Edgar Allan Poe - poemas

Edgar Allan Poe - by Holllywood
Edgar Allan Poe destacou-se como contista, poeta e crítico literário exigente. Saiba mais sobre a vida e obra do autor acessando aqui!


SONÊTO À CIÊNCIA
Ciência! Do velho Tempo és filha predileta!
Tudo alteras, com o olhar que tudo inquire e invade!
Por que rasgas assim o coração do poeta,
abutre, que asas tens de triste Realidade?

Poderia êle amar-te, achar sabedoria
em ti, se ousas cortar seu vôo errante e ao léu
quando tenta extrair os tesouros do céu,
mesmo que a asa se eleve indômita e bravia?

Não furtaste a Diana o carro? E não forçaste
a Hamadríade do bosque a procurar, fugindo,
estrêla mais feliz, que para sempre a esconda?

Não arrancaste à Ninfa as carícias da onda,
e ao Elfo a verde relva? E a mim, não me roubaste
o sonho de verão ao pé do tamarindo?


SONNET — TO SCIENCE
Science! true daughter of Old Time thou art!
Who alterest all things with thy peering eyes.
Why preyest thou thus upon the poet's heart,
Vulture, whose wings are dull realities?
How should he love thee? or how deem thee wise,
Who wouldst not leave him in his wandering
To seek for treasure in the jewelled skies,
Albeit he soared with an undaunted wing?
Hast thou not dragged Diana from her car?
And driven the Hamadryad from the wood
To seek a shelter in some happier star?
Hast thou not torn the Naiad from her flood,
The Elfin from the green grass, and from me

The summer dream beneath the tamarind tree?
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes com a colaboração Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§
Edgar Allan Poe - by Carura

TAMERLÃO
Doce consolação nesta hora extrema! 
Tal, Padre, agora não será meu tema... 
Não direi loucamente que um poder 
terreno me liberte do pecado 
sôbre-humano de orgulho, em mim a arder. 
O tempo de sonhar é já passado: 
Dizes que isso é esperança; e a desvairada 
chama é só a agonia de um anseio! 
Se creio na Esperança... Ó Deus! Bem creio... 
Sua fonte é mais divina, mais sagrada... 
Ancião louco eu não quero te chamar, 
mas isso é coisa que não podes dar. 

Conheces de um espírito o segrêdo, 
da soberba atirado em plena lama? 
Herdei, ó coração a palpitar, 
teu quinhão de desprêzo, com a fama, 
a glória consumida, a cintilar 
de meu trono entre as jóias, qual coroa 
infernal. Porque dor alguma o inferno 
pode agora trazer, que me dê mêdo. 
E anseias pelas flores, coração, 
e pelo sol das horas de verão! 
Dêsse tempo defunto o canto eterno, 
com seu soluço intérmino, reboa, 
em teu vazio, nos sons enfeitiçados 
de um dobre doloroso de finados. 

Do que hoje sou, já fui bem diferente. 
Usurpador, obtive, conquistei 
o diadema que cinge a fronte ardente. 
Roma e César não deu a mesma ousada 
herança, que me estava reservada? 
A herança de um espírito de rei, 
para lutar, espírito altaneiro, 
triunfalmente, contra o mundo inteiro. 

Em região montanhosa ao mundo vim. 
As brumas de Taglay pulverizavam, 
à noite, o seu orvalho sôbre mim, 
e acredito que as asas, em violentos 
tumultos, e as tormentas, e os mil ventos, 
em meus próprios cabelos se aninhavam. 

Êsse orvalho, depos, do céu tombando 
(entre noites de sonhos condenados) 
era um toque de inferno sôbre mim, 
enquanto rubras luzes, cintilando 
em nuvens, que oscilavam quais pendões, 
pareciam-me, aos olhos malcerrados, 
do poder régio as predestinações, 
e dos trovões profundos o clarim 
sôbre mim se atirava, proclamando 
que, em humanas batalhas, estentórea 
– criança louca! – a minha voz bradava 
(como minha ala se regozijava 
e ante êsse grito o coração saltava!) 
o grito de combate da Vitória! 

Na fronte sem abrigo se esparzia 
a chuva rude, e o vento me tornava 
desatinado, cego, ensurdecido. 
Era apenas um ente que lançava 
louros em mim, pensava então, e a fria 
fúria do ar fustigante, a meus ouvidos 
cantava a evocação de destroçados 
impérios, o clamor dos capturados, 
o rumor dos cortejos, a canção 
com que aos tronos rodeia a adulação. 

Minhas paixões, desde êsse infausto dia, 
sôbre mim exerceram tirania 
tamanha, que, somente com o poder, 
se pôde o meu caráter conhecer. 
Mas, Padre, então, ali vivia alguém... 
então... na juventude... quando a chama 
das paixões mais se alteia e mais se inflama 
(porque paixões só a juventude tem), 
alguém que soube ver, no peito de aço, 
de uma fraqueza feminil o traço. 

Não tenho têrmos... ai... para dizer 
o quanto é doce o verdadeiro amor! 
Nem tentarei agora descrever 
dessa face lindíssima o primor, 
pois seus contornos são, na minha mente, 
sombras que ao vento vão, volùvelmente. 
Recordo ter-me outrora debruçado 
sôbre folhas de ciência do Passado, 
até que cada letra, tão fitada, 
e cada têrmo se desvanecesse 
e seu próprio sentido se perdesse 
em fantasias e, por fim, em nada. 

Ah! todo o amor bem elas merecia 
e era o meu afeto qual de criança. 
Razão tinham os anjos de a invejar. 
Seu jovem coração era um altar 
em que meus pensamentos e a esperança 
eram o incenso, a oferta que subia 
com pureza infantil, imaculada, 
de seu jovem modêlo copiada. 
Por que os abandonei, pela paixão 
da luz, que inflama e empolga o coração? 

Crescemos... e conosco o amor crescia... 
vagueando na floresta e nos desertos. 
Na tormenta meu peito a protegia 
e quando, amiga, a luz do sol sorria. 
E se ela contemplava os céus abertos, 
sòmente em seu olhar os céus eu via. 

A primeira lição do amor nascente 
está no coração, pois, sob o ardente 
sol, vendo êsses sorrisos sem cuidados, 
rindo de seus brinquedos estouvados, 
eu me lançava no seu seio arfante 
e em lágrimas minha alma se expandia. 
Ah! dizer mais eu não precisaria, 
nem acalmar temores vãos, perante 
quem ficava, sem nada perguntar, 
voltando para mim o quieto olhar. 

E embora merecesse mais que o amor, 
a minha alma impaciente se exaltava 
quando, num cume de montanha, a sós, 
a ambição lhe falava em nova voz. 
Todo o meu ser só nela consistia;
o mundo e tudo quanto êle encerrava, 
na terra, no ar, nos mares, a alegria, 
os quinhões pequeníssimos de dor, 
que eram nôvo prazer, os ideais, 
noturnos sonhos de vaidade impura, 
e as coisas mais sombrias, porque reais 
(as sombras... e uma luz bem mais obscura!) 
nas asas do nevoeiro se evolavam 
e assim confusamente se tornavam 
numa imagem, num nome... um nome... duas 
coisas, unificadas, porque tuas. 

Eu era ambicioso. Já tiveste 
paixões, Padre? Não! Não as conheceste! 
Um trono para mim, filho do lôdo, 
que o mundo dominasse quase todo, 
sonhei, a maldizer a minha sorte. 
Mas, como todo sonho, também êste, 
sob o vapor do orvalho, voaria, 
não viesse da beleza o brilho forte 
que o cumulava, ainda que, se tanto, 
por um minuto, por uma hora, um dia 
pesar-me na alma com dobrado encanto. 

E passeávamos juntos, pela crista 
de elevada montanha, donde a vista 
caía, dos penhascos escarpados 
e altivos, das florestas, nos outeiros 
esparsos, de bosquetes coroados, 
rumorejando com seus mil ribeiros. 
Falava de poder e de vaidade, 
porém mìsticamente, que a verdade 
a ela eu não queria revelar 
no que dizia; e então, em seu olhar, 
talvez eu lesse, descuidadamente, 
um sentimento, do meu próprio irmão. 
O brilho de suas faces parecia, 
para mim, transformar-se em refulgente 
trono; e eu consentir não poderia 
que elas brilhassem só na solidão. 

De grandezas então eu me envolvia 
tomando uma fantástica coroa; 
e não era, contudo, a Fantasia 
que seu manto viera em mim lançar. 
E se entre a humanidade, a turba alvar, 
é o leão da ambição, que se agrilhoa, 
entregue à mão de um domador que o mande, 
não é assim no deserto; lá, o que é grande 
conspira com o terrível e o sem-par 
para as almas com o sôpro incendiar. 

Contempla Samarkand! Contempla-a agora! 
Não é rainha da terra e se alcandora 
sôbre as cidades tôdas? Não lhes traz 
os destinos na mão? E não desfaz, 
solitária e fidalga, tudo quanto 
de glória e fama neste mundo medra? 
Se cair, sua mais humilde pedra 
há de formar de um trono o pedestal. 
Quem é seu soberano? Tamerlão. 
Êsse que os povos viram, com espanto, 
subir, calcando aos pés cada nação, 
um bandido com a coroa real! 

Ó amor humano! Tu, que dás, no mundo, 
o que esperamos vir do céu profundo; 
que cais na alma, qual chuva abençoada 
sôbre a planície adusta e calcinada; 
e, não podendo dar ventura, fazes 
do coração deserto sem oásis; 
tu, idéia que tôda a vida encerra 
em música de sons tão singulares 
e belos, que na selva têm seus lares, 
adeus! adeus! pois conquistei a Terra! 

Quando a Esperança, essa águia da amplidão, 
os altos cimos já não mais avista, 
suas asas se curvam, de mansinho, 
e o olhar se volta, doce, para o ninho. 
Era o sol-pôr; e quando o sol declina 
um desespêro sobe ao coração 
de quem ainda quisera ter à vista 
o esplendor estival da luz solar. 
A alma aspira a bruma vespertina, 
tão cariciosa, atenta a perceber 
o som da treva (ouvido sempre pelos 
que sabem dar-lhe ouvido) a se arrastar, 
como quem quer, em meio a pesadelos, 
fugir de algum perigo, sem poder. 

Que importa brilhe a lua, a lua fria
com seu fulgor mais lúcido e mais forte? 
Seu sorriso e seu brilho são gelados, 
naquelas horas de melancolia, 
como um retrato feito após a morte 
(vendo-o, nem respiramos, assustados). 
E a juventude é como um sol de estio, 
cujo poente é o mais triste, porque então 
já nada mais ignora o coração 
e o que guardar quisemos no fugiu. 
Pareça a vida, pois, qual flor de um dia, 
com a beleza que, esplêndida, irradia. 

Voltei para o meu lar, não mais meu lar,
pois tudo o que fazia assim se fora.
Penetrei no musgoso umbral e embora
fôsse meu passo lento e comedido
veio uma voz da pedra do limiar,
a voz de alguém que u conhecera outrora.
Oh! desafio o inferno a que apresente,
nos seus leitos de fogo, mais ferido
coração, ou desgraça mais pungente!

Eu creio, Padre, eu firmemente creio, 
e bem sei – pois a morte, que me veio 
da longínqua região abençoada
onde não mais existem ilusões, 
vai entreabrindo os rígidos portões 
e cintilam os raios da verdade,
que não vês, através da Eternidade... 
Sim, eu creio que Eblis pôsto havia 
sua armadilha, sob a humana estrada. 
E se não, por que, quando eu me perdia 
no bosque santo dêsse ídolo, o Amor, 
de asas de eneve sempre perfumadas 
com o incenso das ofertas mais sagradas, 
no bosque iluminado intensamente 
pelos raios do céu, nesse bosque onde 
nenhum ser, por mais ínfimo, se esconde 
a seu olhar de águia, abrasador, 
por que, então, a ambição se insinuou, 
sem ser vista, entre os sonhos, a crescer, 
até lançar-se, a rir, ousadamente, 
nas madeixas do Amor, do próprio Amor?


TAMERLANE
KIND solace in a dying hour!
Such, father, is not (now) my theme—
I will not madly deem that power
Of Earth may shrive me of the sin
Unearthly pride hath revell'd in—
I have no time to dote or dream:
You call it hope—that fire of fire!
It is but agony of desire:
If I can hope—O God! I can—
Its fount is holier—more divine—
I would not call thee fool, old man,
But such is not a gift of thine.

Know thou the secret of a spirit
Bow'd from its wild pride into shame.
O yearning heart! I did inherit
Thy withering portion with the fame,
The searing glory which hath shone
Amid the jewels of my throne,
Halo of Hell! and with a pain
Not Hell shall make me fear again—
O craving heart, for the lost flowers
And sunshine of my summer hours!
The undying voice of that dead time,
With its interminable chime,
Rings, in the spirit of a spell,
Upon thy emptiness—a knell.

I have not always been as now:
The fever'd diadem on my brow
I claim'd and won usurpingly—
Hath not the same fierce heirdom given
Rome to the Cæsar—this to me?
The heritage of a kingly mind,
And a proud spirit which hath striven
Triumphantly with human kind.

On mountain soil I first drew life:
The mists of the Taglay have shed
Nightly their dews upon my head,
And, I believe, the wingèd strife
And tumult of the headlong air
Have nestled in my very hair.

