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Sully Prudhomme - poeta e ensaísta francês

 
  • Sully Prudhomme - poeta francês / Prêmio Nobel de Literatura 1901


René Armand François Prudhomme, mais conhecido como Sully Prudhomme (Paris, 16 de março de 1839 — Châtenay-Malabry, 6 de setembro de 1907). Poeta francês, o primeiro autor a receber o Prêmio Nobel de Literatura (1901) em especial reconhecimento de sua composição poética, na qual dá mostras de suave idealismo, perfeição artística e uma rara combinação das qualidades de coração e intelecto. Filho de um comerciante parisiense, foi educado Paris e estudou engenharia e direito, carreiras que não seguiu, e em 1865 começou a publicar versos fluentes e melancólicos, sob inspiração de um amor infeliz. Pertence ao grupo de poetas parnasianos, movimento literário de origem francesa, que representou na poesia o espírito positivista e científico da época, surgindo no século XIX em oposição ao romantismo, responsáveis pela publicação da revista Parnasse contemporain. Foi eleito para a Academia Francesa (1881), ocupando a cadeira 24. Morreu em Châtenay-Malabry, França e foi sepultado no Cemitério Père Lachaise em Paris. Obras: Stances et poèmes (1865), Les destins (1872), Croquis italiens (1866-1868), Impressions de la guerre (1870), La révolte des fleurs (1872), Les vaines tendresses (1875), Le bonheur (1888), La vraie religion selon pascal (1905) e Les epaves (1908).



  • Sully Prudhomme (1839-1907), par Atelier Nadar

SULLY PRUDHOMME - OBRA PUBLICADA EM PORTUGUÊS


:: Diário íntimo e Pensamentos / 'Journal intime - Pensées'. Sully Prudhomme. [tradução e notas de Mello Nóbrega; estudo introdutivo de Gabriel D’Aubarède; ilustrações de André Hambourg]. Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Rio de Janeiro/RJ: Opera Mundi, 1973. {Incluí poemas / de  tradutores diferentes?}
:: Diário íntimo e Pensamentos / 'Journal intime - Pensées'. Sully Prudhomme. [tradução e notas de Mello Nóbrega; estudo introdutivo de Gabriel D’Aubarède; capa arte de Picasso]. Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Rio de Janeiro: Editora Delta, 1962.

Em antologias brasileiras

:: Pedro de Alcântara.. Poesias originais e tradução de Sua Majestade o Senhor Dom Pedro II: Homenagem de seus netos. Petrópolis: Typographia do « Correio Imperial », 1889.. {No prefácio da edição de 1932 Medeiros e Albuquerque aponta que a edição de 1889 é raríssima. Diz o autor: "Hoje, essa edição é raríssima. Há, porém, entre outros, um exemplar no Instituto Histórico e outro na Biblioteca Nacional. Eu tive em mãos um, que pertence a D. Julia Lopes de Almeida. Havia outro na biblioteca de Joaquim Nabuco. Foi deste, vendido ao Governo e que se acha na Biblioteca do Itamaraty, que eu fiz copiar as poesias, encontradas neste volume." ALCANTARA, D. Pedro de. Poesias Completas de D. Pedro II (Originais e traduções. Sonetos do Exilio. Autênticas e apócrifas). Guanabara, 1932, p. 5}.
:: Pedro de Alcântara.. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. [organização e prefácio de Medeiros e Albuquerque]. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932.{D. Pedro traduziu dois sonetos de Sully Prudhomme: "La grande Ourse" e "Le rendez-vous"}.
:: Musa Francesa (antologia poetas franceses). organização e tradução/ versão Álvaro Reis; prefácio Pethion de Villar. Salvador/BA [..], 1917. {Inclui 99 poetas franceses / e uma tradução de Pethion de Villar para o francês}
:: Antologia de tradutores. [organização Olegário Marianno]. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932 {autores: Sully Prudhomme, Heine, Stechetti, Verlaine, Cocteau, Rostand, Baudelaire, Gautier, Leconte de Lisle, Carducci, Villaespesa, Leopardi, Rueda, Volg, Uhland, Puchkin, Tibullo, Catulo e muitos outros // traduzidos por Alberto de Oliveira, Alphonsus de Guimaraens, Guimarães Passos, Belmiro Braga, Caio de Mello Franco, Emílio de Menezes, Felix Pacheco, Alberto de Oliveira, Francisca Julia, João Ribeiro, Martins Fontes, Onestaldo Pennafort, Pathion de Villar, Rodrigo Otávio, Ronald de Carvalho, Olavo Bilac, Manuel Bandeira, entre outros}.
:: Poetas da França. [organização e tradução Guilherme de Almeida]. Bilíngue português-francês. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936; 4ª edição / apresentação de Marcelo Tápia. São Paulo: Editora Babel, 2011.
:: Antologia de poetas franceses: do século XV ao século XX* [seleção e organização Raimundo Magalhães Jr.; vários tradutores, entre eles Batista Cepelos, Alphonsus de Guimaraens, Guilherme de Almeida]. Rio de Janeiro: Gráfica Tupy, 1950.
:: Obras Primas da Poesia Universal. [introdução, seleção e notas bibliográficas de Sérgio Milliet; vários tradutores]. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1957.
:: Poesias completas de Alberto de Oliveira. [edição critica por Marco Aurélio Mello Reis]. Rio de Janeiro: Eduerj, 1978-9
:: *O Livro de Ouro da Poesia da França. Raimundo Magalhães Jr. Coleção Universidade de Bolso. Rio de Janeiro: Ediouro, 1980.
:: Poetas Franceses do Século XIX. [organização e tradução José Lino Grünewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.
:: Poemas de Amor. [seleção Walmir Ayala; vários tradutores]. Coleção Clássicos de Ouro. Rio de Janeiro: Ediouro, 1991 {inclui o poema 'Se eu fosse Deus', de Sully Prudhomme / tradutor ?}
:: Poesia francesa: pequena antologia bilíngue. [organização e tradução José Jeronymo Rivera]. (1998) / 2ª edição revista e aumentada. Brasília: Editora Thesaurus, 2005.
:: Pássaros na noite. de Henrique Nascimento [orelha do livro Emmanuel Santiago; ensaio de Matheus de Souza Almeida Oliveira, retrato do autor por Pedro Mohallem; ilustrações de Sandro Castelli]. Editora Mondrongo, 2022. {72 poemas (61 autorais e 11 traduções) // Os autores traduzidos são: Arthur Rimbaud, Paul Verlaine (cujo poema intitula a obra), Stefan George, Giacomo Leopardi, Victor Hugo, Théodore de Banville, Leconte de Lisle e Sully Prudhomme}. 

****

  • Sully Prudhomme, par Paul Chabas

SELETA DE POEMAS DO POETA FRANCÊS SULLY PRUDHOMME


[É tarde ...]
.....................................................Soneto

É tarde, o astrônomo em tardes continuadas
Da torre e no céu onde o som s’esvai
Busca ilhas de ouro e quando a noite cai
Vê brilhar infinitas alvoradas.

Voam mundos, sementes peneiradas
Formigam nebulosas leite que se extrai
E ao astro, que crinito pelos ares sai
Cita que volte, eras mil passadas

E volta o astro. Um passo, ou um instante
Não pode a eterna ciência ele roubar
Vai-se o homem; a humanidade é constante

Móvel a vista sempre anda a velar
E embora esteja à volta já abolida
Vigia a verdade só n’alta guarida.

- * -

Le rendez-vous
Sonnet.

