Orlando Costa Filho - o poeta e o mistério das palavras



(Ilustração - autoria não identificada)

"Tenho dois olhos d'água
nascedouros dos rios em que nadam minhas dores.
Lambem minha face e eu, seus sabores.
Mas deixa estar,
ainda que seus cursos sejam sinuosos,
deságuam na foz da esperança."
- Orlando Costa Filho, excerto do poema "Mar picado".


"...nem sempre o poema se escreve – vive-se-o
em meio a lótus e grilos, vamos
para muito além...
... do canto das cigarras!"
- Orlando Costa Filho, excerto do poema "Além do canto das cigarras".

POEMAS ESCOLHIDOS

Vincent Van Gogh
Coração de Argila
As terras que empinam suas florestas
que amparam seus frutos e são cingidas por rios
que as cortam ou delas recebem o caminho
para a vastidão e profundezas oceânicas
e sustentam os passos dos homens
os velocípedes das crianças
e guardam lagos e bosques
têm sua porção anímica.

Gritam em silêncio e sangram sofridas
(e há quem pense que se calam sem lingua
sem voz)

trazem em si seus minerais
compostos atômicos que se aglutinam
com férrea solidez
de milênios em milênios com peculiar paciência
e delicadeza
transformadas
brincam de farelos ao vento e ao contato com a irmã-chuva
se liquefazem...

Com meu coração se parecem que é de argila
sob chuva fina
molda-se no sereno...

pisado é resistente
humilhado em demasia escorrega
desbarranca
soterra
e cala pra sempre
o uivo canino
o gesto pérfido felino
o alambique das cachaças traiçoeiras
a intenção do punhal assassino

Mas ...
argila sob chuva fina que é
cuidadosamente também sustenta o roseiral
e permite-se ser todos os vasos de flores
no tempo certo da colheita
para ornar as janelas – a sua e as de todos - com as cores
e aromas
da estação que me sorriu esta noite.
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 5 mai. 2011).

Van Gogh
Quatro estações
primavera
manhã (ver)de azul
a epiderme da flor
é a própria canção
poema, palavras não
meu filho me acena
de cada frescor...

Ilustração autoria não identificada
verão
a bater-me à porta
pra alegria das cores
dos quadros retratos
seus olhos só riso
e neles o caminho
entre a fé e a convicção
o passado se perde
com todas as dores...

outono
vem com as folhas caindo
bem devagar
enchendo de ternura
seu caminho de volta
o sono vence a saudade
sua fronha mais o vento,
em paz, brincam no varal...

inverno
do limo do tempo
ressurge
ruge suas ondas e ventos
que envergam palmeiras
que perdem as estribeiras
fustigam-me a alma
atiçam-me a calma
em mais um desenlace...
- Orlando Costa Filho (Guarapari/ ES, 26 nov. 2000).

Oscar-Claude Monet
A vespa, o pólen, a flor
Chega, hora de parar...
Não quero ver-te verter súplicas aquosas
músicas melosas sem bossa sem brilho
que em meu surrado violão eu não mais dedilho
e nem versifico melodias capciosas...

Quero ver-te não verde, mas perder-te entre rosas
contigo compor um sagaz estribilho.
Músicas e letras, são os caminhos que eu trilho:
entoar estrofes de luz das mais majestosas...

Compreensível vida. Ó, poema sem fim!
Não percamos, pois, mais tempo. Por que insistir
verso primeiro... derradeiro... se não há?

Capturemos o aroma do puro jasmim,
eis o lençol em que haveremos de dormir.
Sou a vespa. E você, ...flor de maracujá.

Amor é passeio.
Paixão, ... arruaça.
O luar, prata fluida
escoa da pupila da noite
que pra nós se esgarça.

Faz festa na imensa taça
de mar,
candidamente e imune à
gravidade
flutuantemente
faz-se presente
paralisa o pensamento
paira sobre o leito
distribui contentamento
anuncia felicidade
eis a nossa Graça...

...luzes majestosas!
...sim, o luar...
Não quero ver-te verter
súplicas aquosas
definitivamente
hora de parar...
parar de chorar...
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 12 dez. 2010).



Edgar Degas

“O amor é um sonho alado: elegância e excelência de sons e imagens
Vês suas asas? Certamente que não! Mas vislumbras suas cores...
Amores que vêm, amores que vão, que trocam entre si tantos rubis
vermelhos de risos e dores, aromas e flores de um dia feliz.”
- Orlando Costa Filho, excerto do poema “As considerações sobre o amor”.



Soneto do amor nos apeninos
Devoro-te deliciosamente
Nas noites claras das mantanhas...
Pierre-Auguste Renoir
fazendo, por certo, minhas manhas
Pra ver-te acordar sorridente!!!

Devoro-te, sem mais nem menos,

Sem muita explicação.
Sobre coisas do coração,
Quanto mais se fala, fala-se menos!!!

Devoro-te com apetite

Como faz um menino
Quando tem o que ele quer...

Devoro-te e aceito o convite

Pra do cume dos Apeninos
Fazer-te inteira minha mulher!!!
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 8 mar. 2010).



"...O amor rompeu o hímen do Universo
e em suas coxas escorre a Via Lactea.
Meu coração explode de irreverência
e recusa-se a tomar conhecimento de cartilhas..."
- Orlando Costa Filho, excerto do poema "insensatez".


