Darcy Ribeiro - discurso de posse na Academia Brasileira de Letras (ABL)

Darcy Ribeiro (foto: Branco Maria de Paula)
Meus nobres pares, aqui estou, cumprindo o velho, sábio, rito acadêmico de incorporar-me à nossa Casa, recordando aqueles que me antecederam na Cadeira 11.

Confesso que me dá certo tremor d’alma o pensamento inevitável de que, com uns meses, uns anos mais, algum sucessor meu, também vergando nossa veste talar, aqui estará, hirto, no cumprimento do mesmo rito para me recordar. Vendo projetivamente a fila infindável deles, que se sucederão, me louvando, até o fim do mundo, antecipo aqui meu agradecimento a todos. Muito obrigado.

Estou certo de que alguém, neste resto de século, falará de mim, lendo uma página, página e meia. Os seguintes menos e menos. Só espero que nenhum falte ao sacro dever de enunciar meu nome. Nisto consistirá minha imortalidade.
 
* * *
 
Não resisto à tentação de contar um sonho que sonhei há dias sobre minha posse na Academia. No sonho, éramos três os acadêmicos a empossar, eu mesmo, Santiago Dantas e Victor Nunes Leal. Não sei por que precisamente eles. Seriam, sem dúvida, boa companhia.

Juntos, vestindo túnicas gregas de colorido tailandês, admirávamos, guiados por Santiago, a beleza do edifício catedrático da Academia, encimado por estátuas de Aleijadinho. Lá estavam, eu vi, um Isaías de barbas encaracoladas, que iam até os joelhos, e um esplêndido Daniel andrógino.

Erramos de corredor e fomos dar num salão em que se comemorava o centenário dos Correios e Anísio Teixeira – que nessa altura entra no sonho – teve que discursar sobre o prodígio de levar uma carta a qualquer lugar do mundo.

Saindo dali, entramos, por fim, no edifício de minha Academia onírica, através de um extenso corredor, que ligava umas grandes portas, todas trancadas. Fomos dar, então, num pátio empedrado, onde uma precaríssima escada de madeira dava acesso ao Salão Nobre. Santiago e Victor passaram. Eu fiquei entalado num sino enorme de bronze, ao qual não poderia me agarrar, porque era liso e escorregadio demais. Acordei apavorado de medo daquele sinão badalar.

Que significa isto? Sei lá... Sei apenas que reflete meu enorme apreço por nossa Academia.
 
* * *
 
Meditei nesses meses de espera da glória acadêmica, buscando o que dizer aqui, agora.

Queria alguma coisa definitória que me unisse à Comunidade em que hoje me integro, dos acadêmicos presentes, dos acadêmicos de ontem, dos acadêmicos de amanhã.

Só achei de assinalável o fato notório de que somos todos intelectuais brasileiros. Vale dizer, expressões mais ou menos lúcidas do saber culto de nosso povo.Parcela da inteligência, fiel e genuína, de que o Brasil dispõe para entender como viemos a ser o que somos e, sobretudo, para iluminar nossos caminhos futuros. Este componente de lucidez é, provavelmente, o que mais nos falta para deixarmos de ser o resultado residual da História, para sermos fruto e produto do nosso próprio projeto de Nação e de Civilização.

O Brasil surge e se edifica a si mesmo, não em razão dos desígnios dos seus colonizadores. Eles só nos queriam como feitoria lucrativa. Contrariando suas expectativas, nos erguemos, imprudentes, inesperadamente, como um novo povo, distinto de quantos haja, deles inclusive, na busca de nosso ser e de nosso destino.

Somos um rebento mutante, ultramarino, da Civilização Ocidental Europeia, na sua versão ibero-americana. Produto da expansão europeia sobre as Américas, que, destruindo milhares de povos, modelou com o que restou deles uns poucos novos povos, uniformemente refeitos. Todos configurados como extensões da metrópole que regeu a colonização, impondo sua língua e suas singularidades.

Com efeito, uns quantos soldados latinos e suas cinquenta gerações de filhos, transfigurando-se, sucessivamente, ao longo de mil e quinhentos anos, debaixo de toda sorte de opressões e padecimentos, plasmaram a forma lusitana. Saltando o mar-oceano, há quinhentos anos, aquela Lusitânia prístina veio ter aqui, para cumprir, em nós, seu destino mais alto: fazer Brasil.

