Isabel Ferreira - memória e silêncio

 
Isabel Ferreira - foto: © Arquivo pessoal 


© Pesquisa, seleção, edição e organização: Elfi Kürten Fenske
Por gentileza citar conforme consta no final desse trabalho.


"Nada me acolhe. Nada me acalma
Caminho no silêncio das horas
O Grande Espectador do Mundo capta sons e imagens"
- Isabel Ferreira, do poema "Silêncio das horas", 
no livro "O leito do silêncio". Kujiza Kuami, 2014.

 ESBOÇO BIOBIBLIOGRAFICO DE ISABEL FERREIRA

Isabel Ferreira nasceu em Luanda, em 24 de Maio de 1958, é formada em Direito, em Angola, e pela Escola Superior de Teatro e Cinema na Amadora, Portugal. Escritora. Membro da União dos Escritores Angolanos.

Isabel Ferreira começou a vida artística no agrupamento musical FAPLA-POVO, pertenceu ao Grupo Amador de Dança e ao Grupo Experimental de Teatro do então Conselho Nacional da Cultura de Angola. Na Televisão Pública de Angola colaborou nos programas O Carrossel e Tempo Jovem. 

Publicou as seguintes obras: Poesia - Laços de amor (1995); Caminhos ledos (1996); Nirvana (2004); À margem das palavras nuas (2006) e O leito do silêncio (2014). Ficção - Fernando D'Aqui (2005); O guardador de memórias (2008). Contos - O coelho conselheiro; Matreiro e Outros contos que eu te conto (2012). Participou de diversas antologias poéticas. 


Isabel Ferreira - foto: © Arquivo pessoal 

OBRA DE ISABEL FERREIRA


Romance
:: Fernando D'Aqui: a picante doçura do feitiço angolano.. Isabel Ferreira. [prefácio Urbano Tavares Rodrigues]. Luanda: Kujiza Kuami, 2007.
:: O guardador de memóriasIsabel Ferreira. Luanda: Kujiza Kuami, 2008.

Poesia
:: Laços de amor: poemas. Isabel Ferreira. Luanda: Edição da autora, 1995.
:: Caminhos ledos. Isabel Ferreira. Luanda: Lito Tipo, 1996.
:: Nirvana. Isabel Ferreira. 2004.
:: Remando daqui. Isabel Ferreira. 2005.
:: À margem das palavras nuas. Isabel Ferreira. 2007.
:: O leito do silêncio. Isabel Ferreira. Luanda: Kujiza Kuami, 2014.
 
Conto - infanto-juvenil
:: O coelho conselheiro Matreiro e Outros contos que eu te conto. Isabel Ferreira. [ilustrações Micéu Nunes; revisão Anabela Macedo]. Luanda: Kujiza Kuami, 2012.

Em Antologia (participação)
:: O Amor tem asas de ouro. Antologia da poesia feminina angolana. [organização Filomena Gioveth e Seomara Santos]. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005.
:: Todos os sonhos: Antologia da poesia moderna angolana. [organização Adriano Botelho de Vasconcelos]. Luanda: União dos Escritores Angolanos, 2005. 
:: Literaturas africanas: Narrativas, identidades, diásporas [organização Franciane Conceição da Silva]. Colatina: Clock-Book, 2016.

"- Vai e saberás o que te espera. Acredito que te conhecerás. Depois de ouvires e presenciares algo que te liga à tua vida e ao teu passado. Não sabes nada do teu passado. E o que sabes é pouco. Terás que desvendar os mistérios de tua vida, para este Reino. Vieste fora do tempo. Precisas de te perder para te reencontrar. Nós não te queríamos aqui tão cedo. Agora recebe esta missão, ou senão sofrerás as agruras da rejeição."
- Isabel Ferreira, no livro "O guardador de memórias". Edições Kujizakuami, 2008.