Van Gogh

Convite ...
Mulher, aqui está sua taça.
Mas espere! Não beba agora,
antes dancemos, ouça a música que rola;
a Billie, que tanto você adora,
depois o Ray, sem demora,
a Ella...
Deus, que linda
e decisiva hora!

Dancemos e tomemos
cada qual a mão do outro
face to face, scarpin em passos precisos,
junto aos meus que não se atreverão a lhe pisar
tudo em perfeito compasso de mágica espera
do que se está por revelar.

Venha
olhe meus olhos o quanto antes,
a queima roupa. Se os vir brilharem, quicá
qual faca amolada refletindo lua, sem piscar,
fixos nos seus, esqueça a ponta e também o fio
você não vai se machucar, antes permita-me
beijá-la,
ternamente.
Não resista,
não rejeite,
nesse caso meus lábios
contém o vinho da Divina safra.
Muito além daquela que vai na taça.

Se
o que há lá fora permanecer lá fora,
e cá dentro no peito um novo bater aflorar,
como um navio emerge da linha do horizonte
feliz, rumo ao cais
que dasabem pontes, que se dane tudo o mais
não desatraquemos do porto que é seguro,
eis o lençol azul com rendas brancas nas laterais...
Eu
a levo, esquerda direita, entre breves suaves pausas
envoltos por energética aura, muitas causas
nos farão perceber que juntos devemos permanecer
como duo de flautas transversais
(entretanto paralelas entre si)
inédita música trilharmos, ponto e contraponto
magnética, suave, contagiante, inédita...
seu ar, seu pão, seu vinho
eis o caminho...

Deixemos
a taça que lhe trouxe pra depois.
Há saliva suficiente pra trocarmos de excelente safra,
de novos tempos, sem contratempos.
Abrigada do vento sul de fio cortante vou te manter
não vou deixar cair dos seus olhos águas marinhas e safiras
a menos que você chore de prazer.

Vamos
dancemos, ouça a música que rola;
a Billie, que tanto você adora,
depois o Ray, sem demora,
a Ella...
Deus, que linda
será nossa estória!
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 21 e 22 agosto/2010).


Pablo Picasso
O universo copula
Eis que eu vi naquele dia
um pênis de luz disfarçado de raio
penetrar a vulva escura da noite nua.

De prazer
aquela noite chovia... arfava... gozava...
em lágrimas de chuva e em escandalosos trovões!

Dita noite, que nem sequer usava o baby doll lunar,
daqueles que exibem lantejoulas e purpurinas,
chacoalhava seus quadris em frenética salsa.

Jogava o mar para além das calçadas...
lambia as ruas desertas...
e fazia visagem ante o medo que tens

dos temporais...
E de tanto balançar suas ancas
noite e raios em cópulas astrais
o mar fudeu com a muralha do cais,

entorpeceu seus peixes e barcos
e o hímem complacente da madrugada em nuvens
cobriu os amantes de espanto que,
perplexos

não perceberam que o sexo
transcende o aconchego dos quartos
de mentiras sem nexo. Vai muito além
dos limites da cama e dos corpos.
Irrompe do mistério indevassável
das estranhas formas de amor existentes
nas entranhas do universo.
com suas leis
inderrogáveis
irrevogáveis
vem dos céus
onde não há pecado
onde não há conquista
onde não há entrega
antes
o curso das luzes
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 25 set. 2010).


Edgar Degas

"Naquela noite, encostado à árvore, duas lágrimas fluiram, cada qual por uma alameda que liga o coração ao globo ocular. Posicionaram-se no trampolim de cada um dos meus olhos. Tomaram posição, aguardaram e, quando segurei o grito, elas saltaram ornamentalmente, em câmera lenta, e fazendo piruetas, deram-se as mãos no ar. Amortecidas pela língua rubra e febril, sumiram por sua boca adentro, logo abaixo do meu umbigo... Agarrado a seus cabelos vi estrelas, todas silenciosas, em sinal de respeito e admiração!"
- Orlando Costa Filho "Brevíssimas estórias de duas lágrimas noturnas", (Castelo/ES, s/d.).


Van Gogh


Soneto cunilingual nº 1
Meu amor, por favor, ouça, me entenda
longe de mim desejar ficar nessa.
O tempo urge e adverte: vai, se apressa
há um rumo a seguir, aceite sua senda.

Plano A plano B, tudo é vã promessa
de quem amarela. Amor, não dependa
de aplausos alhures, me abra sua fenda
que minha língua intrépida nela ingressa.

Se esqueça do mundo, evite contenda.
Sua boca vermelha tremula confessa
o medo de vir a sofrer reprimenda.

Auto censura? Pra longe arremessa.
Seu falso pudor a cega, é venda,
cê sofre por ver que su’alma se engessa.
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, s/d).

Edgar Degas

Soneto cunilingual nº 2

Aliás, tenha em mente, a alma é um rio

flui em busca de um deságüe sublime.

O estuário é generoso, em nada oprime

receptivo confirma o que anuncio:



siga adiante, mesmo trancos e barrancos
inexoravelmente não a coíbem.
Tem virtudes, amiúde tem encantos
os céus à noite lhe dão vivas, não inibem.

Depois, naturalmente, entregue-se ao sono.
Sonhos refazem ofertam novos mundos.
Não, não frustre o seu querer, dama efusiva,

não se feche qual ostra. Viva o outono,
doe-se a mim. Estrelas giram enquanto inundo
seu precioso vale com minha saliva.

- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, s/d).




