Deborah Brennand - a poeta

Deborah na Oficina Brennand - foto: Teresa Maia/DP/D.A Press

"Eu não sei porque comecei a escrever poesia. É uma questão de sobrevivência. O pássaro sabe porque voa? Não. Então também não sei [porque escrevo]."
- Deborah Brennand, em "Letras verdes", 2002.


Deborah Brennand nasceu em 12 de fevereiro de 1927, no Engenho da Lagoa do Ramo, município de Nazaré da Mata PE - faleceu 26 de abril de 2015, em Piedade - bairro de Jaboatão dos Guararapes, no Grande Recife PE. Estudou em Recife, capital do estado de Pernambuco mas não terminou o curso de direito. Casou-se com Francisco Brennand um dos artistas plásticos brasileiros de maior fama internacional. Dedicou-se à poesia e ao convívio cultural nos anos de 1960 e 1970, durante o movimento armorial (presente no cordel), liderado por Ariano Suassuna. Desse movimento participaram poetas, romancistas, pintores, compositores e outros artistas. Foi um movimento de renovação da literatura e da arte em geral, que coincidiu e confundiu-se com o surgimento da geração pernambucana de artistas de 1965. Dentro desse contexto a poesia de Deborah ganhou seu lugar seguindo a linha órfico-mítica, onde o poeta se assume como um novo orfeu cujo tema não é só revelar as belezas da Terra mas também tentar ligar o homem aos deuses, como que desejando fazer o reencontro do homem consigo mesmo, em sua solidão, longe das cidades em comunhão com a natureza.
Deborah Brennand, obra de Roberto Ploeg (2008).
O claro-escuro que se vê na poesia de Deborah nos é mostrado de um lado como a beleza e a grandeza do espaço vital e do outro as sombras, a sensação de abandono e morte, que está presente em tudo.
Em seu primeiro livro, O punhal tingido ou O livro de horas de D. Rosa de Aragão, 1965, Deborah traz a presença da morte e uma possível salvação através do sagrado. Segue-se a publicação Noites de sol ou as viagens do sonho, 1966. Na obra Claridade, o claro-escuro da autora fica mais nítido onde a autora tem a certeza que após a noite destruidora surge um dia restaurador.
Em 2006, foram lançados dois filmes inspirados na obra de Deborah, ambos dirigidos pela cineasta Deby Brennand Mendes, neta da escritora: Letras verdes, um documentário sobre a vida e a obra, e Tantas e tantas cartas, uma ficção baseada no livro homônimo.
ocupou a cadeira de número 37 da Academia Pernambucana de Letras (APL).
A poesia de Deborah mostra um mundo cheio de contradições.
:: Fonte: AllAboutArts (informações incluídas e atualizadas pelos editores desse site).



OBRA PUBLICADA
Poesia
:: O punhal tingido ou O livro das horas de D. Rosa de Aragão. Recife: Departamento Gráfico do Jornal do Commercio, 1965, 115p. 
:: Noites de sol ou As viagens do sonho. Recife: Departamento Gráfico do Jornal do Commercio, 1966, 152p. 
:: O cadeado negroRecife: Editora Universitária/UFPE, 1971.
:: Pomar de sombra. Recife: Editora Universitária/UFPE, 1995.
:: ClaridadeRecife: Edições Bagaço, 1996.
:: Maçãs negras. Recife: Edições Bagaço, 2001, 78p.
:: Letras verdesRecife: Editora Universitária/UFPE, 2002, 81p.
:: Folhagens. Recife: Travessa dos editores, 2002, 42p. 
:: Tantas e tantas cartasRecife: Universitária/UFPE, 2003, 211p.
:: Poesia reunida de Deborah Brennand. [Organização e prefácio Lucila Nogueira Rodrigues; posfácio Márcio de Oliveira]. 1ª ed., Recife: Companhia Editora de Pernambuco - CEPE, 2007, 707p.

