Paula Glenadel - a poética da liberdade

Paula Glenadel - foto: Editora 7Letras
Paula Glenadel (poeta, ensaísta e tradutora) nasceu no Rio de Janeiro em 1964. Professora de literatura francesa na Universidade Federal Fluminense, ela fez pós-doutorado na Universidade de Paris VIII, com o poeta parisiense Michel Deguy. Traduziu, entre outros, "Os Animais de Todo Mundo", poemas de Jacques Roubaud, e "A Rosa das Línguas", antologia de poemas de Michel Deguy (ambos em colaboração com Marcos Siscar). É autora dos livros de poesia "A Vida Espiralada" (ed. Caetés, 1999), "Quase uma Arte" (Cosac Naify/7Letras, 2005) e "A Fábrica do Feminino" (7Letras, 2008). É autora de "Fábrica do Feminino" (7 Letras), entre outros livros. 

"Atualmente, assim se mostra a poesia para mim: uma ginástica interior visando a uma liberdade maior, a uma espécie de alforria, um modo de naufragar bem, quer dizer, de naufragar bastante e alegremente, de entrar no não-saber da coisa toda, de sustentar o vício da dúvida entre perceber e conhecer, tudo isso na certeza visceral de que pensar pesa." - Paula Glenadel
:: Fonte: site da autora (acessado em 21.3.2016).



OBRA DE PAULA GLENADEL
Poesia
:: A vida espiralada. [prefácio Luiz Fernando Medeiros de Carvalho]. Rio de Janeiro: Editora Caetés, 1999.
:: Quase uma arte. [prefácio Marcos Antonio Siscar]. Coleção às de colete. São Paulo: Cosac & Naify | Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2005, 80p.
:: A fábrica do feminino. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2008, 90p.

Prosa poética teatralizada
:: Rede. Coleção os Contemporâneos. Rio de Janeiro: Editora Confraria do vento, 2014, 72p.

Ensaio
:: O preço da poesia. Pequena meditação em quatro tempos sobre valor e literatura. 1ª ed., São Paulo: Lumme Editor, 2011. v. 1. 60p.
:: Nathalie Quintane por Paula Glenadel. 1ª ed., Rio de Janeiro: EdUERJ, 2012. v. 1. 88p.

Ensaios (organização)
Paula Glenadel 
:: Em torno de Jacques Derrida. [organização Paula Glenadel e Evandro Nascimento].. (estudos literários e filosóficos). Rio de Janeiro: 7Letras - Viveiros de Castro Editora, 2000, 244p.
:: Estéticas da crueldade[organização Paula Glenadel e Ângela Maria Dias]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Atlântica, 2004. 272p.
:: Viver com Barthes. [organização Paula Glenadel e Vera Casa Nova]. Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2005, 216p.
:: O francês e a diferença. [organização Paula Glenadel e Eurídice Figueiredo]. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2006, 132p.
:: Valores do abjeto. [organização Paula Glenadel e Ângela Maria Dias]. 1ª ed., Niterói RJ: EdUFF, 2008. v. 1. 200p.
:: Cenas de arte e ficção.Teatralidades contemporâneas. [organização Paula Glenadel e Ângela Maria Dias]. 1ª ed., Rio de Janeiro: Confraria do vento, 2015. v. 1. 256p.

Antologias (participação)
:: Roteiro da poesia brasileira - anos 90. [seleção e prefácio Paulo Ferraz]. São Paulo: Global, 2011.
:: Vijfentwintig keer Brazilië | Vinte e cinco no Brasil. Antologia bilíngue holandês|português. [organização Flora Süssekind; tradução Harrie Lemmens e Bart Vonck]. Gent: Poëziecentrum, 2011.
:: La poésie brésilienne aujourd´hui. Antologia bilíngue francês|português. [organização Flora Süssekind; tradução  Patrick Quillier]. Liège: Le Cormier, 2011.

Obra publicada no exterior
Espanhol
:: Casi un arte (Quase uma arte) - Paula Glenadel. [tradução Rodrigo Labriola]. Bahía Blanca|Argentina: Grumo/ Vox, 2013.