A Europa não conseguiu fazer o mesmo no Oriente, cujas populações, muito mais densas, absorveram o assalto, conservando sua própria cara. Também não na África, que constituiu, por séculos, mera reserva de mão-de-obra de que os europeus tiraram mais de cem milhões de escravos, enquanto o músculo humano foi a fonte energética principal do sistema produtivo. Quando o trabalho manual obsolesceu, a África tinha mantido sua tribalidade, desde a qual se esforça, hoje, para compor suas próprias imagens étnicas.

Nas Américas, não houve nunca possibilidade nenhuma de que os povos avassalados mantivessem sua identidade. Primeiro, os índios que aqui estavam; depois, os negros para cá trazidos, e também os brancos e até os orientais, foram todos radicalmente transfigurados. Isso se operou com tamanha brutalidade, que desfez, étnica e culturalmente, quantos foram engajados no processo, para de todos fazer neoeuropeus genéricos, mais homogêneos que qualquer dos povos propriamente europeus. Tanto é assim que os países europeus guardam mais idiomas e variantes dialetais nas falas de seus povos que nós americanos.

Somos, pois, inelutavelmente, uma criatura mais da civilização ocidental, condenada a expressar-se dentro dos seus quadros culturais. Uma romanidade tardia, tropical e mestiça. Uma nova Roma, melhor, porque racialmente lavada em sangue índio, em sangue negro. Culturalmente plasmada pela fusão do saber e das emoções de nossas três matrizes; iluminada pela experiência milenar dos índios para a vida no trópico, espiritualizada pelo senso musical e pela religiosidade do negro. Deste caldeamento carnal e espiritual, surgimos nós, os brasileiros.

Somos, apesar de toda essa romanidade, um povo novo, vale dizer um gênero singular de gente marcada por nossas matrizes, mas diferente de todas, sem caminho de retorno a qualquer delas. Esta singularidade nos condena a nos inventarmos a nós mesmos, uma vez que já não somos indígenas, nem transplantes ultramarinos de Portugal ou da África.

Somos os portadores da destinação que, forçados pela História, nossos pais se deram, a seu gosto ou a seu pesar, de plasmar este novo gênero humano, o brasileiro; com vocação mais humana, porque feito de mais humanidades e porque engendrado de forma mais sofrida. Um povo em que ninguém está enfastiado, nem tedioso; o que todos aspiram é fartura e alegria.

Somos os herdeiros de uma imensa, imensamente bela, imensamente rica, província da Terra que, lamentavelmente, mais temos malgastado que fecundado. Tamanho foi o desgaste que, hoje, tarefa maior é salvar toda a beleza prodigiosa da natureza que conseguiu sobreviver à nossa ação predatória. É fixar as diretrizes para uma convivência melhor com as terras, as matas, os campos, as águas e toda a diversidade quase infinita de formas de vida que nelas ainda vicejam.

Maior ainda foi o desgaste humano. O Brasil tem sido, ao longo dos séculos, um terrível moinho de gastar gentes, ainda que também um prodigioso criatório. Nele se gastaram milhões de índios, milhões de africanos e milhões de europeus. Nascemos de seu desfazimento, refazimento e multiplicação pela mestiçagem. Foi desindianizando o índio, desafricanizando o negro, deseuropeizando o europeu e fundindo suas heranças culturais que nos fizemos.

Somos, em consequência, um povo síntese, mestiço na carne e na alma, orgulhoso de si mesmo, porque entre nós a mestiçagem jamais foi crime ou pecado. Um povo sem peias que nos atem a qualquer servidão, desafiado a florescer, finalmente, como uma civilização nova, autônoma e melhor.

Falo de civilização autônoma, sem nenhuma pretensão de poderio autárquico. Bem sei que este é um mundo só, de nações interdependentes. Mas sei, também, que as há autônomas, como também as há dependentes. Nós, brasileiros, bem podemos optar pela autonomia e pela singularidade, em razão de nossa dimensão continental e da condição de maior das províncias neolatinas. Mas, também, com base na democracia racial que estamos desafiados a construir como um povo confluente de todas as raças. E com base, sobretudo, na aspiração nacional de criar uma sociedade solidária, inspirada na propensão indígena para o convívio cordial e para a reciprocidade.