So late from Heaven—that dew—it fell
('Mid dreams of an unholy night)
Upon me with the touch of Hell,
While the red flashing of the light
From clouds that hung, like banners, o'er,
Appeared to my half-closing eye
The pageantry of monarchy,
And the deep trumpet-thunder's roar
Came hurriedly upon me, telling
Of human battle, where my voice,
My own voice, silly child!—was swelling
(O! how my spirit would rejoice,
And leap within me at the cry)
The battle-cry of Victory!

The rain came down upon my head
Unshelter'd—and the heavy wind
Rendered me mad and deaf and blind.
It was but man, I thought, who shed
Laurels upon me: and the rush—
The torrent of the chilly air
Gurgled within my ear the crush
Of empires—with the captive's prayer—
The hum of suitors—and the tone
Of flattery 'round a sovereign's throne.

My passions, from that hapless hour,
Usurp'd a tyranny which men
Have deem'd since I have reach'd to power,
My innate nature—be it so:
But father, there liv'd one who, then,
Then—in my boyhood—when their fire
Burn'd with a still intenser glow,
(For passion must, with youth, expire)
E'en then who knew this iron heart
In woman's weakness had a part.

I have no words—alas!—to tell
The loveliness of loving well!
Nor would I now attempt to trace
The more than beauty of a face
Whose lineaments, upon my mind,
Are——shadows on th' unstable wind
Thus I remember having dwelt
Some page of early lore upon,
With loitering eye, till I have felt
The letters—with their meaning—melt
To fantasies—with none.

O, she was worthy of all love!
Love—as in infancy was mine—
'Twas such as angel minds above
Might envy; her young heart the shrine
On which my every hope and thought
Were incense—then a goodly gift,
For they were childish and upright—
Pure—as her young example taught:
Why did I leave it, and, adrift,
Trust to the fire within, for light?

We grew in age—and love—together,
Roaming the forest, and the wild;
My breast her shield in wintry weather—
And, when the friendly sunshine smil'd
And she would mark the opening skies,
I saw no Heaven—but in her eyes.

Young Love's first lesson is—the heart:
For 'mid that sunshine, and those smiles,
When, from our little cares apart,
And laughing at her girlish wiles,
I'd throw me on her throbbing breast,
And pour my spirit out in tears—
There was no need to speak the rest—
No need to quiet any fears
Of her—who ask'd no reason why,
But turned on me her quiet eye!

Yet more than worthy of the love
My spirit struggled with, and strove,
When, on the mountain peak, alone,
Ambition lent it a new tone—

I had no being—but in thee:
The world, and all it did contain
In the earth—the air—the sea—
Its joy—its little lot of pain
That was new pleasure—the ideal,
Dim vanities of dreams by night—
And dimmer nothings which were real—
(Shadows—and a more shadowy light!)
Parted upon their misty wings,
And, so, confusedly, became
Thine image, and—a name—a name!
Two separate—yet most intimate things.

I was ambitious—have you known
The passion, father? You have not:
A cottager, I mark'd a throne
Of half the world as all my own,
And murmur'd at such lowly lot—
But, just like any other dream,
Upon the vapour of the dew
My own had past, did not the beam
Of beauty which did while it thro'
The minute—the hour—the day—oppress
My mind with double loveliness.

We walk'd together on the crown
Of a high mountain which look'd down
Afar from its proud natural towers
Of rock and forest, on the hills—
The dwindled hills! begirt with bowers,
And shouting with a thousand rills.

I spoke to her of power and pride,
But mystically—in such guise
That she might deem it nought beside
The moment's converse; in her eyes
I read, perhaps too carelessly—
A mingled feeling with my own—
The flush on her bright cheek, to me
Seem'd to become a queenly throne
Too well that I should let it be
Light in the wilderness alone.

I wrapp'd myself in grandeur then,
And donn'd a visionary crown—
Yet it was not that Fantasy
Had thrown her mantle over me—
But that, among the rabble—men,
Lion ambition is chained down—
And crouches to a keeper's hand—
Not so in deserts where the grand—
The wild—the terrible conspire
With their own breath to fan his fire.

Look'round thee now on Samarcand!
Is not she queen of Earth? her pride
Above all cities? in her hand
Their destinies? in all beside
Of glory which the world hath known
Stands she not nobly and alone?
Falling—her veriest stepping-stone
Shall form the pedestal of a throne—
And who her sovereign? Timour—he
Whom the astonished people saw
Striding o'er empires haughtily
A diadem'd outlaw!

O, human love! thou spirit given,
On Earth, of all we hope in Heaven!
Which fall'st into the soul like rain
Upon the Siroc-wither'd plain,
And, failing in thy power to bless,
But leav'st the heart a wilderness!
Idea! which bindest life around
With music of so strange a sound,
And beauty of so wild a birth—
Farewell! for I have won the Earth.

When Hope, the eagle that tower'd, could see
No cliff beyond him in the sky,
His pinions were bent droopingly—
And homeward turn'd his soften'd eye.
'Twas sunset: when the sun will part
There comes a sullenness of heart
To him who still would look upon
The glory of the summer sun.
That soul will hate the ev'ning mist,
So often lovely, and will list
To the sound of the coming darkness (known
To those whose spirits hearken) as one
Who, in a dream of night, would fly
But cannot, from a danger nigh.

What tho' the moon—the white moon
Shed all the splendour of her noon,
Her smile is chilly, and her beam,
In that time of dreariness, will seem
(So like you gather in your breath)
A portrait taken after death.

And boyhood is a summer sun
Whose waning is the dreariest one—
For all we live to know is known,
And all we seek to keep hath flown—
Let life, then, as the day-flower, fall
With the noon-day beauty—which is all.

I reach'd my home—my home no more—
For all had flown who made it so.
I pass'd from out its mossy door,
And, tho' my tread was soft and low,
A voice came from the threshold stone
Of one whom I had earlier known—
O, I defy thee, Hell, to show
On beds of fire that burn below,
A humbler heart—a deeper woe.

Father, I firmly do believe—
I know—for Death, who comes for me
From regions of the blest afar,
Where there is nothing to deceive,
Hath left his iron gate ajar,
And rays of truth you cannot see
Are flashing thro' Eternity——
I do believe that Eblis hath
A snare in every human path—
Else how, when in the holy grove
I wandered of the idol, Love,
Who daily scents his snowy wings
With incense of burnt offerings
From the most unpolluted things,
Whose pleasant bowers are yet so riven
Above with trellis'd rays from Heaven

No mote may shun—no tiniest fly—
The light'ning of his eagle eye—
How was it that Ambition crept,
Unseen, amid the revels there,
Till growing bold, he laughed and leapt

In the tangles of Love's very hair?
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes com a colaboração Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

UM SONHO
SONHEI, entre visões da noite escura, 
com a alegria morta, mas meu sonho 
de vida e luz me despertou, tristonho, 
com o coração partido de amargura.

Ah! que não vale um sonho à luz do dia 
para aquêle que os olhos traz cravados
nas coisas que o rodeiam e os desvia 
para tempos passados?

Aquêle santo sonho, sonho santo, 
enquanto o mundo repelia o pária, 
deu-me o confôrto, como luz de encanto 
a conduzir uma alma solitária.

E embora a luz, por entre a tempestade
e a noite, assim tremesse, tão distante,
que poderia haver de mais brilhante
no claro sol da estrêla da Verdade?


A DREAM
In visions of the dark night
I have dreamed of joy departed —
But a waking dream of life and light
Hath left me broken-hearted.

Ah! what is not a dream by day
To him whose eyes are cast
On things around him with a ray
Turned back upon the past?

That holy dream — that holy dream,
While all the world were chiding,
Hath cheered me as a lovely beam
A lonely spirit guiding.

What though that light, thro' storm and night,
So trembled from afar —
What could there be more purely bright

In Truth's day-star?
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§
Retrato de Edgar Allan Poe, por Bernhardt Wall 1919

HINO A ARISTÓGITON E HARMÓDIO

I

COM GRINALDAS de mirto, embainho a espada
como a dêsses campeões de almas serenas
quando, em peito tirano mergulhada,
restituía a liberdade a Atenas. 

II

Heróis! Vossa alma eterna se alcandora
nas ilhas de ventura abençoada
em que descansam os titãs de outrora
e Diomedes e Aquiles têm morada. 

III

De mirto verde adornei meu gládio,
Como Harmódio, fidalgo e bom, fazia,
ao derramar, sôbre a ara do Paládio,
o sangue, em libação, da Tirania. 

IV

Vós livrastes Atenas de opressões,
vingastes o mal feito à liberdade
e vossa fama irá, de idade a idade, 
embalsamada no eco das canções.


    HYMN TO ARISTOGEITON AND HARMODIUS
         Translation from the Greek.
                   I

WREATHED in myrtle, my sword I'll conceal
Like those champions devoted and brave,
When they plunged in the tyrant their steel,
And to Athens deliverance gave.

                   II

Beloved heroes! your deathless souls roam
In the joy breathing isles of the blest;
Where the mighty of old have their home
Where Achilles and Diomed rest.

                   III

In fresh myrtle my blade I'll entwine,
Like Harmodious, the gallant and good,
When he made at the tutelar shrine
A libation of Tyranny's blood.

                    IV

Ye deliverers of Athens from shame!
Ye avengers of Liberty's wrongs!
Endless ages shall cherish your fame,
Embalmed in their echoing songs!


1827.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

ROMANCE
Ó, ROMANCE, que acenas e cantas,
cabeceando, com as suas asas fechadas,
entre as fôlhas que tombam das plantas,
lá na sombra das águas paradas,
papagaio multicolorido,
a minha ave cassa eira tens sido.
Ensinaste-me a ler; com teus têrmos
balbuciei a primeira das frases,
quando, criança, já de olhos sagazes,
me afundava nos bosques mais ermos.

Hoje, o eterno Condor das idades
tôda a altura dos céus faz temer
com a tormenta do Tempo, a correr;
e, de tanto fitar tempestades,
um momento não há, de lazer.
E se uma hora, voando mais calma,
vem lançar seu frouxel em minha alma,
ó, meu canto, na lira não vibras,
pois o meu coração tem por crime
que êsse efêmero instante se rime,
sem que tremam também suas fibras.


ROMANCE
I

Romance who loves to nod and sing
With drowsy head and folded wing
Among the green leaves as they shake
Far down within some shadowy lake
To me a painted paroquet
Hath been — a most familiar bird —
Taught me my alphabet to say —
To lisp my very earliest word
While in the wild wood I did lie
A child — with a most knowing eye.

II

Of late, eternal Condor years
So shake the very air on high
With tumult, as they thunder by,
I hardly have had time for cares
Thro` gazing on th` unquiet sky!
And, when an hour with calmer wings
Its down upon my spirit flings —
That little time with lyre and rhyme
To while away — forbidden things!
My heart would feel to be a crime

Did it tremble with the strings!
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                           VÉSPER
ERA em pleno verão.
Andava a noite em meio.
E as estrelas, no seu revoluteio,
luziam desbotadas, ao clarão
maior da lua fria,
que, entre a turba dos astros que a servia,
dos céus vinha lançar
seu brilho sôbre o mar.

Olhei por um instante
o seu sorriso enregelante,
para mim frio, tão frio...
e lá passou, qual fúnebre atavio,
uma nuvem, que em flocos se reparte.
Voltei-me então, a olhar-te,
Vésper altiva e nobre,
de esplendor que a distância não encobre,
e mais caro seu brigo me há de ser;
pois o prazer
é o que de mais esplêndido tu trazes
para o meu coração,
nas ondas que, no céu, à noite, fazes,
e é bem maior a minha admiração
por tua chama afastada
que por aquela luz, tão perto, mas gelada.


EVENING STAR
'TWAS noontide of summer,
And midtime of night,
And stars, in their orbits,
Shone pale, through the light
Of the brighter, cold moon.
'Mid planets her slaves,
Herself in the Heavens,
Her beam on the waves.

I gazed awhile
On her cold smile;
Too cold-too cold for me –
There passed, as a shroud,
A fleecy cloud,
And I turned away to thee,

Proud Evening Star,
In thy glory afar,
And dearer thy beam shall be;
For joy to my heart
Is the proud part
Thou bearest in Heaven at night.,
And more I admire
Thy distant fire,
Than that colder, lowly light.


1827.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                          O LAGO
NO VERDOR de meu anos, meu destino
foi só habitar, de todo o vasto mundo,
uma região que amei mais do que tôdas,
tanto encantava a solidão de um lago
selvagem, que cercavam negras rochas
e altos pinheiros, dominando tudo.

Mas quando a Noite, em treva, amortalhava
êsse recanto e o mundo, e o vento místico
chegava, murmurando melopéias,
então, ah! sempre em mim se despertava
o terror dêsse lago solitário.

Não era, êsse, um terror, porém, de espanto,
mas um delicioso calafrio,
sentimento que as jóias mais preciosas
não inspiram , nem fazem definir;
nem mesmo o amor, nem mesmo o teu amor.

Reinava a Morte na água envenenada
e seu abismo era um sepulcro digno
de quem pudesse ali achar consôlo
para seus pensamentos taciturnos,
de quem a alma pudesse, desolada,
no tôrvo lago ter um Paraíso.