Isabel Ferreira - foto: © Arquivo pessoal 

SELETA DE POEMAS DA POETA ISABEL FERREIRA


A voz do silêncio
Curvou-se o tempo...
As paredes marcam as arestas da nossa equação
Peço-te três coisas a vanguejar:
Candelabro aceso, doçura nos lábios e ritmo na
dança.
Oiço o prenúncio do Banquete de Eros.
Altivo-me ante o tempo...
Na gestão do silêncio, acendo a minha candeia!

Abro-me ao enlevo, qual cortina que esvoaça...
Na cadência dos passos caminho, qual Judite
Entrego-me à levidade do meu, teu corpo.

E nos vales ritmados das múltiplas noites
Falo-te das arestas e esperanças que nos orlam
O nosso tempo não é um tempo áureo.

No leito és como vento ao entardecer!
Os lençóis arquivam os nossos actos.
O vale da brisa do teu beijo não mais me despe...
Nem o aroma do teu beijo me ergue o desejo.
Não te rogo, exijo:
- Reinventa a vida entre nós ...
Sem as centelhas da traição!
- Isabel Ferreira, no livro "O leito do silêncio". Kujiza Kuami, 2014

§§

Cântico maternal
Noite...
A noite vestiu-se em cantos silentes.
A soneira vagueia entre os lençóis macios.
O materno embala o seu enfermo petiz.

O pai! Um ausente ou nunca presente?

Desconhece quem te aninha, quem te afaga!
Canta a mãe numa voz que esmaece.

Embala a dor de ambos.
O petiz cresceu. Comeu das mãos da mamã negra
angolana.
Comeu: fungê e feijão!

O filho xinga aquela que um dia
Tantos dias o seu sono velou.
- Isabel Ferreira, no livro "O leito do silêncio". Kujiza Kuami, 2014

§§

Desilusão
Caí em letargia ...
Meu sonho adormeceu profundamente ...
Ficou num par de fronhas virgens ...
Estreadas em noites de volúpia ...
Sonho bordado
Nas fronhas dum hotel
Vidas aneladas
Pontos cheios de suspiros em gemidos …

Juntos dormimos
Mas nossos sonhos
Esses!
Adormeceram
Num par de fronhas ...
- Isabel Ferreira, no livro "Todos os sonhos. Antologia da poesia moderna angolana". [org. Adriano Botelho de Vasconcelos]. UEA, 2005.

§§

De Lírios
Sacudi a madrugada
Qual amante despeitada
Suportei o sonho promíscuo
 
Palavras na lavra
Oculta da tua boca

Perdem-se nas paredes do teu corpo ...

O despertar
Um prometido
- Isabel Ferreira, no livro "Todos os sonhos. Antologia da poesia moderna angolana". [org. Adriano Botelho de Vasconcelos]. UEA, 2005.

§§

Leito do silêncio
É no leito de espinhos que afago o anúncio
Do prelúdio do teu canto...
Espero-te, em infindas horas, no recanto do nosso leito!

É no leito do silêncio das avenidas
Que afago o cós do grito
Na ingestão de bebidas, queimo a dor das esperas

Como povo que vota ao resvalo
E que traça a desgraça a cada eleição do pleito!
Assim somos nós!

Perco-me no sótão das avenidas!
No leito do silêncio à porta de prantos, a marulhar dentro de mim
Evado-me com quem me deito! Perdi a proa por ti.
Na foz do leito quebro as paredes
E as teias que me prendem a ti ...
E concluo que:

- Amo a vida que não é minha!
Amo a Polis, que me trai,
E o governo, meu eleito, me enternece o peito!
- Isabel Ferreira, no livro "O leito do silêncio". Kujiza Kuami, 2014

§§

No cais dos afectos I 
Sou um nicho de querências quando tu vens contente!
Chegas! Atracas no meu cais.
Sinto que o teu porto é o meu país...

Imigras em mim. Eu abrigo-me em ti.
Rasgas o meu colo. Flutuas no meu solo...