O fato incontestável é que nos cabe neste mundo um espaço de existência e de influência, que
estamos chamados a assumir, juntamente com alguns outros povos, também dotados para a grandeza e para a felicidade. Faz falta ao mundo um Brasil realizado em suas potencialidades de civilização tropical, mestiça e solidária, que não pede nada a ninguém, mas muito pode dar. Temos tudo para isso.

Somos uma nação etnicamente unificada e coesa, sem qualquer contingente oprimido a disputar autodeterminação. É verdade que uns quantos povos indígenas, para nossa vergonha, ainda estão reclamando a propriedade dos territórios em que viveram desde sempre e o direito de continuarem vivendo dentro de sua própria Cultura. Eles são tão poucos, e o que pedem é tão insignificante, que a dignidade nacional não há de negar-lhes. Isso seria fatal, hoje, já não para o nosso destino, mas para a nossa honra.

Nossa matriz africana é a mais abrasileirada delas. Já na primeira geração, o negro, nascido aqui, é um brasileiro. O era antes mesmo do brasileiro existir, reconhecido e assumido como tal. O era, porque só aqui ele saberia viver, falando como sua a língua do amo. Língua que não só difundiu e fixou nas áreas onde mais se concentrou, mas amoldou; fazendo do idioma do Brasil um Português falado por bocas negras, o que se constata ouvindo o sotaque de Lisboa e o de Luanda.

É de assinalar que estes nossos patrícios negros enfrentaram, e ainda enfrentam, o drama de sua penosa ascensão de escravo a assalariado e a cidadão, debaixo da dureza do preconceito racial. Menos virulento que o de outras partes, mas, aqui também, discriminatório e perverso. Ainda assim, é do contingente negro, como do índio, que nos vem a singularidade cultural que tenhamos. É, também, do negro nossa criatividade mais assinalável, que se expressa, por exemplo, no Carnaval carioca e no culto a Iemanjá.

Somos, hoje, uma nação de cento e cinquenta milhões de pessoas, falando a mesma língua, a todos inteligível – sem dialetos e nem mesmo sotaques dissonantes. Imersos, todos, numa mesma cultura, fiéis a seus valores maiores. A partir destas bases é que ingressaremos na nova civilização, fundada no desenvolvimento científico e tecnológico, que teremos de dominar para não perecer.

Quando alcançados, há dois séculos, pela Revolução Industrial, incapazes que fomos de nos incorporar autonomamente a ela por um salto evolutivo, nos deixamos avassalar, como consumidores de seus produtos. Reiteramos, assim, já independentes, o mesmo papel colonial, subalterno, de servidores do mercado mundial. Urge vencer esse desafio que a História novamente nos propõe, para sermos, afinal, a civilização inigualável que podemos ser.

Este repto civilizacional desafia nossos estadistas a formular um projeto nacional de desenvolvimento para nos livrar do que seria uma nova condenação ao atraso. O mesmo repto se coloca, também, a nossos educadores, chamados, por sua vez, a unir seus esforços para superar o precaríssimo sistema educacional que temos, a começar pela escolarização de todas as crianças, a fim de estancar a produção de mais analfabetos.

Darcy Ribeiro (foto: acervo JB)
Estes são alguns dos requisitos indispensáveis para que o Brasil, afinal, dê certo. Muito é o que
fizemos até agora em nossa autoedificação. De fato, fizemos tudo que se requeria para sermos um povo-nação, em si. Muito mais, porém, é o que cumpre fazer para que, afinal, os brasileiros alcancem a condição de povo para si, a fim de que o esforço ingente, de cinco séculos de trabalho e sofrimento, resulte numa sociedade livre, soberana, feliz e próspera.

Isto somos, isto seremos, senhores acadêmicos, um povo laborioso e criativo, animado pela mais vivaz vontade de fartura, de alegria, de beleza e de felicidade. Um povo só, uma Nação coesa, um país continental, que se quer digno de seu passado de dores e sacrifícios, mas se volta é para a construção do futuro.

O Brasil é nossa causa. Nossa tarefa. Nossa missão. Não precisamente nossa, de nós mesmos, provectos acadêmicos, mas dos brasileiros todos e, como tal, também nossa. Ouçamos o poeta:
 
Havemos de amanhecer. O mundo
se tinge com as tintas da antemanhã,
E o sangue que escorre é doce, de tão necessário
Para colorir tuas pálidas faces, aurora.
 