THE LAKE — TO — —
In spring of youth it was my lot
To haunt of the wide world a spot
The which I could not love the less –
So lovely was the loneliness
Of a wild lake, with black rock bound,
And the tall pines that towered around.

But when the Night had thrown her pall
Upon that spot, as upon all,
And the mystic wind went by
Murmuring in melody –
Then – ah then I would awake
To the terror of the lone lake.

Yet that terror was not fright,
But a tremulous delight – 
A feeling not the jewelled mine
Could teach or bribe me to define –
Nor Love – although the Love were thine.

Death was in that poisonous wave,
And in its gulf a fitting grave
For him who thence could solace bring
To his lone imagining – 
Whose solitary soul could make

An Eden of that dim lake.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                               CANÇÃO
Edgar Allan Poe, by Timett
EM TUA FESTA de núpcias eu te vi,
ardendo de rubor.
E havia só venturas junto a ti;
e era, a teus pés, o mundo, todo amor.

E, em seu olhar, a luz incandescente
(ah! qualquer que ela fosse!)
era o que, para o meu olhar dolente,
existia na terra de mais doce.

E era o rubor, o pejo purpurino 
da virgem (por que não?) .
Mas uma chama infrene, em desatino,
a seu brilho, ai!, nasceu no coração

de quem, na festa nupcial, te via
ao vir-te êsse rubor.
E só venturas junto a ti havia;
e era, a teus pés, o mundo, todo amor...


TO — — OR 
SONG
I SAW thee on thy bridal day,

When a burning blush came o'er thee,
Tho` Happiness around thee lay,
The world all love before thee.

And, in thine eye, a kindling light
Of young passion free
Was all on earth, my chained sight
Of Loveliness might see.

That blush, I ween, was maiden shame;
As such it well may pass:
Tho` its glow hath raised a fiercer flame
In the breast of him, alas!

Who saw thee on that bridal day.
When that deep blush would come o'er thee,
Tho` Happiness around thee lay;

The world all love before thee. –
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                     A MARIE-LOUISE SHEW
DE TODOS para quem tua proposta é o dia;
de todos para quem é tua ausência a noite,
um eclipse total do sol no céu profundo;
de todos os que sempre, a chorar, te bendizem,
pela esperança, a vida e, sobretudo, pela
ressurreição da fé, bem fundo sepultada,
na Humanidade, na Verdade, na Virtude;
de todos que, no leito ímpio do desespêro,
esperavam a morte e de pronto se ergueram
à tua voz murmurante e suave – “A luz se faça!” –
sob a voz murmurante e suave, que se espelha
no seráfico ardor de teus olhos esplêndidos;
de todos os que mais te devem e que, gratos,
rendem-te ardente culto, oh! lembra o mais sincero,
recorda-te do mais fervente e devotado
e pensa que êle traça êstes versos tão frágeis
e que, ao traçá-los, treme, ante o só pensamento
de sua alma em comunhão com o espirito de um anjo!


TO MARIE LOUISE (SHEW)
Of all who hail thy presence as the morning –
Of all to whom thine absence is the night –
The blotting utterly from out high heaven
The sacred sun – of all who, weeping, bless thee
Hourly for hope – for life – ah! above all,
For the resurrection of deep-buried faith
In Truth – in Virtue – in Humanity –
Of all who, on Despair's unhallowed bed
Lying down to die, have suddenly arisen
At thy soft-murmured words, "Let there be light!"
At the soft-murmured words that were fulfilled
In the seraphic glancing of thine eyes –
Of all who owe thee most – whose gratitude
Nearest resembles worship – oh, remember
The truest – the most fervently devoted,
And think that these weak lines are written by him –
By him who, as he pens them, thrills to think
His spirit is communing with an angel's.


1847.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                               A HELENA
TUA BELEZA, Helena, faz pensar 
nesses barcos de Nice que, por mar
perfumado, levavam, docemente,
outrora, o viajor cansado e doente
ao seu nativo lar.

Quanto oceano sulquei, desesperado!
E em teu nobre perfil, na flava coma,
no encanto pela Náiade imitado,
volto à Grécia gloriosa do passado,
ao esplendor de Roma!

Sim! No nicho fulgente da janela,
à luz de ônix, teu vulto se revela,
lâmpada a mão, uma estátua pagã.
Ó, Psique, que me vieste dessa bela
e sagrada Canaã!


TO HELEN
Helen, thy beauty is to me
Like those Nicean barks of yore,
Tha gently, o’ver a perfumed sea,
The weary way-worn wanderer bore
To his own native shore.

On desperate seas long wont to roam,
Thy hyacinth hair, thy classic face,
Thy Naiad airs have brought me home
To the beauty of fair Greece,
And the grandeur of old Rome.

Lo! in that little window-niche
How statue-like I see thee stand!
The folded scroll within thy hand –
A Psyche from the regions which

Are Holly Land!
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§
Edgar Alla Poe, por SL.

“O DIA MAIS FELIZ”
I

O DIA mais feliz, a hora mais doce,
conheceu-os a minha alma desolada.
De orgulho e poderio, a mais ousada
esperança (bem sinto) consumou-se.

II

De poderio? Assim pensei! Mas, ai,
tôda esperança é já desvanecida!
Visões do florescer de minha vida,
pobres visões, mortas visões passai!

III

E tu, orgulho, que tenho ainda contigo?
Teu veneno herde uma outra fronte incalma
onde, sutil, se instile êsse inimigo.
Que possa ao menos descansar minha alma!

IV

O dia mais feliz, a hora mais doce
que meus olhos já viram ou verão,
de orgulho e poderio a aspiração
mais luminosa, tudo (eu sei) finou-se.

V

Mas se a esperança fôsse dada, ainda,
de orgulho e poderio, com a mesma fria
dor que outrora senti, não quereria
nunca mais reviver essa hora linda.

VI

Pois negro era o feitiço de sua asa
espalmada, a esvoaçar, donde caía
potente essência destruidora, em brasa,
por sôbre a alma que bem a conhecia.


THE HAPPIEST DAY — THE HAPPIEST HOUR
THE happiest day – the happiest hour
My sear'd and blighted heart hath known,
The highest hope of pride and power,
I feel hath flown.

Of power! said I? yes! such I ween;
But they have vanish'd long, alas!
The visions of my youth have been –
But let them pass.

And, pride, what have I now with thee?
Another brow may even inherit
The venom thou hast pour'd on me –
Be still, my spirit.

The happiest day – the happiest hour
Mine eyes shall see – have ever seen,
The brightest glance of pride and power,
I feel – have been:

But were that hope of pride and power
Now offer'd, with the pain
Even then I felt – that brightest hour
I would not live again:

For on its wing was dark alloy.
And, as it flutter'd – fell
An essence – powerful to destroy

A soul that knew it well.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

SONHOS
FÔSSE-ME a infância um sonho prolongado! 
Nem a alma despertasse, até que o brilho 
da manhã viesse numa Eternidade! 
Mesmo que o longo sonho fôsse triste, 
desesperado, bem melhor seria 
que o despertar da fria realidade, 
para quem, no seu peito, só tem tido 
e tem, na terra deliciosa, um caos 
de paixões fundas, desde o nascimento. 
Mas seria – êsse sonho eternamente 
continuado – tal como os outros eram, 
na minha infância e, se me fôsse dado, 
só um louco aspiraria a céu mais alto. 
Tivesse eu mergulhado, à luz do sol, 
num céu de estio, em sonhos de luz viva, 
e de prazer, voasse o coração 
a regiões imaginárias, longe 
de meu lar, entre sêres só pensados 
por mim – que mais eu quereria ver? 
Uma vez. . . uma só – e essa hora estranha 
jamais esquecerei – certo feitiço 
ou poder me empolgou; o frio vento 
fustigou-me, na noite, e deixou na alma 
sua impressao. . . e, ou foi a lua cheia 
brilhando, das alturas, no meu sono, 
tão fria . . ou as estrêlas. . . ou o que fôsse, 
tal sonho foi apenas como o vento 
dessa noite... deixemo-lo passar. 
Tenho sido feliz, embora em sonhos. 
Tenho sido feliz, e amo dizê-lo. 
Sonhos! Na sua forte côr de vida, 
como nesse rumor sombrio, nevoento, 
que imita a realidade, trazem, para 
o delirante olhar, mais belas coisas 
de Paraíso e Amor – e minhas, todas! –
do que já pôde a jovem Esperança 
conhecer em suas horas de mais luz.


DREAMS.
OH! that my young life were a lasting dream!
My spirit not awakening, till the beam
Of an Eternity should bring the morrow.
Yes! tho' that long dream were of hopeless sorrow,
'Twere better than the cold reality
Of waking life, to him whose heart must be,
And hath been still, upon the lovely earth,
A chaos of deep passion, from his birth.

But should it be – that dream eternally
Continuing – as dreams have been to me
In my young boyhood – should it thus be given,
'Twere folly still to hope for higher Heaven.
For I have revell'd, when the sun was bright
I' the summer sky, in dreams of living light,
And loveliness, – have left my very heart
In climes of my imagining, apart
From mine own home, with beings that have been
Of mine own thought – what more could I have seen?

'Twas once – and only once – and the wild hour
From my remembrance shall not pass – some power
Or spell had bound me – 'twas the chilly wind
Came o'er me in the night, and left behind
Its image on my spirit – or the moon
Shone on my slumbers in her lofty noon
Too coldly – or the stars – howe'er it was
That dream was as that night-wind – let it pass.

I have been happy, tho' [but] in a dream.
I have been happy – and I love the theme:
Dreams! in their vivid coloring of life
As in that fleeting, shadowy, misty strife
Of semblance with reality which brings
To the delirious eye, more lovely things
Of Paradise and Love – and all our own!

Than young Hope in his sunniest hour hath known.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§
Edgar Alla Poe, por (...)

A ISADORA
I

SOB O ALPENDRE vestido de vinha,
cujas sombras se espraiam à frente
da varanda de tua casinha,
sob as fôlhas do lírio tremente
cujas flôres purpúreas, de leve,
fecham sempre teus dedos de neve,
vi-te, em sonhos, a noite passada,
qual rainha das ninfas, qual fada, 
encantando a roupa da flora,
belíssima Isadora!

II

Quando ao sonho pedi que então fôsse
sôbre tua alma, fugindo, voar,
teu olhar violeta voltou-se
para mim, parecendo irradiar
o profundo prazer sem igual
de um sereno, inefável amor;
de tua frente de lírio o palor,
que recorda uma Noite Imperial
no seu trono, de estrêlas ornada,
arrastou-me até tua morada.

III

Ah! nunca eu comtemplado tivesse
os teus olhos de sonho e paixão;
azuis como os céus lassos, dormentes,
de que pende a áurea franja dos poentes!
Tua imagem (é estranho!) hoje cresce
clara, e velhas lembranças, que são
despertadas, em vêm, uma a uma,
como sombras silentes na bruma,
onde o luar calmamente se abriga,
quando o vento noturno as fustiga.

IV

Como música em sonhos ouvida,
de harpa ignota uma corda tangida,
como a voz fugitiva das aves
que não voltam, a voz dos ribeiros,
murmurando entre verdes outeiros,
ouço os sons de tua voz, tão suaves.
e um Silêncio encantado caminha,
como o que nos meus lábios se aninha
quando em sonhos, vou trêmulo expor,
só a ti, todo o meu grande amor.

V

Escutada nos vales distantes,
flutuando desta árvore àquela,
a cantiga das aves radiantes
para mim não parece tão bela
quando as coisas mais simples que falas,
sem que um eco as divulgue, a imitá-las,
Ah! de ouvir-te a paixão me consome
pois, se suave tua voz o enuncia,
até mesmo êste meu rude nome
é doce melodia.


                                    TO ISADORE
This poem is of doubtful origin



BENEATH the vine-clad eaves,
Whose shadows fall before
Thy lowly cottage door
Under the lilac's tremulous leaves –
Within thy snowy claspeèd hand
The purple flowers it bore.
Last eve in dreams, I saw thee stand,
Like queenly nymph from Fairy-land –
Enchantress of the flowery wand,
Most beauteous Isadore! 

II

And when I bade the dream
Upon thy spirit flee,
Thy violet eyes to me
Upturned, did overflowing seem
With the deep, untold delight
Of Love's serenity;
Thy classic brow, like lilies white
And pale as the Imperial Night
Upon her throne, with stars bedight,
Enthralled my soul to thee! 

III

Ah I ever behold
Thy dreamy, passionate eyes,
Blue as the languid skies

Hung with the sunset's fringe of gold;
Now strangely clear thine image grows,
And olden memories
Are startled from their long repose
Like shadows on the silent snows
When suddenly the night-wind blows
Where quiet moonlight ties. 

IV 

Like music heard in dreams,
Like strains of harps unknown,
Of birds for ever flown
Audible as the voice of streams
That murmur in some leafy dell,
I hear thy gentlest tone,
And Silence cometh with her spell
Like that which on my tongue doth dwell,
When tremulous in dreams I tell
My love to thee alone! 



In every valley heard,
Floating from tree to tree,
Less beautiful to, me,
The music of the radiant bird,
Than artless accents such as thine
Whose echoes never flee!
Ah! how for thy sweet voice I pine: –
For uttered in thy tones benign
(Enchantress!) this rude name of mine


Doth seem a melody!
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

HINO TRIUNFAL
I

COMO A PRECE funéria será lida,
para que o canto mais solene se ouça,
num réquiem pela morta, a mais querida
das mortas, a mais moça?

