Heinrich Heine - poemas (bilíngue)

Heinrich Heine by Moritz Daniel Oppenheim (1831)
"Onde livros são queimados, seres humanos estão destinados a serem queimados também."
- Heinrich Heine 

Heinrich Heine – poeta, escritor, jornalista e pensador (nascido Harry, em 1797; batizado Heinrich, em 1825; falecido Henri, em 1856) – foi uma das personalidades mais fascinantes e contraditórias do século XIX. Aluno do crítico, tradutor e teórico da literatura August von Schlegel, do linguista e sanscritólogo Franz Bopp e do filósofo Georg Hegel, ascendeu dos salões literários de Berlim à efervescente metrópole parisiense – onde conviveu com Balzac, Alexandre Dumas, Chopin, George Sand, Berlioz, barão de Rothschild, Théophile Gautier, Franz Liszt, Gérard de Nerval, entre outros – para se tornar o primeiro artista e intelectual judeu-alemão de ampla repercussão internacional. Influenciou tanto Karl Marx, de quem foi grande amigo, quanto Friedrich Nietzsche e Sigmund Freud, para ficarmos apenas entre os baluartes da Modernidade, palavra que, por sinal, ele próprio introduziu no vocabulário, num de seus caleidoscópicos Quadros de viagem que lhe catapultaram para a fama em meados da década de 1820. Em 1827, publicou uma das mais bem-sucedidas coletâneas de poesia do Ocidente, o Livro das canções, fonte inesgotável para os compositores – Schubert, Schumann, Brahms, Hugo Wolf, Grieg, entre tantos outros – que o fizeram um dos poetas mais musicados da história: somente o poema “Tu és como uma flor” recebeu 451 melodias diferentes! Radicando-se em Paris, em 1831, assumiu o papel de mediador entre as culturas alemã e a francesa. Em artigos de jornal – onde narrava os acontecimentos da política, arte e vida social parisiense para o público alemão – fez observações pioneiras sobre religião e dança, entre outros assuntos. Aos franceses dirigiu instigantes e divertidíssimos ensaios sobre as correntes religiosas, filosóficas e literárias da Alemanha Foi um defensor apaixonado dos ideais da Revolução Francesa, crítico implacável da hipocrisia moral e inimigo feroz do nacionalismo germânico, cujos frutos mais terríveis ele profetizou com um século de antecedência: “um drama há de ser encenado na Alemanha que fará a Revolução Francesa parecer um idílio inofensivo”. Em 1848, a doença – que julgava ser a sífilis – o fez passar os oito anos seguintes entrevado numa “cripta de colchões”, trabalhando incansavelmente, sob doses cada vez mais altas de morfina. Ainda arranjou forças, nos últimos meses de vida, para um affaire platônico com uma jovem e misteriosa visitante que ele apelidou de Mouche (Mosca), e a quem endereçou seus últimos poemas. Faleceu em 1856, sendo sepultado no cemitério de Montmartre. 
:: Fonte: VALLIAS, André. Nota Biográfica sobre Heinrich Heine. in:  Heine, hein? – Poeta dos contrários, [introdução e tradução André Vallias]. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011.



OBRAS DE HEINRICH HEINE PUBLICADAS NO BRASIL
:: Livro das canções. Heinrich Heine. [vários tradutores*; seleção e notas de Jamil Almansur Haddad; prefácio Max Aub]. São Paulo: Livraria Exposição do Livro, (década 1940?). reedição. São Paulo: Editora Hemus, 2008, 160p.
:: Prosa política e filosófica de Heinrich Heine. [seleção e introdução Otto Maria Carpeaux; tradução de Eurico Remer e Maura R. Sardinha]. São Paulo: Civilização Brasileira, 1967.
:: Memórias e Confissões de Heinrich Heine. [tradução, prefácio e notas críticas Marcelo Backes]. no Prelo. Porto Alegre, L&PM, s/d. 
:: Contribuição a história da religião e filosofia na Alemanha. (Zur Geschichte der Religion und Philosophie in Deutschland) Heinrich Heine.. [estudo Wolfgang Wieland; tradução e notas Márcio Susuki]. São Paulo: Iluminuras, 1991, 150p.
:: Noites florentinas. Heinrich Heine. [tradução, organização, prefácio e notas Marcelo Backes]. Porto Alegre: Editora Mercado Aberto, 1999.
:: Das memórias do senhor de Schnabelewopski. Heinrich Heine.[tradução Marcelo Backes]. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001.
:: Os deuses no exílio (Les Dieux en Exil). Heinrich Heine. [tradução Marcio Suzuki e Marta Kawano]. Coleção Biblioteca Polen. São Paulo: Iluminuras, 2009, 168p. 
:: Heine, hein? – Poeta dos contrários. Heinrich Heine[introdução e tradução André Vallias]. Edição bilíngue. São Paulo: Perspectiva, 2011.
:: Viagem ao Harz. Heinrich Heine. [tradutor Mauricio Mendonça Cardozo]. São Paulo: Editora 34, 2014, 144p. 
(*) Traduções esparsas Heinrich Heine - por Gonçalves Dias, Machado de Assis, Álvares de Azevedo, Lúcio de Mendonça, Geir Campos, Fontoura Xavier, Alphonsus de Guimaraens, Manuel Bandeira, Nelson Ascher, Marco Lucchesi e outros.

