Marly de Oliveira - a poeta

Marly de Oliveira - foto: Acervo Família Oliveira
Marly de Oliveira poeta, professora e ensaísta, era capixaba de Cachoeiro do Itapemirim, nascida em 11 de junho de 1938, viveu e passou a infância e adolescência na cidade fluminense de Campos, onde muito cedo se iniciou na literatura, publicando poemas em jornais e revistas. Mudou-se depois para o Rio de Janeiro, onde diplomou-se em Letras Neo-Latinas pela Pontifica Universidade Católica. Recebeu bolsa de estudos para cursar História da Língua Italiana e Filologia Românica na Universidade de Roma. Ali conheceu o grande poeta Giuseppe Ungaretti, que havia lecionado por algum tempo na Universidade de São Paulo e que, ao ler uma breve coletânea de poemas escritos em italiano pela jovem estudante brasileira, decidiu entusiasmado apresentá-la pessoalmente em um programa literário da rádio-televisão local, referindo-se textualmente ao milagre de criação daqueles versos escritos por uma estrangeira em um italiano luminoso.
De volta ao Brasil, trabalha como assistente de Mário Camarinha na cadeira de Literatura Hispano-Americana na PUC/RJ e na PUC/Petrópolis. Entre 1962 e 1967 é professora de Língua, Literatura Italiana e Literatura Hispano-Americana na Faculdade das Dorotéias, em Friburgo RJ. Casa-se com diplomata brasileiro Lauro Moreira e vive alguns anos em Buenos Aires, Genebra e Brasília. Na década de oitenta casa-se, pela segunda vez, com João Cabral de Melo Neto, com quem reside em Portugal e depois no Rio, até a morte deste, em outubro de 99.
Em 1995, organizou a Obra Completa de João Cabral de Melo Neto, com Margaret George. Sua obra poética abrange os livros Explicação de Narciso (1960), A Suave Pantera (1962), O Sangue na Veia (1967), Contato (1975), A Força da Paixão (1982) e O Mar de Permeio (1997), entre outros. A poesia de Marly de Oliveira filia-se à terceira geração do Modernismo. Para o poeta Mário Chamie (1933 - 2011), "o percurso de Marly, mágico e pendular, retoma sempre o princípio de tudo ('o erro nunca está no fim: / no início é que é preciso / ir desfazendo o escuro'), anula a aridez das lembranças e conflitos pessoais ('por mais que se ande, o caminho / leva sempre para trás'), até chegar à escrita revelada de uma poesia que submete o sofrimento da perda, a amargura do engano, a frieza da aridez ao 'império da esperança' e ao chamado do amor (...)".
Em 1º de junho de 2007, Marly de Oliveira falece em um hospital do Rio de Janeiro, após quase quatro meses de internação.