II

Seus amigos a vêem, cheios de espanto,
no caixão que a comporta,
e choram, desonrando, com seu pranto, 
a beleza da virgem que está morta.

III

Êles a amavam só pela riqueza,
odiando o orgulho seu;
e, quando foi de enfermidades prêsa,
amaram-na, e por isso ela morreu.

IV

Dizem-me (enquanto falam sôbre “o manto
ricamente bordado que a amortalha”)
que minha voz é cada vez mais falha
e débil para o canto;

V

que essa voz deveria tão solene
erguer-se, e lastimosa,
que, ao tom da litania dolorosa,
a morta já não pene.

VI

Ela voou para o célico esplendor
tendo ao lado a esperança.
E eu choro, desvairado pelo amor,
a morta esposa criança.

VII

A morta que ali jaz e, com desvêlo,
vieram perfumar...
Porém, se a morte dorme em seu olhar,
há vida em seu cabelo.
VIII

Bato, pois, alto, em golpe demorado,
nas tábuas do caixão.
Seja o meu canto doloroso, então,
por êsse rouco som acompanhado.

IX

Morreste! E era só junho para tua alma!
Ah! não devias perecer tão linda!
Tu não podias perecer ainda,
morrendo assim tão calma! 

X

Dos amigos da terra és separada,
e da vida, e do amor,
para alçares-te à gloria imaculada,
ao celeste esplendor.

XI

Por isso, minha voz, hoje, sombrias
preces não erguerá,
mas em teu vôo te acompanhará
ao som de Hino Triunfal de antigos dias.


                                              A PÆAN.
I.        

How shall the burial rite be read?
The solemn song be sung?
The requiem for the loveliest dead,
That ever died so young?

II.       

Her friends are gazing on her,
And on her gaudy bier,
And weep! – oh! to dishonor
Dead beauty with a tear!

III.     

They loved her for her wealth —
And they hated her for her pride —
But she grew in feeble health,
And they love her – that she died.

IV.      

They tell me (while they speak
Of her "costly broider'd pall")
That my voice is growing weak —
That I should not sing at all —

V.      

Or that my tone should be
Tun'd to such solemn song
So mournfully – so mournfully,
That the dead may feel no wrong.

VI.     

 But she is gone above,
With young Hope at her side,
And I am drunk with love
Of the dead, who is my bride. —

VII.     

Of the dead – dead who lies
All perfum'd there,
With the death upon her eyes,
And the life upon her hair.

VIII.    

Thus on the coffin loud and long
I strike – the murmur sent
Through the grey chambers to my song,
Shall be the accompaniment.

IX.      

Thou died`st in thy life's June —
But thou did`st not die too fair:
Thou did`st not die too soon,
Nor with too calm an air.

X.       

From more than friends on earth,
Thy life and love are riven,
To join the untainted mirth
Of more than thrones in heaven —

XI.      

Therefore, to thee this night
I will no requiem raise,
But waft thee on thy flight,

With a Pæan of old days.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                           SÓ
NÃO FUI, na infância, como os outros 
Edgar Allan Poe 
e nunca vi como outros viam. 
Minhas paixões eu não podia 
tirar de fonte igual à deles; 
e era outra a origem da tristeza, 
e era outro o canto, que acordava 
o coração para a alegria. 
Tudo o que amei, amei sózinho. 
Assim, na minha infância, na alba 
da tormentosa vida, ergueu-se, 
no bem, no mal, de cada abismo, 
a encadear-me, o meu mistério. 
Veio dos rios, veio da fonte, 
da rubra escarpa da montanha, 
do sol, que todo me envolvia 
em outonais clarões dourados; 
e dos relâmpagos vermelhos 
que o céu inteiro incendiavam; 
e do trovão, da tempestade, 
daquela nuvem que se alterava, 
só, no amplo azul do céu puríssimo, 
como um demônio, ante meus olhos.


                        ALONE
From childhood’s hour I have not been
As others were — I have not seen
As others saw — I could not bring
My passions from a common spring —
From the same source I have not taken
My sorrow — I could not awaken
My heart to joy at the same tone —
And all I lov’d — I lov’d alone —
Then — in my childhood — in the dawn
Of a most stormy life — was drawn
From ev’ry depth of good and ill
The mystery which binds me still —
From the torrent, or the fountain —
From the red cliff of the mountain —
From the sun that ’round me roll’d
In its autumn tint of gold —
From the lightning in the sky
As it pass’d me flying by —
From the thunder, and the storm —
And the cloud that took the form
(When the rest of Heaven was blue)

Of a demon in my view —
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                                        LENORA
AH! foi partida a taça de ouro! o espírito fugiu! 
Que dobre o sino! Uma alma santa já cruza o Estígio rio!
E tu não choras, Guy de Vere? Venha teu pranto agora, 
ou nunca mais! No rude esquife jaz teu amor, Lenora! 
Leiam-se os ritos funerários e o último canto se ouça, 
um hino à rainha dentre as mortas, a que morreu mais môça. 
E duplamente ela morreu, por que morreu tão môça! 

"Pela riqueza a amastes, míseros, o seu orgulho odiando, 
e, doente, a bendissestes, quando a morte ia chegando. 
E como, então, lereis o rito? Os cantos de repouso 
entoareis vós, olhar do mal? Vós, o verbo aleivoso, 
que o fim trouxestes à existência tão jovem da inocência?" 

Peccavimus; mas não se irrites! O réquiem tão solene 
e embalador ascenda aos céus, que a morta já não pene! 
Para aguardar-te ela se foi, tendo ao lado a Esperança 
e tu ficaste, louco e só, chorando a noiva criança, 
meiga e formosa, que ali jaz, magnífica, sem par, 
com a vida em seus cabelos de ouro, mas não em seu olhar, 
com a vida em seus cabelos, sim, e a morte em seu olhar. 

"Ide! Meu coração não pesa! Sem canto funeral, 
quero seguir o anjo em seu vôo com um velho hino triunfal. 
Não dobre mais o sino! que a alma em seu prazer sagrado 
não o ouça, triste, ao ir deixando o mundo amaldiçoado.
Ela se arranca aos vis demônios da terra e sobe aos céus. 
Do inferno, à altura se conduz e lá, na luz dos céus, 
livre do mal, da dor, se assenta num trono, aos pés de Deus!"


                                            LENORE
AH, broken is the golden bowl! the spirit flown forever!
Let the bell toll! – a saintly soul floats on the Stygian river;
And, Guy De Vere, hast thou no tear? – weep now or never more!
See! on yon drear and rigid bier low lies thy love, Lenore!
Come! let the burial rite be read – the funeral song be sung! –
An anthem for the queenliest dead that ever died so young –
A dirge for her, the doubly dead in that she died so young.

"Wretches! ye loved her for her wealth and hated her for her pride,
“And when she fell in feeble health, ye blessed her – that she died!
“How shall the ritual, then, be read? – the requiem how be sung
“By you – by yours, the evil eye, – by yours, the slanderous tongue
“That did to death the innocence that died, and died so young?"

Peccavimus; but rave not thus! and let a Sabbath song
Go up to God so solemnly the dead may feel no wrong!
The sweet Lenore hath "gone before," with Hope, that flew beside,
Leaving thee wild for the dear child that should have been thy bride – 
For her, the fair and debonair, that now so lowly lies,
The life upon her yellow hair but not within her eyes – 
The life still there, upon her hair – the death upon her eyes.

“Avaunt! to-night my heart is light. No dirge will I upraise,
“But waft the angel on her flight with a Paean of old days!
“Let no bell toll! – lest her sweet soul, amid its hallowed mirth,
“Should catch the note, as it doth float – up from the damnéd Earth.
“To friends above, from fiends below, the indignant ghost is riven – 
“From Hell unto a high estate far up within the Heaven – 

“From grief and groan, to a golden throne, beside the King of Heaven."
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                                        HINO*
SANTA MARIA! Volve o teu olhar tão belo, 09i9
de lá dos altos céus, do teu trono sagrado, 
para a prece fervente e para o amor singelo 
que te oferta, da terra, o filho do pecado. 
Se é manhã, meio-dia, ou sombrio poente, 
meu hino em teu louvor tens ouvido, Maria! 
Sê, pois, comigo, ó Mãe de Deus, eternamente, 
quer no bem ou no mal, na dor ou na alegria! 
No tempo que passou veloz, brilhante, quando 
nunca nuvem qualquer meu céu escureceu, 
temeste que me fôsse a inconstância empolgando 
e guiaste minha alma a ti, para o que é teu. 
Hoje, que o temporal do Destino ao Passado 
e sôbre o meu Presente espêssas sombras lança, 
fulgure ao menos meu Futuro, iluminado 
por ti, pelo que é teu, na mais doce esperança.


                          “SANCTA MARIA!”
Sancta Maria! turn thine eyes –
Upon the sinner's sacrifice,
Of fervent prayer and humble love,
From thy holy throne above.

At morn – at noon – at twilight dim –
Maria! thou hast heard my hymn!
In joy and woe – in good and ill –
Mother of God, be with me still!

When the Hours flew brightly by,
And not a cloud obscured the sky,
My soul, lest it should truant be,
Thy grace did guide to thine and thee;

Now, when storms of Fate o'ercast
Darkly my Present and my Past,
Let my Future radiant shine
With sweet hopes of thee and thine!
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

* Em numerosas edições dêste poema, também chamado “Hino Católico”, faltam os quatro primeiros versos, aqui traduzidos. (N. T.)

§

                         PARA HELENA*
VI-TE uma vez, só uma, há vários anos, 
já não sei dizer quantos, mas não muitos. 
Era em junho; passava a meia-noite 
e a lua, em ascensão, como tua alma, 
nos céus abria um rápido caminho. 
O luar caía, um véu de sêda e prata, 
calma, tépida, embaladoramente, 
em cheio, sôbre as faces de mil rosas, 
que floresciam num jardim de fadas, 
onde até o vento andava de mansinho. 
Caía o luar nas faces dessas rosas, 
que morriam, sorrindo, no jardim 
pela tua presença enfeitiçado. 

Toda de branco, vi-te reclinada 
sôbre violetas; e o luar caía 
sôbre a face das rosas, sôbre a tua, 
voltada para os céus, ai! de tristeza! 

Não foi o Destino, nessa meia-noite, 
não foi o Destino (que é também Tristeza) 
que me levou a êsse jardim, detendo-me 
com o incenso das rosas que dormiam? 
Nenhum rumor. O mundo silenciara. 
Só tu e eu (Meu Deus! como palpita 
o coração, juntando estas palavras!) ... 
Só tu e eu... Parei... Olhei... E logo 
tôdas as coisas se desvaneceram. 
(Lembra-te: era um jardim enfeitiçado.) 

Fugiu a luz de pérola da lua. 
Os canteiros, os meandros sinuosos, 
flôres felizes, árvores aflitas, 
tudo se foi; o próprio odor das rosas 
morreu nos braços do ar que as adorava. 

Tudo expirara... Tu ficaste... Menos 
que tu: a luz divina nos teus olhos, 
a alma mos olhos para os céus voltados. 
Só isso eu vi durante horas inteiras, 
até que a lua fôsse declinando. 
Ah! que histórias de amor se não gravavam 
nas celestes esferas cristalinas! 
que mágoas! que sublimes esperanças! 
que mar de orgulho, calmo e silencioso! 
e que insondável aptidão de amar! 

Mas, afinal, Diana se sepulta 
num túmulo de nuvens tormentosas. 
Tu, como um elfo, entre árvores funéreas, 
deslizas. Só teus olhos permanecem. 
Não quiseram fugir. E não fugiram. 
Iluminando a estrada solitária 
de meu regresso, não me abandonaram 
como o fizeram minhas esperanças. 

E ainda hoje me seguem, dia a dia. 
São meus servos – mas eu sou seu escravo. 
Seu dever é luzir em meu caminho; 
meu dever é salvar-me pro seu brilho, 
purificar-me em sua flama elétrica, 
santificar-me no seu fogo elísio. 
Dão-me à alma Beleza (que é Esperança). 
Astros do céu, ante êles me prosterno 
nas noites de vigília silenciosa; 
e ainda os fito em pleno meio-dia, 
duas Estrelas-d`Alva, cintilantes, 
que sol algum jamais extinguirá.


                                         TO HELEN
I saw thee once – once only – years ago:
I must not say how many – but not many.
It was a July midnight; and from out
A full-orbed moon, that, like thine own soul, soaring,
Sought a precipitate pathway up through heaven,
There fell a silvery-silken veil of light,
With quietude, and sultriness, and slumber,
Upon the upturned faces of a thousand
Roses that grew in an enchanted garden,
Where no wind dared to stir, unless on tiptoe –
Fell on the upturn'd faces of these roses
That gave out, in return for the love-light,
Their odorous souls in an ecstatic death –
Fell on the upturn'd faces of these roses
That smiled and died in this parterre, enchanted
By thee, and by the poetry of thy presence.

Clad all in white, upon a violet bank
I saw thee half reclining; while the moon
Fell on the upturn'd faces of the roses,
And on thine own, upturn'd – alas, in sorrow!

