Ted Hughes - poemas

Ted Hughes 
TED HUGHES - NOTA BIOBIBLIOGRÁFICA*
(texto em português de Portugal)

Ted Hughes nasceu a 17 de agosto de 1930 na pequena cidade de Mytholmroyd em Calder Valley, na província de West Riding of Yorkshire, umas das três subdivisões do condado de Yorkshire, Inglaterra, área que continuou a visitar ao longo da sua vida tanto na poesia como na prosa que produzia. Esta relação com Calder Valley é bastante evidente na coleção Remains of Elmet, escrita por Hughes em resposta ao trabalho fotográfico a preto e branco de Fay Godwin (Armitage, 2013: 6). Filho de William Henry e Edith Hughes, Ted Hughes era o mais novo dos três filhos: Olwyn Hughes e Gerald Hughes eram mais velhos dois e dez anos do que Hughes, respetivamente. O seu pai foi um dos dezassete sobreviventes do seu regimento na Campanha dos Dardanelos (1915-16), durante a Primeira Guerra Mundial: “William Hughes, Ted’s father, was one of the only 17 men from his regiment in the Lancashire Fusiliers to return alive from the Battle of Gallipolli” (Webb, 2013: 34) Aliás, vários poemas em The Hawk in the Rain refletem a obsessão de Hughes com a Grande Guerra, por influência de seu pai, tais como: “Griefs for Dead Soldiers”, “Six Young Men”, até “Bayonet Charge”, para nomear alguns. Hughes e a sua família deslocaram-se de Mythomroyd para Mexborough em South Yorkshire quando este era ainda uma criança: “[I]n fact, some commentators make him as young as seven when the family packed their bags (…)” (Armitage, 2013: 6). Estes primeiros anos em Calder Valley influenciaram e marcaram Hughes para o resto da vida. É também durante esta altura que Hughes desenvolve um forte interesse pela vida selvagem por influência do irmão mais velho, Gerald Hughes: “My [Hughes] first six years shaped everything” (Sagar, 2000: 40). 

O interesse de Ted Hughes pela escrita e pela poesia foi inspirado pelos seus professores na Grammar School em Mexborough. Duas das suas primeiras publicações surgiram na revista da escola, The Don and Dearne, assim como o poema “Wild West”. Antes de ingressar no Pembroke College em Cambridge, Hughes cumpriu o serviço militar durante dois anos (1949 a 1951), ficando colocado numa pequena estação da Royal Air Force (Força Aérea do Reino Unido), na zona este de Yorkshire (Bate, 2015: “Goddess”).

A candidatura de Hughes a Cambridge teve a ajuda do seu professor de Inglês, John Fisher, que enviou um conjunto de poemas de Hughes para o diretor do college, para reforçar a sua candidatura. No entanto, numa carta para Keith Sagar, Hughes admitiu mais tarde que havia descoberto que tinha reprovado no exame de admissão, mas que o diretor tinha gostado da sua poesia a ponto de o selecionar como estudante (Roberts, 2013: 17). Porém, nunca foi claramente esclarecido se de facto os poemas tiveram muita influência na admissão de Hughes em Cambridge:
‘My doubts are confirmed in an article by Pembroke Fellow Colin Wilcockson, who establishes that poems were sent in support of Hughes’ application but that there is no record of what impression they made. Wilcockson (…) points out that decisions were made collectively by a group of colleges, so that the Master would not have the prerogative implied by the ‘dark horse’ story.’ (Roberts, 2013, 18)
Ted Hughes, by David Levine
Embora a poesia tenha sido o fator principal no seu ingresso em Cambridge, Hughes deixaria o seu estudo académico, escolhendo no segundo ano estudar antropologia e arqueologia (Neil Roberts, 2013, 18), pois sentia que este estudo académico de literatura o estava a distanciar do processo criativo poético: “(...) he writes that critical prose was depriving him of 'a non-analytic language, wholeness of language', which he needed to access his most authentic self” (Roberts, 2013: 18). Esta decisão de se afastar da dissecação académica da literatura surgiu após o famoso sonho com a raposa: 
“(…) the famous dream of the burnt fox that interrupted the writing of Hughes’ weekly critical essay with the words ‘Stop this – you are destroying us’ (…)” (Gifford 2013, 2).
Já quase no fim dos seus estudos em Cambridge, Hughes publica dois poemas, “The Little Boys and the Seasons” e “Song of the Sorry Lovers”, nas revistas de estudantes Granta e Chequer (Roberts, 2013: 18). 

Em 1956, no lançamento da revista St. Botolph’s Review, o autor conhece Sylvia Plath, também escritora e poetisa. Segundo Hughes, tanto ele como Plath estavam “curiosos” em se conhecer; ambos haviam sido publicados em várias revistas literárias que proliferavam por Cambridge na altura, e Plath também já tinha sido publicada na revista Chequer, onde Hughes havia publicado “The Jaguar” e “Casualty” (Gill, 2011: 53). Sylvia Plath e Ted Hughes iriam casar a 16 de junho de 1956, na igreja de St George the Marty Holborn em Londres, quatro meses após se terem conhecido. O casal teve dois filhos, Frieda Rebecca (1960-) e Nicholas Farrar (1962-2009) (Bate, 2015: “Famous Poet”).

O casamento com Sylvia Plath, bem com a sua dissolução, iria ser um marco importante na vida e obra de Hughes. Sylvia Plath teve uma influência grande na carreira poética de Hughes, não só pela influência da literatura americana que lhe deu a conhecer (Gill, 2011:55), como também foi Plath que enviou um manuscrito de The Hawk in the Rain para uma competição de poesia pelo Poetry Centre of Young Men's and Young Women's Hebrew Association of New York. O prémio de primeiro lugar da competição era a publicação de um livro, e o manuscrito garantiu o primeiro lugar a Ted Hughes.

The Hawk in the Rain foi publicado em Londres a 13 de setembro de 1957, pela editora Faber and Faber, e revelou-se um grande sucesso crítico, valendo a Hughes o
prestigiado prémio Somerset Maugham Award (Bate, 2015: “So this is America”). A coletânea contém alguns dos poemas mais famosos de Ted Hughes, como o titular “The
Hawk in the Rain”, “The Jaguar”, “The Thought-Fox”, “Wind” e Famous Poet”, para nomear alguns. A estreia de Hughes foi uma viragem na poesia britânica, rompendo
com o estilo do chamado “Movement”, o movimento poético dominante na altura da sua publicação: “His voice was very different, that was to say, from the urbane tones of
the poets of the so-called Movement – the anti-romantic, anti-Dylan Thomas group, including Philip Larkin, Kingsley Amis and Donald Davie, whose work had been
gathered the previous year in an anthology called New Lines” (Bate, 2015: “So this is America”). A coletânea chamou a atenção do poeta Edwin Muir, que numa crítica para a revista britânica New Statesman escreveu:
‘Mr Ted Hughes is clearly a remarkable poet, and seems to be quite outside the current of his time. (…) His distinguishing power is sensuous, verbal and imaginative; at his best the three are fused together, (…) [h]is images have an admirable violence.’ All in all, The Hawk in the Rain was ‘A most surprising first book, and it leaves no doubt about Mr Hughes’s powers.’ (Bate, 2015: “So this is America”).
The Hawk in the Rain serve de alicerce forte para o resto da obra de Hughes, introduzindo temas dominantes tais como a natureza como uma força malévola que nada se preocupa com o ser, animal ou homem, violência, guerra (como já referido), competição e conflito: no poema titular da coletânea, o gavião assume o simbolismo da humanidade e as suas tentativas fúteis de dominar os elementos.

A década de 60 viria a revelar-se amarga para Hughes, embora tenha começado de forma promissora. O poeta publica Lupercal em 1960, o seu segundo volume de poesia. A coletânea revelou-se um enorme sucesso crítico e comercial: 
“The Daily Telegraph’s Poetry reviewer agreed:’ (…) Ted Hughes’s poems, Lupercal, which have been called violent, are in fact genuinely powerful, not self-consciously virile … Mr Hughes at 30 is to me the most strikingly original, technically masterful, poet of his generation.” (Bate, 2015: “Famous Poet”). 
Ted Hughes, por Reginald Gray (2004)
Embora a subordinação do Homem perante a natureza continue a ser uma das ênfases da sua poesia, em Lupercal, a coletânea explora vários temas, como a vida de um veterano do Império Britânico em “The Retired Colonel”, a Primeira Guerra Mundial (“Wilfred Owen’s Photographs”), e o próprio Império Romano no último poema da coletânea, “Lupercalia” (Bate, 2015: “Famous Poet”). Um dos poemas mais famosos de Lupercal é “Hawk Roosting”, que representa a prática de Hughes escrever do ponto de vista do animal: “Hughes himself [said] in his original notes on the collection: ‘In this, I imagine the hawk speaking to himself. He is like a dictator, who thinks he is God and invincible’” (Bate, 2015: “Famous Poet”).

O casamento de Ted Hughes com Sylvia Plath entrou em declínio quando o poeta conheceu Assia Wevill em 1962, esposa de David Wevill, também poeta (Bate, 2015: “The Grass Blade”). A relação de adultério com Assia Wevill, assim como outras alegações de infidelidade pela parte de Hughes, foram fatores contributivos para a separação do casal. Sylvia Plath era, também, uma personalidade complexa, e contava com um vasto historial de depressões e tentativas de suicídio: “Plath’s temperament, exacerbated by her depression, made her possessive and jealous” (Bate, 2015: “That Sunday Night”).

Sylvia Plath acabaria por se suicidar pelas seis da manhã de 11 de fevereiro de 1963 por gaseamento: “Sylvia had taped up the kitchen and bedroom doors, and placed towels underneath, to stop the gas from spreading through the rest of the flat. Then she had placed her cheek on a kitchen cloth folded neatly on the floor of the oven and turned on the taps of the cooker” (Bate, 2015: “That Sunday Night”). 

O suicídio de Plath foi um marco na vida de Hughes, visto nunca ter ultrapassado a sua perda, e o autor voltaria, mais tarde, a explorar a sua vida com Plath na coletânea Birthday Letters: “She asked me for help, as she so often has,’ he wrote. ‘I was the only person who could have helped her, and the only person so jaded by her states and demands that I could not recognize when she really needed it” (Bate, 2015: “That Sunday Night”). A relação de Assia Wevill com Ted Hughes perdura até 1967, embora Wevill tenha tido dificuldade em tomar o lugar de Plath: “She described herself as ‘The weak mistress, forever in the burning shadows of their [Ted and Sylvia’s] mysterious seven years’” (Bate, 2015: “The Custodian”).

Em 1964, Ted Hughes cria a revista MPT juntamente com Daniel Weissbort, publicada pela primeira vez em 1965 (Weissbort, 2011:7): “They [Hughes & Weissbort] called it Modern Poetry in Translation and in it they planned to publish the best and most insistent work available to them in English translation “ (Modern Poetry in Translation, n.d.). MPT solidificou o interesse de Ted Hughes pela tradução: o intuito da revista era dar a conhecer, ao panorama literária britânico, escritores e poesia de todo o mundo, numa tentativa de “unir” a poesia, de a tornar numa linguagem universal: “One can easily understand the suddenness of the need to communicate, to exchange dreams and revelations and brainwaves, to find a shared humanity on the level of the heart. The translation of poetry became important, almost political business” (Hughes, MPT site).

Em maio de 1967, Faber and Faber publica a terceira coletânea do poeta, Wodwo, que difere das coletâneas anteriores de Hughes: é composta por três partes, com poesia na primeira e na terceira (e última) parte, sendo a do meio composta por contos (Bate, 2015: “The Iron Man”):
‘Ted explained to his old schoolteacher John Fisher that Wodwo was a kind of completion of The Hawk in the Rain and Lupercal, the end of the first phase of his poetic career.’ (Bate, 2015: “The Iron Man”)
Os poemas que compõem a primeira parte de Wodwo lembram o estilo das coletâneas antecedentes, The Hawk in the Rain e Lupercal, como o poema “Second Glance at the Jaguar”, que revisita o animal de “The Jaguar” da primeira coletânea, enquanto a terceira parte da coletânea usa “a symbolic and quasi-mythological apparatus” (Bate, 2015: “The Iron Man”), que mais tarde iria explorar mais aprofundadamente com Crow: From the Life and Songs of the Crow (1970). De notar que grande parte dos poemas que compõem esta coletânea foram escritos antes do suicídio de Sylvia Plath (Bate, 2015), salvo exceções como “The Howling of Wolves”: “Lying in Sylvia’s bed in Fitzroy Road at night he heard the eerie cal from the wolf enclosure at London Zoo. It was like the howl of pain in his own heart” (Bate, 2015: “The Custodian”). 


Ted Hughes, por Edward Collet
Em 1968 The Iron Man (The Iron Giant nos Estados Unidos) é publicado. Trata-se de um romance para crianças, que viria a ser uma das obras mais bem-sucedidas de Ted Hughes. O livro retrata a chegada a Inglaterra de um gigante de ferro, que surge de início como uma ameaça ao planeta, até se tornar amigo de Hogarth, uma criança do campo com alguns traços biográficos de Hughes, como o interesse pela pesca (Bate, 2015: “The Iron Man”). O titular “Iron Man” acaba por se tornar o defensor do planeta Terra quando este é atacado por uma criatura vinda do espaço (Bate, 2015: “The Iron Man”).

Em 1969, o autor passa por uma tragédia bastante semelhante à de Sylvia Plath: Assia Wevill comete suicídio por gaseamento, e leva consigo a sua filha de quatro anos,
Alexandra “Shura” Wevill: “(…) [W]hen Assia Wevill commited suicide in the same manner of Plath, by using a gas oven, but also took the life of her little daughter Shura”. (Moulin, 2011: 23). Nunca foi claramente esclarecido se “Shura” era filha de Hughes, embora Hughes acreditasse que “Shura” seria sua filha: “He gave a statement to the police, explaining that he had met Assia seven years before (…) [and] had become ‘very close friends, and eventually the friendship blossomed into love’. They ‘became intimate, and there was a girl born of this union”, (Bate, 2015: “Then autobiographical things”).

Ted Hughes publica em 1970 o seu primeiro volume original de poesia desde Wodwo, Crow: From the Life and Songs of the Crow. O conceito de Crow surgiu originalmente de um projeto de Leonard Baskin (1922-2000) com Hughes em 1964. Após o suicídio de Plath, Baskin propõe que Hughes escreva um poema, “The Anatomy of Crow”, para acompanhar uma coletânea de “Crow drawings” de Baskin: “a request made just three weeks after Sylvia Plath’s death, with the explicit intention of propelling Ted ‘from despair to activity’” (Bate, 2015: “The Crow”). Hughes tenta desenvolver o projeto como “a saga, an epic poem, a creation myth, a counter-theology” (Bate, 2015: “The Crow”), até que o suicídio de Assia Wevill interrompe a composição de Crow: “The deaths in 1969 of Assia Wevill and of Shura, his daughter by her, devastated Hughes, forcing a premature conclusion to the collection’s composition”. (Webb, 2013: 36).

Incapacitado de acabar o projeto, Hughes publica-o como Crow: From the Life and Songs of the Crow: “[Crow]: was composed in a stark, unembellished style which can be said to represent a loss of faith in language”, e segundo Hughes, “’the idea was originally just to write his songs (…) songs with no music whatsoever, in a super-simple and a super-ugly language which would (…) shed everything just what [Crow] wanted to say’” (Webb, 2013: 36/37). A receção crítica de Crow foi ambivalente, com críticos a considerar o livro como “the assertion of a nihilistic violence” (Jonathan Bate, 2015: “The Crow”), ou vendo-o como centrado no tema do “fim da civilização”, bastante comum na altura (Bate, 2015: “The Crow”), face às realidades do Holocausto e o clima de Guerra Fria e o medo da ameaça nuclear; por outro lado, críticas como a publicada na Newsweek saudariam Crow como “one of those rare books of poetry that have the public impact of a major novel or a piece of super-journalism” (Bate, 2015: “The Crow) e que Hughes havia criado “one of the most powerful mythic presences in contemporary Poetry” (Bate, 2015). 

Ted Hughes casaria outra vez em 1970 com Carol Orchard, filha de um lavrador (Bate, 2015: “The Savage God”), e a Crow seguir-se-á Cave Birds (1975), uma coletânea de poemas sobre pássaros míticos e reais acompanhados de desenhos de Leonard Baskin (Bate, 2015: “Farmer Ted”). 

Moortown é publicado em 1978 pela Rainbow Press, e um ano mais tarde pela Faber and Faber, juntamente com outros poemas. A coletânea é dedicada ao seu sogro, Jack Orchard, que também é o tema do poema “The day that he died”, escrito um dia depois de Jack falecer (Bate, 2015: “Farmer Ted”). A coletânea é composta por poemas
sobre a vida no campo, escritos por Ted Hughes no início da década de setenta durante a sua estadia na titular quinta do seu sogro, Moortown (Bate, 2015: “Farmer Ted”). Só em 1989 é que a coletânea é publicada como Moortown Diary, contendo apenas os poemas sobre o campo ligeiramente reordenados (Bate, 2015: “The Elegiac Turn”).

