Braulio Tavares - um menestrel

Braulio Tavares - foto: (...)
Braulio Tavares nasceu em Campina Grande, Paraíba, em 1950, e mora desde 1982 no Rio de Janeiro. É escritor, compositor, letrista, tradutor e pesquisador de ficção científica e literatura fantástica. 
O pai foi jornalista e poeta, inclusive com poemas e sonetos publicados.
Irmão da também poeta Clotilde Tavares.
Começou a escrever influenciado pelo pai e com a idade de oito anos já havia produzido alguns sonetos, nunca publicados.
Teve vários livros de poesias e ficção-científica editados, além de folhetos de cordel publicados pela editora Casa das Crianças, de Olinda, Pernambuco, entre os quais o folheto "Cabeça elétrica, coração acústico" no ano de 1981.
Participou em 1992 do projeto "O Escritor na Cidade" pelo Departamento Nacional do Livro da Biblioteca Nacional, e viajou pelos Estados do Espírito Santo, Paraná, Pará e Rio Grande do Norte, fazendo palestras em bibliotecas públicas da capital e do interior.
Com forte influência da literatura de cordel, escreveu a peça "Folias Guanabaras", espetáculo dirigido por Ivaldo Bertazzo com o Corpo de Dança da Maré e a participação da atriz Rosi Campos e do ator, cantor e compositor Seu Jorge.
Publicou o livro "Os martelos de Trupizupe".
Publicou em 2007 "Contando histórias em versos" (Editora 34), sobre a literatura de cordel. O livro é o resultado de uma oficina de cordel ministrada no Instituto Brincante, de Antonio Nóbrega e Rosane Almeida, para professores de escolas do primeiro grau na cidade de São Paulo.
Publicou cerca de 15 livros, muitos por editoras como a 7Letras, do Rio de Janeiro e Editora 34, de São Paulo, além de livros independentes, em vários gêneros, tais como ensaio, poesia, contos, ficção científica, romance, cordel e infantil.
Em seu blog  'Mundo Fantasmo' tem de tudo: música, filosofia, cinema, literatura...
:: Fonte: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira | (acessado em 28.5.2016).

"O leitor hoje é disputado por todo mundo. A mercadoria mais cara do mundo é o tempo." 
- Braulio Tavares, em 'Braulio Tavares: “Quem ameaça a cultura não é a censura, é o entretenimento”'. [entrevista concedida a Cicero Alves]. in: O Chaplin, 14 de fevereiro de 2014.


PRÊMIOS
1989 - Prêmio Caminho de Ficção Científica, da Editorial Caminho|Lisboa-Portugal, pela obra "A espinha dorsal da memória".
1992 Prêmio Shell de Teatro, com a peça 'Brincante', em parceria com Antonio Nóbrega.
2006 - Melhor Livro Infantil do Ano, da Associação Paulista de Críticos de Arte - APCA, com o livro “O flautista misterioso e os ratos de Hamelin”.
2009 - Prêmio Jabuti de Literatura Infantil, com o livro "A invenção do mundo pelo Deus-curumim".
2013Prêmio Argos especial, em reconhecimento por sua dedicação à literatura fantástica brasileira.


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OBRA DE BRAULIO TAVARES
Romance
:: A máquina voadora. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1994.
:: A máquina voadora. Colecção "Uma Terra Sem Amos". Lisboa: Editorial Caminho, 1997. 

Conto

:: A espinha dorsal da memória. Lisboa: Editorial Caminho, 1989. Vencedor do Prêmio Editorial Caminho de Ficção Científica de 1989.
:: Mundo fantasmo | A espinha dorsal da memória. (edição omnibus dos dois livros de contos). Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1996.
:: Mundo fantasmoLisboa: Editorial Caminho, 1997.
:: Histórias para lembrar dormindo. [ilustrações Christiano Menezes]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.
:: Sete monstros brasileiros. [ilustrações Fernando Issamo]. Rio de Janeiro: Editora Casa da Palavra, 2014.

Poema
:: Balada do andarilho Ramón. Pirata, 1980.
:: Sai do meio, que lá vem o filósofo. Edição do autor, 1982.
:: O homem artificial. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 1999.
:: Os martelos de Trupizupe. Natal RN: Engenho de Arte, 2004.

