Castro Alves - cenas poéticas

Castro Alves
Castro Alves (Antônio Frederico), nasceu em Muritiba, BA, em 14 de março de 1847, e faleceu em Salvador, BA, em 6 de julho de 1871. É o patrono da cadeira n. 7, por escolha do fundador Valentim Magalhães.
Era filho do médico Antônio José Alves, mais tarde professor na Faculdade de Medicina de Salvador, e de Clélia Brasília da Silva Castro, falecida quando o poeta tinha 12 anos, e, por esta, neto de um dos grandes heróis da Independência da Bahia. Por volta de 1853, ao mudar-se com a família para a capital, estudou no colégio de Abílio César Borges, futuro Barão de Macaúbas, onde foi colega de Rui Barbosa, demonstrando vocação apaixonada e precoce para a poesia. Mudou-se em 1862 para o Recife, onde concluiu os preparatórios e, depois de duas vezes reprovado, matriculou-se finalmente na Faculdade de Direito em 1864. Cursou o 1º ano em 1865, na mesma turma que Tobias Barreto. Logo integrado na vida literária acadêmica e admirado graças aos seus versos, cuidou mais deles e dos amores que dos estudos. Em 1866, perdeu o pai e, pouco depois, iniciou apaixonada ligação amorosa com atriz portuguesa Eugênia Câmara, dez anos mais velha, que desempenhou importante papel em sua lírica e em sua vida.
Nessa época Castro Alves entrou numa fase de grande inspiração e tomou consciência do seu papel de poeta social. Escreveu o drama Gonzaga e, em 1868, transferiu-se para o sul do país em companhia da amada, matriculando-se no 3º ano da Faculdade de Direito de São Paulo, na mesma turma de Rui Barbosa. No fim do ano o drama é representado com êxito enorme, mas o seu espírito se abate pela ruptura com Eugênia Câmara. Durante uma caçada, a descarga acidental de uma espingarda lhe feriu o pé esquerdo, que, sob ameaça de gangrena, foi, afinal, amputado no Rio, em meados de 1869. Sua saúde, que já se ressentira de hemoptises desde os dezessete anos, quando escreveu “Mocidade e Morte”, cujo primeiro título original era “O tísico”, ficou definitivamente comprometida. De volta à Bahia, passou grande parte do ano de 1870 em fazendas de parentes, à busca de melhoras para a tuberculose. Em novembro, saiu seu primeiro livro, Espumas flutuantes, único que chegou a publicar em vida, recebido muito favoravelmente pelos leitores.
Daí por diante, apesar do declínio físico, produziu alguns dos seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, este platônico, pela cantora italiana Agnese Trinci Murri. Faleceu em 1871, aos 24 anos, sem ter podido acabar a maior empresa a que se propusera, o poema Os escravos, uma série de poesias em torno do tema da escravidão. Ainda em 1870, numa das fazendas em que repousava, havia completado A Cachoeira de Paulo Afonso, que saiu em 1876, e que é parte do empreendimento, como se vê pelo esclarecimento do poeta: “Continuação do poema Os escravos, sob título de Manuscritos de Stênio.”
Duas vertentes se distinguem na poesia de Castro Alves: a feição lírico-amorosa, mesclada de forte sensualidade, e a feição social e humanitária, em que alcança momentos de fulgurante eloquência épica. Como poeta lírico, caracteriza-se pelo vigor da paixão, a intensidade com que exprime o amor, como desejo, frêmito, encantamento da alma e do corpo, superando o negaceio de Casimiro de Abreu, a esquivança de Álvares de Azevedo, o desespero acuado de Junqueira Freire. A grande e fecundante paixão por Eugênia Câmara percorreu-o como corrente elétrica, reorganizando-lhe a personalidade, inspirando alguns dos seus mais belos poemas de esperança, euforia, desespero, saudade. Outros amores e encantamentos constituem o ponto de partida igualmente concreto de outros poemas.
Castro Alves (iconografia - acervo FBN)
Enquanto poeta social, extremamente sensível às inspirações revolucionárias e liberais do século XIX, Castro Alves, na linhagem de Victor Hugo, um dos seus mestres, viveu com intensidade os grandes episódios históricos do seu tempo e foi, no Brasil, o anunciador da Abolição e da República, devotando-se apaixonadamente à causa abolicionista, o que lhe valeu a antonomásia de “Cantor dos escravos”. A sua poesia se aproxima da retórica, incorporando a ênfase oratória à sua magia. No seu tempo, mais do que hoje, o orador exprimia o gosto ambiente, cujas necessidades estéticas e espirituais se encontram na eloquência dos poetas. Em Castro Alves, a embriaguez verbal encontra o apogeu, dando à sua poesia poder excepcional de comunicabilidade.
Dele ressalta a figura do bardo que fulmina a escravidão e a injustiça, de cabeleira ao vento. A dialética da sua poesia implica menos a visão do escravo como realidade presente do que como episódio de um drama mais amplo e abstrato: o do próprio destino humano, presa dos desajustamentos da História. Encarna as tendências messiânicas do Romantismo e a utopia libertária do século. O negro, escravizado, misturado à vida cotidiana em posição de inferioridade, dificilmente se podia elevar a objeto estético, o que ele alcançou, no entanto, numerosas vezes. Surgiu primeiro à consciência literária como problema social, e o abolicionismo era visto apenas como sentimento humanitário pela maioria dos escritores que até então trataram desse tema. Só Castro Alves estenderia sobre o negro o manto redentor da poesia, tratando-o como herói, como ser integralmente humano.
:: Fonte: Academia Brasileira de Letras/ABL (acessado em 04.01.2016).