Marly de Oliveira - foto: Acervo Família Oliveira
Auto-retrato
Sou filha de Cecília Meireles, Drummond, Bandeira, Augusto Meyer. Irmã de Clarice, Nélida Piñon, José Guilherme Merquior. Devo muito a João Cabral e, de uma forma que só agora começo a compreender, a Ruth Maria Chaves.
Sou mãe de Mônica, de onze anos, e de Patrícia, com quatro.
Quando publiquei Cerco da Primavera, o estímulo de Alceu Amoroso Lima, Antônio Houaiss, Thiers Martins Moreira e a aprovação de Mário Faustino me tornaram consciente de que era preciso ir adiante. Seguiram-se: Explicação de Narciso, A Suave Pantera, O Sangue na Veia, A Vida Natural, Contato, Invocação de Orpheu.
Estudei na PUC, no Rio, depois em Roma. Minha paixão pela Itália sempre ultrapassou todo entendimento.
Gosto de De Sica, Fellini, Antonioni, Visconti, Robbe Grillet, Glauber Rocha, Bach, Beethoven, Mozart, Corelli, Albinoni. Acho que o mundo seria diferente se não tivesse tido um Heráclito, um Platão, um Dante, um Cervantes, um Shakespeare, um Fernando Pessoa, um Freud. Sinto que a palavra modifica a realidade, mas não sei bem de que forma. Tenho, obviamente, entre meus livros essenciais, um dicionário e uma Bíblia.
No contato com o outro vou aprendendo sempre alguma coisa sobre mim. Cada vez tenho menos medo de enfrentar-me.
Sou solitária de nascença, como outros são cegos ou mudos. Não me vanglorio disso, nem me entristeço: registro. Fracasso sempre, nisto talvez resida minha força: sou devolvida a mim toda vez que ensaio alguma deserção. Algumas vezes pensei que não fosse resistir. Agora sei como se renasce.
Acho que o conhecimento só não separa quando há maturidade – e isso é buscar agulha num palheiro.
Acredito nas afinidades eletivas, na admiração que supera a inveja, na transformação interior, na reparação.
Quando chego a desconfiar de alguém já fui mordida: vêm daí minhas cicatrizes.
Até prova em contrário, acredito em mim, no amor e em sua intrínseca nostalgia de união perfeita, na cólera sem vileza, no silêncio repleto de intenções, e na palavra.
Só a necessidade imperiosa do outro torna difícil a separação. A necessidade atrapalha tudo, pois sempre acarreta sofrimento. Acho que todos temos experiência disso.
Não acredito em só recursos internos para aguentar o desamparo e a perda. É sempre bom uma mão amiga.
Marly de Oliveira - foto: Acervo Família Oliveira
Às vezes tenho a impressão de que desci ao inferno com Enéias, que estive em Pilos à procura de Ulisses, conheci Paolo e Francesca, me exaltei com Teresa d´Ávila, entrei pela “noche oscura del alma” com San Juan de la Cruz, sofri com Camões, Cervantes, Machado, Murilo, assisti ao último dia de Sócrates, conversei com Sêneca, Marco Aurélio, Plotino – e que poderia ser um dos personagens perdidos nos labirintos de Borges, mas com saída, graças a Deus!
Não pretendo que creiam em mim; além de inútil, dá muito trabalho, mas acho bom que cada um creia em si mesmo. Sei que o discurso assertivo pode não ser verdadeiro e acho que o mundo é absurdo, como Camus. 
Morei em Roma, como estudante, em Buenos Aires e Genebra como mulher de diplomata. Brasília, com o esplendor de sua arquitetura, me ensinou o que significa atravessar um deserto sem água e sem pão. Agora estou livre para contemplar este lago, diante de minha janela: já não tenho nada a perder.
Sobretudo sou pretensiosa: acho que um dia não vou ter medo de morrer.
Marly de Oliveira, em "Aliança". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.


PRÊMIOS DE MARLY DE OLIVEIRA
1958 Prêmio Alphonsus de Guimaraens, INL, pelo livro "Cerco da primavera".
1963Prêmio Olavo Bilac, Academia Brasileira de Letras, pelo livro "A suave pantera".
1980Prêmio Fundação Cultural do Distrito Federal, pelo livro "Inovação de orpheu".
1987 - Prêmio UBE, pelo livro "Retrato – Vertigem – Viagem a Portugal".
1988Prêmio Pen Clube, pelo livro "O banquete"
1997Prêmio Jabuti, pelo livro "O mar de permeio" 
1999 - Prêmio Carlos Drummond de Andradepelo livro "O mar de permeio" 


Marly de Oliveira - foto: Acervo Família Oliveira
OBRA DE MARLY DE OLIVEIRA
Poesia
:: Cerco da primavera. Rio de Janeiro: Livraria Editora São José, 1957.
:: Explicação de NarcisoRio de Janeiro: Livraria Editora São José, 1960.
:: A suave pantera. Rio de Janeiro: Literatura Brasileira, 1962. 
:: A vida naturalO sangue na veia. Rio de Janeiro: Literatura, 1967.
:: Contato. Rio de Janeiro: Imago, 1975.
:: Invocação de orpheu. 1978; São Paulo: Massao Ohno, 1980. 
:: Aliança. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.
:: A força da paixão & A incerteza das coisas. Brasília: Thesaurus, 1984.
:: Retrato / Vertigem / Viagem a Portugal. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986.
:: O banquete. Rio de Janeiro: Record, 1988.
:: O deserto jardim. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990.
:: O mar de permeio. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997. 
:: Uma vez, sempre. São Paulo: Massao Ohno, 1999.