Il est tard; l'astronome aux veilles obstinées,
Sur sa tour, dans le ciel où meurt le dernier bruit,
Cherche des îles d'or, et, le front dans la nuit,
Regarde à l'infini blanchir des matinées;

Les mondes fuient pareils à des graines vannées;
L'épais fourmillement des nébuleuses luit;
Mais, attentif à l'astre échevelé qu'il suit,
Il le somme, et lui dit : « Reviens dans mille années. »

Et l'astre reviendra. D'un pas ni d'un instant
Il ne saurait frauder la science éternelle ;
Des hommes passeront, l'humanité l'attend ;

D'un œil changeant, mais sûr, elle fait sentinelle ;
Et, fût-elle abolie au temps de son retour,
Seule, la Vérité veillerait sur la tour.
- Sully Prudhomme [tradução D. Pedro II]. In: ALCÂNTRA, Pedro. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Organização e prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. (originalmente publicado em 1889)

§§

[A Ursa arquipélago]
...........................................Soneto

A Ursa arquipélago de mar sem praias
Muito antes de ser vista cintilava;
Inda o pastor caldeu não vagueava
E alma ansiosa, o corpo não ensaias

Inúmeros veem, por tempo que não tem raias
Sua remota luz, que já os deslumbrava
Indiferente às vista que a escrutava
Brilhará a ursa quando último morto caias

Não tens feição cristã, espanto és do crente
Fatal figura de rigor algente
Sete áureos cravos em pano enfeitado

Teu medido vagar, frígida luz
Vem turbar minha fé, e isto m’induz
A ver porque eu à noite tenha orado

- * -

La grande Ourse
............................ Sonnet.

La Grande Ourse, archipel de l'océan sans bords,
Scintillait bien avant qu'elle fût regardée,
Bien avant qu'il errât des pâtres en Chaldée
Et que l'âme anxieuse eût habité les corps ;

D'innombrables vivants contemplent depuis lors
Sa lointaine lueur aveuglément dardée ;
Indifférente aux yeux qui l'auront obsédée,
La Grande Ourse luira sur le dernier des morts.

Tu n'as pas l'air chrétien, le croyant s'en étonne,
Ô figure fatale, exacte et monotone,
Pareille à sept clous d'or plantés sur un drap noir.

Ta précise lenteur et ta froide lumière
Déconcertent la foi : c'est toi qui la première
M'as fait examiner mes prières du soir.
- Sully Prudhomme [tradução D. Pedro II]. In: ALCÂNTRA, Pedro. Poesias completas de D. Pedro II: originais e traduções, sonetos do exílio, autênticas e apócrifas. Organização e prefácio de Medeiros e Albuquerque. Rio de Janeiro: Guanabara, 1932. (originalmente publicado em 1889)

§§

Os Laços
Querendo a tudo amar, trago a alma dolorida,
Porque multipliquei a causa dos tormentos...
Frágeis laços, grilhões inúmeros, cruentos,
Prendem meu coração às coisas desta vida.
.
Tudo a um tempo me atrai e enlaça-me igualmente:
Por seu brilho, a verdade e seus véus, o mistério;
Minha alma se une ao sol num raio de ouro, etéreo,
E em mil fios de seda a cada estrela ardente...
.
A cadência me prende à ária que triste evoca;
Seduz-me a veludez da rosa entre os abrolhos:
Eu de um sorriso fiz o grilhão dos meus olhos
E fiz também de um beijo a cadeia da boca!
.
Assim cativo sou dos seres que adoro, a esmo...
Suspenso é meu viver nesta rede que o enlaça...
E quando o menor sopro entre aqueles perpassa,
Sinto um pouco de mim se arrancar de mim mesmo.

- * -

Les Chaines
J’ai voulu tout aimer, et je suis malheureux,
Car j’ai de mes tourments multiplié les causes;
D’innombrables liens frêles et douloureux
Dans l’univers entier vont de mon âme aux choses.

Tout m’attire à la fois et d’un attrait pareil:
Le vrai par ses lueurs, l’inconnu par ses voiles;
Un trait d’or frémissant joint mon cœur au soleil,
Et de longs fils soyeux l’unissent aux étoiles.

La cadence m’enchaîne à l’air mélodieux,
La douceur du velours aux roses que je touche;
D’un sourire j’ai fait la chaîne de mes yeux,
Et j’ai fait d’un baiser la chaîne de ma bouche.

Ma vie est suspendue à ces fragiles nœuds,
Et je suis le captif des mille êtres que j’aime:
Au moindre ébranlement qu’un souffle cause en eux
Je sens un peu de moi s’arracher de moi-même.
- Sully Prudhomme [tradução Álvaro Reis]. In: Diário íntimo / Pensamentos. Sully Prudhomme. tradução e notas de Mello Nóbrega; estudo introdutivo de Gabriel D’Aubarède; ilustrações de André Hambourg; capa arte de Picasso]. Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Rio de Janeiro/RJ: Opera Mundi, 1973 // {Publicado originalmente em 'Musa Francesa', Salvador, 1917}.


§§

O vaso partido
O vaso azul destas verbenas,
Partiu-o um leque que o tocou:
Golpe subtil, roçou-o apenas,
Pois nem um ruído o revelou.

Mas a ferida persistente,
Mordendo-o sempre e sem sinal,
Fez, firme e imperceptivelmente,
A volta toda do cristal.

A água fugiu calada e fria,
A seiva toda se esgotou;
Ninguém de nada desconfia.
Não toquem, não, que se quebrou.

Assim, a mão de alguém, roçando
Num coração, enche-o de dor;
E ele se vai, calmo, quebrando,
E morre a flor do seu amor;

Embora intacto ao olhar do mundo,
Sente, na sua solidão,
Crescer seu mal fino e profundo.
Já se quebrou; não toquem não.

- * -

Le vase brisé
Le vase où meurt cette vervaine
D'un coup d'éventail fut fêlé;
Le coup dut l'effleurer à peine,
Aucun bruit ne l'a révélé.

Mais la légère meurtrissure,
Mordant le cristal chaque jour,
D'une marche invisible et sûre
En a fait lentement le tour.

Son eau fraîche a fui goutte à goutte,
Le suc des fleurs s'est épuisé;
Personne encore ne s'en doute,
N'y touchez pas, il est brisé.

Souvent aussi la main qu'on aime
Effleurant le coeur, le meurtrit;
Puis le coeur se fend de lui-même,
La fleur de son amour périt;

Toujours intact aux yeux du monde,
Il sent croître et pleurer tout bas
Sa blessure fine et profonde:
Il est brisé, n'y touchez pas.
- Sully Prudhomme [tradução Guilherme de Almeida]. In: Poetas da França. [organização e tradução Guilherme de Almeida]. Bilíngue português-francês. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936.

§§

Prece
Ah! se soubesses como eu choro
Por viver só meus pobres dias,
Muitas vezes por onde eu moro
Tu passarias.

Se soubesses o que revela
Ao triste o olhar de uma alma boa,
Olharias minha janela
Assim, à toa.

Se soubesses como conforta
Uma presença amiga e sã,
Ficarias à minha porta
Como uma irmã.

Se soubesses, se adivinhasses
Como eu te amo, principalmente,
É possível até que entrasses
Bem simplesmente.

- * -

Prière
Ah! si vous saviez comme on pleure
De vivre seul et sans foyers,
Quelquefois devant ma demeure
Vous passeriez.

Si vous saviez ce que fait naitre
Dans l´âme triste um pur regard,
Vous regarderiez ma fenêtre
Comme au hasard.

Si vous saviez quel baume apporte
Au  coeur la présence d´um coeur,
Vous vous assoiriez sous ma porte
Comme une soeur.

Si vous saviez que je vous aime,
Surtout si vous saviez comment,
Vous entreriez peut-ête même
Tout simsplement.
- Sully Prudhomme [tradução Guilherme de Almeida]. In: Poetas da França. [organização e tradução Guilherme de Almeida]. Bilíngue português-francês. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936.