"... meu canto é triste silêncio
a forma mais sublime e eloquente,
eis que ao visar o cinza horizonte
lá estará o meu cantar contundente."
- Orlando Costa Filho, excerto do poema "Impressões de mim".



O verso final

Como dor de parto complicado

um grito surdo

nos porões infectados dum navio,

o costado chicoteado pelas vagas,

urrando pra manter-se no rumo,

singrando mares crespos com velas estufadas
em meio a ventania de sal molhado,
mastreação fora de prumo e o convés
infestado de olhares ansiosos,
marujos a espera de atracar n’algum porto seguro
nasce o meu poema,
sem que eu saiba exatamente
com que verso se inicia.

Mas sei que a tinta é rubra,
que tem imensurável métrica
e síncope desvairada de agonia.

Entrementes,
sobre a languidez dos passos que margeiam
sítios de amor e luz
há o homem que traz nos ombros
escombros de amores desfeitos, e no olhar
o assombro de ver o berço vazio em madeira clara,
aquele que um dia acolhera o filho
que hoje corre e canta em praças distantes.

Procuro com a ponta dos dedos
as palavras expostas nesse dicionário patético
e reuni-las na palma da mão
esculpir à sombra da paciência uma canção com nexo
cheia de suspiros líricos no hálito quase longe
de puro jasmim que me espera captá-lo
e tê-lo impregnado em meu poema.

Nas montanhas rochosas que cercam a cidade
que trazem-me noções do Eterno das profundezas da Terra
e clamam por chuvas pra estancar a pulsação
aliviar o castigo imposto pelo sol a pino,
imperceptível desde o primeiro século,
vejo tatuado nossos corações: fundidos pelo calor dos tempos,
áridos e endurecidos
mas sombreando um peito de mata,
conduzindo pelas feridas ainda visíveis
as águas que alimentam córregos, rios, vilas e vales,
lavam almas e bocas amargas,
juntam-se aos mares e evaporam,
e voltam como chuva nas montanhas
indo e vindo num eterno poema
como fazem nossas almas,
sem que eu saiba exatamente
onde estará o verso final.

- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, dez. 2000).


Van Gogh
Desperança
Meu sonho
pulou do trem e fugiu!
Ansioso por reencontrá-lo voltei – em vão.
Talvez
esteja perambulando entre indigentes
ou coberto de jornais sob um viaduto qualquer...

Sonho tem vida e quer realizar-se
exige talento e trabalho
de quem o tem. É pássaro
Cantante
Solto no tempo, abre as asas
ao vento
um
dia
vai,
outro
vem.

Todavia
o espelho me diz
meu nome é angústia
preciso de água
com gotas de astúcia.

No vácuo noturno
arrastando correntes
da cama pra janela
do quarto pra sala
da sala pra rua
dói-me a alma
prisioneira de si mesma.

Intensas batalhas há
na noite sem fim
quero vencer-me e
enterrar-me pra sempre.

Mas não encontro
o fio
da meada
o filete
o rio
pra lavar as feridas
entregar-me ao frescor
ir no fluxo
compreender que o amor
o sonho, o beijo
o filho, a flor
se me faltam me fazem
ser o que não sou...
- Orlando Costa Filho (Guarapari/ES, 24 nov. 2000).

Van Gogh

Inesquecível juventude em versos brancos
Estão por fim os garotos
Pablo Picasso
Decompondo em sete cores
Afinidades e amores
Num canto qualquer da tarde

Entre os beijos e o pomar
A torta rua de pedra
Onde um vento preguiçoso
Esvoaça seus pardais

Estão por fim os garotos
Assim vadios, assim bobos
Esculpindo suas vidas

Estou por fim vislumbrando
Um tempo antigo que voou
Da minha vista pra memória.
- Orlando Costa Filho (Rio de Janeiro, fev. 1986).



Até quando encontrar
jaz nos rincões do esquecimento
o eu fudido, partido e apartado
da calma, da paz...

hoje o meu jazz propaga-se de onde jazem
os campos psicodélicos de jasmim
jasmim dos poetas
- dentro de mim...

sou um mar com todas os jacentes e pélagos
cujas correntes fluem por entre arquipélagos
no pacífico, atlântico, índico
se evapora e alimenta
rios e lagos - todos
os de alhures e os daqui
de perto...

já não durmo de olhos abertos além de não ser mais certo
o deserto acordar sem você,
é veleiro o meu coração que navega com poucas regras e
não mais naufraga em você
e, por graças quaisquer, sei escrever
e cantar pra outra mulher
quando ou se houver...
do contrário interajo-me, canto-me
converso-me, convenço-me
em pacífica convivência com a tribo
[dos meus eus...

não sou efêmero como o pêssego do qual destaco um tasco
de mim e saboreio-me e digiro-me. Passo
[as horas solitárias
brincando de pique-esconde, me perdendo
e me encontrando randomicamente
que desconhece o stress, que por um triz
não a torna uma antraz atroz...

Hoje sou o que sou, porque já não sou o que ontem eu fui,
[muito menos porque ainda não sou
o que serei amanhã... trago o meio dia no olhar
e a meia noite de lua no falar, entrementes
ao cantar, sou vinte e quatro horas ininterruptamente
e nelas, morro-me e ressuscito-me – e possivelmente
beijo, nas mulheres, aquela que amo e que ainda
[ não encontrei...
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 9 mai. 2011).