Antologia e obra reunida
:: Obra poética reunida. São Paulo: Massao Ohno Editor, 1989.
:: Antologia poética[organização e prefácio João Cabral de Melo Neto]. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.

CD - Áudio poesia
:: A Poesia de Marly de Oliveira, interpretada por Lauro Moreira, com música original de Pedro Braga. Álbum duplo. Selo Tratore, 2009.


Lauro Moreira, interpreta 'O Sangue na Veia', Marly de Oliveira

POEMAS ESCOLHIDOS DE MARLY DE OLIVEIRA
Marly de Oliveira em Brasília - foto: Acervo
 Família Oliveira
A suave pantera - I
Como qualquer animal,
olha as grades flutuantes.
Eis que as grades são fixas:
Ela, sim, é andante.
Sob a pele, contida
- em silêncio e lisura -
a força do seu mal,
e a doçura, a doçura,
que escorre pelas pernas
e as pernas habitua
a esse modo de andar,
de ser sua, ser sua,
no perfeito equilíbrio
de sua vida aberta:
una e atenta a si mesma,
suavíssima pantera.
- Marly de Oliveira, em "A suave pantera". Rio de Janeiro: Literatura Brasileira, 1962.


A suave pantera - II
É suave, suave, a pantera,
mas se a quiserem tocar
sem a devida cautela,
logo a verão transformada
na fera que há dentro dela.
O dente de mais marfim
na negrura toda alerta,
e ser do princípio ao fim
a pantera sem reservas,
o fervor, a força lúdica
da unha longa e descoberta,
o êxtase da sua fúria
sob o melindre que a fera,
em repouso, se a não tocam,
como que tem na singela
forma que não se alvoroça
por si só, antes parece,
na mansa, mansa e lustrosa
pelúcia com que se adorna,
uma viva, intensa jóia.
- Marly de Oliveira, em "A suave pantera". Rio de Janeiro: Literatura Brasileira, 1962.


A vida natural - XII 
O meu amor, que livre anda de engano,
ambiente natural
encontra nestes campos, onde a relva,
levemente movida pela brisa,
ao contato é macia,
e o boi rumina, sem espanto, a sua
doçura de vagar,
olhos postos nas coisas, distraído;
um cavalo anda longe,
e a crina se desfralda como um leque,
aberto por um vento muito brando.

Meu amor se acomoda entre estas pedras
como a seu leito o rio,
a asa do inseto ao corpo delicado,
ao morno ventre o bicho não nascido.
Como fronde se inclina
aos meus suspiros, que deitando vou
aos transparentes ares,
quando o arvoredo a fina brisa agita.
Ah deleitosa vida,
pelo arado do sonho sou levada,
e o que fazes de mim é o que me fica.

Sem qualquer pensamento ou sentimento
que de leve me afaste,
mergulho na secura do que vejo.
Cada coisa está viva em seu lugar,
cada coisa está certa;
o Inverno seca apenas o exterior,
deixa a umidade interna.
Que sei de olmos e faias e olorosas
ervas? De mim que sei?
o ritmo do que vive é tão perfeito
como o do ar que entra e sai pelas narinas.
- Marly de Oliveira, em "A vida natural". Rio de Janeiro: Literatura, 1967.


A vida natural - XIX
Aqui desta varanda
espaçosa que dá
sobre um jardim e sobre o imenso largo,
contemplo sossegada
o cair, sobre as coisas,
lento, do dia, o céu por todo lado.
Contraponho o silêncio
desta vida perfeita,
à vida que se vive
na cidade, em tumulto.
A minha pálpebra sustenta o peso
da tarde, que me fecha
num sonho, vagarosa.

