Jorge Amado - entrevistado por Clarice Lispector

Jorge Amado - foto: Acervo Fundação Jorge Amado
“O público é que tem compromisso comigo, e não eu com ele.”

Infelizmente na época não pude visitar Jorge Amado em sua casa em Salvador, Bahia, que dizem ser uma casa bela e singular: é que Jorge já estava há dois meses no sítio do tapeceiro Genaro de Carvalho, tendo como companhia única sua esposa Zélia. No sítio, a uns vinte quilômetros de Salvador, Jorge podia esquivar-se a visitas, pois estas, mesmo que simpáticas, o impediriam de trabalhar. No meio de uma chuva torrencial fui ao sítio, tendo tido o trabalho prévio de avisá-lo e de perguntar-lhe se me daria uma entrevista. Lá fui recebida pelo casal com um refresco de mangaba.

Clarice Lispector – Que é que você está escrevendo agora, Jorge?
Jorge Amado – Um novo romance, que trata ao mesmo tempo da vida popular baiana e da vida de setores da pequena burguesia, da intelectualidade. O livro tem dois espaços e dois tempos: um tempo pretérito, quando o personagem é apresentado numa série de acontecimentos de sua vida – entre 1868 e 1943, quando morre – e essa é a parte fundamental do romance; um tempo atual, 1968, quando o centenário de nascimento do personagem é comemorado com grandes festejos. Teremos, assim, duas faces de Pedro Archanjo – a “pura” e a impura –, uma espécie de pequeno escritor – ou sociólogo, talvez poeta – desconhecido. Não tenho ainda título definitivo para o livro, que poderá se intitular Meu bom.

Clarice Lispector – Qual é o seu método de produção?
Jorge Amado – Parto, em geral, de uma ideia, de um fato, de uma impressão ou emoção. Durante anos esse ponto de partida vive dentro de mim, de repente se afirma, começo a ver personagens e ambientes. A história vem na máquina de escrever.

Clarice Lispector – Você se inspira em fatos reais ou os imagina?
Jorge Amado – As duas coisas: parto de minha experiência de vida para a criação. Invento muito, mas nunca invento no ar, minha inventiva tem sempre algo em que se apoiar.

Clarice Lispector – Você está rico com os seus livros?
Jorge Amado – Não creio que livro enriqueça ninguém no Brasil, a não ser a editores (todos que conheço estão ricos) e a livreiros. Sou pobre, felizmente, mas ganho com meus livros o suficiente para viver vida modesta e digna com minha família. Escritor profissional, vivo exclusivamente dos direitos autorais de meus livros – escrevo pouquíssimo e cada vez menos para revistas e jornais, e essa rara colaboração não pesa sequer no meu orçamento.

Clarice Lispector – Faça uma crítica de seus próprios livros.
Jorge Amado – São os livros que eu posso fazer. Busco fazê-los o melhor que posso. São rudes, sem finuras nem filigranas de beleza; são, por vezes, ingênuos, sem profundezas psicológicas e sem angústias universais; são pobres de linguagem e muitíssima coisa mais. São livros simples de um contador de história da Bahia.

Clarice Lispector – Você gostaria de escrever diferente ou está comprometido demais com o seu público?
Jorge Amado – Eu escrevo como me agrada; não há escritor mais livre neste país. Não tenho compromissos senão comigo mesmo: nem com modas, nem com escolas, nem com circunstâncias, nem com academias, nem com editores, nada. Tenho um único compromisso: com o povo – e não é demagogia, sou o antidemagogo. Com o povo, porque creio que meu dever de escritor é servi-lo. Quanto ao público, é ele que tem compromisso comigo e não eu com ele.

Clarice Lispector – Desde que idade você escreve?
Jorge Amado – Desde muito tempo. Com 15 anos, ou 16, já fazia parte de grupos de jovens literatos em Salvador. Aos 18 anos escrevi o primeiro romance, publicado no ano seguinte.