Pablo Picasso

Grito
persisto e me arrasto
no rastro da insensatez
suplico por equilíbrio
tal e qual um santo de barro
de tão insossa tez
no andor em procissão
meus olhos translúcidos
agora voltados
para a intensa luz
vê o que era pra ser e não é
nada além de um escarro

Pablo Picasso
pica-pau que pica e repica
um ser marginal
quero-quero que pede
ao pé de uma noite
ao calor de um conhaque

não é fácil ser baliza
que freme treme tremula
sustenta o arame
lençóis brancos ao sol
é quase tudo que desejo
como viseira

da cumeeira da casa
sem projeto sem planta
improvisada inacabada
dos sonhos em vão
grito:
quero dormir
por dias a fio
sair de cena
arrebentar o celular
que se foda o mundo
não me chamo raimundo
esquecer da vida
e tudo que nela existe
e o nada que nela insiste.
- Orlando Costa Filho (Castelo, 25 agosto/2011).


Camille Pissarro

Tardes
tardes que trazem suas cores
as sinfonias de canoros canários...
cânticos cítricos, sumo de sons,
[tanto faz...

botam pra correr meus guardiões cartesianos
- cavaleiros adestrados que nada sabem
da natureza dos seus animais.

a insanidade campeia nas metrópoles
(instituições, constituições, leis)
tudo – vã prepotência.

a liberdade e a ordem? as tardes
[proclamam-nas
em suas ardências ancestrais
em suas tempestivas chuvas
nos cenários de sabiás,
de samambaias, (de)lírios, de rãs...
tudo está dentro da tarde que a
[um só tempo
são as mãos e são as luvas,
ainda que geminadas
às noites e às manhãs...

tarde-alma e tarde-sons de todas as
[cores – a arte
que paira na palma da mão (ou vem
no sopro) do insondável.

sabe-se lá sejam as tardes
digitais dos dedos divinos
ante os desatinos e os amores
cingidos pela cegueira do medo,
do ódio, dos sentimentos encarcerados?

tardes que se embriagam de seus próprios rios,
serpenteiam vales e chegam aos estuários –
- a tarde tem os lábios no mar!

enquanto loucas tramas e dramas fervilham e
[pululam nos corações dos aflitos,
as tardes, entr’outras coisas,
haverão de passar...

as tardes são músicas e letras codificadas nas cores
dos amores e das dores, cantiga nas folhagens
que farfalham pelas matas, oferecem suas
[flores e o vôo das araras
aos atores do filme em que a vida se perde
[em si mesma:
mesmices paquidérmicas, sórdidos valores
[que de nada valem;

as tardes não são meras.
trazem sombras e calores,
têm as trilhas das quimeras
guardam cópulas e amores!

tampouco são quaisquer.
se prelúdios de luar,
são os olhos da mulher
que se fecham para amar!

as tardes são os outonos dos dias
em fina sintonia com as montanhas,
estendem suas sombras fugidias
viram noites de onde novos dias
[desentranham;

eis então as primaveras
prólogos das tardes quando cedo...
e verão, quando tarde...
verão a tocha que incendeia!

...a noite? inverno!
caderno de versos
recolhem-se vasos
fecham-se janelas
colhem-se lembranças
no sereno da poesia...

tardes que não tardam
que se escondem trás da serra
tem um olho na lua
um outro é o espelho
no lago que reflete
as sardas luminosas
na face ainda azul do céu!

ah! essas tardes são miragens
nos desertos que me sobram da tua ausência
saudades que eu suporto em silêncio
e ao mesmo tempo onde encontro tua essência;

e
não fosse o bastante,
as tardes caem,
ironicamente
em sua própria inocência...
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 28 a 31 mai. 2011).


August Make

Clamor
não declamo versos de cor e salteado
apenas clamo, através dos improvisados
(versos obversos d’alma, as palmas que
acenam do martírio e da glória,
a óbvia inquietude e a ínfima placidez,
nas vistas cansadas com que observo
a vida, a História...), pela paz!

a perfídia campeia e atinge da laringe ao estômago
[dos lares, mata
às suas entradas belas orquídeas
desnorteia a dança dos girassóis
aniquila os piqueniques das crianças que deviam
[cantar
dentro de cada um de nós.

meus versos pérfuro-contundentes,
cortantes nos fonemas em que necessariamente
[preciso mostrar os dentes
(talvez esmagar nos meus sisos os erres da
[rrepugnância rrenitente,
ante palavras que nada são além de
[rrasteiros rrumores
e bem assim há quem sua própria dignidade
lance fora como se fosse um escarro),
aqui exponho!

saiba, meu amor meu centro de giro
estou no cume da paixão de onde a todo momento
dou um três meia zero pra proteger o domínio
inserto no raio de ação do nosso ciclo virtuoso.

saiba você, meu inimigo
não atravesse meu caminho, não se apequene
em território alheio salvo se for para limpar-se
à jusante das águas correntes em que lavo meus olhos
[e escovo meus dentes
não ultrapasse a linha divisória
meu nome é quase tudo que tenho - minha trajetória
não esculhambe minha história
sob pena de eu rasgá-lo nos caninos
logo após tê-lo amaciado nos molares
ainda que o faça com dó & piedade!
- Orlando Costa Filho (Castelo, 12 nov. 2011).


