João Guimarães Rosa - Entrevistado por Günter Lorenz 'Diálogo com Guimarães Rosa'



Ilustração de Ricardo D'agostini.
Diálogo com Guimarães Rosa
Gênova, janeiro de 1965.

LORENZ: Ontem, quando escritores participantes deste Congres­so[1] debatiam sobre a política em geral e o compromisso político do escritor, você, João Guimarães Rosa, político, diplomata e escritor brasileiro, abandonou a sala. Embora sua saída não tenha sido de­monstrativa, pela expressão de seu rosto e pelas observações que fez, podia-se deduzir que o tema em questão não era de seu agrado.
GUIMARÃES ROSA: É verdade; agi daquela forma, porque o tema não me agradava. E para que nos entendamos bem, digo-lhes que não abandonei a sala em sinal de protesto contra o fato de esta­rem discutindo política. Não foi absolutamente um ato de protesto. Saí simplesmente, porque achei monótono. Se alguém interpreta isto como um protesto, nada posso fazer. Embora eu veja o escritor como um homem que assume uma grande responsabilidade, creio en­tretanto, que não deveria se ocupar de política; não desta forma de política. Sua missão é muito mais importante: é o próprio ho­mem. Por isso a política nos toma um tempo valioso. Quando os escritores levam a sério o seu compromisso, a política se torna su­pérflua. Além disso, eu sou escritor, e se você quiser, também di­plomata; político nunca fui.
LORENZ: É uma bela opinião sobre a importância do papel do escritor: mas não será demasiado idealista? Foram discutidos mui­tos aspectos do cotidiano político; e, além disso, acho que um escritor não teria muitas probabilidades de êxito se, como você quer, tra­tasse apenas do homem em geral, deixando de lado a vida diária desse mesmo homem.
GUIMARÃES ROSA: Posso compreender isso e também sei que aqui provavelmente todos pensam de modo diferente do meu. En­tretanto, me propus a dizê-lo claramente: tenho a impressão de que todos eles discutem demasiado, e por isso não conseguirão realizar tudo o que desejam. Perdem muito tempo, que empregariam me­lhor escrevendo. Mesmo supondo-se que tudo aquilo que dizem es­tivesse certo, então seria ainda mais acertado que cada um escrevesse sua opinião, em vez de expressá-la perante um auditório tão limitado. A palavra impressa tem a maior eficácia e além disso estas discussões secas me entediam, pois são muito aborrecidas. Descon­fio que só são feitas para alguns deles poderem se confirmar a si ; próprios sua importância e poderem assim se desligar de sua res­ponsabilidade sem peso de consciência. Naturalmente isto não vale para todos, pois quando homens como Asturias falam pró domo, terão também suas razões. Mas você já observou que os que mais falam de política são sempre aqueles que têm menos livros publi­cados? Quando os têm, não são livros onde expressem idéias semelhantes às expostas aqui. Noto a falta de coerência entre suas obras e suas opiniões.
LORENZ: Você quer dizer então que aprova que um escritor discuta sobre política, apenas quando também às suas obras devam unir acento político, e não quando se mostrar politicamente neutro em suas obras?
João Guimarães Rosa
GUIMARÃES ROSA: Sim, é verdade que, embora eu ache que um escritor de maneira geral deveria se abster de política, peço-lhe que interprete isto mais no sentido da não participação nas ninharias do dia a dia político. As grandes responsabilidades que um escritor assume são, sem dúvida, outra coisa...
LORENZ: Bem, João Guimarães Rosa, creio que neste círculo você é o único a pensar desta forma, já que Borges não está pre­sente para nos dar seu testemunho de apolítico.
GUIMARÃES ROSA: Acho que você me entendeu mal. Aparen­temente está se referindo ao que aconteceu em Berlim[2]. Acerca disto queria dizer que estou do lado de Asturias e não de Borges. Em­bora não aprove tudo o que Asturias disse no calor do debate, não aprovo nada do que disse Borges, As palavras de Borges revelaram uma total falta de consciência da responsabilidade, e eu estou sempre do lado daqueles que arcam com a responsabilidade e não dos que a negam.
LORENZ: Eu não queria que dedicássemos a tais assuntos as poucas horas que temos para conversar durante este caótico con­gresso; não obstante, creio que eles nos conduzem ao nosso tema.
GUIMARÃES ROSA: Certo, já estamos nele. Só quis dizer há pouco que a maioria dos que aqui expressam suas opiniões não exa­minam o verdadeiro sentido de suas palavras antes de pronunciá-las, e por isso não prestam aos demais, que já citei, nenhum bom serviço.
LORENZ: Penso que, para encaminharmos nosso diálogo a uma certa direção, seria melhor estabelecermos uma espécie de itinerário. Você está de acordo?
GUIMARÃES ROSA: Estou. Deixo que você determine a direção.
LORENZ: Pois bem, estes assuntos políticos que abordamos há pouco não estavam em meu itinerário. Cheguei a eles, porque as circunstâncias os trouxeram. Há outros temas que me interessam muito mais, uma vez que tenho a extraordinária ocasião, a sensacio­nal oportunidade, por assim dizer, de haver conseguido uma entre­vista com o inimigo de toda a espécie de entrevistas e terror dos re­pórteres: Guimarães Rosa...
GUIMARÃES ROSA: Devo fazer duas objeções. Primeiro, e já disse isso, agrada-me conversar com você, pois escreveu a meu res­peito coisas tão encantadoras e interessantes que gostaria de tratar delas novamente, ainda que fosse unicamente por razões de egoísmo. Em segundo lugar, peco-lhe que não use essa horrível expressão “entrevista”. Eu certamente não teria aceito seu convite se esperasse uma entrevista. As entrevistas são trocas de palavras em que um formula ao outro perguntas cujas respostas já conhece de antemão. Vim como combinamos porque desejávamos conversar. Nossa con­versa, e isto é o importante, desejamos fazê-la em conjunto.
LORENZ: Considero isto como uma honra, e esteja certo de que sinto uma grande alegria por podermos estar aqui juntos e conversar. Isto não é nada comum e, no que se refere a você...
GUIMARÃES ROSA: Chega. Só me oponho a matar o tempo com insignificâncias e com gente que não sabe nada de nada. Pelo jeito desfruto de uma estranha reputação e, entretanto, sou brasileiro.
LORENZ: Certo, goza dessa fama e provavelmente não sem ra­zão. No Brasil também. Mas vamos nos dar por satisfeitos. Os mo­tivos de nosso encontro ficam assim esclarecidos, e voltemos ao nosso “itinerário”. Gostaria de falar com você sobre o escritor Gui­marães Rosa, o romancista, o mágico do idioma, baseando-nos em seus livros que fazem parte, penso eu, do tema “o homem do ser­tão”.
GUIMARÃES ROSA: Sim, acho que se quiséssemos dizer sobre estes três ou quatro pontos tudo os que temos de dizer, daqui a um ano ainda estariam conversando. Bem, você nem eu temos tanto tempo. Suponho que esta enumeração das coisas que lhe interessam a meu respeito não tem uma seqüência estrita...
LORENZ: Apenas uma seqüência improvisada, intercambiável.
GUIMARÃES ROSA: Precisamente, e por isso gostaria que começássemos pelo que você mencionou como tema final. Chamou-me “o homem do sertão”. Nada tenho em contrário, pois sou um sertanejo e acho maravilhoso que você deduzisse isso lendo meus livros, porque significa que você os entendeu. Se você me chama de “o homem do sertão” (e eu realmente me considero como tal), queremos conversar sobre este homem, já estão tocados no fundo os outros pontos. É que eu sou antes de mais nada este “homem do sertão”; e isto não é apenas uma afirmação biográfica, mas também, e nisto pelo menos eu acredito tão firmemente como você, que ele, esse “homem do sertão”, está presente como ponto de partida mais do que qualquer outra coisa.
LORENZ: Fixemos este ponto de partida; e para encaminhar nossa conversa, queria propor-lhe um início convencional: o biográfico, embora ele já não seja tão convencional, se minhas conclusões sobre o que disse há pouco estiverem certas. Nasceu no sertão, aquela estepe quase mística do interior de seu país, encarnada como um mito de consciência brasileira...
GUIMARÃES ROSA: Sim, mas para sermos exatos, devo dizer-lhe que nasci em Cordisburgo, uma cidadezinha não muito interessante, mas para mim, sim, de muita importância. Além disso, em Minas Gerais; sou mineiro. E isto sim é o importante, pois quando escrevo sempre me sinto transportado para esse mundo: Cordisbur­go. Não acha que soa como algo muito distante? Sabe também que uma parte de minha família é, pelo sobrenome, de origem portuguesa, mas na realidade é um sobrenome suevo que na época das migrações era Guimaranes[3]; nome que também designava a ca­pital de um estado suevo na Lusitânia? Portanto, pela minha origem, estou voltado para o remoto, o estranho. Você certamente conhece a história dos suevos. Foi um povo que, como os celtas, emigrou para todos os lugares sem poder lançar raízes em nenhum. Este destino, que foi tão intensamente transmitido a Portugal, talvez te­nha sido o culpado por meus antepassados se apegarem com tanto desespero àquele pedaço de terra que se chama o sertão. E eu tam­bém estou apegado a ele...
LORENZ: Você está se referindo ao seu “caráter literário” que o inclui no importante grupo de literatos brasileiros denominados regionalistas?
GUIMARÃES ROSA: Sim e não. É necessário salientar pelo me­nos que entre nós o “regionalismo” tem um significado diferente do europeu, e por isso a referência que você fez a esse respeito em sua resenha de Grande Sertão é muito importante. Naturalmente não gostaria que na Alemanha me considerassem um Heimatschriftsteller[4]. Seria horrível, uma vez que é para você o que correspon­deria ao conceito de “regionalista”. Ah, a dualidade das palavras! Naturalmente não se deve supor que quase toda a literatura brasi­leira esteja orientada para o “regionalismo”, ou seja, para o sertão ou para a Bahia. Portanto, estou plenamente de acordo, quando você me situa como representante da literatura regionalista; e aqui começa o que eu já havia dito antes: é impossível separar minha biografia de minha obra. Veja, sou regionalista porque o pequeno mundo do sertão...
LORENZ: Pequeno talvez para o Brasil, não para os europeus. . .
GUIMARÃES ROSA: Para a Europa, é sem dúvida um mundo muito grande, para nós, apenas um mundo pequeno, medido se­gundo nossos conceitos geográficos. E este pequeno mundo do ser­tão, este mundo original e cheio de contrastes, é para mim o sím­bolo, diria mesmo o modelo de meu universo. Assim, o Cordisburgo germânico, fundado por alemães, é o coração do meu im­pério sueco-latino. Creio que esta genealogia haverá de lhe agradar.
LORENZ: O que importa é que além disso ela é exata. Mas voltemos à sua biografia...
GUIMARÃES ROSA: Creio que minha biografia não é muito rica em acontecimentos. Uma vida completamente normal.
LORENZ: Acho que não é bem assim. Em sua vida você passou por uma série de etapas muito interessantes, até mesmo instrutivas. Estudou medicina e foi médico, participou de uma guerra civil, che­gou a ser oficial, depois diplomata. Deve haver ainda outros fatos, pois estou apenas citando de memória.
João Guimarães Rosa, na viagem ao Sertão Mineiro, em 1952.
[Foto: Eugênio Siva/ revista 'O Cruzeiro']
GUIMARÃES ROSA: Chegamos novamente ao ponto que indica o momento em que o homem e sua biografia resultam em algo com­pletamente novo. Sim, fui médico, rebelde, soldado. Foram etapas importantes de minha vida, e, a rigor, esta sucessão constitui um paradoxo. Como médico conheci o valor místico do sofrimento; como rebelde, o valor da consciência; como soldado, o valor da pro­ximidade da morte...
LORENZ: Deve-se considerar isto como uma escala de valores?
GUIMARÃES ROSA: Exato, é uma escala de valores.
LORENZ: E estes conhecimentos não constituíram, no fundo, a espinha dorsal de seu romance Grande sertão?
