rosa,
Ou camélia cetinosa
Tem uma brancura assim?
Que flor da terra ou do céu,
Que valha do seio teu
Esse morango ou rubim?

Quantos encantos sonhados
Sinto estremecer velados
Por teu cândido vestido!
Sem ver teu seio, donzela,
Suas delícias revela
O poeta embevecido!

Donzela, feliz do amante
Que teu seio palpitante
Seio d'esposa fizer!
Que dessa forma tão pura
Fizer com mais formosura
Seio de bela mulher!

Feliz de mim... porém não!...
Repouse teu coração
Da pureza no rosal!
Tenho eu no peito uma aroma
Que valha a rosa que assoma
No teu seio virginal?...
- Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.
GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1


É ela! É ela! É ela! É ela!
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
e o eco ao longe murmurou — é ela!
Eu a vi... minha fada aérea e pura —
a minha lavadeira na janela.

Dessas águas furtadas onde eu moro
eu a vejo estendendo no telhado
os vestidos de chita, as saias brancas;
eu a vejo e suspiro enamorado!

Esta noite eu ousei mais atrevido,
nas telhas que estalavam nos meus passos,
ir espiar seu venturoso sono,
vê-la mais bela de Morfeu nos braços!

Como dormia! que profundo sono!...
Tinha na mão o ferro do engomado...
Como roncava maviosa e pura!...
Quase caí na rua desmaiado!

Afastei a janela, entrei medroso...
Palpitava-lhe o seio adormecido...
Fui beijá-la... roubei do seio dela
um bilhete que estava ali metido...

Oh! decerto... (pensei) é doce página
onde a alma derramou gentis amores;
são versos dela... que amanhã decerto
ela me enviará cheios de flores...

Tremi de febre! Venturosa folha!
Quem pousasse contigo neste seio!
Como Otelo beijando a sua esposa,
eu beijei-a a tremer de devaneio...

É ela! é ela! — repeti tremendo;
mas cantou nesse instante uma coruja...
Abri cioso a página secreta...
Oh! meu Deus! era um rol de roupa suja!

Mas se Werther morreu por ver Carlota
Dando pão com manteiga às criancinhas,
Se achou-a assim tão bela... eu mais te adoro
Sonhando-te a lavar as camisinhas!

É ela! é ela, meu amor, minh'alma,
A Laura, a Beatriz que o céu revela...
É ela! é ela! — murmurei tremendo,
E o eco ao longe suspirou — é ela!
- AZEVEDO, Álvares de.  Poemas malditos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.


Terza Rima
É belo de entre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo,
Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!
Porém o que há mais doce n’esta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d'honra, és tu, ó meu charuto!
- AZEVEDO, Álvares de.  Poemas malditos. 3ª ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1988.

Álvares de Azevedo [escultura em bronze, com pedestal
em granito e bronze de1907], do escultor Amadeo Zani
 Busto localizado no Largo São Francisco em São Paulo - SP

Álvares de Azevedo (1831-1852)
por Paulo Franchetti (é professor titular do Departamento de Teoria Literária da Unicamp).
Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1831-1852) é até hoje um dos poetas mais lidos do Romantismo brasileiro. Sua poesia abriu-se a muitas influências, que o poeta nem sempre teve tempo para depurar e solidificar. Vários de seus textos – principalmente os poemas longos, que não quis ou não pôde talvez rever para publicação – ficam prejudicados pelo uso excessivo de referências literárias e lugares-comuns do ultra-romantismo. Por esse lado internacional, o poeta é identificado nas histórias literárias como representante máximo do byronismo brasileiro, que consistiu num gosto acentuado pelo cinismo, pelo pessimismo e pela ironia, e num apego às descrições mórbidas e funerárias, à imagética diabólica e a uma mistura de tedium vitae com lubricidade desenfreada.
Álvares de Azevedo
Foi principalmente por esse aspecto que a sua poesia e a sua prosa obtiveram, em meados do século passado, enorme ascendência sobre os jovens poetas. E é ainda esse lado que persiste na imagem corrente e obscurece o que há de mais importante na sua poesia: o humor melancólico, a irreverência e o coloquialismo presentes, por exemplo, nas suas “Idéias Íntimas”. Sua obra, escrita poucos anos após a estréia de Gonçalves de Magalhães, já sinaliza um novo momento na poesia brasileira. Os literatos, no seu tempo, não são mais barões do Império, integrados à sociedade, sem crises de identificação política. Nem se viam como condutores da cultura nacional em seu caminho para o esplendor. São jovens estudantes, que manifestam na sua obra e nos atos públicos de sua vida o desconforto do homem de letras no sufocante ambiente intelectual do Brasil oitocentista.
Frente à limitação do público e dos meios de reprodução e preservação da cultura, o poeta que por volta de 1850 entrasse na vida adulta (e continuasse poeta) ou assumia o lado obscuro e outsider – foi o caso de Varela (1841-1875); ou então se dilacerava entre ele e uma fachada respeitável e medíocre – solução almejada e nem sempre conseguida por Bernardo Guimarães (1825-1884). Aos demais a opção não chegou a colocar-se, por mal sobreviverem à adolescência.
A obra de Azevedo, como a de Casimiro, é atravessada por uma obsessiva tematização do amor adolescente, que foi objeto da análise de Mario de Andrade, no ensaio “Amor e medo”.
No caso de Álvares de Azevedo, o movimento central da vivência amorosa é a rígida divisão entre os domínios do afeto espiritual e do desejo carnal. Toda a sua obra se articula em função desses pólos, que são sentidos como antagônicos. Nos poemas dedicados às virgens idealizadas e incorpóreas, todo o esforço do discurso lírico é exorcismar a emergência do corpóreo, sublimá-lo, como em Sonhando. Por outro lado, o sexo, sentido sempre como violação da pureza espiritual, como mácula, é associado ao crime – incesto, estupro e prostituição – e vivido de forma culpada e dolorosa. É o movimento que surge quando a sublimação não obtém sucesso. E tão forte é essa polaridade que passa a vigorar como princípio estético: existem não só imagens recorrentes associadas a cada um desses domínios, como também um tom característico para tratar de cada um deles. Uma conseqüência importante é que, quando o poeta tenta fugir às rígidas prescrições que se traçou e combinar os dois universos afetivos em um mesmo poema, o resultado é a que o texto se fragmente e perca sentido estrutural, como sucede ao longo e caótico O Poema do Frade.
Essa tentativa de manter separados e regidos por princípios autônomos dois mundos tidos por antagônicos organiza inclusive o livro de poemas de Álvares de Azevedo, que se divide em duas partes de tom bem diferente, tendo o poeta se incumbido de explicar ao leitor, a meio do livro, a sua articulação básica.
Essa mesma separação de domínios está na origem de uma interessante questão com a qual se depara o historiador da poesia brasileira da segunda geração romântica: em vários poetas, de um lado encontra-se a massa da produção socialmente aceitável: os poemas áulicos, inócuos e patrióticos de Bernardo Guimarães e José Bonifácio, por exemplo, a que correspondem, na obra de Azevedo, os versos em que se tematiza a pureza do amor fraterno e virginal, de que todo o pecado é afastado pela morte iminente de um dos amantes; do outro, uma estranha produção para circulação mais restrita ou marginal, como os poemas de non sense (ou "bestialógicos", de Guimarães e Bonifácio) e de cariz perverso ou pornográfico – a que corresponde, em Azevedo, o ambiente esfumaçado em que ocorrem os incestos, os estupros e os assassinatos da sua Noite na Taverna.
Tais poemas formam um conjunto notável, quando cotejados com a obra "séria" produzida por esses autores, por conta da inventividade e da qualidade literária. Poetas que pagavam um tributo excessivo às convenções do tempo quando celebravam a musa vaporosa e lânguida, que então se impunha, transformavam-se de súbito, ao sopro da maledicência, da lascívia ou da simples emulação boêmia, em virtuoses da palavra, improvisadores de raro talento e inventividade.
Mas apenas o poeta da Lira dos vinte anos conseguiu ser grande e produzir uma poesia de primeira linha em ambos os domínios, e é isso que o torna a figura emblemática e mais notável da sua geração.
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Publicado em: Brasiliana USP. http://www.brasiliana.usp.br/node/433