Antologia [participação]
:: Estação Recife: coletânea poética - II (poetas da edição: Deborah Brennand, Domingos Alexandre, José Rodrigues de Paiva, Lenilde Freitas, Majela Colares, Marco Polo Guimarães, Maria de Lourdes Hortas, Sebastião Vila Nova e Wilson Araújo de Sousa).. [organização Everardo Norões, José Carlos Targino e Pedro Américo de Farias]. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife, 2004, 115p.




Deborah Brennand - foto: Alexandre Belém - Acervo JC Imagem

POESIA ESCOLHIDA DE DEBORAH BRENNAND

A visita
Longos e longos anos esperei uma visita,
mas só os ramos agitaram a ventania.
Disseram-me - o longe é sem fim.
Todavia, voltei àquele bosque
e lá só estava uma lua de cinzas.

Redisse então tudo o que foi dito:
o nome de flores clandestinas
À mais funda das raízes eu disse
- ermos são de almas vivas
e toda volta é um descaminho.

Felizmente, só estava no bosque uma lua de cinzas.
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.



Anjo da noite
Dá-me a ilha de Samos como brinde de noivado
- Bengierd 

E sendo o ser todo ser
eu, vetusta ou jovem lusa,
dei o meu olhar de claridade
à vastidão única das brumas
e só no coração uma saudade
era de havidos campos,
campos quase não vistos,
ó enamorado de minha formosura.

Sombria ou ruiva foi a cabeleira
o pouso da coroa em garras.
Abutre no alvor da minha fronte
cravando unhas de diamantes
assim em disse que as mulheres
não deviam usar trajes escarlates.
Talvez dez dias e oito noites passassem
nas distantes florestas de Lorvão.

E o meu reino era cinzento em culpas,
o meu legado agouro e mal.
Ó enamorado da minha póstuma formosura,
por que de mim tão pouco sabes?
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.



Deborah Brennand
Claridade
Afortunados são os bosques
onde sem bridas
a luz campeia
entre as folhagens

suas crinas douradas

Tão leve se lustra a água
na medida exata
que os rebanhos bebem
junto às raposas

sem temor selvagem.

Por que só a mim discrimina a claridade?
- Deborah Brennand, em "Claridade". Recife: Edições Bagaço, 1996.


Cruel mensagem
Morto foi o sonho de um jardim
Por um verão servil, de cruel mensagem
E eu vi raízes, a vida agonizando,
Na lâmina acesa de um punhal.

Os musgos, as heras, as papoulas,
Manchavam a grama seca.
E lírios, junto ao sangue das rosas,
Magoados eram o pasto

De cavalos alheios e famintos.
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.



De amarelo
Hoje devo me vestir de amarelo:
espantar os olhos negros da solidão,
tal a luz do girassol de ouro dourado
que abre pétalas iluminando nuvens.

Quem saberá (nem ela mesma) o artifício
usado para enganá-la? Sonhos? Jardins?
Não digo. Hoje me visto de amarelo
e vou, nos ramos, entoar da ave o canto.

Quero espantar olhos de solidão
que vem das grutas e abandona montes
para comer a relva rubra do meu coração.
Mas hoje, de amarelo, espantarei a fera


Fugindo, à procura de outra vítima:
Quem sabe, a mata?
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.


Declaração de amor
Ontem disseste
sisudo, como todo saber
— Esta flor é da família das violáceas
o nome correto é — violeta tricolor.

Eu disse — é amor perfeito...

Amarelo e roxo
salpicado de negror
severamente reclamando
gotas de terra nas folhas.

Pensei — será isto perfeito?
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.


Meu bem
A noite não é uma vela
negra e sem lume,
não é um cacho de uvas
sombrio no parreiral.

Não é aquela borboleta
com asas escuras na mata,
menos ainda é um túmulo
com estrelas douradas.

A noite é, meu bem,

só a origem da claridade.
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.