GUIMARÃES ROSA: E são; mas devemos acrescentar alguns ou­tros sobre os quais ainda temos de falar. Mas estas três experiências formaram até agora meu mundo interior; e, para que isto não pareça demasiadamente simples, queria acrescentar que também configuram meu mundo a diplomacia, o trato com cavalos, vacas, religiões e idiomas.
LORENZ: Parece uma sucessão e uma combinação um tanto curiosa de motivos.
GUIMARÃES ROSA: Bem, tudo isto é curioso, mas o que não é curioso na vida? Não devemos examinar a vida do mesmo modo que um colecionador de insetos contempla os seus escaravelhos.
LORENZ: Gostaria de concluir que todos esses assuntos enume­rados tiveram grande importância em sua vida: a diplomacia, os ca­valas, as religiões, os idiomas. Você goza também de uma fama le­gendária: dizem que você domina muitos idiomas, e que aprendeu alguns deles apenas para poder ler um determinado autor em sua versão original. Sabe-se também que como diplomata e exercendo as funções de cônsul geral do Brasil em Hamburgo, você provocou Hitler fora das normas da diplomacia, e salvou a vida de muitos ju­deus...
GUIMARÃES ROSA: Tudo isso é verdade, mas não se esqueça de meus cavalos e de minhas vacas. As vacas e os cavalos são seres maravilhosos. Minha casa é um museu de quadros de vacas e cava­los. Quem lida com eles aprende muito para sua vida e a vida dos outros. Isto pode surpreendê-lo, mas sou meio vaqueiro, e como você também é algo parecido com isto, compreenderá certamente o que [68] quero dizer. Quando alguém me narra algum acontecimento trágico, digo-lhe apenas isto: “Se olhares nos olhos de um cavalo, verás mui­to da tristeza do mundo!” Eu queria que o mundo fosse habitado apenas por vaqueiros. Então tudo andaria melhor.
LORENZ: Desculpe, mas relacionado com sua biografia isto não parece um tanto paradoxal?
GUIMARÃES ROSA: E não apenas isto, mas tudo: a vida, a mor­te, tudo é, no fundo, paradoxo. Os paradoxos existem para que ara­da se possa exprimir algo para o qual não existem palavras. Por isso, acho que um paradoxo bem formulado é mais importante que toda a matemática, pois ela própria é um paradoxo, porque cada fórmula que o homem pode empregar é um paradoxo.
LORENZ: Sinto-me tentado a chamá-lo de o Unamuno da estepe, o Unamuno do sertão...
GUIMARÃES ROSA: E teria razão; Unamuno, sim! Unamuno poderia ter sido meu avô. Dele herdei minha fortuna: meu descontentamento. Unamuno era um filósofo; sempre se equivocam, referindo-se a ele nesse sentido. Unamuno foi um poeta da alma; criou da linguagem a sua própria metafísica pessoal. É uma importante diferença com relação aos chamados filósofos. Além disso, Unamuno inventou também a nivola[5] e o nadaísmo; e são invenções pró­prias de um sertanejo.
LORENZ: Você tem alguma coisa contra os filósofos?
GUIMARÃES ROSA: Tenho. A filosofia é a maldição do idioma. Mata a poesia, desde que não venha de Kierkegaard ou Unamuno, mas então é metafísica.
LORENZ: Mais adiante vamos ter que considerar com mais cal­ma os seus conceitos filosóficos, isso que você chama de metafísica em seus romances e contos, pois me parece que está muito ligada ao “homem do sertão”, e com uma parte, pelo menos, do que há de inédito em suas obras. Mas ainda queria lhe perguntar alguma coisa de sua biografia. Portanto, vamos ficar um pouco mais com ela, com sua pessoa, já que tudo isto é muito importante para a compreensão de seus livros. Depois de haver sido médico, você participou de uma rebelião, e, depois de se tornar novamente legalista, participou da repressão a essa mesma rebelião; em seguida foi soldado, diplomata e finalmente chefe da seção para problemas de fronteira do Ministé­rio das Relações Exteriores, algo parecido com um secretário de Es|tado. Depois destes antecedentes nada literários, começou a escrever relativamente tarde. O que o levou a se tornar escritor? Em resumo, como chegou a escrever, já não muito jovem, Sagarana, seu primeiro livro de contos e que se tomou imediatamente um sucesso sensacio­nal? Conte-me alguma coisa sobre este processo de sua vida.
GUIMARÃES ROSA: Bem, antes devo dizer que sua suposição não é totalmente certa. Comecei a escrever, quando ainda era bas­tante jovem; mas publiquei muito mais tarde. Veja você, Lorenz, nós, os homens do sertão, somos fabulistas por natureza. Está no nosso sangue narrar estórias; já no berço recebemos esse dom para toda a vida. Desde pequenos, estamos constantemente escutando as narrativas multicoloridas dos velhos, os contos e lendas, e também nos criamos em um mundo que às vezes pode se assemelhar a uma lenda cruel. Deste modo a gente se habitua, e narra estórias que corre por nossas veias e penetra em nosso corpo, em nossa alma, porque o sertão é a alma de seus homens. Assim, não é de estranhar que a gente comece desde muito jovem. Deus meu! No sertão, o que pode uma pessoa fazer do seu tempo livre a não ser contar estórias? A única diferença é simplesmente que eu, em vez de contá-las, escrevia. Com isso pude impressionar, mas ainda sem perseguir ambições li­terárias. Já naquela época, eu queria ser diferente dos demais, e eles não souberam deixar escritas suas estórias. Isto, é claro, impressiona e dá reputação. É lógico que, sendo criança, a gente, se sente então muito orgulhoso disso. Eu trazia sempre os ouvidos atentos, escutava todo o que podia e comecei a transformar em lenda o ambiente que me rodeava, porque este, em sua essência, era e continua sendo uma lenda. Instintivamente, fiz então o que era justo, o mesmo que mais tarde eu faria deliberada e conscientemente: disse a mim mesmo que sobre o sertão não se podia fazer “literatura” do tipo corrente, mas apenas escrever lendas, contos, confissões. Não é necessário se apro­ximar da literatura incondicionalmente pelo lado intelectual. Isto vem por si só, com o tempo, quando o homem chega à sua maturidade, quando tudo nele se amalgama em uma personalidade própria. Quem cresce em um mundo que é literatura pura, bela, verdadeira, real deve algum dia começar a escrever, se tiver uma centelha de talento para as letras. É uma lei natural, e não é necessário que atrás disto haja ambições literárias. Tive certa vez um professor que fazia tudo menos literatura; entretanto, escrevia contos magníficos. Assim são as coisas e assim comecei eu também. Quando mais tarde chegou o tempo em que eu não quis continuar escrevendo, instintivamente, eu que quis ser “poeta”, comecei a fazê-lo conscientemente, a princípio foram poemas...
LORENZ: Isto quer dizer que começou sua carreira como lírico?
GUIMARÃES ROSA: Não, tão mal não foi. Entretanto, escrevi um livro não muito pequeno de poemas[6], que até foi elogiado. Mas logo, e eu quase diria que por sorte, minha carreira profissional co­meçou a ocupar meu tempo. Viajei pelo mundo, conheci muita coisa, aprendi idiomas, recebi tudo isso em mim; mas de escrever simples­mente não me ocupava mais. Assim se passaram quase dez anos, até eu poder me dedicar novamente à literatura. E revisando meus exer­cícios líricos, não os achei totalmente maus, mas tampouco muito convincentes. Principalmente, descobri que a poesia profissional, tal como se deve manejá-la na elaboração de poemas, pode ser a morte da poesia verdadeira. Por isso, retornei à “saga”, à lenda, ao conto simples, pois quem escreve estes assuntos é a vida e não a lei das regras chamadas poéticas. Então comecei a escrever Sagarana. Nesse meio tempo haviam transcorrido dez anos, como já lhe disse; e desde então não me interesso pelas minhas poesias, e raramente pelas dos outros. Naturalmente digo isso, porque é um dado biográfico, pois não aconteceu que, um belo dia, eu simplesmente decidisse me tornar escritor; isto só fazem certos políticos. Não, veio por si mesmo; cresceu em mim o sentimento, a necessidade de escrever e, tempos depois, convenci-me de que era possuidor de uma receita para fazer verdadeira poesia.
LORENZ: No meu entender, o que é extraordinário é a interrup­ção. É velho e conhecido o fato de que o caminho da lírica conduz ao romance. Mas você sugeriu que esses dez anos de intervalo foram seus anos de peregrinação e aprendizagem, que o Wilhelm Meister[7] do sertão reunia nessa época as ferramentas que mais tarde o capacitaram, lingüística e tematicamente, a converter-se no maior romancista do Brasil.
GUIMARÃES ROSA: Não, não sou romancista; sou um contista de contos críticos. Meus romances e ciclos de romances são na realida­de contos nos quais se unem a ficção poética e a realidade. Sei que daí pode facilmente nascer um filho ilegítimo, mas justamente o autor deve ter um aparelho de controle: sua cabeça. Escrevo, e creio que este é o meu aparelho de controle: o idioma português, tal como o usamos no Brasil; entretanto, no fundo, enquanto vou escrevendo, eu traduzo, extraio de muitos outros idiomas. Disso resultam meus li­vros, escritos em um idioma próprio, meu, e pode-se deduzir daí que não me submeto à tirania da gramática e dos dicionários dos outros. A gramática e a chamada filologia ciência lingüística, foram inventadas pelos inimigos da poesia.
LORENZ: Quem escreve livros como os seus deve permitir que perguntem como se consegue isso. Qual é a origem de seus livros? Existe em princípio uma “gag” temático que depois você elabora, pre­para, ou tem, e isto em seu caso é muito importante, uma idéia lingüística à qual depois é acrescentada uma ação? Ou simplesmente você inventa uma estória que depois vai pouco a pouco vestindo com sua própria roupagem lingüística?
GUIMARÃES ROSA: Acho que não há nada disso. Não preciso inventar contos, eles vêm a mim, me obrigam a escrevê-los. Acontece-me algo assim como vocês dizem em alemão: Mich reitet auf einmal der Teitjel[8], que neste caso se chama precisamente inspiração. Isto me acontece de firma tão conseqüente e inevitável, que às vezes quase acredito que eu mesmo, João, sou um conto contado por mim mesmo. É tão imperativo...
LORENZ: Você quer dizer que há uma força interior que o im­pulsiona para o trabalho. Você tem fama de ser um autor terrivel­mente trabalhador, cuja aplicação é superada apenas por seu tradu­tor alemão...
GUIMARÃES ROSA (RINDO): Meyer-Clason, se estivesse aqui para nos escutar! Pretende sempre que tudo seja feito com muita exatidão. Para ele a literatura é uma religião. Verdade mesmo, ele é um diabo de homem, um gênio dá tradução, o melhor tradutor que eu co­nheço.
LORENZ: Meyer-Clason certamente se alegrará muitíssimo quan­do conhecer sua opinião sobre ele. Mas não nos desviemos do tema. Sobre tradutores e traduções e a possibilidade de traduzir, sobre esse tema em geral teremos de falar mais detalhadamente. E saiba que nunca um autor conseguiu me deixar tão nervoso durante uma con­versa. Você é mesmo um fabulista; mal seu interlocutor se descuida, você se afasta do tema se este não lhe agrada. Mas eu ainda não o vou libertar de sua biografia e de suas obras, embora pelo jeito você não goste de falar nisso. Por favor, continue a nos explicar o seu processo de trabalho, pois é interessantíssimo.
GUIMARÃES ROSA: Você, Günter, parece um professorzinho de escola, invejoso do meu prazer em falar sobre o que eu queria. Continuemos, pois, falando do que não me parece importante! Se depois me considerarem um charlatão, você será o responsável.
LORENZ: Não vejo nenhum perigo disso, mas assumo plena res­ponsabilidade.