Sonhamos o que vemos?
ou somos nós o sonho
daquilo que não vemos no que vemos?
A matéria das coisas
me desmaterializa
ao ponto de me ser inatingível
o sentido de estar,
o sentido de ser
distinto delas. Ah,
quem me é? quem me sabe,
sob este céu de estrelas quentes e úmidas?
Não vivo, sou vivida
na noite, pelas coisas.
- Marly de Oliveira, em "A vida natural". Rio de Janeiro: Literatura, 1967.


Epigrama
Bom é ser árvore, vento,
sua grandeza inconsciente;
e não pensar, não temer,
ser, apenas: altamente.
Permanecer uno e sempre
só e alheio à própria sorte,
com o mesmo rosto tranqüilo
diante da vida ou da morte.
- Marly de Oliveira, em "Cerco da primavera". Rio de Janeiro: Livraria Editora São José, 1957.


É um prelúdio de alegrias...
Marly de Oliveira - foto: Acervo Família Oliveira
É um prelúdio de alegrias e esperanças em que o poeta 
percorre a geografia, a história e a atmosfera lusitana.
Em Portugal, à sombra de mim mesma,
pela primeira vez fui livre
e sem cuidado,
amando o meu estar ali
de forma tão intensa
que mal me reconheci.
.E, contudo, não era a liberdade
que a distância da pátria
(ou da família)
concedia:
mais densa e mais profunda, era
uma sensação tão nova
que ia ao antes de partirem as caravelas,
ao antes do antes em que se imaginavam
as grandes aventuras
e suas descobertas.
Lembrança de Camões, Pessoa, Eça.
À beira-mar ou na montanha,
era sempre um bem-estar,
era sempre um reencontro
com o que nunca vira
e reconhecia, no entanto,
como se alguma vez
por lá andara. Era na certa
o sangue português.
- Marly de Oliveira, em "Viagem a Portugal". Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1986. 



Morte
E lutarás comigo,
fresca ainda de vento,
presa às luzes do dia
pelos cabelos ultimos. 
Quebrantarás meus olhos, 
sei.
Apagarás as mãos 
para a ternura,
para o amor,
também sei.
E alçarás a distância
entre mim e quem amo,
imperdoável.
E me terás por fim.
Mas sem entrega, dura.
Mais que difícil,
fria.
- Marly de Oliveira, em "Cerco da Primavera". Rio de Janeiro: Livraria Editora São José, 1957.


Numa rua de Amsterdam
Em Amsterdam na Diezestraat 6
alguém me espera alguém me quer
alguém dá vida e brilho à minha vida
tão dividida que mal se define entre
aquilo e o que.
Alguém me espera entre tulipas
alguém me espera entre folhas tombadas
sob o sol sob a chuva sob o frio
alguém me espera espera espera.
Alguém constrói a sua casa
como artesã-abelha delicada;
sobre o sofá um quadro, uma explosão,
que cada dia mais entendo, cada ano mais,
e outros móveis, cortina,
cozinha, um banheiro
todo branco.
E para mim um quarto, uma cama,
um edredom azul, uma escova,
papéis e muitos outros objetos,
telas tintas um pedaço de ferro,
outro de ouro, outro de aço.
Alguém de longe me acena

com uma lareira acesa.
- Marly de Oliveira, em "Mar de permeio". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.


Marly de Oliveira - foto: Acervo Família Oliveira

O sangue na veia - XXIII
Avançar no viver já significa
coisa mais ampla, coisa que mais vale;
assim como o embrenhar-se numa selva
nos cobre de uma súbita humildade,
humildade que leva a sua grandeza
em si como no bojo de um navio,
e como se isso fosse exterior
e simples, como não se ter sentido,
no escuro de uma selva, do que é nosso:
por efeito de amor então me alargo,
consciente de mim, do que não posso,
e da fraqueza do meu desamparo.
Embora fique em mim, não me dissolva,

e tenha a minha raiva, a minha escolha.
- Marly de Oliveira em "O Sangue na Veia". Rio de Janeiro: Literatura, 1967.


