2016: 70 anos de Sagarana, de João Guimarães Rosa

João Guimarães Rosa - foto: Agência O Globo (2.1.1961)
“Lá em cima daquela serra,
passa boi, passa boiada,
passa gente ruim e boa,
passa a minha namorada.”
(Quadra de desafio)

“For a walk and back again”, said
the fox. “Will you come with me?
I’ll take you on my back. For a
Walk and back again.”
(Grey Fox, estória para meninos.)

2016: 70 anos de 'Sagarana', de João Guimarães Rosa

O livro
Em 1938, o livro ainda chamava-se Contos, e o autor concorre, com o pseudônimo “Viator”, ao prêmio Humberto de Campos, da Livraria José Olympio Editora. A comissão julgadora era formada por Graciliano Ramos, Marques Rebelo, Prudente de Morais Neto, Dias da Costa e Peregrino Júnior. Rosa obtém o 2º lugar. Graciliano Ramos, num texto de 1946, “Conversa de Bastidores”, narra o acontecido e seu “vago remorso” por não ter dado o voto ao livro. Em 1944, conhece Guimarães Rosa:

“- O senhor figurou num júri que julgou um livro meu em 1938.

- Como era o seu pseudônimo?

- Viator

- Ah! O senhor é o médico mineiro que andei procurando. Sabe que votei contra o seu livro?

- Sei, respondeu-me sem nenhum ressentimento.

Achando-me diante de uma inteligência livre de mesquinhez, estendi-me sobre os defeitos que guardara na memória. Rosa concordou comigo... Havia suprimido os contos mais fracos.”

Capa da 1ª ed., de Sagarana, de João Guimarães Rosa
ilustrações Geraldo de Castro - Editora UNIVE
Em abril de 1946, Sagarana é publicado pela Editora Universal, de Caio Pinheiro, alcançando sucesso imediato, como uma “revolução” na chamada literatura regional brasileira.

Lendo o livro, Graciliano vaticina:

“Certamente ele fará um romance, romance que não lerei, pois, se for começado agora, estará pronto em 1956, quando os meus ossos começarem a esfarelar-se.”

De fato, em 1956, Rosa publica aquele que é tido como um dos maiores romances da literatura do século XX. E Graciliano já não estava aqui para lê-lo.

SAGARANA é um livro de contos, composto pelos seguintes contos:
  • O burrinho pedrês
  • A volta do marido pródigo
  • Sarapalha
  • Duelo
  • Minha gente
  • São Marcos
  • Corpo fechado
  • Conversa de bois
  • A hora e vez de Augusto Matraga
*Nota do autor
SAGARANA foi escrito em 1937, na seguinte ordem: O Burrinho Pedrês; Sarapalha (Sezão); Minha Gente; A Volta do Marido Pródigo; Duelo; Conversa de Bois; Corpo Fechado; São Marcos (Envultamento); A Hora e Vez de Augusto Matraga (A Oportunidade de Augusto Matraga).
- João Guimarães Rosa - Ressalvas, Sagarana (1ª e 2ª edição).


Sobre o título
Sagarana é formado por um hibridismo: "saga", radical de origem germânica que significa "canto heroico", "lenda"; e "rana" palavra de origem tupi que significa "que exprime semelhança ". Assim Sagarana significa algo próximo a: "próximo a uma saga".

Sagarana, ilustração de Poty Lazzarotto

Sagarana
Que mão sutil, quase divina,
de artista chim, em porcelana
da era dos Mings - fabulosa -
Fôra capaz desta tão fina
maravilha de "Sagarana"?
Só mesmo tu, G. Rosa.
- Carlos Drummond de Andrade, Viola de Bolso I.