GUIMARÃES ROSA: Veja, nós, os escritores, somos uma raça real­mente estranha, e eu sou certamente o mais estranho deles todos. Tem razão; não estou me elogiando, quando digo que trabalho duro e aplicadamente. Mas lamento que, apesar de todo meu empenho, tra­balhe muito lentamente. Sem dúvida, comecei a escrever no tempo certo, mas demasiado tarde. Apesar de ser verdade, isto também é um paradoxo. Não me posso permitir uma morte prematura, pois ainda trago dentro de mim muitas, muitíssimas estórias. Mas nasci em Cordisburgo, e lá às vezes as pessoas chegam a ficar muito ve­lhas. O mineiro é secado por seu país e seu sol, fica resistente como carne seca. Conheci pessoas de oitenta e até noventa anos. Portan­to, simplesmente tenho de ficar velho, pois esse tempo talvez me baste para eu contar tudo o que queria contar. Você afirmará certa­mente que sou um seltsamer Vogel[9]. Esta expressão também aprendi na Alemanha.
LORENZ: Agora, falando como leitor de seus livros, digo-lhe que não acho suas observações assim tão estranhas. Tenho certeza de que você poderá contar ainda muitas estórias, mas também espero que continue nos falando de sua vida, embora isto não lhe seja tão agra­dável. Talvez não fosse de pouca importância dizer-nos algumas datas.
GUIMARÃES ROSA: Que nasci no ano de 1908, você já sabe. Você não deveria me pedir mais dados numéricos. Minha biografia, sobretudo minha biografia literária, não deveria ser crucificada em anos. As aventuras não têm tempo, não têm princípio nem fim. E meus livros são aventuras; para mim, são minha maior aventura. Es­crevendo, descubro sempre um novo pedaço de infinito. Vivo no in­finito; o momento não conta. Vou lhe revelar um segredo: creio já ter vivido uma vez. Nesta vida, também fui brasileiro e me chamava João Guimarães Rosa. Quando escrevo, repito o que vivi antes. E para estas duas vidas um léxico apenas não me é suficiente. Em outras palavras: gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. O crocodilo vem ao mundo como um magister da metafísica, pois para ele cada rio é um oceano, um mar da sabedoria, mesmo que chegue a ter cem anos de idade. Gostaria de ser um crocodilo, porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma do homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como os sofrimentos dos homens. Amo ainda mais uma coisa de nossos grandes rios: sua eternidade. Sim, rio é uma palavra mágica para conjugar eternidade. A estas alturas, você já deve estar me considerando um charlatão ou um louco.
LORENZ: De modo algum. Penso que esta é a autocaracterização mais original que já escutei. Suas palavras soavam quase como um credo. Serão elas o credo de um sertanejo de Cordisburgo?
GUIMARÃES ROSA: Estou adivinhando seu pensamento! Agora, além de tudo, quer me exigir um credo. Mas eu lhe digo uma coisa: apenas alguém para quem o momento nada significa, para quem, como eu, se sente no infinito como se estivesse em casa, o crocodilo com as duas vidas até agora, somente alguém assim pode encontrar a felicidade e, o que é ainda mais importante, conservar para si a felicidade, Au fond, je suis un solitaire[10], eu também digo; mas como não sou Mallarmé, isto significa para mim a felicidade. Apenas na solidão pode-se descobrir que o diabo não existe. E isto significa o infinito da felicidade. Esta é a minha mística.
LORENZ: Dizendo a verdade: em seus livros você não menciona o diabo, o que sempre faz das suas, justamente para demonstrar que ele não existe, ou melhor, que pode ser eliminado, vencido, destro­çado?
GUIMARÃES ROSA: Isto poderia ser absolutamente certo. Pro­vavelmente, eu seja como meu irmão Riobaldo. Pois o diabo pode ser vencido simplesmente, porque existe o homem, a travessia para a solidão, que equivale ao infinito. Mas você, Lorenz, é muito astuto; você me faz falar e falar, e me leva pela mão exatamente onde me deseja fazer chegar. Já sei qual será a sua próxima pergunta.
LORENZ: Pois agora estou curioso.
GUIMARÃES ROSA: Eu também. Você quer me comprometer com a palavra creio e por isso evocou o diabo, cuja presença, útil em meus livros, não posso negar. Você quer me seduzir para que eu lhe faça confissões.
LORENZ: Adivinhou. Pois então, por favor, confesse!
GUIMARÃES ROSA: Absolutamente não consigo entender, por­que me deixo extorquir assim por você. Só agora me ocorre o se­guinte: aqui estão discutindo dois vaqueiros. Você é um, já disse por escrito[11] e torno a repetir agora. E quando dois vaqueiros discutem, ou há cabeças quebradas ou confissões. Os vaqueiros são assim.
LORENZ: Felizmente sei que os vaqueiros gozam de sua simpa­tia e por isso estou disposto a ser vaqueiro. Mas, por favor, diga-me de uma vez, a rigor, o credo pelo qual você escreve.
João Guimarães Rosa
GUIMARÃES ROSA: Sim, veja, penso desta forma: cada homem tem seu lugar no mundo e no tempo que lhe é concedido. Sua tarefa nunca é maior que sua capacidade para poder cumpri-la. Ela consiste em preencher seu lugar, em servir à verdade e aos homens. Co­nheço meu lugar e minha tarefa; muitos homens não conhecem ou chegam a fazê-lo, quando é demasiado tarde. Por isso tudo é muito simples para mim e só espero fazer justiça a esse lugar e a essa ta­refa. Veja como o meu credo é simples. Mas quero ainda ressaltar que credo e poética são uma mesma coisa. Não deve haver nenhu­ma diferença entre homens e escritores; esta é apenas uma maldita invenção dos cientistas, que querem fazer deles duas pessoas total­mente distintas. Acho isso ridículo. A vida deve fazer justiça à obra, e a obra à vida. Um escritor que não se atém a esta regra não vale nada, nem como homem nem como escritor. Ele está face a face com o infinito e é responsável perante o homem e perante si mesmo. Para ele não existe uma instância superior. Para que você não tenha de me interrogar a esse respeito, gostaria de explicar meu compromis­so, meu compromisso do coração, e que considero o maior compro­misso possível, o mais importante, o mais humano e acima de tudo o único sincero. Outras regras que não sejam este credo, esta poética e este compromisso, não existem para mim, não as reconheço. Estas são as leis de minha vida, de meu trabalho, de minha responsabili­dade. A elas me sinto obrigado, por elas me guio, para elas vivo. Mesmo com a melhor boa vontade não posso fazer mais confissões, porque tudo que possa me acontecer na vida está contido aí, ou não vale a pena ser chamado de confissão.
LORENZ: Depois do que você disse no início, eu francamente já não esperava essa confissão. Agradeço-lhe que a tenha feito, e creio sinceramente que esta poderia ser uma regra básica da literatura, se o homem não se opusesse a ela. Mas, o que pensa de seus colegas? Atualmente fala-se tanto em compromisso, afirma-se que não existe autor sem compromisso. Mas tenho a impressão de que principal­mente na América Latina — na Europa, Sartre pôs um pouco de or­dem neste assunto — muitos autores, naturalmente não todos, fre­quentemente confundem o compromisso para com o homem, com o compromisso para com um partido, uma ideologia. Entre os grandes autores do continente isto é sempre compensado pela sua potência literária, e entre os de segunda e terceira categoria você sabe como é quase sempre.
GUIMARÃES ROSA: Não preciso ser diplomata de carreira para me negar redondamente a fazer declarações respondendo sua pergun­ta. Você me induziu a fazer confissões e agora pretende levar-me para um terreno perigoso. Tenho de conviver com meus colegas e não me agrada guerrear por assuntos aos quais não atribuo a mínima importância. Portanto, não espere que eu qualifique meus colegas. Ademais, e se quiser pode tranqüilamente considerar isso como um delírio de grandeza, eu me contento com o que é meu. Não me agrada julgar meus colegas. Sim, portanto não insista: é melhor falarmos de Dostoievski, Goethe, Tolstoi ou de Schweijik, de Flaubert e Balzac, mas não de meus compatriotas escritores. Um autor jamais de­veria falar de outros autores, mesmo que não os aprecie. Disto não resulta nada de razoável; penetra-se em mundos estranhos, e isto não conduz a nada.
LORENZ: Bem, esta é uma opinião que deve ser respeitada. Mas qual é, no fundo, sua opinião acerca da crítica literária em relação às suposições que você mencionou há pouco? Deve o crítico constantemente, para conservar a sua própria terminologia, “entrar em mundos estranhos”?
GUIMARÃES ROSA: A tarefa do crítico é diferente da do autor. Além disso, não tenho uma opinião muito favorável sobre a crítica, pelo menos sob esse aspecto. Esta não é uma declaração de princí­pios; refere-se mais ao conceito que muitos críticos têm, ou não, de seu trabalho. No começo de minha carreira vários deles me atacaram sem absolutamente me compreenderem, pois me lançavam ao rosto que meu estilo era exaltado, que eu permanecia no irreal, e assim toda espécie de retórica. Não é possível dialogar com pessoas que manifestam por escrito a sua incompetência, pois lhes falta a condi­ção básica para o diálogo: o respeito mútuo. Por isto o que essa gente escreve não me perturba; simplesmente não leio mais jornais. E por favor, não me interprete mal: um crítico que me trate duramente mas baseado na compreensão, que apresenta razões, pode continuar sendo meu interlocutor e amigo, por maiores que sejam as diferenças de opinião que nos separem. Mas aquele que escreve tolices é ma­çante. Eu odeio a tolice.
LORENZ: Após este protesto em que transparece a raiva, seria lógico, e conseqüente pedir-lhe sua opinião sobre como deveria ser o “crítico ideal”.
GUIMARÃES ROSA: Bem, um crítico que não tem o desejo nem a capacidade de completar junto com o autor um determinado livro, que não quer ser intérprete ou intermediário, que não pode ser, porque lhe faltam condições, deveria se abster da crítica. Infelizmente a maior parte deles não faz isso, e por isso acontece que tão poucos deles, geralmente, têm algo a ver com a literatura. O que tal crítico pretende, em resumo, é vingar-se da literatura, ou sabe Deus que motivos o impulsionam. Talvez como passatempo. É um palhaço, ou um assassino. A crítica literária, que deveria ser uma parte da lite­ratura, só tem razão de ser quando aspira a complementar, a preencher, em suma a permitir o acesso à obra. Só muito raramente é as­sim, e eu lamento, pois uma crítica bem entendida é muito importan­te para o escritor; ela o auxilia a enfrentar sua solidão. Mas raramen­te é assim, quase sempre a crítica não tem valor nem interesse, é apenas uma perda de tempo. Uma crítica tal como eu a desejo deixa­ria de ser crítica no sentido próprio, tanto faz se julga o autor posi­tiva ou negativamente. Deve ser um diálogo entre o intérprete e o autor, uma conversa entre iguais que apenas se servem de meios diferentes. Ela exerce uma função literária indispensável. Em essência, deve ser produtiva e co-produtiva, mesmo no ataque e até no aniquilamento se fosse necessário.
LORENZ: Após seu credo do escritor, você quis formular seu credo do crítico. E sem dúvida tem razão. Há exemplos suficientes de crítica negligente, inadmissível. Só não sei se realmente a maioria dos críticos é tão tola como você pensa.
GUIMARÃES ROSA: Tola não é a palavra exata. Quero explicar melhor: o escritor, o bom escritor, é um arquiteto da alma. O mau crítico, irresponsável ou estúpido, neste caso é a mesma coisa, é um demolidor de escombros, dedicado a embrutecer, a falsificar as pa­lavras e a obscurecer a verdade, pois acha que deve servir a uma verdade só conhecida por ele, ou então ao que se poderia chamar seus interesses. O escritor, naturalmente só o bom escritor, é um descobridor; o mau crítico é seu inimigo, pois é inimigo dos descobridores, dos que procuram mundos desconhecidos. Colombo deve ter sido sempre ilógico, ou então não teria descoberto a América. O es­critor deve ser um Colombo. Mas o crítico malévolo e insuficiente­mente instruído pertence àquela camarilha que queria impedir a partida por ser contrária à sua sacrossanta lógica. O bom crítico, ao contrário, sobe a bordo da nave como timoneiro. É assim que penso.
LORENZ: Você exige muito. Mas o que exige de si mesmo como autor, como romancista? Falou de sua obrigação para com os homens e isto é um pouco vago, deveria ser formulado com maior exatidão, você também não acha?