Was it not Fate, that, on this July midnight-
Was it not Fate, (whose name is also Sorrow,)
That bade me pause before that garden-gate,
To breathe the incense of those slumbering roses?
No footstep stirred: the hated world an slept,
Save only thee and me. (Oh, Heaven! – oh, God!
How my heart beats in coupling those two words!)
Save only thee and me. I paused – I looked-
And in an instant all things disappeared.
(Ah, bear in mind this garden was enchanted!)

The pearly lustre of the moon went out:
The mossy banks and the meandering paths,
The happy flowers and the repining trees,
Were seen no more: the very roses' odors
Died in the arms of the adoring airs.
All – all expired save thee – save less than thou:
Save only the divine light in thine eyes-
Save but the soul in thine uplifted eyes.
I saw but them – they were the world to me!
I saw but them – saw only them for hours,
Saw only them until the moon went down.
What wild heart-histories seemed to he enwritten

Upon those crystalline, celestial spheres!
How dark a woe, yet how sublime a hope!
How silently serene a sea of pride!
How daring an ambition; yet how deep-
How fathomless a capacity for love!

But now, at length, dear Dian sank from sight,
Into a western couch of thunder-cloud;
And thou, a ghost, amid the entombing trees
Didst glide away. Only thine eyes remained;
They would not go – they never yet have gone;
Lighting my lonely pathway home that night,
They have not left me (as my hopes have) since;
They follow me – they lead me through the years.
They are my ministers – yet I their slave.
Their office is to illumine and enkindle –
My duty, to be saved by their bright light,
And purified in their electric fire,
And sanctified in their elysian fire.
They fill my soul with Beauty (which is Hope),
And are far up in Heaven – the stars I kneel to
In the sad, silent watches of my night;
While even in the meridian glare of day
I see them still – two sweetly scintillant
Venuses, unextinguished by the sun!
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).


* Êste poema foi escrito para Mrs. Sarah Helen Whitman. (N. T.)

§

               O COLISEU
PADRÃO da antiga Roma! Ó rico relicário
de altas meditações, abandonado ao Tempo
por séculos de fausto e poderio, sepultos!
Afinal... afinal, depois de tantos dias
de peregrinação cansada ​​e ardente sêde
das fontes imortais de Ciência que em ti jazem,
eu, homem transformado e humilde, me ajoelho 
nas sombras, para que a alma, avidamente, sorva
a grandeza, a tristeza e a glória que são tuas.

Que amplidão! Vetustez! E lembranças de outrora!
E que silêncio! Que êrmo! E que noite profunda!
Eu agora vos sinto, em toda a vossa fôrça,
ó sortilégios, como o monarca israelita 
nunca ensinou iguais no Hôrto das Oliveiras, 
ó encantos, como nunca os êxtases caldaicos 
puderam arrancar das estrêlas tranqüilas!

Lá, onde um herói caiu, uma coluna tomba!
Lá, onde a águia do Império em ouro flamejava,
o morcego vigia, à fusca meia-noite. 
O vento, que agitava outrora a loura coma
das romanas, só ondula os cardos e os caniços. 
E onde se recostava o rei, num áureo trono, 
desliza, fantasmal, para seu lar marmóreo,
sob o turvo clarão de pálido crescente,
o silente e  veloz lagarto das ruínas!

Mas êsses muros, vede! Arcadas que a hera veste,
plintos feitos de pó, fustes enegrecidos, 
derruídos capitéis, frisos desmantelados,
cornijas que se vão desfazendo... essa ruína
e as pedras côr de cinza, essas pedras, é  tudo 
o que de colossal e de glorioso o Tempo
corrosivo deixou para mim e o Destino?

"Não é tudo, isso! – diz-me o Eco. – Não é tudo!
Sempre é sempre, uma voz profética e alta se ergue 
de nós, ou de qualquer ruína, para os sábios,
como sobem ao sol os cantos de Memnon.
Escuta-a o coração dos homens poderosos;
despótica, domina  as almas gigantescas!
Não somos sem poder, nós, as pálidas pedras!
Nem tôda a nossa fôrça está perdida, 
nem a magia do renome antigo,
nem tôda a maravilha que nos cerca,
nem todos os mistérios que em nós jazem,
nem tôdas as lembranças que se prendem 
a nossos flancos, como um vestuário
mais fulgurante do que a própria glória!


THE COLISEUM
TYPE of the antique Rome! Rich reliquary 
Of lofty contemplation left to Time  
By buried centuries of pomp and power!  
At length — at length — after so many days  
Of weary pilgrimage and burning thirst,
(Thirst for the springs of lore that in thee lie,) 
I kneel, an altered and an humble man, 
Amid thy shadows, and so drink within  
My very soul thy grandeur, gloom, and glory!

Vastness! and Age! and Memories of Eld! 
Silence! and Desolation! and dim Night!  
I feel ye now — I feel ye in your strength —
O spells more sure than e'er Judæan king  
Taught in the gardens of Gethsemane! 
O charms more potent than the rapt Chaldee
Ever drew down from out the quiet stars!

Here, where a hero fell, a column falls! 
Here, where the mimic eagle glared in gold, 
A midnight vigil holds the swarthy bat! 
Here, where the dames of Rome their gilded hair  
Waved to the wind, now wave the reed and thistle! 
Here, where on golden throne the monarch lolled,  
Glides, spectre-like, unto his marble home, 
Lit by the wanlight – wan light of the horned moon, 
The swift and silent lizard of the stones! 

But stay! these walls — these ivy-clad arcades —
These mouldering plinths — these sad and blackened shafts —
These vague entablatures — this crumbling frieze —
These shattered cornices — this wreck — this ruin —
These stones — alas! these gray stones — are they all — 
All of the famed, and the colossal left  
By the corrosive Hours to Fate and me? 

"Not all" — the Echoes answer me —"not all!
"Prophetic sounds and loud, arise forever 
"From us, and from all Ruin, unto the wise, 
"As melody from Memnon to the Sun.  
"We rule the hearts of mightiest men — we rule 
"With a despotic sway all giant minds.  
"We are not impotent — we pallid stones. 
"Not all our power is gone — not all our fame —  
"Not all the magic of our high renown — 
"Not all the wonder that encircles us — 
"Not all the mysteries that in us lie — 
"Not all the memories that hang upon 
"And cling around about us as a garment,  
"Clothing us in a robe of more than glory."


1833.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                   A MARIE-LOUISE SHEW
AQUÊLE que estas linhas traça, outrora, 
no louco orgulho do intelectualismo, 
defendia o "poder do verbo", crendo 
jamais haver na mente um pensamento 
que fôsse intraduzível em palavras. 
Mas, agora, a zombar dessa jactância, 
dois dissílabos suaves, estrangeiros, 
sons da Itália, só de anjos murmurados 
quando sonham ao luar, que faz do orvalho 
"sôbre o outeiro do Hermon um rio de pérolas", 
tiraram, dos abismos dêste peito, 
almas de pensamentos não pensados, 
visões tão belas, singulares, célicas, 
que nem mesmo Israfel, cantor seráfico 
("a mais doce das vozes já criadas") 
poderia narrar. Quebrou-se o encanto! 
Cai a pena, impotente, da mão trêmula. 
Com teu nome por tema, embora o ordenes, 
eu não posso escrever... Nem penso ou falo...
Ai! nem sinto... Pois não é sentimento 
ficar assim, imóvel, à dourada 
e enorme porta aberta sôbre os sonhos, 
contemplando, extasiado, o panorama, 
trêmulo, por só ver, de cada lado 
e pela longa estrada, entre impurpúreas 
névoas, e na distância, onde termina 
a perspectiva – a ti unicamente.


                      TO MARIE LOUISE (SHEW)
NOT long ago, the writer of these lines,
In the mad pride of intellectuality,
Maintained “the power of words” – denied that ever
A thought arose within the human brain
Beyond the utterance of the human tongue:
And now, as if in mockery of that boast,
Two words-two foreign soft dissyllables –
Italian tones, made only to be murmured
By angels dreaming in the moonlit “dew
That hangs like chains of pearl on Hermon hill,” –
Have stirred from out the abysses of his heart,
Unthought-like thoughts that are the souls of thought,
Richer, far wilder, far diviner visions
Than even the seraph harper, Israfel,
(Who has “the sweetest voice of all God's creatures”)
Could hope to utter. And I! my spells are broken.
The pen falls powerless from my shivering hand.
With thy dear name as text, though bidden by thee,
I can not write-I can not speak or think –
Alas, I can not feel; for 't is not feeling,
This standing motionless upon the golden
Threshold of the wide-open gate of dreams,
Gazing, entranced, adown the gorgeous vista,
And thrilling as I see, upon the right,
Upon the left, and all the way along,
Amid empurpled vapors, far away
To where the prospect terminates-thee only!


1848.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§
Poe, by Poltgray

                           ULALUME
ERA O CÉU de um cinzento funerário 
e a folhagem, fanada, morria; 
a folhagem, crispada, morria; 
era noite, no outubro solitário 
de ano que já me não lembraria; 
ficava ali bem perto o lago de Auber, 
na região enevoada de Weir; 
bem perto, o pantanal úmido de Auber, 
na floresta assombrada de Weir. 

Lá, uma vez, por um renque titânico 
de ciprestes, vagueei, em desconsôlo,
com minha alma, Psique em desconsôlo.
Era então o meu peito vulcânico 
qual torrente de lava que no solo 
salta, vinda dos cumes de Yaanek, 
nas mais longínquas regiões do pólo, 
que ululando se atira do Yaanek 
nos panoramas árticos do pólo. 

Tristonha e gravemente conversamos, 
mas a idéia era lassa e vazia 
e a memória traidora e vazia; 
que o mês era de outubro não lembramos, 
nem soubemos que noite fugia. 
(Ai! A noite das noites fugia!) 
Não recordamos a lagoa de Auber 
(e já fôramos lá, certo dia); 
não pensamos no charco úmido de Auber, 
nem no bosque assombrado de Weir. 

Quando a noite ia já desmaiada 
e as estrêlas chamavam pela aurora, 
pálidos astros apontando a aurora, 
eis que surge, no extremo da estrada, 
uma luz fluida, nebulosa; e fora 
dela se ergue um crescente recurvo,
coroa adamantina, e se alcandora;
surge, claro, o crescente recurvo, 
diadema de Astarté, que se alcandora. 
“Menos fria que Diana é essa estrêla”, 
digo, a girar num éter feito de ais,
sorridente, num éter feito de ais.

Viu o pranto, que a mágoa revela, 
nas faces em que há vermes imortais 
e, por onde o Leão se constela, 
vem mostrar o caminho aos céus, letais 
caminhos para a paz dos céus letais; 
a despeito do Leão, vem-nos ela 
iluminar, com os olhos triunfais. 
Das cavernas do Leão, vem-nos ela, 
cheia de amor nos olhos triunfais.” 

Mas diz Psique, tremendo de aflição: 
“Dessa estrela, por Deus, desconfia! 
Dêsse estranho palor desconfia! 
É preciso fugir de luz tão fria! 
Apressemo-nos! Voemos, então!” 
E, perdidas de tanta agonia, 
suas asas se inclinavam para o chão; 
soluçava e, de tanta agonia, 
as plumas rastejavam pelo chão, 
tristemente roçando pelo chão. 

“Isso – falei – é um sonho de criança! 
Oh! sigamos a luz que facina, 
mergulhemos na luz cristalina! 
É um clarão de beleza e de esperança 
o que vem dessa luz sibilina. 
Olha-a: entre as sombras, como gira e dança! 
Guie-nos, pois, essa estrêla, que ilumina 
nossa estrada, com tôda a confiança; 
que nos guie para onde se destina. 
Nessa estrela tenhamos confiança, 
pois nas sombras, assim, volteia e dança!” 

Dou um beijo a Psique, que a conforta, 
impedindo que o mêdo se avolume, 
que a dúvida, a tristeza se avolume, 
e da estrêla seguimos o lume 
até que nos deteve uma porta 
de tumba, e uma legenda nessa porta. 
“Doce irmã – perguntei –, dessa porta 
que tragédia a legenda resume?” 
“Ulalume!” – responde-me. – Ulalume!” 
“Essa é a tumba perdida de Ulalume!” 

E me vi de tristezas referto, 
como a folhagem sêca que morria, 
a folhagem fanada que morria! 
E exclamei: “Era outubro, decerto, 
e era esta mesma, há um ano, a noite fria 
em que vim, a chorar, aqui perto, 
fardo horrível trazendo, aqui perto! 
Nesta noite das noites, sombria, 
que demônio me arrasta aqui tão perto? 
Bem reconheço agora o lago de Auber
na região enevoada de Weir; 
bem vejo o pantanal úmido de Auber, 
na floresta assombrada de Weir!”


                                          ULALUME
The skies they were ashen and sober;
      The leaves they were crispéd and sere —
      The leaves they were withering and sere;
It was night in the lonesome October
      Of my most immemorial year;
It was hard by the dim lake of Auber,
      In the misty mid region of Weir —
It was down by the dank tarn of Auber,
      In the ghoul-haunted woodland of Weir.