Folheto de cordel
:: Cantoria: regras e estilos. Olinda: Casa das Crianças de Olinda, 1978.
:: A pedra do meio-dia ou Artur e Isadora. Campina Grande: edição do autor, s/d, 1979.
:: As baladas de TrupizuqueOlinda PE: Editora Casa das Crianças, 1980. 
:: Cabeceira elétrica, coração acústicoOlinda PE: Editora Casa das Crianças, 1981.

Infanto-juvenil
:: A pedra do meio-dia ou Artur e Isadora - literatura de cordel. [ilustrações Cecília Esteves]. Coleção Infanto-juvenil. São Paulo: Editora 34, 1998; 2ª ed., 2009.
:: O flautista misterioso e os ratos de Hamelin literatura de cordel. [ilustrações Mario Bag]. Coleção Infanto-juvenil. São Paulo: Editora 34, 2006.
:: A invenção do mundo pelo Deus-curumim. [ilustrações Fernando Vilela]. Coleção Infanto-juvenil. São Paulo: Editora 34, 2008.
:: O poder da natureza. Poesia. [Ilustrações Jô Oliveira]. Coleção Infanto-juvenil. São Paulo: Editora 34, 2013.

Humor - aforismos 
:: Como enlouquecer um homem. As mulheres contra-atacam. São Paulo: Editora 34, 1994.

Crônica
Braulio Tavares - foto: (...)
:: A nuvem de hoje. Campina Grande: Eduepb, 2011.
:: A arte de olhar diferente. São Paulo: Hedra, 2012.
:: A idade da ignorância. Selo Latus. Campina Grande PB: Editora UEPB, 2013. Disponível no link. (acessado em 26.5.2016). 
:: 78 rotações. Natal: Editora Jovens Escribas, 2015.

Ensaio
:: O que é ficção científica?. Coleção Primeiros Passos, nº 169. São Paulo: Brasiliense, 1986.
:: O anjo exterminador. Coleção Artemidia. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2002.
:: O rasgão no real. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2005.
:: Contando histórias em versos: poesia e romanceiro popular no Brasil. São Paulo: Editora 34, 2005; 2ª ed., 2009.
:: ABC de Ariano Suassuna. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 2007.
:: A pulp fiction de Guimarães Rosa. João Pessoa: Marca de Fantasia, 2008.

Em parceria
:: 10 livros que abalaram o meu mundo. [autores: autor: Beatriz Resende, Braulio Tavares, David Toscana, Heloisa Seixas, Jose Mindlin, Lucia Riff, Milton Hatoum, Rui Campos, Ruy Castro e Sergio Augusto]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2006, 143p.

Adaptação

:: Romance d’A Pedra do Reino, e o príncipe do sangue do vai­-e­-volta. Ariano Suassuna. [adaptação Braulio Tavares, Luis Alberto de Abreu, Luiz Fernando Carvalho, Ariano Suassuna]. Caixa com 6 volumes. Rio de Janeiro: Editora: Globo, 2007.

Organização

:: Páginas de sombra: contos fantásticos brasileiros. (autores: Adelpho Monjardim, Aluísio Azevedo, Amândio Sobral, André Carneiro, Berilo Neves, Carlos Drummond de Andrade, Carlos Emílio Corrêa Lima, Coelho Neto, Heloísa Seixas, Humberto de Campos, Lília A. Pereira da Silva, Lygia Fagundes Telles, Machado de Assis, Murilo Rubião, Orígenes Lessa e Rubens Figueiredo).. [organização Braulio Tavares, ilustrações Romero Cavalcanti]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2003.
:: Páginas do futuro: contos brasileiros de ficção científica. (autores: Ademir Assunção, Andre Carneiro, Ataide Tartari, Fabio Fernandes, Fausto Fawcett, Finisia Fideli, Jeronymo Monteiro, Joaquim Manuel de Macedo, Luiz Bras, Oswaldo Beresford, Rachel de Queiroz e Rubem Fonseca).. [organização Braulio Tavares; ilustrações Romero Cavalcanti]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011.