§§

À Margem
Sente-se na beira da água que passa,
E veja isso acontecer; 

Se uma nuvem escorrega no espaço,
Veja-a, ambos, deslize;

Se um telhado de palha esmaga no horizonte,
Assista a fumaça;

Se alguma flor perfume os arredores,
Perfumado nisso também;

Se queremos um pouco de fruta que provam as abelhas,
Tente;

Se nas florestas que o escutam, cantar algum pássaro, 
escute...

Aos pés de um salgueiro, onde a água murmura,
Ouça o murmúrio de água;

E não sentir o tempo passar,
Enquanto esse sonho dura;

Nem colocar uma profunda paixão,
Mais do que adorar;

Não se preocupe com as discussões mundanas,
Ignore-os;

E, sozinho, feliz sem ficar cansado, 
antes de tudo o que cansa;

Sentir, antes de tudo o que acontece,
Não passe o amor!

**

Au bord de l'eau
S'asseoir tous deux au bord d'un flot qui passe,
Le voir passer;

Tous deux, s'il glisse un nuage en l'espace,
Le voir glisser;

A l'horizon, s'il fume un toit de chaume,
Le voir fumer;

Aux alentours, si quelque fleur embaume,
S'en embaumer;

Si quelque fruit, où les abeilles goûtent,
Tente, y goûter;

Si quelque oiseau, dans les bois qui l'écoutent,
Chante, écouter...

Entendre au pied du saule où l'eau murmure
L'eau murmurer;

Ne pas sentir, tant que ce rêve dure,
Le temps durer;

Mais n'apportant de passion profonde
Qu'à s'adorer;

Sans nul souci des querelles du monde,
Les ignorer;

Et seuls, heureux devant tout ce qui lasse,
Sans se lasser,

Sentir l'amour, devant tout ce qui passe,
Ne point passer!
- Sully Prudhomme [tradução Guilherme de Almeida]. In: Poetas da França. [organização e tradução Guilherme de Almeida]. Bilíngue português-francês. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1936.

§§

A Louca
Dia e noite ela errava a ver quem descobria
A flor que vira acaso, um dia, na Alemanha;
Pequena e débil flor, flor como as da montanha,
De um perfume esquisito e de uma cor sombria;
.
Das viagens que fez, trouxe a melancolia
E o incurável pungir dessa lembrança estranha;
Certo encanto mortal, sem dúvida, acompanha
A flor que na Alemanha, acaso, vira um dia.
.
- Quem, porventura, o odor lhe aspira ao cálix, sente
Um novo mundo n'alma, abrir-se de repente -
Dizia ela a morrer saudosa desse odor.
.
Por ela muita gente a planta em vão buscara;
Mas a Alemanha é grande e aquela flor é rara,
E a louca morre, enfim, sem ver de novo a flor.

- * -

La folle
....................... Sonnet.
 
Errante, elle demande aux enfants d'alentour
Une fleur qu'elle a vue un jour en Allemagne,
Frêle, petite et sombre, une fleur de montagne.
Au parfum pénétrant comme un aveu d'amour.

Elle a fait ce voyage, et depuis son retour
L'incurable langueur du souvenir la gagne :
Sans doute un charme étrange et mortel accompagne
Cette fleur qu'elle a vue en Allemagne un jour.

Elle dit qu'en baisant la corolle on devine
Un autre monde, un ciel, à son odeur divine,
Qu'on y sent l'âme heureuse et chère de quelqu'un.

Plusieurs s'en vont chercher la fleur qu'elle demande,
Mais cette plante est rare et l'Allemagne est grande ;
Cependant elle meurt du regret d'un parfum.
- Sully Prudhomme [tradução Raimundo Correia] / (Almanaque da "Gazeta de Noticias" 1886). In: Suplemento Literário d' A Manhã, p, 12, 1941 / Memória BN.

§§

Se eu fora Deus  
Se eu fora Deus à morte arrancaria as garras,
faria os homens bons, aboliria o adeus,
E ninguém chorara mais a não ser de alegria,
Se eu fora Deus

Se eu fora Deus, somente os frutos saborosos
Deixava sazonar; para as amantes seus
O trabalho seria um exercício alegre,
Se eu fora Deus.

Se eu fora Deus, por ti, ó mulher a quem amo,
Eternamente azuis desdobraria os céus;
Mas a mesma, qual és, meu anjo, eu te deixara,
Se eu fora Deus

- * -

Si j'étais Dieu
Si j'étais Dieu, la mort serait sans proie,
Les hommes seraient bons, j'abolirais l'adieu,
Et nous ne verserions que des larmes de joie,
Si j'étais Dieu.

Si j'étais Dieu, de beaux fruits sans écorces
Mûriraient, le travail ne serait plus qu'un jeu,
Car nous n'agirions plus que pour sentir nos forces,
Si j'étais Dieu.

Si j'étais Dieu, pour toi, celle que j'aime,
Je déploierais un ciel toujours frais, toujours bleu,
Mais je te laisserais, ô mon ange, la même,
Si j'étais Dieu.
- Sully Prudhomme [tradução Xavier Marques]. MARQUES, Xavier. A poesia de Xavier Marques (algumas páginas das "Insulares"). Autores e Livros, Suplemento Literário D' A Manhã, n. 17, 7.12.1941 / (fonte: Memória BN)

§§

O cisne
Calmo, do espelho azul d’água profunda e calma
à face errando, os pés, lânguido, o cisne espalma
E desliza. Da neve os raros flocos brancos
Lembra o fino frouxel que lhe amacia os flancos;
Línea vela parece a asa que encurva e brande,
Esbelto, e ora retrai, ora sacode e expande;
Entre as ninféias indo, o alvo pescoço apruma,
Colhe-o após, some-o n’água, estende-o sobre a espuma,
Curva-o mole e gracioso, e ânfora antiga imita.
Dos pinheiros ao longo, onde o silêncio habita
E a paz e a sombra, vai; rastejando na esteira,
Que atrás fica, semelha intensa cabeleira
A basta ervagem fresca a palpitar. A gruta,
Que a alma atrai do poeta e a voz da tarde escuta,
Praz-lhe e a fonte que além flui, regurgita e bolha.
Vendo-as, lento se arrasta. às vezes numa folha
Leve cai do salgueiro e, em sua queda, leve,
Roça-lhe, muda sombra, as plumas cor de neve.
Caminha agora ao largo; o implexo da ramagem
Deixa e a parte procura onde o esplendor selvagem
Diz melhor com o brilhar d’água anilada e pura.
Do lado é a parte mais azul que ele procura;
E lá vai... a cismar sobre as ondas serenas,
Entrega à luz do sol a brancura das penas.
Depois, quando, em redor, se confundem, caindo
A noite, do amplo lago as margens, e no infinito
.
Horizonte há somente um ponto avermelhado;
Quando tudo quedou, quando no ilimitado
Do céu paira da lua o globo enorme e albente;
Quando acende o lampiro a luz fosforescente,
E nem o menor sopro o débil junco embala:
O cisne, sob o olhar dessa noite de opala,
Em seu lago sombrio, enfim, descansa; e, acaso
Visto de alguém, assim, lembra de prata um vaso...
Põe sob a asa a cabeça, os olhos sonolentos
Fecha, e dorme, feliz, entre dois firmamentos.