GUIMARÃES ROSA: Como romancista tento o impossível. Gos­taria de ser objetivo, e ao mesmo tempo me olhar a mim mesmo com olhos de estranhos. Não sei se isso é possível, mas odeio a intimidade.
LORENZ: Novamente um paradoxo magnífico: “eu tento o im­possível”. Entretanto, deveríamos ser ainda mais concretos. Temos essa questão do compromisso, que talvez pudéssemos utilizar nesse sentido. Como você definiria, por exemplo, sua concepção do dever de um autor, diferenciando-a de Asturias ou, naturalmente, de Jorge Amado?
GUIMARÃES ROSA: Gosto de Asturias, porque se parece tão pou­co comigo. Este homem é um vulcão genial, uma exceção, segue suas próprias leis. Nós nos entendemos e nos admiramos, porque somos muito diferentes um do outro. Mas ele vive de um modo que gera perigo: ele pensa ideologicamente.
LORENZ: E Jorge Amado? Você não acha que este grandioso fabulista e amigo dos homens também pensa ideologicamente?
GUIMARÃES ROSA: Sem dúvida, ele também é um ideólogo; mas ideologia me é mais simpática que a de Asturias. Asturias tem » do distanciamento incorruptível de um sumo-sarcedote; sempre enuncia novos dez mandamentos. Isto é admirável, mas não encanta. As palavras de Asturias são palavras de um pai, de um patriarca que emite sentenças no sentido do Antigo Testamento. Amado é um so­nhador, e sem dúvida alguma um ideólogo, mas adota a ideologia do conto de fadas com suas normas de justiça e expiação. Amado é um menino que ainda crê no Bem, na vitória do Bem; defende a ideologia menos ideológica e mais amável que já conheci. Asturias é a po­derosa voz do juízo final. Amado vai dando pinceladas a mais não poder, e certamente quer mandar ao diabo muitas coisas, mas o faz de forma tão encantadora, que nos convence com maior razão. As­turias se expressa com palavras de ferro.
LORENZ: Esta diferença não é resultado, digamos assim, de uni­dades de experiência de diferentes graus? Atrás dessa definição tam­bém se oculta muito de política.
GUIMARÃES ROSA: E exatamente isso! A política é desumana, porque dá ao homem o mesmo valor que uma vírgula em uma conta. Eu não sou um homem político, justamente porque amo o homem. Deveríamos abolir a política.
LORENZ: Foi isto que em Hamburgo levou você a se arriscar perigosamente, arrebatando judeus das mãos da Gestapo?
GUIMARÃES ROSA: Foi alguma coisa assim, mas havia também algo diferente: um diplomata é um sonhador e por isso pude exercer bem essa profissão. O diplomata acredita que pode remediar o que os políticos arruinaram. Por isso agi daquela forma e não de outra. E também por isso mesmo gosto muito de ser diplomata. E agora o que houve em Hamburgo é preciso acrescentar mais alguma coisa. Eu, o homem do sertão, não posso presenciar injustiças. No sertão, num caso desses imediatamente a gente saca o revólver, e lá isso não era possível. Precisamente por isso idealizei um estratagema di­plomático, e não foi assim tão perigoso. E agora me ocupo de pro­blemas de limites de fronteiras e por isso vivo muito mais limitado,
LORENZ: Não estou muito convencido de que seus colegas, nes­te caso seus colegas diplomatas, aprovarão incondicionalmente esta definição.
João Guimarães Rosa
GUIMARÃES ROSA: A maioria deles, que não são verdadeiros di­plomatas mas apenas políticos frustrados, vai me considerar louco. Espero que você também não me considere assim. Mas eu jamais poderia ser político com toda essa constante charlatanice da realida­de. O curioso no caso é que os políticos estão sempre falando de lógica, razão, realidade e outras coisas no gênero e ao mesmo tempo vão praticando os atos mais irracionais que se possam imaginar. Tal­vez eu seja um político, mas desses que só jogam xadrez, quando podem fazê-lo a favor do homem. Ao contrário dos “legítimos” po­líticos, acredito no homem e lhe desejo um futuro. Sou escritor e penso em eternidades. O político pensa apenas em minutos. Eu pen­so na ressurreição do homem.
LORENZ: Parece que estamos novamente nos afastando do nosso tema. E por outro lado creio que nos aproximamos bastante do ponto central, pois o que você disse há pouco foi também como ser­tanejo, embora no fundo se referisse a qualidades de caráter. Permi­to-me supor que um psicólogo poderia tirar muitas conclusões disto. Em que reconhece, ou segundo quais regras você julga uma quali­dade de caráter do homem como base de seu comportamento po­lítico?
GUIMARÃES ROSA: Pode-se conhecer facilmente o caráter de um homem pela relação que ele mantém com o idioma.
LORENZ: Penso que Karl Kraus disse algo parecido.
GUIMARÃES ROSA: E também Flaubert e Stendhal. São muitos os que pensaram desta forma.
LORENZ: “O homem é seu estilo”?
GUIMARÃES ROSA: Sim, mais ou menos. O caráter do homem é seu estilo, sua linguagem. Isto certamente vai parecer doutrinário; entretanto é uma simples verdade da vida. Também não quero me referir à elegância ou seleção do estilo. Elegância demasiada é sus­peita, porque encobre um vazio. Não, não, considero o idioma como uma metáfora da sinceridade. Sinceridade e capacidade de sentir com o homem são os fundamentos de minha fé no futuro de meu país. O brasileiro, até mesmo no sentido filosófico, fala com sinceridade. Ele ainda deve criar sua própria linguagem. Isso também o obriga a pen­sar com sinceridade.
LORENZ: A sinceridade, no que se refere ao escritor, tem ainda outra face. Muitos autores que se consideram comprometidos, alguns deles comunistas, sentem-se confortáveis, pensando que seus livros fazem crescer constantemente suas contas bancárias. Acho que esta contradição também pertence ao capítulo escritor e político, ou me­lhor, ao que você colocou como escritor e deslealdade.
GUIMARÃES ROSA: É verdade. Casos assim existem. Até mesmo autores famosos participam deste jogo, e vão tão longe que chegam a diminuir o êxito de seus livros para não dar a impressão de terem ganho dinheiro com eles, como se isto fosse motivo de vergonha. Quanto a mim, ao contrário da maioria de meus colegas, não me en­vergonho em admitir que Grande Sertão me rendeu um montão de dinheiro. Não me interessa o dinheiro: venho de um mundo onde ele não adianta muito; lá se necessita de pão, armas, cavalos, e ainda se pratica o comércio de troca. Naturalmente, não fico infeliz, quan­do tenho dinheiro suficiente para viver como quero. Mas não nego esse fato. A esse respeito, quero dizer uma coisa: enquanto eu escre­via Grande Sertão, minha mulher sofreu muito porque nessa época eu estava casado com o livro. Por isso dediquei-o a ela, para lhe agradecer sua compreensão e paciência. Você deve saber que tenho uma mulher maravilhosa. Como sou um fanático da sinceridade lingüística, isto significou para mim que lhe dei o livro de presente, e portanto todo o dinheiro ganho com esse romance pertence a ela, somente a ela, e pode fazer o que quiser com ele. Não necessito dele, tenho meus vencimentos; uma verdadeira mulher sempre sabe encontrar utilidade para o dinheiro, tanto no sertão como no Rio. Pode-se achar precipitada esta atitude, principalmente, quando de­pois o livro obtém grande êxito. Mas uma dedicatória é uma pro­messa, e devemos cumprir nossas promessas.
LORENZ: Sem dúvida, sua senhora será invejada por muitas es­posas de escritores. Nesta ação deve ter influído também o seu ca­ráter de sertanejo, que é generoso, liberal. Até mesmo nós, estran­geiros, podemos notar isso em sua hospitalidade. Mas o sertanejo também é um homem sonhador. Tem muito tempo para pensar e matuta muito; frequentemente é a única coisa que pode fazer. Você é um pensador, um místico?
GUIMARÃES ROSA: São duas perguntas. Sou místico, pelo me­nos acho que sou. Que seja também um pensador, noto-o constan­temente durante meu trabalho, e não sei se devo lamentar ou me ale­grar com o fato. Posso permanecer imóvel durante longo tempo, pen­sando em algum problema e esperar. Nós sertanejos somos muito di­ferentes da gente temperamental do Rio ou Bahia, que não pode fi­car quieta nem um minuto. Somos tipos especulativos, a quem o simples fato de meditar causa prazer. Gostaríamos de tornar a explicar diariamente todos os segredos do mundo. Chocamos tudo o que falamos ou fazemos antes de falar ou fazer. É por isso que nor­malmente não costumo conversar se antes não posso pensar tran­quilamente e até o final. Você conseguiu, pela primeira vez, me induzir a fazer o contrário. E também choco meus livros. Uma pala­vra, uma única palavra ou frase podem me manter ocupado durante horas ou dias. Para isso, não preciso forçosamente de um escritório. Gosto de pensar cavalgando, na fazenda, no sertão; e quando algo não me fica claro, não vou conversar com algum doutor professor, e sim com algum dos velhos vaqueiros de Minas Gerais, que são todos homens atilados. Quando volto para junto deles, sinto-me vaqueiro novamente, se é que alguém pode deixar de sê-lo. Temos de aprender outra vez a dedicar muito tempo a um pensamento; daí seriam escritos livros melhores. Os livros nascem, quando a pessoa pensa; o ato de escrever já é a técnica e a alegria do jogo com as palavras.
LORENZ: E assim chegamos ao capítulo que deve ser, queira ou alo, o capítulo central de um diálogo com você: sua relação com a língua. Lembro-me de haver lido em algum lugar que sua linguagem apenas longinquamente tem algo a ver com as línguas vivas ou mor­tas. Há em seu país um professor que afirmou ter sua linguagem chegado a tal pomo, que a futura história da literatura terá de citá-la como literatura de um único homem. Fizeram-se numerosas brinca­deiras sobre isso. Uma delas: um tradutor, para se recomendar a um editor, declara dominar certa quantidade de línguas vivas e mortas, inclusive a de Guimarães Rosa. Evidentemente, o gosto pelos para­doxos deve haver contribuído para que se formulassem estas afirma­ções, mas deve haver alguma verdade nelas. Sua linguagem, sem dú­vida, é algo único, algo onde se pode cair e quebrar os dentes; mas, principalmente por causa dela, depois de ler seus livros, a gente acre­dita ter descoberto um mundo completamente novo. Conte-me al­guma coisa sobre sua relação com a língua, sua linguagem própria.
GUIMARÃES ROSA: Esta relação não é de modo algum difícil de explicar. Olhe, não entendo por que se faz tanto barulho pelo que deram de chamar “a língua Guimarães Rosa”, e que é uma coisa completamente simples. Muitos dos que escreveram tratados geniais sobre este assunto, sustentando que abordaram tudo sempre muito “logicamente”, muito racionalmente, comportaram-se, falando de meus livros, de modo decididamente irracional. Meyer-Clason, você e alguns outros deram, com poucas palavras, muito mais que esses doutos senhores que se desabafaram sentimentalmente. Meyer-Clason nos textos em que me apresentava e você, com suas resenhas crí­ticas, entenderam particularmente de que se trata, por haverem pen­sado comigo, pensando até o fim, puderam explicá-lo. No fundo é muito simples. Deve-se apenas partir do princípio de que há dois componentes de igual importância em minha relação com a língua. Primeiro: considero a língua como meu elemento metafísico, o que sem dúvida tem suas conseqüências. Depois, existem as ilimitadas singularidades filológicas, digamos, de nossas variantes latino-americanas do português e do espanhol, nas quais também existem funda­mentalmente muitos processos de origem metafísica, muitas coisas irracionais, muito que não se pode compreender com a razão pura. O elemento metafísico...
LORENZ: Não seria mais fácil e mais correto se agora conversás­semos um pouco sobre o aspecto puramente filosófico, sobre as dife­renças entre o português europeu e o brasileiro, sobre as conclusões que você tirou disso? Acho que assim seria mais fácil de entender isso que você chama de aspecto metafísico.