Antologia

:: Antologia humanística alemã: o engajamento social na literatura alemã a partir da idade média até a atualidade. (Ein Deutsches Lesebuch).. [seleção e organização Wolfgang R. Langenbucher; comentários Harro Hilzinger; traduções Ari Lazzari, Walter Koch e outros]. Porto Alegre: Globo Editora; Tübingen/Basel, Horst Erdmann Verlag, 1972, 392p.
:: 31 poetas, 214 poemas: do Rigveda e Safo a Apollinaire[tradução, notas e comentários Décio Pignatari]. 2ª ed., Campinas: Editora da Unicamp, 2007.
# Contribuições: Denise Bottmann



Heinrich Heine, 1829
POEMAS DE HEINRICH HEINE - BILÍNGUE 

Sonhei de novo o sonho antigo:
Maio, juras de amor eterno,
Ambos sentados sob a tília
E tendo a noite como abrigo.
E juras a cada momento,
Risinhos, carícias, beijos:
Sem mais, porém, mordeu-me a mão,
Pra me lembrar do juramento.
Ó namorada de olhos claros,
Com seus caninos entre os ais:
Estou de acordo quanto às juras,
Mas a mordida foi demais.
*
Mir träumte wieder der alte Traum:
Es war eine Nacht im Maie,
Wir saßen unter dem Lindenbaum,
Und schwuren uns ewige Treue.
Das war ein Schwören und Schwören aufs neu,
Ein Kichern, ein Kosen, ein Küssen;
Daß ich gedenk des Schwures sei,
Hast du in die Hand mich gebissen.
O Liebchen mit den Äuglein klar!
O Liebchen schön und bissig!
Das Schwören in der Ordnung war,
Das Beißen war überflüssig.
Heinrich Heine "Buch der Lieder - LII". – in: 31 poetas 214 poemas: do Rigveda e Safo a Apollinaire, [tradução, notas e comentários Décio Pignatari], 2ª ed., Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007, p. 223.

§

“Quando eu te desposar...”
Quando eu te desposar, teus dias
Serão dignos de invejas;
Desfrutarás mil alegrias
E ociosidade régia.
Hei de perdoar-te mau humor,
E queixas mas – é claro –
Se não cobrires de louvor
Meu verso, eu me separo.
*
“Und bist du erst mein ehlich Weib…”
Und bist du erst mein ehlich Weib,
Dann bist du zu beneiden,
Dann lebst du in lauter Zeitvertreib,
In lauter Pläsier und Freuden.
Und wenn du schiltst und wenn du tobst,
Ich werd` es geduldig leiden;
Doch wenn du meine Verse nicht lobst,
Laß ich mich von dir scheiden.
Heinrich Heine – in: Poesia Alheia, 124 Poemas traduzidos, [tradução e organização Nelson Ascher]. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1998, p. 274-275.

