As travessuras de Juca e Chico (Max e Moritz)


BUSCH, Wilhelm. Juca e Chico. História de Dois Meninos em Sete Travessuras
Tradução: BILAC, Olavo. 11ª edição São Paulo: Melhoramentos, s/d.

PRÓLOGO
Não têm conta as aventuras,
As peças, as travessuras
Dos meninos mal criados...
- Destes dois endiabrados,
Um é Chico; o outro é o Juca:

Põem toda a gente maluca,
Não querem ouvir conselhos
Estes travessos fedelhos!
- Certo é que, para a maldade,
Nunca faz falta a vontade...
Andar pela rua à toa,
Caçoar de uma pessoa,
Dar nos bichos, roubar frutas,
Armar brigas e disputas,
Rir dos homens respeitáveis,
São coisas mais agradáveis,
Que ir à escola ou ouvir missa...
Antes a troça e a preguiça!
- Mas nem sempre a vadiação
Acaba sem punição...
Lede esta história: e, depois,
Vereis a sorte dos dois.


PRIMEIRA TRAVESSURA
Todos gostam afinal,
De ter aves no quintal:
As galinhas, bem nutridas,
Põem ovos, quando cozidas
Ou assadas, no jantar,
São gratas ao paladar;
Servem para encher almofadas
Em cujo macio encosto
A gente dorme com gosto...



Aqui está a viúva Chaves,
Que também gosta de aves,



Galinhas tinha ela três
E um belo galo francês. -
Ora, ao Juca, e ao Chico, um dia
Ocorre uma estripulia.
- Que fazem os dois madraços?
Amarram quatro pedaços
De pão, nas pontas distantes
De dois sólidos barbantes,
E ao vir a noite, ao sol posto,
Deixam tudo isso, disposto



Em cruz, defronte das aves,
No quintal da viúva Chaves.



O galo, rei do quintal,
- Cocorocó - dá sinal:
Depressa, cacarejando,
Vêm as galinhas em bando...



E os quatro, sem reflexão,
Comem as iscas de pão!



É tarde pra refletir...
Puxam... não podem sair,
Coitadinhos, do lugar!



Toca a puxar, a puxar...
Porém, quanto mais trabalham,
Mais penam, mais se atrapalham.


Até que desesperados,
Voam, e ficam pegados
A um galho seco. Que horror!



Perderam as forças e a cor;
Ficam roucos, fazem só,
Quase sem voz: quó...quó...quó



E cada um deles, depressa,
Na agonia que começa,
Põe um ovo ainda ao vento,
E exala o último alento!



Mas a viúva, que dormia,
Ouve os gritos de agonia:



Que pressentimento! Sai...
Chega ao quintal...E diz .. Ai!



Ai! Que amargura! que espanto!
Corre dos olhos, meu pranto!
A esperança mais querida,
Mais bela da vida,
Eu vejo, como um bugalho,
Pendente daquele galho! ..



Aflita a pobre senhora
Arranca os cabelos, chora...
E por fim, as cordas corta,
Para que a família morta



Não fique dançando ao vento,
Naquele aborrecimento!
- Foi a primeira dos dois...
Houve outra logo depois:


SEGUNDA TRAVESSURA
Custou... enfim à alma
Da viúva voltou a calma.
Põe-se a pensar comovida:
- .. Não posso mais dar a vida
Aos defuntos que tão cedo
Se foram deste degredo...
Que ao menos passam, assados,
No estômago sepultados,
Descansar de tanta mágoa! ..
- E enchendo-se-lhe os olhos d´água,
Vendo no fogão, sem penas,
Aquelas aves serenas,
Aqueles entes que, outrora,
Da vida ainda na aurora,
Ciscavam com ar jovial
No jardim e no quintal!



Chora a viúva com dó...
E assiste a tudo o Totó.
Mas o Juca, lambareiro,
Diz ao Chico: .. Companheiro!
´Stá cheirando a frango assado...
Subamos para o telhado! ..



E sobem pé ante pé,
E olham pela chaminé,
E vêem lá embaixo as galinhas
Sem pescoço, coitadinhas,
Chiando na caçarola...
E que bom cheiro se evola!



Ora, com um prato na mão,
Desce a viúva ao porão,



Vai-se embora; e, sem cautela,
Deixa no fogo a panela.
Junto ao fogão, fica só
O vigilante Totó.
Se ela visse que perigo!
- Não se descuida o inimigo:
O Chico, que o prato cheira,
Tira um anzol da algibeira.