A ARTE DE CONTAR EM SAGARANA

Sagarana, de João Guimarães Rosa
ilustrações Poty Lazzarotto
por Paulo Rónai
Para muitos escritores fracos, o regionalismo uma espécie de tábua de salvação, pois têm a ilusão e com eles parte do público de que o armazenamento de costumes, tradições e superstições locais, o acúmulo de palavras, modismos e construções dialetais, a abundância da documentação folclórica e linguística suprem as falhas da capacidade criadora. Pelo contrário, para os autores que trazem uma mensagem humana e o talento necessário para exprimi-Ia, o regionalismo envolve antes um obstáculo e uma limitação do que um recurso. A riqueza léxica, em particular, longe de constituir um atrativo a não ser para os estudiosos da língua - torna a obra menos acessível à maioria dos leitores. Quanto ao material folclórico, este significa uma perpétua ameaça de desviar a narração, tolher o enredo, quebrar o ritmo. Dir-se-ia que o escritor regionalista precisa de menos valor que os outros para se fazer tolerar, porém de maior originalidade para alcançar o êxito e a admiração.

Em Sagarana, J. Guimarães Rosa afronta todos esses empeci lhos. Apresenta-se como o autor regionalista de uma obra cujo conteúdo universal e humano prende o leitor desde o primeiro momento, mais ainda que a novidade do tom ou o sabor do estilo, O leitor vindo de fora, por mais integrado que se sinta no ambiente brasileiro, não pode estar suficientemente familiariza do com o rico cabedal lingüístico e etnográfico do país para analisar o aspecto regionalista dessa obra; deve aproximar-se dela de um outro lado para penetrar-lhe a importância literária.


A arte de contar, no antigo sentido da palavra, que evoca as poderosas narrativas do século passado e, mais longe ainda, as caudalosas torrentes da épica antiga, está se tornando rara. Apesar ou em razão do número enorme de narrativas breves que se publicam, encontram-se com freqüência cada vez menor novelas e contos que nos comuniquem um frêmito ou nos arranquem um grito de admiração. Os desesperados esforços de renovação que caracterizam o gênero de algum tempo para cá geram fórmulas mais de uma vez surpreendentes e inéditas, mas dificilmente despertam emoções profundas. 


As nove peças que formam o volume Sagarana continuam a grande tradição da arte de narrar. O gênero peculiar do autor é, aliás, a novela, e não o conto. A maioria das narrativas reunidas no livro são novelas, menos por sua extensão relativamente grande do que pela existência, em cada uma delas, de vários episódios ou “subistórias”, na expressão do escritor --—, aliás sempre bem concatenados e que se sucedem em ascensão gradativa. O gênero, em suas mãos, alcança flexibilidade notável, modifica-se conforme o assunto, adapta-se às exigências do enredo. Pois esta maleabilidade é justamente uma das características da novela moderna.


“O burrinho pedrês”, por exemplo, é de todas as narrativas aquela cujas partes, de início, parecem mais desconjuntadas. Contém uma série de historietas e anedotas que não fazem avançar a ação central. Mas é esta a espécie de narração exigida pelo assunto, a viagem de urna boiada que prossegue por etapas, pára, recomeça, se desvia. Todos os episódios, finalmente, concorrem para criar uma atmosfera única, caracterizada pela predominância da vida animal, em volta cia qual evolve todo aquele pequeno mundo nômade do Major Saulo 

e seus boiadeiros. Aqui a forma parece ter nascido e crescido com o assunto. A construção da novela obedece toda ela a urna arte consciente que se disfarça sob um ar de naturalidade, mas se revela não somente no aumento progressivo da tensão, senão também nos periódicos desaparecimentos e voltas do burrinho pedrês. Note-se que de todas as possíveis atitudes para com o seu protagonista animal o autor adota a mais plausível: a da observação feita por fora, com uma mistura de realismo e ironia que humaniza a personagem sem recorrer a artifícios antropomórficos.

Patenteia-se nesta novela um dos processos característicos da técnica de Guimarães Rosa, decorrente, aliás, de sua concepção do mundo e do destino: intensificar a tensão, aproximando o leitor de um desfecho trágico previsto. De repente, verifica-se algum acontecimento brusco — mas sempre verossímil que traz desenlace diferente cio esperado; diferente, mas não menos patético. Espera- se em “O burrinho pedrês” um assassínio, que todos os indícios fazem prever.., e sobrevém um desastre de proporções maiores, que resolve a tensão por um cataclismo imprevisto. Combinam-se, assim, os efeitos da surpresa e da unidade. 


