Marcelo Moutinho - travessias cariocas

Marcelo Moutinho - foto: Arquivo do autor
Marcelo Moutinho nasceu em Madureira, subúrbio do Rio de Janeiro, em 1972. É escritor e jornalista, com especialização em Comunicação e Imagem (PUC-Rio). Publicou os livros Na dobra do dia (Rocco, 2015), A menina que perdeu as cores (Pallas, 2013), A palavra ausente (Rocco, 2011), Somos todos iguais nesta noite (Rocco, 2006) e Memória dos barcos (7Letras, 2001). Além disso, organizou as antologias Dicionário Amoroso da Língua Portuguesa (Casa da Palavra, 2009), Contos sobre tela (Pinakotheke, 2005), Prosas cariocas - Uma nova cartografia do Rio (Casa da Palavra, 2004), das quais é também co-autor, e a revista especial Bravo! - Literatura e Futebol (Abril, 2011).
Idealizou e organizou, também, a seleta de ensaios Canções do Rio – A cidade em letra e música (Casa da Palavra, 2010) e foi responsável pela coordenação editorial do Manual de Sobrevivência nos Butiquins mais Vagabundos (Senac Rio, 2005), de Moacyr Luz, e do livro Bip Bip, 40 anos – Histórias de um bar (com Chiquinho Genu e Luiz Pimentel, Editora Bip Bip, 2008).
Participou, como autor, das antologias Escritores escritos (Flanêur, 2010), Como se não houvesse amanhã (Record, 2010), Dez cariocas (Ferreyra Editor, Argentina, 2009) e 35 segredos para não se chegar a lugar nenhum (Bertrand Brasil, 2008). Tem artigos e textos ficcionais veiculados em diversas revistas de cultura, como a Bravo!, a Cinemais, a Revista do Globo e a Ficções.
Foi curador, com Marcelo Janot, da mostras de cinema Os melhores filmes do ano, em 2006, 2007 e 2008, no Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBB). Fez a curadoria, também, do ciclo Geração 00 – A nova prosa carioca, no Sesc-Rio (2004), dos Encontros no Subsolo, da Livraria Leonardo da Vinci, e dos debates das campanhas Paixão de Ler 2009 e Paixão de Ler 2011, realizadas pela Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro.
Como escritor e/ou mediador, participou de três edições (2007, 2009 e 2011) do Café Literário da Bienal do Livro do Rio de Janeiro, da Flip 2009, da Balada Literária (São Paulo, 2009), dos ciclos Brasil, futebol e livros (CCBB/RJ, 2010) e Toca Livros (Caixa Cultural/RJ, 2011) e dos Encontros de Interrogação, do Itaú Cultural (São Paulo, 2011). Foi palestrante no seminário Rumos/Itaú Cultural, em 2007, no 14º Encontro Sergipano de Comunicação (Ensecom), em 2009, e no evento Para ouvir uma canção (Caixa Cultural, 2011). É curador dos Encontros Literários, da Secretaria Municipal de Cultura do Rio de Janeiro, que promove debates mensais.
Escreveu resenhas para suplemento literário Ideias (Jornal do Brasil),  colaborou com caderno Prosa & Verso (O Globo) e escreve crônicas semanalmente no site Vida Breve. Seus textos foram traduzidos para a França, Alemanha e Estados Unidos, entre outros países. 
:: Fonte: Site do autor | Editora Rocco (28.3.2016).



Marcelo Moutinho - foto: Claudia Dantas
OBRA DE MARCELO MOUTINHO
Contos
:: Um certo medo da noite. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 1998, 110p.
:: Memórias dos barcos. [apresentação Antônio Torres]. Rio de Janeiro: Editora 7Letras, 2001, 72p.
:: Somos todos iguais nessa noite. [apresentação Adriana Lisboa]. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2006, 124p.
:: A palavra ausente. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2011, 120p.

Crônicas
Capa dos livros de Marcelo Moutinho
:: Na dobra do diaRio de Janeiro: Editora Rocco, 2015, 232p.

Infanto-juvenil
:: A menina que perdeu as cores. Rio de Janeiro: Pallas, 2013, 36p.

Ensaio/fotografia
:: Todos os tons do cerrado (coletânea de imagens e textos).. [Marcelo Moutinho e Gustavo Malheiros]. Rio de Janeiro: Editora Arte Ensaio, 2015, 125p. 