Edgar Degas

O Insustentável peso da leveza
tudo é muito leve
até as fundações das nossas casas
apoiam-se em nuvens,
nossas impávidas consciências ganham
as alturas fluindo através das chaminés.

sarabatana lixo ratazana
encrenca luxo contenda
marraio insulto soslaio

são personagens de ficção
inspirados, quem sabe, na pré-história...

vivemos no país-razão cujas terras
são irrigadas pelas águas do bem sentir.
inteligência e fé promulgam leis
elaboradas em assembleias de corações.

rancor desdita furor
má água sede mágoa
hemorragia hemoptise arritmia

há milênios tiveram pena capital
conhecimento e perfeição estão no ar.

tudo é muito leve mas me leve daqui
onde o grande & único mal
é ter que dormir e acordar, entretanto
condenado a não ter com o que sonhar...
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 27 nov. 2011).

Pablo Picasso

Assentimento
de que vale o violão construído pelo melhor luthier
as melhores madeiras todo amor
se as cordas estiverem desafinadas
sem tensões adequadas?
nossos sonhos são violões - os melhores -
nós somos os luthiers...
usemos boas cordas corretamente tensionadas
e se não somos experts executores, toquemo-lo
com os acordes mais simples, estes são os
verdadeiramente perfeitos.
eis a chave para abrir a porta da
fina & pura
sonoridade. felicidade é música não
necessariamente complexa,
essencial é que seja filha legítima
da sensibilidade.
ah, sentimento...
sem ti minto muito. sinto muito
e pra que eu não caia ou saia da raia
tomo tuas cordas
e teu assentimento. sou luthier,
construo e toco meu próprio instrumento.
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 20 nov. 2011).


Wassily Kandinsky
Noite e poesia
A boca da noite se agiganta
devora os sonhos dos aflitos,
poetas cujo canto se levanta
e a um só tempo trava o conflito.
A noite vem com punhos e dentes
sedenta por corações frementes
e o consolo de um luar erudito.

Os dentes da noite já iluminam!
Ressurgem nos espelhos do mar
enquanto versos de amor ruminam
na melodia querendo acamar...
A canção é curta e deve abrigá-los
e o estribilho, aonde encontrá-lo,
além de onde as estrelas trinam?

Os poetas suplicam pra não ir-se
a noite do sorriso de prata,
como se o tempo não existisse
e a lua se eternizasse na mata.
Assim quem sabe a melodia
jamais conhecesse meio dia
e fosse a noite eterna cantata?

Coração que bate e desbate
escreva seu verso-turmalina
no branco lunar, em alto quilate
multicollor, canção-mescalina...
Mãos de poeta em cabelos viçosos
ouça o odor dos abrigos gozosos
cante-os em versos e não desafina...
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 17 e 24 mai. 2011).

Van Gogh

"...eis o grito de um homem eternamente grávido
de saudades, de apego, de entrega
que se faz espesso livro de poemas
aberto na página certa
em que o verbo amar conjuga ávido
em que seu canto é lírico
pra que você, sangue do meu sangue
não viva lívido,
mas impávido."
- Orlando Costa Filho, excerto do poema "Sangue do meu sangue".



Meus Versos
Meus versos...

Quem me dera poder escrevê-los profundos
de modo a te tocar a alma nos confins da noite
e a um só tempo
altíssimos, em oração
reluzi-los nos olhos de Deus
pra chovê-los sobre o mundo!!

Meus versos...

Quem me dera poder fazê-los viajantes
de modo a atravessar os nossos universos,
e transformá-los uno
indivisível
sem roubar-lhes, no entanto
a textura, a luz, a cor, de cada um de seus diamantes!!

Meus versos...

Quem me dera poder cantá-los em alto som
fazê-los ecoarem por entre as cordilheiras da eternidade
e a um só tempo
sereno
induzi-lo ao sono sem sobressaltos,
filho amado e bom!!

Meus versos...

quem me dera poder cosê-los no tecido
aveludado que reveste tua alma
e com a mais louca calma
luminosa
abrandar teu coração, nada importando
o quanto fomos feridos!!

Meus versos...

Estes, pelo menos eu os tenho
espalhados no dicionário de língua indecifrável
menos pra mim e Deus.
Graças a eles aprendo o silêncio
ainda que de sorrir com as asas plenamente abertas
eu me abstenha ....
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 7 nov. 2010).

Van Gogh

Teus sinais
(Canção pro Pipe)
Noite de estrelas caindo no mar
São teus sinais por tras do véu lunar
Força do bem me diz que convém
A espera, há promessa de juntos cantarmos
Numa só voz as canções que unem corações
As estações trazendo em suas cores
Teu sorriso e o teu olhar

Noite de lua que estende no mar
Lençois de prata, a praia é o lugar
Onde eu firmo a voz e guardo pra nós
Um verso, uma rima, um acorde maior
E assim vão nascer as canções que unem corações
Constelações trazendo em suas luzes
Teu sorriso e o teu olhar.
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, s/d).

Oscar-Claude Monet

Nova Era (Uma regra que já era)
(A uma doce menina: Gabriela)
Jaz pungente nas areias brancas
que orlam o imenso lago de águas serenas
e profundas da existência,
o corpo exausto do cantor da esperança
cujos músculos derretem-se em sono tão silencioso
quanto o rio do Tempo.

Sim, do Tempo,
aquele do qual a geografia universal
não nos deu nenhuma notícia
sequer uma pista
de onde encontra-se a nascente ou
das coordenadas em que está a sua foz...

(o tempo expresso nos calendários... mera ficção
a partir dos movimentos do grão-Terra!)