Clarice Lispector – Quando você está escrevendo, espera pela inspiração ou trabalha com disciplina, tantas e tantas horas por dia?
Jorge Amado – Inspiração? Inspiração para mim é a ideia, é o amadurecimento interior – eu prefiro a palavra vocação: você nasce ou não para escrever, e acabou. O trabalho só não basta. Mas o trabalho é essencial, fundamental e deve ser disciplinado. Levo anos sem fazer nada – quero dizer, sem estar na máquina a bater as páginas de um livro: durante esse tempo estou concebendo a ideia do romance – a isso chamo de inspiração. Depois vou para a máquina e trabalho com muita disciplina, “tantas e tantas horas”. No momento, por exemplo, acordo às cinco da manhã, antes das seis já estou na máquina e trabalho até às 13 horas. Almoço, descanso, atendo minha secretária, às 17 volto ao trabalho até as 19, exceto aos sábados e domingos, quando não cumpro o horário das 17 às 19 horas e passo a tarde jogando pôquer ou conversando com amigos.

Zélia Gattai e Jorge Amado - foto: Flavio Ciro
Clarice Lispector – Você é um homem feliz e realizado, Jorge?
Jorge Amado – Sou, creio, um homem a quem a vida muito tem dado, mais do que mereço. Tenho alegria de viver, amo a vida e sempre a vivi ardentemente. Sou feliz com minha mulher, Zélia, e meu casal de filhos: João, com suas barbas e seu teatro; Paloma, com seu dengue e seu Garcia Lorca. Minha mulher é leal companheira. Tenho mãe viva, de 86 anos, Lalu, poderosa figura. Tenho dois irmãos que são amigos fiéis – um deles, James, é o bom escritor da família, em minha opinião. Tenho amigos excelentes; a amizade é o bem da vida. Vivo muito com meus amigos. Quanto a ser realizado, penso que o escritor que um dia se considere realizado, se não for um idiota (e deve ser) tem o dever de deixar de escrever, pois já se realizou.

Clarice Lispector – Disseram-me que ninguém passa por Salvador sem querer conversar com você – é verdade?
Jorge Amado – Vem muita gente à minha casa, o que é, ao mesmo tempo, simpático e maçante, às vezes. Em certas ocasiões, é demais. Agora mesmo, para trabalhar, tive de vir para o sítio de Genaro de Carvalho, nosso mestre tapeceiro.

Clarice Lispector – Você é tão hábil em escrever, que se lhe dessem um tema você aceitaria? Ou o tema tem que nascer de você mesmo?
Jorge Amado – Nunca aceitei encomenda nem penso em aceitá-las. Apenas uma vez deram-me um tema: conto destinado para um livro Os Dez Mandamentos, onde colaboram mais nove autores. O editor deu-me o tema para a história e eu aceitei escrevê-la. E a encomenda, pois cumpro meus compromissos, foi uma das piores coisas que escrevi. Sou um escritor profissional, porque escrever livros é minha profissão, e não um hobby, um bico ou uma “ocupação fundamental...” de fim de semana. Sou, assim, um escritor comercial. Escrevendo meu quarto livro num espaço de tempo de 12 anos, ou seja, em média um livro de quatro em quatro anos. Quisesse eu escrever para ganhar dinheiro e, com o público que possuo, era livro de seis em seis meses, sobretudo se sou realmente “hábil” como você diz. Só escrevo aquilo que nasce e cresce dentro de mim.

Clarice Lispector – Quem é o escritor brasileiro do passado que você mais admira?
Jorge Amado – Não posso citar um, impossível, não há um acima de três ou quatro. Digamos quatro poetas: Castro Alves, Gregório de Matos, Gonçalves Dias e Augusto dos Anjos. Digamos os romancistas Manuel Antônio de Almeida, José de Alencar, Aluísio de Azevedo e Machado de Assis.

Clarice Lispector – Qual foi o fato mais importante de sua vida, Jorge?
Jorge Amado – Vários fatos foram importantes e várias pessoas. O padre Cabral, por exemplo, que, no internato dos jesuítas, declarou em aula que eu seria fatalmente escritor, quisesse ou não.