GUIMARÃES ROSA: Bem, sim, você tem razão. Temos de partir do fato de que nosso português-brasileiro é uma língua mais rica, inclusive metafisicamente, que o português falado na Europa. E além tudo, tem a vantagem de que seu desenvolvimento ainda não se deteve; ainda não está saturado. Ainda é uma língua jenseits Von Gut und Bösel[12], e apesar disso, já é incalculável o enriqueci-: mento do português no Brasil, por razões etnológicas e antropológicas.
LORENZ: Pelo processo de mistura com elementos indígenas e negróides com os quais se fundiu no Brasil...
GUIMARÃES ROSA: Exato, este foi um enriquecimento imenso e já pode ser notado no exterior pela quantidade de diferentes dicioná­rios europeus e americanos do mesmo idioma. Naturalmente, tudo isto esta a nossa disposição, mas não à disposição dos portugueses. Eu, como brasileiro, tenho uma escala de expressões mais vasta que os portugueses, obrigados a pensar utilizando uma língua já saturada.
LORENZ: Você, porém, não se contentou com essa escala maior de expressão — que aliás também indica um fenômeno sociológico imenso — pois sua linguagem também difere muito da de seus com­patriotas, por exemplo, da linguagem de Jorge Amado.
GUIMARÃES ROSA: Nunca me contento com alguma coisa. Como já lhe revelei, estou buscando o impossível, o infinito. E, além disso, quero escrever livros que depois de amanhã não deixem de ser legí­veis. Por isso acrescentei à síntese existente a minha própria síntese, isto é, incluí em minha linguagem muitos outros elementos, para ter ainda mais possibilidade de expressão.
LORENZ: Poderá citar alguns desses elementos adicionais?
GUIMARÃES ROSA: Naturalmente são muitos. Primeiro, há meu método que implica na utilização de cada palavra como se ela tivesse acabado de nascer, para limpá-la das impurezas da linguagem cotidiana e reduzi-la a seu sentido original. Por isso, e este é o segundo elemento» eu incluo em minha dicção certas particularidades dial éti­cas de minha região, que são linguagem literária e ainda têm sua marca original, não estão desgastadas e quase sempre são de uma grande sabedoria lingüística. Além disso, como autor do século XX, devo me ocupar do idioma formado sob a influência das ciências modernas e que representa uma espécie de dialeto. E também está à minha disposição esse magnífico idioma já quase esquecido: o an­tigo português dos sábios e poetas daquela época dos escolásticos da Idade Média, tal como se falava, por exemplo, em Coimbra. E ainda poderia citar muitos outros, mas isso nos levaria muito longe. Seja como for, tenho do compor tudo isto, eu diria “compensar”, e assim nasce então meu idioma que, quero deixar bem claro, está fundido com elementos que não são de minha propriedade particular, que são acessíveis igualmente para todos os outros.
LORENZ: Você falou anteriormente do escritor como descobri­dor, e no seu caso isto vale também com relação à língua. Quanto à sua última frase, acho que é como todos os descobrimentos: estão no ar, mas apenas um os encontra. Não esqueçamos o aspecto da genialidade...
GUIMARÃES ROSA: Genialidade, sei... Eu diria: trabalho, tra­balho e trabalho!
LORENZ: Sim, trabalho. Mas estamos esquecendo dois impor­tantes elementos de sua linguagem: sua genial intuição no trata com o idioma, seu gênio criativo e recreativo, que indiscutivelmente exis­te e que é do mesmo modo muito importante, e também seu conhe­cimento de línguas estrangeiras. Quantas línguas você domina?
GUIMARÃES ROSA: Dominar é muito. Sei lê-las; para isso as aprendi. Falar, só com grande dificuldade.
LORENZ: Quantas?
GUIMARÃES ROSA: Acho que oito, talvez algumas mais[13] .
LORENZ: Portanto, esta condição de poliglota é também muito importante para sua própria linguagem. Você certa vez já mencionou o fato da “retradução intelectual”, não é verdade? Frequentemente você faz experiências com palavras tomadas de idiomas estrangeiros. Posso notar isso nesta nossa conversa. Você está sempre citando ex­pressões, provérbios e peculiaridades intraduzíveis de idiomas es­trangeiros. Estou pensando na magnífica palavras supping[14], que você extraiu do dialeto hamburguês e, para a qual não existe tra­dução em seus dicionários, mas no seu livro tem tradução e lugar.
GUIMARÃES ROSA: Eu a converti em uma metáfora, e assim pu­de descrever um estado de alma para o qual conheço outra expres­são alemã Allerseelenstimmung[15], creio que provém da Áustria, não é? Mas suppig[16] é mais neutro, me agrada mais, não é tão íntimo.
LORENZ: Com todas essas condições de que dispõe você se adianta um bom bocado aos demais autores.
João Guimarães Rosa, na viagem ao Sertão Mineiro, em 1952.
[Foto: Eugênio Siva/ revista 'O Cruzeiro']
GUIMARÃES ROSA: Pode ser, mas não creio que isso seja deci­do. Repito minha opinião: o trabalho é importantíssimo! Mas ainda mais importante para mim é o outro aspecto, o aspecto metafísico da língua, que faz com que minha linguagem antes de tudo seja minha. Também aqui pode-se determinar meu ponto de partida, que é muito simples. Meu lema é: a linguagem e a vida são uma coisa só. Quem não fizer do idioma o espelho de sua personalidade não vive; e como a vida é uma corrente contínua, a linguagem também deve evoluir constantemente. Isto significa que, como escritor, devo me prestar contas de cada palavra e considerar cada palavra o tempo ne­cessário até ela ser novamente vida. O idioma é a única porta para o infinito, mas infelizmente está oculto sob montanhas de cinzas. Daí resulta que tenha de limpá-lo, e como é a expressão da vida, sou eu o responsável por ele, pelo que devo constantemente umsorgen[17]. Soa a Heidegger, não? Ele construiu toda uma filosofia muito estranha, baseado em sua sensibilidade para com a língua, mas teria feito melhor contentando-se com a língua. Sim, com isto eu já disse todo o fundamental sobre minha relação com a língua. É um relacionamento familiar, amoroso. A língua e eu somos um casal de amantes que juntos procriam apaixonadamente, mas a quem até hoje foi negada a bênção eclesiástica e científica. Entretanto, como sertanejo, a falta de tais formalidades não me preocupa. Minha amante é mais importante para mim.
LORENZ: Uma vez você me disse que quando escreve quer se aproximar de Deus, às vezes demasiadamente. Certamente, isto tam­bém se relaciona com a língua. Como se deve entender isso?
GUIMARÃES ROSA: Isto provém do que eu denomino a metafí­sica de minha linguagem, pois esta deve ser a língua da metafí­sica. No fundo é um conceito blasfemo, já que assim se coloca ,o homem no papel de amo da criação. O homem ao dizer: eu quero, eu posso, eu devo, ao se impor isso a si mesmo, domina a realidade da criação. Eu procedo assim, como um cientista que também não avança simplesmente com a fé e com pensamentos agradáveis a Deus. Nós, o cientista e eu, devemos encarar a Deus e o infinito, pedir-lhes contas, e, quando necessário, corrigi-los também, se quisermos ajudar o homem. Seu método é meu método. O bem-estar do homem depende do descobrimento do soro contra a varíola e as picadas de cobras, mas também depende de que ele devolva à palavra seu sentido original. Meditando sobre a palavra, se descobre a si mesmo. Com isto repete o processo da criação.
Disseram-me que isto era blasfemo, mas eu sustento o contrário. Sim! a língua dá ao escritor a possibilidade de servir a Deus corrigin­do-o, de servir ao homem e de vencer o diabo, inimigo de Deus e do homem. A impiedade e a desumanidade podem ser reconhecidas na língua. Quem se sente responsável pela palavra ajuda o homem a vencer o mal.
LORENZ: Então, novamente, também na língua o compromisso humanista, o “compromisso do coração”, do qual você falou.
GUIMARÃES ROSA: Sim, é isso. Você, meu caro Lorenz, em sua crítica ao meu livro escreveu uma frase que me causou mais alegria que tudo quanto já se disse a meu respeito. Conforme o sentido, dizia que em Grande Sertão eu havia liberado a vida, o homem, von der Last der Zeitlichkeit brefreit[18]. É exatamente isso que eu queria conseguir. Queria libertar o homem desse peso, devolver-lhe a vida em sua forma original. Legítima literatura deve ser vida. Não há nada mais terrível que uma literatura de papel, pois acredito que a literatura só pode nascer da vida» que ela tem de ser a voz daquilo que eu chamo “compromisso do coração”. A literatura tem de ser vida! O escritor deve ser o que ele escreve.
LORENZ: Na verdade você está de acordo, depois de tudo o que disse, em ser chamado de revolucionário da língua? A expressão “revolucionário” está tão desgastada, que mal pode fazer justiça ao que você define como língua e relação para com â língua e dever desta.
GUIMARÃES ROSA: Você diz justamente o certo! Não sou um revolucionário da língua. Quem afirme isto não tem qualquer sentido da língua, pois julga segundo as aparências. Se tem de haver uma frase feita, eu preferia que me chamassem de reacionário da língua, pois quero voltar cada dia à origem da língua, lá onde a palavra ainda está nas entranhas da alma, para poder lhe dar luz segundo a minha imagem. Veja como se tornam insensatas as frases feitas, tais como “revolucionário” ou “reacionário” quando as examinamos em função de sua utilidade, quando a gente as toma beim Wort nimmt[19], como dizem os alemães.
LORENZ: Você não é nenhum revolucionário, embora ponha a língua toda de cabeça para baixo e trabalhe para o futuro. Você recusou noções como genial idade e intuição. Como explica seu pro­cesso de criação, aquilo que denominou “chocar” seus livros?
GUIMARÃES ROSA: Escrever é um processo químico; o escritor deve ser um alquimista. Naturalmente, pode explodir no ar, A alqui­mia do escrever precisa de sangue do coração. Não estão certos, quando me comparam com Joyce. Ele era um homem cerebral, não um alquimista. Para poder ser feiticeiro da palavra, para estudar a alquimia do sangue do coração humano, é preciso provir do sertão.
LORENZ: Esta invocação do sertão me lembra muito aquele fa­moso pedido de Ortega y Gasset de um Goethe dentro de si...
GUIMARÃES ROSA: Sim, sim, concordo imediatamente. “Pedindo um sertão dentro de si[20]. Levo o sertão dentro de mim e o mundo no qual vivo é também o sertão. Estes são os paradoxos incompreen­síveis, dos quais o segredo da vida irrompe como um rio descendo das montanhas. Mas esta comparação com a citação de Ortega y Gasset não foi tomada de tão longe como à primeira vista poderia parecer. Expondo-me ao perigo de que meus leitores alemães me apedrejem, ou, o que seria pior, não leiam meus livros por eu estar atentando contra o que eles têm de mais sagrado, eu lhe digo: Goethe nasceu no sertão, assim como Dostoievski, Tolstoi, Flaubert, Balzac; ele era, como os outros que eu admiro, um moralista, um homem que vivia com a língua e pensava no infinito. Acho que Goethe foi, em resumo, o único grande poeta da literatura mundial que não escrevia para o dia, mas para o infinito. Era um sertanejo. Zola, para tomar arbitrariamente um exemplo contrário, provinha apenas de São Paulo. De cada cem escritores, um está aparentado com Goethe e noventa e nove com Zola. A tragédia de Zola consistiu em que sua linguagem não podia caminhar no ritmo de sua consciência. Hoje em dia acontece algo semelhante. A consciência está desperta, mas falta o vigor da língua. A maldição dos costumes ê notada e os autores aceitam sem crítica a chamada linguagem corrente, porque querem causar sensação, e isso não pode ser.
LORENZ: Temo, Guimarães Rosa, que os leitores interpretarão mal estes últimos conceitos seus. Vão acusá-lo de nacionalismo e talvez até de patriotismo local, por algo que sem dúvida alguma você desejaria que fosse interpretado de maneira completamente distinta. Para possibilitar uma compreensão totalmente clara, devería­mos formular tudo isto com maior exatidão. Devemos eliminar toda espécie de dúvidas. Seria triste se suas impressionantes idéias fossem levadas ad absurdum por interpretações banais, e se entendessem justamente o contrário do que você postulou. Sim, sem dúvida algu­ma a afirmação que você acaba de fazer é um postulado.