Antologia (participação)
:: Galeria do sobrenatural: jornadas além da imaginação. (autores: Andrea Del Fuego, Braulio Tavares, Cavani Rosas, Claudio Brites, Claudio Villa, Danny Marks, Fabio Fernandes, Fernanda Furquim, Giulia Moon, Jana Lauxen, Lucio Manfredi, Luis Felipe Silva, Marcia Olivieri, Mario Carneiro Junior, Marta Machado, Max Mallmann, Miguel Carqueija, Octavio Aragao, Regina Drummond, Shirley Souza, Silvio Alexandre e Tatiana Alves).. [organização Silvio Alexandre]. São Paulo: Editora Terracota, 2009.
:: Antologia sonora – Poesia paraibana contemporânea. (9 CD's com gravações de poemas na voz dos autores e 31 encartes em caixa de madeira).. [organização e produção Heriberto Coelho de Almeida]. João Pessoa: Edições O Sebo Cultural, 2009. 
:: O cangaço na poesia brasileira: uma antologia. [seleção e prefácio Carlos Newton Júnior]. São Paulo: Escrituras, 2009. 

Artigos, crônicas e ensaios de Braulio Tavares na rede (links abaixo)

:: Blog 'Mundo Fantasmo'
:: Editoras.com
:: Jornal da Paraíba
(sites acessados em 26.5.2016)

Composições
:: Acesse aqui(acessado em 27.5.2016)

Tradução, organização e prefácio - literatura estrangeira
(em ordem cronológico por ano de edição)
Braulio Tavares - foto: (...)
:: Os últimos mistérios do mundo. (autores vários).. [tradução Braulio Tavares e outros]. Rio de Janeiro: Editora Seleções Reader's Digest, 2003.
:: Contos fantásticos: no labirinto de Borges. (autores: Ambrose Bierce, Arthur Machen, Braulio Tavares, Eden Phillpotts, Edgar Allan Poe, Ellery Queen, Franz Kafka, G. K. Chesterton, H. G. Wells, Infante D. Juan Manuel, Leon Bloy, Lord Dunsany, Marcel Schwob, May Sinclair, Nathaniel Hawthorne, Nelson Bond, O. Henry, Ray Bradbury e Robert Louis Stevenson).. [organização Braulio Tavares; tradução vários]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2005.
:: Civilizações desaparecidas. [organização Cortina Butler; tradutores: Braulio Tavares, Celimar de Lima, Danielle Corpas, Luiz Carlos do Nascimento Silva, Maria Clara de Melo Motta, Ronaldo Sergio de Biasi, Ruy Jungmann, Stella Maria da Silva e Vania Carvalho]. Rio de Janeiro: Editora Seleções Reader's Digest, 2007.
:: Freud e o estranho: contos fantásticos do consciente. (autores: Arthur Schnitzler, Bram Stoker, Charlotte Perkins Gilman, Cleveland Moffett, E. F. Benson, E. T. A. Hoffmann, Edward Lucas White, F. Marion Crawford, Fitz-James O'Brien, Gustav Meyrink, Guy de Maupassant, H. Heinz Ewers, Hugh Walpole, L. G. Moberly e William Harvey).. [organização e seleção Braulio Tavares; ilustrações Romero Cavalcanti; tradução vários]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2007.
:: Genesis. Bernard Beckett. [tradução Braulio Tavares]. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2009.
:: A máquina do tempo. H. G. Wells. [tradução Braulio Tavares]. Rio de Janeiro: Editora Alfaguara, 2010. 
:: Contos obscuros de Edgar Allan Poe. [organização Braulio Tavares; tradução vários]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2010.
:: Contos fantásticos: amor e sexo. (autores: Arthur Conan Doyle, Edgar Allan Poe, Fausto Cunha, Greg Egan, Honore de Balzac, John Crowley, Robert Silverberg, Ruth Rendell, Samuel R. Delany e William M. Lee).. [organização e seleção Braulio Tavares; tradução Braulio Tavares, Julio Silveira e Ronaldo de Biasi]. Rio de Janeiro: Imã Editorial, 2011.