* * *
 
Senhoras, senhores,
 
vamos, agora, finalmente, à recapitulação de nossos ancestrais acadêmicos. O Patrono desta Cadeira 11, de que hoje me aposso – graças ao voto generoso de meus confrades – é o poeta fluminense Luís Nicolau Fagundes Varela. Homem afoito e atônito, marcado pelo destino, gasta-se na exaltação byroniana de nossos jovens poetas mortos. Entrega-se à boemia da ceia bem regada, das serenatas noite adentro, dizendo versos tristes na alegria das festas. Morre aos 34 anos e deixa, ainda assim, obra assinalável, como um de nossos poetas românticos.

A imagem que se guarda de Varela é a de um intelectual dado a grandes gestos vãos, lírico, sentimental e sofredor. Golpeado pelo destino – órfão de seu filho morto; viúvo da linda artista de circo com quem se casou, estudante ainda, antes dos vinte anos, e que o abandonou – entrega-se à esbórnia e afunda no culto da tristeza.

Seus versos espelham tantos infortúnios. Seu poema maior, aquele que o fará para sempre lembrado, é o “Cântico do Calvário”. Surge, como toda uma novidade. Escrito em versos brancos, liberta nossa poesia da servidão à rima. Arma a Poesia Vernácula com uma alta, sentida, elegia à memória de seu filho morto com três meses:
 
Eras na vida a pomba predileta
Que sobre um mar de angústias conduzia
O ramo da esperança. Eras a estrela
Que entre as névoas do inverno cintilava
Apontando o caminho ao pegureiro.
Eras a messe de um dourado estio.
Eras o idílio de um amor sublime.
Eras a glória, a inspiração, a pátria,
O porvir de teu pai! – Ah! no entanto,
Pomba, – varou-te a flecha do destino!
Astro, – enguliu-te o temporal do norte!
Teto, – caíste! – Crença, já não vives!
 
Quero ler, aqui, um verso mais de Varela, para fazer presente seu romantismo boêmio, bem versejado:
 
Mais vinho! Oh! Filtro mago.
Só tu podes no mundo
Mudar os giros do destino vago
E fazer do martírio um doce afago
De uma taça no fundo!
 
Varela também verseja seu gosto pela vida campestre a que se entrega, gozosamente, passeando de fazenda a fazenda para participar da vida rural festiva do antigo Rio de Janeiro. Outros temas de nosso poeta foram sua religiosidade, seu pendor libertário e seu fervor patriótico. Um traço que ressalta precioso para mim é seu interesse pioneiro pelo drama escravo, que seria o principal tema poético da geração que o sucedeu. Principalmente de nosso poeta maior, Castro Alves, que, aliás, confessa ter sido influenciado pelos versos de Varela.

Permitiam-me um verso mais de nosso patrono, em que ele destila a vil tristeza em que viveu:
 
Tornei-me um eco das tristezas todas
Que entre os homens achei! O lago escuro
Onde ao clarão dos fogos da tormenta
Movem-se as larvas fúnebres do estrago!
Por toda a parte onde arrastei meu manto
Deixei um traço fundo de agonias.
 
Confesso, aqui, que se a escolha fosse minha, eu teria escolhido Fagundes Varela para patrono de nossa Cadeira 11. Como Varela, tive, juvenil, meus pendores suicidas; salvou-me o gosto de viver, tirando da vida o sumo que ela pode dar: doce ou amargo. Como Varela, sou andarilho e gosto do mato. Como Varela, também sou homem de devoções patrióticas e libertárias. A identificação prossegue, tanto é assim que dei, ultimamente, de versejar, eu também, uns toscos versos. Nunca tive, pobre de mim, foi o talento de Varela para a boemia.
 
* * *
 
Lúcio Drummond Furtado de Mendonça, Fundador da Cadeira 11, tinha todas as qualidades de um intelectual academizável. Era poeta e romancista e jornalista e professor, deputado e advogado que chegou a ministro da Suprema Corte. Era, inclusive, orador tonitruante, livre pensador professo e socialista.

Lúcio foi, também, poeta tristíssimo, como era de uso e se comprova nesses versos melancólicos:
 
À terra morta, num inverno inteiro
Voltam a primavera e as andorinhas
E nunca mais vireis, ó crenças minhas
Nunca mais voltarás, amor primeiro.
 