Aplicação ainda mais perfeita deste processo observa-se em “A hora e vez de Augusto Matraga”, a novela talvez mais densa de humanidade de todo o volume. A vida retraída do valentão arrependido que, depois de ter sido deixado como morto pelos capangas do adversário, levou anos a restaurar a saúde do corpo e a amansar o espírito sedento de vingança inspira ao leitor uma inquietação crescente. Treme-se por esta alma perdida e reencontrada, que por fim só escapará à tentação da desforra por outro ato louco de valentia que o redime, mas ao mesmo tempo o aniquila.



Sagarana, ilustração de Poty Lazzarotto 
Aparentada a essas duas novelas a intitulada “Duelo”. Aí a série de emboscadas em que dois adversários procuram acabar um com outro parece primeiro terminar pela morte cristã de um deles, colhido e consumido por insidiosa doença. Mas o moribundo conseguiu transmitir o seu ódio como herança a um seu protegido, e, pela mão deste, depois de morto, matará o rival sobrevivente.

Talvez nem seja justo falar em técnica, pois nos dois últimos casos, pelo menos, o desenlace, por mais inesperado que seja, decorre necessariamente dos caracteres. O contista recria com extraordinária plasticidade caracteres primários como Augusto Matraga ou, no “Duelo”, Cassiano Gomes, concentrados em torno de um único sentimento, que se transforma em sua razão de ser no objetivo de toda a sua existência.

Apesar de uma ironia fina que oscila num ritmo tão pessoal entre o humor e o cinismo, o autor mantêm-se imparcial para com as suas criaturas. Tem-se a impressão, às vezes, de que adota a respeito delas os sentimentos do ambiente e as admira ou despreza de acordo com esses sentimentos, partilhando das simpatias e antipatias dos comparsas. Na realidade, trata-se apenas de mais um meio para criar atmosfera. O escritor conserva-s algo distante das personagens, e, quando se apressa em adotar algum julgamento cômodo sobre elas, não sabemos com certeza se não o faz para se divertir à custa do leitor. Veja-se o trecho em que conta a morte edificante de Cassiano Gomes. De pois de deixar tudo o que tem a um pobre caboclo de quem se tornara o benfeitor, este “tomou uma cara feliz, falou na mãe, apertou nos dedos a medalhinha de Nossa Senhora das Dores, morreu e foi para o céu”. Sim, mas ao seu protegido, além dos cobres, deixou também a obrigação de uma vindita. 

Nas novelas de atmosfera trágica de Guimarães Rosa respira- se um fundo desânimo, talvez por ser a conclusão tão fatal, tão sem recurso. Esse acabamento absurdo e, ao mesmo tempo, ir respondivelmente explicado, dos destinos individuais, faz trever abismos tão abruptos como aquele que se abre debaixo da Ponte de São Luís Rei, no romance de Thornton Wilder.


Estas mesmas novelas possuem credibilidade logo à primeira vista, mais um sinal por que se reconhece a obra de ficção de real valor. Credibilidade na ficção não envolve a exatidão e a verossimilhança de todos os pormenores; apenas uma certa sugestão que leva o leitor a não preocupar-se em verificar-lhes a consistência, compenetrado por essa verdade condensada que só por acaso a vida alcança. Pirandello ter-se-ia felicitado de um achado como este, em que o autor soube formular com bastante pitoresco uma das regras essenciais da arte: “E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso acontecido, não senhor.”


Uma quarta novela, “A volta do marido pródigo”, representa gênero inteiramente diverso. Aqui as fases sucessivas do enredo fragmentado servem para dar um duplo retrato, extremamente vivo e divertido, de um malandro atraente, representado simultaneamente como tipo e como indivíduo. Talvez seja este o conto em que o autor melhor realiza a tarefa de caracterizar ao mesmo tempo o ambiente e as personagens pelo halo de simpatia irresistível e imerecida que rodeia estas últimas.