Clarice Lispector – Você está de algum modo ligado a alguma religião? Nunca teve uma experiência mística?
Jorge Amado – Não sou religioso, não possuo crença religiosa alguma, sou materialista. Não tive experiências místicas, mas tenho assistido a muita mágica, sou supersticioso e acredito em milagres, a vida é feita de acontecimentos comuns e de milagres. Não sendo religioso, detenho um alto título no candomblé baiano, sou Obá Otum Arolu, um dos 36 obás. Distinção que os meus amigos do candomblé me conferiram e que muito me honra.

Clarice Lispector – Você costuma ler as traduções que fazem de seus livros? Porque eu, por exemplo, jamais leio, para me poupar a raiva.
Jorge Amado – Prefiro as traduções em língua que não posso ler. Nas outras você descobre erros e se chateia. É assim ou não com você?

Clarice Lispector – Exatamente assim: fiquei contente com dois de meus livros traduzidos. O que mais diverte você? Você tem algum hobby?
Jorge Amado – Quem não tem um hobby? Jogo meu pôquer, adoro meus gatos, meu jardim que é quase uma floresta. Leio romances policiais quando estou escrevendo.

Clarice Lispector – Você já escreveu poesia? É melhor confessar.
Jorge Amado – Da pior espécie possível, mas felizmente pouquíssima e inédita.

Clarice Lispector – A que atribui o sucesso enorme de seus livros?
Jorge Amado – Atribuo à qualidade brasileira; a estar do lado do povo; a transmitir esperança e não desesperança.

Clarice Lispector – Que é que você gostaria de ter sido e não foi?
Jorge Amado – Não creio que prestasse em profissão nenhuma. Tenho grande tendência a não fazer nada que seja obrigação.

Clarice Lispector – Você escreve muito sobre o amor. O que é amor?
Jorge Amado – É a própria vida, é o melhor da vida, tudo. No amor não sou profano, aí não. Sou sectário.

Clarice Lispector – Qual de seus personagens é mais você mesmo?
Jorge Amado – Todos os personagens têm um pouco do autor, não é assim, Clarice?

Clarice Lispector – É assim, Jorge. Alguns acusam você de superficialidade nos últimos livros. Que é que você acha disso?
Jorge Amado – Os primeiros são, a meu ver, mais superficiais.

Clarice Lispector – Voltemos ao assunto da tradução. Em quantos países você foi traduzido?
Jorge Amado – Até agora em 33 línguas, algumas realmente distantes, como o vietnamita, o persa, o mongol. Fui publicado, não contando o Brasil, em 38 países. Algumas traduções em inglês têm edições dos Estados Unidos, da Inglaterra e Canadá, em alemão, nas duas Alemanhas, na Áustria, na Suíça. Aliás, com as edições portuguesas, a soma se eleva a 39 países.

Clarice Lispector – Qual ou quais são as cidades onde a atmosfera conduz um artista a criar mais e melhor?
Jorge Amado – Penso que existem duas cidades feitas à medida do homem, cidades que não são, ainda e somente, campos de trabalho: Salvador da Bahia de Todos os Santos e Paris.

Clarice Lispector – Aqui, em Salvador, eu realmente senti que poderia escrever mais e melhor. Mas o Rio de Janeiro, com o seu ar poluído, não é nada mau, Jorge. Coloca-nos frente a frente com condições adversas e também dessa luta nasce o escritor. É verdade que muitos escritores que moram no Rio são saudosistas de seus estados e têm nostalgia da província.
Jorge Amado – Talvez.


Jorge Amado - foto: ...
JORGE AMADO – O autor de Gabriela, cravo e canela e Dona flor e seus dois maridos tornou-se uma espécie de representante do povo baiano, o mais popular e um dos mais traduzidos escritores brasileiros. Viveu exclusivamente dos direitos autorais de seus livros, que foram publicados em 52 países e traduzidos para 48 idiomas. Em 1995, recebeu o Prêmio Camões. Sua obra literária recebeu inúmeras adaptações para cinema, teatro e televisão.

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Fonte: 
- LISPECTOR, Clarice. Clarice Lispector entrevistas. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.



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