Ensaios, contos e crônicas (organização e co-autorias)
:: Prosas cariocas. [organização Marcelo Moutinho e Flávio Izhaki]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2004, 142p.
:: Manual de sobrevivência nos botequins mais vagabundos, de Moacyr Luz. [organização Marcelo Moutinho]. Rio de Janeiro: Editora SENAC RJ, 2005, 128p.
:: Contos sobre a tela. [organização Marcelo Moutinho; prefácio José Castello]. Rio de Janeiro: Editora Pinakotheke, 2005, 114p.
:: Bip Bip, 40 anos – histórias de um bar[organização Marcelo Moutinho, Chiquinho Genu e Luiz Pimentel]. Rio de Janeiro: Editora Bip Bip, 2008.
:: Dicionário amoroso da língua portuguesa. [organização Marcelo Moutinho e Jorge Reis Sá]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2009, 136p.
:: Canções do Rio - a cidade em letra e música. [idealização e organização Marcelo Moutinho]. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2010, 136p.
:: Literatura e futebol. [organização e apresentação Marcelo Moutinho]. revista especial Bravo!. Abril, 2011, 148p.
:: O meu lugar. [organização Marcelo Moutinho e Luiz Antonio Simas; autores Alberto Mussa, Aldir Blanc, Marcelo Moutinho, Moacyr Luz, Nei Lopes, Paulo Roberto Pires e Rodrigo Ferrari]. Rio de Janeiro: Editora Mórula Editorial, 2015, 144p.

Antologias (participação)
Marcelo Moutinho - foto: Tomás Rangel
:: 35 segredos para não se chegar a lugar nenhum. [Organização Ivana Arruda Leite]. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2008, 168p. 
:: Dez cariocas. [Organização Federico Lavezzo]. Argentina: Ferreyra Editor, 2009.
:: Escritores escritos. [Organização Victoria Saramago]. Rio de Janeiro: Flanêur, 2010.
:: Como se não houvesse amanhã - 20 contos inspirados em músicas da Legião Urbana. [Organização Henrique Rodrigues]. Rio de Janeiro: Record, 2010.
:: Brasil-Haiti: 101 histórias. Uma esperança. [organização Greg Mcqueen; traduções Daniel Hubert Kroker, Douglas Pek, Eduardo Lane, Keila Vieira, Lana Lim, Lenita do Nascimento, Lianderson Miranda, Mylene Soares Dias, Pedro Jose Maria Bianco, Renata Lea F. Oliveira e Roselene Sant'Anna da Silva]. Editora Garimpo Editorial, 2010, 256p.
:: O livro branco. [organização Henrique Rodrigues]. Rio de Janeiro: Editora Record, 2012, 160p.

Entrevistas
LOSANOFF, Marcus. Marcelo Moutinho: encantado pelas palavras. [entrevista]. in: Editora JC., 1.7.2015. Disponível no link. (acessado em 27.3.2016).
MELLO, Ramon Nunes de.. Marcelo Moutinho, memória cartográfica. [entrevista]. in: Saraiva Conteúdo, 29.10.2009. Disponível no link. (acessado em 27.3.2016).


"De cá, penso se não é assim mesmo. Uma variação entre o ora bem e ora nem tanto. E a gente vai, com ginga de sambista, equilibrando-se no fio invisível que divide os dois."
— Marcelo Moutinho, na crônica “Ora bem, ora nem tanto”. publicada na revista “Vida breve”, em 15.11.2014.

Marcelo Moutinho - foto: Arquivo do autor


FORTUNA CRÍTICA DE MARCELO MOUTINHO
BARBOSA, Manoella. Marcelo Moutinho: "qualquer análise do Brasil que não inclua o futebol será sempre escassa". in: Instituto Goethe, Janeiro de 2014. Disponível no link. (acessado em 27.3.2016).
BRITO, Carlos. Marcelo Moutinho estreia na crônica com o livro ‘Na Dobra do Dia’. in: O Dia, 21.4.2015. Disponível no link. (acessado em 27.3.2016).
CARPINEJAR, Fabrício. Um Rio de Janeiro abençoado por Deus. in: Estado de S. Paulo. Disponível no link. (acessado em 27.3.2016).
FELIZARDO, Alexandre Bonafim. A palavra ausente de Marcelo Moutinho. Diário da manhã, Goiânia, p. 3 - 3, 19 out. 2014.
FERNANDA, Maria. 3 lugares: Marcelo Moutinho. in: Roteiros literários. Disponível no link. (acessado em 27.3.2016).
FREITAS, Guilherme. Em seu primeiro livro de crônicas, Marcelo Moutinho mapeia memória das ruas do Rio. in: O Globo, 25.4.2015. Disponível no link. (acessado em 27.3.2016).
KUPERMAN, Karina. Livro "O meu lugar" propõe uma viagem pelos bairros e a pluralidade do Rio de Janeiro e terá lançamento social na estação central do metrô. in: Heloísa Tolipan Site, 28.1.2016. Disponível no link. (acessado em 27.3.2016).
LOPES, Carlos Herculano. É preciso mergulhar nas ruas. (resenha). in: Estado de Minas, Disponível no link. (acessado em 27.3.2016).
RUBEM. Marcelo Moutinho e a cidade que se vai. in: Rubem - Revista de crônica, 18 agosto de 2015. Disponível no link. (acessado em 27.3.2016).
:: Outras resenhas e artigos: acesse o link. (acessado em 28.3.2016).