Em dezembro de 1984, Ted Hughes é nomeado o Poeta Laureado do Reino Unido, após o seu contemporâneo Philip Larkin (1922-1985) recusar a oferta: “The Palace issued a press release on Wednesday 19 December 1984: ‘The Queen has been pleased to approve that Edward James Hughes be appointed Poet Laureate in Ordinary to Her Majesty in succession to the late Sir John Betjeman’” (Bate, 2015: “The Laureate”). Salienta-se o poema Rain-Charm for the Duchy, dedicado ao Príncipe Harry, que havia sido batizado dois dias depois de Hughes ter sido nomeado Poeta Laureado: “This work was dedicated to the young Prince Harry and described by Ted as ‘a fitting splash for the christening’ (…)” (Heaney, 2013: 225).

Ao longo das décadas de oitenta e noventa grande parte da produção criativa do autor é dominada por traduções de poesia e clássicos, como Tales from Ovid (1997) de
Ovídio, publicado em maio de 1997, que valeu a Hughes o prémio Whitbread Book of the Year: “the Ovid book won Britain’s biggest literary award apart from the Booker
(which was only for novels): the Whitbread Prize (…)” (Bate, 2015: “The Return of Alcestis”).
Ted Hughes, por Rik Rawling

Birthday Letters foi publicado em 1998 pela Faber and Faber, e foi um sucesso imediato, e numa questão de semanas já tinha vendido dezenas de milhares de cópias:
“On the leader page, The Times opined that this was ‘The greatest book by our greatest living writer’” (Bate, 2015: “The Sorrows of the Deer”). A coletânea, composta por oitenta e oito poemas escritos ao longo de três décadas, retrata a relação atribulada do casal, contendo poemas como “St Botolph’s”, que retrata quando se conheceram, e “The Blue Flannel Suit” referente ao primeiro dia de aulas de Sylvia Plath no Smith College:

“These poems had, it transpires, been written over some three decades (…) [and] Birthday Letters caught the public by surprise. Here, it seemed, for the first time, Hughes was revealing the true story of his married life, ‘breaking decades of diplomatic silence’ and, finally, ‘set[ting] the record straight’”. (Gill, 2011:58)


Na primavera do mesmo ano, Hughes publica a coletânea Howls and Whispers. A coletânea contém apenas onze poemas, e teve uma tiragem de apenas 100 exemplares juntamente com mais 10 altamente personalizados e de coleção (Bate, 2015: “The Sorrows and the Deer”), que foram distribuídos maioritariamente pelos amigos do autor. 
Os onze poemas que compõem Howls and Whispers têm uma forte ligação com Birthday Letters: poemas como “The City” sugerem um Hughes ainda atormentado não só por Plath, como pela sua memória e a sua escrita; “The Minotaur II” está tematicamente ligado a “The Minotaur” de Birthday Letters; enquanto o poema titular “Howls and Whispers” relembra “That Tender Place” de Birthday Letters, com Hughes a redirecionar parte da culpa da tragédia de Plath para terceiros.

Ted Hughes sofria de cancro terminal aquando das suas últimas publicações, facto que manteve secreto do público, contando apenas aos seus amigos mais chegados. A publicação de obras tão pessoais e de natureza confessional, como Birthday Letters e Howls and Whispers, estará ligada a esta doença terminal de que sofria, quase que como uma tentativa de “cura” interior:
Perhaps there is no finer example of the effects of this attempt at self-cure than with his unguarded expression of relief in a letter to Seamus Heaney, that the publication of Birthday Letters resembled a physical operation rather than a literary endeavour (…).’ (Hadley, 2013: 197)
Hughes morre a 28 de outubro de 1998, na sua casa em North Tawton, tendo finalmente perdido a luta contra o cancro do cólon (Bate, 2015: “The Legacy”). Collected Poems, um livro com mais de 1300 páginas contendo quase toda a obra poética de Hughes, é publicado em 2003 pela Faber and Faber (Bate, 2015: “The Legacy”).
Fonte: *PEREIRA, Luís Francisco Neves. Tradução e Reflexão Crítica de alguns poemas de Ted Hughes (Dissertação Mestrado em Estudos Anglo-Americanos). Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2017. Disponível no link. (acessado em 18.4.2018)


Ted Hughes, por Julia Heseltine

Obras de Ted Hughes no Brasil
Poesia
:: O que é a verdade?: poemas de bichos | What is the tryth?. Ted Hughes. [tradução Sérgio Alcides; ilustrações Lisa Flather]. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
:: Cartas de aniversário | Birthday Letters. Ted Hughes. [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

Poemas publicados em revistas e jornais 
:: Quatro corvos. Ted Hughes[tradução Sergio Alcides]. Caderno Ilustríssima. Folha de S. Paulo. 20.11.2011.
:: A última carta | Last Letter. Ted Hughes. em 'Poesia, Poesia Estrangeira'. [tradução e notas de Marcus Salgado]. Academia Brasileira de Letras, Revista Brasileira nº 69, ano XVIII, outubro-dezembro, 2011. p. 278-291.
:: O jaguar. Ted Hughes. [tradução Sergio Alcides]. Suplemento Literário de Minas Gerais. Belo Horizonte: Secretaria de Estado da Cultura de Minas Gerais, 2010.


Ted Hughes, por Sylvia Plath  
Contos
:: O caçador de sonhos e outros contos de criação | The dreamfighter and other creatio. Ted Hughes. [tradução Sérgio Alcides]. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
:: Dificuldades de um Noivo | Difficulties of a Bridegroom. Ted Hughes. [tradução Rubem Mauro Machado]. Rio de Janeiro: Record, 1998.

Infanto-juvenil
:: Marco, o Barco | Timmy the Tug. Ted Hughes. [tradução Alípio Correia de Franca Neto; ilustrações e posfácio Jim Downer]. Edição bilíngue. São Paulo: Cosac Naify, 2010. 
:: O Homem de Ferro | The Iron Man: A Children’s Story in Five Nights. Ted Hughes. [tradução ?]. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Biografia
MALCOLM, Janet. A Mulher Calada - Sylvia Plath, Ted Hughes e Os Limites da Biografia. [tradução Sergio Flaksman]. São Paulo: Companhia De Bolso, 2012.

Obras de Ted Hughes em Portugal
:: O Fazer da Poesia. Ted Hughes. [tradução Hélder Moura Pereira]. Colecção Testemunhos. Lisboa: Assírio & Alvim, 2002.
:: Cartas de Aniversário. Ted Hughes. [tradução Manuel Dias]. Lisboa: Relógio D'Água, 2000. 
Em Antologia
:: Antologia de poesia britânica contemporânea. [tradução Manuel de Seabra]. Lisboa: Livros Horizonte, 1982.


 Ted Hughes, por Sylvia Plath (1956)
Biografia não autorizada
BATE, Jonathan. Ted Hughes. the unauthorised life. Editora Willíam Collins, 2015. 

Fortuna Crítica
FORTUNA, Felipe. As trevas de Hughes. in: Folha de S. Paulo, 15.11.1998. Disponível no link. (acessado em 19.4.2018).
PEREIRA, Luís Francisco Neves. Tradução e Reflexão Crítica de alguns poemas de Ted Hughes (Dissertação Mestrado em Estudos Anglo-Americanos). Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2017. Disponível no link. (acessado em 18.4.2018).
RODRIGUES, Júlia. Lírio-lua: a poesia de Ted Hughes para crianças. in: Conversa entre ruínas, 8.7.2016. Disponível no link. (acessado em 19.4.2018).
VALLE, Marina Della. Enfim, a voz de Ted Hughes. in: Biblioteca Diplô, 3.11.2007. Disponível no link. (acessado em 19.4.2018).
VALLE, Marina Della. A tradução do verso livre em inglês por tradutores brasileiros: um panorama de ideias. (Tese Doutorado em Estudos Linguístiocs e Literários em Inglês). Universidade de São Paulo, USP, 2016. Disponível no link. (acessado em 19.4.2018).
VIANA, Cassiano. Ted Hughes: casamento com Sylvia Plath marcou a trajetória do poeta. Jornal do Brasil, 21.8.2009. Disponível no link. (acessado em 19.4.2018).



Ted Hughes, por N.C. Mallory 

Poemas (edição bilíngue)


BOLSISTAS DA FULBRIGHT

Onde teria sido, na Strand? Notícias
Em exposição, fotografias.
Não sei por quê, me chamou a atenção.
Uma foto da mais recente leva
De bolsistas da Fulbright. Prestes a vir –
Ou recém-chegados. Ao menos alguns.
Você era um deles? Examinei a foto,
Não muito a fundo, me perguntando quais
Eu talvez viesse a conhecer.
Lembro de ter pensado nisso. Não lembro
Seu rosto. É claro que olhei mais
Para as moças. Reparei talvez em você.
Quem sabe a avaliei, e achei pouco provável.
Vi seus cabelos longos, ondas soltas –
A franja à Veronica Lake. Não o que ela escondia.
Loura, eu teria pensado. E o seu sorriso.
Seu sorriso americano exagerado
Para as câmeras, os juízes, os estranhos, os atemorizadores.
Depois esqueci. Mas me lembro
Da foto: os bolsistas da Fulbright.
Com bagagem e tudo? Pouco provável.
Teriam vindo todos juntos? Eu estava caminhando,
Pés cansados, sol forte, calçadas quentes.
Foi então que comprei um pêssego? É o que lembro.
Num quiosque junto à estação de Charing Cross.
O primeiro pêssego fresco que jamais comi.
Tão gostoso que mal acreditei.
Aos vinte e cinco anos, mais uma vez surpreendi-me
De ver que ignorava as coisas mais simples.

.

FULBRIGHT SCHOLARS
Where was it, in the Strand? A display
Of news items, in photographs.
For some reason I noticed it.
A picture of that year’s intake
Of Fulbright Scholars. Just arriving –
Or arrived. Or some of them.
Were you among them? I studied it.
Not too minutely, wondering
Which of them I might meet.
I remember that thought. Not
Your face. No doubt I scanned particularly
The girls. Maybe I noticed you.
Maybe I weighed you up, feeling unlikely.
Noted your long hair, loose waves –
Your Veronica Lake bang. Not what it hid.
It would appear blond. And your grin.
Your exaggerated American
Grin for the cameras, the judges, the strangers, the frighteners.
Then I forgot. Yet I remember
The picture: the Fulbright Scholars.
With their luggage? It seems unlikely.
Could they have come as a team? I was walking
Sore-footed, under hot sun, hot pavements.
Was it then I bought a peach? That’s as I remember.
From a stall near Charing Cross Station.
It was the first fresh peach I had ever tasted.
I could hardly believe how delicious.
At twenty-five I was dumbfounded afresh
By my ignorance of the simplest things.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

CARIÁTIDES (I)
O que sustentavam aquelas cariátides?
Foi o primeiro poema seu que li.
Foi o único poema escrito por você
Que li e não gostei com olhos de estranho.
Achei-o ralo, quebradiço, os versos frios.
Como o teorema de uma arapuca – montada.
Foi o que vi. Nada caíra na armadilha, vazia.
Não me interessei. Dentro de mim bao senti
Presságio algum. Naqueles tempo eu arrancava à força
De todos os sinais
Augúrios que me fossem favoráveis.
Por isso não vi nada
Nos rostos brancos, vendados, rígidos
Dessas mulheres. Senti a fragilidade delas, sim:
Alumínio queimado a esboroar-se.
Frágil como o manga de lampião.
Mas nada me disse
Aquele ceu enorme, sem estrelas, de granito
Em plena queda
                                 imobilizado, como num instantâneo,
Pelos cabelos delas.

.

CARYATIDS (I)
What were those caryatids bearing?
It was the first poem of yours I had seen.
It was the only poem you ever wrote
That I disliked through the eyes of a stranger.
It seemed thin and brittle, the lines cold.
Like the theorem of a trap, a deadfall – set.
I saw that. And the trap unsprung, empty.
I felt no interest. No stirring
Of omen. In those days I coerced
Oracular assurance
In my favour out of every sign.
So missed everything
In the white, blindfolded, rigid faces
Of those women. I felt their frailty, yes:
Friable, burnt aluminium.
Fragile, like the mantle of a gas-lamp.
But made of nothing
Of that massive, starless, mid-fall, falling
Heaven of granite
                                stopped, as if in a snapshot,
By their hair.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

CARIÁTIDES (II)
Bobos de excesso de confiança, com roupas
De quem ainda não parou de crescer,
Ainda deitados no palanquim macio
Da natureza a espreguiçar-se
Rumo à plenitude, descuidávamos
Da vida séria, nós três, ou quatro, cinco, seis –
Brincando de amizade. Tempo à força
Para testar cada papel – só de farra,
Só para ver como era, empregando nosso tempo
Aos caprichos do impulso, jogos,
Improvisos em torno do vazio,
Como prisioneiros, nossa vida real
Ainda adiada, ela e o mundo e eu
Reais. Assim, brincando de estudantes, vivíamos
A encher e esvaziar, ébrios, encher e esvaziar de novo
Um tédio, uma cornucópia
De vácuo, de cerveja escura
E clara, criando e descriando –
Como deuses, ateus e à-toa,
Dramaturgia do arbitrário.
Foi essa a nossa formação. Aos domingos
Cruzava os pátios úmidos o mundo, educado,
Com passos inseguros de turista.
Todas as estradas abertas demais, abertas muito fundo
Para todas as pontas da rosa-dos-ventos.
Aqui, no centro da teia, na encruzilhada,
Você publicou o seu poema
Sobre as Cariátides. Já ouvíramos falar
Da dança dos seus louros véus, seus gestos fogosos,
Seu narcisismo de desajustada. Mais um modo
De aproximação com você que uma censura,
Mais para fazer contato em meio
À gangorra esfuziante de altas erudições
E camaradagem rasteira que para corrigi-la
Com nossos princípios arcaicos, planejamos
Um ataque, um desmembramento, às gargalhadas.
Tínhamos uma folha onde publicá-lo.
Quem o compôs foi nosso galês – ainda surdo
Ao ruído branco da elegia
Que lhe encheria boca e ouvidos
Mundos depois, em Cader Idris, ao vento e neve
Da última escalada que você fez.

.

CARYATIDS (II)
Stupid with confidence, in the playclothes
Of still growing, still reclining
In the cushioned palanquin,
The nursery care of nature's leisurely lift
Towards her fullness, we were careless
Of grave life, three of us, four, five, six –
Playing at friendship. Time is plenty
To test every role – for laughs,
For the experiment, lending our hours
To perversities of impulse, charade-like
Improvisations of the insane,
Like prisoners, our real life
Perforce deferred, with the real
World and self. So, playing at students, we filled
And drunkenly drained, filled and again drained
A boredom, a cornucopia
Of airy emptiness, of the brown
And the yellow ale, of makings and unmakings –
Godlike, as frivolous as faithless,
A dramaturgy of whim.
That was our education. The world
Crossed the wet courts, on Sunday, politely,
In tourists' tentative shoes.
All roads lay too open, opened too deeply
Every degree of the compass.
Here at the centre of the web, at the crossroads,
You published your poem
About Caryatids. We had heard
Of the dance of your blond veils, your flaring gestures,
Your misfit self-display. More to reach you
Than to reproach you, more to spark
A contact though the see-saw bustling
Atmospherics of higher learning
And lower socializing, than to correct you
With our arachaic principles, we concocted
An attack, a dismemberment, laughing.
We had our own broadsheet to publish it.
Our Welshman composed it – still deaf
To the white noise of the elegy
That would fill his mouth and his ear
Worlds later, on Cader Idris,
In the wind and snow of your final climb.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

VISITA
Lucas, meu amigo, um
Dos três ou quatro permaneceram imutáveis
Como um outro eu,
Pedra no leito do rio
Imune a toda mudança, tornou-se seu amigo.
Fui alertado do fato. Eu estava desperdiçando
A juventude num escritório perto de Slough.
De manhã eu ia a Slough, à tarde voltava a Holborn,
Guardando meu salário para um dia saltar
Para a liberdade e o outro lado da terra – em queda livre,
Lançando longe minha crisálida no turbilhão.
Aos fins de semana, sofria recaídas
Acadêmicas. A namorada
Tinha em comum o orientador e uma reunião semanal
Com a sua rival americana e você.
Ela odiava você. Me dava fotos suas, sem saber
O celulóide inflamável que lançava
Em meu futuro silencioso, insaciável,
Lanterna interior a procurar num jogo.
De cabra-cega. Uma vez, com meu amigo,
Após a meia-noite, num jardim, eu jogava
Torrões de terra numa janela escura.

Bêbado, ele jurava que era a sua.
Bem menos bêbado, eu não sabia que não era.
Tampouco sabia estar sendo testado
Para o papel de protagonista do seu drama,
Representando em mímica os primeiros movimentos
Ainda fáceis, como se de olhos fechados, tateando.
Como quem testa um títere e seus fios, ou encosta
Eletrodos nas patas de uma rã morta.
Eu treinava esses gestos ágeis – observado e julgado
Só pela escuridão, as estrelas e uma sombra.
Desconhecido por você, sem conhecê-la.
Querendo achar você e errando, e errando outra vez.
Jogando terra numa vidraça que não a protegia
Porque você não estava lá.

Dez anos depois da sua morte
Vejo no seu diário, como nunca antes,
O choque da sua felicidade
Quando soube da história. Depois, o choque
Das suas preces. E sob as preces, o pânico,
O medo de que as preces não realizassem o milagre,
E sob o pânico, o pesadelo
Que veio ao seu encontro para esmaga-la:
A sua alternativa – o antigo,
Inimaginável desespero e a agonia nova
Fundidos num inferno bem conhecido.