Mas Lúcio se dava, também, a arroubos cívicos e gostava de profligar. Bom exemplo de sua vergasta é o poema “A morte do Czar”:
 
Graças! Louvado seja o braço niilista
Que acertou, afinal!
Matou-se a velha fera, o abutre da conquista
O urso imperial.
 
Não podemos esquecer que nosso Lúcio cometeu um romance, escrito em forma de cartas a um jornal. Com ele, se fez precursor do gênero Nelson Rodrigues, propondo ao leitor um tema ético, visivelmente esdrúxulo, o das culpas do marido da mulher adúltera.

A qualidade maior de Lúcio, para meu gosto, é a de repúblico, combativo, sempre pronto a lançar-se contra o arbítrio imperial e contra o Clericalismo. Seu mérito reconhecido é o de principal companheiro de Machado de Assis e de Joaquim Nabuco na luta pela criação de nossa Academia Brasileira de Letras. Há quem diga até que, sem ele, nossa Casa não teria havido quando houve.
 
* * *
 
Sucede a Lúcio, outro magistrado: Pedro Augusto Carneiro Lessa. Também ministro do Supremo Tribunal Federal, além de professor notável, de parlamentar eminente e de ministro de Estado. Seu nome se guarda e se cultua como um de nossos maiores jurisconsultos, banhado em águas filosóficas e sociológicas.

Cultor e professor de Filosofia de Direito, Lessa encarnou, como poucos, a erudição, enxameando suas falas e seus escritos com os nomes dos principais pensadores do passado e do presente. Filiava-se ao evolucionismo spenceriano, mas rendia culto ao Positivismo, tanto na versão de Comte, quanto na de Littré.

Lessa correu enorme risco de cair nessa erudição vã e vadia, que constitui a principal enfermidade do espírito: aquela que converte todo o saber em fruição estética de obras alheias, sem olhos para a realidade circundante como fonte de conhecimento. Salvou-se, Lessa, deste pecado, graças à sua aguda noção de tema e de problema, objetivado no Direito, que ele cultivava como disciplina acadêmica e como prática na jurisprudência.

Impulsivo, estava sempre pronto a polemizar, lançando-se contra tudo que lhe parecesse erro ou injustiça. Com os anos, Lessa foi se fazendo mais moderado e mais conservador. Converteu-se, por fim, na voz mais eloquente na defesa da ordem e da legalidade.

Em sua liderança das campanhas patrióticas da Liga de Defesa Nacional, prega, com toda a eloquência de que era capaz, o quietismo, fundado nas velhas virtudes patrióticas da cordura, da desambição e da laboriosidade, como solução para todos os males do Brasil. São exemplares alguns dos seus xingamentos, eivados de emotividade incontida, contra todas as formas de demagogia e, até mesmo, contra qualquer veleidade de mudança institucional.

Adelmar Tavares retrata Lessa, acadêmico, como um homem alto, forte, de cabeça branca, encimando um busto de atleta, os olhos vivos, luzindo atrás de vidros de grau. Esta, a bela figura que por muitos anos foi, nesta Casa, a voz da reflexão filosófica e do fervor patriótico.
 
***
 
Eduardo Ramos, parlamentar baiano de elegância exemplar, poderia ter sido o titular seguinte da Cadeira 11, se não houvesse morrido antes da posse. Ainda assim, estamos na obrigação de declinar seu nome. Eduardo foi eleito e cabe, portanto, trazer à Casa alguma recordação dele.

Quem melhor retratou a vivacidade e o espírito irônico de Eduardo foi seu amigo Rui Barbosa. Leiamos:  

Ninguém entre nós, nos nossos dias, meneou melhor os segredos da ironia, ninguém lhe deu mais lustre às elegâncias, ninguém lhe rendilhou com mais engenho a graça, ninguém teve mão mais hábil em aligeirar o epigrama e polir a alusão, em acerar o remoque, em centelhar o chiste, em despedir o sarcasmo, em jogar todas essas armas sutis da malícia e do paradoxo, da originalidade e do asteísmo.