E zás! Na ponta da linha
Vem a primeira galinha...
E desce o anzol outra vez...
Cá estão duas! cá estão três!
Cá está o galo! - E, enquanto isso,
Num susto, num rebuliço,
Num pressentimento mau,
Ladrava o cão: Au! au! au!



Mas, o crime consumado,
Já velozes, do telhado,
Desce o Juca, o Chico desce,
E vão-se, antes que comece
A grita da cozinheira,
Que volta alegre e lampeira,
E fica pálida e fria
Vendo a panela vazia:



Vazia!... Foram-se as aves!...
..Totó.. - diz a viúva Chaves -



.. Ladrão! De ti vou dar cabo!
Espera, cão do diabo!..



E, com a colher de pau,
Sova o cachorro... .. Au! au! au!..
Grita ele, como o holandês,
Pagando o mal que não fez.



E os culpados da ação feia
Dormindo, com a pança cheia,
- Tão cheia que se relaxa,
Tão cheia que quase racha!...

Foi a segunda dos dois...
Houve outra, logo depois:


TERCEIRA TRAVESSURA
Havia um homem na aldeia,
Alfaiate de mão-cheia.



Jaquetas para serviço,
Fraques de bolso postiço,
Calças, roupas domingueiras,
Coletes com algibeiras,
Paletós-sacos de alpaca,
Rabona ou sobrecasaca,
Blusa, capa, sobretudo,
Casaca de rabo, - tudo
Sabia fazer com arte
O alfaiate Brás Duarte.
Roupas velhas consertava,
Diminuía, alargava,
Se aparecia um rasgão,
Ou se caía um botão
De diante ou de detrás,
Vinha com agulha o Brás,
Enfiava-a, dava um ponto,
Dava uma laçada e ... pronto!

De sua casa defronte,
Havia um rio: uma ponte
De tábuas o atravessava
A água espumava... estrondava...



O Chico e o Juca engredaram
Nova maldade: serraram



Raque...raque... a ponte estreita,
E foram se pôr à espreita.


Depois, numa gritaria:
..Cosedor de fancaria!



Sai, alfaiate caipora!
Cara de bode! pra fora
Mé! mé! mé .. - Ora o coitado,
Que tudo sofre calado,
Apenas sofrer não pode
Que o chamem cara de bode...



Empunha o côvado... À ponte
Voa, escutando defronte,
Os dois, de uma moita ao pé
..Cara de bode! mé! mé!..



Chega à ponte. Mas... traraque!
Quebra-se a tábua. Que baque!



E os dois: .. mé! mé! mé!.. e Brás
Bumba! n´água... Catatraz!
Eis justamente que um par
De gansos vem a nadar...



O Brás, pra não ir À garra,
Às pernas deles se agarra,
Às penas deles se aferra,



E vai voando pra terra.



Mas dessa maneira,
Não pensem que é brincadeira...






O pobre do Brás que o diga:
Que horrenda dor de barriga!



Porém, por felicidade,
Tinha grande habilidade
A esposa de mestre Brás:
Pegou do ferro, e zás-trás!



Deu-lhe uma engomação forte,
E o Brás escapou da morte.

Foi a terceira dos dois...
Houve outra logo depois:


QUARTA TRAVESSURA
Na vida, para ser homem,
Não basta aprender a ler:
Porque também é preciso,
Além do a-bê-cê, o juízo,
Não basta saber somar,
Dividir, multiplicar:
Para ter calma e medida,
Também é preciso, penso,
Tomar lições de bom-senso...



Para isto, existe na aldeia
O senhor Mestre Gouveia,
Que, além de mestre escolar.
É sacristão do lugar:
- Mas os nossos dois vadios
De todo o estudo arrediso,
Sempre preferem à escola
A travessura e a graçola.
Só tinha um vício o Gouveia.
Mas não era coisa feia:
Era o cachimbo. Acendia,
Depois do labor do dia,
Não um modesto cigarro,
Mas um cachimbo de barro,
E tinha sonhos afáveis...
- Chico e Juca, enfatigáveis
Na sua perversidade,
Armaram nova maldade.



Num domingo, o sacristão
Estava, por devoção,
À missa, na igreja calma,
Tocando o órgão com alma...
Os dis, que não perdem vaza,
Vão do mestre-escola à casa.



Segura o cachimbo o Chico;
E dentro do traste rico
O Juca, bicho daninho,
De um pesado polvarinho
Toda a pólvora despeja...
- Badala o sino da igreja.



Agora, toca a fugir,
Que o mestre não tarda a vir!
Na igreja, a missa findara.
Gouveia a porta fechara,
E vinha com modos graves,
Com as luvas, o livro, e as chaves.