Poesia em revistas e sites literários
LABRIOLA, Rodrigo. Poemas e uma apresentação de Quase uma arte - Paula Glenadel[tradução para o espanhol]. Revista Grumo, 2009.
FERENC, Pál; LEVENTE, Pál Dániel. Poemas de A fábrica do feminino - Paula Glenadel. [tradução para o húngaro]. Revista Nagyvilág, 2010.
OSEKI-DEPRÉ, Inês. Poemas de Quase uma arte - Paula Glenadel. [tradução para o francês]. Place de la Sorbonne - Revue internationale de poésie, n. 5, 2015.
OSEKI-DEPRÉ, Inês. Poemas de A vida espiralada e Quase uma arte - Paula Glenadel. [tradução para o francês]. Revista Action poétique n. 204, junho de 2011.

Traduções realizadas por Paula Glenadel
:: A rosa das línguas - Antologia de poemas de Michel Deguy. [introdução, organização e tradução Paula Glenadel e Marcos Siscar]. São Paulo: Editora Cosac Naify | Rio de Janeiro: 7Letras, 2004.
:: Começo - autobiografia poética de Nathalie Quintane. [tradução Paula Glenadel]. São Paulo: Editora Cosac Naify | Rio de Janeiro: 7Letras, 2004.
:: Os animais de todo mundo, poemas de Jacques Roubaud. [tradução Paula Glenadel e Marcos Siscar]. São Paulo: Editora Cosac Naify, 2006.
:: Reabertura após obras, de Michel Deguy. [tradução Paula Glenadel e Marcos Siscar]. São Paulo: EdUNICAMP, 2010.

Tese e dissertação
GLENADEL, Paula. Perversão e doxa em Sade. (Tese Doutorado em Letras Neolatinas). Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 1996.
________ . Samuel Beckett: o nomadismo da linguagem. (Dissertação Mestrado em Letras Neolatinas). Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, 1989.