:: O estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. Robert Louis Stevenson. [organização e tradução Braulio Tavares]. São Paulo: Editora Hedra, 2011.
:: O fantasma de canterville (Canterville ghost, the). Oscar Wilde. [tradução Braulio Tavares; ilustrações Romero Cavalcanti]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2011.
:: O homem invisível (Invisible man, the). H. G. Wells. [tradução Braulio Tavares]. Rio de Janeiro: Editora Alfaguara, 2011.
:: A ilha do Dr. Moreau (The island of doctor Moreau). H. G. Wells. [tradução Braulio Tavares]. Rio de Janeiro: Alfaguara, 2012.
:: O médico e o monstro. Robert Louis Stevenson. [tradução Braulio Tavares]. São Paulo: Editora Hedra, 2012.
:: A dama do lago (The lady in the lake). Raymond Chandler. [tradução, prefácio e organização Braulio Tavares]. Rio de Janeiro: Editora Alfaguara, 2014.
:: O longo adeus (The long goodbye). Raymond Chandler. [tradução, prefácio e organização Braulio Tavares]. Rio de Janeiro: Editora Alfaguara, 2014.
:: Detetives do sobrenatural: contos fantásticos e mistério. (autores: Arthur Machen, Brian Lumley, Dion Fortune, E. e H. Heron, Greg Egan, J. G. Ballard, L. T. Meade e Robert Eustace, Manly Wade Wellman, Melville Davisson Post, Neil Gaiman, Robert E. Howard e William Hope Hodgson).. [organização Braulio Tavares; ilustrações Romero Cavalcanti, tradução: Braulio Tavares, Pedro Ribeiro, Fábio Fernandes e Michele de Aguiar Vartuli]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2014. 
:: O país dos cegos e outras histórias. H. G. Wells. [organização e tradução Braulio Tavares]. Rio de Janeiro: Editora Alfaguara, 2014.
:: Aniquilação. Jeff Vandermeer. [tradução Braulio Tavares]. Coleção Comando Sul 'trilogia'. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2014.
:: Autoridade. Jeff Vandermeer. [tradução Braulio Tavares]. Coleção Comando Sul 'trilogia'. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2015.
:: O sono eterno (The big sleep). Raymond Chandler. [tradução Braulio Tavares]. Rio de Janeiro: Editora Alfaguara, 2015.
:: Sombras de Carcosa - contos de terror cósmico. (autores: Ambrose Bierce, Edgar Allan Poe, Bram Stoker, R. W. Chambers, Arthur Machen, M. P. Shiel, Henry James, Walter de la Mare e H. P. Lovecraft).. [tradutores: Braulio Tavares, Cynthia Beatrice Costa, Davi Gonçalves, Denise Bottmann, Fedra Rodrigues, José Geraldo Couto, Luana Ferreira Freitas, Paulo Moreira, Vanessa Geronimo e Walter Carlos Costa; ilustrações Charles Burns]. São Paulo: Editora Poetisa, 2015. 
:: A guerra dos mundos. H. G. Wells. [prefácio Braulio Tavares; introdução Brian Aldiss; ilustrações originais criadas (1906) por Henrique Alvim Corrêa; tradução Thelma Médici Nóbrega]. Edição especial ilustrada, tradução revisada + extras. Rio de Janeiro: Suma de Letras, 2016.
:: Aceitação. Jeff Vandermeer. [tradução Braulio Tavares]. Coleção Comando Sul 'trilogia'. Rio de Janeiro: Editora Intrínseca, 2016.
:: Adeus, minha querida (Farewell, my lovely). Raymond Chandler. [tradução, prefácio e organização Braulio Tavares]. Rio de Janeiro: Editora Alfaguara, 2016.