§

Morfina
É grande a semelhança desses dois
jovens e belos vultos, muito embora
um pareça mais pálido e severo
ou, posso até dizer, bem mais distinto
do que o outro, o que, terno, me abraçava.
Havia em seu sorriso tanto afeto,
carinho e, nos seus olhos,tanta paz!
Ornada de papoulas, sua fronte
tocava a minha, às vezes – e seu raro
odor me dissipava a dor do espírito.
Tal alívio, porém , não dura. Eu só
hei de curar-me inteiramente quando
o irmão severo e pálido abaixar
a sua tocha. – O sono é bom; o sono 
eterno, ainda melhor; mas certamente
o ideal seria nunca ter nascido.
*
Morphine
Groß ist die Ähnlichkeit der beiden schönen
Jünglingsgestalten, ob der eine gleich
Viel blässer als der andre, auch viel strenger,
Fast möcht ich sagen: viel vornehmer aussieht
Als jener andre, welcher mich vertraulich
In seine Arme schloß – Wie lieblich sanft
War dann sein Lächeln und sein Blick wie selig!
Dann mocht es wohl geschehn, daß seines Hauptes
Mohnblumenkranz auch meine Stirn berührte
Und seltsam duftend allen Schmerz verscheuchte
Aus meiner Seel` – Doch solche Linderung,
Sie dauert kurze Zeit; genesen gänzlich
Kann ich nur dann, wenn seine Fackel senkt
Der andre Bruder, der so ernst und bleich. –
Gut ist der Schlaf, der Tod ist besser – freilich
Das beste wäre, nie geboren sein.
Heinrich Heine – in: Poesia Alheia, 124 Poemas traduzidos, [tradução e organização Nelson Ascher]. Rio de Janeiro: Imago Editora, 1998, p. 276-277.

§

Me passa a máscara: vou desfilar
De plebe; a rica escória do salão,
Em paetês e plumas de pavão,
Não há de me tomar por um de lá!
Maus modos e o baixíssimo calão
Me passa, eu vou vestir-me de gentalha!
Renego cada sílaba que saia
Da boca de um janota de plantão.
Assim, eu vou pulando o carnaval
Em meio a reis, valetes e rainhas,
Cumprimentando apenas o arlequim.
E todos seguem me lascando o pau.
Mas só retiro a máscara do rosto,
Quando acabar a farsa de mau gosto.
*
Gib her die Larv, ich will mich jetzt maskieren
In einen Lumpenkerl, damit Halunken,
Die prächtig in Charaktermasken prunken,
Nicht wähnen, Ich sei einer von den Ihren.
Gib her gemeine Worte und Manieren,
Ich zeige mich in Pöbelart versunken,
Verleugne all die schönen Geistesfunken,
Womit jetzt fade Schlingel kokettieren.
So tanz ich auf dem großen Maskenballe,
Umschwärmt von deutschen Rittern, Mönchen, Köngen,
Von Harlekin gegrüßt, erkannt von wengen.
Mit ihrem Holzschwert prügeln sie mich alle.
Das ist der Spaß. Denn wollt ich mich entmummen,
So müßte all das Galgenpack verstummen.
Heinrich Heine (1821) – in: Heine, hein? – Poeta dos contrários, [introdução e tradução André Vallias]. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011, p. 62-63.

§

Esperem só
Só porque arraso quando arrojo
Raios, acham que não sei troar.
Ora, meus senhores, ao contrário:
Na arte do trovão não sou pior!
No devido dia, eu ponho à prova,
Quem duvida agora é só esperar;
O meu peito então vai trovejar,
E trincar os céus, a minha voz!
No fragor daquele furacão,
Os carvalhos secos vão rachar,
Os castelos vão desmoronar,
Velhas catedrais, ruir ao chão!
*
Wartet nur
Weil ich so ganz vorzüglich blitze,
Glaubt ihr, daß ich nicht donnern könnt!
Ihr irrt euch sehr, denn ich besitze
Gleichfalls fürs Donnern ein Talent.
Es wird sich grausenhaft bewähren,
Wenn einst erscheint der rechte Tag;
Dann sollt ihr meine Stimme hören,
Das Donnerwort, den Wetterschlag.
Gar manche Eiche wird zersplittern
An jenem Tag der wilde Sturm,
Gar mancher Palast wird erzittern
Und stürzen mancher Kirchenturm!
Heinrich Heine (1844) – in: Heine, hein? – Poeta dos contrários, [introdução e tradução André Vallias]. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011, p. 252-253.