- * -

Le cygne
Sans bruit, sous le miroir des lacs profonds et calmes,
Le cygne chasse l'onde avec ses larges palmes,
Et glisse. Le duvet de ses flancs est pareil
A des neiges d'avril qui croulent au soleil;
Mais, ferme et d'un blanc mat, vibrant sous le zéphire,
Sa grande aile l'entraîne ainsi qu'un lent navire.
Il dresse son beau col au-dessus des roseaux,
Le plonge, le promène allongé sur les eaux,
Le courbe gracieux comme un profil d'acanthe,
Et cache son bec noir dans sa gorge éclatante.
Tantôt le long des pins, séjour d'ombre et de paix,
Il serpente, et, laissant les herbages épais
Traîner derrière lui comme une chevelure,
Il va d'une tardive et languissante allure.
La grotte où le poète écoute ce qu'il sent,
Et la source qui pleure un éternel absent,
Lui plaisent; il y rôde; une feuille de saule
En silence tombée effleure son épaule.
Tantôt il pousse au large, et, loin du bois obscur,
Superbe, gouvernant du côté de l'azur,
Il choisit, pour fêter sa blancheur qu'il admire,
La place éblouissante où le soleil se mire.

Puis, quand les bords de l'eau ne se distinguent plus,
A l'heure où toute forme est un spectre confus,
Où l'horizon brunit rayé d'un long trait rouge,
Alors que pas un jonc, pas un glaïeul ne bouge,
Que les rainettes font dans l'air serein leur bruit,
Et que la luciole au clair de lune luit,
L'oiseau, dans le lac sombre où sous lui se reflète
La splendeur d'une nuit lactée et violette,
Comme un vase d'argent parmi des diamants,
Dort, la tête sous l'aile, entre deux firmaments.
- Sully Prudhomme [tradução Alberto de oliveira]. In: Poesias completas. Alberto de Oliveira. [edição critica por Marco Aurélio Mello Reis]. Rio de Janeiro: Eduerj, 1978-9. (originalmente publicado em "Autores e Livros", vol. X, n. 13, outubro de 1949, p. 13 / Memória BN)

§§

O Cisne
Sem rumor, sob o espelho em lagos fundos, calmos,
O cisne impele a onda com as amplas palmas,
E desliza. A penugem em seus flancos, tal
Neves de abril tremendo ao sol de forma igual;
Mas, rijo, branco mastro a vibrar pelo vento,
Sua imensa asa o leva assim qual barco lento,
Passa seu belo peito acima de umas plantas,
Mergulha e sobre as águas o alonga, levanta,
Arqueia-o gracioso qual perfil de acanto
E guarda o negro bico em seu colo de encanto.
Ora ao longo dos pinhos, lar de sombra e paz,
Serpeia, deixando ervas espessas atrás
Arrastando-se assim como uma cabeleira,
E segue ele em suave e lânguida maneira.
A gruta onde o poeta escuta o que ele sente
E a fonte que lamenta um sempre eterno ausente
Lhe prazem; Lá gira ele; e a folha de salgueiro
Em silêncio caída, ao seu dorso se abeira.
Quanto mais ele faz-se ao largo; a se afastar
Do bosque escuro e, esplêndido, no azul reinar,
Só elegeu para saudar o alvor que admira
O lugar reluzente em onde o sol se mira.

E depois quando as margens tornam-se confusas,
Na hora onde toda forma é um espectro difuso,
Onde reduz um horizonte em rubro risco,
Enquanto nenhum junco ou espadana pisca,
Com as rãs verdes a soar no sereno ar
E quando o pirilampo refulge ao luar,
A ave, no sombrio lago aonde se reflete
O fulgor de uma noite láctea e violeta,
Como um jarro de prata em meio a diamantes,
Dorme, a cabeça entre asas e dois céus brilhantes.

- * -

Le cygne
Sans bruit, sous le miroir des lacs profonds et calmes,
Le cygne chasse l'onde avec ses larges palmes,
Et glisse. Le duvet de ses flancs est pareil
A des neiges d'avril qui croulent au soleil;
Mais, ferme et d'un blanc mat, vibrant sous le zéphire,
Sa grande aile l'entraîne ainsi qu'un lent navire.
Il dresse son beau col au-dessus des roseaux,
Le plonge, le promène allongé sur les eaux,
Le courbe gracieux comme un profil d'acanthe,
Et cache son bec noir dans sa gorge éclatante.
Tantôt le long des pins, séjour d'ombre et de paix,
Il serpente, et, laissant les herbages épais
Traîner derrière lui comme une chevelure,
Il va d'une tardive et languissante allure.
La grotte où le poète écoute ce qu'il sent,
Et la source qui pleure un éternel absent,
Lui plaisent; il y rôde; une feuille de saule
En silence tombée effleure son épaule.
Tantôt il pousse au large, et, loin du bois obscur,
Superbe, gouvernant du côté de l'azur,
Il choisit, pour fêter sa blancheur qu'il admire,
La place éblouissante où le soleil se mire.

Puis, quand les bords de l'eau ne se distinguent plus,
A l'heure où toute forme est un spectre confus,
Où l'horizon brunit rayé d'un long trait rouge,
Alors que pas un jonc, pas un glaïeul ne bouge,
Que les rainettes font dans l'air serein leur bruit,
Et que la luciole au clair de lune luit,
L'oiseau, dans le lac sombre où sous lui se reflète
La splendeur d'une nuit lactée et violette,
Comme un vase d'argent parmi des diamants,
Dort, la tête sous l'aile, entre deux firmaments.
- Sully Prudhomme, em "Poetas Franceses do Século XIX". [organização e tradução José Lino Grünewald]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

§§

A Filosofia
Uma triste mulher, que em si mesma, silente,
Se abisma, em pé, curvada - eis a Filosofia.
Solitária, na sombra entra, e ali se confia
Aos impulsos da fé que em seu íntimo sente.
.
A terra, as estações, o azul resplandecente,
A volúpia falaz que da vida irradia,
Tudo o que o nosso olhar percebe, a deixa fria:
Ela reclama e busca um sempiterno ausente.
.
Virgem augusta, eu te amo e o teu pesar compreendo;
De ti me aproximando, o meu hálito prendo,
Para não perturbar o teu labor divino,
.
Porque de tua boca eu espero o segredo
Que desejo saber e de que tenho medo:
- Minha origem qual é e qual é meu destino?

- * -

La philosophie
Cette femme qui, triste, en soi-même descend,
Debout, le front penché, c'est la Philosophie.
Solitaire, dans l'ombre elle entre, et se confie,
La main sur la poitrine, à l'appui qu'elle y sent.

La terre, les saisons, l'azur resplendissant,
Toutes les voluptés trompeuses de la vie,
Les choses qu'on peut voir, ne lui font point envie,
Elle réclame et cherche un éternel absent.

Vierge auguste, je t'aime et je connais ta peine.
En approchant de toi, je retiens mon haleine,
Pour que nul souffle humain ne trouble ton labeur,

Car j'attends de ta bouche à se taire obstinée
Le mot que je désire et dont pourtant j'ai peur,
Le mot de ma naissance et de ma destinée.
- Sully Prudhomme [tradução Antônio Sales, 1907]. In: O Soneto. {ensaio}. de Cruz Filho. Rio de Janeiro, Organizações Simões, 1961.

§§

O Estrangeiro
Pergunto muita vez: De que raça és nascido?
Nada há que tenha o dom de prender-te ou encantar-te;
Nada que o pensamento e os sentidos te farte;
Fazes supor que um bem infindo te é devido.
.
Que paraíso, entanto, hás tu jamais perdido?
De que causa superna empunhaste o estandarte
Para ver só miséria e vício em toda a parte,
Que virtude e beleza inatas te hão nutrido?
.
À saudade de um céu, que eu entrevejo obscuro,
Ao meu tédio divino, uma origem procuro,
Que em meu peito de argila indistinta se some...
.
E das dores que exprime a espantar-me o primeiro,
Sinto chorar em mim um sublime estrangeiro
Que sempre me ocultou sua pátria e seu nome.