O Tempo, com “T” maúsculo,
este
é aquele fora do qual nada existe
(ou existe apenas o "nada"):
nem o riso, o afeto, a dor...
nem a lágrima, a ferida, o amor..
nem um cisco...nem um pó...

Nada, nada há que não esteja dentro do Tempo,
deste,
o rio que flui sem nascente e sem foz
cujas águas rolam sem leito,
sem gemidos,
sem voz...

E assim vislumbro uma das faces de Deus....

O cantor descansa após ter entoado
com a força do jacarandá
com a doçura do sapoti e do caldo do melão
a pingar do bico de um canoro sabiá
sua melodia...

Esse cantar deixava claro uma regra
(quase de ouro):
tal como a luz e a treva
não haveria a glória, o esplendor
sem a tristeza, sem a agonia, sem a dor...

Mas cantor que sou, passa a ser outra história e
decido meu repertório:

não preciso mais
com a dor de uma saudade,
agarrar-me a fotografias...
nem a um rugido feroz ameaçador,
temê-lo sob lágrimas, aflições e liturgias...

Parei com o mundo dual...
A existência do bem
não pressupõe a do mal!

Esta é a minha nova regra
férrea:

"as regras existem para serem quebradas!"

O Tempo me confirmará
quando suas águas avançarem um pouco mais
rumo
à foz
que não há...

Enquanto isso, canto bem alto
sem respeitar a lei do silêncio...
Quem quiser que chame a polícia!

Mas o Tempo
há de me confirmar...
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 4 jan. 2011).



Destilando a Saudade
Caminho por alamedas margeadas
por acácias azaléias e tantas outras
de cujas copas pendem segredos e milagres!

Nessas alamedas (tu não sabes!),
sinto firmemente tua mão na minha
enquanto deslizam aquáticas e brancas aves

no lago-espelho de variadas turmalinas e é máxima
a graça da mágica das cores das flores refletidas
a um só tempo cálidas, plácidas e válidas

para que as ondas eletromagnéticas
revelem-se o meio natural de chegar a ti
e não me façam uma criatura cética.

O tempo flui, é rio sem calha sem margem
nele meu amor cresce demasiadamente
deixa submersa a dor plantada na vargem...

Saudades são sementes que os dentes dos dias
estalam trincam trituram e a língua da esperança
sente o doce disfarçado de amargo que o tempo destila!
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 19,20 fev. 2012).

Pablo Picasso

Ausência

Sua ausência

fiel companheira

do céu me espreita

com os olhos da inocência...



Faz-se presente
nos armários, gavetas
nas ruas, na cidade
na poltrona ao lado
quando vejo tv!

Sua ausência
tem asas brancas,
e docemente flutua rente ao mar
sempre que chego à janela...

Vem nas marolas
e na praia a ouço sussurrar: pai,
vem, vamos brincar...

Encontro sua ausência...
ao acordar...ao me deitar...ao meu redor
tornou-se amiga íntima
da minha inabalável paciência!!!
Assim fica melhor.

Paciência de bermudas litorâneas
que solta a voz interiorana
e desfila nas avenidas metropolitanas...

Sua ausência
deixa pegadas nas areias
das praias do meu esquecimento
ressurge qual melodia
trazida pelo vento ...
melancolicamente, acena-me
com os braços das palmeiras...

Sua ausência
é a essência
não do meu sofrer, mas
do meu próprio ser...

Ausência, uma palavra
e por mais que suscite tristeza
acaricia minh’ alma com indescritível beleza.
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 17 mar. 2010).




Entre achados & Perdidos
Às vezes sou um achado
Já n’outras sou um perdido
Naquelas iluminado
E nestas, um fudido.

A poesia é esparsa
Meu sentimento é disperso
Teu olhar tão bem disfarça
De luz intenso verso.

Olhas pra mim... Quantas luzes!
Fechas teus olhos... Só trevas...
Tu cantando me conduzes
Em silêncio, me entrevas

Às vezes sou um diamante
E n’outras sou um demente
Naquelas és minha amante
Mas nestas, és ausente...

Logo abaixo do teu ventre
Paladares consentidos
Sem que eu saiba se estou entre
Os achados ou perdidos...
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 20 jan. 2012).



Paul Cézanne

A saudade (uma visão)
Trem estranho a saudade...
é amarga, mas doce
é cruel, mas fiel
implacável, mas afável
e não raro, indesejável.
Entretanto,
não abrimos mão de senti-la.
É a lâmina de um punhal
ao lado de uma flor
ambos, de forma mágica,
coreografam o amor.
Dilacera-nos o peito,
faz-nos brilhar,
confere-nos valor.
Faz-nos pérolas escondidas
dentro de ostras sob a cambraia
do mar que as comprime
e lhes doa seu frescor...
Lembra-nos insofismavelmente
que somos humanos
_ filhos do Criador!
- Orlando Costa Filho (Guarapari/ES, 1 mai 2011).

Paul Cèzanne

O encanto das uvas
(Aos amigos Zé Roberto e Mariene
Dino e Silvana
Bocão e Roselane)
na praia do meio
vislumbro-me inteiro
coexistem duas luas
(plenas, em dueto)
uma flutua e canta no ar
outra tremula e dança no mar

na praia do meio
um acorde vibra no céu
(ó, inusitada sonoridade)
ouço sua luz
é perfeito e é maior

das luzes da praia do meio
pende um seio
que jorra silentes e sublimes canções
a taça que continha o vinho
agora inerte, reluz o carinho

das luas que eu bebia
que se calam ante o prenúncio do dia
com elas, se vai minha euforia

contudo permanece intacto
o encanto das uvas
na língua da minha alma
vadia....
- Orlando Costa Filho (Rio de Janeiro, 26 dez. 2010).