O próprio Eduardo, assumidamente satírico, se divertia rindo de si mesmo. Glosando certa vez a um crítico, escreveu bem-humorado: “Este consumou meu desbarato, com uma mestria de fundibulário bíblico. Matou-me. Sucumbi de febre poética por embolia dos pronomes enclyticos mal localizados...” Comenta, com o mesmo humor sardônico, sua inclusão na comitiva oficial que acompanhou o Presidente Campos Salles em sua visita a Buenos Aires: “[...] E, por fim, eu. Eu, cuja presença naquela aprimorada companhia só se explicava pela perícia dos meus alfaiates! [...] Era preciso alguém que se vestisse corretamente, à inglesa, como então me entrajava [...] E fui incorporado à comitiva [...].”

Eduardo me é particularmente simpático pela luta que travou, em princípio do século, pela criação de uma universidade. Eu, que sou do ramo, posso avaliar sua indignação contra a intelectualidade do seu tempo, fortemente influenciada pelos positivistas, que se opunham à criação, tardia, do que seria a primeira universidade brasileira. Ela só foi criada em 1930 e só começou a funcionar, efetivamente, anos depois.

Cumpri o rito e que Eduardo quede tranquilo em sua imortalidade.
 
* * *
 
João Luís Alves, mineiro, graduado na Faculdade de Direito de São Paulo, foi o sucessor transverso de Lessa, porque, como se viu, Eduardo Ramos morreu antes da posse. É descrito por muitos contemporâneos seus como um homem secarrão, carrancudo, protótipo do mineiro enfezado. Não seria tão casmurro, penso eu, porque é tido como o benemérito introdutor do uísque em Belo Horizonte.

Darcy Ribeiro, por Netto
Orgulhava-se de nunca ter escrito um verso, o que o contrastava com os intelectuais de sua geração, todos versejadores incontidos. Inclusive com os acadêmicos, entre os quais não haveria um só seco de águas poéticas. Essa soberba afirmação custou-lhe um pito de Augusto de Lima, que na saudação revelou o fato. Saudação, seu tanto marota, porque Augusto de Lima, escalado para receber o seu querido amigo Eduardo Ramos, aceitou o encargo de saudar o substituto dele. O certo é que se alongou, gostosamente, na recordação do poeta baiano e tratou seu conterrâneo com visível secura.

A fama que deixou João Luís – exceto aquela história do uísque – é de um homem severo, muito ciente de sua importância e zeloso da compostura que a ela correspondia. Fez carreira brilhante. Como professor, foi catedrático de matéria árdua – Direito Administrativo. Como jurisconsulto, chegou à Suprema Corte. Como político, foi senador da República e ministro da Justiça de Artur Bernardes. Coroa sua carreira alcançando, por notoriedade, a eleição para a Cadeira 11.

Traço simpático de nosso confrade era seu cuidado com os trombadinhas de seu tempo. João Luís foi o criador do Juizado de Menores e da primeira cadeia especializada na reeducação de meninos de rua. Certamente, veria com imensa tristeza o pouco êxito de sua iniciativa, se vivesse em nossos dias.

Na roda do tempo que rege nossa Academia, o sucessor do severo mineiro foi um poeta pernambucano alegre e queridíssimo: Adelmar Tavares. Trovador de sua pátria nordestina, algumas de suas composições são cantadas até hoje nas serestas, seus versos são também recordados com apreço. Vejamos uma amostra da poesia de Adelmar:
 
Sinos de Goiânia, que saudade imensa
trazem-me esses sinos no meu coração
Nove igrejas, nove, barulhavam sinos,
da Misericórdia, por defuntos ricos,
o Rosário, pobre, por um preto irmão.
 
E vai adiante o poeta, falando da Igreja do Amparo, da Matriz, da Soledade, dos Martírios e do Carmo. Todas tangendo sinos no seu coração.

Advogado e magistrado notável e muito bem-sucedido, Adelmar me comove, especialmente, por seu horror ao automóvel, de que participo com paixão. Corre no Senado, por iniciativa minha, um projeto de lei que ele louvaria. Peço ali que se declare que as ruas, as praças, as estradas, todas as vias públicas, enfim, pertencem de direito aos pedestres, sendo apenas consentido seu uso por veículos motores, sob duas condições. Primeiro: quem matar um transeunte – e matam-se 50 mil por ano no Brasil, mais que o câncer, o infarto e os derrames, todos juntos – perde a carteira e o carro. Segundo: quem machucar alguém – a maioria das crianças hospitalizadas no Brasil são vítimas do trânsito – e negar socorro, sofrerá as mesmas penas. Isto, mais ou menos, é o que Adelmar queria estatuir nos albores do século, quando o Rio tinha 2 mil e quinhentos veículos.
 