Marcelo Moutinho - foto: Claudia Dantas

"Ao reviver a experiência, percebi que escutar um LP na vitrola não tem nada a ver com ouvir um CD. Não falo da nostalgia do chiado que arranha (e humaniza) o som pré digital, da variação de timbres. É uma questão de tempo mesmo. Há o ritual de se tirar o LP da capa, do plástico que o recobre, colocá-lo no aparelho, trazer com cuidado a paleta da agulha até o ponto certo, para que a música enfim comece." 
— Marcelo Moutinho, na crônica “Long plays”, publicada na revista “Vida breve”, em 6.9.2014.


"Um tanto redutor, sei disso, mas penso que o mundo se divide entre pessoas que pedem chope com colarinho ou sem colarinho. Os adeptos do colarinho valorizam a qualidade em detrimento da quantidade, como naquele velho e safadinho ditado que fala que o que importa não é o tamanho, mas o prazer que proporciona. Já a turma do sem colarinho quer saber é de otimizar a capacidade da tulipa. Abre mão da espuma para que caiba mais líquido no copo." 
— Marcelo Moutinho, na crônica “Com ou sem colarinho?”. publicada na revista “Vida Breve”, em 4.10.2014.

Marcelo Moutinho - foto: Claudia Dantas
CONTOS E CRÔNICAS ESCOLHIDAS DO ESCRITOR MARCELO MOUTINHO

Ai de mim, Copacabana
1. Ai de mim, Copacabana, já passada a véspera do teu dia, inabalado mesmo após a crônica do Rubem, porque não te abalas com prenúncios de literatura, posto que a riqueza de teus poemas se esconde em versos pobres como os que rimam miss e meretriz.

2. Ai de mim, Copacabana, que no seio da noite continuas a dar risadas ébrias, enquanto os bêbados moribundos do amor te pisam distraidamente, dançando pelos contornos das pedras portuguesas como se surfassem no concreto.

3. Segues, como o cronista cantou, perdida no meio de tuas iniqüidades, e ainda mais vagabunda e soberana, sob a luz da gargantilha de refletores que te enfeita o pescoço e ilumina os brilhos fugazes das criaturas que só vivem nas brumas da madrugada.

4. São putas, michês, travestis, com perfumes baratos e curvas ruidosas, vendendo sexo e cafuné a quem passa, enquanto o mar respira ofegante, como se também gozasse, soprando um alento ao pecado que grassa em tuas ruas e galerias.

5. Ai de mim, Copacabana, se forem ao chão os grandes edifícios de cimento onde teus filhos parecem dormir de pé, amontoados uns sobre os outros, nas quitinetes que zombam das coberturas da Atlântica, juntando famílias, consultórios, cabeleireiros e sex shops, e escondendo a tua vaidade no fundo das próprias mazelas, no hall dos elevadores, nos quartos dos Severinos e Franciscos e Joões e Antônios que zelam pelas tuas entradas mais secretas.

6. Já cantaste tua última canção e no entanto ela não foi a derradeira, porque nem a rapina de teus mercadores, nem a ostentação dos novos-ricos, nem mesmo a especulação sobre o metro quadrado do teu terreno foram capazes de turvar tua graça rampeira e soberana.

7. Porque és eterna, assim como são eternos os botecos de tuas esquinas, e os inferninhos da Prado Júnior, e os jogos de peteca na areia, e os passeios das senhorinhas pelo calçadão, e os pescadores do Posto Seis, e os aposentados de bermudas no carteado, e as moças besuntadas de óleo sob o sol, e as barracas de feira na Praça dos Paraíbas, e os trovadores com seus violões na busca de um trocado, e os cocôs dos cachorros na Barata Ribeiro, e os casais se amando sob a lua cheia, e os turistas dizendo beautiful, beautiful diante da bunda da mulata.