GUIMARÃES ROSA: Bem, todo escritor deve se resignar a ser interpretado de forma equivocada e malévola. Pude comprová-lo muitas e muitas vezes, tantas que isso já não consegue mais me afetar. Quem interpreta como um nacionalismo mesquinho o fato de eu partilhar a maneira de pensar e de viver do sertão, é um tolo; prova apenas que não entende meus livros e que nem mesmo é capaz de compreender corretamente o que nós dois, com grande cuidado, tra­tamos de destacar aqui! Se apesar de tudo continuarem me interpretando ao contrário, lamento muito, mas nada mais posso fazer. Não se pode argumentar com alunos deficientes, nem ter qualquer espé­cie de consideração para com eles. Como escritor, não posso seguir a receita de Hollywood, segundo a qual é preciso sempre orientar-se pelo limite mais baixo do entendimento. Portanto, torno a repetir: não do ponto de vista filológico e sim do metafísico, no sertão fala-se a língua de Goethe, Dostoievski e Flaubert, porque o sertão é o terreno da eternidade, da solidão, onde Inneres und Ausseres sina nicht mehr zu trennen[21], segundo o Westöstlicher Divon[22]. No sertão, o homem é o eu que ainda não encontrou um tu; por isso ali os anjos ou o diabo ainda manuseiam a língua. O sertanejo, você mesmo escreveu isso, “perdeu a inocência no dia da criação e não conheceu ainda a força que- produz o pecado original”. Ele está ainda além do céu e do inferno. Er ist der Mensch, der Gott verloren und den Teufel gefunden hat[23], assim você o definiu e está certo. Estou constantemente citando o seu próprio ensaio que me impressionou muito, e realmente não posso entender como você pôde se aproximar tanto de minha metafísica, se naquela época ainda não me conhecia.
LORENZ: Isto apenas confirma sua tese de que autor e obra são uma coisa só. Se não parecesse tão banal, eu diria que o indi­víduo Guimarães Rosa não é nenhuma surpresa, quando se conhece sua obra. Pé minha parte não posso compreender bem como pôde penetrar de tal forma na metafísica de outras línguas, as de Goethe, Dostoievski, Flaubert, Balzac. Até agora sempre acreditei, baseado em minha própria experiência, que só pode “pensar em uma lín­gua”, quando se vive no país da referida língua, deixando-se influen­ciar pela palavra falada e pelo “ambiente” em que vive uma língua.
GUIMARÃES ROSA: Mas você também não vive permanentemente nos ambientes de outras línguas, e entretanto vive com outras línguas, está casado com elas, até mesmo fez disso sua profissão. É também a minha. Este aparente enigma tem uma solução muito simples: amo a língua, realmente a amo como se ama uma pessoa. Isto é importante, pois sem esse amor pessoal, por assim dizer, não funciona. Aprendi algumas línguas estrangeiras apenas para enrique­cer a minha própria e porque há demasiadas coisas intraduzíveis, pensadas em sonhos, intuitivas, cujo verdadeiro significado só pode ser encontrado no som original. Quem quiser entender corretamente Kierkegaard tem de aprender dinamarquês; do contrário, nem a melhor tradução o ajudaria. Quem quiser entender Dostoievski tem de fazê-lo em russo, e assim em toda parte onde uma realidade idiomática está velada diante de outra, de tal maneira que não se pode penetrar esse véu. Tive de levar isso em consideração, quando quis (conhecer Unamuno, Confúcio, As mil e uma noites, Flaubert e todos os demais. Não é esnobismo. Antes, quando o mundo ainda era menor, parecia natural que toda pessoa instruída dominasse 1'dois ou três idiomas. Hoje em dia, quando de repente o mundo é muito mais amplo, não pode ser suficiente um só idioma, que nem sequer é dominado com exatidão. Não tem sentido. E esta é a razão pela qual aprendi línguas. Cada língua guarda em si uma verdade interior que não pode ser traduzida. Sem que eu conheça Alemanha, a língua alemã me mostra o que poderiam ter sido os alemães, se não tivessem esquecido a intimidade de Goethe com a metafísica da língua. Mas, quando se conhecem os alemães, o despertar é triste. Entretanto, esta experiência pessoal não diz nada contra a sabedoria de Goethe, mas sim contra os alemães modernos. Com Dostoievski e a Rússia me ocorre exatamente o mesmo. Amo a língua russa, a língua da alma, e tampouco Dostoievski é responsável pelo atual estado da alma russa. Mas minha língua brasileira é a língua do homem de amanhã, depois de sua purificação. Por uso devo purificar minha língua. Minha língua, espero que por este sermão você tenha notado, é a arma com a qual defendo a dignidade do homem.
LORENZ: Esta sim é que foi uma verdadeira explosão, não ha­bitual em você. Mas suponho que foi uma explosão salutar. Agora permita-me uma pergunta imediata para fazer a conexão. Que rela­ção existe entre você e a literatura alemã em geral?
GUIMARÃES ROSA: Conheço bastante bem a literatura alemã. Por exemplo, o Simplizissimus[24] é para mim muito importante. Amo Goethe, admiro e venero Thomas Mann, Robert Musil, Franz Kafka, a musicalidade de pensamento de Rilke, a importância monstruosa, espantosa de Freud. Todos estes autores me impressionaram e me influenciaram muito intensamente, sem dúvida. Entretanto, não sei o que fazer com autores mais jovens como Brecht. Todos eles per­deram o sentido da metafísica da língua, todos eles se tornaram pre­goeiros e deixaram de lado a alma, considerando-a fora de moda, em desacordo com a época e acreditando que o homem seria apenas um Wolfsburg-Mensch[25]. A língua é o espelho da existência, mas tam­bém da alma. Wolfsburg-Mensch, o conteúdo desta expressão é por si só um símbolo horrível. Eu não duvido: certamente também na Alemanha os autores jovens querem melhorar o mundo; certamente suas intenções são honestas e boas. Mas não o conseguirão, pois todos eles juntos não terão a importância que uma única frase de Goethe tem para o destino do homem, para seu futuro. Somente renovando a língua é que se pode renovar o mundo. Devemos con­servar o sentido da vida, devolver-lhe esse sentido, vivendo com a língua. Deus era a palavra e a palavra estava com Deus. Este é um problema demasiado sério para ser largado nas mãos de uns poucos ignorantes com vontade de fazer experiências. O que chamamos hoje linguagem corrente é um monstro morto. A língua serve para expressar idéias, mas a linguagem corrente expressa apenas clichês e não idéias; por isso está morta, e o que está morto não pode engendrar idéias. Não se pode fazer desta linguagem corrente uma língua literária, como pretendem os jovens do mundo inteiro sem pensar muito.
LORENZ: Suponho que estas manifestações não serão do agrado de muitos e provavelmente lhe darão fama de reacionário.
GUIMARÃES ROSA: Esta reputação não me desagradaria; e mesmo, já disse antes, gostaria de ser considerado um reacionário da língua. Sou precisamente um escritor que cultiva a idéia antiga, porém sempre moderna, de que o som e o sentido de uma palavra pertencem um ao outro. Vão juntos. A música da língua deve ex­pressar o que a lógica da língua obriga a crer. Nesta Babei espiri­tual de valores em que hoje vivemos, cada autor deve criar seu próprio léxico, e não lhe sobra nenhuma alternativa; do contrário, simplesmente não pode cumprir sua missão. Estes jovens tolos que declaram abertamente que não se trata mais da língua, que apenas o conteúdo tem valor, são pobres coitados dignos de pena. O melhor conteúdos de nada vale, se a língua não lhe faz justiça. O caso Zola prova isso. E o conteúdo mais perigoso chega a ter uma função humana, se estiver expresso em uma linguagem poética, isto é humana; Asturias é a prova. Esta língua, assim como o provam Asturias, Thomas Mann e Musil, esta língua atualmente deve ser pessoal, produto do próprio autor; porque o material lingüístico existente e comum ainda basta para folhetos de propaganda e discursos políticos, mas não para a poesia, nem para pronunciar verdades humanas. Hoje, um dicionário é ao mesmo tempo a melhor antologia lírica. Cada palavra é, segundo sua essência, um poema, só em sua gênese. No dia em que completar cem anos, publicarei um livro, meu romance mais importante: um dicionário. Talvez um pouco antes. E este fará as vezes de minha autobiografia.
LORENZ: Estou pensando em como classificar esta declaração sobre o dicionário. Pertence ao capítulo de seu gosto pelos paradoxos, ou deve ser interpretada literalmente? Poderia ser entendida de forma absolutamente literal, pois um dicionário é o mais impessoal de todos os livros, e você, como já me havia dito, é inimigo das intimidades literárias.
GUIMARÃES ROSA: Um dicionário não é tão completamente impessoal como você pensa; por isso falei dele relacionado à minha autobiografia. Pode entender literalmente o que acabo de lhe dizer acrescentá-lo à minha poética. A personalidade do escritor, ao escrever, é sempre seu maior obstáculo, já que deve trabalhar como cientista e segundo as leis da ciência; ela o faz perder seu equi­líbrio, torna-o subjetivo quando deveria buscar a objetividade. A personalidade, é preciso encarcerá-la no momento de escrever.
LORENZ: Surpreende-me enormemente ouvir esta opinião justa­mente de você. O autor de uma literatura tão pessoal ataca a perso­nalidade do escritor. Isto é incrível.
GUIMARÃES ROSA: Mas eu falei muito a sério. Desta vez não foi um paradoxo. A intimidade na obra de um escritor simplesmente me parece muito real. O escritor deve se sentir à vontade no incompreensível, deve se ocupar do infinito, e pode fazê-lo não apenas aproveitando as possibilidades que lhe oferece a ciência moderna, mas também agindo ele mesmo como um cientista moderno. Não se pode tratar o infinito com intimidade, nem com subjetivismo. É preciso ser objetivo, pois o incompreensível pode, pelo menos, ser contemplado objetivamente. Não, não, o autor não pode se permitir in­timidades em sua obra. A poesia é também uma irmã tão incompreensível da magia...
LORENZ: Estou me esforçando para segui-lo. De todos os pa­radoxos que você disse, este me parece o mais paradoxal; que sua interpretação da poesia desemboque agora no “realismo mágico”, não tanto o de Asturias, mais o de Carpentier. Permita-me dizer-lhe que já não estou conseguindo acompanhá-lo bem.
GUIMARÃES ROSA: Você está enganado! Você mesmo disse tudo isso em seu artigo, portanto, já deve ter me entendido bem uma vez. Extraia do que eu disse o paradoxo lingüístico, e ficará exatamente sua própria definição de meu universo poético. Talvez com a restri­ção de que eu não qualificaria meu conceito mágico de “realismo mágico”; eu o chamaria antes “álgebra mágica”, porque é mais in­determinada e, portanto, mais exata. Mas em essência nos entende­mos perfeitamente, só que você não percebeu isso.
LORENZ: Entretanto, às vezes tenho a impressão de que você está brincando comigo.
GUIMARÃES ROSA: Mas nada disso! Raramente mantenho uma conversa tão interessante. Deve ser porque você é um interlocutor bastante brutal e tem espírito de contradição. Seria lamentável se perdêssemos esta conversa por causa de um mal-entendido. Digamos antes que tudo isto, que quase o enfureceu, não pode nem deve ser explicado logicamente; deve ser compreendido intuitivamente, deve ser pensado até o fim.
LORENZ: Está bem. Entretanto, creio que não chegaremos muito longe, se gastarmos muitos paradoxos. Agora uma coisa muito con­creta, sobre a qual ainda não falamos e que é muito importante para toda a literatura brasileira e, portanto, também para a sua obra. Estou me referindo à chamada “brasilidade”. Desde que me ocupo de literatura brasileira, já tentei várias vezes esclarecer este conceito. Não tenho outra saída. Gente muito séria já me disse que esta “brasilidade” é só baboseira, e até agora não pude ouvir uma definição que me agradasse, embora vocês, os escritores brasileiros, sempre se re­firam a este conceito. Talvez de você eu possa obter uma explicação.