§

Os tecelões da Silésia
Não há lágrimas em seus olhares;
Rangem dentes diante dos teares:
Alemanha, nós tecemos tua mortalha,
E tramamos nossa tripla maldição –
Nós tecemos e tramamos!
Maldição ao Deus a quem oramos,
Quando a fome e o frio nos maltratam;
Suplicamos de joelhos sua graça,
Ele tripudia e ri da nossa cara –
Nós tecemos e tramamos!
Maldição ao Rei, rei dos ricaços,
Da miséria faz tão pouco caso;
Nos roubou até o último centavo
Para nos lançar nos braços do carrasco –
Nós tecemos e tramamos!
Maldição à Pátria desamada,
Onde o escárnio e a humilhação se alastram;
Onde a flor que flore é logo estraçalhada;
Onde a podridão seus vermes amealha –
Nós tecemos e tramamos!
Voa a lançadeira no tear,
Noite e dia, trabalhamos sem parar –
Alemanha, nós tecemos tua mortalha,
E tramamos nossa tripla maldição,
Nós tecemos e tramamos!
*
Die schlesischen Weber
Im düstern Auge keine Träne, 
Sie sitzen am Webstuhl und fletschen die Zähne: 
Altdeutschland, wir weben dein Leichentuch, 
Wir weben hinein den dreifachen Fluch - 
Wir weben, wir weben!
Ein Fluch dem Gotte, zu dem wir gebeten 
In Winterskälte und Hungersnöten; 
Wir haben vergebens gehofft und geharrt - 
Er hat uns geäfft und gefoppt und genarrt - 
Wir weben, wir weben!
Ein Fluch dem König, dem König der Reichen, 
Den unser Elend nicht konnte erweichen, 
Der den letzten Groschen von uns erpreßt 
Und uns wie die Hunde erschießen läßt - 
Wir weben, wir weben!
Ein Fluch dem falschen Vaterlande, 
Wo nun gedeihen Schmach und Schande, 
Wo jede Blume früh geknickt, 
Wo Fäulnis und Moder den Wurm erquickt - 
Wir weben, wir weben!
Das Schiffchen fliegt, der Webstuhl kracht, 
Wir weben emsig Tag und Nacht - 
Altdeutschland, wir weben dein Leichentuch, 
Wir weben hinein den dreifachen Fluch, 
Wir weben, wir weben!
Heinrich Heine (1844–1845), in: Heine, hein? – Poeta dos contrários, [introdução e tradução André Vallias]. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011, p. 288-289.

§

Não entro nessa dança, não incenso
Os ídolos de ouro e pés de barro;
Tampouco aperto a mão desse masmarro
Que me difama e distribui dissenso.

Não galanteio a linda rapariga
Que ostenta sem pudor suas vergonhas;
Nem acompanho as multidões medonhas
Que adoram seus heróis de meia-figa.

Eu sei: carvalhos têm que desabar,
Enquanto o junco se abaixando espera
Passar o vento forte da intempérie.

Mas do que pode um junco se orgulhar?
Tirar poeira de capacho ao sol,
Curvar-se para a linha de um anzol.
*
Ich tanz nicht mit, ich räuchre nicht den Klötzen,
Die außen goldig sind, inwendig Sand;
Ich schlag nicht ein, reicht mir ein Bub die Hand,
Der heimlich will den Namen mir zerfetzen.

Ich beug mich nicht vor jenen hübschen Metzen,
Die schamlos prunken mit der eignen Schand;
Ich zieh nicht mit, wenn sich der Pöbel spannt
Vor Siegeswagen seiner eiteln Götzen.

Ich weiß es wohl, die Eiche muß erliegen,
Derweil das Rohr am Bach, durch schwankes Biegen,
In Wind und Wetter stehn bleibt, nach wie vor.

Doch sprich, wie weit bringt’s wohl am End’ solch Rohr?
Welch Glück! als ein Spazierstock dient’s dem Stutzer,
Als Kleiderklopfer dient’s dem Stiefelputzer.
Heinrich Heine, in: Heine, hein? – Poeta dos contrários, [introdução e tradução André Vallias]. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011, p. 288-289.

§

Os anjos
Eu, incrédulo Tomé,
Já não creio na doutrina
Que o rabi e o padre ensinam:
Nesse “céu” não levo fé!

Mas nos anjos acredito,
Dou aqui meu testemunho:
Perambulam pelo mundo,
Impolutos e bonitos.

Só refuto essa bobagem
De anjo aparecer de asinha;
Sei de muitos, Senhorinha,
Desprovidos de penagem.

Com carinho e claridade,
De olho atento nos humanos,
Nos protegem, afastando
O infortúnio e a tempestade.