De repente leio tudo isso –
Suas palavras, tais como saíram
Da sua garganta e boca, até a página do diário –
Tal como a sua filha, já faz tantos anos,
Entrou um dia, me olhou no rosto,
Perplexa,
Quando eu trabalhava sozinho
Na casa silenciosa, e de repente perguntou:
“Pai, cadê mamãe?” A terra congelada
Do jardim, que eu unhava.
À minha volta, o gigantesco
Relógio de gelo da meia-noite. E dentro dele,
Em algum lugar, querendo sentir nada,
Um pulso fértil. Em algum lugar
Dentro do torpor daquela terra
Nosso futuro tentando acontecer.
Levanto a vista – como se para ouvir a sua voz
Com sua urgência de futuro
Que acaba de explodir em mim. Então olho para trás
O vejo o livro, as palavras impressas.
Você morreu há dez anos. É só uma história.
A sua história. A minha.

.

VISIT
Lucas, my friend, one
Among those three or four who stay unchanged
Like a separate self,
A stone in the bed of the river
Under every change, became your friend.
I heard of it, alerted. I was sitting
Youth away in an office near Slough.
Morning and evening between Slough and Holborn,
Hoarding wage to fund a leap to freedom
And the other side of the Earth – a free-fall
To strip my chrysalis off me in the slipstream.
Weekends I received
Into Alma Mater. Girl-friend
Shared a supervisor and weekly session
With your American rival and you.
She detested you. She fed snapshots
Of you and she did not know what
Inflammable celluloid into my silent
Insatiable future, my blind-man's-buff
Internal torch of search. With my friend,
After midnight, I stood in a garden
Lobbing soil-clods up at a dark window.

Drunk, he was certain it was yours.
Half as drunk, I did not know he was wrong.
Not did I know I was being auditioned
For the male lead in your drama,
Miming through the first easy movements
As if with eyes closed, feeling for the role.
As if a puppet were being tried on its strings,
Or a dead frog's legs touched by electrodes.
I jigged through those gestures – watched and judged
Only by starry darkness and a shadow.
Unknown to you and not knowing you.
Aiming to find you, and missimg, and again missing.
Flinging earth at a glass that could not protect you
Because you were not there.

Ten years after your death
I meet on a page of your journal, as never before,
The shock of your joy
When you heard of that. Then the shock
Of your prayers. And under those prayers your panic
That prayers might not create the miracle,
Then, under the panic, the nightmare
That came rolling to crush you:
Your alternative – the unthinkable
Old despair and the new agony
Melting into one familiar hell.

Suddenly I read all this –
Your actual words, as they floated
Out through your throat and tongue and onto your page –
Just as when your daughter, years ago now,
Drifting in, gazing up into my face,
Mystified,
Where I worked alone
In the silent house, asked, suddenly:
'Daddy, where's Mummy?' The freezing soil
Of the garden, as I clawed it.
All around me that midnight's
Giant clock of frost. And somewhere
Inside it, wanting to feel nothing,
A pulse of fever. Somewhere
Inside that numbness of the earth
Our future trying to happen.
I look up – as if to meet your voice
With all its urgent future
That has burst in on me. Then look back
At the book of the printed words.
You are ten years dead. It is only a story.
Your story. My story.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

SAM
Era mesmo de esperar-se
Que seu cavalo, um garanhão branco e tranqüilo, Sam,
Perdesse a paciência e resolvesse
Voltar para casa em um galopando. Consigo sentir
O seu espanto, a sua certeza
De que o fim tinha chegado. Você perdeu os estribos. Ele descia
No galope a linha branca e reta de Barton Road.
Você perdeu as rédeas, perdeu a sela –
Era agarrar-lhe o pescoço e adorá-lo
Ou caie em queda livre. Você pendia do pescoço,
Uma joqueta invertida sem nada
A separá-la da torrente de macadame,
Aquele rio horrendo, duro e rápido,
Senão as patas fronteiras, pavorosas e potentes,
E o clangor das ferraduras contra o chão distante.

A sorte veio logo. Você estava de capacete?
E como segurou-se? Filhote de macaco
Com braços e pernas como se de aço.
O que a salvou? Quem sabe os seus poemas
Souberam salva-se, dependurados daquele pescoço impetuoso,
Na rede de seu corpo a balançar-se sobre a estrada íngreme.

Você só via um borrão. E os óculos protetores de um ciclista,
Caído, puxando a bicicleta sobre si, para proteger-se.
Eu sinto a sua angústia tensa, por um triz,
Abraçada ao que lhe restava de controle.
Como se agüentou? Você não conseguiria.
Algo em você que lhe era alheio fez o que fez por si.
Você resistiu, quase inconsciente, é o mais provável,
Até que ele entrou no estábulo. O galope
Foi para praticar, mas não bastou, e não serviu para nada.

Quando pulei a cerca, você me estrangulou
Por um instante tonto, e depois caiu,
Despendeu-se de mim, jogou-se entre meus pés,
Me fez tropeçar e caiu como morta. Tudo muito rápido.

.

SAM
It was all of a piece to you
That was your horse, the white calm stallion, Sam,
Decided he'd had enough
And started home at a gallop. I can live
Your incredulity, your certainty
That this was it. You lost your stirrups. He galloped
Straight down the white line of the Barton Road.
You lost your reins, you lost your seat –
It was grab his neck and adore him
Or free-fall. You slewed under his neck,
An upside-down jockey with nothing
Between you and the cataract of macadam,
That horribly hard, swift river,
But the propeller terrors of his front legs
And the claangour of the iron shoes, so far beneath you.

Luck was already there. Did you have a helmet?
How did you cling on? Baby monkey
Using your arms and legs for clinging steel.
What saved you? Maybe your poems
Saved themselves, slung under that plunging neck,
Hammocked in your body over the switchback road.

You saw only blur. And a cyclist's shock-mask,
Fallen, dragging his bicycle over him, protective.
I can feel your bounced and dangling anguish,
Hugging what was left of your steerage.
How did you hang on? You couldn't have done it.
Something in you not you did it for itself.
You clung on, probably near unconscious.
Till he walked into his stable. That gallop
Was practice, but not enough, and quite useless.

When I jumped a fence you strangled me
One giddy moment, then fell off,
Flung yourself off and under my feet to trip me
And tripped me and lay dead. Over in a flash.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

O PONTO FRACO
Suas têmporas, onde os cabelos começavam,
Eram seu ponto fraco. Uma vez, para ver no que dava,
Joguei uma lima sobre os eletrodos
De uma bateria de doze volts – explodiu
Feito uma granada. Alguém ligou fios em você.
Alguém acionou a chave. Lançaram
Um raio dentro do seu crânio.
Depois, com jalecos alvos, rostos lívidos,
Aproximaram-se para ver
Como você estava, presa às correias.
Ver se seus dentes ainda estavam inteiros.
A mão na chave calibrada,
Que não sentia nada
Além da sensação de não sentir, acionou a chave,
Para ter um espasmo de sensação. O terror
Era a nuvem de você
À espera dos relâmpagos. Eu vi
Um galho de carvalho ceifado de um só golpe.
Você, a perna de seu pai. Quantas vezes
Esse deus agarrou-a pelas raízes
Dos cabelos? Os relatórios
Fugiram de volta para as nuvens. O que subia
Vaporizava-se? Onde os pára-raios choravam cobre
E o nervo soltava a pele
Como uma criança incendiada
Correndo da explosão de uma bomba. Jogaram você,
Um fio torto e rígido,
Sobre a rede elétrica de Boston. As luzes
Do Senado escureceram
E a sua voz foi mergulhando
Até fugir pelo porão.
Subiu, anos depois,
Superexposta, como uma radiografia –
Cérebro ainda com manchas escuras,
Marcas de terra queimada
Da sua fuga. E as suas palavras,
Rostos se protegendo da luz,
Segurando as próprias entranhas.

.

THE TENDER PLACE
Your temples, where the hair crowded in,
Were the tender place. Once to check
I dropped a file across the electrodes
Of a twelve-volt battery – it exploded
Like a grenade. Somebody wired you up.
Somebody pushed the lever. They crashed
The thunderbolt into your skull.
In their bleached coats, with blenched faces,
They hovered again
To see how you were, in your straps.
Whether your teeth were still whole.
The hand on the calibrated lever
Again feeling nothing
Except feeling nothing pushed to feel
Some squirm of sensation. Terror
Was the cloud of you
Waiting for these lightnings. I saw
An oak limb sheared at a bang.
You your Daddy's leg. How many seizures
Did you suffer this god to grab you
By the roots of the hair? The reports
Escaped back into clouds. What went up
Vaporized? Where lightning rods wept copper
And the nerve threw off its skin
Like a burning child
Scampering out of the bomb-flash. They dropped you
A rigid bent bit of wire
Across the Boston City grid. The lights
In the Senate House dipped
As your voice dived inwards
Right through the bolt-hole basement.
Came up, years later,
Over-exposed, like an X-ray –
Brain-map still dark-patched
With the scorched-earth scars
Of your retreat. And your words,
Faces reversed from the light,
Holding in their entrails.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

ST BOTOLPH’S
Nossa revista era só um pretexto
Para a noitada e a festa. Eu antevira
Despesas desastrosas: uma certeza
Planetária, segundo o livro de Próspero.
Júpiter e a lua cheia em conjunção
Oposta à Vênus. Despesas desastrosas
Segundo esse livro. Especialmente para mim.
A conjunção conjunta com meu Sol natal.
Vênus plantada bem no meio do meu céu.
Para um astrólogo que espera para ver – e daí?
Toque de asa de morcego fácil de exorcizar.
Nossa Chaucer teria ficado em casa lendo Dante.
Localizando os planetas com maior exatidão,
Teria pensado mais a fundo. O que mais? Deixei
Para astrólogos mais sérios o problema
Dessa conjunção, conjunta com meu Sol e com seu
Marte natal, também regente do seu mapa. E Chaucer
Teria apontado o Sol daquele dia em Peixes
Em conjunção com seu Ascendente
Exatamente oposta a meu Netuno, e fixado
Na minha décima Casa de boa e má fama.
Nossa Chaucer, creio eu, teria suspirado.
E nos garantiria, sacudindo a cabeça com tristeza,
Que o sistema solar nos casou naquele dia
Soubéssemos ou não.
                                    Falcon Yard:
A namorada era um arco teso, flecha em riste. Ondas
Sonoras distorcidas pelo jazz de Joe Lyde. Ambiente
Como o tombadilho torto do Titanic: filme mudo,
Com aquele som estrepitoso por cima. De repente –
Por obra de Lucas – de repente você.
Primeira visão. Primeiro instantâneo isolado
Inalterável, imóvel sob o olhar da câmera.
Mais alta
Do que você jamais voltou a ser. A balançar-se, tão esbelta,
As suas longas pernas americanas, perfeitas, pareciam
Continuar subindo sem parar jamais. Aquela mão esguia,
Aqueles dedos longos, bailarinos, com elegância de macaco.
E o rosto – bola tensa de felicidade.
Vejo você lá, com mais clareza, mais realidade
Que em qualquer dos anos à sombra desse momento –
Como se nunca mais a tivesse visto depois disso.
Cabelos caindo soltos – uma cortina frouxa
Sobre o rosto, sobre a sua cicatriz. E o seu rosto
Uma bola elástica de felicidade
Em torno da boca de lábios africanos, vermelha
De batom, a rir. E os olhos
Cravados no rosto, como dois brilhantes,
Incrivelmente reluzente, como duas lágrimas
Talvez de júbilo, rosto cavado de júbilo.
Você quis me impressionar
Com sua vivacidade. Não lembro
Mais quase nada dessa noite.
Fui embora de fininho com a minha namorada. Lembro
Apenas do ódio dela, na saída, a perguntar
A mim, estupefato,
O que o seu lenço de cabelo fazia no meu bolso,
E da marca circular de dentes
Que marcou meu rosto por todo o mês seguinte.
E o eu por trás do rosto para sempre.

.

ST BOTOLPH’S
Our magazine was merely an overture
To the night and the party. I had predicted
Disastrous expense: a planetary
Certainly, according to Prospero’s book.
Jupiter and the full moon conjunct
Opposed Venus. Disastrous expense
According to that book. Especially for me.
The conjunction combust my natal Sun.
Venus pinned exact on my mid-heaven.
For a wait-and-see astrologer — so what?
Touch of a bat’s wing easily exorcised.
Our Chaucer would have stayed at home with his Dante.
Locating the planets more precisely.
He would have pondered it deeper. What else? I left it
For serious astrologers to worry
That conjunction, conjunct my Sun, conjunct
With your natal ruling Mars. And Chaucer
Would have pointed to that day’s Sun in the Fish
Conjunct your Ascendant exactly
Opposite my Neptune and fixed
In my tenth House of good and evil fame.
Our Chaucer, I think, would have sighed.
He would have assured us, shaking his sorrowful head,
That day the solar system married us
Whether we knew it or not.
                                            Falcon Yard:
Girl-friend like a loaded crossbow. The sound-waves
Jammed and torn my Joe Lyde’s Jazz. The hall
Like the tilting deck of the Titanic:
A silent film, with that blare over it. Suddenly —
Lucas engineered it — suddenly you.
First sight. First snapshot isolated
Unalterable, stilled in the camera’s glare.
Taller
Than ever you were again. Swaying so slender
It seemed your long, perfect, American legs
Simply went on up. That flaring hand,
Those long, balletic, monkey-elegant fingers.
And the face — a tight ball of joy.
I see you there, clearer, more real
Than in any of the years in its shadow —
As if I saw you that once, then never again.
The loose fall of hair — that floppy curtain
Over your face, over your scar. And your face
A rubber ball of joy
Round the African-lipped, laughing, thickly
Crimson-painted mouth. And your eyes
Squeezed in your face, a crush of diamonds,
Incredibly bright, bright as a crush of tears
That might have been tears of joy, a squeeze of joy.
You meant to knock me out
With your vivacity. I remember
Little from the rest of that evening.
I slid away with my girl-friend. Nothing
Except her hissing rage in a doorway
And my stupefied interrogation
Of your blue headscarf from my pocket
And the swelling ring-moat of tooth-marks
That was to brand my face for the next month.
Then me beneath it for good.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

O TIRO
O seu culto pedia um deus.
Se não havia deus, achava um.
Qualquer atleta virava um deus –
Deificado pela sua paixão
Que parecia feita de uma encomenda para um deus.
Ela procurava deuses. E os encontrava.
O seu pai estava mirando você em Deus
Quando a morte apertou-lhe o gatilho.
                                                                  Naquele clarão 
Você viu toda a sua vida. E ricocheteou
Toda a extensão de sua carreira nota-Dez
Com a fúria
De uma bala de alta velocidade
Que não é capaz de perder um joule
De energia cinética. Os eleitos
Meio que morriam no momento do impacto –
Entre mortais demais para agüentar. Seres etéreos,
Provisórios, especulativos, meras auras.
Turbulências na sua trajetória, ao romper a barreira do som.
Mas nos seus lenços de papel ensopados de soluços
E seus acessos de pânico em noites de sábado,
Sob este ou aquele penteado,
Por trás dos aparentes ricochetes
E da cascata de gritos em diminuendo,
Você seguia em frente,
Recoberta de ouro, prata sólida,
Com ponta de níquel. Trajetória perfeita
Como se cruzasse o éter. Mesmo a cicatrizes na face,
Arranhão de quem se ralou no concreto,
Servia como estria no cano da arma
Para manter reta a trajetória.
                                                Até que o seu alvo verdadeiro
Escondeu-se atrás de mim. O seu pai,
O deus da arma fumegante. Durante um longo tempo,
Vago como névoa, nem percebi
Que fora atingido,
Nem que você me atravessou por completo –
Para enterrar-se enfim no coração do deus.

Em meu lugar, um bom curandeiro
Teria apanhado você em pleno vôo com as mãos nuas,
E a jogaria de uma mão à outra, para esfriar,
Atéia, feliz, tranqüililizada.
                                             Só consegui
Um fio dos seus cabelos, a sua aliança, o seu relógio, a sua camisola.

.

THE SHOT
Your worship needed a god.
Where it lacked one, it found one.
Ordinary jocks became gods –
Deified by your infatuation
That seemed to have been designed at birth for a god.
It was a god-seeker. A god-finder.
Your Daddy had been aiming you at God
When his death touched the trigger.
                                                            In that flash
You saw your whole life. You richocheted
The length of your Alpha career
With the fury
Of a high-velocity bullet
That cannot shed one foot-pound
Of kinetic energy. The elect
More or less died on impact –
They were  too mortal to take it. They were  mind-stuff,
Provisional, speculative, mere auras.
Sound-barrier events along your flightpath.
But inside your sob-sodden Kleenex
And your Saturday night panics,
Under your hair done this way and that way,
Behind what looked like rebounds
And the cascade of cries diminuendo,
You were undeflected.
You were gold-jacketed, solid silver,
Nickel-tipped. Trajectory perfect
As through ether. Even the cheek-scar,
Where you seemed to have side-swiped concrete,
Served as a rifling groove
To keep you true.
                              Till your real target
Hid behind me. Your Daddy,
The god with the smoking gun. For a long time
Vague as mist, I did not even know
I had been hit,
Or that you had gone clean through me –
To bury yourself at last in the heart of the god.