"Por isso na impaciência
Desta sede de saber,
Como as aves do deserto -
As almas buscam beber…
Oh! Bendito o que semeia
Livros… livros à mão cheia…
E manda o povo pensar!
O livro caindo n’alma
É germe – que faz a palma,
É chuva – que faz o mar."
- Castro Alves, do poema “O livro e a América”, no livro “Espumas flutuantes”. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2006.
Castro Alves
OBRA DE CASTRO ALVES
Poesia - primeiras publicações
:: Espumas flutuantes. Bahia: Camilo Lellis Masson, 1870. (obs.: única obra publicada em vida pelo autor)
:: Gonzaga, ou a revolução de Minas. Rio de Janeiro: Cruz Coutinho, 1875.
:: A Cachoeira de Paulo Afonso. Bahia: Imprensa Econômica, 1876.
:: Os escravos. Rio de janeiro: Tipografia da Escola Serafim José Alves, 1883. 

Outras publicações
Castro Alves, por Leo Martins
:: Os escravos. [organização Oliveira Ribeiro Neto]. São Paulo: Livraria Martins Editora, 1972.
:: Espumas flutuantes. [ilustrações Santa Rosa]. Rio de Janeiro: Cem Bibliófilos do Brasil, 1947, 204p. 
:: Tragédia no mar: O navio negreiro. [Organização Antônio José Chediak]. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2000.
:: Espumas flutuantes. Porto Alegre: L&PM Pocket, 2006.
:: Espumas flutuantes. (publicação fac-similiar/ original de 1870).  Rio de Janeiro: Imprensa oficial do Estado do Rio de Janeiro, 2011.

Obras completas
:: Castro Alves: obra completa. [organização Manuel Said Ali]. Rio de Janeiro: Editora Laemmert, 1898.
:: Castro Alves: obra completa. [organização Afrânio Peixoto]. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 2 v., 1921.
:: Obra completa - Castro Alves. [organização Eugênio Gomes].. (Coleção Nossos Clássicos, nº 44). Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1960; Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1997.

Antologias e seletas
::  Poesias escolhidas - castro Alves. [organização Homero Pires]. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1947.
:: Os melhores poemas - Castro Alves. 2ª ed., São Paulo: Global, 1985.

Outros
:: Castro Alves - catálogo da exposição. Rio de Janeiro: Biblioteca Nacional - Divisão de Publicações e Divulgação, 1971. Disponível no link. (acessado em 05.01.2016).




Castro Alves, retratado por Candido Portinari (1928)
CASTRO ALVES NO ACERVO DIGITAL DA BIBLIOTECA BRASILIANA GUITA E JOSÉ MINDLIN
[primeiras edições]
:: Espumas fluctuantes: poesias. Castro Alves, 1847-1871. Bahia: Typ. de Camillo de Lellis Masson, 1870. Disponível no link. (acessado em 9.1.2016).
:: A cachoeira de Paulo-Affonso: poema original brazileiro: fragmento dos - Escravos-, sob o titulo de Manuscriptos de Stenio, Castro Alves, 1847-1871Bahia: Imprensa Economica, 1876. Disponível no link. (acessado em 9.1.2016).
:: A cachoeira de Paulo-Affonso: fragmentos dos Escravos - sob o título de Manuscritos de Stenio, Castro Alves, 1847-1871. Rio de Janeiro: Typ. e Lith. de J. D. de Oliveira, 1882. Disponível no link. (acessado em 9.1.2016).
:: Os escravos: poesias,  Castro Alves, 1847-1871. Lisboa: Tavares Cardoso & Irmão, Editores, 1884. Disponível no link. (acessado em 9.1.2016).
:: Os escravos: poema brazileiro. Castro Alves, 1847-1871. Rio de Janeiro: Typ. da Escola de Serafim José Alves, 1884. Disponível no link. (acessado em 9.1.2016).
:: Gonzaga ou A Revolução de Minas: drama historico brazileiro. Castro Alves, 1847-1871. Rio de Janeiro: A. A. da Cruz Coutinho, 1875. Disponível no link. (acessado em 9.1.2016).
:: Obras completas (Volume 1). Castro Alves, 1847-1871. Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1921. Disponível no link. (acessado em 9.1.2016).
:: Obras completas (Volume 2). Castro Alves, 1847-1871. Rio de Janeiro : Francisco Alves, 1921. Disponível no link. (acessado em 9.1.2016).