A superstição, um dos mais importantes elementos de quantos concorrem para a construção do universo do contista, fornece a duas narrativas o assunto central. “Corpo fechado”, história de um feitiço, é admirável de unidade e composição. Pouco nos importa, para a verdade intima do conto, se e o feitiço que opera, ou a fé que nele depositam os protagonistas; o essencial é a presença permanente da magia em que vítima e feiticeiro acreditam da mesma forma. Talvez seja esta a razão de o leitor sentir-se menos convencido pelo conto “São Marcos”, em que o contista, apresentando-se em primeira pessoa como objeto de um ato de feitiçaria, nos força a perguntarmos a nós mesmos se ele, autor, acredita na magia ou não, dúvida que soube artisticamente eludir nos outros contos.


“Minha gente” confirma a impressão de que o talento narrativo de Guimarães Rosa é essencialmente impessoal: ao lado de retratos excelentes, como o do enxadrista viajante, e  da pintura maliciosamente viva de uma eleição no interior, a história de amor contada em primeira pessoa parece um tanto convencional (com uma leve reminiscência, talvez, de Cabocla ou de Prima Belinha, de Ribeiro Couto).

Sagarana, de João Guimarães Rosa, ilustração
Poty Lazzarotto - editora José Olympio, 1970

“Sarapalha” representa, a meu ver, em todo o volume, a única vitória do regional sobre o humano: a descrição de uma região destruída pelas febres avulta sobre o conflito passional das duas personagens, que valem mais como componentes da paisagem que como verdadeiros atores. 


“Conversa de bois”, finalmente, representa ainda outro tipo, o do conto inteiramente estilizado, com bichos que falam e raciocinam, quase numa atmosfera mítica de balada escocesa. Se as grandes novelas do volume não nos tivessem exalçado as exigências, entregar-nos-íamos sem reservas ao encanto desta forte narrativa. Elas, porém, nos habituaram a uma mistura tão feliz de visão realista e de expressão algo estudada, que nos custa admitir uma modificação da dosagem a favor do elemento artificial. 


Vocação épica de excepcional fôlego, o autor dar-nos-á de certo algum romance em que seu dote de criar e movimentar personagens e vidas se manifeste ainda mais à vontade. Por enquanto, aguarda—se com natural curiosidade a publicação de seu volume de versos, premiado já em 1936 pela Academia Brasileira de Letras, e que ficou escondido ainda mais tempo que Sagarana. Que formas revestirá o lirismo num poeta tão visceral mente narrador?


Chegando ao fim destas breves considerações, percebemos o que elas têm de ilusório, O exame unilateral de um livro tão rico de conteúdos e significações como este há de deixar uma impressão falsa. E sobretudo quase impossível falar desta obra abstraindo-se o aspecto da expressão verbal, que nela é de excepcional importância. O autor não apenas conhece todas as riquezas do vocabulário, não apenas coleciona palavras, mas se delicia com elas numa alegria quase sensual, fundindo num conjunto de saber inédito arcaísmos, expressões regionais, termos de gíria e linguagem literária. O que nos vale é que Sagarana já deu ensejo a análises agudas, extensivas a todos os seus aspectos; por outro lado, é desses livros em que cada leitor faz necessariamente novas descobertas.


(1946).

- Paulo Ronái, 'A arte de contar cm Sagarana', no livro "Sagarana", de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001, p.8-11.

Capas da obra 'Sagarana', de João Guimarães Rosa - em edições publicadas nas últimas sete décadas - box|fonte: Biblioteca Pública do Paraná

RECEPÇÃO CRÍTICA DA OBRA SAGARANA - ALGUMAS NOTAS
Sobre Sagarana
"São páginas inesquecíveis e antológicas que nos fazem lembrar, simultaneamente, Euclides da Cunha, através da forma com que nos faz sentir em toda a sua pujança a agressividade do meio ambiente, e Coelho Netto pelo esplendor vocabular."
- José Lins do Rego, na coluna “Livros e autores”. in: O Globo, edição de 5 de junho de 1946.