Ensaios e artigos em capítulos de livros
GLENADEL, Paula.. Contos de fatos: aspectos da poética de Lu Menezes. In: Susana Scramim; Marcos Siscar; Alberto Pucheu. (Org.). Linhas de fuga: poesia, modernidade e contemporaneidade. 1ª ed., São Paulo: Iluminuras, 2016, v. 1, p. 67-76.
________ . A cena barrada do acaso em O Amor Louco de Breton. In: DIAS, A. M.; GLENADEL, P.. (Org.). Cenas de arte e ficção: Teatralidades contemporâneas. 1ª ed., Rio de Janeiro - RJ: Confraria do vento, 2015, v. 1, p. 137-155.
________ . O deleite do tradutor: Sebastião e Villon. In: Flora Süssekind; Julio Castañon Guimarães. (Org.). Sobre Sebastião Uchoa Leite. 1ª ed., Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa, 2014, v. 1, p. 145-152.
________ . 'Comunidade' poética: em torno de Aleijão, de Eduardo Sterzi. In: João Camillo Penna; Ângela Maria Dias. (Org.). Comunidades sem fim. 1ª ed., Rio de Janeiro: Editora Circuito, 2014, v. 1, p. 105-111.
Quase uma arte, Paula Glenadel
________ . "Poesia e verdade" da animalidade nietzschiana. In: Maria Esther Maciel. (Org.). Pensar/escrever o animal: ensaios de zoopoética e biopolítica. 1ª ed., Florianópolis: Editora da UFSC, 2011, v. 1, p. 75-83.
________ . Escrita e pensamento: à contraluz da tradução. In: Alvaro Faleiros; Adrana Zavaglia; Alain Mouzat. (Org.). A tradução de obras francesas no Brasil. 1ª ed., São Paulo: Annablume, 2011, v. 1, p. 203-210.
________ . Mallarmé, no presente. In: André Dick. (Org.). Paideuma. 1ª ed., São Paulo: Risco Editorial, 2010, v. 1, p. 75-94.
________ . Poesia e impossível: a economia do fantasma. In: Maria Antonieta Pereira; Luiz Fernando Ferreira Sá. (Org.). Jacques Derrida: atos de leitura, literatura e democracia. 1ª ed., Belo Horizonte: Faculdade de Letras da UFMG, Linha Ed. Tela e Texto, 2009, v. 1, p. 93-103.
________ . O corpo da letra: símios e moscas em Jacques Dupin. In: Celia Pedrosa; Ida Alves. (Org.). Subjetividades em devir: estudos de poesia moderna e contemporânea. 1ª ed., Rio de Janeiro RJ: 7 Letras, 2008, v. 1, p. 261-267.
________ . Genet, os fastos da abjeção. In: Dias, A.M.; Glenadel, P.. (Org.). Valores do abjeto. 1ª ed., Niterói RJ: EdUFF, 2008, v. 1, p. 65-74.
________ . La foi du poète. In: Martin Rueff. (Org.). Michel Deguy. L´allégresse pensive. 1ª ed., Paris: Ed. Belin, 2007, v. 1, p. 375-380.
________ . ; FIGUEIREDO, E.. O estatuto do francês no mundo de hoje: a diferença "por vir". In: Figueiredo, E.; Glenadel, P.. (Org.). O francês e a diferença. 1ª ed., Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, v. 1, p. 11-26.
________ . Derrida e Glissant, a trama da relação e o drama da diferença. In: Alcides Cardoso dos Santos; Fábio Akcelrud Durão; Maria das Graças G. Villa da Silva. (Org.). ________ . Desconstruções e contextos nacionais. 1ª ed., Rio de Janeiro: 7 Letras, 2006, v. 1, p. 188-195.
________ . Corpo a corpo: leitura e escrita em Barthes. In: Casa Nova, Vera; Glenadel, Paula. (Org.). Viver com Barthes. Rio de Janeiro: Viveiros de Castro, 2005, v. , p. 83-90.
________ . Desertos, senhas e miragens: a tradução e o pensamento derridiano. In: Nascimento, E.. (Org.). Jacques Derrida: pensar a desconstrução. 1ª ed., São Paulo: Estação Liberdade, 2005, v. , p. 293-299.
________ . Crueldade e hierarquias: motivos animais em Hugo e Lautréamont. In: GLENADEL, P. ; DIAS, A. M.. (Org.). Estéticas da crueldade. Rio de Janeiro: Atlântica, 2004, v. , p. 239-247.
________ . Do pé à dança: Chaussure, de Nathalie Quintane. In: Flora Sussekind; Tânia Dias; Carlito Azevedo. (Org.). Vozes femininas. Gênero, mediações e práticas de escrita. Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2003, v. , p. 132-138.
________ . Derrida e os poetas: de margens e marcas. In: E. Nascimento; P. Glenadel. (Org.). Em torno de Jacques Derrida. 1ª ed., Rio de Janeiro: 7 Letras - Viveiros de Castro Editora, 2000, v. 1, p. 187-201.
________ . Inapagar o inacreditável: notas sobre poesia e tradução em Derrida e Deguy. In: Francisco V. dos Santos. (Org.). Prismas: em torno da poesia. 1ª ed., Rio de Janeiro: Centro de Observação do Contemporâneo, 1999, v. , p. 19-29.
________ . Jacques Roubaud: A Poesia Como Espiral da Memória. In: Pedrosa, Celia; Matos, Claudia; Nascimento, Evando. (Org.). Poesia hoje. 1ª ed., Niterói RJ: EDUFF, 1998, v. , p. 101-111.