Névoa Púrpura
(Dedicado a Jimi Hendrix)
Meu amor, desperte
chove lá fora e flores precisam destas
lágrimas, - ora tristes, ora alegres - mas
de Deus.

Não espere, chegue à janela, ao quintal, deixar
a chuva molhar suas pétalas cujo
perfume ela – a chuva - levará emprestado ao
evaporar-se, renovando os ares que
rolam pelos céus!

Quem sabe surjam cabelos de sol
da janela ou quintal você possa os vir fisgarem o
coração das gotas de orvalho e
sentir a branca paz em sete cores de luz de vida
vindas nesta manhã que de tão
rica simples linda
te envolvam nos sonhos de pura névoa púrpura?

Meu amor, desperte e
assim o fazendo, por certo estará adormecida
num sonho
cheio de vida
da mais púrpura
realidade.
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, s/d).






O sonho de sêmea
(À poetisa Cecilia Meireles)
Ela era das feras, sem dúvida, a fêmea
em eras de harpas e de delicadeza.
Suas mãos em movimento de rara leveza
traziam morangos e pães feitos de sêmea.

Hoje, tarde de abril, em que o sol já não arde
a memória arrebata-me e vôo-me inteiro.
Debaixo da copa frondosa do oitizeiro
nossos lábios crepitam suaves, sem alarde.

Ela era das feras, a única: a fêmea
nas eras e rincões em que a tal lucidez
teimava em sinônima ser da cupidez:
adentrar os belos bosques da minha alma gêmea!

Sim, das feras era ela única, a fêmea
despetalava ao vento minha juventude
com suas mãos de harpa, de rara virtude.
E junto com as pétalas... meu sonho em sêmea ...
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 27 abr. 2011).


Ser poeta
(A Vladimir Maiakovski)
não é tão fácil ser
poeta....
é muito mais que o oficio de escrever em prosa ou
versos;
é expor as vísceras, desfazer-se das vestes e entrar nu
em cena
recitar verdades campestres, litorâneas, metropolitanas
ou humanas
ir às praças, fazer seu repente, espantar parasitas e ainda assim
ter alguma doçura
fazer-se contente, porque não consente as mordaças e ainda assim
recitar Vinicius com graça
por isso o rei não teme povo nem clero, teme o claro teme
o louco
teme a luz que o poeta lança espraiada – o mestre das metáforas
mortíferas
das hipérboles desconsertantes, das enálages e hipálages
estonteantes
a jogar na lama o discurso ímpio, os manuais da
hipocrisia
o poeta de verdade é da verdade, de regra é amado
pelo povo
odiado pelo rei, porque dele não aceita agrado e com
fé tamanha,
saca o verso feito espada e corta o elo que une a crença
ingênua
à crueldade que despreza sonhos tão bisonhos, apara a sanha e
em duelo
de vida ou morte consegue arrancar uma lágrima de
esperança,
compor uma canção, conquistar o coração de quem quer conhecer a
alegria, o amor...
e com tudo isso o poeta ainda tem que andar nas ruas, mesmo com olhos
tristes
voltados para dentro do silêncio da alma tranqüila, com destemor
e galhardia,
pagar o preço de trazer consigo o germe da destruição
da aleivosia
todavia, ser recompensado por cantar os versos da liberdade e
da justiça
que lançam sobre o rei o estigma da
covardia,
e da maestria da
perfídia.
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, S/d).


Van Gogh

Silêncio
o silêncio
não é ausência de som
é um lugar com alta tensão espiritual
é o espelho da nossa alma
onde conseguimos nos ver
e também a nossos próprios olhos
dentro do espectro da realidade individual
nesse lugar sabemos quem somos
nossos vícios e nossos avanços
e num dos cantos do silêncio
como que por encanto
descobrimos que há tempo de ser feliz
e isso é uma verdade
insofismável

e quando você quiser estar comigo
me encontre no silêncio
estamos todos lá
capturemo-nos em pensamento
definitivamente guardemo-nos
uns aos outros em nossos corações
e na medida do possível
fiquemos em silêncio...
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 4 fev. 2011).



Considerações sobre a saudade
presença doída de uma ausência
que envolve aperta quebra devora
uma bruta sucuri que me enlaça
como se eu fosse um bezerro desmamado
nos igarapés e pantanais da memória:
_ eis aí a saudade! mas
estranha e ironicamente
de um ser humano me faz ser
ainda um pouco mais humano...

ausência doída de uma presença inviável
o término de um filme sem the end
chiclete que jamais perde o sabor
amargamente mentolado,

a prostituta do cabaré que me embala
como um filho desprotegido a chorar
a chorar e a chorar...
eternamente em seus braços!

letra de música que não encontra
o verso final, o soneto que não fecha
com chave de ouro...

das penas, a inexoravelmente
inafiançável
a liberdade inalcançavelmente
plena,
o chôro jamais
insoluçável...

saudade - vocábulo traduzível apenas
na linguagem anímica,
na vertigem da dor que desdói,
no frescor que arde e paira
em um ponto qualquer da tarde
e leva o pensamento para as delícias
misteriosas do convívio pleno de
afeto e amor...

exposto ao sereno, misturado às nuvens
se liquefaz e dá viço às flores do jardim
da tolerância quase insuportável.

saudade – o imponderável sentimento
insondável manifestação do sopro cósmico
ante o qual me torno um gigante em pó
e uma vez salpicado sobre o mar e
arremessado contra o penedo
sou depositado aos poucos
lentamente
na praia ao amanhecer,

onde o mar respira e canta por mim
aos soluços, e eu espero o tempo
escrever o fim do roteiro,
se é que tem fim...
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 26 jul. 2011).