O coração
O Coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um-tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.

O outro-voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel — a que se chama — crenças,
Vive do aroma-que se diz-amor.
- Castro Alves (Recife, 1865), em "Espumas flutuantes".


'Um tabaréo', sem data (desenho de Castro Alves)

POEMAS ESCOLHIDOS DE CASTRO ALVES
A queimada
Meu nobre perdigueiro! vem comigo.
Vamos a sós, meu corajoso amigo,
     Pelos ermos vagar!
Vamos lá dos gerais, que o vento açoita,
Dos verdes capinais n’agreste moita
Auto-retrato de Castro Alves (1847-1871) - sem data
     A perdiz levantar!... 

Mas não!... Pousa a cabeça em meus joelhos...
Aqui, meu cão!... Já de listrões vermelhos
     O céu se iluminou.
Eis súbito da barra do ocidente,
Doido, rubro, veloz, incandescente,
     O incêndio que acordou! 

A floresta rugindo as comas curva...
As asas foscas o gavião recurva,
     Espantado a gritar.
O estampido estupendo das queimadas
Se enrola de quebradas em quebradas,
     Galopando no ar. 

E a chama lavra qual jibóia informe,
Que, no espaço vibrando a cauda enorme,
     Ferra os dentes no chão...
Nas rubras roscas estortega as matas...,
Que espadanam o sangue das cascatas
     Do roto coração!... 

O incêndio — leão ruivo, ensangüentado,
A juba, a crina atira desgrenhado
     Aos pampeiros dos céus!...
Travou-se o pugilato... e o cedro tomba...
Queimado..., retorcendo na hecatomba
     Os braços para Deus. 

A queimada! A queimada é uma fornalha!
A irara — pula; o cascavel — chocalha...
     Raiva, espuma o tapir!
...E às vezes sobre o cume de um rochedo
A corça e o tigre — náufragos do medo —
     Vão trêmulos se unir!

Então passa-se ali um drama augusto...
N’último ramo do pau-d’arco adusto
     O jaguar se abrigou...
Mas rubro é o céu... Recresce o fogo em mares...
E após... tombam as selvas seculares...
     E tudo se acabou!... 
- Castro Alves, em "A Cachoeira de Paulo Afonso".



A volta da primavera
     Aime, et tu renaîtras; fais-toi fleur pour  éclore.
     Après avoir souffert, il faut souffrir encore.
     Il faut aimer sans cesse, après avoir aimé.
                  (Alfred de Musset)

Ai não maldigas minha fronte pálida,
E o peito gasto ao referver de amores.
Vegetam louros — na caveira esquálida
E a sepultura se reveste em flores.

Bem sei que um dia o vendaval da sorte
Do mar lançou-me na gelada areia.
Serei... que importa? o D. Juan da morte
Dá-me o teu seio — e tu serás Haidéia!

Pousa esta mão — nos meus cabelos úmidos!...
Ensina à brisa ondulações suaves!
Dá-me um abrigo nos teus seios túmidos!
Fala!... que eu ouço o pipilar das aves!

Já viste às vezes, quando o sol de Maio
Inunda o vale, o matagal e a veiga?
Murmura a relva: “Que suave raio.”
Responde o ramo: “Como a luz é meiga!”

E, ao doce influxo do clarão do dia,
O junco exausto, que cedera à enchente,
Levanta a fronte da lagoa fria...
Mergulha a fronte na lagoa ardente...

Se a natureza apaixonada acorda
Ao quente afago do celeste amante,
Diz!... Quando em fogo o teu olhar transborda,
Não vês minh’alma reviver ovante?

É que teu riso me penetra n’alma —
Como a harmonia de uma orquestra santa —
É que teu riso tanta dor acalma...
Tanta descrença!... Tanta angústia!... Tanta!

Que eu digo ao ver tua celeste fronte:
“O céu consola toda dor que existe.
“Deus fez a neve — para o negro monte!
“Deus fez a virgem — para o bardo triste!”
- Castro Alves (Rio de Janeiro, junho de 1869). em "Espumas Flutuantes".


É tarde!
          Olha-me, ó virgem, a fronte!
          Olha-me os olhos sem luz!
          A palidez do infortúnio
          Por minhas faces transluz;
          Olha, ó virgem — não te iludas —
          Eu só tenho a lira e a cruz.
                    (Junqueira Freire.)


          É tarde! É muito tarde!
                  (Mont' Alverne)

É tarde! É muito tarde! O templo é negro...
O fogo-santo já no altar não arde.
Vestal! não venhas tropeçar nas piras...
É tarde! É muito tarde!

Treda noite! E minh'alma era o sacrário,
A lâmpada do amor velava entanto,
Virgem flor enfeitava a borda virgem
Do vaso sacrossanto.