Artigos ensaios em revistas
GLENADEL, Paula. Tradução, acaso e autobiografia em Jacques Derrida. Tradução em Revista (Online), v. 15, p. 1-8, 2014.
________ . Théâtres minuscules: poésie contemporaine et éthique. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, v. 24, p. 87-96, 2014.
________ . Um certo rumor da poesia brasileira. Lado 7, v. 4, p. 95-110, 2012.
________ . Aleijão de Eduardo Sterzi - recensão crítica. Colóquio. Letras, v. 177, p. 278-281, 2011.
________ . A tradução em obra na poesia de Max Jacob. Revista Brasileira de Literatura Comparada, v. 19, p. 79-91, 2011.
________ . Nathalie Quintane: formagens. Alea: Estudos Neolatinos (Impresso), v. 13, p. 273-282, 2011. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
________ . Apresentar o irrepresentável: paisagem com bois e vaca amarela. Aletria: Revista de Estudos de Literatura, v. 21, p. 110, 2011.
________ . Mais um no oceano. Remate de Males, v. 30, p. 45-49, 2010.
________ . Um segundo antes de acordar. revista Trópico, 17.10.2009. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
________ . Poéticas do desaparecimento: o sujeito à espreita em dois poemas de Sebastião Uchoa Leite e Marcos Siscar. Cadernos de Literatura Comparada, v. 16, p. 53-62, 2007.
________ . Apocalipse Baudelaire. Alea: Estudos Neolatinos (Impresso), v. 9, p. 190-197, 2007. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
Rede, Paula Glenadel
________ . Derrida e Glissant: poéticas da diferença. Confraria (Rio de Janeiro), v. 2anos, p. 34-35, 2006. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
________ . Le sourire de l'alligator. Responsabilité et irresponsabilité orgiaque dans le Journal du voleur de Jean Genet. Sens public - Revue Web Internationale, v. 1, p. 1-1, 2006.
________ . Ressurgência barroca: estilo e tradução cultural em Jacques Derrida. Outra Travessia (UFSC), Ilha de Santa Catarina, v. 3, p. 47-54, 2005.
________ . Entre mangue e manguetown, Chico Science. Revista de Letras (UNESP. Impresso), São Paulo - UNESP, v. 43, p. 47-56, 2003.
________ . O Giacometti de Genet. Alea: Estudos Neolatinos (Impresso), Rio de Janeiro, v. 5, p. 225-235, 2003.
________ . Vozes de Baudelaire na poesia francesa. Revista Cult, v. 73, p. 47-49, 2003.
________ . Tradução, desconstrução, poesia: esboço para a ruminação de uma aporia. Gragoatá (UFF), Niterói, v. 8, n.8, p. 57-67, 2001.
________ . A viagem sem viagem de Sarah Kofman. Alea. Estudos Neolatinos, Rio de Janeiro RJ, v. 3, p. 11-20, 2001.
________ . Os Fundadores da Modernidade e Seus Herdeiros: Tendências da Poesia Contemporânea Francesa. Cadernos de Letras da UFF, Niterói, RJ, v. 17, n.17, p. 17-28, 1998.
________ . Jacques Roubaud: A Poesia Como Espiral da Memória. Revista da ANPOLL, São Paulo, v. 5, n.5, p. 183-193, 1998.
________ . Sade e O Programa da Modernidade. Estudos Neolatinos, Rio de Janeiro, v. 2, n.2, p. 150-157, 1997.
________ . Utopias da Guanabara. Cadernos de Letras da UFF, Niterói, v. 7, n.7, p. 25-30, 1993.
________ . ; FIGUEIREDO, E.. França-Brasil: elementos para uma Relação. Letras (UFSM), v. 19, p. 57-69, 2009.

Artigos em jornais
GLENADEL, Paula.. A nova poesia brasileira vista por seus poetas (depoimento). Suplemento Literário de Minas Gerais, Belo Horizonte - MG, p. 5 - 5, 0 maio 2013.
________ . Boris e o tambor. Estado de São Paulo, São Paulo, p. 6-6, 25 dez. 2006.
________ . A prosa poética do Dionysos de Julien Green. Magis Opus, Rio de Janeiro, p. 69 - 85, 1 jul. 2002.
________ . A mulher do futuro vista pelo passado. Jornal do Brasil - Suplemento Idéias, Rio de Janeiro, p. 1, 19 maio 2001.
________ . Perdido no espaço. Jornal do Brasil - suplemento Idéias, Rio de Janeiro, p. 4, 18 jul. 1987.
________ . Escrever, verbo intransitivo. Jornal do Brasil - suplemento Idéias, Rio de Janeiro, p. 8, 11 jul. 1987.
________ . Mar de lágrimas. Jornal do Brasil - suplemento Idéias, Rio de Janeiro, p. 2, 16 maio 1987.
________ . A moral sob o sol. Jornal do Brasil - suplemento Idéias, Rio de Janeiro, p. 6, 25 abr. 1987.
________ . A paixão segundo A.C.. Jornal do brasil - suplemento Iidéias, Rio de Janeiro, p. 4, 18 abr. 1987.
________ . Floresta de palavras. Jornal do Brasil - suplemento Idéias, Rio de Janeiro, p. 4, 14 fev. 1987.


Espiral da vida
BREVE ANTOLOGIA POÉTICA DE PAULA GLENADEL

Corcéis
controlar os corcéis
da alma,
desembestados,
com mão segura
como o lastro do navio,
seu peso em areia, em ouro:

o medo dá asa a cobra
cria monstros na sombra
viaja nos desvãos
estremece os alicerces
uiva sussurrando ruínas
- Paula Glenadel, em "Quase uma arte". São Paulo: Cosac & Naify | Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2005.

§

Crisálida
           para Luísa

agora já não pedes
meus nervos em pasto

agora já te afastas
crescida em beleza

agora me contas piadas
que aprendes ou inventas

agora pressinto tuas asas
- Paula Glenadel, em "Quase uma arte". São Paulo: Cosac & Naify | Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2005.