"Não penso que Sagarana seja um bloco unido, nem que o Sr Guimarães Rosa tenha sabido, sempre, escapar a certo pendor verboso, a certa difusão de escrita e composição. Sei, porém, que, construindo em termos brasileiros certas experiências de uma altura encontrada geralmente nas grandes literaturas estrangeiras, criando uma vivência poderosamente nossa e ao mesmo tempo universal, que valoriza e eleva a nossa arte, escrevendo contos como “Duelo”, “Lalino Salãthiel”, “O burrinho pedrês” e, sobre todos (muito sobre todos), “Augusto Matraga”- sei que por tudo isso o Sr Guimarães Rosa vai reto para a linha dos nossos grandes escritores."
- Antonio Candido, artigo 'Sagarana'. em: 'O Jornal', Rio de Janeiro, 21 de jul. 1946 | COUTINHO, Eduardo. de F. (org.). Guimarães Rosa.. Coleção Fortuna Crítica, 6. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983, p. 243-247.  


"De repente chega-nos o volume, e é uma grande obra que amplia o território cultural de uma literatura, que lhe acrescenta alguma coisa de novo e insubstituível, ao mesmo tempo que um nome de escritor, até ontem ignorado do público, penetra ruidosamente na vida literária para ocupar desde logo um dos seus primeiros lugares. O livro é Sagarana e o escritor é o sr. J. Guimarães Rosa." 
- Álvaro Lins, 'Uma grande estreia'. em: COUTINHO, Eduardo. de F. (org.). 'Guimarães Rosa'.. Coleção Fortuna Crítica, 6. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1983. p.237-238.

Sertão, foto: Marcelo Toledo
ALGUNS AFORISMOS, CITAÇÕES E EXCERTOS DA OBRA 'SAGARANA' DE JOÃO GUIMARÃES ROSA

DO CONTO 'O BURRINHO PEDRÊS'
"[...] quando a tigre arma o bote, é porque ela já olhou tudo o que tinha que olhar, e já pensou tudo o que tinha que pensar, e aí nunca que ela deixa de dar o pulo, não é? Pois, nesse dia, a canguçu de certo que imaginou mais um tiquinho, porque ela desmanchou o dela, andando de rastro para trás um pedaço bom. Depois, correu para longe, sem um miado, e foi-s’embora. Onça esperta!..."
- João Guimarães Rosa, do conto 'O burrinho pedrês'. no livro "Sagarana". 5ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1958, p.32.


"[...] nunca se ter certeza do que é que o meu compadre está pensando ou vai falar, que sai sempre o diverso do que a gente esperou... Só vejo que esse povo vaqueiro todo tem mais medo de um pito do senhor do que da chifrada de um garrote, comparando sem quebrar seu respeito, meu compadre seô Major."
- João Guimarães Rosa, do conto 'O burrinho pedrês'. no livro "Sagarana". 5ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1958, p.36.


"Sete-de-Ouros parara o chouto; e imediatamente tomou conhecimento da aragem, do bom e do mau: primeiro, orelhas firmes, para cima – perigo difuso, incerto; depois, as orelhas se mexiam, para os lados −, dificuldade já sabida, bem posta no seu lugar. E ficou. A treva era espessa, e um burro não é gato e nem cobra, para querer enxergar no escuro. Ele não espiava, não escutava. Esperava qualquer coisa. E, quando essa chegou, Sete-de-Ouros avançou, resoluto."
- João Guimarães Rosa, do conto 'O burrinho pedrês'. no livro "Sagarana". 5ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1958, p.67.



DO CONTO 'SÃO MARCOS'
"E, pois, se todos continuavam trabalhando, bichinho nenhum tivera o seu susto. Portanto... Estaria eu... Cego?!
Assim de súbito, sem dor, sem causa, sem prévios sinais?...
Bem, até há pouco, estava uma pedra solta ali. Tateio.
Ei-la. Bato com a mão, à procura do tronco da minha coraleira. Sim: a ponta da lagoa fica mesmo à minha frente." 
- João Guimarães Rosa, do conto "São Marcos", no livro "João Guimarães Rosa: ficção completa". vol. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 373.