"A poesia de Braulio Tavares funda raízes numa mescla criativa de fontes em que dialogam a tradição do cancioneiro popular, nos ritmos despachados, líricos e melódicos do repente e do cordel, a pulsação desencontrada e irreverente da dicção contracultural e os arrepios formais da erudição e da vanguarda"
- Hildeberto Barbosa Filho, crítico e poeta paraibano


Braulio Tavares - foto: Ribeiro Rvd (maio 2014)
POEMAS SELECIONADOS DE BRAULIO TAVARES

A coisa
Eu quero inventar uma coisa, uma coisa viva, uma coisa
que se desprenda de mim e se mova pelo resto do mundo
com pernas que ela terá de crescer de si própria;    
e que seja ela uma máquina viva, uma máquina 
capaz de decidir e de duvidar, capaz de se enganar e de mentir.
Uma coisa que não existe. Uma coisa pela primeira vez.
Uma máquina bastarda feita de dobradiças e enzimas
e metonímias e quarks e transistores e estames
e plasma e fotogramas e roupas e sopa primordial...     
Quero apenas que seja uma coisa minha, uma coisa
que eu inventei numa madrugada enquanto vocês dormiam
e quando a vi recuei, e quando a soube pronta duvidei,
e vi a eletricidade do relâmpago abrindo seus olhos
e martelei seu joelho temendo-a, e mandando-a falar,
e gritei: "Levanta-te e anda!"- e a coisa era uma galáxia
tremeluzindo no centro da folha branca, me olhando
com meus olhos de homem, me sorrindo
com tantas bocas de mulher, me envolvendo
com sua sintaxe de coisa nova que força o mundo a mover-se,
fincando uma cunha no Real e se instalando naquela fenda,
como um setor a mais invadido um círculo já completo.
Eu quero que essa coisa existisse, assim como     
eu quis que eu seja. Quero vê-la brotar desarrumando.
Coisa criada, cobra criante, serpente criança,
criatura sentiente, existente, sente, pensante,
cercada pela linha brusca do seu até-aqui
Essa coisa me conhecerá e não me reconhecerá    
como seu Criador. Essa coisa terá poder de me destruir,    
e de me recompor, e me mandar pedir-lhe a bênção.
Então pedirei. Sairei pelo mundo. Com minhas próprias pernas.
Finalmente leve e livre, tendo parido algo maior do que eu mesmo,
e disposto a me abraçar ao mundo, como quem desce do ônibus
na rodoviária da cidade onde nasceu. Mas o mundo!
O que é esse mundo onde eu ando agora? Olha a cor das casas,
o rosto do povo, o som da fala, a manchete dos jornais, o cheiro
do vento... que mundo é esse para onde retornarei depois de livre?
Fico parado, o coração pulando, e só daqui a pouco perceberei,
com uma surpresa antiga — que aquilo não é mais meu mundo:
e o mundo da coisa, é o mundo da minha Coisa.
- Braulio Tavares, em "Antologia sonora – Poesia paraibana contemporânea".[organização e produção Heriberto Coelho de Almeida]. João Pessoa: Edições O Sebo Cultural, 2009. 

§


Cais do corpo

eles
que têm
uma mulher
em cada porto
elas
que têm
um homem
em cada navio
(quente é o cais do corpo,
quando o mar é frio)
- Braulio Tavares, no livro "O homem artificial". Rio de Janeiro: 7Letras, 1999.

§

Na hora do Lobo
Quando um homem consome a madrugada
rabiscando umas folhas de papel
e ele sabe que a vida é tonelada
oscilando na ponta de um cordel;
ele sabe que o fim de toda estrada
não desagua no inferno nem no céu,
e ele pensa na feira, na empregada,
água e luz, condomínio e aluguel;

Quando um homem fatiga a voz cansada
com palavras da Torre de Babel
e ele entende que a coisa mais amada
se transmuda na coisa mais cruel;

Quando a taça em que bebe está quebrada,
tanto vidro a boiar em tanto fel
e no peito uma dor desatinada
essa dor que é tão nítida e fiel;

Quando um homem de boca tão calada
sente a mente girar num carrossel,
ele escreve através da madrugada
com cuidados de abelha que faz mel:
sua vida, talvez, foi destinada
a salvar estas folhas de papel.
- Braulio Tavares, no livro "O homem artificial". Rio de Janeiro: 7Letras, 1999.

§

O juiz e o ladrão
Toda vez que um soldado de polícia
Leva preso um filhinho-de-papai
Meia hora depois ele já sai
Com propina na hora mais propicia
Toda vez que um jornal dá a notícia
Dos trambiques de algum parlamentar,
Noutro dia precisa apresentar
Desmentidos de toda a redação...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Quando algum promotor ter a coragem
De enfiar sua mão nesse vespeiro
Chega um fax e manda bem ligeiro
Que ela mexa com outro personagem
Se o Congresso descobre sacanagem
E promete depressa investigar
Muita gente começa a encomendar
Uma pizza gigante pro salão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Mesmo quando um ladrão endinheirado
Por acaso pernoita na cadeia
Ele tem boa cama e boa ceia
Numa cela com ar refrigerado.
Sendo o caso de ser um magistrado,
Tem direito a tv e frigobar
Tem cozinha francesa no jantar
E cobertas de seda no colchão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

Outro caso na historia brasileira
É o juiz conhecido por Lalau
Que roubou cem milhões dum tribunal
E escondeu do outro lado da fronteira
O juiz vai em cana terça-feira
E na sexta já mandam libertar
Não tem homem que faça ele passar
Sete dias seguidos na prisão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!

No Brasil tem industria madeireira
Derrubando floresta em todo Estado
E às vezes vem um advogado
Traz a lei, e interrompe essa sujeira
Mais aí um ricaço abre a carteira
Compra a peso de outro a liminar
E na mata se volta a escutar
Motosserra, machado e caminhão...
Toda vez que um juiz prende um ladrão,
Chega outro juiz, manda soltar!
- Braulio Tavares, em "Os martelos de Trupizupe". Natal: Engenho de Arte, 2004.