§

Filha
         para Luísa

A menina que, em sustos,
vejo crescer depressa,
que nutro com meus nervos
e que descubro falar, e ser,

me veio de um imemorial
           naufrágio
em que perecemos eu e ele:
pequena pérola do pior.

Como o traço oblíquo de luz
riscado sobre uma tela
de nuvens branco-cinza,
figura, tornado agora visível,
o sutil equilíbrio instável
entre dois planos. 
- Paula Glenadel, em "A vida espiralada". Rio de Janeiro: Editora Caetés, 1999.


§


Sobre a lama, a cidade
O lirismo de algo
que se queira chamar
de natureza (musgo,
morros e matas),

a epopéia da favela,
cabrita ou palafita,
ora sobre mangue,
ora em pedra lisa,

a fábula do asfalto,
vitrine e ciclovia,
o drama do assalto
encenado todo dia,

se convocados aqui
aparecem/desaparecem
deixando um rastro
de lama.
- Paula Glenadel, em "A vida espiralada". Rio de Janeiro: Editora Caetés, 1999.

§

O feminino é feito numa fábrica. O masculino é fabricado.
Tudo que é humano é feito à máquina.
A fábrica é meio antiquada, escura. Contudo, entrevemos
uma linha de montagem que produz e reparte andróides
femininos e andróides masculinos em dois compartimentos
distintos.
Saem dali para o mercado, na cidade dos homens, onde
catálogos, discursos promocionais já os esperam, onde vão
ocupar sempre as mesmas prateleiras.
Ver. Ouvir. Observar essas palavras que há milênios fabricam
o mundo, suas formas. Falar com elas. Habitar a cidade
fantasma.
A fala, fábrica da fábrica.
- Paula Glenadel, no 'epígrafe' do livro "A fábrica do feminino". Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2008, p. 7.

§

O outro, o mesmo
é do outro, ventríloqua
a voz que articulo mal

flui de mim, vampirizada
uma seiva que não volta

em lugar da epifania
entra a aparição

sobe ao palco
o outro, o indesejado

nem vivo nem morto
vestido com minha pele
mesmerizada
- Paula Glenadel, em "Quase uma arte". São Paulo: Cosac & Naify | Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2005.


§

Planos
algumas sementes da Austrália
prevêem o fogo
e se preparam para sobreviver
o fogo está em seus planos,
se é que os têm 

ele vem abri-las para que germinem

na floresta devastada
então podem crescer sem disputar
o sol com as enormes árvores
e a terra com as grossas raízes

isto me disse alguém uma vez

era suíço
estava leibniziano 
- Paula Glenadel, em "Quase uma arte". São Paulo: Cosac & Naify | Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2005.

§

Quase uma arte
grande amor tenho por seus membros
ombros pescoço braços pernas o viril
mais forte do que tudo
a mão que estendo sem cessar
parece que pede mas oferece
nada ou quase uma arte:
joga nos dados
o olho por olhos
o dente por dente
- Paula Glenadel, em "Quase uma arte". São Paulo: Cosac & Naify | Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2005.

§


Seca
chão tão rachado de secura
que quando cai a chuva
não consegue absorvê-la

refratário, custa a crer
nos tempos  de água e de fartura
- Paula Glenadel, em "Quase uma arte". São Paulo: Cosac & Naify | Rio de Janeiro: Viveiros de Castro Editora, 2005.

§

Verões
Rio, fevereiro: a umidade
e a chuva fundem
gente, água, terra, ar,
numa coisa só -
tudo, um mundo-esponja.

Entro (em mim):
sou de madeira inchada
estalo e empeno

e haverá outros verões.
- Paula Glenadel, em "A vida espiralada". Rio de Janeiro: Editora Caetés, 1999.