* * *
 
Chegamos, por fim, a meu antecessor heráldico nessa Cadeira 11, o sábio, o médico, o humanista, Deolindo Augusto de Nunes Couto.

Tantos são os títulos de Deolindo, que, se eu me ocupasse em enumerá-los todos, não teria tempo para falar dele. Vejamos alguns: Deolindo foi o neurologista mais ilustre do Brasil e um dos mais reverenciados mundo afora. Foi criador do Instituto de Neurologia e, inclusive, fundador da Academia Brasileira de Neurologia. Além da nossa Academia Brasileira de Letras, Deolindo pertenceu, também, à Academia Nacional de Medicina. Foi Reitor de nossa querida Universidade do Brasil, que os tolos passaram a designar, ultimamente, como Universidade Federal do Rio de Janeiro. Recebeu numerosos títulos de Doutor Honoris Causa de universidades do Brasil e do estrangeiro. Presidiu mais de uma vez o Conselho Nacional de Cultura.

Médico, Deolindo viveu sua vida no ofício de servir, de salvar, de orientar a multidão inumerável de enfermos que, por décadas, acorriam a ele, pedindo socorro.

Cientista, foi um devotado estudioso, atento a quanto progresso sua ciência alcançava, e compartindo seu vasto saber com os colegas, fazendo discípulos, criando escola.

O saber médico de Deolindo foi reiteradamente reconhecido na Academia Nacional de Medicina, que ele tantas vezes presidiu. Sobretudo, na sua criação maior, que é o Instituto de Neurologia, onde ela frutificou belamente.

Humanista, Deolindo foi homem de alta sabedoria de viver e conviver, no culto da erudição e na fruição requintada das Letras. Sobretudo da Literatura Vernácula, que converteu num de seus bens mais caros e frutuosos. Especialmente a vasta obra de Camilo Castelo Branco, de que foi apreciador apaixonado.

Característica assinalável dele foi, também, sua capacidade de fazer amigos e de cultivá-los, fraternalmente, vida afora. Lembro dois amigos comuns; na área médica, a Júlio de Moraes; na órbita literária, a Josué Montello – ambos, como tantos outros, inconsoláveis com sua perda.

Deolindo era um homem alto, belo, que, na expressão encantada de Nélida Piñon, tinha uma forte presença máscula. Voz pausada, tranquila, deixando ver na fala e nos gestos um homem contente de si mesmo. Deolindo se quis pulcro e sábio e o foi, magnificamente.

A pulcritude de Deolindo, visível em sua figura, sempre bem cuidada, se comprova pelo zelo com que levava em suas tantas viagens, pelo estrangeiro, malas cheias de lençóis e toalhas para seu uso exclusivo.

Este é meu elogio de um homem, por muitos títulos admirável, que fez de nossa Academia Brasileira de Letras a Casa de sua devoção literária e cultural. Aqui, por três décadas conviveu gratamente com seus confrades, sempre reverenciado por todos.

É fácil imaginá-lo, sentado onde eu hoje me sento, na nossa sala discreta, lá de cima, nas sessões de após o chá das quintas-feiras, falando de quanta efeméride da civilização brasileira ali se recordava.
 
Senhoras acadêmicas,
Senhores acadêmicos,
Senhoras e senhores,
 
quanto a mim, o que tenho a dizer, confessional, é que sou homem de sorte. A vida me tem fluído leve, até gozosa. As asperezas que às vezes rangeram meus dias – prisão, exílio, dores – foram travessias de águas revoltas. Nelas, naveguei sempre disposto, pondo à prova minha capacidade de conviver comigo. Só, no espaço exíguo da prisão. Só, na imensidão do exílio, sofrendo longe a pátria proibida. Só, afundado na dor e no horror da morte prescrita. Algumas vezes, quase sucumbi. Sempre saí destas angusturas, querendo navegar em novas aventuras: ávido e voraz, animado de expectativas desassombradas, tentando, temerário, mudar o curso das coisas. Não tenho e não mereço fama de modesto, de tímido ou de tíbio. Se peco, é por confiante e afoito.