GUIMARÃES ROSA: Sim, veja, Lorenz, quem quer que lhe tenha dito que a “brasilidade” é apenas uma baboseira deve ser um pro­fessor, um desses “lógicos” que não compreendem nada, que só compreendem com o cérebro; e, como se sabe, o cérebro humano é uma organização muito defeituosa e debilitada. Por isso o homem possui, além do cérebro, o sentimento, o coração, como queira. Não se deixe desconcertar pelo que dizem os sabichões. Você mencionou a “brasilidade” até que com bastante correção. Também não posso dar uma definição para algo incompreensível, mas posso tentar uma interpretação. Apenas tentar.
LORENZ: Você nos faria um grande favor, a mim e a alguns outros que nos debatemos para esclarecer este conceito.
GUIMARÃES ROSA: Sim, é certamente um assunto difícil e com­plicado. É lógico que existe a “brasilidade”. Existe como a pedra básica de nossas almas, de nossos pensamentos, de nossa dignidade, de nossos livros e de toda nossa forma de viver. Mas o que é ela? Muita gente já quebrou a cabeça por causa do assunto. Nos últimos tempos também fora do Brasil se tem meditado sobre ela, e, infelizmente, apenas porque muitas vezes não nos podem compreender. Se estou bem lembrado, foi Goethe quem disse: Poesie ist die Sprache Unaussprechlichen[26]. Esta é a afirmação de uma sabedoria máxima, e poderia ser aplicada também à “brasilidade”; entretanto, não se altera o problema que você me propôs. Já sabe que também não se pode explicar a palavra “saudade” em seu sentido lusitano, sem re­montar à mentalidade lingüística portuguesa; e esta palavra tem um caráter fundamental semelhante àquela. Um português não precisa explicá-la; já nasce com ela, leva-a dentro de si. Conhece-a com o coração, não com a cabeça. Assim acontece com a “brasilidade”; nós dois sabemos a importância que tem e o que quer dizer; e tam­bém só o sabemos com o coração. Freyre[27] esboçou uma definição muito boa, mas insuficiente. Se para sua explicação não usarmos novamente o mesmo conceito “brasilidade”, não poderemos explicá-lo fora de nossa área lingüística e sentimental. Eu pelo menos não posso fazê-lo, embora sinta esta “brasilidade” muito intensa, constantemente dentro de mim e apesar de ser o último a capitular ante um problema lingüístico. Se isto pode consolá-lo, digo-lhe que também fui um daqueles que quebraram a cabeça pensando sobre esta questão. Existem elementos da língua que não são captados pela razão; para eles são necessárias outras antenas. Mas, apesar de tudo, digamos também a “brasilidade” é a língua de algo indizível. Duvido que outras pessoas pudessem tirar disto uma conclusão mas, aqui entre nós dois, isto não é tão importante. Ou digamos, para salientar a importância irracional, inconcebível, intimamente poética, que a pa­lavra em si contém uma definição que tem valor para nós. Para nosso caráter, nossa maneira de pensar, de viver e de sentir: “brasilidade” é talvez um sentir-pensar. Sim, creio que se pode dizer isto.
LORENZ: Com isto não progredimos muito, pois agora podería­mos perguntar, tanto eu como os outros: “Que diabos é um sentir-pensar?”
GUIMARÃES ROSA (rindo): Não fique nervoso. É um prazer .quando outras pessoas que não me interessam se irritam com algu­ma coisa que sabem que eles mesmos não poderiam fazer melhor. Mas simplesmente não se pode explicar a “brasilidade”. Pode-se ape­nas concretizá-la em alguns exemplos, ou pelo menos tentar.
LORENZ: Tentemos; peio menos já seria alguma coisa. Por fa­vor, dê-me alguns exemplos que você ache que podem reduzir a “brasilidade” a metáforas. Quando você mencionou a “saudada”, veio-me à lembrança o “duende” de Lorca, aquele demónio também tão inconcebível, mas que o próprio Lorca tornou plausível com alguns exemplos.
GUIMARÃES ROSA: — Um exemplo magnífico; o daimon de Lorca e também o daimon de Goethe são exemplos exatos para tais coisas indizíveis. Duvida-se da existência da “brasilidade”, mas ninguém mais põe em dúvida que exista um “duende” ou a “hispanidade” de Unamuno, pois foram exemplificados pela vida. Fale­mos de “brasilidade”: nós os brasileiros estamos firmemente per­suadidos, no fundo de nossos corações, que sobreviveremos ao fim do mundo que acontecerá um dia. Fundaremos então um reino de justiça, pois somos o único povo da terra que pratica diariamente a lógica do ilógico, como prova nossa política. Esta maneira de pensar é conseqüência da “brasilidade”. Outro exemplo, desta vez referente a mim mesmo, para que você possa acreditar tranquilamente — estou certo de que você fará esta pergunta durante nossa conversa, por isso antecipo a resposta. Eu não sei o que sou. Posso bem ser cris­tão de confissão sertanista, mas também pode ser que eu seja taoísta à maneira de Cordisburgo, ou um pagão crente à la Tolstoi. No fundo, tudo isto não é importante. Como homem inteligente, às vezes pode-se sentir necessidade de se tornar um beato ou um fun­dador de religiões. A religião é um assunto poético e a poesia se origina da modificação de realidades lingüísticas. Desta forma, pode acontecer que uma pessoa forme palavras e na realidade esteja crian­do religiões. Cristo é um bom exemplo disso. Também isto é “brasi­lidade”. Um terceiro exemplo: segundo nossa interpretação brasilei­ra, não muito cristã» mas muito crédula, o diabo é uma realidade no mundo. Está oculto na essência das coisas, e faz ali suas brincadei­ras. A ciência existe para expulsar o diabo. O homem sofre sempre o desespero metafísico, pois conhece a existência do diabo e pode assim liquidá-lo, superando-o até conseguir uma humanidade sem falsidades. Também isto é “brasilidade”. Poderia ficar várias horas dando exemplos como esses, mas não teria sentido. Para compreen­der a “brasilidade” é importante antes de tudo aprender a reconhecer que a sabedoria é algo distinto da lógica. A sabedoria é saber e pru­dência que nascem do coração. Minhas personagens, que são sem­pre um pouco de mim mesmo, um pouco muito, não devem ser, não podem ser intelectuais, pois, isso diminuiria sua humanidade.
LORENZ: Isto precisa ser explicado. Você. intelectual cultíssimo que lê tanto, poliglota, será por acaso um inimigo dos escritores in­telectuais?
GUIMARÃES ROSA: Não, de modo algum. Mas não suporto essas figuras intelectuais, dos quais se espera que a qualquer momento e lhes brotem da boca bolas de papel[28]. Inteligência, prudência, tal como eu as interpreto, cultura elevada, tudo isso está bem, pois; o escritor atual deve possuir todas estas qualidades. Mas não deve se transformar em um computador. Não deve abandonar as zonas do irracional, ou então deixa de produzir literatura e só produz papel, Flaubert, Dostoievski, eram sacerdotes da palavra; Zola, ao contrá­rio, foi apenas um charlatão e por isso, hoje nada significa para nós, pois a necessidade que suas palavras expressam não existe mais. Assim acontece com. todos os que ligam à necessidade do dia-a-dia o seu chamado compromisso e além disso não possuem as faculdades lingüísticas necessárias para poder fazer literatura.
LORENZ: Você está contra a lógica e defende o irracional. En­tretanto, seu próprio processo de trabalho é uma coisa totalmente intelectual e lógica. Como você se explica esta contradição, e como a explica para mim?
GUIMARÃES ROSA: Não há nenhuma contradição. Um gênio é um homem que não sabe pensar com lógica, mas apenas com a pru­dência. A lógica é a prudência convertida em ciência; por isso não serve para nada. Deixa de lado componentes importantes, pois, quer se queira quer não, o homem não é composto apenas de cérebro. Eu diria mesmo que, para a maioria das pessoas, e não me excetuo, o cérebro tem pouca importância no decorrer da vida. O contrário seria terrível: a vida ficaria limitada a uma única operação materna-; tica, que não necessitaria da aventura do desconhecido e inconsciente, nem do irracional. Mas cada conta, segundo as regras da mate­mática, tem seu resultado. Estas regras não valem para o homem, a não ser que não se creia na sua ressurreição e no infinito. Eu creio firmemente. Por isso também espero uma literatura tão ilógica como a minha, que transforme o cosmo num sertão no qual a única reali­dade seja o inacreditável. A lógica, prezado amigo, é a força com a qual o homem algum dia haverá de se matar. Apenas superando a lógica é que se pode pensar com justiça. Pense nisto: o amor é sempre ilógico, mas cada crime é cometido segundo as leis da lógica.
LORENZ: Em seus livros acontecem muitas coisas que se pode chamar de crimes, assassinatos, homicídios, ultrajes. São estes, então, modos lógicos de conduta dos seus heróis, por exemplo de seu Riobaldo?
GUIMARÃES ROSA: Não, não se pode dizer isto. O que ali acon­tece não são crimes. A gente do sertão, os homens de meus livros, você mesmo escreveu isso, vivem sem consciência do pecado origi­nal; portanto, não sabem o que é o bem e o que é o mal. Em sua inocência, cometem tudo o que nós chamamos “crimes”, mas que para eles não o são. Alguma coisa deste modo de pensar se conser­vou até mesmo na justiça de muitos países civilizados, pense na dis­tinção entre assassinato premeditado e homicídio irrefletido, ou no que os franceses chamam “crime passional”, o assassinato por ciú­mes, etc. Isto marca limites. No sertão, cada homem pode se encon­trar ou se perder. As duas coisas são possíveis. Como critério, ele tem apenas sua inteligência e sua capacidade de adivinhar. Nada mais. E assim se explica também aquele provérbio sertanejo que à primeira vista parece outro paradoxo, mas que expressa uma ver­dade muito simples: o diabo não existe, por isso ele é tão forte. Às vezes não se encontram as palavras que se está sentindo dentro de si mesmo.
LORENZ: João Guimarães Rosa, você é uma pessoa delicada: olha o relógio muito dissimuladamente. Realmente já é tarde, e es­tamos aqui juntos há horas.
GUIMARÃES ROSA: Desculpe, não quis demonstrar cansaço, mas realmente esta é a conversa mais longa que já tive.
LORENZ: E eu lhe sou muito grato. Tratemos então de chegar pouco a pouco ao final, pois nós dois ainda temos alguma coisa pela frente. Depois de havermos abordado tantos assuntos gerais, gostaria de saber algo muito específico, algo referente a seu magnífico livro Grande sertão, que neste caso deve ser tomado como representante de suas demais obras; também de seu Sagarana, de seus contos e de seu ciclo Corpo de baile. O romance Grande sertão teve um sucesso mundial, não imerecido, sem dúvida, mas que de certo modo me parece inexplicável. Que significado tem este livro para você?
GUIMARÃES ROSA: Eu diria que Grande sertão foi para mim o término de um desenvolvimento e, ao mesmo tempo, algo que um dia, espero, levar-me-á à meta final.
LORENZ: É um romance autobiográfico?
GUIMARÃES ROSA: É, desde que você não considere uma auto­biografia como algo excessivamente lógico. É uma “autobiografia irracional” ou melhor, minha auto-reflexão irracional. Naturalmente que me identifico com este livro,
LORENZ: A figura principal deste romance tem as melhores pos­sibilidades de ser considerada um dos maiores heróis da literatura mundial. Tentou-se muito decifrá-lo, também na Alemanha, e for­mulou-se toda espécie de definições, mas todas elas revelam um certo desamparo. Talvez a culpa disso caiba à mistura de elementos realistas e daqueles que você costuma chamar “metafísica” ou “irra­cionalidade”.
GUIMARÃES ROSA: Estou firmemente convencido disso. As di­ficuldades resultariam, sobretudo na Europa, do fato de se conhecer muito pouco de nosso mundo, especialmente de meu mundo do sertão.