Há um estranho fulgor nos olhos dos teus olhos.
Levito.
Leio a voz do teu silêncio de querença, inauguro-
-te em suaves brumas.

Eis-me vitrina da vontade!
Atraca no meu rio, rema até à foz.
Não remanches! Não baixes os braços! Nem desperdices
o leme!
Emigremos ao cosmo que nosso!
- Isabel Ferreira, no livro "O leito do silêncio". Kujiza Kuami, 2014

§§

No cais dos afectos II 
Encadeio a tua escuridão.
Perdido no teu convés, o tempo silente cochila.
Há um estado de silêncios!
A brisa afaga o nosso momento.
Incendeias em pequenos instantes. Acendo o
meu umbral.
No celeiro do amor, o rio é eterno e lento o desaguar.
Sedento, quedo-me à tua espera num leito de rosas!
E assim atraco no cais do nosso ponto do mar.
A canoa ondula e tu fumegas enquanto perdura
a espera!
- Isabel Ferreira, no livro "O leito do silêncio". Kujiza Kuami, 2014.

§§

Outros tempos ...
São vossos os meus medos.
São minhas as vossas partilhas!
A voz do nosso silêncio ilude o vosso discurso ...
Os nossos olhos alongam o traço da vossa decadência!
Antevejo o documentário da vossa ruína...
E a história da minha história, sem pão, não mais
será minha.
Será de todos os que lutam pela equidade ...
Outros tempos... trarão fim à vossa opulência ...
Em uníssono ouviremos:
"E nova onda se levanta para a luta
E ainda outra e outra
Até que da violência
Apenas reste o nosso perdão"
- Isabel Ferreira, no livro "O leito do silêncio". Kujiza Kuami, 2014.

§§

Redimido
Sobe desce, reinventos
mambos, e rumbas
depo~,depo~,depo~ 

Cinturas falam
No calor da noite ... 
- Isabel Ferreira, no livro "Todos os sonhos. Antologia da poesia moderna angolana". [org. Adriano Botelho de Vasconcelos]. UEA, 2005.

§§

Sensações
Procuro teu corpo lânguido
No encontro teu olhar ao meu
Tão rente meu ser ao teu ...

A vista teu olhar me despe
Neste enleio deixo-me vogar em ti
Logo-logo de mim não sinto ...

Pinto meus lábios nos teus:
Sinto que não é sonho!
São sensações ... Se há ilusão ... Que se dista de mim!
- Isabel Ferreira, no livro "Todos os sonhos. Antologia da poesia moderna angolana". [org. Adriano Botelho de Vasconcelos]. UEA, 2005.

§§

Silente nas tuas mãos 
Não impeças o meu bocejo de fome de protesto
Quando o teu arroto
Exala a fartura da tua boca.

E se o eco do meu protesto
Tocar o teu sobrado
Onde as sentinelas hirtas vigiam
A tua portentosa mansão.

Que mal te poderei eu fazer¿
Não passo de poeira no asfalto da tua rua.
A minha miséria desfila esparsa nos arrebaldes por onde passas.
O meu país de petróleo e diamantes!
Sou um pária sem tecto!
- Isabel Ferreira, no livro "O leito do silêncio". Kujiza Kuami, 2014.