O sangue na veia - XXVI
A minha descoberta essencial:
a de que o amor é o pulso do que existe,
e o que existe, existindo, é limitado,
e o que se vive não tem escolha, vive,
e só segundo o amor que lhe tivermos
é que veremos e o alteraremos.
Como deixar, se a vejo, a flor em si,
se o que vejo é também o que não vejo,
e o que passa a existir dentro de mim?
Olho a flor, ela fica toda olhada,
vejo a flor, modifico-a porque a sinto,
porque sou livre para dar-lhe uma asa
como só vê-la parada e se florindo.
Tu, só tu, puro amor, podes o nada.
- Marly de Oliveira em "O Sangue na Veia". Rio de Janeiro: Literatura, 1967.


O sangue na veia - XXVII
Tu só, tu, puro amor, podes o tudo
desse nada essencial que transfigura,
sem fugir ao real e ao seu contorno;
o tudo desse nada sem usura,
o tudo desse nada irreparável,
o tudo desse nada que subjuga,
a que não fujo, a que nós não fugimos,
em virtude de sermos contra a fuga,
em virtude de sermos contra a luta
em virtude de eu ser quase passiva,
e de aceitar, sendo de amor, o jugo.
Tu só, tu, puro amor, podes o tudo
desse nada essencial que nos incita.
- Marly de Oliveira em "O Sangue na Veia". Rio de Janeiro: Literatura, 1967.


O sangue na veia - XXVIII
Tu, só tu, puro amor, é que declinas
esse nada essencial que é a coisa viva,
esse nada essencial que é a nossa força,
que se assegura na monotonia.
Tu só, tu, dissimulas o que é farto
sob o suave e perfeito do que é fraco
e tem rutilação de pedraria.
Eu vivo, eu me alimento, eu me repouso,
e às vezes, como casa, estou vazia,
em que passeia, sem que o note, o fogo
de uma esperança franca e toda lisa.
Tu só, dás-me esse trono, puro amor,
onde se reina e, escrava, se é rainha.
- Marly de Oliveira em "O Sangue na Veia". Rio de Janeiro: Literatura, 1967.


O sangue na veia - XXIX
Tu só, pões-me no peito essa cobiça,
e mais que essa cobiça, essa doçura
agônica escorrendo pelo corpo,
como um óleo sem paz essa doçura,
esse medo, essa forma de querer
obsessiva, essa forma quase injusta.
De repente eu não caibo mais em mim,
de repente eu me torno plena e obscura,
como um rio de cheias muito altas,
que fosse para além do seu limite, 
e não soubesse o que fazer das águas.
Assim o amor excede o que se vive,
e no meu pensamento ele se espraia

com aquela perfeição que há no impossível.
- Marly de Oliveira em "O Sangue na Veia". Rio de Janeiro: Literatura, 1967.


Marly de Oliveira - foto: Acervo Família Oliveira

Psicologia da lembrança
Tão fácil deixar o quarto assim:
lenços roupas empilhadas
tênis papéis por todo lado,
os livros do colégio, um copo d’água,
mas um jeito de amar fala mais alto
e vai fazer a cama, renovando os
lençóis; é tão forte o calor, dói
a coluna, mas nem dói mais, quando
sonolenta ela entra
e sorri sonolenta, um anjo
pousado um momento
no meu ombro; agora a cama está sempre
feita, o armário sempre arrumado, ela
longe longe longe numa
moldura mais que perfeita, e o
dia inteiro olho seu quarto, os quadros,
faz tanta falta aquela desordem!
ela está lá e está aqui
dentro de mim,
e quando sequer falamos
ao telefone é como se nem
entre nós um oceano

houvesse, como se nem.
- Marly de Oliveira, em "Mar de permeio". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.