- * -

L' Estranger
Je me dis bien souvent: De quelle race es-tu?
Ton coeur ne trouve rien qui l'enchaine ou ravisse,
Ta pensée et tes sens, rien qui les assouvisse:
Il semble qu'un bonheur infini te soit dû.
.
Pourtant, quel paradis as-tu jamais perdu?
A quelle auguste cause as-tu rendu service?
Pour ne voir ici-bas que laideur et que vice,
Quelle est ta beauté propre et ta propre vertu?
.
A mes vagues regrets d'un ciel que j'imagine,
A mes dégoûts divins, il faut une origine:
Vainement je la cherche en mon coeur de limon;
.
Et, moi-même étonné des douleurs que j'exprime,
J'écoute en moi pleurer un étranger sublime
Qui m'a toujours caché sa patrie et son nom.
- Sully Prudhomme [tradução Antônio Sales, 1907]. In: O Soneto. {ensaio}. de Cruz Filho. Rio de Janeiro, Organizações Simões, 1961.

§§

As lembranças
............... A senhora Marthe Guéroult.

Das velhas impressões da infância a ideia grata
perdura-nos fiel, volvam embora os anos;
em vão do nosso Abril as flores sofrem danos,
a imagem delas fica indelével, exata.

Ao contrário, ai de nós! — ninguém conserva intata
a memória, apesar de esforços sobre-humanos,
das novas emoções, efêmeros enganos,
cujo traço se apaga apenas se retrata.

Como esperto escanção que no banquete a taça
entretém sempre cheia, a cada vez que passa,
passa o tempo e nos enche a memória também.

A lembrança mais nova é a gota derradeira,
que ao choque mais sutil, transborda e cai;
porém, no fundo permanece a primitiva inteira.

- * -

Les Souvenirs 
....................... Sonnet 

............... A Madame Marthe Guéroult.

De nos émois d’enfantt le lointain souvenir
Nous est fidèle encore, en dépit des années ;
Les fleurs de notre avril en vain se sont fanées,
Leurs images en nous ne se peuvent ternir.

Mais au contraire, hélas ! voulons-nous retenir
De nos impressions les plus récemment nées,
Elles s’effacent vite et meurent, condamnées,
Moins anciennes dans l’âme, à plus tôt y finir.

Comme un prompt échanson qui, sans reprendre haleine,
Passe devant la coupe et la tient toujours pleine,
Le temps passe et remplit la mémoire à plein bord.
 
Le souvenir nouveau, c’est la dernière goutte
Qui sous le moindre heurt s’en échappe d’abord,
Tandis que la première au fond demeure toute.
- Sully Prudhomme [tradução Augusto de Lima]. In: Poesias. Augusto de Lima. Coleção Afrânio Coutinho, n. 82. – Rio de Janeiro: ABL, 2008, p. 165. (fonte: ABL)

§§

Ele era um homem doce...
Ele era um homem doce, embora delicada
A saúde. E polindo os vidros às lunetas
Pôs a essência divina em fórmulas corretas,
Tão claras que trazia a multidão pasmada.
.
Demonstrava, prudente, e com simplicidade,
Que são o bem e o mal velharias pequenas,
E que os livres mortais são títeres apenas,
Cujos fios maneja a atroz necessidade.
.
Piedoso admirador da Sagrada Escritura,
Não queria ali ver um Deus contra natura,
E a ele a Sinagoga opunha-se raivosa.
.
Longe dela, polindo os vidros das lunetas,
Os sábios ajudava a contar os planetas:
Ele era um homem doce, o Baruch de Espinosa.

- * -

C’etait un homme doux...
C’était un homme doux, de chétive santé,
Qui, tout en polissant des verres de lunettes,
Mit l’essence divine en formules très nettes,
Si nettes que le monde en fut épouvanté.
.
Ce sage démontrait avec simplicité
Que le bien et le mal sont d’antiques sornettes
Et les libres mortels d’humbles marionnettes
Dont le fil est aux mains de la nécessité.
.
Pieux admirateur de la sainte Ecriture,
Il n’y voulait pas voir un dieu contre nature ;
À quoi la synagogue en rage s’opposa.
.
Loin d’elle, polissant des verres de lunettes,
Il aidait les savants à compter les planètes.
C'était un homme doux, Baruch de Spinoza.
- Sully Prudhomme [tradução tradução José Jeronymo Rivera]. In: Poesia francesa: pequena antologia bilíngue. organização e tradução José Jeronymo Rivera. 2ª edição revista e aumentada. Brasília: Editora Thesaurus, 2005.

§§

Um sonho
Em sonho me disse o lavrador; “Faze teu pão.
Não contes mais comigo.: cava a terra e semeia”.
Disse-me o tecelão: “Tua roupa, faze tu mesmo”.
E me disse o pedreiro: “Pega a colher de mão”.

Sozinho, abandonado por todo o gênero humano,
Cujo implacável anátema por toda a parte arrastava,
Ao suplicar aos céus pela piedade humana,
Diante do meu caminho leões, atentos, encontrei.

Os olhos abri, não crendo que fosse real a aurora.
Valentes operários de construção, em suas escadas, assobiavam.

A felicidade conheci, e mais, no mundo onde vivemos
Ninguém se gabar pode de ser melhor do que outrem..
Daquele dia em diante, a todos passei a amar.

- * -

Un songe
Le laboureur m’a dit en songe: “Fais ton pain”;
Je ne te nourris plus: gratte la terra, et sème”.
Le tisserand m’a dit: Fais tes habits toi-même”
Et le maçon m’a dit: “Prends la truelle en main.”

Et seul, abandoné de tout le genre humain,
Don’t je traînais partout l’impacable anathème
Quand j’implorais du ciel une pitié suprême,
Je trouvais dês lions debout dans monchemi.

J’ouvris les yeux , doutant si l’aube était réele:
De hardis companagnons sifflaient sur leur échelle,
Les métiers bourdonnaient, les champs étaient semés.

Je connus mon bonheur, e qu’au monde où nous sommes
Nul ne peut se vaner de se passer des hommes;
Et depuis ce jour-là, je les ai tous aimés.
- Sully Prudhomme [tradução Cunha e Silva Filho]. In: As Ideias no Tempo - Cunha e Silva Filho, 2 de agosto de 2011.

§§

Prece
Se tu soubesses como eu choro
De só viver todos os dias,
Talvez, por vezes, onde eu moro
......... Tu passarias.
 
Se tu soubesses que degredo
Faz n’alma triste um puro olhar,
Talvez me olhasses em segredo
......... Como a brincar.

Se tu soubesses que conforta
Ter junto a si uma alma sã,
Talvez parasses nesta porta,
......... Como uma irmã.


Se tu soubesses que eu te adoro
E como o faço ardentemente,
Talvez entrasses onde eu moro,
......... Só, simplesmente.

- * -

Prière
Ah! si vous saviez comme on pleure
De vivre seul et sans foyers,
Quelquefois devant ma demeure
Vous passeriez.

Si vous saviez ce que fait naitre
Dans l´âme triste um pur regard,
Vous regarderiez ma fenêtre
Comme au hasard.

Si vous saviez quel baume apporte
Au  coeur la présence d´um coeur,
Vous vous assoiriez sous ma porte
Comme une soeur.

Si vous saviez que je vous aime,
Surtout si vous saviez comment,
Vous entreriez peut-ête même
Tout simsplement.
- Sully Prudhomme [tradução Ives Gandra Martins]. In: MARTINS, Ives Gandra. O Livro de Ruth - Obra poética. Academia Paulista de Letras, 2014, p. 195. 