Quando Ela veio — a negra feiticeira —
A libertina, lúgubre bacante,
Lascivo olhar, a trança desgrenhada,
A roupa gotejante.

Foi minha crença — o vinho dessa orgia,
Foi minha vida — a chama que apagou-se,
Foi minha mocidade — o toro lúbrico,
Minh'alma — o tredo alcouce.

E tu, visão do céu! Vens tateando
O abismo onde uma luz sequer não arde?
Ai! não vás resvalar no chão lodoso...
É tarde! É muito tarde!

Ai! não queiras os restos do banquete!
Não queiras esse leito conspurcado!
Sabes? meu beijo te manchara os lábios
Num beijo profanado.

A flor do lírio de celeste alvura
Quer da lucíola o pudico afago...
O cisne branco no arrufar das plumas
Quer o aljôfar do lago.

É tarde! A rola meiga do deserto
Faz o ninho na moita perfumada...
Rola de amor! não vás ferir as asas
Na ruína gretada.

Como o templo, que o crime encheu de espanto,
Êrmo e fechado ao fustigar do norte,
Nas ruínas desta alma a raiva geme...
E cresce o cardo — a morte —.

Ciúme! dor! sarcasmo! — Aves da noite!
Vós povoais-me a solidão sombria,
Quando nas trevas a tormenta ulula 
Um uivo de agonia!...

É tarde! Estrela d'alva! o lago é turvo.
Dançam fogos no pântano sombrio.
Pede a Deus que dos céus as cataratas
Façam do brejo — um rio!

Mas não... ! Somente as vagas do sepulcro
Hão de apagar o fogo que em mim arde...
Perdoa-me, Senhora!... Eu sei que morro...
É tarde! É muito tarde!...
- Castro Alves (Rio de Janeiro, 3 de novembro de 1869), em "Espumas Flutuantes".


Murmúrios da tarde
Écoute! tout se tait; songe à ta bien-aimée, Ce soir, sous les tilleuls, à la sombre ramée, Le rayon du couchant laisse un adieu plus doux; Ce soir, tout va fleurir: l'immortelle nature Se remplit de parfums, d'amour et de murmure, Comme le lit joyeux de deux jeunes époux.
    - A. de Musset.

Rosa! Rosa de amor purpúrea e bela!
 - Garret.

Ontem à tarde, quando o sol morria,
A natureza era um poema santo,
De cada moita a escuridão saía,
De cada gruta rebentava um canto,
Ontem à tarde, quando o sol morria.

Do céu azul na profundeza escura
Brilhava a estrela, como um fruto louro,
E qual a foice, que no chão fulgura,
Mostrava a lua o semicirc'lo d'ouro,
Do céu azul na profundeza escura.

Larga harmonia embalsamava os ares!
Cantava o ninho — suspirava o lago...
E a verdade pluma dos sutis palmares
Tinha das ondas o murmúrio vago...
Larga harmonia embalsamava os ares.

Era dos seres a harmonia imensa,
Vago concerto de saudade infinda!
"Sol — não me deixes", diz a vaga extensa,
"Aura — não fujas", diz a flor mais linda;
Era dos seres a harmonia imensa!

"Leva-me! leva-me em teu seio amigo"
Dizia às nuvens o choroso orvalho,
"Rola que foges", diz o ninho antigo,
"Leva-me ainda para um novo galho...
Leva-me! leva-me em teu seio amigo."

"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!
Inda um calor, antes que chegue o frio..."
E mais o musgo se conchega à penha
E mais à penha se conchega o rio...
"Dá-me inda um beijo, antes que a noite venha!"

E tu no entanto no jardim vagavas,
Rosa de amor, celestial Maria...
Ai! como esquiva sobre o chão pisavas,
Ai! como alegre a tua boca ria...
E tu no entanto no jardim vagavas.

Eras a estrela transformada em virgem!
Eras um anjo, que se fez menina!
Tinhas das aves a celeste origem.
Tinhas da luta a palidez divina,
Eras a estrela transformada em virgem!

Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto,
Que bela rosa! que fragrância meiga!
Dir-se-ia um riso no jardim aberto,
Dir-se-ia um beijo, que nasceu na veiga...
Flor! Tu chegaste de outra flor mais perto!...

E eu, que escutava o conversar das flores,
Ouvi que a rosa murmurava ardente:
"Colhe-me, ó virgem, — não terei mais dores,
Guarda-me, ó bela, no teu seio quente..."
E eu escutava o conversar das flores.

"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!"
Também então eu murmurei cismando...
"Minh'alma é rosa, que a geada esfria...
Dá-lhe em teus seios um asilo brando...
"Leva-me! leva-me, ó gentil Maria!..."
- Castro Alves (Rio de Janeiro, 12 de outubro de 1869), em "Espumas Flutuantes".