8. Ai de mim, Copacabana, se não continuarem a ser estas as tuas jóias, este o verniz de tuas unhas, esta a libação de teus perdidos, este o teu corpo maculado e formoso, onde os pobres-diabos se imiscuem à procura de colo, onde o homem-rã toca piano submarino para fantasmas de mulheres silenciosas e verdes, enquanto Iemanjá bebe uma cerveja à espera de barcos e flores.
- Marcelo Moutinho, crônica publicado no Jornal de Brasil/ reproduzida no site do autor

***

Flores de inverno
Na profundeza do inverno, finalmente aprendi que dentro de mim repousava um verão invencível.
- Albert Camus

e então você, ao me ver aqui, sentado sobre a poltrona, nesta sala onde apenas uma luminária faz contraponto à escuridão, repetindo que enfim descobri que embora não tenhamos consciência há uma queda por detrás de todo horizonte, vem e me fala que existem flores que só dão no inverno, e nestes dias que andam um pouco mais frios do que o habitual na indefinição de estações do Rio de Janeiro não é, de jeito algum, um sinal de que também estou invernando, sob a luz esguia da tarde que vem do leste, sob o vento que sopra do mar em direção à terra, um vento estranho ao litoral, fazendo a cidade renegar a sua vocação mais óbvia e nos deixando meio que sem saber o que fazer, se abre aquela garrafa de vinho que ganhou no aniversário e dorme há tanto tempo no armário, se espanta o mofo dos casacos de lã guardados no gavetão, se simplesmente resolve ficar em casa, debaixo do cobertor, sem coragem para enfrentar a brisa gélida que bate no rosto de quem se atreve a passear à beira-mar, com medo do risco de sem querer respingar uma gota que seja da água do mar no nosso rosto, ou nas nossas costas, sobra de uma onda revolta, desenhando espinha abaixo um caminho de geada, ou, ainda, penetrando corpo adentro, a evidenciar que somos como esponjas, absorvendo e eliminando sentimentos e situações e sujeiras, imundícies como aquela que enche os sacos dispostos pelo corredor quando começo a escutar a vizinha do 204 reclamando, "quem é o porco que deixou estes sacos aqui", "só tem animal neste prédio", "síndico de merda", e longe, muito longe de saber, ou de querer saber que os sacos azuis espalhados pelo hall significam tão pouco se ignoramos quem será enfim capaz de lacrar o saco de lixo do mundo; eu a debruçar minha atenção sobre dilemas como esse, sem nenhum traço mínimo de covardia, nenhum soluço trêmulo, nem mesmo uma expressão de culpa, atiçando como quem sacode carne na frente de um bicho faminto, tentando despertar cada lobo que se espreita na imensa matilha do meu corpo de homem ainda subindo os degraus da velhice, mas de alguma forma preso a uma tábua de valores e idéias e ruminações que, estabelecida em algum momento, não parece ter mudado, tornando-me um náufrago de saudades indizíveis, um saudoso eterno das agruras do impossível, um insistente pedinte de que o feio se transfigure em beleza, ainda que por um momento breve, para sustentar alguma leveza nesta sala que traz em si todo o peso do excesso, para tentar não submergir neste mundo-gesso com os braços e as pernas sem músculos capazes de agüentar, para tentar tramar planos infalíveis, impraticáveis, chamar com urgência à fala os acenos e as sombras que prometem de novo o que ocorreu, procurando antes efeitos do que causas concretas, e contudo a palavra se negando a pronunciar, e somente as mãos sugerindo o poder mágico de dizer o que no lábio ainda é segredo nesta minha boca cansada de falas, repleta de amarras costuradas pelo tempo com suas agulhas traiçoeiras (você não ouve mais o som rascante das cigarras que como trovoadas anunciam a chuva, embora sem impor autoridade, e os estrondos se revelam efêmeros como em geral os autoritarismos); pois saiba que no sótão do navio incerto da afeição quem invoca sentimentos vis nem por isso estará enterrado para sempre na cova rasa da vilania, mas, de todo modo, "todo dia é um dia roubado da morte", já dizia Clarice, e é melhor, pois, manter a janela entreaberta, a fim de que, pelo espaço dado, assustado, possa assistir a tudo como um menino que vê o sol se afogar no oceano, voyeur de meus pares, deste globo insandecido e imenso, nem que seja tentando encontrar em algum canto, sob um monte de papel, ou um saco de lixo qualquer, um jornal velho, um arbusto, uma colméia, escondidas, espremidas, esquecidas, as tais flores que dão no inverno, pois ainda não as vi, mas sei que existem.
- Marcelo Moutinho, Conto do livro "Memória dos barcos". Rio de Janeiro: 7Letras, 2001.