In my position, the right witchdoctor
Might have caught you in  flight with his bare hands,
Tossed you, cooling, one hand to the other,
Godless, happy, quieted.
                                             I managed
A wisp of your hair, your ring, your watch, your nightgown.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

TROFÉUS
A pantera? Ela já arrastara você,
Como se a abocanhá-la, por toda a Europa,
Como que a pender entre suas patas,
Você de boca aberta, chorando, ou nem chorando mais,
Apenas se deixando arrastar. A verdadeira presa
Já havia escapado com um pulo. Assim, a fera,
Frustrada, furiosa,
Mordia sua traquéia, estrangulada o som. O que espirrava fora
Formava manchas de teste Rorschach
No seu diário. O seu esforço de gritar palavras
Desfazia-se em sangue oxigenado
Enriquecido pelas adrenalinas
Do desespero, terror, fúria pura e simples –
Quarenta anos depois
O cheiro da fera emana das páginas secas
E me arrepia os pêlos das mãos.
A emoção. O súbito
Olhar que se fixou em mim
Saído das suas jóias cor de âmbar
E, quando a vi desprevenida, cravou
Suas presas no meu rosto. A tenacidade
Da posse do felino enorme
Sobre a presa escolhida e estropiada
É um processo químico – combustão
Da matéria do juízo.

Assim, ela saltou sobre você. Suas pegadas
Marcaram a sua página. Sem dúvida
O sangue era seu. Com uma risada,
Recebi o impacto de seu peso. Eu não sabia
Que o ataque choque de um predador de grande porte,
Dizem os sobreviventes, mergulha a vítima
Numa euforia de embriaguez. Ainda sorrindo
Enquanto ela me arrastava, arranquei
Com cuidado a faixa presa entre seus dentes
E um de seus brincos, para guardar como troféus.

.

TROPHIES
The panther? It had already dragged you
As if in its jaws, across Europe.
As if trailing between its legs,
Your mouth crying open, or not even crying any more,
Just letting yourself be dragged. Its real prey
Had skipped and escaped. So the fangs,
Blind in frustration,
Crushed your trachea, strangled the sounds. The Rorschach
Splashing of those outpourings stained
Your journal pages. Your effort to cry words
Came apart in aired blood
Enriched by the adrenalins
Of despair, terror, sheer fury –
After forty years
The whiff of that beast, off the dry pages,
Lifts the hair on the back of my hands.
The thrill of it. The sudden
Look that locked on me
Through your amber jewels
And as I caught you lolling locked
Its jaws into my face. The tenacity
Of the big cat’s claim
On the one marked down and once disabled
Is a chemical process – a combustion
Of the stuff of judgement.

So it sprang over you. Its jungle prints
Hit your page. Plainly the blood
Was your own. With a laugh I
Took its full weight. Little did I know
The shock attack of a big predator
According to survivors numbs the target
Into drunken euphoria. Still smiling
As it carried me off I detached
The hairband carefully from between its teeth
And a ring from its ear, for my trophies.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

18 RUGBY STREET
Assim, na sordidez e no torpor vitoriano
Do número dezoito da Rugby Street, eu a esperava.
Relembro aquele prédio como um cenário –
Quatro andares expostos ao auditório.
Em todos eles, entrando e saindo, o conflito amoroso
Com todos seus atos e cenas, um jogo-da-glória
De abraços e perdas e afetos e vidas
E idas e vindas. Ninguém era velho.
Laboratório de amores sem mistério.
Comedia constante – mudavam os nomes dos atores,
Mas nunca os papéis. Diziam-me: “Você devia
Escrever um livro sobre essa casa. É mal-assombrada!
Quem entra nunca sai completamente!
Quem entra penetra um labirinto –
Um Cnosso de coincidências! E você entrou.”
As lendas eram espantosas. Eu escutava, espantado.

Lá eu vivia sozinho. Sozinho, me sentava
À velha e marcada bancada de marceneiro
Que era escrivaninha e mesa de jantar,
E esperava por você e Lucas.
Não sei em que eu pensava, mas decerto não pensava
Na garota belga do primeiro andar,
Gorducha feito um cogumelo, cabelo negro como graxa:
Ave engaiolada, regra-três extramarital
Do vendedor de carros usados que enchia
A catacumba do porão de silenciosos,
Peças diversas de automóveis, com pontas afiadas,
Terror das canelas de quem ia ao banheiro
Escuro e feio abaixo do nível da rua.
A belga não tinha nada a ver com o resto do prédio
Porém desempenhava seu papel na peça. O carcereiro
Que a mantinha em sua solitária era um demônio
Agressivo e negro e louco de um pastor alemão
Que pela fresta da porta presa com corrente desafiava
Quem entrasse ou saísse. O cão a protegia muito bem,
Para o vendedor de carro, de tudo e de todos, menos –
Sete anos depois – do seu próprio forno a gás.
Ela não era nada para mim. Tampouco Susan,
Que ainda não se perdera no labirinto,
E que nele encontraria o Minotauro,
E que me impedia de atender o telefone nas noites
Em que você mais precisava de mim. Na noite em questão
Nada poderia me fazer pensar que alguém no mundo
Viria um dia precisar de mim. Dez anos anoiteceriam,
Três deles com você na sepultura, antes que Susan
Caminhasse de um lado para outro, noite após noite
(No mesmo espaço onde eu e você, alianças novas nos dedos,
Passamos a noite de núpcias numa cama de solteiro)
Chorando sozinha e morrendo de leucemia.

Lucas traria você. Você estava passando
Uma noite em Londres antes de fugir para Paris.
Treze de abril, aniversário do seu pai. Sexta-feira.
Imaginei-a preparando-se para uma excursão eufórica
Por uma Europa americana. Anos após a sua morte
Descobri o desespero dessa busca
Nos dias que se seguiram, espalhando as suas lágrimas
Pelas calçadas de Paris. Adiei por uma noite
Os seus pânicos, suas febres, seu pior pavor –
O peso na cabeça da sua desolação.
O sonho que você perseguia, a vida que você mendigava
Para ter de volta, e nunca recuperaria.
Seu diário contou-me a história dessa tortura.
Adivinho a visita a cada um de seus santuários sagrados,
Com a fé inabalável de encontra-lo ali, sabe-se lá como,
Por vidência, por coincidência –
O que, para uma paixão séria, seria brincadeira de criança.
Não era a última vez que sua paixão haveria de falhar.
Enquanto isso, eu estava ali, por algumas horas –
Um pequeno gasto em transporte, como garantia.
Com prazer eu me martirizava à toa,
Invocava você, subornava o Destino para que a trouxesse a mim.
Você também me invocava? Eu não fazia idéia
Do quanto estava me tornando necessário,
Nem que o Destino faria com meu egoísmo despreocupado
Uma cirurgia de emergência. Ainda ouço você
Subindo as escadas nuas, viva e próxima,
Falando sem parar para ser ouvida, ofegante.
Era esta a sua artilharia, confundir-me:
Antes de transpor a linha de defesa, em todo seu esplendor,
Você queria que eu a ouvisse arquejando. Então –
Não lembro nada. Como você entrou? O que houve depois?
Como foi, por exemplo, que Lucas se anulou?
Chegamos sequer a nos sentar? Você, uma ave grande,
Levantando plumas de tão excitada,
Delirando de animação. Uma voltagem azulada –
Cobalto fluorescente, clarão de aura
Que depois constatei ser só seu.
E o brilho único do seu olhar, olhos estranhos,
Duas criaturinhas morenas, encapuzadas, prussianas,
Porém travessas, e infantis, e reluzindo
Com a pressão da sua efervescência.
Seriam herança de família, como os olhos do seu filho?
Para mim, os seus eram originais, inéditos.
E agora eu finalmente a via com atenção.
Seu rosto arredondado, que os amigos, objetivos,
Diziam ser “de borracha”, e você, mais cruel, “desossado”:
Dispositivo para extremos de elasticidade,
Máscara anímica transfigurada a cada instante
Num transe, num éter só seu.
E então me dei conta do mistério
Dos seus lábios, que eu nunca vira iguais,
Lábios grossos de aborígine. E do seu nariz,
Largo, apache, quase nariz de boxeador,
Escorpião reverso da águia semítica
Que fazia de toda câmara sua inimiga,
Carcereira da sua vaidade, traidora
Na sua Sonhos Sexuais Ltda.,
Nariz das hordas de Átila: rosto prototípico
Que eu poderia ter visto em meio à fumaça
De uma fogueira navajo. E suas têmporas pequenas
Onde as raízes dos cabelos abundavam, sempre à sombra
Da franja glamourosa que a moda ditava.
E seu queixinho delicado, queixo de Peixes.
Nunca foi um rosto em si. Nunca o mesmo.
Era como o rosto do mar – palco
Para tormentas e correntes, ao sabor de sol e lua.
Jamais foi um rosto, até a manhã final
Em que virou um rosto de criança – a cicatriz
A marca do seu Criador. Porém naquele dia você declamou
Um poema comprido sobre uma pantera negra
Enquanto eu a abraçava e beijava e tentava impedi-la
De esvoaçar pelo quarto. Apesar disso,
Você não quis ficar.

Caminhamos rumo ao sul, atravessando Londres, até
Seu hotel na Fetter Lane. Em frente a ele,
Numa ruína de bombardeio transformada em canteiro de obra
Nos agarramos, tontos, para nos proteger,
E num barril descemos juntos
Um Niágara. Descendo o rugido
Da sua alma, sua cicatriz falou-me –
Como se fosse seu nome secreto, ou sua senha –
Da tentativa de suicídio. E escutei,
Sem cessar por um momento de beijá-la,
Como se uma estrela sóbria sussurrasse
No céu da cidade a rodopiar: mantenha distância.

Estrela covarde. Já não me lembro
Como me contrabandeei, envolto em você,
Para dentro do hotel. Lá estávamos os dois.
Você, esbelta, ágil, lisa como um peixe.
Você era mundo novo. Meu novo mundo.
Então é isto a América, maravilhei-me.
Belíssima, belíssima América!

.

18 RUGBY STREET
So there in Number Eighteen Rugby Street's
Victorian torpor and squalor I waited for you.
I think of that house as a stage-set –
Four floors exposed to the auditorium.
On all four floors, in, out, the love-struggle
In all its acts and scenes, a snakes and ladders
Of intertangling and of disentangling
Limbs and loves and lives. Nobody was old.
An unmysterious laboratory of amours.
Perpetual performance – names of the actors altered,
But never the parts. They told me: 'You
Should write a book about this house. It's possessed!
Whoever comes into it never gets properly out!
Whoever enters it enters a labyrinth –
A Knossos of coincidence. And now you're in it.'
The legends were amazing. I listened, amazed.

I lived there alone. Sat alone
At the hacked, archaic, joiner's bench
That did for desk and table,
And waited for you and Lucas.
Whatever I was thinking I was not thinking
Of that Belgian girl in the ground-floor flat,
Plump as a mushroom, hair black as boot polish:
The caged bird and extra-marital cuddle
Of the second-hand-car dealer who kept
The catacomb basement heaped with exhaust mufflers,
Assorted jagged shafts of cars, shin-rippers
On the way to the unlit and unlovely
Lavatory beneath the street's pavement.
That girl had nothing to do with the rest of the house
But play her part in the drama. Her house-jailor
Who kept her in solitary was a demon
High-explosive, black, insane Alsatian
That challenged through the chained crack of the door
Every entrance and exit. He guarded her,
For the car dealer, from all, too well finally.
Not, seven years in the future, from her gas-oven.
She was nothing to do with me. Nor was Susan
Who still had to be caught in the labyrinth,
And who would meet the Minotaur there,
And would be holding me from my telephone
Those nights you would most need me. On this evening
Nothing could make me think I would ever be needed
By anybody. Ten years had to darken,
Three of them in your grave, before Susan
Could pace that floor above night after night
(Where you and I, the new rings on our fingers,
Had warmed our wedding night in the single bed)
Crying alone and dying of leukaemia.

Lucas was bringing you. You were pausing
A night in London on your escape to Paris.
April 13th, your father's birthday. A Friday.
I guessed you were off to whirl through some euphoric
American Europe. Years after your death
I learned through desperation of that search
Through those following days, scattering your tears
Around the cobbles of Paris. I deferred for a night
Your panics, your fevers, your worst fear –
The toad-stone in the head of your desolation.
The dream you hunted for, the life you begged
To be given again, you would never recover, ever.
Your journal told me the story of your torture.
I guess how you visited each of your sacred shrines
In raging faith you'd catch him there, somehow,
By clairvoyance, by coincidence –
Normally child's play to a serious passion.
This was not the last time it would fail you.
Meanwhile there was me, for a few hours –
A few pence on the fare, for insurance.
Happy to be martyred for folly
I invoked you, bribing Fate to produce you.
Were you conjuring me? I had no idea
How I was becoming necessary.
Or what emergency surgery Fate would make
Of my casual self-service. I can hear you
Climbing the bare stairs, alive and close,
Babbling to be overheard, breathless.
That was your artillery, to confuse me:
Before coming over the top in your panoply
You wanted me to hear you panting. Then –
Blank. How did you enter? What came next?
How did Lucas delete himself, for instance?
Did we even sit? A great bird, you
Surged in the plumage of your excitement,
Raving exhilaration. A blueish voltage –
Fluorescent cobalt, a flare of aura
That I later learned was yours uniquely.
And your eyes' peculiar brightness, their oddness,
Two little brown people, hooded, Prussian,
But elvish, and girlish, and sparkling
With the pressure of your effervescence.
Were they family heirlooms, as in your son?
For me yours were the novel originals.
And now at last I got a good look at you.
Your roundy face, that your friends, being objective,
Called 'rubbery' and you, crueller, 'boneless':
A device for elastic extremes,
A spirit mask transfigured every moment
It its own séance, its own ether.
And I became aware of the mystery
Of your lips, like nothing before in my life,
Their aboriginal thickness. And of your nose,
Broad and Apache, nearly a boxer's nose,
Scorpio's obverse to the Semitic eagle
That made every camera your enemy,
The jailor of your vanity, the traitor
In your Sexual Dreams Incorporated,
Nose from Attila's horde: a prototype face
That could have looked up at me through the smoke
Of a Navajo campfire. And your small temples
Into which your hair-roots crowded, upstaged
By that glamorous, fashionable bang.
And your little chin, your Pisces chin.
It was never a face in itself. Never the same.
It was like the sea's face – a stage
For weathers and currents, the sun's play and the moon's.
Never a face until that final morning
When it became the face of a child – its scar
Like a Maker's flaw. But now you declaimed
A long poem about a black panther
While I held you and kissed you and tried to keep you
From flying about the room. For all that,
You would not stay.

We walked south across London to Fetter Lane
And your hotel. Opposite the entrance
On a bombsite becoming a building site
We clutched each other giddily
For safety and went in a barrel together
Over some Niagara. Falling
In the roar of your soul your scar told me –
Like its secret name or its password –
How you had tried to kill yourself. And I heard
Without ceasing for a moment to kiss you
As if a sober star had whispered it
Above the revolving, rumbling city: stay clear.

A poltroon of a star. I cannot remember
How I smuggled myself, wrapped in you,
Into the hotel. There we were.
You were slim and lithe and smooth as a fish.
You were a new world. My new world.
So this is America, I marvelled.
Beautiful, beautiful America!
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

A MÁQUINA
A escuridão a devorou. E o medo
De ser esmagada. “Enorme máquina escura”,
“A mó trituradora e indiferente
Das circunstâncias.” Após contemplar
O pôr-do-sol alaranjado, foram essas as palavras
Que você pôs na página. Elas lhe acorreram
Quando eu lhe falei. Quando você tentou evocar
Minha presença, foi esse terror que subiu a escada
Em seu lugar. Enquanto isso,
Eu devia estar à toa,
Talvez com Lucas, tão a esmo,
Quanto o meu cachorro,
Que eu aliás não tinha. Um cão de verdade
Ficaria talvez de olhar perdido
No nada, os pêlos em pé,
Enquanto a máscara grotesca do seu mamãe-papai,
Metade pedreira, metade hospital, ídolo sanguissedento
Por inteiro, grávido de seus poemas não escritos,
Deslizava, invisível, impassível,
Rumo a mim por entre os salgueiros imóveis,
Atravessando a parede do Anchor,
E esvaziava minha Guiness de um só gole,
Abria a boca para mim num bocejo negro
Escancarando o outro-mundo dentro dele
Onde eu encontraria um lar. Meus filhos. E minha vida
Sempre tentando galgar os degraus agora de pedra
Em direção à porta agora vermelha
Que você, em sua própria imagem e semelhança, abriria
Ainda com tempo para conversar.

.