Castro Alves - jovem.
Hino ao sono
Ó sono! ó noivo pálido
Das noites perfumosas,
Que um chão de nebulosas
Trilhas pela amplidão!
Em vez de verdes pâmpanos,
Na branca fronte enrolas
As lânguidas papoulas,
Que agita a viração.

Nas horas solitárias,
Em que vagueia a lua,
E lava a planta nua
Na onda azul do mar,
Com um dedo sobre os lábios
No vôo silencioso,
Vejo-te cauteloso
No espaço viajar!

Deus do infeliz, do mísero!
Consolação do aflito!
Descanso do precito,
Que sonha a vida em ti!
Quando a cidade tétrica
De angústia e dor não geme...
É tua mão que espreme
A dormideira ali.

Em tua branca túnica
Envolves meio mundo...
E teu seio fecundo
De sonhos e visões,
Dos templos aos prostíbulos,
Desde o tugúrio ao Paço,
Tu lanças lá no espaço
Punhados de ilusões!...

Da vide o sumo rúbido,
Do hatchiz a essência,
O ópio, que a indolência
Derrama em nosso ser,
Não valem, gênio mágico,
Teu seio, onde repousa
A placidez da lousa
E o gozo de viver...

Ó sono! Unge-me as pálpebras...
Entorna o esquecimento
Na luz do pensamento
Que abrasa o crânio meu.
Como o pastor da Arcádia,
Que uma ave errante aninha...
Minh'alma é uma andorinha...
Abre-lhe o seio teu.

Tu, que fechaste as pétalas
Do lírio, que pendia,
Chorando a luz do dia
E os raios do arrebol,
Também fecha-me as pálpebras...
Sem Ela o que é a vida?
Eu sou a flor pendida
Que espera a luz do sol.

O leite das eufórbias
P'ra mim não é veneno...
Ouve-me, ó Deus sereno!
Ó Deus consolador!
Com teu divino bálsamo
Cala-me a ansiedade!
Mata-me esta saudade,
Apaga-me esta dor.

Mas quando, ao brilho rútilo
Do dia deslumbrante,
Vires a minha amante
Que volve para mim,
Então ergue-me súbito...
É minha aurora linda...
Meu anjo... mais ainda...
É minha amante enfim!

Ó sono! Ó Deus noctívago!
Doce influência amiga!
Gênio que a Grécia antiga
Chamava de Morfeu,
Ouve!... E se minhas súplicas
Em breve realizares...
Voto nos teus altares
Minha lira de Orfeu!
- Castro Alves (São Paulo, 12 de julho de 1868). em "Espumas Flutuantes".


Saudação a Palmares
Nos altos cerros erguido 
Ninho d’águias atrevido, 
Salve! - País do bandido! 
Salve! - Pátria do jaguar! 
Verde serra onde os palmares 
- Como indianos cocares - 
No azul dos colúmbios ares 
Desfraldam-se em mole arfar! ...

Salve! Região dos valentes 
Onde os ecos estridentes 
Mandam aos plainos trementes 
Os gritos do caçador! 
E ao longe os latidos soam... 
E as trompas da caça atroam... 
E os corvos negros revoam 
Sobre o campo abrasador! ...

Palmares! a ti meu grito! 
A ti, barca de granito, 
Que no soçobro infinito 
Abriste a vela ao trovão. 
E provocaste a rajada, 
Solta a flâmula agitada 
Aos uivos da marujada 
Nas ondas da escravidão!

De bravos soberbo estádio, 
Das liberdades paládio, 
Pegaste o punho do gládio, 
E olhaste rindo p’ra o val: 
Descei de cada horizonte... 
Senhores! Eis-me de fronte! 
E riste... O riso de um monte! 
E a ironia... de um chacal!...

Cantem Eunucos devassos 
Dos reis os marmóreos paços; 
E beijem os férreos laços, 
Que não ousam sacudir... 
Eu canto a beleza tua, 
Caçadora seminua!... 
Em cuja perna flutua 
Ruiva a pele de um tapir.

Crioula! o teu seio escuro 
Nunca deste ao beijo impuro! 
Luzidio, firme, duro, 
Guardaste p’ra um nobre amor. 
Negra Diana selvagem, 
Que escutas sob a ramagem 
As vozes - que traz a aragem 
Do teu rijo caçador! ...

Salve, Amazona guerreira! 
Que nas rochas da clareira, 
- Aos urros da cachoeira - 
Sabes bater e lutar... 
Salve! - nos cerros erguido - 
Ninho, onde em sono atrevido, 
Dorme o condor... e o bandido!... 

A liberdade... e o jaguar!                               
- Castro Alves (Fazenda Santa Isabel, agosto de 1870), em "Os escravos".


Vozes d'África
Deus! ó Deus! onde estás que não respondes?
Em que mundo, em qu’estrela tu t’escondes
Embuçado nos céus?
Há dois mil anos te mandei meu grito,
Que embalde desde então corre o infinito...
Onde estás, Senhor Deus?...