***

Sexta-feira de cinzas
Entre os velhos gordos travestidos com os vestidos das próprias mulheres, o palhaço errante com a lata de cerveja na mão, a moça que beijava o rapaz de modo tão sôfrego quanto falso, entre as bocas que ali davam o primeiro dos tantos beijos que dariam nos dias que seguiram, entre vendedores de bebidas e salsichões, entre marchinhas desgastadas mas sempre novas e sambas e batuques e tamborins desafinados de tamanha animação, entre a alegria exasperada daquela pequena multidão de pobres-diabos na sacrossanta missão de ser feliz a fórceps, estava eu.

E minha missão, após desistir do sono cedo, após vestir o jeans e a camisa Hering com a frase do Sartre, era apenas mendigar um pouco do que sobrava sobre o chão cinzento da Cinelândia, a praça tomada por sorrisos, os brancos dos dentes contrastando com as fagulhas esparsas dos paetês, a luz fugidia batendo nas roupas baratas compradas no Saara, sobre chapéus, máscaras, narizes, brincos, panos, anéis, pessoas em suas dores domadas. Queria as moedas que eles guardavam nos bolsos. Queria o seu ouro.

Pois ali, em frente ao coreto repleto de senhores de terno e gravata segurando como podem seus cachês de uma vez ao ano, eu era apenas um confete atemporão, o confete molhado do depois, largado num canto do piso que não chegou a secar de todo apesar do sol incipiente de uma manhã da quarta-feira de cinzas qualquer; abandonado após o vôo sublime e ligeiro do saco plástico ao ar, do ar ao rosto do folião suado e de sua pele molhada enfim ao chão. O confete da quarta quando ainda era sexta e o carnaval sequer começara, embora as pessoas transpirassem expectativas.

A pequena multidão e eu, que não fazia parte dela. Éramos dois entes, radicalmente opostos, yin yang, homem mulher, dia noite, glória fracasso. Ela, ritmo; eu, melodia. Bebia do ouro que me sobrava caindo dos bolsos alheios para ganhar forças e procurar, esticando os olhos através de toda a gente, as formas curvas de uma borboleta branca. Encontrá-la: para isso levantei-me da cama, vesti a calça jeans, a camisa Hering com a frase do Sartre e peguei o Metrô. Na praça, meu olhar atravessava a multidão em linhas sinuosas, tentando precisar o desenho da tal borboleta, como se eu pudesse, munido de uma daquelas tesourinhas sem ponta que fingem não machucar a infância, recortá-la com precisão em meio ao caos consentido.

Procurei entre o casal que se lambia, encostado na pilastra. Procurei debaixo do coreto e no oco da corneta do músico de cabelos grisalhos. Cutuquei entre as latas de cerveja recolhidas para reciclagem. Dentro da cartola do garoto vestido de mágico. Investiguei as saias vermelhas das meninas que se queriam ciganas, sob a peruca de palhaço de cabelos verdes. Tentei achá-la na entrada da igreja evangélica voltada para a praça, no banheiro do bar onde os bêbados brindavam a qualquer coisa. Conferi ainda os colares de conchas de uma baiana, o cocar colorido de um índio americano, a vassoura de uma bruxa.

Ela, contudo, não estava. Talvez num próximo bloco, numa próxima festa, num próximo baile, num outro dia de marchinhas, de sambas, serpentinas, confetes, de velhos gordos travestidos com os vestidos das próprias mulheres, de coretos e sorrisos desalinhados, de beijos e trepadas rápidas, bate-bolas e odaliscas, de bebidas e salsichões, de brilhos fugazes roubados do cotidiano, de algazarra e alegrias compulsórias como a casa própria.

Continuaria procurando. A borboleta branca que um dia pousou em meu ombro e se foi, antes que pudesse amá-la. A borboleta que, jurei a mim mesmo, viveria mais do que um dia, contrariando as leis naturais da espécie. A borboleta que batia suas asas delicadamente dentro de mim enquanto permaneci ali na Cinelândia, vestindo apenas minha calça jeans e a camisa Hering com a frase do Sartre, ainda assim fantasiado.
- Marcelo Moutinho, Conto do livro "Somos todos iguais nessa noite". Rio de Janeiro: Editora Rocco, 2006.



Marcelo Moutinho - foto: Arquivo do autor
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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Marcelo Moutinho - travessias cariocas. Templo Cultural Delfos, março/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 28.3.2016.



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