THE MACHINE
The dark ate at you. And the fear
Of being crushed. 'A huge dark machine',
'The grinding indifferent
Millstone of circumstance.' After
Watching the orange sunset, these were the words
You put on a page. They had come to you
When I did not. When you tried
To will me up the stair, this terror
Arrived instead. While I
Most likely was just sitting,
Maybe with Lucas, no more purpose in me
Than in my own dog
That I did not have. A real dog
Might have stared at nothing
Hair on end
While the grotesque mask of your Mummy-Daddy
Half-quarry, half-hospital, whole
Juggernaut, stuffed with your unwritten poems,
Ground invisibly without a ripple
Towards me through the unstirred willows,
Through the wall of The Anchor,
Drained my Guinness at a gulp,
Blackly yawned at me
Into its otherworld interior
Where I would find my home. My children. And my life
Forever trying to climb the steps now stone
Towards the door now red
Which you, in your own likeness, would open
With still time to talk.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

FIDELIDADE
Era um lugar para morar. Eu vivia
Cercando você, fazendo a corte,
Impelido pela maré matinal e a embriaguez
Dos vinte e cinco anos. Eviscerada, refeita
À moda da época, a Alexandra House
Virou um dispensário. Isso foi antes
Do tempo da vanguarda dos cafés.
Na cantina barulhenta do British Restaurant,
Serviço público que sobrevivera à guerra,
O desjejum curava os estragos da noite.
Mas ia-se à Alexandra House para ser visto.
As funcionárias moravam no prédio
Com um séquito de vadios que navegavam as noites
E dormiam os dias. Dei um jeito de arranjar
Um colchão lá em cima, num sótão,
Com vista para a Petty Cury. Um colchão
Nu, sobre tábuas nuas, num quarto nu.
De meu, só um caderno e o tal colchão.
Sob a clarabóia – castanheiros carregados de botões
Até maio – tenho largado meu emprego, meu único
Trabalho era ganhar você, gastando tudo que eu juntara.
Livre da Universidade, eu regalava-me
Com suas liberdades. Todas as noites
Dormia no colchão, sob um cobertor,
Com uma moça linda, recém-fugida
Do marido para expor-se na fronteira
Do trabalho num dispensário. Que ideal cavalheiresco
Me prendia ali? Relembro esse tempo
Como um tempo que não passa nunca,
Que não usei, e que portanto ainda é meu.
Eu e ela dormimos abraçados,
Nus e à vontade como amantes, trinta noites,
E não fizemos amor nem uma vez.
Uma lei sagrada se inventara, para mim,
Mas também ela a obedecia, qual sacerdotisa,
Terna, carinhosa e nua em pêlo a meu lado.
Com o dedo percorria em minhas costas os lanhos
Que você nelas traçara, como se entrasse
Em minha obsessão, minha concentração,
Para manter intato meu propósito.
Nem uma vez me convidou, nem me tentou.
E nunca fui além de lhe estender 
Confortos de irmã. Eu era como sua irmã.
A coisa parecia natural. Eu estava concentrado
Em você com tanta intensidade, tanto brilho,
Que não enxergava nada que não fosse você.
Ainda hoje me pergunto — não sei se devo
Me invejar ou ter pena de mim. A amiga dela
Tinha um quarto maior, e era mais ousada.
Fomos morar com ela. O quarto enorme
Virou dormitório e quartel-general,
Alternativa a St. Botolph’s. Gorducha e vistosa,
Rindo, expondo sem pudor o espaço entre os dentes,
Fez tudo que pôde para que eu a possuísse.
E você nunca há de saber o quanto lutei
Para manter minhas palavras coerentes
Com o mundo que construíamos a dois.
Eu temia que, perdida essa batalha,
Alguma coisa nos abandonasse. Eu levantava
Aquelas moças nuas, a sorrir para mim,
Moças de vinte e poucos anos, e as largava
Sobre a soleira de nosso futuro improvável
Tal como outrora, para proteger um novo lar,
Sob a soleira nova enterrava-se
Uma criança sem pecado.

.

FIDELITY
It was somewhere to live. I was
Just hanging around, courting you.
Afloat on the morning tide and tipsy feelings
Of my twenty-fifth year. Gutted, restyled
À la mode, the Alexandria House
Became a soup-kitchen. Those were the days
Before the avant-garde of coffee bars.
The canteen clatter of the British Restaurant,
One of the war’s utility leftovers,
Was still the place to repair the nights with breakfasts.
But Alexandria House was the place to be seen in.
The girls that helped to run it lived above it
With a retinue of loose-lifers, day-sleepers
Exhausted with night-owling. Somehow
I got a mattress up there, in a top room,
Overlooking Petty Cury. A bare
Mattress, on bare boards, in a bare room.
All I had, my notebook and that mattress.
Under the opening, bud-sticky chesnuts,
On into June, my job chucked, I laboured
Only at you, squandering all I’d saved.
Free of University I dangled
In its liberties. Every night
I slept on that mattress, under one blanket,
With a lovely girl, escaped freshly
From her husband to the frontier exposure
Of work in the soup-kitchen. What
Knighthood possessed me there? I think of it
As a kind of time that cannot pass,
That I never used, so still possess.
She and I slept in each other’s arms,
Naked and as easy as lovers, a month of nights,
Yet never once made love. A holy law
Had invented itself, somehow, for me.
But she too served it, like a priestess,
Tender, kind and stark naked beside me.
She traced out the fresh rips you had inscribed
Across my back, seeming to join me
In my obsession, in my concentration,
To keep my preoccupation intact.
She never once invited, never tempted.
And I never stirred a finger beyond
Sisterly comforting. I was like her sister.
It never seemed unnatural. I was focused,
So locked onto you, so brilliantly,
Everything that was not you was blind-spot.
I still puzzle over it — doubtful, now,
Whether to envy myself, or pity. Her friend,
Who had a bigger room, was wilder.
We moved in with her. That lofty room
Became a dormitory and HQ
Alternative to St Botolph’s. Plump and pretty,
With a shameless gap-tooth laugh, her friend
Did all she could to get me inside her.
And you will never know what a battle
I fought to keep the meaning of my words
Solid with the world we were making.
I was afraid, if I lost that fight,
Something might abandon us. Lifting
Each of those naked girls, as they smiled at me
In their early twenties, I laid them
Under the threshold of our unlikely future
As those who wanted protection for a new home
Used to bury, under the new threshold,
A sinless child.   
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

A CORUJA
Vi meu mundo outra vez pelos seus olhos
Tal como voltaria a vê-lo pelos olhos dos seus filhos.
Pelos seus olhos, era um mundo estrangeiro.
Uma simples sebe de pilriteiro era um mistério
Envolto em lendas e histórias curiosas.
Qualquer coisa selvagem, provida de pernas,
Nos seus olhos era um ponto de exclamação
Como se aparecesse aos convidados de um jantar
No meio da mesa. Marrecos comuns
Eram artefatos um tanto insólitos,
Seus galanteios eram um filme hipnagógico
Projetado pelo rio. Impossível compreender
O prazer que eles sentiam com os pés
Imersos na água gelada. Você era uma câmera fotográfica
Registrando reflexos que lhe eram indevassáveis.
Eu fazia meu mundo exibir-se para você.
E você assistia a tudo com júbilo atônito
Da mãe a quem a parteira entrega
O filho recém-nascido. Seus frenesis me estonteavam,
Despertavam minha meninice muda, extática,
De quinze anos antes. Minha obra-prima
Ocorreu naquela noite negra na estrada de Grantchester.
Lábios contra os nós dos dedos lambidos,
Imitei a nênia débil e gutural de um coelho
Junto a um arvoredo onde fazia ponto uma coruja.
De repente ela voou, lançando as rêmijes
Na minha cara, tomando-me por um mourão.

.

THE OWL
I saw my world again through your eyes
As I would see it again through your children's eyes.
Through your eyes it was foreign.
Plain hedge hawthorns were peculiar aliens,
A mystery of peculiar lore and doings.
Anything wild, on legs, in your eyes
Emerged at a point of exclamation
As if it had appeared to dinner guests
In the middle of the table. Common mallards
Were artefacts of some unearthliness,
Their wooings were a hypnagogic film
Unreeled by the river. Impossible
To comprehend the comfort of their feet
In the freezing water. You were a camera
Recording reflections you could not fathom.
I made my world perform its utmost for you.
You took it all in with an incredulous joy
Like a mother handed her new baby
By the midwife. Your frenzy made me giddy.
It woke up my dumb, ecstatic boyhood
Of fifteen years before. My masterpiece
Came that black night on the Grantchester road.
I sucked the throaty thin woe of a rabbit
Out of my wetted knuckle, by a copse
Where a tawny owl was enquiring.
Suddenly it swooped up, splaying its pinions
Into my face, taking me for a post.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

UM VESTIDO DE MALHA ROSA
Com seu vestido de malha rosa,
No tempo em que nada ainda sujara nada,
Você se pôs diante do altar. Dia de Bloom.

Chovia – por isso um guarda-chuva novo em folha
Era o único objeto junto a mim
Com menos de três anos de uso.
Minha gravata – a única, surrada, preta, da Real Força Aérea –
Era só o símbolo gasto de uma gravata.
Meu paletó de veludo – já três vezes tingido de preto,
Exausto, por um triz ainda inteiro.

Eu era um genro modelo austeridade pós-guerra!
Não o Príncipe-Sapo. Talvez o Porqueiro
Roubando os sonhos de nobreza desta filha
Bem no nariz de seu futuro guardado por holofotes.

Nenhuma cerimônia me faria
Trocar meu uniforme. Vesti meu guarda-roupa inteiro –
Salvo uma ou outra peça que eu tinha em duplicata.
Meu casamento, como a Natureza, queria se esconder.
Mas se íamos mesmo nos casar, que fosse então
Na Abadia de Westminster. Por que não?
O deão nos explicou por que não. E assim
Fiquei sabendo que eu pertencia a uma paróquia.
São Jorge dos Limpa-Chaminés.
Assim, espremidos, finalmente nos casamos.
Sua mãe, corajosa até nessa aventura
De política externa americana,
Foi dama de honra e foi todos os convivas,
E até – magnânima – representou
Minha família,
Que não fora avisada do evento.
Eu só convidara os ancestrais.
Nem sequer contei que havia roubado você
A nenhum amigo íntimo. Para o papel de padrinho –
Aquele que segura as alianças –
Escalamos o sacristão, o qual, para completar a farra,
Estava pondo crianças dentro num ônibus
Para levá-las ao zoológico – em pleno aguaceiro!
Todos os animais presos tiveram que esperar pacientemente
Enquanto nos casávamos.
                                             Você estava transfigurada.
Tão esguia e nova e nua.
Úmido ramo de lilás ao vento.
Você tremia, soluçava de júbilo, você era o abissal
Transbordando de Deus.
Você disse que viu os céus se abrirem
E revelarem riquezas, prestes a chover sobre nós.
Levitando a seu lado, eu submetia-me
A um tempo estranho: O futuro enfeitiçado.

Na igreja erma, sinistra de ecos,
Vejo você
Tentando conter as suas chamas
Dentro do vestido de malha rosa
E das pupilas – grandes jóias lapidadas
Plenas de flamas de lágrimas, jóias grandes
Sacudidas num copo de dados, a mim oferecidas.

.

A PINK WOOL KNITTED DRESS
In your pink wool knitted dress
Before anything had smudged anything
You stood at the altar. Bloomsday.

Rain — so that a just-bought umbrella
Was the only furnishing about me
Newer than three years inured.
My tie — sole, drab, veteran RAF black —
Was the used-up symbol of a tie.
My cord jacket — thrice-dyed black, exhausted,
Just hanging onto itself.

I was a post-war, utility son-in-law!
Not quite the Frog Prince. Maybe the Swineherd
Stealing this daughter’s pedigree dreams
From under her watchtowered searchlit future.

No ceremony could conscript me
Out of my uniform. I wore my whole wardrobe —
Except for the odd, spare, identical item.
My wedding, like Nature, wanted to hide.
However — if we were going to be married
It had better be Westminster Abbey. Why not?
The Dean told us why not. That is how
I learned that I had a Parish Church.
St George of the Chimney Sweeps.
So we squeezed into marriage finally.
Your mother, brave even in this
US Foreign Affairs gamble,
Acted all bridesmaids and all guests,
Even — magnanimity — represented
My family
Who had heard nothing about it.
I had invited only their ancestors.
I had not even confided my theft of you
To a closest friend. For Best Man — my squire
To hold the meanwhile rings —
We requisitioned the sexton. Twist of the outrage:
He was packing children into a bus,
Taking them to the Zoo — in that downpour!
All the prison animals had to be patient
While we married.
                               You were transfigured.
So slender and new and naked,
A nodding spray of wet lilac.
You shook, you sobbed with joy, you were ocean depth
Brimming with God.
You said you saw the heavens open
And how riches, ready to drop upon us.
Levitated beside you, I stood subjected
To a strange tense: the spellbound future.

In that echo-gaunt, weekday chancel
I see you
Wrestling to contain your flames
In your pink wool knitted dress
And in your eye-pupils — great cut jewels
Jostling their tear-flames, truly like big jewels
Shaken in a dice-cup and held up to me.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

SUA PARIS
Sua Paris me parecia americana.
Eu queria fazer suas vontades.
Quando você, num escarcéu de exclamações,
Saiu do Hôtel des Deux Continents
E passou por moldura após moldura,
Rua após rua, de pinturas impressionistas,
À sombra dos castanheiros de Hemingway,
Fitzgerald, Henry Miller, Gertrude Stein,
Eu escondia de você a minha Paris. A minha
Paris era quase alemã. A capital
Da Ocupação, do velho pesadelo.
Eu li cada marca de bala nas pedras do Quai
Com uma sensação sinistra e conhecida,
E contemplava a extensão atingida, ensolarada, de passeio
Lá embaixo. Eu ensaiara
Com cuidado, tantas vezes, exatamente esses momentos –
A vida quase inteira, era a impressão que dava. Enquanto
Você me chamava de Aristide Bruant, queria
Desenhar les toits, seus êxtases ricocheteando
Das pedras remendadas, descascadas de cartazes –
Eu ouvi o contraponto em contrabaixo,
Com meu faro canino, das cadeiras
Dos cafés onde os manequins da SS
Tinham representado seus tableaux vivants
Havia tão pouco que o café ainda estava
Amargo como bolota, e os olhos dos garçons,
Turvos com as fezes da traição, da represália, do ódio.
Não me extasiavam as vistas dos telhados.
Minha Paris era produto da austeridade do pós-guerra,
O fedor do medo ainda pairava nos armários,
Collaborateurs de trinta e poucos anos,
Todos os outros rostos fechados pelos Campos
Ou o Maquis. Eu era um espectador de fantasmas.
Minha visão era velada pelas emanações
Que subiam qual metano da cova coletiva
De Verdun, reaberta. Para você, tudo isso
Era só um toque estético adicional
No retrato de Apollinaire
Feito por Picasso, com a marca
Proléptica da bala. E onde quer
Que o seu olhar pousasse, a sua paleta imaculada,
O repertório das suas interjeições,
Dava seu toque de tons e texturas. Seu falatório,
Como uma queima de emergência
Para protegê-la da combustão espontânea,
Protegia a você
E a sua Paris. Era diesel ardendo
Para o cão em mim. A chama queimava
Todo odor e todo sensor. E fechava hermeticamente
O subsolo, o seu esconderijo,
Aquela câmara onde você ainda aguardava
Que o seu torturador
Relembrasse seu prazer. Aquelas paredes,
Esfacelentas de cartazes, eram a sua pele esfolada –
Estirada sobre o seu deus de pedra.
O que caminhava junto a mim estava esfolado,
Uma ferida ambulante que o ar
Roçando nela mantinha febril, sofrendo
Agonias. Os seus lábios acostumados
Traduziam os espasmos em algo que você desculpava
Como transbordamentos de êxtase – que eu decodificava
Numa língua toda nova para mim,
Adivinhando os sentidos e errando por completo –
Você não traía que, em cada esquina,
Dedos entrelaçados com os meus, você esperava
Que a revelação final, face a face,
Agarrasse seu corpo por inteiro. A sua Paris
Era uma escrivaninha em uma pension
Onde as suas cartas
Esperavam por ele, jamais abertas. Um labirinto
Onde você corria ainda, espargindo lágrimas.
Um sonho em que você não conseguia
Despertar nem encontrar a saída nem
Minotauro que desse um golpe de misericórdia
No seu tormento. Por quantos quilômetros de busca
Você não arrastou a sua dor,
Que para mim eram asfalto apenas, ainda que
Riscado por uma ou outra bala histórica.
O mero cão em mim, feliz por protegê-la
Da sua agitação, das suas horas pétreas,
Como cão de cego, corrigindo cada passo em falso,
Bocejava e cochilava e via você se acalmando
Com a sua anestesia – desenhando, como se por puro tato,
Telhados, um poste, uma garrafa, meu rosto.

.