LORENZ: Atrevo-me a apostar que a maioria de seus leitores alemães, antes de ler seu livro, nem sequer sabiam que o sertão existe. Provavelmente ainda o consideram uma invenção sua.
GUIMARÃES ROSA: Também acho. Recentemente, durante mi­nha viagem à Alemanha, me convenci disso. Um crítico que me foi apresentado como homem famoso — prefiro não dizer seu nome — felicitou-me por eu haver eine literarische Landschaft erfunden[29], tão “magnífico”, assim entre aspas. Coisas semelhantes me aconte­ceram na Itália, na França e até na Espanha. Mas é preciso aceitar essas coisas, não se pode evitá-las. Quando escrevo, não posso estar constantemente acrescentando notas de rodapé para assinalar que se trata de realidades.
LORENZ: Naturalmente, desempenha nisto um papel muito im­portante o modesto nível de conhecimento que têm os europeus so­bre a América Latina e o Brasil. Você mesmo já disse isso. Livros como seu romance contribuirão sem dúvida para complementar essa imagem cheia de lacunas. Terão de se conformar, assim espero, com a idéia de que o Brasil é um cosmo próprio.
GUIMARÃES ROSA: Sem dúvida o Brasil é um cosmo, um uni­verso em si. Portanto, Riobaldo e todos os seus irmãos são habi­tantes de meu universo, e com isso voltamos ao ponto de partida.
LORENZ: Este Riobaldo — conforme li em várias ocasiões — seria considerado um Fausto, um místico, um homem do barroco, e designações dessa espécie já lhe foram atribuídas. Como você de­lineia o seu Riobaldo?
João Guimarães Rosa, na viagem ao Sertão Mineiro, em 1952.
[Foto: Eugênio Siva/ revista 'O Cruzeiro']
GUIMARÃES ROSA: Não, Riobaldo não é Fausto, e menos ainda um místico barroco. Riobaldo é o sertão feito homem e é meu ir­mão. Muitos de meus intérpretes se equivocaram, exceto você nova­mente. Riobaldo é mundano demais para ser místico, é místico de­mais para ser Fausto; o que chamam barroco é apenas a vida que toma forma na linguagem.
LORENZ: Sim, essa linguagem... Soube que entre você e seu tradutor alemão, Curt Meyer-Clason, houve longas discussões acerca de algumas passagens sobre cujo sentido vocês não podiam entrar em acordo.
GUIMARÃES ROSA: Não, não, não foi assim. Não é exato. Esti­mo muito Meyer-Clason; admiro-o como homem da língua, admiro qualidades. É o melhor de todos meus tradutores, provavelmen­te dos melhores que há no mundo. Um homem que se estima não pode ser considerado como um simples transportador de palavras. Com ele se discute sabendo-se que vale a pena, que não é tempo perdido. Confesso com muito prazer que Meyer-Clason me convenceu de que uma passagem de meu romance — na realidade se tratava de uma metáfora — era mais convincente na tradução alemã que em meu original. É claro que aceito isso, e em uma nova edição brasileira pretendo adaptar esta passagem à versão que Meyer-Clason encontrou em alemão. A isto eu chamo cooperação, copensamento.
LORENZ: E o seu Riobaldo? Acho que você ainda não acabou de caracterizá-lo.
GUIMARÃES ROSA: Eu sei. Gostaria de acrescentar que Riobaldo é algo assim como Raskolnikov, mas um Raskolnikov sem culpa, e que entretanto, deve expiá-la. Mas creio que Riobaldo também não é isso; melhor é apenas o Brasil.
LORENZ: Ainda tenho uma última pergunta, a cuja resposta dou muita importância. Não ria, não vou lhe perguntar em que está tra­balhando agora. Sei que isso não levaria a nada. Mas gostaria que me dissesse u que pensa do futuro da América Latina.
GUIMARÃES ROSA: Realmente, pensei que você estava querendo me comprometer agora, e depois me perguntar todo ano, quando ficaria pronto o livro anunciado. Prefiro que não tenha sido assim. Sou um homem que viu muitas coisas no mundo, que entende muito de literatura mundial. Não quero pecar por presunção, mas com­parando quantitativa e qualitativamente o que se escreve, por exem­plo, na Europa, com o que se escreve entre nós, sinto-me um tanto orgulhoso. É claro que também entre nós se imprime muita coisa medíocre que nada tem a ver com a literatura. Mas isso existe sem­pre e em toda pane. Entre nós, não só no Brasil e não só entre os escritores velhos e os de minha geração, há muitos que justificam as maiores esperanças, e permitem que encaremos tranquilamente o futuro. A América Latina tornou-se no terreno literário e artístico, digamos em alemão, Weltfähig[30]. O mundo terá de contar. Olhe, Lorenz, não seria tão errado reduzir todas as ciências a uma lei bá­sica, como fizeram os escolásticos e cientistas medievais. Não, eu não quis evocar a teologia. Mas quero pintar um panorama que, no fundo, delineia todos os problemas, intelectuais da atualidade. Olhe o futuro da Europa e de toda a humanidade é como uma equação com várias incógnitas. A Europa é pequena, mas seus habitantes são ativos e, além disso, têm a seu favor uma grande tradição. E entretanto os europeus não têm qualquer influência sobre essas incógnitas que determinam o futuro de seu continente. O “x” e o “y” desta equação decidirão o amanhã, tanto é assim que quase já se pode dizer hoje. A América Latina talvez não seja a incógnita prin­cipal, o “x”, mas provavelmente será o “y”, uma incógnita secundá­ria muito importante. Pela matemática, sabe-se que uma equação não se resolve se uma segunda incógnita não for eliminada. Supo­nhamos agora que a América Latina seja a tal incógnita “y”. Com isso a Europa está em um ponto culminante para o seu futuro. E não estou falando apenas das necessidades e do potencial econômico de meu continente. Você sabe que nós, os latino-americanos, nos sentimos muito ligados à Europa. Para mim, Cordisburgo foi sempre uma Europa em miniatura. Amamos a Europa como, por exemplo, se ama uma avó. Por isso espero que a Europa reconheça a equação e leve em conta o “y”. Isso não lhe traria nenhum prejuízo. Por nós e conosco talvez a Europa tenha um futuro não só no campo eco­nômico, não só no campo político, mas também como fator de poder espiritual. No final das contas, somos parentes espirituais: avó e netos. A Europa é um pedaço de nós; somos sua neta adulta e pensamos com preocupação no destino, na enfermidade de nossa avó. Se a Europa morresse, com ela morreria um pedaço de nós. Seria triste, se em vez de vivermos juntos, tivéssemos de dizer uma oração fúnebre pela Europa. Estou firmemente convencido, e por isso estou aqui falando com você, de que no ano 2.000 a literatura mundial es­tará orientada para a América Latina; o papel que um dia desempenharam Berlim, Paris, Madrid ou Roma, também Petersburgo ou Viena, será desempenhado pelo Rio, Bahia, Buenos Aires e México. O século do colonialismo terminou definitivamente. A América Latina inicia agora o seu futuro. Acredito que será um futuro muito interessante, e espero que seja um futuro humano.
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NOTAS
[1] Trata-se do “Congresso de Escritores Latino-Americanos” realizado em Gênova em janeiro de 1965; na oportunidade, teve lugar este diálogo. Como resultado do Congresso ficou constituída, com uma tônica fortemente polí­tica, a primeira “Sociedade de Escritores Latino-Americanos”, da qual Gui­marães Rosa e Asturias foram eleitos vice-presidentes. Compare o diálogo com Asturias.
[2] Durante o Coloquio de escritores latinoamericanos y alemanes, realizado em 1964 em Berlim Ocidental, travou-se veemente polêmica entre Asturias e Borges, quando este atacou os escritores comprometidos e negou existirem condições dignas para uma literatura de compromisso na América Latina. Guimarães Rosa está se referindo à afirmação de Borges de que o compro­misso é uma traição à arte, por ser apenas documentação e não literatura.
[3] Esta cidade do norte de Portugal atualmente se chama Guimarães. Situa-se na província do Minho, perto de Braga, antiga cidade real e de peregrinação.
[4] Citado em alemão por Guimarães Rosa.
[5] Argumentando que o conceito usual de “Novela” (romance, em português) não era suficiente, Unamuno “inventou” o conceito anagramático “nivola”, escrevendo Niebla.
[6] Magma, premiado em 1936 pela Academia Brasileira de Letras. Os jurados consideraram este livro tão importante, que desistiram de atribuir um segundo prêmio, optando que não era possível uma comparação, nem mesmo aproxi­mada com Magma.
[7] Wilhelm Meister, título de um romance didático de Goethe.
[8] “De repente o diabo me cavalga”. Citado em alemão por Guimarães Rosa.
[9] “Ave rara”. Citado em alemão por Guimarães Rosa.
[10] “No fundo eu sou um homem solitário”. Frase de Mallarmé, citada em francês por Guimarães Rosa.
[11] Na dedicatória de seu Grande Sertão: Veredas.
[12] Além do Bem e do Mal, título de um livro fundamental de Nietzsche. Ci­tado em alemão por Guimarães Rosa.
[13] Por um artigo publicado no Brasil em 1967, após a morte de Guimarães Rosa, eu soube que ele falava português, espanhol, francês, inglês, alemão e italiano. Além disso, possuía conhecimentos suficientes para ler livros em latim, grego clássico, grego moderno, sueco, dinamarquês, servo-croata, russo, húngaro, persa, chinês, japonês, hindu, árabe e malaio.
[14] De Suppe = sopa. Guimarães Rosa utiliza a palavra para se referir ao tempo.
[15] “Estado de ânimo do dia de Finados”. Na Europa Central, tempo cinzento e chuvoso.
[16] Citado em alemão por Guimarães Rosa.
[17] “Cuidar dele”. Citado em alemão por Guimarães Rosa.
[18] “Liberto do peso da temporalidade”. Citado em alemão por Guimarães Rosa e extraído da resenha da edição alemã de Grande sertão (Colônia, 1964), publicado em 17 de setembro de 1964 em Welt der Literatur (“Mundo da Literatura”), Hamburgo.
João Guimarães Rosa,
ilustração Jefferson Nepomuceno
[19] “Toma literalmente”, citado em alemão por Guimarães Rosa.
[20] “Pidiendo un Sertón desde dentro”, citado em espanhol por Guimarães Rosa, como variação de um ensaio de Ortega y Gasset.
[21] “O interior e o exterior já não podem ser separados”. Citado em alemão por Guimarães Rosa.
[22] O Divã Oriental-Ocidental, uma das principais obras de Goethe. Citado em alemão por Guimarães Rosa.
[23] “É o homem que perdeu Deus e encontrou o diabo”; da crítica à edição alemã de Grande sertão. Citado em alemão por Guimarães Rosa.
[24] Primeiro romance em língua alemã, de Grimmelshausen, publicado em 1663.
[25] “Homem de Wolfsburg”. Wolfsburg é a cidade alemã que cresceu a partir da fundação da fábrica Volkswagen. Símbolo da civilização técnica, como Detroit. A expressão de Guimarães Rosa é muito significativa: “Wolfsburg-Mensch”, traduzido literalmente, quer dizer “homem do castelo do lobo”.
[26] “Poesia é a linguagem do indizível”. Citado em alemão por Guimarães Rosa.
[27] Gilberto Freyre, sociólogo, em sua Interpretação do Brasil (Lisboa) e em Casa Grande e Senzala (Rio de Janeiro, 1933).
[28] Guimarães Rosa refere-se à apresentação estereotipada dos heróis das histórias em quadrinhos.
[29] Inventado uma nova paisagem literária”. Citado em alemão por Gui­marães Rosa.
[30] “Apta para o mundo”. Citado em alemão por Guimarães Rosa.


Referência de Pesquisa
LORENZ, Günter W. Diálogo com Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo F. (org.). Guimarães Rosa. 2ª ed., Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1991. p. 62-97.

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2 comentários:

  1. Rosana Luiza Destro Keppe17 de julho de 2012 00:56

    Obrigado por deixarem esta entrevista, tão importante, à disposição do público que ama Guimarães Rosa.

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