Here once, through an alley Titanic,
      Of cypress, I roamed with my Soul —
      Of cypress, with Psyche, my Soul.
These were days when my heart was volcanic
      As the scoriac rivers that roll —
      As the lavas that restlessly roll
Their sulphurous currents down Yaanek
      In the ultimate climes of the pole —
That groan as they roll down Mount Yaanek
      In the realms of the boreal pole.

Our talk had been serious and sober,
      But our thoughts they were palsied and sere —
      Our memories were treacherous and sere, —
For we knew not the month was October,
      And we marked not the night of the year
      (Ah, night of all nights in the year!) —
We noted not the dim lake of Auber
      (Though once we had journeyed down here) —
We remembered not the dank tarn of Auber,
      Nor the ghoul-haunted woodland of Weir.

And now, as the night was senescent
      And star-dials pointed to morn —
      As the star-dials hinted of morn —
At the end of our path a liquescent
      And nebulous lustre was born,
Out of which a miraculous crescent
      Arose with a duplicate horn —
Astarte's bediamonded crescent
      Distinct with its duplicate horn.

And I said: —"She is warmer than Dian;
      She rolls through an ether of sighs —
      She revels in a region of sighs:
She has seen that the tears are not dry on
      These cheeks, where the worm never dies,
And has come past the stars of the Lion
      To point us the path to the skies —
      To the Lethean peace of the skies —
Come up, in despite of the Lion,
      To shine on us with her bright eyes —
Come up through the lair of the Lion,
      With love in her luminous eyes."

But Psyche, uplifting her finger,
      Said: "Sadly this star I mistrust —
      Her pallor I strangely mistrust: 
Ah, hasten! -ah, let us not linger!
      Ah, fly! -let us fly! -for we must."
In terror she spoke, letting sink her
      Wings until they trailed in the dust —
In agony sobbed, letting sink her
      Plumes till they trailed in the dust —
      Till they sorrowfully trailed in the dust.

I replied: "This is nothing but dreaming:
      Let us on by this tremulous light!
      Let us bathe in this crystalline light!
Its Sybilic splendor is beaming
      With Hope and in Beauty tonight! —
See! -it flickers up the sky through the night!
      Ah, we safely may trust to its gleaming,
      And be sure it will lead us aright —
We safely may trust to a gleaming,
      That cannot but guide us aright,
      Since it flickers up to Heaven through the night."

Thus I pacified Psyche and kissed her,
      And tempted her out of her gloom —
      And conquered her scruples and gloom;
And we passed to the end of the vista,
      But were stopped by the door of a tomb —
      By the door of a legended tomb;
And I said: "What is written, sweet sister,
      On the door of this legended tomb?"
She replied: "Ulalume –Ulalume —
      'Tis the vault of thy lost Ulalume!"

Then my heart it grew ashen and sober
      As the leaves that were crisped and sere —
      As the leaves that were withering and sere;
And I cried: "It was surely October
      On this very night of last year
      That I journeyed -I journeyed down here! —
      That I brought a dread burden down here —
      On this night of all nights in the year,
Ah, what demon has tempted me here?
      Well I know, now, this dim lake of Auber —
      This misty mid region of Weir —
Well I know, now, this dank tarn of Auber,
This ghoul-haunted woodland of Weir."

(Said we, then — the two, then — "Ah, can it
      Have been that the woodlandish ghouls —
      The pitiful, the merciful ghouls —
To bar up our way and to ban it
      From the secret that lies in these wolds —
      From the thing that lies hidden in these wolds —
Had drawn up the spectre of a planet
      From the limbo of lunary souls —
This sinfully scintillant planet

      From the Hell of the planetary souls ?")
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                         OS SINOS
I

Escuta: nos trenós tilintam sinos
              argentinos
Ah! que mundo de alegria o som cantante prenuncia!
        Como tinem, lindo, lindo,
              no ar da noite fria e bela!
        Vão tinindo e o céu inteiro se constela,
        florescente, refulgindo
              com deleites cristalinos!
           Dão ao Tempo uma cadência tão constante
            como um rúnico descante,
com os tintinabulares, pequeninos sons, bem finos
    que nascendo vão dos sinos
                sim, dos sinos, sim, dos sinos.

II

Escuta: em núpcias vão cantando os sinos,
                   áureos sinos!
    Quantos mundos de ventura seu tanger nos prefigura!
            No ar da noite, embalsamado,
            como entoam seu enlêvo abençoado!
               Tons dourados, lentas notas,
                          concordantes...
                E tão límpido poema aí flutua
      para as rôlas, que o escutam, divagantes,
                            vendo a lua!
                Volumoso, vem das celas retumbantes
      todo um jôrro de eufonia que se amplia!
                            Que se amplia!
                             Que se amplia!
                      “O futuro é belo e bom!” – clama o som,
                       que arrebata, como em êxtases divinos,
                 no balanço repicante que lá soa,
                que tão bem, tão bem ecoa,
            na vibrante voz dos sinos, sinos, sinos
                       carrilhões e sinos, sinos,
     no rimado, consonante som dos sinos!

III

Escuta: em longo alarma bradam sinos,
                    brônzeos sinos!
Ah! que história de agonia, turbulenta, se anuncia!
     Treme a noite, com pavor,
     quando os ouve em seu bramido assustador!
          Tanto é o mêdo que, incapazes de falar
          se limitam a gritar,
                     em tons frouxos, desiguais,
clamorosos, apelando por clemência ao surdo fogo,
contendendo loucamente com o frenesi do fogo,
                que se lança bem mais alto,
                que em desejo audaz estua
           de, no empenho resoluto de algum salto
           (sim! agora ou nunca mais!),
        alcançar a fronte pálida da lua!
                 Oh! os sinos, sinos, sinos!
                 De que lenda pavorosa, de alarmar,
                       falam tanto?
             Clangorantes, ululantes, graves, finos,
             quanto espanto vertem, quanto,
no fremente seio do ar!
                 E por eles bem a gente sabe – ouvindo
                        seu tinido,
                        seu bramido –
                 se o perigo é vindo ou findo.
              Bem distintamente o ouvido reconhece
                        pela luta,
                        na disputa,
                        se o perigo morre ou cresce,
pela ampliante ou decrescente voz colérica dos sinos,
                         badalante voz dos sinos
                 sim, dos sinos, sim, dos sinos,
                     carrilhões e sinos, sinos, 
no clamor e no clangor que vêm dos sinos!

IV

Escuta: dobram, lentamente, os sinos,
                férreos sinos!
Ah! que mundo de pensares tão solenes põem nos ares!
   Na silente noite fria,
   quando a alma se arrepia
à ameaça dêsse canto melancólico de espanto!
   Pois em cada som saído
   da garganta enferrujada
                há um gemido!
   E os sineiros (ah! essa gente
   que, habitando o campanário
                solitário,
        vai dobrando, badalando a redobrada
            voz monótona e envolvente...),
       quão ufanos ficam êles, quando vão
            tombar pedras sôbre o humano coração!
    Nem mulher nem homem são,
    nem são feras: nada mais
               do que sêres fantasmais.
     E é seu Rei quem assim tange,
     é quem tange, e dobra, e tange.
                  E reboa
            triunfal, do sino, a loa!
         E seu peito de ventura se intumesce
            com os hinos funerários lá dos sinos;
         dança, ulula, e bem parece
         ter o Tempo num compasso tão constante
         qual de rúnico descante
               pelos hinos lá dos sinos,
                    ah! dos sinos!
         Leva o Tempo num compasso tão constante
         como em rúnico descante,
               pela pulsação dos sinos,
         a plangente voz dos sinos,
               pelo soluçar dos sinos!
         Leva o Tempo num compasso, tão constante
         que a dobrar se sente, ovante
     bem feliz com êsse rúnico descante
          com o reboar que vem dos sinos,
     a gemente voz dos sinos
     o clamor que sai dos sinos,
  a alucinação dos sinos,
               o angustioso,
lamentoso, longo e lento som dos sinos!


THE BELLS
I.

HEAR the sledges with the bells −
             Silver bells!
What a world of merriment their melody foretells!
       How they tinkle, tinkle, tinkle,
           In the icy air of night!
       While the stars that oversprinkle
       All the heavens, seem to twinkle
           With a crystalline delight;
         Keeping time, time, time,
         In a sort of Runic rhyme,
To the tintinnabulation that so musically wells
    From the bells, bells, bells, bells,
               Bells, bells, bells −
  From the jingling and the tinkling of the bells.

II.

Hear the mellow wedding-bells
             Golden bells!
What a world of happiness their harmony foretells!
       Through the balmy air of night
       How they ring out their delight! –
           From the molten-golden notes,
               And all in tune,
           What a liquid ditty floats
    To the turtle-dove that listens, while she gloats
               On the moon!
         Oh, from out the sounding cells,
What a gush of euphony voluminously wells!
               How it swells!
               How it dwells
           On the Future! – how it tells
           Of the rapture that impels
         To the swinging and the ringing
           Of the bells, bells, bells –
    Of the bells, bells, bells, bells,
               Bells, bells, bells −
  To the rhyming and the chiming of the bells!

III.

Hear the loud alarum bells −
                  Brazen bells!
What tale of terror, now, their turbulency tells!
       In the startled ear of night
       How they scream out their affright!
         Too much horrified to speak,
         They can only shriek, shriek,
                  Out of tune,
In a clamorous appealing to the mercy of the fire,
In a mad expostulation with the deaf and frantic fire,
            Leaping higher, higher, higher,
            With a desperate desire,
         And a resolute endeavor
         Now − now to sit, or never,
       By the side of the pale-faced moon.
            Oh, the bells, bells, bells!
            What a tale their terror tells
                  Of Despair!
       How they clang, and clash, and roar!
       What a horror they outpour
On the bosom of the palpitating air!
       Yet the ear, it fully knows,
            By the twanging,
            And the clanging,
         How the danger ebbs and flows;
       Yet, the ear distinctly tells,
         In the jangling,
         And the wrangling,
       How the danger sinks and swells,
By the sinking or the swelling in the anger of the bells −
             Of the bells −
     Of the bells, bells, bells, bells,
         Bells, bells, bells −
  In the clamour and the clangour of the bells!

IV.

Hear the tolling of the bells −
               Iron bells!
What a world of solemn thought their monody compels!
       In the silence of the night,
       How we shiver with affright
  At the melancholy meaning of their tone!
         For every sound that floats
         From the rust within their throats
              Is a groan.
         And the people − ah, the people −
         They that dwell up in the steeple,
              All alone,
         And who, tolling, tolling, tolling,
            In that muffled monotone,
         Feel a glory in so rolling
            On the human heart a stone −
       They are neither man nor woman −
       They are neither brute nor human −
              They are Ghouls: −
         And their king it is who tolls;
         And he rolls, rolls, rolls, rolls,
              Rolls
            A pæan from the bells!
         And his merry bosom swells
            With the pæan of the bells!
         And he dances, and he yells;
       Keeping time, time, time,
       In a sort of Runic rhyme,
            To the pæan of the bells −
               Of the bells: –
       Keeping time, time, time,
       In a sort of Runic rhyme,
            To the throbbing of the bells −
            Of the bells, bells, bells −
            To the sobbing of the bells: –
       Keeping time, time, time,
            As he knells, knells, knells,
       In a happy Runic rhyme,
            To the rolling of the bells −
         Of the bells, bells, bells −
            To the tolling of the bells –
      Of the bells, bells, bells, bells,
               Bells, bells, bells –
  To the moaning and the groaning of the bells.


1849.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                                     UM ENIGMA*
“SEMPRE é raro achar – diz Dom Salomão Zebral –
parte de idéia, até no verso mais profundo.
Através do que é leve e fácil ver-lhe (qual 
olhando por chapéu de Nápoles)  o fundo.
Tal chapéu será o nada? E há damas para usá-lo!
E ainda pesa que um teu poema, ó Petrarca
tolo, penugem vã de mocho, que a um abalo
torvelinha, a esvoaçar, enquanto o olhar o abarca!"
Ninharia Assim é – por certo Salomão
fêz bem o julgamento – é bolha de sabão
efêmera, em geral, fugaz e transparente.
Aqui, porém, Lewis, querida, podes crê-lo,
opacos, imortais, são os meus versos, pelo
nome lindo que esconde o poema – e está presente.


                                   AN ENIGMA
edgar allan poe - by trolllike
"Seldom we find," says Solomon Don Dunce,
"Half an idea in the profoundest sonnet.
Through all the flimsy things we see at once
As easily as through a Naples bonnet –
Trash of all trash! – how can a lady don it?
Yet heavier far than your Petrarchan stuff-
Owl-downy nonsense that the faintest puff
Twirls into trunk-paper the while you con it."
And, veritably, Sol is right enough.
The general tuckermanities are arrant
Bubbles – ephemeral and so transparent –
But this is, now, – you may depend upon it –
Stable, opaque, immortal – all by dint
Of the dear names that lie concealed within 't.

1847.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).


* O nome de SARAH ANNA LEWIS encontra-se neste sonêto em acróstico, formado pela letra, em versal e grifo, do primeiro verso; a segunda, também em versal e grifo, do segundo verso; a terceira, versal e grifo, do terceiro verso; e, assim por diante, até a décima-quarta letra, em versal e grifo, do décimo-quarto verso. (N. T.)

§

                                ANNABEL LEE
HÁ MUITOS, muitos anos, existia
num reino à beira-mar, em que vivi,
uma donzela, de alta fidalguia,
chamada ANNABEL LEE.
Amava-me, e o seu sonho consistia
em ter-me sempre para si.