§§

Um homem bom
Soneto

Era um homem tão doce, de saúde frágil,
Que de tanto polir os cristais de mil lentes,
Pôs a essência divina numa fórmula ágil,
E o mundo apavorado o viu como um descrente.

O sábio demonstrou com um simples adágio
Que tanto o bem quanto o mal são velhos dementes,
E os mortais são fantoches que devem seu ágio
Aos fios necessários de mãos descontentes.

Admirador devoto da Santa Escritura,
Não poderia ver um Deus contra a natura,
Ao qual a sinagoga se opunha raivosa.

Longe dela, polia os cristais de mil lentes,
E socorria os sábios contando astros e entes.
Era um homem tão doce, Bento de Espinosa. 

- * -

Un bonhomme
............................................. Sonnet

C’était un homme doux, de chétive santé
Qui, tout en polissant de verres des lunettes,
Mit l’essence divine en formules très nettes,
Si nettes, que le monde em fut épouvanté,

Ce sage demonstrait, avec simplicité.
Que le bien et te mal sont d’antiques sornettes,
Et les libres mortels d’humbles marionettes,
Dont le fil est aux mains de la necessité.

Pieux admirateur de la Sainte Ecriture
Il n’y voulait pas voir un Dieu contre nature,
A quoi la Synagogue en rage s’opposa.

Loin d’elle polissant des verres des lunettes,
Il aidait les savants à compter les planètes,
C’était un homme doux Baruch de Spinoza.
- Sully Prudhomme [tradução João Filho]. In: JOÃO Filho. Spinoza por Borges, Prudhomme e Machado de Assis. In: Jornal Opção, 21 de março 2017.

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  • Portrait_of_Sully_Prudhomme


SULLY PRUDHOMME E  GABRIEL FAURÉ  / TRADUÇÕES PORTUGUESAS


À beira da água
Sentarmo-nos juntos à beira de uma corrente que passa;
Vê-la passar;
Juntos, se uma nuvem deslizar no espaço,
Vê-la deslizar;
No horizonte, se fumegar um telhado de colmo,
Vê-lo fumegar;
Nas imediações, se uma flor exalar um perfume suave,
A sua fragrância aspirar;
Ouvir no pé do salgueiro, onde a água murmura,
A água murmurar
Não sentir, enquanto este sonho dura,
O tempo passar;
Mas não causando paixão profunda
senão se adorar;
Sem se incomodar com as questões do mundo,
As ignorar;
E sós, juntos perante tudo o que cansa,
Sem se cansar,
Sentir o amor, perante tudo o que passa,
Nunca passar.

**

Au bord de l’eau
S’asseoir tous deux au bord d’un flot qui passe,
le voir passer ;
Tous deux, s’il glisse un nuage en l’espace,
le voir glisser ;
A l’horizon, s’il fume un toit de chaume,
le voir fumer;
Aux alentours si quelque fleur embaume,
s’en embaumer;
Entendre au pied du saule où l’leau murmure
l’eau murmurer;
Ne pas sentir, tant que ce rêve dure,
le temps durer;
Mais n’apportant de passion profonde
qu’à s’adorer,
Sans nul souci des querelles du monde,
les ignorer;
Et seuls, tous deux devant tout ce qui lasse,
sans se lasser,
Sentir l’amour, devant tout ce qui se passe,
ne point passer!
- Sully Prudhomme [tradução Maria de Nazaré Fonseca]. In: Gabriel Fauré. obras - letras de canções. Antena 2 - RTP, s/data.

>> Op. 8: No. 1, Au bord de l'eau · Composer: Gabriel Fauré / Poet: Sully Prudhomme | Sabine Devieilhe (soprano) · Alexandre Tharaud (piano). clique aqui.

§§

Os berços 
Ao longo do cais, os grandes barcos,
Que as vagas inclinam em silêncio,
Não prestam atenção os berços
Embalados pelas mãos das mulheres.

Mas virá o dia da despedida,
Para as mulheres chorarem,
E os homens curiosos
Os horizontes, que seduzem, tentarem.

E nesse dia os grandes barcos,
Deixando o porto que se torna mais pequeno,
Sentem a sua massa retida
Pelo som dos distantes berços.

**

Les berceaux 
Le long du quai les grands vaisseaux,
que la houle incline en silence,
ne prennent pas garde aux berceaux
que la main des femmes balance.

Mais viendra le jour des adieux,
car il faut que les femmes pleurent,
et que les hommes curieux
tentent les horizons qui leurrent.

Et ce jour-là les grands vaisseaux,
fuyant le port qui diminue,
sentent leur masse retenue
par l’âme des lointains berceaux.
- Sully Prudhomme [tradução Maria de Nazaré Fonseca]. In: Gabriel Fauré. obras - letras de canções. Antena 2 - RTP, s/data.

>> Op. 23: No. 1, Les berceaux · Composer: Gabriel Fauré / Poet: Sully Prudhomme | Sabine Devieilhe (soprano) · Alexandre Tharaud (piano). clique aqui.

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SUELLY PRUDHOMME - POEMAS MUSICADOS
:: Sully Prudhomme (1839-1907) - Œuvres musicales de cet auteur. In: BNF - Biblioteca Nacional da França. Disponível no link. (acessado em 22.3.2024)
:: Le poète Sully Prudhomme, dont Gabriel Fauré a mis en musique plusieurs ouvrages, notamment les Berceaux. In: Agorha. Disponível no link (acessado em 22.3.2024)
:: Huit compositeurs pour des poèmes du parnassien Sully Prudhomme. In: Crescendo - Magazine, 20 janeiro 2022. Disponível no link (acessado em 22.3.2024)

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  •  Sully Prudhomme (1839-1907), dessin par Émile Cohl, Les Hommes d'aujourd'hui, n°284, 1886.

EXCERTOS DO DIÁRIO ÍNTIMO E PENSAMENTOS DE SULLY PRUDHOMME


1862
Quinta-feira, 2 de outubro

Momentos de tédio: a vida vale ser vivida? Trabalhei numa estátua de barro. Reflexões sobre a arte; é necessário adestramento, há em tudo um pouco de ofício, o ofício é a habilidade adquirida pelo hábito, é a relação do artista com a matéria. Resta o sentimento: há muitos artistas de sensibilidade; mas o verdadeiro artista quer gozá-la, exprimindo-a... A arte aborrecer-me-ia, pelas resistências da matéria e pela futilidade de um labor minucioso...

Uma mulher de natureza verdadeiramente casta é incorruptível; acreditarei menos facilmente nas quedas morais das mulheres angelicais.
- Sully Prudhomme, em "'Diário íntimo e Pensamentos' / 'Journal intime - Pensées'". [tradução e notas de Mello Nóbrega; estudo introdutivo de Gabriel D’Aubarède; ilustrações de André Hambourg]. Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Rio de Janeiro/RJ: Opera Mundi, 1973.

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1862

Segunda-feira, 13 de outubro

Pela manhã, tristeza. Minha mãe. Diante de Santo Eustáquio, raio de sol em minha alma: ó vós, homens, eu vos amo; a felicidade é possível, é possível! Estas crises de alegria duram me um minuto, no máximo, o tempo suficiente para mergulhar a cabeça na água refrescante e retirá-la, o tempo necessário à esperança para passar, voando, através da noite do pensamento, e afastar-se...

...Poema a escrever sobre a miséria humana, pondo- me deste ponto de vista: o homem está organizado para agir e gozar indeterminadamente, pelo princípio da ação e do gozo, sem reflexo sobre o jogo de suas faculdades, sobre as leis do universo... O homem, entretanto, quis encontrar a razão de sua felicidade, para desvendá-la e aumentá-la...