Minhas características distintivas talvez sejam a contraditória vontade insofreável de compreender e o gosto de fazer, que me converteram em híbrido de intelectual e fazedor. Certa disposição solidária do espírito me fez homem de campanhas e lutas, servo de minhas causas. Um pendor ético e iracundo, encarnado em minha militância política, se expressa na indignação que me mobiliza contra todo atraso e qualquer injustiça que achaque os brasileiros.

A paixão a que mais me dei, sempre com gosto, foi a do estudo e do convívio das gentes. Sobretudo de minhas ínvias gentes índias. Mas também dos brasileiros e dos

latino-americanos. Uma década vivi com os índios, a mais bela de minha vida. Percorro, há meio século, sempre atento, os caminhos e descaminhos de nosso fazimento, querendo mapeá-los. Destas vivências são feitos meus ensaios e meus romances. Milhares de páginas de arguição emocionada.

Não posso é dizer que fui bem-sucedido, senão em medida escassa. Nada do muito que quis, cheguei a alcançar na proporção de minhas esperanças: amores, amizades, devoções, não me sobraram. Antes, me faltaram.

Quanto de amores sobra a alguém?

Sou grato à vida que me deu como bens preciosos a amizade de tantos queridos amigos e o amor de tantas santas mulheres.

Obras, escritos, cargos, fiz, tentei e exerci muitos. Nisto gastei minha vida. Uns poucos deles ficaram com minha marca nos mundos por que passei, enquanto passava: um sambódromo, um parque indígena, museus, muitas bibliotecas, demasiados ensaios, quatro romances, muitíssimas escolas, algumas universidades. Não é pouco, quisera mais. Sempre quero mais. Muito mais.

É verdade que algumas desglórias me caíram em cima, na forma de fracassos, nas lutas que travei, em vão, para salvar os índios, para escolarizar os brasileiros, para reformar o Brasil. Também provei, até carpi, desgostos do não-reconhecimento de méritos meus que guardo no peito e cobro. Alguns desses dissabores me magoaram.
São dores que ainda me doem. Suportáveis, mil vezes pior fora não tê-las sofrido, por não haver optado, nem ousado, nem lutado. Não mereço o inferno dos indiferentes.

Um balanço de vida inteira mostraria que minhas realizações foram parcas. Talvez, porque tentei plantar na Lua muitas lanças demais. Não é demasia para um homem só querer, como quis e quero ainda, ser romancista e antropólogo e educador e político e fazedor e até revolucionário? Se me ativesse a um campo só, teria talvez feito alguma maravilha. Disperso entre tantas devoções, não servi bem a nenhuma delas. Relevem este pecado, que eu pecaria outra vez. Variei tanto de temas, foi obedecendo a mandos de meu coração. Afinal, a vida não é missão, é também fruição.

Não que me queixe. Tive os carinhos, as glórias, os gozos de que necessitava em minha carência professa de ternura, de amor e de reconhecimento. Também tive as alegrias de criar e de fruir para aplacar minha insaciável vontade de saber e de beleza. Tudo somado é mais do que mereço, diria, se fosse modesto. Não digo, não. Espero, no fundo do peito, fazer e fruir coisas maiores e melhores.

A lição mais clara que tiro de minha vida de lutas é que, aparentemente generoso e altruísta, na verdade, fui e sou um egoísta. Delas é que me vieram os louvores e gratidões que mais me esquentaram o coração. Delas, principalmente, é que vem o decoro e a dignidade que minha vida tenha. Sou o beneficiário verdadeiro de minha benemerência. A vida me deu muito. Graças, têm valido as penas.

Hoje, aqui me tenho contente, frente a meus pares, neste alto pouso acadêmico. Nunca supus que o alcançasse. Temendo o contrário, o desmerecia, invejoso. Me veio, porém, na hora certa dessa velhice em que ingresso, inda não trôpego, para consolar-me dela. Juntos, aqui viveremos, como a aspirada imortalidade, nossos aos conclusivos. Convivendo cordiais naquilo que somos: uma amostra fiel da inteligência brasileira, tão variada como ela mesma. Isto é tudo. Muito Obrigado.

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* Fonte: ABL

Darcy Ribeiro (foto: acervo Fundar)

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Página  atualizada em 14.3.2016.



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