Eu era criança, ela era uma criança
no reino à beira-mar, em que vivi.
Mas tanto o nosso amor ultrapassava
o próprio amor, que até senti
os serafins celestes invejarem
a mim e a ANNABEL LEE.

Por isso mesmo, há muitos, muitos anos,
no reino à beira-mar, em que vivi,
gélido, de uma nuvem, veio um vento
matar ANNABEL LEE.
E seus nobres parentes se apressaram
em tirá-la de mim: encerrarem-na vi
num sepulcro bem junto ao mar, que chora
eternamente ali.

Foi inveja dos anjos: mais felizes
éramos nós aqui.
Sim, foi por isso (como todos sabem
no reino à beira-mar, em que a perdi)
que veio um vento, à noite, de uma nuvem
matar ANNABEL LEE.

Mas nosso amor, imenso, era mais forte
do que o tempo e que a morte,
do que a própria esperança em que o envolvi.
E nem anjos celestes nas alturas,
nem demónios dos mares abissais
jamais minha alma afastarão, jamais,
da bela ANNABEL LEE.

Pois, quando surge a lua, em meus sonhos flutua,
no luar, ANNABEL LEE.
E, quando se ergue a estrêla, o seu fulgor revela
o olhar de ANNABEL LEE.
E junto a ela eu passo, assim, a noite inteira,
junto àquela que adoro, a espôsa, a companheira,
na tumba, à beira-mar, do reino em que vivi,
junto ao mar que por ti
soluça eternamente, ANNABEL LEE.


                                    ANNABEL LEE
It was many and many a year ago,
In a kingdom by the sea,
That a maiden there lived whom you may know
By the name of ANNABEL LEE; –
And this maiden she lived with no other thought
Than to love and be loved by me.

I was a child and she was a child,
In this kingdom by the sea,
But we loved with a love that was more than love –
I and my ANNABEL LEE –
With a love that the wingéd seraphs of Heaven
Coveted her and me.

And this was the reason that, long ago,
In this kingdom by the sea,
A wind blew out of a cloud by night
Chilling my ANNABEL LEE;
So that her high-born kinsman came
And bore her away from me,
To shut her up in a sepulchre
In this kingdom by the sea.

The angels, not half so happy in Heaven,
Went envying her and me;
Yes! that was the reason (as all men know,
In this kingdom by the sea)
That the wind came out of the cloud, chilling 
And killing my ANNABEL LEE.

But our love it was stronger by far than the love
Of those who were older than we –
Of many far wiser than we –
And neither the angels in Heaven above
Nor the demons down under the sea
Can ever dissever my soul from the soul
Of the beautiful ANNABEL LEE: –

For the moon never beams without bringing me dreams
Of the beautiful ANNABEL LEE;
And the stars never rise but I see the bright eyes
Of the beautiful ANNABEL LEE;
And so, all the night-tide, I lie down by the side
Of my darling, my darling, my life and my bride
In the sepulchre there by the sea –
In her tomb by the side of the sea.


1849.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                                 A MINHA MÃE
PORQUE os anjos (bem sei) na celestial altura, 
quando falam de amor entre si, meigamente, 
não podem encontrar uma expressão mais pura 
que a de mãe, nem mais linda, ungida e comovente, 
eu, de há muito, te dou êsse nome perfeito, 
pois tu és, para mim, mais do que mãe, por certo, 
desde que a morte veio instalar-te em meu peito, 
ao tornar, de Virgínia, o espírito liberto.
A minha própria mãe, morta no albor da vida, 
foi minha mãe, tão-só; mas tu és mãe daquela 
que tanto amei; por isso, és muito mais querida, 
infinitamente és mais querida do que ela, 
assim como minha alma achava mais preciosa 
que a própria salvação – minha adorada espôsa.


                                    TO MY MOTHER
Because I feel that, in the Heavens above,
The angels, whispering to one another,
Can find, among their burning terms of love,
None so devotional as that of “Mother,” 
Therefore by that sweet name I long have called you —
You, who are more than mother unto me,
And fill my heart of hearts, where Death installed you
In setting my Virginia's spirit free.
My mother — my own mother, who died early,
Was but the mother of myself; but you
Are mother to the one I loved so dearly,
And thus are dearer than the mother I knew
By that infinity with which my wife
Was dearer to my soul than its soul-life.

1849.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§
edgar allan poe,  by themindisright

       O PALÁCIO ASSOMBRADO
NO VALE mais verdejante
que anjos bons têm por morada,
outrora, nobre e radiante
palácio erguia a fachada.
Lá, o rei era o Pensamento,
e jamais um serafim
as asas soltou ao vento
sôbre solar belo assim.

Bandeiras de ouro, amarelas,
no seu teto, flamejantes,
ondulavam (foi naquelas
eras distantes!)
e alado odor se evolava,
quando a brisa em horas cálidas,
por sôbre as muralhas pálidas
suavemente perpassava.

Pelas  janelas de luz,
o viajor dançar via
espíritos que a harmonia
de alaúde tinham por lei.
E, sôbre o trono, fulgia
(Porfirogênito!) o Rei,
com a glória, com a fidalguia,
de quem tal reino conduz.

Pela porta, cintilante 
de pérolas e rubis,
ia fluindo, a cada instante,
multidão de ecos sutis,
vozes de imortal beleza
cujo dever singular
era sòmente cantar
do Rei a imensa grandeza.

Mas torvos, lutuosos vultos
assaltam o solar!
(Choremos! Pois nunca o dia
sôbre o êrmo se há de elevar!)
E, em tôrno ao palácio, a glória
que fulgente florescia
é apenas obscura história
de velhos tempos sepultos!

Pelas janelas, agora
em brasa, avista o viajante
estranhas formas, que agita
uma música ululante;
e, qual rio, se precipita
pela pálida muralha
uma turba, que apavora,
que não sorri, mas gargalha
em gargalhada infinita.


                  THE HAUNTED PALACE
IN the greenest of our valleys
By good angels tenanted,
Once a fair and stately palace —
Radiant palace — reared its head.
In the monarch Thought’s dominion —
It stood there!
Never seraph spread a pinion
Over fabric half so fair!

Banners yellow, glorious, golden,
On its roof did float and flow
(This — all this — was in the olden
Time long ago,)
And every gentle air that dallied,
In that sweet day,
Along the ramparts plumed and pallid,
A wingéd odour went away.

Wanderers in that happy valley,
Through two luminous windows, saw
Spirits moving musically,
To a lute’s well-tunéd law,
Round about a throne where, sitting
(Porphyrogene!)
In state his glory well befitting,
The ruler of the realm was seen.

And all with pearl and ruby glowing
Was the fair palace door,
Through which came flowing, flowing, flowing,
And sparkling evermore,
A troop of Echoes, whose sweet duty
Was but to sing,
In voices of surpassing beauty,
The wit and wisdom of their king.

But evil things, in robes of sorrow,
Assailed the monarch’s high estate.
(Ah, let us mourn! — for never morrow
Shall dawn upon him, desolate!)
And round about his home the glory
That blushed and bloomed,
Is but a dim-remembered story
Of the old time entombed.

And travellers, now, within that valley,
Through the red-litten windows see
Vast forms, that move fantastically
To a discordant melody,
While, like a ghastly rapid river,
Through the pale door
A hideous throng rush out forever
And laugh — but smile no more.


1845.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                 O VERME VENCEDOR
VÊDE! é noite de gala, hoje, nestes 
        anos últimos e desolados! 
Turbas de anjos alados, em vestes 
        de gaze, olhos em pranto banhados, 
vêm sentar-se no teatro, onde há um drama 
        singular, de esperança e agonia; 
e, ritmada, uma orquestra derrama 
        das esferas a doce harmonia. 

Bem à imagem do Altíssimo feitos, 
        os atôres, em voz baixa e amena, 
murmurando, esvoaçam na cena; 
        são de títeres, só, seus trejeitos, 
sob o império de sêres informes, 
        dos quais cada um a cena retraça 
a seu gôsto, com as asas enormes 
        esparzindo invisível Desgraça! 

Certo, o drama confuso já não 
        poderá ser um dia olvidado, 
com o espectro a fugir, sempre em vão 
        pela turba furiosa acossado, 
numa ronda sem fim, que regressa, 
        incessante, ao lugar da partida; 
e há Loucura, e há Pecado, e é tecida 
        de terror tôda a intriga da peça! 

Mas, olhai! No tropel dos atôres 
        uma forma se arasta e insinua! 
Vem, sangrenta, a enroscar-se, da nua 
        e êrma cenam junto aos bastidores... 
A enroscar-se... Um a um, cai, exangue, 
        cada ator, que êsse monstro devora. 
E soluçam os anjos – que é sangue, 
        sangue humano, o que as fauces lhe cora! 

E se apagam as luzes! Violenta, 
        a cortina, funérea mortalha, 
sôbre os trêmulos corpos se espalha, 
        ao tombar, com rugir de tormenta. 
Mas os anjos, que espantos consomem, 
        já sem véus, a chorar, vêm depor 
que êsse drama, tão tétrico, é "O Homem" 
        e o herói da tragédia de horror 
        é o Verme Vencedor.


                  THE CONQUEROR WORM
Lo! ’tis a gala night
Within the lonesome latter years!   
An angel throng, bewinged, bedight
In veils, and drowned in tears,   
Sit in a theatre, to see
A play of hopes and fears,
While the orchestra breathes fitfully   
The music of the spheres.

Mimes, in the form of God on high,   
Mutter and mumble low,
And hither and thither fly —
Mere puppets they, who come and go   
At bidding of vast formless things
That shift the scenery to and fro,
Flapping from out their Condor wings
Invisible Wo!

That motley drama — oh, be sure   
 It shall not be forgot!
With its Phantom chased for evermore,   
 By a crowd that seize it not,
Through a circle that ever returneth in   
 To the self-same spot,
And much of Madness, and more of Sin,   
 And Horror the soul of the plot.

But see, amid the mimic rout
A crawling shape intrude!
A blood-red thing that writhes from out   
The scenic solitude!
It writhes! — it writhes!—with mortal pangs   
The mimes become its food,
And angels sob at vermin fangs
In human gore imbued.

Out — out are the lights — out all!   
And, over each quivering form,
The curtain, a funeral pall,
Comes down with the rush of a storm,   
And the angels, all pallid and wan,   
Uprising, unveiling, affirm
That the play is the tragedy, “Man,”   

And its hero the Conqueror Worm.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§
Edgar Allan Poe - by Tom Carlton

                        A F --- s S. O -- D
DESEJAS ser amada? Leva então 
pelo mesmo caminho o coração.
Sê tudo o que és e nada
sejas do que não és!
Assim, terás o mundo aos pés
e, com a graça, a beleza inigualada,
serás sem fim louvada em tôda parte
nada mais sendo que um dever – o amar-te.


                           To F— — s S. O — — d.
THOU wouldst be loved? — then let thy heart
From its present pathway part not!
Being everything which now thou art,
Be nothing which thou art not.
So with the world thy gentle ways,
Thy grace, thy more than beauty,
Shall be an endless theme of praise,

And love — a simple duty.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                                        SILÊNCIO
HÁ QUALIDADES incorpóreas, de existência 
dupla, nas quais segunda vida se produz, 
como a entidade dual da matéria e da luz, 
se que o sólido e a sombra espelham a evidência. 

Há pois, duplo silêncio; o do mar e o da praia, 
do corpo e da alma; um, mora em deserta região 
que erva recente cubra e onde, solene, o atraia 
lastimoso saber; onde a recordação 

o dispa de terror; seu nome é "nunca mais"; 
e o silêncio corpóreo. A êsse, não temais! 
Nenhum poder do mal êle tem. Mas, se uma hora 

um destino precoce (oh! destinos fatais!) 
vos levar às regiões soturnas, que apavora 
sua sombra, elfo sem nome, ali onde humana palma 

jamais pisou, a Deus recomendai vossa alma!


                                      SILENCE
THERE are some qualities — some incorporate things,
   That have a double life, which thus is made
A type of that twin entity which springs
   From matter and light, evinced in solid and shade.
There is a two-fold Silence — sea and shore —
   Body and soul. One dwells in lonely places,
   Newly with grass o’ergrown; some solemn graces,
Some human memories and tearful lore,
Render him terrorless: his name’s “No More.”
He is the corporate Silence: dread him not!
   No power hath he of evil in himself;
But should some urgent fate (untimely lot!)
   Bring thee to meet his shadow (nameless elf,
That haunteth the lone regions where hath trod
 No foot of man,) commend thyself to God!


1840.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

                                 EULÁLIA
             SOLITÁRIO eu vivia
             num mundo de agonia
      e minha alma era qual água estagnada,
até que fiz da suave e linda Eulália
      a minha enrubescida desposada,
até que fiz da jovem, loura Eulália,
      a minha sorridente desposada.

             Não possuirão jamais
             os astros imortais
      dêsses olhos de criança o resplendor.
              E nenhum floco de vapor
             que o luar possa compor
      irisando-o de pérola e de rosa
será igual à mais simples das madeixas
              de Eulália, tão modesta e tão formosa, 
será igual à mais pobre das madeixas
             que lhes cercam a fronte luminosa.