YOUR PARIS
Your Paris, I thought, was American.
I wanted to humour you.
When you stepped, in a shatter of exclamations,
Out of the Hôtel des Deux Continents
Through frame after frame,
Street after street, of Impressionist paintings,
Under the chestnut shades of Hemingway,
Fitzgerald, Henry Miller, Gertrude Stein,
I kept my Paris from you. My Paris
Was only just not German. The capital
Of the Occupation and old nightmare.
I read each bullet scar in the Quai stonework
With an eerie familiar feeling,
And stared at the stricken, sunny exposure of pavement
Beneath it. I had rehearsed
Carefully, over and over, just those moments –
Most of my life, it seemed. While you
Called me Aristide Bruant and wanted
To draw les toits, and your ecstasies ricocheted
Off the walls patched and scabbed with posters –
I heard the contrabasso counterpoint
In my dog-nosed pondering analysis
Of café chairs where the SS mannequins
Had performed their tableaux vivants
So recently the coffee was still bitter
As acorns, and the waiters’ eyes
Clogged with dregs of betrayal, reprisal, hatred.
I was not much ravished by the view of the roofs.
My Paris was a post-war utility survivor,
The stink of fear still hanging in the wardrobes,
Collaborateurs barely out of their twenties,
Every other face closed by the Camps
Or the Maquis. I was a ghostwatcher.
My perspectives were veiled by what rose
Like methane from the reopened
Mass grave of Verdun. For you all that
Was the anecdotal aesthetic touch
On Picasso’s portrait
Of Apollinaire, with its proleptic
Marker for the bullet. And wherever
Your eye lit, your immaculate palette,
The thesaurus of your cries,
Touched in its tints and textures. Your lingo
Always like an emergency burn-off
To protect you from spontaneous combustion
Protected you
And your Paris. It was diesel aflame
To the dog in me. It scorched up
Every scent and sensor. And it sealed
The underground, your hide-out,
That chamber, where you still hung waiting
For your torturer
To remember his amusement. Those walls,
Raggy with posters, were your own flayed skin –
Stretched on your stone god.
What walked beside me was a flayed,
One walking wound that the air
Coming against kept in a fever, wincing
To agonies. Your practiced lips
Translated the spasms to what you excused
As your gushy burblings – which I decoded
Into a language, utterly new to me
With conjectural, hopelessly wrong meanings –
You gave me no hint how, at every corner,
My fingers linked in yours, you expected
The final fate-to-face revelation
To grab your whole body. Your Paris
Was a desk in a pension
Where your letters
Waited for him unopened. Was a labyrinth
Where you still hurtled, scattering tears.
Was a dream where you could not
Wake or find the exit or
The Minotaur to put a blessed end
To the torment. What searching miles
Did you drag your pain
That were for me plain paving, albeit
Pecked by the odd, stray, historic bullet.
The mere dog in me, happy to protect you
From your agitation and your stone hours,
Like a guide dog, loyal to correct your stumblings,
Yawned and dozed and watched you calm yourself
With your anaesthetic – your drawing, as by touch,
Roofs, a traffic bollard, a bottle, me.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

VOCÊ ODIOU A ESPANHA
                                      A Espanha assustou você. A Espanha,
Onde eu me sentia em casa. A luz crua como sangue,
Os rostos de anchova no óleo, as bordas negras,
Africanas, em torno de tudo, a assustaram.
A sua formação excluíra a Espanha.
A grade de ferro batido, a morte, o tambor árabe.
Você não falava a língua, a sua alma não continha
Os sinais, e a luz de maçarico
Secava seu sangue. Bosch
Estendeu-lhe uma mão de aranha, e você tomou-a
Tímida, uma adolescente americana.
Você olhou bem fundo no sorriso fúnebre de Goya
E o reconheceu, e recuou com horror,
E os seus poemas congelaram de repulsa, e o pânico
Puxou-a de volta para a faculdade América.
Assim, como turistas, fomos às touradas
E vimos touros atônitos ser massacrados sem arte,
Vimos o matador, de rosto lívido, à barreira
Logo abaixo de nós, endireitando a espada torta
E vomitando de medo. E o chifre
Que se ocultou dentro do ventre de varejeira
Do picador caído punçou
O que aguardava você. A Espanha
Era a terra dos seus sonhos: o cadáver vermelho de pó
Junto ao qual você não ousava despertar, amputações
Engelhadas que nenhum curso de literatura tinha enfeitara.
A terra de feitiços por trás de seus lábios de africana.
A Espanha era o pesadelo de que você tentava despertar
Sem conseguir. Vejo você, ao luar,
Andando pelo cais vazio de Alicante
Como uma alma aguardando a barca,
Uma alma nova, ainda sem compreender,
Pensando que é ainda a lua-de-mel
No mundo feliz, a vida toda à sua espera,
Feliz, os poemas todos ainda por achar.

.

YOU HATED SPAIN
                                Spain frightened you. Spain.
Where I felt at home. The blood-raw light,
The oiled anchovy faces, the African               
Black edges to everything, frightened you.
Your schooling had somehow neglected Spain.
The wrought-iron grille, death and the Arab drum.
You did not know the language, your soul was empty
Of the signs, and the welding light               
Made your blood shrivel. Bosch
Held out a spidery hand and you took it
Timidly, a bobby-sox American.
You saw right down to the Goya funeral grin
And recognized it, and recoiled                   
As your poems winced into chill, as your panic
Clutched back towards college America.
So we sat as tourists at the bullfight
Watching bewildered bulls awkwardly butchered,
Seeing the grey-faced matador, at the barrier           
Just below us, straightening his bent sword
And vomiting with fear. And the horn
That hid itself inside the blowfly belly
Of the toppled picador punctured
What was waiting for you. Spain               
Was the land of your dreams: the dust-red cadaver
You dared not wake with, the puckering amputations
No literature course had glamorized.
The juju land behind your African lips.
Spain was what you tried to wake up from           
And could not. I see you, in moonlight,
Walking the empty wharf at Alicante
Like a soul waiting for the ferry,
A new soul, still not understanding,
Thinking it is still your honeymoon               
In the happy world, with your whole life waiting,
Happy, and all your poems still to be found.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

DESENHOS
Desenhar acalmava você. Sua caneta infernal
Era um ferrete que impunha a cada objeto
Uma presença nova, impingia posições finais
À força de tortura. Quando você desenhava
Eu me sentia livre, calmo. O tempo se abria
Quando você representava a feira de Benidorm.
Ao seu lado, eu escrevia alguma coisa.
As horas se esfumavam. Os feirantes
Vinham ver se você os desenhava direito.
Sentados nos degraus, com nossos sapatos de lona,
Éramos felizes. A novidade do turista
Já passara, e conhecíamos os caminhos
Da cidade. Éramos objetos estrangeiros
Conhecidos. Após vender todas as suas bananas
O vendedor fazia para nós um solo de violino
No caule nu. Todos vinham
Ver você desenhando e elogiar.
Você trabalhava com insistência, captando detalhes,
Até que a cena inteira estivesse aprisionada.
Ei-la aqui. Você resgatou para sempre
Aquela manhã perdida há tanto tempo. Sua paciência,
O rosto contorcido, a mordiscar os lábios, retratou
Uma feira que ainda dormitava
Em plena Idade Média. Pouco antes De acordar e desaparecer
Em meio aos gritos de um milhão de veranistas
E os precipícios de hotéis deslumbrantes. Sua mão
Mergulhou em Heptonstall, para ser agarrada
Pela infinita escuridão. Enquanto a minha caneta viaja
A apenas trezentos quilômetros da sua mão,
Com esta lembrança do seu lenço de cabelo, vermelho
De bolas brancas, seu short, seu macacão de mangas curtas –
Um dos trinta que carreguei Europa afora –
E suas pernas, longas e morenas, em que o bloco se apoiava,
E a tranqüilidade contemplativa
Que eu bebia da sua concentração silenciosa,
Nesta tranqüilidade contemplativa
Que bebo agora do seu silêncio, além
Do meu pode, e do seu, de perturbar ou escapar.

.

DRAWING
Drawing calmed you. Your poker infernal pen
Was like a branding iron. Objects
Suffered into their new presence, tortured
Into final position. As you drew
I felt released, calm. Time opened
When you drew the market at Benidorm.
I sat near you, scribbling something.
Hours burned away. The stall-keepers
Kept coming to see you had them properly.
We sat on those steps, in our rope-soles,
And were happy. Our tourist novelty
Had worn off, we knew our own ways
Through the town’s runs. We were familiar
Foreign objects. When he’d sold his bananas
The banana seller gave us a solo
Violin performance on his banana stalk.
Everybody crowded to praise your drawing.
You drew doggedly on, arresting details,
Till you had the whole scene imprisoned.
Here it is. You rescued for ever
Our otherwise lost morning. Your patience,
Your lip-gnawing scowl, got the portrait
Of a market–place that still slept
In the Middle Ages. Just before
It woke and disappeared
Under the screams of a million summer migrants
And the cliff of dazzling hotels. As your hand
Went under Heptonstall to be held
By endless darkness. While my pen travels on
Only two hundred miles from your hand,
Holding this memory of your red, white-spotted bandana,
Your shorts, your short-sleeved jumper —
One of the thirty I lugged around Europe —
And your long brown legs, propping your pad,
And the contemplative calm
I drank from your concentrated quiet,
In this contemplative calm
Now I drink from your stillness that neither
Of us can disturb or escape.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

FEBRE
Você tinha febre. Estava doente mesmo.
Tinha comido alguma coisa estragada.
Largada inerte na cama, um pouco amalucada
De febre. Você clamava pela América
Com todos seus remédios. Você se debatia
No galeão espanhol imóvel de uma cama
Dentro da casa espanhola fechada
Que o sol penetrava por entre as persianas
Como num tumulo. “Me ajude”, 'você sussurrava, “me ajude.”

Delirando, você sonhava que sabia
Na tampa de um poço e, ao despertar, queria
Mergulhar nele – o atalho desimpedido
Que dava na água fresca,
O poço escuro e fresco, melhor lugar
Para encontrar refugio daquela selva ardente
E do micróbio estrangeiro. Você gritava, certa
De que ia morrer.
                                     Eu zanzava
De um lado para outro. Virei babá. E gostava.
Gostava da crise, da importância do meu papel.
Senti que agora as coisas eram reais. Súbito minha mãe,
Uma voz bem conhecida, despertou dentro de mim.
Chegou cheia de certezas. Fiz uma sopa imensa.
Tinha cenoura, tomate, pimentão, cebola,
Um arco-íris fumegante, um elixir. Você
Ia virar uma comporta, uma aqueduto
De pura vitamina C. Jurei
Que aquilo salvara Voltaire da peste.
Eu tinha que saturá-la, inundá-la
Dessas essências fervilhantes.
                                                Eu punha colheradas
Na sua boca aberta de filhote de pássaro, paciente,
Magistral, com muito jeito, de hora em hora.
Enxugava seu rosto desfigurado pelo choro, rosto exausto,
Despedaçado de dor e de fraqueza.
Você tomava as colheradasa como se fosssem vida,
Soluçando, “Eu vou morrer.’
                                           Nos intervalos
Entre uma e outra colherada, eu contemplava
Os ponteiros do seu mostrador. Seu choro
Entrava fundo no vermelho da catástrofe,
Como se piorar fosse impossível. E eu penseava:
Ela está mesmo tão mal assim? Não estará exagerando?
E recuava um pouco, só um pouco,
Por uma questão de equilíbrio, simetria,
Para uma paciência um pouco cética.
Se é suportável, por que tanto escarcéu?
“Ora, o que é isso”, eu sussurrava.  “Não tenha medo.
É so um micróbio, não se entregue tanto.”

O que eu estava dizendo, no fundo, era: “Não faça drama.”
Mas outros pensamentos, frios, familiares,
Cruzaram a corda bamba: “Não faça drama,
Senão não vou saber, não vou ouvir
Quando a coisa for séria de verdade.”
                                                              Era fácil
Entreter tais pensamentos quando o tempo era tanto.
Havia tempo para pensar: “Ela chora
Como se o horror mais impossível
De todos tivesse acontecido –
Já houvesse acontecido, ainda estivesse
Acontecendo, e fosse muito tarde
Para que o mundo a ajudasse.” E então, o pensamento
Da anestesia que ajuda as criaturas
Sob a calota polar, e a indiferença calejada
Que alivia o
ujimédico assoberbado. Um pensamento torto,
Gerado no dilema, na pane, o branco
Que faz com que as planárias perplexas fiquem imóveis
Antes de enrodilhar-se e morrer.

Você estava em pane. Eu não dizia nada.
Eu não dizia nada. O homem de pedra fazia sopa.
A mulher em chamas a tomava.

.

FEVER
You had a fever. You had a real ailment.
You had eaten a baddie.
You lay helpless and a little bit crazy
With the fever. You cried for America
And its medicine cupboard. You tossed
On the immovable Spanish galleon of a bed
In the shuttered Spanish house
That the sunstruck outside glare peered into
As into a tomb. 'Help me,' you whispered, 'help me.'

You rambled. You dreamed you were clambering
Into the well-hatch and, waking, you wanted
To clamber into the well-hatch - the all-clear
Short cut to the cool of the water,
The cool of the dark shaft, the best place
To find oblivion from your burning tangle
And the foreign bug. You cried for certain
You were going to die.
                                     I bustled about.
I was nursemaid. I fancied myself at that.
I liked the crisis of the vital role.
I felt things had become real. Suddenly mother,
As a familiar voice, woke in me.
She arrived with certain knowledge. I made a huge soup.
Carrots, tomatoes, peppers and onions,
A rainbow stir of steaming elixir. You
Had to become a sluice, a conduit
Of pure vitamin C. I promised you,
This had saved Voltaire from the plague.
I had to saturate you and flush you
With this simmer of essences.
                                                I spooned it
Into your helpless, baby-bird gape, gently,
Masterfully, patiently, hour by hour.
I wiped your tear-ruined face, your exhausted face,
All loose with woe and abandon.
I spooned more and you gulped it like life,
Sobbing, 'I'm going to die.'
                                           As I paused
Between you mouthfuls, I stared at the readings
On your dials. Your cry jammed so hard
Over into the red of catastrophe
Left no space for worse. And I thought
How sick is she? Is she exaggerating?
And I recoiled, just a little,
Just for balance, just for symmetry,
Into sceptical patience, a little.
'Come on, now,' I soothed. 'Don't be so scared.
It's only a bug, don't let it run away with you.'

What I really thought was: 'Stop crying wolf.'
Other thoughts, chilly, familiar thoughts,
Came across the tightrope: 'Stop crying wolf,
Or else I shall not know, I shall not hear
When things get really bad.'
                                             It seemed easy
Watching such thought come up in such good time.
Plenty of time to think: 'She is crying
As if the most impossible of all
Horrible things has happened -
Had already happened, was going on
Still happening, with the whole world
Too late to help.' Then the blank thought
Of the anaesthesia that helps creatures
Under the polar ice and the callous
That eases overwhelmed doctors. A twisting thought
Of the overload of dilemma, the white-out,
That brings baffled planarian worms to a standstill
Where they curl up and die.

You were overloaded. I said nothing.
I said nothing. The stone man made soup.
The burning woman drank it.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

CHAUCER
“Quando abril com suas chuvas gentis
Ensopa as secas de março até a raiz...”
A plenos pulmões, balançando-se no alto da coluna,
Braços levantados – em parte para equilibrar-se,
Em parte para deter as rédeas da atenção claudicante
Da sua platéia imaginaria - você declamava Chaucer
Para um pasto cheio de vacas. E era obra do céu primaveril,
Com suas roupas na corda a voejar, e a esmeralda nova
Do abrunheiro, e também do pilriteiro,
E uma dessas taças de champanhe que você
Arrebatava, imprevisível, do puro espírito.
Sua voz seguia em direção a Grantchester.
Parecia perder-se. Mas as vacas
Olharam, e depois chegaram perto: elas gostavam de Chaucer.
Você declamava. Aqui havia razões
Para recitar Chaucer. Chegou então a Matrona de Bath,
Sua personagem preferida em toda a literatura.
Você entrou em êxtase. E as vacas, em transe.
Elas se empurravam, e roçavam umas nas outras, formando
Um círculo ao seu redor, rosnando vez em quando
À guisa de exclamação, atônitas, atentas,
Inclinando as orelhas para não perder a menor nuança
Da sua voz, mantendo dois metros reverentes
De distância. Você não conseguia acreditar.
Nem conseguia parar. O que aconteceria
Se você parasse? Elas a atacariam,
Assustadas pelo choque do silêncio, ou querendo mais...?
Assim, o jeito era continuar. Você continuava –
E vinte vacas permaneciam hipnotizadas.
Como você parou? Já não me lembro
De você parando. Imagino que elas tenham se afastado –
Olhos virados, como se expulsas da gamela.
Imagino que as enxotei. Porém
Sua leitura prolongada de Chaucer
Já se tornara perpétua. O que veio depois
Encontrou minha atenção já tomada
E por isso mergulhou no esquecimento.

.

CHAUCER
'Whan that Aprille with his shoures soote
The droghte of March hath perced to the roote...'
At the top of your voice, where you swayed on the top of a stile,
Your arms raised – somewhat for balance, somewhat
To hold the reins of the straining attention
Of your imagined audience – you declaimed Chaucer
To a field of cows. And the Spring sky had done it
With its flying laundry, and the new emerald
Of the thorns, the hawthorn, the blackthorn,
And one of those bumpers of champagne
You snatched unpredictably from pure spirit.
Your voice went over the fields towards Granchester.
It must have sounded lost. But the cows
Watched, then approached: they appreciated Chaucer.
You went on and on. Here were reasons
To recite Chaucer. Then came the Wyf of Bath,
Your favourite character in all literature.
You were rapt. And the cows were enthralled.
They shoved and jostled shoulders, making a ring,
To gaze into your face, with occasional snorts
Of exclamation, renewed their astounded attention,
Ears angling to catch every inflection,
Keeping their awed six feet of reverence
Away from you. You just could not believe it.
And you could not stop. What would happen
If you were to stop? Would they attack you,
Scared by the shock of silence, or wanting more –?
So you had to go on. You went on –
And twenty cows stayed with you hypnotized.
How did you stop? I can't remember
You stopping. I imagine they reeled away –
Rolling eyes, as if driven from their fodder.
I imagine I shooed them away. But
Your sostenuto rendering of Chaucer
Was already perpetual. What followed
Found my attention too full
And had to go back into oblivion.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

A CABEÇA DE ARGILA
Que modelou a sua cabeça em terracota?
Alguma estudante americana amiga sua.
Tamanho natural, lábios semi-apertados, bordas ásperas
Traçadas por técnica tosca – tentativa naturalista
Que por pouco não deu certo. Você não gostou.
Nem eu. Nossa aversão atribuiu-lhe um magnetismo
Para um ritual perverso. Por que motivo resolvemos
Levá-la conosco, na sua sacola vermelha?
Novembro, névoa, brejo, rio desenroscado
Remoinhos negros, levando frágeis fiapos de amarelo-salgueiro.
Salgueiros podados de galhos nus, como chifres
De alces na muda. Logo após o ponto onde o campo
Se alarga e a trilha desvia para a direita,
Perdendo o rio num ziguezague rumo a Grantchester,
O salgueiro escolhido se debruçava sobre a água.
Um pouco acima da cabeça, a cicatriz de uma ferida no tronco,
Uma forquilha esgalhada, quase um poleiro de coruja,
Servia de santuário mítico para o seu duplo.
Eu o encaixei, ereto e firme. E o salgueiro
Era uma herma, com a sua cabeça, olhando para o leste
Com suas pupilas feridas a ferro. Lá a deixamos
Para viver sua vida, entregue às intempéries.