Qual Prometeu tu me amarraste um dia
Do deserto na rubra penedia
— Infinito: galé! ...
Por abutre — me deste o sol candente,
E a terra de Suez — foi a corrente
Que me ligaste ao pé...

O cavalo estafado do Beduíno
Sob a vergasta tomba ressupino
E morre no areal.
Minha garupa sangra, a dor poreja,
Quando o chicote do simoun dardeja
O teu braço eternal.

Minhas irmãs são belas, são ditosas...
Dorme a Ásia nas sombras voluptuosas
Dos haréns do Sultão.
Ou no dorso dos brancos elefantes
Embala-se coberta de brilhantes
Nas plagas do Hindustão.

Por tenda tem os cimos do Himalaia...
O Ganges amoroso beija a praia
Coberta de corais ...
A brisa de Misora o céu inflama;
E ela dorme nos templos do Deus Brama,
— Pagodes colossais...

A Europa é sempre Europa, a gloriosa! ...
A mulher deslumbrante e caprichosa,
Rainha e cortesã.
Artista — corta o mármor de Carrara;
Poetisa — tange os hinos de Ferrara,
No glorioso afã!...

Sempre a láurea lhe cabe no litígio...
Ora uma c’roa, ora o barrete frígio
Enflora-lhe a cerviz.
Universo após ela — doido amante
Segue cativo o passo delirante
Da grande meretriz.

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Mas eu, Senhor!... Eu triste abandonada
Em meio das areias desgarrada,
Perdida marcho em vão!
Se choro... bebe o pranto a areia ardente;
talvez... p’ra que meu pranto, ó Deus clemente!
Não descubras no chão...

E nem tenho uma sombra de floresta...
Para cobrir-me nem um templo resta
No solo abrasador...
Quando subo às Pirâmides do Egito
Embalde aos quatro céus chorando grito:
“Abriga-me, Senhor!...”

Como o profeta em cinza a fronte envolve,
Velo a cabeça no areal que volve
O siroco feroz...
Quando eu passo no Saara amortalhada...
Ai! dizem: “Lá vai África embuçada
No seu branco Albornoz...”

Nem veem que o deserto é meu sudário,
Que o silêncio campeia solitário
Por sobre o peito meu.
Lá no solo onde o cardo apenas medra
Boceja a Esfinge colossal de pedra
Fitando o morno céu.

De Tebas nas colunas derrocadas
As cegonhas espiam debruçadas
O horizonte sem fim ...
Onde branqueia a caravana errante,
E o camelo monótono, arquejante
Que desce de Efraim

.......................................................

Não basta inda de dor, ó Deus terrível?!
É, pois, teu peito eterno, inexaurível
De vingança e rancor?...
E que é que fiz, Senhor? que torvo crime
Eu cometi jamais que assim me oprime
Teu gládio vingador?!

.....................................................

Foi depois do dilúvio... um viandante,
Negro, sombrio, pálido, arquejante,
Descia do Arará...
E eu disse ao peregrino fulminado:
“Cã!... serás meu esposo bem-amado...
— Serei tua Eloá...”

Desde este dia o vento da desgraça
Por meus cabelos ululando passa
O anátema cruel.
As tribos erram do areal nas vagas,
E o nômade faminto corta as plagas
No rápido corcel.

Vi a ciência desertar do Egito...
Vi meu povo seguir — Judeu maldito —
Trilho de perdição.
Depois vi minha prole desgraçada
Pelas garras d’Europa — arrebatada —
Amestrado falcão! ...

Cristo! embalde morreste sobre um monte
Teu sangue não lavou de minha fronte
A mancha original.
Ainda hoje são, por fado adverso,
Meus filhos — alimária do universo,
Eu — pasto universal...

Hoje em meu sangue a América se nutre
Condor que transformara-se em abutre,
Ave da escravidão,
Ela juntou-se às mais... irmã traidora
Qual de José os vis irmãos outrora
Venderam seu irmão.

Basta, Senhor! De teu potente braço
Role através dos astros e do espaço
Perdão p’ra os crimes meus!
Há dois mil anos eu soluço um grito...
Escuta o brado meu lá no infinito,
Meu Deus! Senhor, meu Deus!...
- Castro Alves (São Paulo, 11 de junho de 1868), "Os escravos".


FORTUNA CRÍTICA DE CASTRO ALVES
Castro Alves  - jovem.
ALMEIDA, Norlândio Meirelles de.. São Paulo de Castro Alves. São Paulo: Editora Soge, 1997.
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AMADO, Jorge. ABC de Castro Alves. São Paulo: Livraria Martins, 1941.
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Castro Alves, por Tuba

DOCUMENTÁRIO
Filme: Castro Alves - retrato falado do poeta
Ano/País 1998, Brasil


Castro Alves - retrato falado do poeta (1998)


Castro Alves, por William Medeiros
NAVIO NEGREIRO
                    Tragédia no mar
                               I

’Stamos em pleno mar... Doido no espaço 
Brinca o luar — dourada borboleta; 
E as vagas após ele correm... cansam 
Como turba de infantes inquieta. 