Isabel Ferreira - foto: © Arquivo pessoal 

FORTUNA CRÍTICA DE ISABEL FERREIRA

ABRANTES, Helen Leonarda. SÓ RISO: o cômico em Niketche, de Paulina Chiziane, e O guardador de memórias, de Isabel Ferreira (Tese Doutorado em Letras e Linguística). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PUC Minas, 2020. Disponível no link. (acessado em 11.12.2021).
EXPOSIÇÃO. Isabel Ferreira expõe no Palácio Foz em Lisboa. In: Vanguarda, Lisboa, 24 de maio de 2019. Disponível no link. (acessado em 11.12.2021).
FONSECA, Maria Nazareth Soares. A literatura angolana. In: Literafro, 1 de julho de 2021. Disponível no link. (acessado em 11.12.2021).
PADILHA, Laura Cavalcante. Entre voz e letra: o lugar da ancestralidade na ficção angolana do século XXI. Niterói: Eduff; Rio de Janeiro: Pallas Editora, 2007.
RIBEIRO, Margarida Calafate. África no feminino: As mulheres portuguesas e a Guerra Colonial. In: Revista Crítica de Ciências Sociais, Coimbra, n.68, p. 7-29, 2004.
SANTIAGO, Ana Rita. Águas de Kianda em O Leito do Silêncio de Isabel Ferreira. In: SANTIAGO, Ana Rita. Águas: moradas de memórias. Cruz das Almas/BA: Editora UFRB, 2020.
SANTOS, Denilson Lima. Tradições Questionadas em O Guardador de Memórias de Isabel Ferreira, Escritora de Angola. In:  Revista Rascunhos Culturais, Coxim/MS, v. 2, p. 159-170, julho-dezembro 2011. Disponível no link. (acessado em 8.12.2021).
SILVA, Fabio Mario da (Org). O feminino nas literaturas africanas em língua portuguesa. Lisboa: Clepul, 2014. Disponível no link. (acessado em 11.12.2021).
SILVA, Franciane Conceição da.. Corpos Dilacerados: a violência em contos de escritoras africanas e afro-brasileiras (Tese Doutorado em Literaturas de Língua Portuguesa). Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, PUC Minas, 2018. Disponível no link. (acessado em 11.12.2021).
SILVA, Franciane Conceição da.. Armadilhas do corpo: uma leitura de gênero em Isabel Ferreira. (Dissertação Mestrado em Estudos Literários). Universidade Federal de Viçosa, UFV, 2014. Disponível no link. (acessado em 11.12.2021).
SILVA, Franciane Conceição da.. Armadilhas do olhar: a política do corpo em Isabel Ferreira. In: V Colóquio Mulheres em Letras: escrituras, valores, sentidos, 2014, Belo Horizinte. Anais do V Colóquio Mulheres em Letras FALE/UFMG 2013, 2014.
SILVA, Franciane Conceição da; GONÇALVES, Gracia Regina. Mulheres de Atenas: tradição e ruptura em O guardador de memórias, da angolana Isabel Ferreira. In: Anais do SILIAFRO, Uberlândia, v. 1. n. 1. EDUFU, 2012. Disponível no link. (acessado em 8.12.2021).
SILVA, Gislene Alves da.. Entrevista. Isabel Ferreira: um grito literário vindo de Angola. In: Grau Zero- Revista de Crítica Cultural, v.3, n.1, p.259-266, 2015.
UEA. “Estou na cultura desde 1974”, revela Isabel Ferreira [entrevista]. In: UEA - União dos Escritores Angolanos, s/data. Disponível no link. (acessado em 11.12.2021).

"Nunca aprendi as lições de submissão que os meus pais me quiseram transmitir. E como aquilo não desbota... dou a quem quero, com gosto e prazer. Digo que a minha religião é a religião da liberdade ... a minha tradição é o meu desejo. E quando quero rufar os tambores do meu corpo é no leito. Sou franzina, mas quando se trata de amar ... eu viro leoa! Eu gosto! E gosto de ser Mulher! Não carrego o mundo nas costas, para fazer o que eu faço, tem que ser Mulher!" 
- Isabel Ferreira, no livro "O guardador de memórias". Edições Kujizakuami, 2008.


Isabel Ferreira e Conceição Evaristo - foto: © Arquivo pessoal 

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"Não sabia eu, que o teu rio...
Tão cedo desaguaria numa outra foz!
Num outro mar a brunir outras telas."
- Isabel Ferreira, no livro "O leito do silêncio". Kujiza Kuami, 2014.

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COMO CITAR:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção, edição e organização). Isabel Ferreira - memória e silêncio. In: Templo Cultural Delfos, dezembro/2021. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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Página atualizada em 15.12.2021.





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