Chegou. A roupa mudou.
Da prateleira tirou



Do seu cachimbo adorado,
E disse, refestado:



.. Neste mundo não há nada
Melhor que uma cachimbada! ..



Bum! Com medonho estampido
Voa o cachimbo partido!
Copo, mesa, cafeteira,
Tinteiro, fogão, cadeira,
Roupas, livros escolares,
Vai-se tudo pelos ares!



Ao dissipar-se a fumaça,
É que se vê a desgraça...
Vive o sacristão, coitado!
Mas, santo Deus, em que estado!



Queimada pela raiz
A cabeleira; o nariz,
A boca, o queixo pontudo,
Olhos, mãos, dedo, e tudo,
Tudo assado, tudo fusco,
Tudo cheirando a chamusco!
Quem agora, ó Providência,
Há de servir à Ciência?
Quem há de, na igreja calma,
O grande órgão com alma
Durante a missa tocar,
E o Te-deum acompanhar?
E como é que há o Gouveia
Cachimbar depois da ceia,
Se o pobre cachimbo seu
Já foi cachimbo, e ... morreu?!



Foi essa a quarta dos dois...
Houve outra logo depois:


QUINTA TRAVESSURA
Meninos! Quem tem um tio
(Eu já tive um e perdi-o)
Deve trazê-lo amimado,
E ter com ele cuidado,
E estar sempre ao seu serviço,
Porque os tios gostam disso.
- De manhã deve saudá-lo,
Dar-lhe bom-dia abraçá-lo,
Pedir-lhes as ordens e logo,
Trazer-lhe o cigarro, o fogo,
O chocolate, os jornais,
O leite, o café, e o mais.
- Quando ele nas costas sente
O comichão inclemente,
Deve coçá-lo o sobrinho,
E esfregá-lo com carinho,
E aturar-lhe toda a birra;
E dizer, quando ele espirra:
Dominus-tecum! - Enfim,
Ao tio, assim como assim,
Custe lá o que custar,
Deve o sobrinho agradar.
Nem todos sabem, porém,
Preferir ao mal o bem:
Armaram-se o Juca e o Chico
Contra o tio Frederico.
Sabeis que o besouro é inseto
Que sempre, esperto e inquieto,
Pela árvores, à toa,
Corre, anda, voa e revoa...


Os dois patifes, um dia,
Vão à horta: a ramaria



De uma mangueira sacodem,
E quantos besouros podem



Apanham dos mais gorduchos,
Metendo-os em dois cartuchos;



E vão- que lembranças aquela!
Escondê-los com cautela
Sob o lençol alvadio
Da cama do pobre tio.



Aí chega da cama o dono,
Tonto, caindo de sono;
Sopra a vela bocejando,
E, a carapuça enfiando,
Acomoda-se à vontade,
E dorme como um abade...





Mas, zim! zum!... que multidão
De insetos sai do colchão,
Um a um, com passo incerto!
_ Um deles, ágil e esperto,



Chega à cara do infeliz,
Bem na ponta do nariz...



.. Irra! Que é isto?!.. - acordado,
Grita o tio horrorizado.



Pega o bicho, e dá um salto
Da cama, num sobressalto...



.. Ai! ai!.. E começa a guerra:
Um bicho as pernas lhe ferra,
Um por baixo, outro por cima!



E ele grita e se lastima,
De besouros atacado
Por um e por outro lado.



Também, quanto assassinato!
Que estrago! Que desbarato!



Pula o tio, sapateia,
Dá de braços, esperneia.
Fica o chão ensanguetado,
De cadáveres juncado:



E o vencedor desse povo...
Pega no sono de novo.

Foi essa a quinta dos dois....
Houve outra logo depois.


SEXTA TRAVESSURA
Chegou a Semana Santa.
Há tanta encomenda, tanta,
Que andam todos ligeiros
Padeiros e confeiteiros...



E o Juca e o Chico namoram
Os doces, e quase choram.
Mas, como entrar, se, matreiro,
Fechara a porta o padeiro?



Só há um meio. Qual é?
Entrar pela chaminé!



Tudo depende de jeito...
E pronto! Foi dito e feito!
Vêm os dois num trambolhão,
Mais pretos do que carvão.



Mas, paf! - ó sorte mesquinha!
Caem dentro da farinha.



E ei-los, dos pés ao nariz
Todos brancos como giz,



Atirando-se gulosos
Aos biscoitos saborosos.