Retrato
Deixei em vagos espelhos
a face múltipla e vária,
mas a que ninguém conhece
essa é a face necessária.
Escuto longe quando me falam,
de alma longe e rosto liso,
e os lábios vão sustentando
indiferente sorriso.
A força heróica do sonho
me empurra a distantes mares,
e estou sempre navegando
por caminhos singulares.
Inquiri o mundo, as nuvens
o que existe e não existe,
mas, por detrás das mudanças,

permaneço a mesma, e triste.
- Marly de Oliveira, em "Cerco da Primavera". Rio de Janeiro: Livraria Editora São José, 1957.


Topografia da lembrança
Em Brasília era tudo diferente:
a arquitetura quase dispensava
a paisagem frequente mas de
um a outro não-canto da cidade
era sempre uma viagem.

O arquiteto foi tão claro
que às vezes óculos escuros
se faziam necessários
para forjar o acordo entre
aquele que contempla e o contemplado.

O traço quase sempre reto e puro
algumas formas arrendondadas
a cúpula o silêncio o nu,
e nós janelas escancaradas
da nossa casa que dava
para a grama do jardim e o lago.
- Marly de Oliveira, em "Mar de permeio". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1997.


IX. Poeta do finito e do infinito
A Carlos Drummond de Andrade

Poeta do finito e do infinito,
tempo presente e ausente e do futuro,
de tudo um pouco te ficou na austera
concepção de vida, ó demiurgo
da memória, do sonho, do sarcasmo,
da violência contida e sem triunfo,
da doçura do hóspede secreto
de si mesmo
rebentando-se em dor, amor, soluço;
que te dizer no dia abençoado,
eu que nem sei de mim, eu que me sei
agora remetida à tua lição
de dançarino aflito sobre os fios
finos, tênues e tensos da canção?

O pórtico arruinou-se de meu sonho,
a tristeza infantil revigorou-se:
meu canto não celebra o que interpreta
na inspeção, de que falas, dolorosa
do deserto.
Já não saúdo ao jeito natural
de quem sabia adormecer crianças.
O sino toca e não percebo: falta
a malícia das coisas, a aliança
secreta com o que existe.
Ó meu jovem poeta,
não te consome o tempo irreverente:
és a mina de tudo o que ainda anima
a aceitação difícil do mistério,
a solércia dos mitos que o amor
vai criando de forma insidiosa.

Atento te debruças sobre a vida,
assistes impassível ao desmonte
e ao recriar-se, franco, cada dia,
de um céu mofino, um tempo de pesares.

Mas de tal modo, poeta,
extraordinária
é a tua percepção do que se vive,
que nem te rapta o sonho,
nem te perde a obscura realidade.
Pairas, tranquilo, sobre as coisas,
herdeiro penseroso do milagre.
- Marly de Oliveira, em "Aliança". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.



Marly de Oliveira em Buenos Aires, ano 1970 - foto: Acervo Família Oliveira
XI. Já cego e um pouco surdo o conhecemos
A Jorge Luís Borges

Já cego e um pouco surdo o conhecemos,
falando baixo e pausado.
Era uma noite diferente,
acompanhada da leitura de Whitman,
de um poema em anglo-saxão,
de considerações sobre Euclides
e seus Sertões.

Impregnado de um invisível deus,
divinizado pela aceitação
do mais inaceitável para quem sempre conviveu
com os livros: a cegueira,
que o faz vacilar entre a informação de uma voz
e o rosto que a acompanharia,
o secreto desejo de recobrar a cor
de um poente em seus passeios
pela Recoleta

ou num subúrbio qualquer de Buenos Aires.
- Marly de Oliveira, em "Aliança". Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1980.