Amizade tão discreta
Reconforta toda gente,
Tanto mais o duplamente
Judiado, que é o poeta.
*
Die engel
Freylich ein ungläub’ger Thomas
Glaub’ ich an den Himmel nicht,
Den die Kirchenlehre Romas
Und Jerusalems verspricht.

Doch die Existenz der Engel,
Die bezweifelte ich nie;
Lichtgeschöpfe sonder Mängel,
Hier auf Erden wandeln sie.

Nur, genäd’ge Frau, die Flügel
Sprech’ ich jenen Wesen ab;
Engel giebt es ohne Flügel,
Wie ich selbst gesehen hab’.

Lieblich mit den weißen Händen,
Lieblich mit dem schönen Blick
Schützen sie den Menschen, wenden
Von ihm ab das Mißgeschick.

Ihre Huld und ihre Gnaden
Trösten jeden, doch zumeist
Ihn, der doppelt qualbeladen,
Ihn, den man den Dichter heißt.
Heinrich Heine – in: Heine, hein? – Poeta dos contrários, [introdução e tradução André Vallias]. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011.

§

Larga as parábolas sagradas,
Deixa as hipóteses devotas,
E põe-te em busca das respostas
Para as questões mais complicadas.

Por que se arrasta miserável
O justo carregando a cruz,
Enquanto, impune, em seu cavalo,
Desfila o ímpio de arcabuz?

De quem é a culpa? Jeová
Talvez não seja assim tão forte?
Ou será Ele o responsável
Por todo o nosso azar e sorte?

E perguntamos o porquê,
Até que súbito – afinal –
Nos calam com a pá de cal –
Isto é resposta que se dê?
*
Laß die heil'gen Parabolen,
Laß die frommen Hypothesen -
Suche die verdammten Fragen
Ohne Umschweif uns zu lösen.

Warum schleppt sich blutend, elend,
Unter Kreuzlast der Gerechte,
Während glücklich als ein Sieger
Trabt auf hohem Roß der Schlechte?

Woran liegt die Schuld? Ist etwa
Unser Herr nicht ganz allmächtig?
Oder treibt er selbst den Unfug?
Ach, das wäre niederträchtig.

Also fragen wir beständig,
Bis man uns mit einer Handvoll
Erde endlich stopft die Mäuler -
Aber ist das eine Antwort?
Heinrich Heine – in: Heine, hein? – Poeta dos contrários, [introdução e tradução André Vallias]. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011.

§

Esses olhos-primavera,
Me fitando azuis na relva
São amáveis violetas
Que escolhi para um buquê.

Vou colhendo enquanto penso:
O que vem ao pensamento
E no coração me dói,
Cantam alto os rouxinóis.

O que eu penso eles cantam
Estridentes – num instante
Minha sina mais secreta
Espalhou-se na floresta.
*
Die blauen Frühlingsaugen
Schau'n aus dem Gras hervor;
Das sind die lieben Veilchen,
Die ich zum Strauß erkor. 

Ich pflücke sie und denke,
Und die Gedanken all,
Die mir im Herzen seufzen,
Singe laut die Nachtigall.

Ja, was ich denke, singt sie
Lautschmetternd, daß es schallt;
Mein zärtliches Geheimnis
Weiß schon der ganze Wald. 
Heinrich Heine – in: Heine, hein? – Poeta dos contrários, [introdução e tradução André Vallias]. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011.

§

Legado
A minha vida chega ao fim,
Escrevo pois meu testamento;
Cristão, eu lego aos inimigos
Dádivas de agradecimento.

Aos meus fiéis opositores
Eu deixo as pragas e doenças,
A minha coleção de dores,
Moléstias e deficiências.

Recebam ainda aquela cólica,
Mordendo feito uma torquês,
Pedras no rim e as hemorroidas,
Que inflamam no final do mês.

As minhas cãimbras e gastrite,
Hérnias de disco e convulsões –
Darei de herança tudo aquilo
Que usufruí em diversões.

Adendo à última vontade:
Que Deus caído em esquecimento
Lembre de vós e vos apague
Toda a memória e sentimento.
*
Vermächtniß
Nun mein Leben geht zu End’,
Mach’ ich auch mein Testament;
Christlich will ich drin bedenken
Meine Feinde mit Geschenken.

Diese würd’gen, tugendfesten
Widersacher sollen erben
All mein Siechthum und Verderben,
Meine sämmtlichen Gebresten.

Ich vermach’ Euch die Coliken,
Die den Bauch wie Zangen zwicken,
Harnbeschwerden, die perfiden
Preußischen Hämorrhoiden.