No seu poema sobre ela, você vasculhou o dicionário,
Ocultando-lhe o espelho, protegendo-se com rimas
Daquele destino de abandono.
Mas a cabeça não a deixava em paz. Semanas depois
Não conseguíamos encontrar a árvore. Também
Não procuramos muito – só de passagem. Você
Já não queria temer, se ela se fora,
O feitiço talvez nela contido. Raramente
Você voltou a falar nela
                                          O que aconteceu?
Talvez nada. Talvez a cabeça
Continue em seu lugar representando você
Para o sol nascente, feliz
Em sua fria pastoral, lábios um pouco apertados
Como se minhas mãos ainda há pouco a segurassem.
Ou foi achada por meninos, que a espatifaram? Ou
Também a árvore por fim se ajoelhou?

Decerto o rio tomou-a. Decerto
O rio é sua capela, e a guarda. Decerto
Sua cabeça imune à morte, cozida num forno,
Face a face afinal, beija o Pai
Enlameado no leito do Cam,
Irreconhecível, irresgatável,
Lavada de todo nosso medo, e perfeita,
Sob o fluxo turvo e lúgubre, saudada
Apenas num momento de verão, pelas enguias
Cargas de sombras que esvoaçam rumo ao mel
E o relógio parado.
                                   O Mal.
Esse, o nome que você deu à cabeça. O Mal.

.

THE EARTHENWARE HEAD
Who modelled your head of terracotta?
Some American student friend.
Life-size, the lips half-pursed, raw-edged
With crusty tooling— a naturalistic attempt
At a likeness that just failed. You did not like it.
I did not like it. Unease magnetized it
For a perverse rite. What possessed us
To take it with us, in your red bucket bag?
November fen-damp haze, the river unfurling
Dark whorls, ferrying slender willow yellows.
The pollard willows wore comfortless antlers.
Switch-horns, leafless. Just past where the field
Broadens and the path strays up to the right
To lose the river and puzzle for Grantchester,
A chosen willow leaned towards the water.
Above head height, the socket of a healed bole-wound,
A twiggy crotch, nearly an owl’s porch,
Made a mythic shrine for your double.
It fitted it upright, firm. And a willow tree
Was a Herm, with your head, watching East
Through those tool-stabbed pupils. We left it
To live the world’s life and weather for ever.

You ransacked thesaurus in your poem about it,
Veiling its mirror, rhyming yourself into safety
From its orphaned fate.
But it would not leave you. Weeks later
We could not seem to hit on the tree. We did not
Look too hard— just in passing. Already
You did not want to fear, if it had gone,
What witchcraft might ponder it. You never
Said much more about it.

What happened?
Maybe nothing happened. Perhaps
It is still there, representing you
To the sunrise, and happy
In its cold pastoral, lips pursed slightly
As if my touch had only just left it.
Or did boys find it— and shatter it? Or
Did the tree too kneel finally?

Surely the river got it. Surely
The river is its chapel. And keeps it. Surely
Your deathless head, fired in a furnace,
Face to face at last, kisses the Father
Mudded at the bottom of the Cam,
Beyond recognition or rescue,
All our fears washed from it, and perfect,
Under the stained mournful flow, saluted
Only in summer briefly by the slender
Punt-loads of shadows flitting towards their honey
And the stopped clock.
                                           Evil.
That was what you called the head. Evil.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

O MORRO DOS VENTOS UIVANTES
Walter era o guia. A prima de sua mãe
Herdou uns pratos de sopa dos Brontë.
Walter tinha pena deles. Os escritores
Eram pessoas patéticas. Sempre a esconder-se
E a inventar coisas. Mas você, com o seu entusiasmo
      transatlântico,
O entusiasmou. Ele efervescia
Com seu vinho de ruibarbo um pouco passado:
Safra de lendas e fofocas
Sobre aquelas pobres moças. Então,
Depois da casa paroquial, e da chaise-longue
Em que Emily morreu, e as botinhas feitas à mão,
As rendas feéricas, os sapatos de anãozinho,
Vinha a caminho de Stanbury. A subida
De uma milha além do esperado, até chegar
Ao Éden pessoal de Emily. O urzal
Brotava e abria sua flor escura
Para você também. Isso era bom.
Mais selvagem, talvez, que a própria Emily sonhara.
Os pés molhados a cabeça descoberta,
Ela subia a encosta íngreme rumo aos amigos –
Provavelmente. Escuro baluarte
Recortado contra o céu. Para você
Tudo era novo e empolgante.
O livro virava mapa. O morro dos ventos uivantes
Ganhava corpo. Então chegamos
E era só olhar. Urzal aberto,
Raios gama e luz de estrelas em decomposição
Reapossaram-se da casa
Com uma combustão que enegrecia tudo. Séculos
De conforto por trás de portas bem trancadas culminavam
Numa pedreira abandonada. No telhado, embora descascando,
As telhas-arapucas estavam quase todas no lugar,
Caibros e terças podres. Difícil
Imaginar a vida que um dia iluminara
Esse refúgio ne de pedra úmida.
No chão, entulho e bosta de carneiro.
Os alizares arrancados para alimentar
Fogueiras de acampamentos, ou então evaporados.
Somente a alvenaria – negra. O céu - azul.
E o vento do urzal a tremular.
                                                  Tantas entradas,
Tantas saídas – como retomar agora
O impacto dessa luta? Vestígios
Da renda de uns poucos bois doentes
E um punhado de carneiros aloucados. O encurralamento
Prendia as pessoas ali. Aquela ruina de muro seria
Vestígio de uma tentativa de jardim? Duas árvores
Plantadas para fazer companhia, dar sombra a uma criança,
Ser algo para olhar. Plátanos
Com espessura e ramagem de árvores de vinte anos,
Teriam talvez noventa.
                                        Você respirava tudo isso
Fungando, ciumenta e invejosa. Pois você não era duas vezes
Mas ambiciosa que Emily? Era estranho
Ver você, ornamento tão ágil
Das suas aspirações cosmopolitas,
Entre esses restos queimados, desgastados,
De esforços fracassados, esperanças frustradas –
Crenças férreas, necessidades férreas,
Férrea servidão, tudo
Desmoronando, voltando a pedra bruta.
                                                                  Você empoleirou-se
Numa das duas árvores
Exatamente onde a foto a enquadrou.
Fazendo o que Emily jamais fez. Você
Tinha todas as liberdades, tendo vida.
O futuro investira em você –
Como investe numa jóia,
Facetas reluzentes, refratando
Todos os tons, enquanto Emily, de olhar perdido,
Era uma prisioneira moribunda.
E um poema despregou-se de você
Como uma mecha a soltar-se da sua nuca
Para ser cortada e guardada num livro. O que teria
Emily, severa e seca, pensado ao ver seu olhar travesso,
Suas enormes esperanças? Sua enorme
Hipoteca de esperança. Veio o vento do urzal,
Com seus olhos vazios, mirar você,
E as nuvens olharam de esguelha, se afastando,
E a grama, afogueada, febril,
Apatetada, constatou a sua presença. E a pedra,
Estendendo-se para tocar sua mão, sentiu-a verdadeira
E quente, e luminosa, como a outra de outrora.
E talvez um fantasma, tentando ouvir as suas palavras,
Olhou por entre as fasquias quebradas
E se acalmou. Ou de repente se inflamou
Com a chama da inveja redobrada. Que só aos poucos
Apaziguou-se com a compreensão.

.

WUTHERING HEIGHTS
Walter was guide. His mother's cousin
Inherited some Brontë soup dishes.
He felt sorry for them. Writers
Were pathetic people. Hiding from it
And making it up. But your transatlantic
      elation
Elated him. He effervesced
Like his rhubarb wine kept a bit too long:
A vintage of legends and gossip
About those poor lasses. Then,
After the Rectory, after the chaise longue
Where Emily died, and the midget hand-made books,
The elvish lacework, the dwarfish fairy-work shoes,
It was the track for Stanbury. That climb
A mile beyondexpectation, into
Emily's private Eden. The moor
Lifted and opened its dark flower
For you too. That was satisfactory.
Wilder, maybe, than ever Emily knew it.
With wet feet and nothing on her head
She truged that climbing side towards friends –
Porbably. Dark redoubt
On the skyline above. It was all
Novel and exhilarating to you.
The book becoming a map. Wuthering Heights
Withering into perspective. We got there
And it was all gaze. The open moor,
Gamma rays and decompsing starlight
Had repossessed it
With a kind of blackening smoulder. The centuries
Of door-bolted comfort finally amounted
To a forsaken quarry. The roofs'
Deadfall slabs were flaking, but mostly in place,
Beam and purlins softening. So hard
To imagine the life that had lit
Such a sodden, raw-stone cramp of refuge.
The floors were a rubble of stone and sheep droppings.
Doorframes, windowframes –
Gone to make picnickers' fires or evaporated.
Only the stonework – black. The sky – blue.
And the moor-wind flickering.
                                                    The incomings.
The outgoings – how would you take up now
The clench of that struggle? The leakage
Of earnings off a few sickly bullocks
And a scatter of crazed sheep. Being cornered
Kept folk here. Was that crumble of wall
Remembering a try at a garden? Two trees
Planted for company, for a child to play under.
And to have something to stare at. Sycamores –
The girth and spread of valley twenty-year-olds.
They were probably ninety.
                                              You breathed it all in
With jealous, emulous sniffings. Weren't you
Twice as ambitious as Emily? Odd
To watch you, such a brisk pendant
Of your globe-circling aspirations.
Among those burned-out, worn-out remains
Of failed efforts, failed hopes –
Iron beliefs, iron necessities,
Iron bondage, already
Crumbling back to the wild stone.
                                                         You perched
In one of the two trees
Just where the snapshot shows you.
Doing as Emily never did. You
Had all the liberties, having life.
The future had invested in you –
As you might say of a jewel
So brilliantly faceted, refracting
Every tint, where Emily had stared
Like a dying prisoner.
And a poem unfurled from you
Like a loose frond of hair from your nape
To be clipped and kept in a book. What would stern
Dour Emily have made of your frisky glances
And your huge hope? Your huge
Mortgage of hope. The moor-wind
Came with its empty eyes to look at you,
And the clouds gazed sidelong, going elsewhere,
The heath-grass, fidgeting in its fever,
Took idiot notice of you. And the stone,
Reaching to touch your hand, found you real
And warm, and lucent, like that earlier one.
And maybe a ghost, trying to hear your words,
Peered from the broken mullions
And was stilled. Or was suddenly aflame
With the scorch of doubled envy. Only
Gradually quenched in understanding.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

HORÓSCOPO
Você queria estudar
Os seus astros – os carcereiros
Da sua prisão, o zodíaco. Os planetas
Murmuravam formulas babilônicas –
Como os ossos de um xamã. Você temia, com razão,
Que os ossos rugissem muito alto,
Que um ouvido captasse com clareza
O que os ossos sussurravam
Ainda que imersos em carne cálida.

Mas você não precisava calcular
Os graus do seu disruptor do ascendente
Em Áries. Nenhum significado definido – nada mais,
Segundo o livro babilônico,
Que um rosto marcado. Que mágico
Poderia enxergar mais fundo sob a pele?

Para você, bastava olhar
No rosto mais próximo de uma metáfora
Tirada do seu armário ou de seu prato
Ou então do sol, da lua ou dos teixos
Para ver seu pai, sua mãe, ou a mim
A lhe trazer todo o seu Destino.

.

HOROSCOPE
You wanted to study
Your stars – the guards
Of your prison yard, their zodiac. The planets
Muttered their Babylonish power-sprach –
Like a witchdoctor's bones. You were right to fear
How loud the bones might roar
How clear an ear might hear
What the bones whispered
Even embedded as they were in the hot body.

Only you had no need to calculate
Degrees for your ascendant disruptor
In Aries. It means nothing certain – no more
According to the Babylonian book
Than a scarred face. How much deeper
Under the skin could any magician peep?

You only had to look
Into the nearest face of a metaphor
Picked out of your wardrobe or off your plate
Or out of the sun or the moon or the yew tree
To see your father, your mother, or me
Bringing you your whole Fate.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

OS LINGUADOS
Aquele dia foi feliz? Partimos de Chatham,
Na extremidade sul do cabo, tendo como mapa
O otimismo categórico de alguém,
Num barco a remo. Chegamos até
O meio do canal. A maré fluía. Lançamos
Âncora. Puxando para o norte, nossas iscas chumbadas
Quicavam e quicavam no fundo. Em três horas –
Duas ou três cabrinhas. Cruzadores
Levantavam ondas mais altas que nós, e subíamos,
Perfeitamente contentes. Mas o vento
Voltou-se contra nós, mais forte, e a maré virou, mais áspera,
Puxando para o mar. Remávamos. Remávamos.
Vimos que não íamos conseguir. Viramos,
Seguimos a favor do vento, rumo ao banco de areia,
E encalhamos sem saber o que fazer depois. E ali
Achei a carapaça de um caranguejo, perfeita,
Do tamanho de uma abelha, em celofane cor de mel.
Como voltar? Mas a América, grande e boa, nos achou.
Um barco a motor e um piloto expedito.
Ele amarrou nosso barco a sua popa e, com toda a família,
Seguiu para o outro lado do canal a toda, contra o vento,
Uma foice de espuma a recortar o ar, nosso barco atrás
A serpentear-se pelo fervor da esteira – tudo
Em quatro ou cinco minutos elétricos, e nos deixou
A sotavento, porém a mais de dois quilômetros
De nosso cais. Fomos remando rente à costa, lentos. Chegamos
A um canal escondido, junto a jardins de casas de praia – capim de brejo,
Vegetação silvestre, original, da América,
Lamaçais e viveiros de siris-patolas, e nós tateando
Em busca do cais. Água rica em negrumes. Algo indicava
Uma abundância fácil. Lançamos nossas iscas.
E de uma água com dois metros de profundidade,
A dois ou três metros da terra, arrancamos linguados
Do tamanho de travessas, até as iscas acabarem.
Depois do dia de vazio, ardido de vento, deslumbrado de sol,
Do esforço para não sermos levados, e do salvamento,
De repente aquele mar de água fácil como óleo
Transbordou o nosso barco com sua abundância. E o dia,
Tendo emergido da manhã ensolarada e árdua,
Atravessado a tarde perigosa, fustigada de vento e sal,
Terminou num crepúsculo de ouro tormentoso, o luxo
De remar entre milionários iates de sonho
Refestelando-se, ancorados, naquele cais langoroso.

Uma aventura tão minúscula
Tornou-se tão monumental em nosso casamento,
Pequeno pesadelo de tudo que poderia ter sido,
E a breve emoção ofegante do que é a vida para tantos,
E um pequeno prêmio, miniatura de brinquedo
Da vida que nos podia ter fundido
Num único animal, em alma única –

Foi uma aparição da deusa, a beleza
Irmã da poesia – viera
Para dizer à poesia que ela estava nos estragando.
A poesia ouviu, talvez, mas nós não ouvimos nada,
E ela não nos deu o recado. E nós só fazíamos
O que a poesia nos mandava fazer.

.

FLOUNDERS
Was that a happy day? From Chatham
Down at the South end of the Cape, our map
Somebody's optimistic assurance,
We set out to row. We got ourselves
Into mid-channel. The tide was flowing. We hung
Anchored. Northward pulling, our baited leads
Bounced and bounced the bottom. For three hours ––
Two or three sea-robins. Cruisers
Folded us under their bow-waves, we bobbed up,
Happy enough. But the wind
Smartened against us, and the tide turned, roughening,
Dragged seaward. We rowed. We rowed. We
Saw we weren't going to make it. We turned,
Cutting downwind for the sand-bar, beached
And wondered what to do next. It was there
I found a horse-shoe crab's carapace, perfect,
No bigger than a bee, in honey-pale cellophane.
No way back. But big, good America found us.
A power-boat and a pilot of no problems.
He roped our boat to his stern and with his whole family
Slammed back across the channel into the wind,
The spray scything upwards, our boat behind
Twisting across the wake-boil –– a hectic
Four or five minute and he cast us off
In the lee of the land, but a mile or more
From our dock. We toiled along inshore. We came
To a back-channel, under beach-house gardens –– marsh grass,
Wild, original greenery of America,
Mud-slicks and fiddler-crab warrens, as we groped
Towards the harbour. Gloom-rich water. Something
Suggested easy plenty. We lowered baits,
And out of about six feet of water
Six or seven feet from land, we pulled up flounders
Big as big plates, till all our bait had gone.
After our wind-burned, head-glitter day of emptiness,
And the slogging row of our lives, and the rescue,
Suddenly out of water easy as oil
The sea piled our boat with its surplus. And the day
Curled out of brilliant, arduous morning,
Through wind-hammered perilous afternoon,
Salt-scoured, to a storm-gold evening, a luxury
Of rowing among the dream-yachts of the rich
Lolling at anchor off the play-world of the pier.