§

Palco iluminado I
Preciso agora da calma
de quem joga a vida, a alma
no mais deslavado blefe:

mãos firmes e voz cortante
e os olhos desafiantes
de quem aguarda um tabefe.
- Braulio Tavares, no livro "O homem artificial". Rio de Janeiro: 7Letras, 1999.

§

Sina violeira
 O que eu quero
é viver de desafio
amar de improviso
e morrer de repente.
- Braulio Tavares, no livro "O homem artificial". Rio de Janeiro: 7Letras, 1999.

§

Travessia
O lar 
do passarinho 
é
   o ar 
não
   é 
o ninho.
- Braulio Tavares, no livro "O homem artificial". Rio de Janeiro: 7Letras, 1999.

§


Braulio Tavares - foto: Ribeiro Rvd (maio 2014)
FORTUNA CRÍTICA DE BRAULIO TAVARES
ALBIN, Ricardo Cravo. Dicionário Houaiss Ilustrado Música Popular Brasileira. (organização e edição Ricardo Cravo Albin). Rio de Janeiro: Instituto Antônio Houaiss | Instituto Cultural Cravo Albin e Editora Paracatu, 2006.
ALVES, Cicero. Bráulio Tavares: “Quem ameaça a cultura não é a censura, é o entretenimento”. in: O Chaplin, 14 de fevereiro de 2014. Disponível no link. (acessado em 27.5.2016).
AMARAL, Euclides. Alguns aspectos da MPB. Rio de Janeiro: Edição do Autor, 2008. 3ª ed., EAS Editora, 2014.
BATISTA, Elilson. Depoimento de Braulio Tavares. in: Rapadura Cult, 20 de maio de 2011. Disponível no link. (acessado em 27.5.2016).
BRAULIO Tavares. in: blog Tararitaritatá, 6 janeiro de 2009. Disponível no link. (acessado em 28.5.2016).
BRAULIO Tavares - entrevista. in: blog Agenda - Guia da Poesia, 19 de julho de 2014. Disponível no link. (acessado em 28.5.2016).
BRAULIO Tavares. entrevista. in: O nordeste. Disponível no link. (acessado em 26.5.2016).
CHAVES, Xico; CYNTRÃO, Sylvia. Da pauliceia à centopeia desvairada - as vanguardas e a MPB. Rio de Janeiro: Elo Editora, 1999.
FRANÇA, Julio; NIELS, Karla. Entrevista com Braulio Tavares. in: Revista Abusões, nº 1, v. 1 ano 1, 2015. Disponível no link. (acessado em 29.5.2016)
HOLLANDA, Heloísa Buarque; PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Poesia jovem anos 70. Literatura comentada. São Paulo: Editora Abril, 1982.
JORGE, Israel. Entrevista com Braulio Tavares, autor de “Histórias Para Lembrar Dormindo”. in: Revista Amalgama, 2.10.2013. Disponível no link. (acessado em 27.5.2016).
LEÃO, Rodrigo de Souza. Braulio Tavares - entrevista. in: Balacobaco - Garganta da Serpente, 2002. Disponível no link. (acessado em 27.5.2016).
MATTOSO, Glauco. O que é poesia marginal. Coleção Primeiros Passos. São Paulo: Editora Brasiliense, 1981.
PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. Retrato de época - poesia marginal Anos 70. Rio de Janeiro: MEC|Funarte, 1981.
PINTO, José Nêumanne (seleção). Os cem melhores poetas brasileiros do século. [ilustrações Tide - Hellmeister]. 1ª ed., São Paulo: Geração Editorial, 2001; 2ª ed., 2004.


Aprendi com muito custo 
levar as coisas sem pressa 
checar tudo duas vezes 
nunca contar com promessa 
pensar antes de fazer 
fazer antes que alguém peça
- Braulio Tavares


Braulio Tavares - foto (...)
OUTRAS REFERÊNCIAS E FONTES DE PESQUISA
:: Antonio Miranda
:: Blog 'Mundo Fantasmo'
:: Blog do Simão Pessoa
:: Cordel Poesia e Repente
:: Cultura Popular
:: Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira
:: Editoras.com
:: Jornal de Poesia
:: Musarara
:: Paraíba Criativa

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© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske

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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Braulio Tavares - um menestrel. Templo Cultural Delfos, maio/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
____
** Página atualizada em 23.5.2016.




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