Meine Krämpfe sollt Ihr haben,
Speichelfluß und Gliederzucken,
Knochendarre in dem Rucken,
Lauter schöne Gottesgaben.

Codizill zu dem Vermächtniß:
In Vergessenheit versenken
Soll der Herr Eu’r Angedenken,
Er vertilge Eu’r Gedächtniß.
Heinrich Heine (1851) – in: Heine, hein? – Poeta dos contrários, [introdução e tradução André Vallias]. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011.

§

Acreditava antigamente
Que todo beijo que me tiram,
Ou que recebo de presente,
Fosse por obra do destino.

Deram-me beijos e beijei,
Antes com tanta seriedade,
Como se obedecesse às leis
Que regem a necessidade.

Agora sei como é supérfluo
E não me faço de rogado,
Vou dando beijos em excesso,
Incrédulo e despreocupado.
*
Ehmals glaubt ich, alle Küsse, 
Die ein Weib uns gibt und nimmt,
Seien uns, durch Schicksalsschlüsse,
Schon urzeitlich vorbestimmt.

Küsse nahm ich, und ich küßte
So mit Ernst in jener Zeit,
Als ob ich erfüllen müßte
Thaten der Notwendigkeit.

Jetzo weiß ich, überflüssig,
Wie so manches, ist der Kuß,
Und mit leichtern Sinnen küß ich,
Glaubenlos im Überfluß.
Heinrich Heine: "Uma gaivota. Poemas, 1830-1839". in: Heine, hein? – Poeta dos contrários, [introdução e tradução André Vallias]. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011.

§

Como rasteja devagar
O tempo, caracol horrendo!
E eu, sem poder mover os membros,
Não saio mais deste lugar.

Na minha cela sempre escura
Não entra sol nem a esperança;
Daqui, em derradeira instância,
Só me liberta a sepultura.

Quem sabe já virei defunto
E esses semblantes em cortejo,
Que à noite desfilando eu vejo,
Não são visitas do outro mundo.

Fantasmas a vagar sem corpo
Ou deuses do templo pagão,
Que adoram fazer confusão
No crânio de um poeta morto. –

A doce festa dos espíritos,
Orgia saturnal e tétrica,
Busca a mão óssea do poeta
Deitar às vezes por escrito.
*
Wie langsam kriechet sie dahin,
Die Zeit, die schauderhafte Schnecke!
Ich aber, ganz bewegungslos
Blieb ich hier auf demselben Flecke.

In meine dunkle Zelle dringt
Kein Sonnenstral, kein Hoffnungsschimmer;
Ich weiß, nur mit der Kirchhofsgruft
Vertausch ich dies fatale Zimmer.

Vielleicht bin ich gestorben längst;
Es sind vielleicht nur Spukgestalten
Die Phantasieen, die des Nachts
Im Hirn den bunten Umzug halten.

Es mögen wohl Gespenster seyn,
Altheidnisch göttlichen Gelichters;
Sie wählen gern zum Tummelplatz
Den Schädel eines todten Dichters. –

Die schaurig süssen Orgia,
Das nächtlich tolle Geistertreiben,
Sucht des Poeten Leichenhand
Manchmal am Morgen aufzuschreiben.
Heinrich Heine (1853-1854)in: Heine, hein? – Poeta dos contrários, [introdução e tradução André Vallias]. São Paulo: Editora Perspectiva, 2011.


FORTUNA CRÍTICA HEINRICH HEINE
CARPEAUX, Otto Maria (direção). "Heinrich Heine". in: História da Literatura Ocidental. vol. I. Editora Cruzeiro, 1960.

Heinrich Heine
"Quando os heróis saem do palco, os palhaços sobem"
- Heinrich Heine


OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: Deutsche Welle/DW - Heinrich Heine 
:: Revista Modo de Usar
:: DICK, André. A modernidade corrosiva de Heine. in: Cronópios, 30/5/2011. Disponível no link. (acessado em 9.1.2016).
:: LUGÃO, Juliana. Heine: moderno, flâneur, tropicalista ou antropofágico?. in: Goethe-Institut Brasilien Novembro de 2011. Disponível no link. (acessado em 9.1.2016).

© A obra de Heinrich Heine é de domínio público

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske em colaboração com José Alexandre da Silva

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** Página atualizada em 9.1.2016.



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