Pablo Picasso

"...paciente ente da paz,
da paz ciente...
assovio canções aos ouvidos da
esperança

mas a vida
galope de cavalo mais que baio
de raio
lírios dálias
elétricos,
acendem no céu
somem no mar..."
- Orlando Costa Filho, excerto do poema "Sei lá".




O mistério da palavra
Tem a palavra dita, a desdita e a não dita.

A maldita que sucumbe

e a que ergue, bem dita!
A não cumprida que deprime,
a que reprime e a que redime.
E antes que eu me envergue
sobre as poças de sangue na avenida
as nuvens escrevem:“vai chover”!

Eu me fecho em lágrimas,
faltam-me palavras...

Tem a palavra aquosa,
sólida, melosa, insólita.
Fonemas e morfemas que mudam o rumo,
letras que abrem feridas e corroem.
Signos que pintam bosques e voam seus pássaros,
ou cospem o fogo pelas bocas dos seus dragões!

Eu perco o prumo,
faltam-me palavras...

A palavra tem hora certa
pra fazer flutuar um rinoceronte de dor
pra nublar um horizonte, ruir uma ponte
no momento em que passo.
Enxerta a alma, desconserta
e se perde de mim.

Estou numa estrada deserta
sem palavras...

Palavra que surge na superfície e puxa:
eis as profundezas abissais!

Ressurge na brisa e arrebata:
Eis a via Láctea!

As matas ventam e sussurram:
“VIDA”!

Os rios correm e cantam:
“VIDA”!

As estrelas cantam e brilham:
“VIDA”!

Eu sou a onça pintada que te espreita,
já não preciso de palavras...

O operário da palavra constrói seu poema,
verso sobre verso,
unidos por amálgama de luz e dor
sobrepondo-se a tudo que lhe rói!

Uma palavra se oferece, outra se esconde.
O operário da palavra escolhe a que lhe convém,
se outra melhor não encontra.

Palavra que não encontro,
todavia, me toca o ombro.
Imaginando que a encontrei,
já se desfez...
Persigo-a, audaz
arranco de dentro do peito
ou a capturo de um jardim em Barcelona.

Ainda assim, minha voz
continua em coma...
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 1 jun. 2010).



Eu, por mim
ele é a moringa e é a fonte
de onde descem águas de muito longe
como a sede, vem de eras ancestrais...

tem um jeito de ser
um jeito de estar
- é o jeito do seu jeito
Orlando Costa Filho

é desigual, apesar das semelhanças
é semelhante, apesar das diferenças
contudo, cada um é único na mesma dança

singra ruas, avenidas
singe as multidões
nada obstante, tem vez que sangra o coração

solfeja melodias
se alimenta de poesia
sua alcova é a solidão

gracioso e serelepe
perde o fôlego em Drummond
se vê n’O Lobo da Estepe

em noites litorâneas, mete a cara na farra
no frio das montanhas dorme genuíno
à tarde, sem alarde, vai de capuccino

escreve versos obedientes: métrica, rimas e ritmo
encontra-os no mar, no ar, no bosque
e às vezes, ao espelho, vê um Bukowski

pula da janela feito fênix
sob olhares tantos e tontos
avoa em Little Wing, ouvindo Hendrix

some nights and days
impressiona-o o McCartney
apaixonado, enternecido fica;

noutras, porém, traz consigo tanto afeto
que em contraponto com o mundo abjeto
se consola junto ao Lennon

ele é torto, sem margem
está sempre à margem - um pária
em atitude involuntária, sinuoso

do amor por mulheres - o gênero – não conhece
apenas uma espécie – a do quando
a do eterno – não entende - arrefece...

ri e dança qual criança,
seu olhar traz um quê d'esperança
e um dos gumes de um punhal

prefere o repúdio à indiferença, ainda assim
quer abrigar-se em seu abraço,
mais baunilha menos agre – é doce...
doce feito aço.
- Orlando Costa Filho (Castelo/ES, 14 agosto/2011.)


BIOGRAFIA
(...)

"Nesta tardinha o vento sopra e eu escuto
o canto de mares distantes.
Como nuvem a envolver alguma ilha
esvoaçam brancas asas que refletem prata:
meus pássaros sonhados!
É lá que estou e convém que lá me deixem.
Acho que puseram mescalina no meu ovomaltine..."
- Orlando Costa Filho, excerto do poema "Achados e perdidos n. 3".


Praia de Guarapari/ES

"Hoje, tento aprender o que com o tempo esqueci..."
- Orlando Costa Filho


Referência de Pesquisa



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____
Página atualizada em 18.4.2013.



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2 comentários:

  1. Que festa de sensibilidade em palavras...adorei!!
    Todos lindos, mas deixo aqui uma imagem que gostei por demais:

    "Sua ausência
    tem asas brancas,
    e docemente flutua rente ao mar
    sempre que chego à janela..."

    Delicadeza desenhando sentimentos...

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    Respostas
    1. Olá Sérgio,
      Ficamos contentes em saber que gostastes.
      Abraços, volte sempre!

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