FORTUNA CRÍTICA DE MARLY DE OLIVEIRA
[Estudos acadêmicos - dissertações, monografia, ensaios e artigos]
Marly de Oliveira, em Brasíliafoto: Acervo Família Oliveira
MONGELLI, Lênia Márcia. Resenha: Marly de Oliveira. O Deserto Jardim. Suplemento Cultura d'O Estado de São Paulo, São Paulo, p. 7, 10 ago. 1991.
SHINKAWA, Bárbara Poli Uliano. Marly de Oliveira: a poética do absurdo. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Estadual de Londrina, UEL, 2008.
SHINKAWA, Bárbara Poli Uliano. Marly de Oliveira e o Absurdo de Camus: Contato entre Literatura e Filosofia. In: Congresso Internacional Fluxos Literários: ética e estética, 2012, Florianópolis. Fluxos Literários: Ética e Estética, 2012.
SHINKAWA, Bárbara Poli Uliano. A antiguidade renovada em Invocação de Orpheu de Marly De Oliveira. In: CONALI II Congresso Nacional de Linguagens em Interação,, 2008, Maringá. Caderno de Programação e Resumos.. Maringá: Clichetec, 2008.
SOARES, Angelica Maria Santos. Ilimitáveis da memória / Exercícios de metamemória (Cecília Meireles, Marly de Oliveira, Helena Parente Cunha, Astrid Cabral). Scripta (PUCMG), v. 01, p. 95-107, 2006.
SOARES, Angelica Maria Santos. Ilimitáveis da memória / Exercícios de metamemória (Cecília Meireles, Marly de Oliveira, Helena Parente Cunha, Astrid Cabral). Scripta (PUCMG), v. 01, p. 95-107, 2006.
SOARES, Angelica Maria Santos. Memória, metamemória e opressão feminina na poesia de Marly de Oliveira. Anais do X Seminário Nacional "Mulher e Literatura" e I Seminário Internacional "Mulher e Literatura", João Pessoa, 2004.
SOARES, Angelica Maria Santos. Memória da opressão feminina na poesia de Marly de Oliveira. Anais de X Seminário Internacional "Mulher e Literatura", João Pessoa, 2004.
SOARES, Angelica Maria Santos. Memória e poesia: interrogando a identidade em Lya Luft, Helena Parente Cunha, Hilda Hilst e Marly de Oliveira. Cadernos de Letras, Rio de Janeiro, v. 14, p. 106-111, 1999.
SOARES, Angelica Maria Santos. Viagens no tempo: memória poética da proibição em Adélia Prado e Marly de Oliveira. Encontro, Recife, v. 15, p. 209-213, 1999.
SOARES, Angelica Maria Santos. Poesia e ecologia: um exercício crítico ecofeminista sobre o silenciamento das mulheres. Passages de Paris 2, 2005, p. 260–272. Disponível no link. (acessado em 3.7.2015).
SOARES, Angelica Maria Santos. A favor da insubordinação. Estudos Feministas, Florianópolis, 19(2): 622-623, maio-agosto/2011. Disponível no link. (acessado em 3.7.2015).
ZILBERMAN, Regina. Poesia feminina em tempo de repressão as mulheres que se expressaram em verso nos anos 70 e 80. Signótica, v. 16, n. 1, p. 143-169, jan./jun. 2004. 


DJ (Dirso  José de Oliveira) pintando o retrato de Marly de Oliveira (Rio, 1966)

ALGUNS DEPOIMENTOS SOBRE A OBRA DE MARLY DE OLIVEIRA
(fonte: blog A poeta Marly de Oliveira)

“Vou apresentá-la com grande alegria: trata-se de um dos maiores expoentes de nossa atual geração de poetas, que é rica em poesia. (...) Além de poeta, faz críticas da maior erudição, agudeza e sensibilidade.” 
- Clarice Lispector


“A aventura poética, aqui, atinge um estado único no Brasil e quiçá na língua portuguesa: um fluir sonoro de completo mas imanifesto domínio dos apoios fonéticos; um artesanato de formas fixas que se embebe no mais acurado conhecimento do passado; uma temática que leva, ao mesmo passo, ao quinhentismo e antes, e aos amanhãs e depois, pertemporizando-se.”
- Antonio Houaiss