Não é crime
O degredo das flores
da umidade da mata
para uma varanda acesa
em arcos verdes

É permitido.

Atar os ramos em sombras?
e desatá-los na colina
ou varrer as cinzas de fogueiras
Na clara tarde de março

Ainda, ainda

Mas aquele pássaro voltando
querendo entrar na gaiola
já do lado de fora, do lado das rosas
é uma afronta às nuvens e à brisa.

Assim, matá-lo não é
Crime.
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.


O punhal tingido
Não estremeças a mão
Desmancha ferozmente, igual ao vento,
Estas pétalas de sangue, ainda vivas,
Armadas na desordem de uma flor.

Quem fui? Que sou?

Agora, um senhora antiga
Que na tarde silenciosa de abril,
Borda sonhos na forma
De perfeita e sangrenta rosa.

E tu quem és agora?
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.


Prisão
Vencendo muros de pedras
Flameja do sol o brasão
Ó real castelo em dia aceso,
Ó ruivas folhas do soberano verão
Ó tempo não apertes a corrente
Do meu sonho já agonizante
Crestada é a terra e perto
Deságua um rio de sangue
Na pastagem morta

Do meu coração
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.



Sempre
Assim, além da cerca, eu espero,
O quê? Não sei. Espero.
Embora só o vento chegue
todo arranhado, em gemidos,
caindo e já sem sentidos

Jogue aos meus pés as folhas secas.
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.


Sempre algumas léguas restam
Em todos os sítios
o vento arranca as folhas secas.

Assim, também é certo
a cerca, mesmo caindo, seguir a terra.

Só o rio desata nós de água
em ramalhetes de pedra.

E sempre algumas léguas restam
para chegar ou partir

na claridade dispersa.
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.



Sem preconceito
Senta no primeiro degrau
o mais baixo, todo esmagado,
onde a pedra se une à terra
sem preconceitos.

Ambas têm veios negros.

E sê atenta aos sinais
a alma é muda. Mas,
o coração entende
e traduz bem

o que ela diz calada.

Escuta e sê atenta
lodo e escorpiões
juntos nas frestas
fingem amorosa inocência.

Sem preconceito, são inocentes?
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.


Só alguns cravos
Nada sei de tílias e carvalhos
agapantos, tulipas, jasmins do Cairo.
Conheço bem urtiga, as locas, o mato
algemas de cipós, liana em laços.

Por sorte, só por sorte ainda guardo,
naquele pote a colônia macerada
— dói a alma, dói e não passa —
lembrando a timidez dos bredos selvagens.

E, agora para enfeitar uma casa
alva casa entre gramas sem trato
vôo pousado, varanda em asas
eu escolhi, só alguns cravos.

Cravos sem sangue, mas... encarnados.
- Deborah Brennand, em "Poesia reunida". 2007.



Você só diz
O que eu não quero ouvir.
Não fala de uma ilha
onde nasce um rio
que deságua céus.

Não lembra caminhos
indo, indo se esconderem
em matos e pedras.

Não ergue o facâo do sol
e faz zunir centelhas
nas alamedas do estio.

Nem traz assombros
de ramagens na noite
pisando o carmim das flores.

Você só diz – Eu te amo.

Assim não dá, é pouco
muito pouco para se levar a vida.
- Deborah Brennand, em "Folhagens". Recife: Travessa dos Editores, 2002.