Estúpidos hipócritas, os que suspiram com ternura e comem o que foi vivo; o animal não é, para eles, senão um alimento; têm uma moral particular, boa para eles, boa para os homens... A natureza deve parecer muito imoral, se raciocinarem com lógica.

Compro Fausto. Que poema! Goethe escreveu-o aos vinte e três anos, minha idade. Pois bem! este poema nada me ensina; não encontro, nele, uma dor que me seja estranha, um pensamento que não tenha tido; mas quanta profunda reflexão, quantas minúcias engenhosas de poderoso efeito! Que sobriedade! Que força e, também, que graça! Vinham-me as lágrimas aos olhos e não podiam correr, pela opressão de meu coração. Essa leitura comoveu-me ainda mais que as anteriores; eu estava predisposto a sofrê-la... Aqui, estou à vontade, posso exprimir minhas emoções por gritos e exclamações, o que não é permitido nos livros, excetuados os ais! que nunca se soltam em outros lugares. Tudo, entretanto, é grito e exclamação na alma; o sofrimento é um grito íntimo prolongado, e é isso que o diferencia da sensação, que é toda arrebatamento...

Consideração sobre a morte: o cúmulo da miséria do homem é o medo do que poderia libertá-lo dela, o medo da morte. Não se pode, sem estremecer, pensar na verdadeira dor: não ter amigos numa grande cidade muito agitada, padecer fome, sentir frio, estar doente e sozinho... E Deus ausente, mudo... Precisamos sempre de alguém, queixamo-nos, sofremos como crianças mimadas; mas estar só, às garras da miséria inevitável e brutal, isso não consigo imaginar... Benigna melancolia de poeta! tudo, em mim, é medíocre, até a infelicidade.

Parece-me, às vezes, que o amor não é digno de inspirar uma grande obra, porque ele envolve a mulher, que é ignorante, vã, frívola; muitas vezes, porém, acho que o amor penetra a natureza; adivinha-a, pressente-a, torna-se iniciador e profético e não admito mais uma grande obra sem ele. Assim, Margarida abre, em Fausto, jovem, da roca e do beijo; trata-se de bondade, de piedade imensa de um Deus pelo mundo; um sorriso cândido, e o Criador fica justificado!... O amor, nesse último caso, lembra a graça dos católicos.
- Sully Prudhomme, em "'Diário íntimo e Pensamentos' / 'Journal intime - Pensées'". [tradução e notas de Mello Nóbrega; estudo introdutivo de Gabriel D’Aubarède; ilustrações de André Hambourg]. Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Rio de Janeiro/RJ: Opera Mundi, 1973.

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1862

Quarta-feira, 15 de outubro

Serei breve porque os olhos me ardem; acabo de ler, à luz da vela, durante três horas, em casa de Fontenoy. Filosofia, desde duas horas até às sete. Vacherot: obra prodigiosa, sólida; ele será menos lido que Dumas; os homens não estão preparados para a metafísica; é um grande esforço e não exercício ordinário e sadio da inteligência. Leibnitz: tinha uma ideia exata de seu sistema; Vacherot abalou-a, apenas.

...Ruffin é, decididamente, desfavorável ao meu poema sobre a Dor. Sou um poeta? Sou um filósofo? Agradeço a Deus não me haver mutilado, fazendo de mim um ou outro. A filosofia permite-me mergulhar em profundidades vertiginosas e a poesia me permite sentir, aí, o horror do infinito e a admiração da natureza viva. Nestes últimos dias dediquei-me à álgebra, parando nas séries, e voltarei a fazê-lo para ter certeza da saúde do espírito, depois desses estudos metafísicos que são sua ambição e seu desespero. Estou satisfeito, entretanto, com a minha meditação psicológica: no homem não há contradições. Vauvenargues disse a verdade, mas há leis secretas que hei de arrancar à noite da consciência; então, as reflexões paradoxais dos moralistas à maneira de La Rochefoucauld e as observações intuitivas de La Bruyere e Montesquieu terão lugar na ciência da alma: em lugar de um espírito brilhante, teremos demonstrações. - É meia-noite, vamos dormir.
- Sully Prudhomme, em "'Diário íntimo e Pensamentos' / 'Journal intime - Pensées'". [tradução e notas de Mello Nóbrega; estudo introdutivo de Gabriel D’Aubarède; ilustrações de André Hambourg]. Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Rio de Janeiro/RJ: Opera Mundi, 1973.

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1863
Quinta-feira, 19 de fevereiro

É preciso saber dizer a si mesmo: não podes, não deves...

Estou como que aturdido. - Os homens passam, vão e vêm em torno de mim, como sombras coloridas e sonoras; não consigo, sequer, ter consciência de mim mesmo; estou como um ser livre, a flutuar, paralisado, sobre um mar fatal; todas as influências brincam com a minha vontade e eu pergunto: para quê? O vocábulo Deus nada mais significa para meu espírito. Há, a dois passos de mim, para homens rudes, felicidades que ultrapassam minhas ambições: possuir uma mulher amorosa, boa, oh! boa, isto é, cheia de piedade para essas dores inexprimíveis que estão no coração, sem que a boca ache nome para dar-lhes. E essa mulher sofre, ela, que eu deveria consolar, por minha vez, por uma delicada adoração.

"Não creias, amigo, que o homem seja capaz de sentir tanta felicidade quanta é capaz de conceber; há no desejo e na imaginação menos força que na sensibilidade. Que te seja dado, de repente, viver em uma terra deliciosa, aquela que, neste inverno, pisando 0 calçamento de madeira, imaginávamos em cores tão vivas; hás de querer percorrê-la, nela viver sempre, acreditarás poder gozá-la, mas o coração impotente não cumprirá as promessas do cérebro. Sentirás a surpresa, o embaraço de uma existência inteiramente nova, tranquila e ampla, para a qual uma vida estreita e atormentada te fez incapaz para sempre. Provamos sentimento semelhante ao contemplar o céu das noites de verão; os poetas o cantam em vão; não tiram dessa contemplação todo o prazer que dizem; o espetáculo nada mais faz do que convidá-los para uma alegria que alcançam, mas que Ihes escapa. Essa emoção incompleta, sinto-a hoje. Esta jovem, bela e altiva, que respira um ar feito, por assim dizer, de louvores e homenagens e cujos provocantes caprichos são espreitados como outras tantas ocasiões de solicitar seu sorriso, esta jovem chega-se a mim, estende-me a mão, a mim só, deixa-me apertá-la (poderei afirmá-lo sem duvidar?), retribui essa carícia com um aperto mil vezes mais terno. Pois bem! não sei por que, mas esta sorte extraordinária espanta-me, angustia-me e, em lugar de saborear a infinita doçura, tremo, não me sinto digno dela, desejo ser um anjo para merecer uma felicidade divina e, se amanhã não fosse mais aceito, não sentiria senão a desilusão que se segue a um belo sonho interrompido pelo despertar, ou a restituição prevista de um bem achado, que nos reclamam..." 
- Sully Prudhomme, em "'Diário íntimo e Pensamentos' / 'Journal intime - Pensées'". [tradução e notas de Mello Nóbrega; estudo introdutivo de Gabriel D’Aubarède; ilustrações de André Hambourg]. Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Rio de Janeiro/RJ: Opera Mundi, 1973.


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1864
Quinta-feira, 28 de janeiro de 1864

Senti-me, hoje, senhor de um princípio estético fundamental, a unidade de composição, e do verdadeiro meio de expressão, a absoluta propriedade dos termos. Um artista não está completo enquanto essas coisas não façam sentido para ele. A composição é una, ou, mais simplesmente, há composição quando tudo, na obra, concorre para um efeito único, pela propriedade das comparações e por sua sobriedade. Certas comparações são mais ricas do que seria desejável e introduzem aspectos novos que acarretam distrações ao espírito, destruindo a unidade de efeito; assim, extrema simplicidade da comparação, que não é pobreza, mas força e verdade.