“Marly de Oliveira é uma jovem poeta brasileira. Quem conhece os seus versos em português, aqueles de seu livro Cerco da Primavera, publicado em 1957, e aqueles que compõem a sua nova coletânea Explicação de Narciso sabe que neles ela dá prova de raros dotes de profundidade e de graça. Mais como terá feito esta jovem para apoderar-se de nossa língua, de sua secreta musicalidade ao ponto de poder oferecer o dom da poesia que agora ouvireis? É um milagre: a ingenuidade e a profundidade aqui se mesclam com uma novidade talvez superior aquela que surpreende quando se exprime na sua língua materna. É um milagre: simplesmente poesia em um italiano iluminoso.” 
- Giuseppe Ungaretti (alla RAI – 1960)


“Na longa fala de sua importante obra, Marly vem tecendo e consagrando os seus próprios mitos fundamentais. Desde o primeiro livro de poemas, dos 14 já escritos, ela trabalha e retrabalha uma só iluminação central, multiplicada e projetada sobre horizontes de significados que tanto mais se alargam quanto mais nítida, precisa e despojada se torna sua peculiar dicção.”
- Mário Chamie


AMIZADES LITERÁRIAS E FAMÍLIA

Casamento Marly Oliveira e Lauro Moreira e os padrinhos Clarice Lispector e Manuel Bandeira

Nélida Piños, Clarice Lispector Marly de Oliveira - foto: (...)


Marly de Oliveira e Giuseppe Ungaretti.


Marly de Oliveira e Manuel Bandeira


Rubem Braga, Tonia Carreiro, Marly de Oliveira e João Cabral de Melo Neto 

Lygia Fagundes Telles, Marly de Oliveira e Olga Savary

Christina Oiticica e Marly de Oliveira
Marly de Oliveira e João Cabral de Melo Neto
Marly de Oliveira e Lygia Fagundes Telles
 Grande Otelo e Marly  Oliveira 

As filhas Mônica e Patrícia Moreira
A vida natural - I
Aqui e agora a vida recomeça
das plantas, aves, nuvens cristalinas,
num presente que vejo e não alcanço,
que sinto e não entendo, presa a essa
forma de amar, que vai às fundas minas,
onde se é no tempo sem descanso,
e se tem, ouro vivo, em cada flanco,
o silêncio escorrendo como a neve,
que desfizesse a luz de alguma chama,
ou o ardor do que ama,
e por amor na mesma neve ferve.
Assim, se o que me é dado se me escapa,
ainda mais o real presente escapa.

O divino real, que é cada coisa
no seu lugar, que é sempre aqui e agora,
e inteiros solicita o corpo e a alma;
o divino imediato, em que repousa
tudo aquilo que vive e que tem forma,
ou não a tem, diluída na água clara
do disperso pelo ar, a imensa, calma
fonte que verteo nu. Olho-me longe
desse perfeito hoje, desse uno
presente, pelo muito
imaginar, andando terras, onde,
se se pode cair no inferno vivo,
se foge ao atual, divino vivo;
se foge à integração nesse absoluto,
que é a direta experiência do que existe,
para tão parcos olhos excessivo
clarão, sons inaudíveis, altos, bruscos
movimentos que escapam ao limite
do nosso entendimento possessivo.
Assim me perco, assim não divinizo
o que é substância em mim divinizável,
o de onde estou contemplo em desamparo
o êxtase puro, o vasto
império do que vive sob o grave
jubiloso silêncio que há em tudo,
ou se transforma em tudo nesse tudo.
- Marly de Oliveira, em "A vida natural". Rio de Janeiro: Literatura, 1967.


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Marly de Oliveira - foto: Agência O Globo (1987)

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REFERÊNCIAS E OUTRAS FONTES DE PESQUISA
:: Alguma Poesia
:: Antonio Miranda
:: A Poesia de Marly de Oliveira (blog)
:: Quincasblog (Lauro Moreira)

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FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Marly de Oliveira - a poeta. Templo Cultural Delfos, julho/2015. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 5.7.2015.




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