"Vais ler uma página da vida; cheia de sangue e de vinho..."
- Álvares de Azevedo, no livro "Macário".

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THOBIAS, Mauro Luis. A dramaticidade e o espetáculo em MACÁRIO de Alvares de Azevedo. In: Fúlvia Moretto; Sidney Barbosa. (Org.). ASPECTOS DO TEATRO OCIDENTAL. 2 ed. S. Paulo: Editora Unesp, 2006, v. 1, p. 209-220.
TRINDADE, Alessandra Accorsi. Representações do sujeito romântico: motivos de cisão e desejo na ficção de Álvares de Azevedo. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal do Rio Grande do Sul, UFRGS, 2002.
VIEIRA, Sue Helen da Silva. Lira dos vinte anos: ironia no amor ou amor na ironia?. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 2009.
Álvares de Azevedo
WERKEMA, Andréa Sirihal. Macário e Satã: viagem fantástica, diálogo crítico. In: I Colóquio, 2009, Araraquara. Anais do I Colóquio. Araraquara : Laboratório Editorial da Faculdade de Ciências e Letras da UNESP/Araraquara, 2009. p. 313-323.
WERKEMA, Andréa Sirihal. Macário, ou do drama romântico em Álvares de Azevedo. (Tese Doutorado em Estudos Literários). Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, 2007.
WERKEMA, Andréa Sirihal. Macário, ou do drama romântico em Álvares de Azevedo. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2012. v. 1. 252 p.
WERKEMA, Andréa Sirihal. O gênero problemático na obra de Álvares de Azevedo. Em Tese (Belo Horizonte. Impresso), v. 12, p. 1-6, 2008.
WERKEMA, Andréa Sirihal. O romantismo de Álvares de Azevedo. O Eixo e a Roda, Belo Horizonte, v. 7, p. 143-151, 2001.   

"Aplicarei contudo o ecletismo ao amor. Hoje uma, amanhã outra: experimentarei todas as taças. A mais doce embriaguez é a que resulta da mistura dos vinhos."
(Das preferências)
- Álvares de Azevedo, no livro "Macário". Porto Alegre: L&PM, 2001


FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
Academia Brasileira de Letras 
Brasiliana– USP (Obras disponíveis)
Jornal da Poesia - Álvares de Azevedo


“Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.”
- Álvares de Azevedo, fragmento do poema “Lembrança de morrer”.


© A obra de Álvares de Azevedo, é de domínio público

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske


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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Álvares de Azevedo - o poeta da Lira dos vinte anos. Templo Cultural Delfos, abril/2012. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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Página atualizada em 18.5.2012.



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2 comentários:

  1. Oi, gostaria da sua permissão para postar algumas imagens e artigos do Alvares de Azevedo em meu blog.
    Abraços.

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  2. Álvares de Azevedo foi um poeta que marcou o início de meu contato com a poesia, na minha adolescência. É sempre um prazer ler as poesias dele e sobre ele. coincidentemente, publiquei um texto em homenagem a ele em meu blog esta semana. taiasmin.blogspot.com.br. Abraços.

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