Zás-trás! Parte-se a cadeira!
Vem a penca labareira,



Por cúmulo da desgraça,
Mergulhar dentro da massa!



Vejam só que cataplasmas!
Até parecem fantasmas!



E entra o padeiro... É agora!
Soou a última hora!



E, como por encanto
Transformam-se em pães, - enquanto
O diabo esfrega o olho, -
Um pimpolho e outro pimpolho.



Eia! Ao forno para assar!
Ninguém os pode salvar...



E aí estão os dois acabados,
Cheirosos, louros, tostados.



.. Era uma vez! Afinal... ..
Dirão todos.- Porém, qual!



Rap...rap... Os dois diabinhos,
Como dois ratos daninhos,
Roem a casca do pão,
E safam-se da prisão.


Foi essa a sexta dos dois...
Houve outra logo depois:


ÚLTIMA TRAVESSURA
Ai de ti, ó súcia arteira!
Vai ser esta a derradeira!



Também, por que é que nos sacos
Foram abrir dois buracos?...



Aí vem o dono do trigo,
E leva os sacos consigo.



Porém, mal começa a andar,
Começa o trigo a escapar...



E ele: .. Oh, diabo!este saco
Deve ter algum buraco!..



E volta-se: e num instante
Apanha os dois em flagrante.



.. Olá! Que boa colheita!
Não me escapais desta feita!..



Lá vão eles, a caminho
Da morte... isto é: do moinho.



- .. Mestre moleiro, bom dia!
.. Trago-lhe a mercadoria
.. Mais cara que há no mercado!
.. Quero isto já bem passado!..



.. Quero isto já bem moído!..
- .. Pois não! Já vai ser servido!..



Raque... raque... a trabalhar,
Põe-se o moinho a rodar...



E aí tendes os dois meninos,
Em grãos tão finos, tão finos,



Que sõ logo devorados...
- E os dois gansos esfaimados



Nunca em toda a sua vida
Viram tão boa comida!

CONCLUSÃO
Quando se soube a notícia,
Não se abalou a polícia;
Ninguém os dois lamentou
Na vila; ninguém chorou.
- Recordando as suas aves,
Murmurou a viúva Chaves:
.. Eu logo vi... ..- O alfaiate,
Dando a uma calça o remate,
Suspirou: .. Fez-se justiça! ..
- O mestre ajudando `a missa,
Sentenciou: .. A maldade
Não tem o fim da bondade... ..
-O bom tio Frederico
Disse: .. Meu Juca! Meu Chico!
A vadiação não faz a lei...
Bem que eu vos aconselhei!..
- .. Bem feito! .. disse o padeiro;
E, indiferente, o moleiro:
.. Eu cá fiz o meu serviço,
Não tenho nada com isso... ..
- Em suma, por toda a vila,
Livre de dois e tranqüila,
Reinou a paz afinal...
Mais nada. Ponto final!


MAX E MORITZ
Wilhelm Busch
Um dos maiores clássicos da literatura infantil da Alemanha está fazendo aniversário. Há 147 anos, em 4 de abril de 1865 foram publicadas pela primeira vez as travessuras de Max e Moritz (no Brasil transformados por Olavo Bilac em Juca e Chico), obra escrita e ilustrada pelo pintor, desenhista e poeta alemão Wilhelm Busch.

Precursoras das histórias em quadrinhos, as traquinagens dos dois meninos foram publicadas em Munique, tornando-o famoso no mundo inteiro. Baseado na infância de Busch, o texto que acompanha os desenhos é todo em versos, no Brasil traduzidos pelo poeta Olavo Bilac, que batizou os dois meninos traquinas de "Juca e Chico".

"Busch retratou com ironia a burguesia bem comportada, fazendo uma sátira mordaz dos livros infantis de sua época", analisa o professor Walter Pape, da Universidade de Colônia, estudioso do autor natural de Wiedensahl, na Baixa Saxônia. Na época, a obra encontrou pouca repercussão, e apenas uma publicação para professores, da Prússia, tomou conhecimento dela. Entretanto, a fama do autor de Max und Moritz cresceria lentamente.

O autor
Heinrich Christian Wilhelm Busch (Wiedensahl, 15 de abril de 1832 — Mechtshausen, 9 de janeiro de 1908) foi um influente poeta, pintor e caricaturista alemão, famoso pelas suas histórias satíricas ilustradas com textos em verso.
__________
Originalmente publicado no site: UNICAMP - Memória (Literatura Infantil)



© A obra é de domínio público

© Seleção e organização: Elfi Kürten Fenske

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Página atualizada em 11.7.2012.



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