             A Dúvida, a Aflição
             nunca mais voltarão,
       pois sua alma os meus suspiros retribuir;
             e enquanto o dia flui
             e Astarté, refulgente,
             fulgura fortemente,
minha adotada Eulália, a contemplá-la,
             ao céu envia seu olhar de espôsa,
minha jovem Eulália, a contemplá-la,
             o olhar violeta no alto céu repousa.


                                             EULALIE
I DWELT alone
In a world of moan,
And my soul was a stagnant tide,
Till the fair and gentle Eulalie became my blushing bride –
Till the yellow-haired young Eulalie became my smiling bride.

Ah, less – less bright
The stars of the night
Than the eyes of the radiant girl!
That the vapour can make
With the moon-tints of purple and pearl,
Can vie with the modest Eulalie's most unregarded curl –
Can compare with the bright-eyed Eulalie's most humble and 
Careless curl.

Now Doubt – now Pain
Come never again,
For her soul gives me sigh for sigh,
And all day long
Shines, bright and strong,
Astarté within the sky,
While ever to her dear Eulalie upturns her matron eye –

While ever to her young Eulalie upturns her violet eye.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§
Edgar Allan Poe - by Court Jones

                                 ISRAFEL
       "E o anjo Israfel, em quem as fibras do coração 
        formam um alaúde e que tem a mais doce voz de 
        todas as criaturas de Deus." 
                             (Alcorão) 

HÁ NO CÉU um espírito "em que as fibras 
do coração formam um alaúde". 
Canção nenhuma tem a mágica virtude 
do teu canto, Israfel! Quando a voz vibras, 
os astros que andam no firmamento 
(contam as lendas) em desatinos,
cessam seus hinos, 
emudecidos de encantamento. 

Vacilante, flutua 
no seu zênite a lua; 
mas, se te ouve a canção, 
enamorada, enrubescida de paixão, 
a luz purpúrea no céu detém, 
e as sete Plêiades, ante essa voz, 
cessam também 
a carreira veloz. 

Diz o côro estrelado, a multidão 
de astros, que o ouvir-te encanta, 
que deves, Israfel, a inspiração 
ao alaúde de teu coração; 
êle é que canta 
quando, trêmulas, vibras 
as suas vivas, singulares fibras. 

Mas os céus, Israfel, percorreste 
onde cumpre um dever quem fundamente pensa 
e onde o Amor é um deus sem par; 
onde o olhar das huris se reveste 
dessa beleza imensa 
que só na estrela vamos adorar. 

Tu não erras, portanto, 
Israfel, se te esquivas 
a um desapaixonado canto! 
Sejam-te dados todos os louvores! 
És o melhor, és o mais sábio dos cantores! 
Feliz eternamente vivas! 

Os êxtases do céu perfeitamente 
se harmonizam com teu ritmo ardente; 
teu pesar, e ventura, e ódio, e amor 
de tua lira se casam ao fervor. 
Bem deve cada estrêla estar silente! 

Sim, teu é o Cé;, mas esta Terra 
é um mundo de doçuras e de dores; 
nossas flôres nada mais são que – flôres, 
e o que de sombra encerra 
tua perfeita ventura 
é, para nós, a luz do sol mais pura. 

Se eu, porém, Israfel, morasse onde viveste, 
se vivesses onde eu 
vivo, magicamente assim não poderias 
cantar terrestres melodias; 
e um hino mais audaz, talvez, do que êste, 
minha lira faria arrojar-se no céu.


                                ISRAFEL
IN Heaven a spirit doth dwell
“Whose heart-strings are a lute;”   
None sing so wildly well
As the angel Israfel,
And the giddy stars (so legends tell)  
Ceasing their hymns, attend the spell   
   Of his voice, all mute.

Tottering above
   In her highest noon,
   The enamoured moon
Blushes with love,
   While, to listen, the red levin   
   (With the rapid Pleiads, even,   
   Which were seven,)
   Pauses in Heaven.

And they say (the starry choir   
   And the other listening things)   
That Israfeli’s fire
Is owing to that lyre
   By which he sits and sings —   
The trembling living wire
 Of those unusual strings.

* And the angel Israfel, whose heart-strings are a lute, and 
who has the sweetest voice of all God’s creatures. — KORAN.

But the skies that angel trod,
   Where deep thoughts are a duty –   
Where Love’s a grown-up God –
   Where the Houri glances are   
Imbued with all the beauty
   Which we worship in a star.

Therefore, thou art not wrong,   
   Israfeli, who despisest
An unimpassioned song:
To thee the laurels belong
   Best bard, because the wisest!   
Merrily live, and long!

The ecstasies above
   With thy burning measures suit —   
Thy grief, thy joy, thy hate, thy love,
   With the fervour of thy lute —
   Well may the stars be mute!

Yes, Heaven is thine; but this
   Is a world of sweets and sours;
   Our flowers are merely — flowers,   
And the shadow of thy perfect bliss
   Is the sunshine of ours.

If I could dwell
Where Israfel
   Hath dwelt, and he where I,
He might not sing so wildly well
   A mortal melody,
While a bolder note than this might swell   
   From my lyre within the sky.


1836.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§

          PARA ANNIE
GRAÇAS A DEUS! A crise, 
o perigo passou! 
O mal languidescente 
afinal se acabou. 
E essa febre chamada 
vida se conquistou! 

Tristemente me sinto 
das fôrças despojado 
e músculo algum posso 
mover, assim deitado. 
Mas que importa? Prefiro 
ficar assim deitado. 

E em meu leito descanso, 
com tamanho confôrto 
que, ao ver-me, poderiam 
imaginar-me morto; 
talvez estremecessem, 
como quem olha um morto. 
Gemidos e lamentos, 
suspiros e aflição 
agora se acalmaram, 
com a palpitação 
cruel no meu peito. Horrível 
essa palpitação! 
O mal-estar, a náusea, 
a impiedosa agonia, 
tudo se foi, com a febre 
que a mente enlouquecia: 
febre chamada vida, 
que em meu cérebro ardia. 

De todos os tormentos, 
o que mais amargura 
cessou: o ardor terrível 
da sêde que tortura, 
sêde do rio naftálico 
da Paixão vil e impura. 
Oh! eu bebi de uma água 
que tôda a sêde cura! 

Água que flui com um canto 
que o ar de doçura inunda, 
de uma fonte bem pouco 
escondida e profunda, 
de furna que no solo 
quase não se aprofunda. 

E, ah! nunca loucamente 
se diga e seja aceito 
que é sombrio o meu quarto 
e apertado o meu leito, 
pois nunca o homem descansa 
em diferente leito. 
Para dormir, deitai-vos 
em semelhante leito. 

Nêle, a alma supliciada 
dorme, sem dolorosas 
recordações, não tendo 
mais saudades das rosas, 
das velhas inquietudes 
de seus mirtos e rosas. 

E, aqui jazendo, o espírito, 
tão calmo e satisfeito, 
crê que o cerca um mais santo 
odor de amor-perfeito, 
odor de rosmaninho, 
misto de amor-perfeito, 
de malva, do belíssimo 
e puro amor-perfeito. 

E assim feliz repousa, 
mergulhado em perene 
sonho da lealdade 
e da beleza de Annie, 
mergulhado nas ondas 
das longas tranças de Annie. 

Ela beijou-me e, terna, 
acariciar-me veio. 
E eu caí, docemente, 
a dormir no seu seio. 
Dormi profundamente 
sôbre o céu de seu seio. 

Cobriu-me, ao apagar-se 
a luz no castiçal, 
e orou para que os anjos 
me livrassem do mal 
e a Rainha dos anjos 
me afastasse do mal. 

E durmo em tal confôrto, 
Agora, no meu leito 
(dêsse amor satisfeito) 
que me acreditais morto. 
E é tal o meu confôrto 
a repousar no leito 
(seu amor no meu peito) 
que me imaginais morto 
e tremei, com trejeito 
de quem contempla um morto. 

Mas o meu coração 
fulge mais que a perene 
luz dos astros celestes, 
pois fulgura por Annie 
e se abrasa na chama 
do amor de minha Annie, 
só pensando na chama 
do olhar de minha Annie.


                                      FOR ANNIE
Thank Heaven! the crisis –
      The danger is past,
And the lingering illness
      Is over at last —
And the fever called "Living"
      Is conquered at last.

Sadly, I know
      I am shorn of my strength,
And no muscle I move
      As I lie at full length —
But no matter! — I feel
      I am better at length.

And I rest so composedly,
      Now, in my bed,
That any beholder
      Might fancy me dead —
Might start at beholding me,
      Thinking me dead.

The moaning and groaning,
      The sighing and sobbing,
Are quieted now,
      With that horrible throbbing
At heart: — ah, that horrible,
      Horrible throbbing!

The sickness — the nausea —
      The pitiless pain —
Have ceased, with the fever
      That maddened my brain —
With the fever called "Living"
      That burned in my brain.

And oh! of all tortures
      That torture the worst
Has abated — the terrible
      Torture of thirst
For the naphthaline river
      Of Passion accurst: —
I have drank of a water
      That quenches all thirst: —

Of a water that flows,
      With a lullaby sound,
From a spring but a very few
      Feet under ground —
From a cavern not very far
      Down under ground.

And ah! let it never
      Be foolishly said
That my room it is gloomy
      And narrow my bed;
For man never slept
      In a different bed —
And, to sleep, you must slumber
      In just such a bed.

My tantalized spirit
      Here blandly reposes,
Forgetting, or never
      Regretting, its roses —
Its old agitations
      Of myrtles and roses:

For now, while so quietly
      Lying, it fancies
A holier odor
      About it, of pansies —
A rosemary odor,
      Commingled with pansies —
With rue and the beautiful
      Puritan pansies.

And so it lies happily,
      Bathing in many
A dream of the truth
      And the beauty of Annie —
Drowned in a bath
      Of the tresses of Annie.

She tenderly kissed me,
      She fondly caressed,
And then I fell gently
      To sleep on her breast —
Deeply to sleep
      From the heaven of her breast.

When the light was extinguished,
      She covered me warm,
And she prayed to the angels
      To keep me from harm —
To the queen of the angels
      To shield me from harm.
And I lie so composedly,
      Now, in my bed,
(Knowing her love)
      That you fancy me dead —
And I rest so contentedly,
      Now in my bed,
(With her love at my breast).
      That you fancy me dead —
That you shudder to look at me,
      Thinking me dead: —

But my heart it is brighter
      Than all of the many
Stars in the sky,
      For it sparkles with Annie —
It glows with the light
      Of the love of my Annie —
With the thought of the light
      Of the eyes of my Annie.


1849.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

§
Edgar Allan Poe, © 2014 June Ann.

                BALADA NUPCIAL
A ALIANÇA coloco na mão, 
de grinaldas a fronte ornamento;
tenho jóias, cetins, em montão. 
Ah! sou feliz neste momento.

Dá-me amor, afeição verdadeira, 
meu senhor; mas fiquei sem alento
ao ouvir-lhe a promessa primeira, 
pois sua voz tinha um som de lamento,
semelhante ao da voz derradeira
de alguém, morto ao lutar na trincheira, 
que é bem feliz neste momento.

Porém êle acalmou-me, com um lento 
beijo, que na fronte alva senti.
E, num sonho, nas asas do vento, 
para o campo dos mortos parti. 
Suspirei, a pensar que elê, ali, 
fôsse o meu morto amor, D’Elormie:
“Oh! sou feliz neste momento!”

E a palavra assim foi proferida 
e trocamos assim juramento.
Ah! que importa se fui fementida, 
se traí, se tenho a alma ferida? 
Este anel provará, a quem duvida,
que sou feliz neste momento.

Tivesse eu, ó meu Deus, despertado! 
Porque sonho, e a sonhar me atormento,
sem que o espírito saiba, agitado, 
se houve um êrro e se, por ter errado, 
êsse morto, êsse morto olvidado
será feliz neste momento.


                                 BRIDAL BALLAD
THE ring is on my hand,
And the wreath is on my brow;
Satin and jewels grand
Are all at my command,
And I am happy now.

And my lord he loves me well;
But, when first he breathed his vow,
I felt my bosom swell –
For the words rang as a knell,
And the voice seemed his who fell
In the battle down the dell,
And who is happy now.

But he spoke to re-assure me,
And he kissed my pallid brow,
While a reverie came o'er me,
And to the church-yard bore me,
And I sighed to him before me,
Thinking him dead D'Elormie,
"Oh, I am happy now!"

And thus the words were spoken,
And this the plighted vow,
And, though my faith be broken,
And, though my heart be broken,
Behold the golden token
That proves me happy now!

Would God I could awaken!
For I dream I know not how,
And my soul is sorely shaken
Lest an evil step be taken, –
Lest the dead who is forsaken

May not be happy now.
- Edgar Allan Poe - 'Ficção completa, poesias & ensaios". [organização, tradução e anotações Oscar Mendes e Milton Amado]. Rio de Janeiro: Companhia Aguilar Editora, 1965. (grafia original 1965).

Edgar Allan Poe

VIDA E OBRA DE EDGAR ALLAN POE 
(biografia; cronologia; obra publicada no brasil e portugal; O corvo em três traduções; fortuna crítica; editora e outras fontes de pesquisa).
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** Página atualizada em 12.4.2016.




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