’Stamos em pleno mar... Do firmamento 
Os astros saltam como espumas de ouro... 
O mar em troca acende as ardentias, 
— Constelações do líquido tesouro... 

’Stamos em pleno mar... Dois infinitos 
Ali se estreitam num abraço insano, 
Azuis, dourados, plácidos, sublimes... 
Qual dos dois é o céu? qual o oceano?... 

’Stamos em pleno mar... Abrindo as velas 
Ao quente arfar das virações marinhas, 
Veleiro brigue corre à flor dos mares, 
Como roçam na vaga as andorinhas... 

Donde vem? onde vai?  Das naus errantes 
Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço? 
Neste saara os corcéis o pó levantam,  
Galopam, voam, mas não deixam traço. 

Bem feliz quem ali pode nest’hora 
Sentir deste painel a majestade! 
Embaixo — o mar em cima — o firmamento... 
E no mar e no céu — a imensidade! 

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa! 
Que música suave ao longe soa! 
Meu Deus! como é sublime um canto ardente 
Pelas vagas sem fim boiando à toa! 

Homens do mar! ó rudes marinheiros, 
Tostados pelo sol dos quatro mundos! 
Crianças que a procela acalentara 
No berço destes pélagos profundos! 

Esperai! esperai! deixai que eu beba 
Esta selvagem, livre poesia 
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa, 
E o vento, que nas cordas assobia... 
.......................................................... 

Por que foges assim, barco ligeiro? 
Por que foges do pávido poeta? 
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira 
Que semelha no mar — doido cometa! 

Albatroz!  Albatroz! águia do oceano, 
Tu que dormes das nuvens entre as gazas, 
Sacode as penas, Leviatã do espaço, 
Albatroz!  Albatroz! dá-me estas asas. 

                           II

Que importa do nauta o berço, 
Donde é filho, qual seu lar? 
Ama a cadência do verso 
Que lhe ensina o velho mar! 
Cantai! que a morte é divina! 
Resvala o brigue à bolina 
Como golfinho veloz. 
Presa ao mastro da mezena 
Saudosa bandeira acena 
Às vagas que deixa após. 

Do Espanhol as cantilenas 
Requebradas de langor, 
Lembram as moças morenas, 
As andaluzas em flor! 
Da Itália o filho indolente 
Canta Veneza dormente, 
— Terra de amor e traição, 
Ou do golfo no regaço 
Relembra os versos de Tasso, 
Junto às lavas do vulcão! 

O Inglês — marinheiro frio, 
Que ao nascer no mar se achou, 
(Porque a Inglaterra é um navio, 
Que Deus na Mancha ancorou), 
Rijo entoa pátrias glórias, 
Lembrando, orgulhoso, histórias 
De Nelson e de Aboukir...
O Francês — predestinado — 
Canta os louros do passado 
E os loureiros do porvir! 

Os marinheiros Helenos, 
Que a vaga iônia criou, 
Belos piratas morenos 
Do mar que Ulisses cortou, 
Homens que Fídias talhara, 
Vão cantando em noite clara 
Versos que Homero gemeu ... 
Nautas de todas as plagas, 
Vós sabeis achar nas vagas 
As melodias do céu!...

                               III

Desce do espaço imenso, ó águia do oceano! 
Desce mais... inda mais... não pode olhar humano 
Como o teu mergulhar no brigue voador! 
Mas que vejo eu aí... Que quadro d’amarguras! 
Que canto funeral! ... Que tétricas figuras! ... 
Que cena infame e vil... Meu Deus! Meu Deus! Que horror! 

                            IV

Era um sonho dantesco... o tombadilho  
Que das luzernas avermelha o brilho. 
       Em sangue a se banhar. 
Tinir de ferros... estalar de açoite...  
Legiões de homens negros como a noite, 
       Horrendos a dançar... 

Negras mulheres, suspendendo às tetas  
Magras crianças, cujas bocas pretas  
       Rega o sangue das mães:  
Outras moças, mas nuas e espantadas,  
No turbilhão de espectros arrastadas, 
       Em ânsia e mágoa vãs! 

E ri-se a orquestra irônica, estridente... 
E da ronda fantástica a serpente  
       Faz doidas espirais ... 
Se o velho arqueja, se no chão resvala,  
Ouvem-se gritos... o chicote estala. 
       E voam mais e mais... 

Presa nos elos de uma só cadeia,  
A multidão faminta cambaleia, 
      E chora e dança ali! 
Um de raiva delira, outro enlouquece,  
Outro, que de martírios embrutece, 
      Cantando, geme e ri! 

No entanto o capitão manda a manobra, 
E após fitando o céu que se desdobra, 
       Tão puro sobre o mar, 
Diz do fumo entre os densos nevoeiros: 
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros! 
       Fazei-os mais dançar!...”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . . 
E da ronda fantástica a serpente 
          Faz doidas espirais... 
Qual um sonho dantesco as sombras voam!... 
Gritos, ais, maldições, preces ressoam! 
           E ri-se Satanás!...  