"Tempo assim estive, que deve ter sido longo. Ouvindo. Passara toda a minha atenção para os ouvidos." 
- João Guimarães Rosa, do conto "São Marcos", no livro "João Guimarães Rosa: ficção completa". vol. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 375.


"Tão claro e inteiro me falava o mundo, que, por um momento, pensei em poder sair dali, orientando-me pela escuta."
- João Guimarães Rosa, do conto "São Marcos", no livro "João Guimarães Rosa: ficção completa". vol. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 375.


"Sim. Mas, e as aves, e os grilos? Os pombos de arribada, transpondo regiões estranhas, e os patos-do-mato, de lagoa em lagoa, e os machos e fêmeas de uma porção de amorosos, solitários bichinhos, todos se orientam tão bem, sem mapas, quando estão em seca e precisam de ir a meca?... O instinto. Posso experimentar." 
- João Guimarães Rosa, do conto "São Marcos", no livro "João Guimarães Rosa: ficção completa". vol. I. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 376. 


DO CONTO 'MINHA GENTE'
"E a estrada subia e descia, mais, como as descidas eram muito menores, nós subíamos sempre. A tarde tinha recuado. Um resto de cirros, no alto, em alvas trabéculas rarefeitas; um empilhado de faixas, tangerina e rosa, no poente; no mais, o céu era lisa campânula de blau."
- João Guimarães Rosa, do conto "Minha Gente", no livro "Sagarana". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2015.


DO CONTO 'A VOLTA DO MARIDO PRÓDIGO'
"Quando entrou no carro, aconteceu que ele teve vontade de procurar um canto discreto, para chorar. Mas achou mais útil recordar, a meia voz, todas as cantigas conhecidas. Um paraibano, que vinha também, gostou. Garraram a se ensinar, letras e tons, tudo ótimo."
João Guimarães Rosa, do conto 'A volta do marido pródigo'. no livro "Sagarana". 18ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1976, p. 88.


"E, no entanto, assim como não se lembrava do lugar das trepadeiras, não está pensando no sapo. No sapo e no cágado da estória do sapo e do cágado, que se esconderam, juntos, dentro da viola do urubu, para poderem ir à festa no céu. A festa foi boa, mas, os dois não tendo tido tempo de entrar na viola, para o regresso, sobraram no céu e foram descobertos. E então São Pedro comunicou-lhes: “Vou varrer vocês dois lá para baixo.” Jogou primeiro o cágado. E o concho cágado, descendo sem pára-quedas e vendo que ia bater mesmo em cima de uma pedra, se guardou em si e gritou: “Arreda laje, que eu te parto!” Mas a pedra, que era posta e própria, não se arredou, e o cágado espatifou-se em muitos pedaços. Remendaram-no com esmero, e daí é que hoje ele tem a carapaça toda soldada de placas. Mas nessa folga, o sapo estava se rindo. E, quando São Pedro perguntou, por que, respondeu: “Estou rindo porque se o meu compadre cascudo soubesse voar, como eu sei, não estava passando por tanto aperto...” E então, mais zangado, São Pedro pensou um pouco e disse:
_ É assim? Pois nós vamos juntos lá embaixo, que eu quero pinchar você, ou na água ou no fogo!”
E aí o sapo choramingou: “Na água não patrão, que eu me esqueci de aprender a nadar...”
- “Pois então é para a água mesmo que você vai!...”
- Mas, quando o sapo caiu no poço, esticou para o lado as quatro mãozinhas, deu uma cambalhota, foi ver se o poço tinha fundo, mandou muitas bolhas lá para cima, e, quando teve tempo, veio subindo de-fasto, se desvirou e apareceum piscando o olho, para gritar: “Isto mesmo é que sapo quer!"
- João Guimarães Rosa, do conto 'A volta do marido pródigo'. no livro "Sagarana". 18ª ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1976, p. 92-93.


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Sertão, foto: Marcelo Toledo
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** Página atualizada em 22.6.2016.



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