Paula Glenadel 
FORTUNA CRÍTICA DE PAULA GLENADEL
ALEIXO, Ricardo. Uma poesia sem pai nem. Jaguadarte, blog, 2006. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
AMARAL, Ana Luísa. Da falta ou do excesso: fabricar o poético. Posfácio ao livro A fábrica do feminino, 2008. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
AMARANTE, Dirce Waltrick. Paula Glenadel busca diálogos com a arte contemporânea em ‘Rede’. (resenha). O Globo, Livros, 16.5.2015. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
CARPEGGIANI, Schneider. A ilustre desconhecida Paula Glenadel. in: Jornal do Commercio, 12.9.2006. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
CARVALHO, Luiz Fernando Medeiros de; OLIVEIRA, Adriano Brandão de.. A fábrica de mente. CES Revista v. 27, nº 1, Juiz de Fora, Jul/dez. 2013. Disponível no link. e link. (acessado em 21.3.2016).
CARVALHO, Luiz Fernando Medeiros de.. Modulações do contratempo. Prefácio ao livro A vida espiralada, 1999.
CARVALHO, Luiz Fernando Medeiros de; BRASILEIRO, Cristiane. Jogo decisivo. Educação pública, revista online da fundação Cecierj, 2010. 
CARVALHO, Luiz Fernando Medeiros de; BRASILEIRO, Cristiane. A metamorfose do luto. Jornal do Brasil, 10.12.2005. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
CUNHAHelena Parente (org.). Além do cânone: vozes femininas cariocas estreantes na poesia dos anos 90. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 2004. 
DIAS, Ângela Maria. O engasgo da fábrica: do feminino na poesia de Paula Glenadel. Revista Convergência Lusíada, nº 28 - jul.|dez. 2012. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
ENTREVISTA Paula Glenadel a Sérgio Medeiros. Revista Qorpus, UFSC, 2015. Disponível no link. e link. (acessado em 21.3.2016).
FALEIROS, Álvaro; OLIVEIRA, Thiago Mattos de.. Escrita tradutória e escrita literária: (Entrevista com Paula Glenadel).. Non Plus, v. 7, p. 178-181, 2015. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
FERRAZ, Heitor. Visões do feminino. (Dossiê Poesia brasileira). Trópico, 17.10.2009. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
LEMOS, Masé. A Mecânica Lírica. Alguns Objectos Contemporâneos. Revista eLyra nº 3, 2014. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
LIMA, Manoel Ricardo de.. A fábrica do feminino. Diário do Nordeste, 27.2.2009. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
LIMA, Manoel Ricardo de.. Nem todas as coisas ditas. Jornal do Brasil, 2.6.2005. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
MACHADO, Carlos. Quase uma arte. Boletim poesia.net, 12.10.2005. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
MEDEIROS, Sérgio. Contemporâneo, livro de Paula Glenadel tenta capturar o mundo de hoje. (resenha). O Estado de São Paulo, Cultura/ Literatura, 11.4.2015. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
MEDEIROS, Sérgio. 
MÜLLER, Adalberto. A arte do nada. (resenha). Correio Braziliense, 30.7.2005. 
OSEKI, Inês. Paula Glenadel por Inês Oseki. Ciranda da poesia. EdUERJ, 2015.
PILATI, Alexandre. A lama da modernização. Estudo sobre os poemas de A vida espiralada, de Paula Glenadel. Blog Alexandre Pilati, 2010. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
, Sérgio. Máquina precária. (resenha). Correio Braziliense, 13.6.2009.
SANTOS, Alcides Cardoso dos. (org.). Estados da crítica. São Paulo: Ateliê Editorial; Curitiba: Editora UFPR, 2006.
SCRAMIN, Susana. Sobre formas de vida e de morte. Revista eLyra nº 3, 2014.
SISCAR, Marcos Antonio. O animal que se desconhece. 'Prefácio' ao livro Quase uma arte, 2005. Disponível no link. (acessado em 21.3.2016).
TORRES, Maximiliano. As faces de Pandora na construção simbólica do feminino e a literatura escrita por mulheres como quebra de paradigma (os casos Narcisa Amália e Paula Glenadel). in: Violência simbólica e estratégias de dominação. [organização Helena Parente Cunha]. Rio de Janeiro: Editora da Palavra; PPG em Ciência de Literatura da UFRJ, 2011. 
TORRES, Maximiliano. As incursões de Eros no cenário da poesia carioca contemporânea: Christina Ramalho, Paula Glenadel, Sylvia Cintrão, Ângela Montez, Ângela Maria Carrocino, Maria Dolores Wanderley, Denisis Trindade. in: Além do cânone: vozes femininas cariocas estreantes na poesia dos anos 90. [organização Helena Parente Cunha]. Rio de Janeiro: Edições Tempo Brasileiro, 2004. 



Árbol de la vida... en espiral, by pinedauno
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OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Paula Glenadel - a poética da liberdade. Templo Cultural Delfos, março/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
____
** Página atualizada em 21.3.2016.



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