Acrescentemos a essa qualidade das comparações o que é ainda mais importante para a composição, isto é, a relação das ideias acessórias com a ideia principal; aquelas devem afluir a esta, como os córregos aos ribeiros e os ribeiros aos rios. Toda essa retórica tão gritada porque não passa de teoria, torna-se surpreendentemente certa e precisa quando é descoberta; em matéria de letras e de filosofia, quase nada se aproveita do que vem do professor. A expressão, a meu ver, pode ser definida: o exato reflexo do pensamento no mundo exterior em qualquer espelho, quer seja linguagem, mármore ou tela.

Eis, sobre o assunto, uma imagem bem expressiva: o trabalho do escultor é triplo; ele procura, em primeiro lugar, a atitude de sua personagem, trabalho de composição; depois estuda a representação natural, anatômica dos membros, trabalho de expressão especial (a expressão do conjunto deve resultar desta, mas principalmente da composição); enfim, retoca e acaba o esboço, de maneira que o barro fique limpo, puro, liso como bronze, trabalho um pouco mecânico, mas que será uma necessidade para o artista elegante. Aplico essa distinção às obras literárias. O corpo humano é um excelente modelo de unidade; não há, nele, atitude que não se estenda a todas as suas partes, até às extremidades; é, por isso, incomparável órgão de expressão. É preciso que toda obra seja como um corpo humano, harmoniosa como um rosto. Não quero que esta imagem me abandone; ela será minha regra e meu modelo.
Não procuremos a elegância fora da exatidão, porque, de duas, uma: ou exprimiremos fielmente o que sentimos, e nada mais poderemos conceber que não seja supérfluo, ou teremos ficado fora de nós mesmos, e não haverá encantos estranhos que possam evitar esse vício essencial. O estilo não pode valer mais do que o pensamento, porque depende exclusivamente dele, não existindo senão dele e para ele. Qualquer adorno que não valorize a ideia ou o pensamento, que poderá ser?

Excrescência, parasita agradável, mas indiscreto. É verdade que, por longo uso, uma espécie de hábito
adquirido pelo ouvido, as palavras têm virtude própria, como a escala musical, por sua disposição, podendo agradar a um sentido que em nós se criou e que podemos confundir com o que denominamos gênio da língua. Este novo sentido é muito curioso: é tão restrito à música das línguas que os bons poetas são músicos detestáveis. O prosador pode dispensá-lo mais facilmente que um poeta; Montaigne, muitas vezes combatido, não deixa de ser o primeiro estilista, pelo singular vigor da expressão; Ronsard possui tal sentido em alto grau; Lamartine sacrificou o pensamento. A superioridade de um Musset consiste na perfeita aliança do gênio da língua com a propriedade de expressão. O maior poeta é o que
sabe encontrar a nota para cada impressão, fazê-la soar sobre as demais, tangê-la intensamente.

O autor deve prevenir-se contra sua situação especial: é, ao mesmo tempo, quem pensa e quem exprime, e o público lê antes de assimilar o pensamento. Daí um perigo para o autor que se julga e se crê no lugar do leitor; pois o que ele acaba de escrever é um sinal sempre suficiente para ele, que já conhece o assunto ou, pelo menos, esse sinal parece sempre de algum modo correlativo a seu objeto, pois está em suas mãos a ponta da linha que os liga. Queira ou não queira, o autor vai da ideia à palavra; o leitor, ao contrário, da palavra à ideia, devendo abrir a mesma porta com a chave que é dada; o autor, ao reler-se, já está em casa e a chave atrapalha-o mais do que o ajuda. Quantos molhos de chaves cujas fechaduras jamais se encontraram! Compreendo por que Horácio quer que se deixe a obra dormir por tanto tempo, para que o autor se habilite à autocrítica; quer que ele saia de casa e, depois de longa ausência, encontre tudo fechado; quer que ele seja capaz de ir, da palavra que ficou, à ideia esquecida.

O autor tem estranhos escrúpulos; o que acaba de escrever é sublime ou ininteligível, segundo o ângulo de sua crítica; sua visão embota-se, perde o tato literário, é indispensável que procure um juiz para sofrer as mais cruéis decepções ou receber revelações que 0 assombram, sobre o valor de sua própria obra.

Encontro com Charles L...; vai casar-se. Sua tristeza, no dia em que completa trinta anos.
A natureza de meu desencorajamento; é, antes, indiferença pela vida. Já não rio. Andei estudando o emprego de minha mocidade e sobre a aplicação de minhas alegrias, e eis que a mocidade me foge e as alegrias também; a existência é muito curta para tais experiências; é preciso decidir imediatamente: contentar- se com o que se tem ou agarrar-se ao que seduz, de passagem. Imensa influência da vontade sobre as impressões; não quis sentir o que me afetava e fui afetado por meus devaneios. Soneto sobre a Sieste. Acabamos requintados e falsos, quando procuramos a delicadeza. Estranho ponderador íntimo de nossas concepções. 
- Sully Prudhomme, em "'Diário íntimo e Pensamentos' / 'Journal intime - Pensées'". [tradução e notas de Mello Nóbrega; estudo introdutivo de Gabriel D’Aubarède; ilustrações de André Hambourg]. Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Rio de Janeiro/RJ: Opera Mundi, 1973.


  • Sully Prudhomme - poeta e ensaísta francês


MANUSCRITOS / CARTAS



  • Carta de Dom Pedro II ao poeta francês Sully Prudhomme

  • Reprodução e tradução de uma das carta escritas por D. Pedro II a Sully Prudhomme — foto:  Aline Rickly/G1


  • Sully Prudhomme - poeta e ensaísta francês

FORTUNA CRÍTICA DE SULLY PRUDHOMME

ARGON, Maria de Fátima Moraes. D. Pedro II e Sully Prudhomme, dois confrades do Instituto de França. In: Tribuna de Petrópolis, edição de 2.12.2017 / reproduzido no Blog do IDII, 4.12.2017.
BEDIAGA, Begonha (Org.). “Diário do Imperador D. Pedro II (1840-1891)”. Petrópolis: Museu Imperial, 1999. Disponível no link. (acessado em 22.3.2024)
FALEIROS, Álvaro. Os tempos de Mallarmé nas antologias brasileiras de poesia traduzida. In: Revista Letras,. Curitiba, UFPR, n. 95 143‑163, Jan/Jun 2017. Disponível no link. (acessado em 22.3.2024) *Ver referências de Sully Prudhomme nas antologias citadas.
FERNANDES, Aglaé. A poesia traduzida e o Modernismo brasileiro. In: Fragmentos, v. 23 n. 1, p. 62-71, Florianópolis/ jan - jul/ 2016. Disponível no link. (acessado em 22.3.2024). 
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  • Sully Prudhomme - poeta e ensaísta francês


Sully Prudhomme - poeta e ensaísta francês

Sully Prudhomme (1902) - par Léon Printemps


Portrait de Sully Prudhomme (1879), par Carolus-Duran


© Pesquisa, seleção, edição e organizaçãoElfi Kürten Fenske
© Seleção e organização dos poemasJosé Alexandre da Silva


© Direitos reservados ao autor/e ou seus herdeiros

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COMO CITAR:
FENSKE, Elfi Kürten; SILVA
José Alexandre da. (pesquisa, seleção, edição e organização). Sully Prudhomme - poeta e ensaísta francês. In: Templo Cultural Delfos, março/2024. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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:: Página atualizada em 24.3.2024.
:: Página original de MARÇO/2024


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