                     V

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus! 
Se é loucura... se é verdade 
Tanto horror perante os céus?! 
Ó mar, por que não apagas 
Co’a esponja de tuas vagas 
De teu manto este borrão?... 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! 

Quem são estes desgraçados 
Que não encontram em vós 
Mais que o rir calmo da turba 
Que excita a fúria do algoz? 
Quem são?   Se a estrela se cala, 
Se a vaga à pressa resvala 
Como um cúmplice fugaz, 
Perante a noite confusa... 
Dize-o tu, severa Musa, 
Musa libérrima, audaz!... 

São os filhos do deserto, 
Onde a terra esposa a luz. 
Onde vive em campo aberto 
A tribo dos homens nus... 
São os guerreiros ousados 
Que com os tigres mosqueados 
Combatem na solidão. 
Ontem simples, fortes, bravos. 
Hoje míseros escravos, 
Sem luz, sem ar, sem razão...

São mulheres desgraçadas, 
Como Agar o foi também. 
Que sedentas, alquebradas, 
De longe... bem longe vêm... 
Trazendo com tíbios passos, 
Filhos e algemas nos braços, 
N’alma — lágrimas e fel... 
Como Agar sofrendo tanto, 
Que nem o leite de pranto 
Têm que dar para Ismael. 

Lá nas areias infindas, 
Das palmeiras no país, 
Nasceram crianças lindas, 
Viveram moças gentis... 
Passa um dia a caravana, 
Quando a virgem na cabana 
Cisma da noite nos véus ... 
... Adeus, ó choça do monte, 
... Adeus, palmeiras da fonte!... 
... Adeus, amores... adeus!... 

Depois, o areal extenso... 
Depois, o oceano de pó. 
Depois no horizonte imenso 
Desertos... desertos só... 
E a fome, o cansaço, a sede... 
Ai! quanto infeliz que cede, 
E cai p’ra não mais s’erguer!... 
Vaga um lugar na cadeia, 
Mas o chacal sobre a areia 
Acha um corpo que roer. 

Ontem a Serra Leoa, 
A guerra, a caça ao leão, 
O sono dormido à toa 
Sob as tendas d’amplidão! 
Hoje... o porão negro, fundo, 
Infecto, apertado, imundo, 
Tendo a peste por jaguar... 
E o sono sempre cortado 
Pelo arranco de um finado, 
E o baque de um corpo ao mar... 

Ontem plena liberdade, 
A vontade por poder... 
Hoje... cúm’lo de maldade, 
Nem são livres p’ra morrer. . 
Prende-os a mesma corrente 
— Férrea, lúgubre serpente — 
Nas roscas da escravidão. 
E assim zombando da morte, 
Dança a lúgubre coorte 
Ao som do açoite... Irrisão!... 

Senhor Deus dos desgraçados! 
Dizei-me vós, Senhor Deus, 
Se eu deliro... ou se é verdade 
Tanto horror perante os céus?!... 
Ó mar, por que não apagas 
Co’a esponja de tuas vagas 
Do teu manto este borrão? 
Astros! noites! tempestades! 
Rolai das imensidades! 
Varrei os mares, tufão! ... 

                    VI

E existe um povo que a bandeira empresta 
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!... 
E deixa-a transformar-se nessa festa 
Em manto impuro de bacante fria!... 
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta, 
Que impudente na gávea tripudia? 
Silêncio.  Musa... chora, e chora tanto 
Que o pavilhão se lave no teu pranto! ... 

Auriverde pendão de minha terra, 
Que a brisa do Brasil beija e balança, 
Estandarte que a luz do sol encerra 
E as promessas divinas da esperança... 
Tu que, da liberdade após a guerra, 
Foste hasteado dos heróis na lança 
Antes te houvessem roto na batalha, 
Que servires a um povo de mortalha!... 

Fatalidade atroz que a mente esmaga! 
Extingue nesta hora o brigue imundo 
O trilho que Colombo abriu na vaga, 
Como um íris no pélago profundo! 
Mas é infâmia demais! ... Da etérea plaga 
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo! 
Andrada! arranca esse pendão dos ares! 
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
- Castro Alves (São Paulo, 18 de abril de 1868), "Os escravos".

Rótulo de cigarro. Castro Alves

CASA DE CASTRO ALVES - SALVADOR BAHIA
Site Oficial: Casa Castro Alves


OUTRAS FONTES E REFERÊNCIAS DE PESQUISA
:: A voz da poesia - Castro Alves
:: Memória Viva - Castro Alves


Castrinho - nosso amiguinho
© Obra de Castro Alves em domínio público

© Pesquisa, seleção e organização: Elfi Kürten Fenske

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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Castro Alves - cenas poéticas. Templo Cultural Delfos, janeiro/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 9.1.2016.



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