DOCUMENTÁRIOS
Documentário: Letras verdes
Capa Letras Verdes, o filme
Sinopse: Letras Verdes é um convite ao universo da poetisa pernambucana Deborah Brennand. O documentário resgata momentos de sua vida e obra e provoca o reencontro da escritora com o Engenho de São Francisco, local onde viveu por quase 40 anos, cercada pela natureza, sua principal fonte de inspiração. A poesia de Deborah nasce de um pássaro, uma folha, o ar....através de seus versos um mundo sublime é revelado.
“A poesia existe em tudo, ela é viva em todo lugar” 
- Deborah Brennand e Julliane Carmo.
Ficha técnica
Ano: 2006
Duração: 26 min.
Formato: 35 mm e DVD
Direção: Deborah Brennand Mendes e Julliane Carmo
Produção executiva: Malu Viana Batista
Direção de produção: Mariana Brennand Fortes
Roteiro: Deborah Mendes
Direção de fotografia: Jane Malaquias
Direção de arte: Renata Pinheiro
Som direto: Roberto Carlos
Montagem: Lessandro Sócrates
Edição de som: Fábrica Estúdios
Mixagem de som: Vox Mundi
Trilha sonora: Rodrigo Coelho e Fernando Almeida
Still: Celso Pereira Jr
Coordenação de Produção: Chrystiane Cruz
Personagens: Deborah Brennand, Francisco Brennand, Ariano Suassuna, César Leal e Nelly Novaes Coelho
Produção: Mariola Filmes/Recife.
Coprodução: Pacto Audiovisual/São Paulo.


Documentário: Tantas e tantas cartas
Sinopse: O filme Tantas e Tantas Cartas é baseado na obra homônima da poetisa pernambucana Deborah Brennand. Aborda um universo lírico e feminino. São cartas familiares enlaçadas de poemas, recusando limites do tempo, onde a prosa e a poesia estão contidas numa literatura simples e bucólica. Não fala de crimes, conta alegres mentiras, deixa a verdade entre o não e o sim, aceita a morte na vida, diz que o paraíso é lindo, acha que o amor existe… Resgatando a simplicidade na natureza. Enfim, quando sonhar já é difícil, dá para distrair.
Ficha técnica
Ano: 2006
Duração: 18 min.
Formato: 35 mm e DVD
Direção e roteiro: Deborah Brennand Mendes
Produção executiva: Malu Viana Batista
Direção de produção: Mariana Brennand Fortes
Coordenação de produção: Chrystiane Cruz
Direção de fotografia: Jane Malaquias
Direção de arte: Renata Pinheiro
Som direto: Roberto Carlos
Montagem: João Maria
Edição de som: Fábrica Estúdios
Mixagem de som: Vox Mundi
Trilha sonora: Rodrigo Coelho e Fernando Almeida
Projeções e arte gráfica: Gilberto Bezerra / Estúdio Zero
Still: Celso Pereira Jr.
Produção: Mariola Filmes/Recife.
Coprodução: Pacto Audiovisual/São Paulo.


Francisco Brennand e Deborah Brennand, anos 1950


FORTUNA CRÍTICA DE DEBORAH BRENNAND
Deborah Brennand - foto: APL/Divulgação
ACCIOLY, Marcus. A poeta Deborah Brennand. em 'Domingo com poesia'. Disponível no link. (acessado em 1.5.2015).
COELHO, Nelly Novaes. Deborah Brennand. Dicionário crítico de escritoras brasileiras: 1711-2001.São Paulo: Escrituras, 2002. Disponível no link. (acessado em 1.5.2015).
D'OLIVEIRAMárcio. Deborah Brennand. In: interpoetica. Disponível no link. (acessado em 1.5.2015).
OLIVEIRA BEZERRAMárcio de.; RODRIGUES, Lucila Nogueira. O papel da imagem lírica de Deborah Brennand. XV CONIC - Congresso de Iniciação Científica da UFPE, 29 a 31 de outubro de 2007. Disponível no link. (acessado em 1.5.2015).
SIMOES, Ricardo Japiassu. A mãe da poesia - Deborah Brennand. Jornal do Commercio, 2001.
SIMOES, Ricardo Japiassu. O Canto Selvagem de Deborah Brennand. Suplemento Cultural do Diário Oficial do Estado de Pernambuco, Recife, 1 jun. 2006.



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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Deborah Brennand - a poeta. Templo Cultural Delfos, maio/2015. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 1.5.2015.




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