How tiny an adventure
To stay so monumental in our marriage,
A slight ordeal of all that might be,
And a small thrill-breath of what many live by,
And a small prize, a toy miniature
Of the life that might have bonded us
Into a single animal, a single soul ––

It was a visit from the goddess, the beauty
Who was poetry's sister –– she had come
To tell poetry she was spoiling us.
Poetry listened, maybe, but we heard nothing
And poetry did not tell us. And we
Only did what poetry told us to do.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

EPIFANIA
Londres. Suja suavidade lilás
De uma tarde de abril. Eu
Atravessando o Chalk Farm Bridge
A caminho da estação do metrô.
Recém-pai – um pouco zonzo
De falta de sono e de novidade.
E vejo um jovem vindo em minha direção.

Só o olhei quando cruzou comigo
Ao perceber (eu não podia acreditar)
O que até então ignorara.

Não o volume de um pequeno animal
Levado debaixo do paletó
Como faziam antigamente os mineiros com os lebréus –
E sim o rosto do bicho. Olhos tentando
Olhar nos meus – tão familiar!
Orelhas grandes, rosto estreito, ar de moleque –
Olho fixo de confronto, fruto do medo,
Entre as lapelas do paletó.
                                             “Um filhote de raposa!”
Ouvi meu próprio espanto e parei.
Ele parou. “Onde você arranjou? O que
Você vai fazer com ele?”
                                          Um filhote de raposa
Na corcova de Chalk Farm Bridge!

“Por uma libra, ele é seu.” “Mas
Onde você o achou? O que vai fazer com ele?”
“Ah, alguém vai querer comprar. Por uma libra
Está bem em conta.” E sorriu.
                                                    O que eu pensava
Era – o que pensaria você? Onde enfiá-lo
Em nosso parco espaço? Com o bebê e tudo?
O que fazer com seu bodum antigo
E sua energia endiabrada?
Quando crescesse, e começasse a divertir-se,
O que faríamos com uma raposa
Imprevisível, poderosa, saltitante?
A boca larga, a índole instável?
Os trinta quilômetros necessários toda noite
E aquela fome imensa de tudo que está além de nós?
Como lidar com seus distúrbios cósmicos
A cada vez que nos mudássemos?

A raposinha olhava agora para os outros,
Este, aquele, e depois para mim.
Só precisava de sorte.
Não era mais um bebê,
Porém os olhos ainda eram pequenos,
Redondos, olhos de órfão, melancólicos
Como se de tanto chorar. Saudade
Do leite azul, os brinquedos de pena e pêlo,
A treva gostosa da toca. E o sussurrar imenso
Das constelações
De onde a mãe nunca deixava de voltar.
Meus pensamentos eram sabujos grandes, ignorantes,
Rodando em torno dela, a farejar.
                                                         Então segui em frente
Como se abandonasse minha própria vida.
Deixei a raposinha ir embora. Lancei-a de volta
No futuro
De um filhote de raposa em Londres, e apertei o passo
Seguindo em frente, e mergulhei, como quem foge,
Na estação do metrô. Se eu tivesse pago
Aquela libra e voltado a você
Com os braços repletos de raposa –

Se eu tivesse entendido que a raposa e o que ela implica
É o que prova e o que aprova um casamento –
Eu não teria sido reprovado. E você?
Mas fracassei. Nosso casamento havia fracassado.

.

EPIPHANY
London. The grimy lilac softness
Of an April evening. Me
Walking over Chalk Farm Bridge
On my way to the tube station.
A new father – slightly light-headed
With the lack of sleep and the novelty.
Next, this young fellow coming towards me.

I glanced at him for the first time as I passed him
Because I noticed (I couldn't believe it)
What I'd been ignoring.

Not the bulge of a small animal
Buttoned into the top of his jacket
The way colliers used to wear their whippets –
But its actual face. Eyes reaching out
Trying to catch my eyes – so familiar!
The huge ears, the pinched, urchin expression –
The wild confronting stare, pushed through fear,
Between the jacket lapels.
                                    'It's a fox-cub!'
I heard my own surprise as I stopped.
He stopped. 'Where did you get it? What
Are you going to do with it?'
                                    A fox-cub
On the hump of Chalk Farm Bridge!

'You can have him for a pound.' 'But
Where did you find it? What will you do with it?'
'Oh, somebody'll buy him. Cheap enough
At a pound.' And a grin.
                              What I was thinking
Was – what would you think? How would we fit it
Into our crate of space? With the baby?
What would you make of its old smell
And its mannerless energy?
And as it grew up and began to enjoy itself
What would we do with an unpredictable,
Powerful, bounding fox?
The long-mouthed, flashing temperament?
That necessary nightly twenty miles
And that vast hunger for everything beyond us?
How would we cope with its cosmic derangements
Whenever we moved?

The little fox peered past me at other folks,
At this one and at that one, then at me.
Good luck was all it needed.
Already past the kittenish
But the eyes still small,
Round, orphaned-looking, woebegone
As if with weeping. Bereft
Of the blue milk, the toys of feather and fur,
The den life's happy dark. And the huge whisper
Of the constellations
Out of which Mother had always returned.
My thoughts felt like big, ignorant hounds
Circling and sniffing around him.
                                                  Then I walked on
As if out of my own life.
I let that fox-cub go. I tossed it back
Into the future
Of a fox-cub in London and I hurried
Straight on and dived as if escaping
Into the Underground. If I had paid,
If I had paid that pound and turned back
To you, with that armful of fox –

If I had grasped that whatever comes with a fox
Is what tests a marriage and proves it a marriage –
I would not have failed the test. Would you have failed it?
But I failed. Our marriage had failed.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

UM SONHO
O seu pior sonho
Realizou-se: batem à porta –
Mas que uma chance em um bilhão,
Um meteorito caído em nossa chaminé,
Com nosso nome escrito nele.

Não são os sonhos, disse eu, porem os astros
Que regem nossa vida. Ânsia de todo o ser,
Inexorável, como quem dorme e aspira fundo
Enchendo os pulmões. Você precisava
Levantar só um pouco a tampa do caixão.
Um sonho seu ou meu? Estranha caixa de correio.
Você tirou o envelope. Era
Uma carta do teu pai. “Cheguei.
Posso ficar com você?” Eu nada disse.
Para mim, todo pedido era uma ordem.

Depois veio a Catedral.
Chartres. Não sei como, chegamos a Chartres.
Para você, não era a primeira vez.
Quase só lembro
De um jarro bretão. Você o encheu
Com tudo que tínhamos. Até o último franco.
Disse que era para a tua mãe.
Você verteu nosso oxigénio
Naquele jarro. Chartres
(Foi o que guardei)
Pairava em torno do seu rosto, uma mantilha,
Enegrecida, um rendilhado de chamusco –
Como se após um incêndio. Feito uma freira
Você cuidava dos restos de seu pai.
Vertendo nossas vidas daquele jarro
No café que ele tomava de manhã. Então você o quebrou,
Reduziu-o a cacos, estrelas grosseiras,
E as deu à tua mãe.

“E a você”, me disse então, “dou o direito
De se lembrar deste sonho. E pensar nele.”

.

A DREAM
Your worst dream
Came true: that ring on the door-bell —
Not a simple chance in a billion
But a meteorite, straight down our chimney,
With our name on it.

Not dreams, I had said, but fixed stars
Govern a life. A thirst of the whole being,
Inexorable, like a sleeper drawing
Air into the lungs. You had to lift 
The coffin lid an inch.
In your dream or mine? Strange letter box.
You took out the envelope. It was
A letter from your Daddy. 'I'm home.
Can I  stay with you?' I said nothing.
For me, a request was a command.

Then came the Cathedral.
Chartres. Somehow we had got to Chartres.
Not the first time for you.
I remember little
But a Breton jug. You filled it
With everything we had. Every last franc.
You said it was for your mother.
You emptied our oxygen
Into that jug. Chartres
(I salvaged. this)
Hung about your face, a mantilla,
Blackened, a tracery of char —
As after a firestorm. Nun-like
You nursed what was left of your Daddy.
Pouring our lives out of that jug
Into his morning coffee. Then you smashed it
Into shards, crude stars,
And gave them to your mother.

'And for you,' you said to me, 'permission
To remember this dream. And think about it.'
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

O MINOTAURO
A mesa de mogno que você quebrou
Era o tampo largo do aparador
Que minha mãe havia herdado –
Mapa de riscos de toda a minha vida.

Foi isso que você martelou
Com um banco alto aquele dia,
Enlouquecida por eu estar vinte minutos
Atrasado para cuidar da criança.

“Maravilhoso!” gritei. “Isso mesmo,
Quebre tudo em pedacinhos.
Isso você não põe nos seus poemas!”
Depois, consciente, mais calmo,

“Ponha no ombro essas estrofes
E vamos.” No fundo da gruta do seu ouvido
O gnomo estalou os dedos.
O que lhe dera eu, afinal?

A ponta sangrenta da madeixa
Que desenredou o seu casamento,
Deixou os seus filhos ecoando
Como túneis de um labirinto,

Deixou a sua mãe num beco sem saída,
Levou você ao touro enfurecido
Da tumba do seu pai ressuscitado –
E deixou-a morta lá dentro.

.

THE MINOTAUR
The mahogany table-top you smashed
Had been the broad plank top
Of my mother's heirloom sideboard –
Mapped with the scars of my whole life.

That came under the hammer.
The high stool you swung that day
Demented by my being
Twenty minutes late for baby-minding.

"Marvellous!" I shouted. "Go-on,
Smash it into kindling.
That's the stuff you're keeping out of your poems!"
And later, considered and calmer.

"Get that shoulder under your stanzas
And we'll be away." Deep in the cave of your ear
The goblin snapped his fingers.
So what had I given him?

The bloody end of the skein
That unravelled your marriage,
Left your children echoing
Like tunnels in a labyrinth,

Left your mother a dead-end,
Brought you to the horned, bellowing
Grave of your risen father –
And your own corpse in it.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

A PANELA
Quando ele parou por fim na rua principal
Da cidadezinha, depois daqueles trezentos
Quilômetros, o sol das cinco horas de setembro
No Westcountry, sol de bronze, baixo, úmido,
Passando um pouco acima da rua, e quando
Ele saiu, a espreguiçar os membros entorpecidos,
Do carro apinhado de livros, pacotes cheios
De pratos, talheres e a parafernália do bebê,
E atravessou a rua torta da cidade desconhecida
Para comprar uma panela de esquentar leite e papinha
No instante que chegaram
Horas antes dos móveis
E entraram na casa nova e nua, na estranha vida nova,
Ele não percebeu que a loja de ferragens
Onde comprou a panela estava fechada
E vazia há dois anos. E ao voltar
Com a panelinha não reparou
Num homem que o olhava na calçada,
Abraçado a uma jovem que trajava
Um sumario vestido longo
Aberto até a anca, e um xale branco, de seda,
Sobre seus ombros nus, e brincos de pressão,
Ele não reconheceu, nem sua esposa
Quando ele voltou cansado a seu lugar ao lado dela,
Ao volante do Morris Traveller,
Que aquele homem, a dois metros deles,
Olhando fixamente para os dois,
Aquele homem infinitamente mais vivo
Que o casal naquele carro feliz
Era ele próprio – cônscio de todo o futuro
Deles dois, e incapaz de alertá-los.

.

THE PAN
When he stopped at last in the long main street
Of the small town, after that hundred
And ninety miles, the five-o'clock, September,
Brassy, low, wet Westcountry sun
Above the street's far end, and when
He had extricated his stiffness
From the car crammed with books, carrier bags
Of crockery, cutlery and baby things,
And crossed the tilting street in that strange town
To buy a pan to heat milk and babyfood
The moment they arrived
Hours ahead of their furniture
Into their stripped new house, in their strange new life,
He did not notice that the ironmonger's
Where he bought the pan had been closed
And empty for two years. And returning
With the little pan he did not notice
A man on the pavement staring at him, 
His arm round a young woman who wore
A next-to-nothing long evening dress
Slashed to the hip, and a white, silk, open-work shawl
Round her naked shoulders, and leopard-claw ear-rings, 
He did not recognize, nor did his wife
As he squeezed back weary beside her
Behind the wheel of the Morris Traveller,
That this man, barely two yards from them,
Staring at them so fixedly, 
The man so infinitely more alive
Than either of them there in the happy car
Was himself – knowing their whole future
And helpless to warn them.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

ERRO
Eu trouxe você a Devon. A minha terra de sonhos.
Como um sonâmbulo, eu a trouxe
A minha terra de totens. Terra do nunca:
Pomar no Oeste.
                             Enfrentei 
Os cobertores, o âmnio e o cordão,
E você ficou ao meu lado,
Corajosa, desesperada, esperançosa,
Atenta a deuses diferentes, despindo
Sua realeza americana, peça a peça –
Até sair, trôpega, nua até a alma
Nesse corredor sem vista, pavimentando com pedras
E dando num cemitério.
                                         Que fim levara
O sol da Itália?
Teria escapado por entre nossos dedos
Como a borboleta da rede? A trajetória efêmera,
O expresso onírico, transcontinental,
Da sua adolescência – teria ele
Esbarrado no fundo de um beco, impacto fatal,
Neste túnel de terra vermelha? Seria por isso
Que não conseguíamos acordar – nossos dedos entorpecidos
Tentando arrancar raízes de urtigas?
                                                          Em que bifurcação
Tomamos a estrada errada? Num pomar escuro
Sob um telhado de colmo com goteiras, ouvíamos, deitados,
Nosso vicariato apodrecer como um esquife,
Afundar em meio ao mato. O que terá você pensado
Sozinha,  à sua mesa de olmo,
Encarando a folha de papel em branco,
Calada ante a máquina de escrever, ouvindo
O gotejar do colmo, o murmúrio da chuva,
E contemplando aquela igreja madrugada, telhados
Negros de ardósia na chuva, maré baixa,
Luzindo de umidade?
                                     Estavamos em Lyonnesse.
Nuvens inacessíveis, árvores submersas.
O labirinto
De alamedas como túneis entre as sarças. Mulheres agasalhadas –
Você as comparava a verrugas –
Farejando a sua estranheza em lojas úmidas.
Os olhos delas a seguiam, como texugos enlameados,
Escavavam o seu sono, punham as patas nos seus sonhos,
Trocavam futricas nas cercas, num dialeto medieval,
Espiavam das bocas das tocas.
                                                    O mundo
Terminava com os bois
Amontoados atrás de portões, na lama até os joelhos,
Ao pé dos montes úmidos. Um berro
Agitava os carvalhos encharcados, testando os limites.
E junto às botas, o bueiro gorgolejante –
Um sangramento lento de água avermelhada –
Buscava o rio, e depois o mar.

E fora isto que escolhêramos por fim.
Relembrando, vejo tudo numa bolha:
Gente estranha, num brilho hermético,
Rindo e chorando silenciosamente,
Contemplando uma desolação
Através de ar transparente. Uma foto de casamento
Na chuva, sobre um túmulo estrangeiro, em meio a lírios –
E logo abaixo, ocultos, os ossos verdadeiros
Ainda sofrendo tudo.

.

ERROR
I brought you to Devon. I brought you into my dreamland.
I sleepwalked you
Into my land of totems. Never-never land:
The orchard in the West.
                                         I wrestled
With the blankets, the caul and the cord,
And you stayed with me
Gallant and desperate and hopeful,
Listening for different gods, stripping off
Your American royalty, garment by garment –
Till you stepped out soul-naked and stricken
Into this cobbled, pictureless corridor
Aimed at a graveyard.
                                     What had happened
To the Italian sun?
Had it escaped our snatch
Like a butterfly off a nettle? The flashing trajectory,
The trans-continental dream-express
Of your adolescence - had it
Slammed to a dead-end, crushing halt, fatal,
In this red-soil tunnel? Was this why
We could not Wake – our fingers tearing numbly
At the mesh of nettle-roots?
                                               What wrong fork
Had we taken? In a gloom orchard
Under drumming thatch, we lay listening
To our vicarage rotting like a coffin,
Foundering under its weeds. What did you make of it
When you sat at your elm table alone
Staring at the blank sheet of white paper,
Silent at your typewriter, listening
To the leaking thatch drip, the murmur of rain,
And staring at that sunken church, and the black
Slate roofs in the mist of rain, low tide,
Gleaming awash.
                              This was Lyonnesse.
Inaccessible clouds, submarine trees.
The labyrinth
Of brambly burrow lanes. Bundled women –
Stump-warts, you called them –
Sniffing at your strangeness in wet shops.
Their eyes followed you everywhere, loamy badgers,
Dug you out of your sleep and pawed at your dreams,
Jabbered hedge-bank judgements, a dark-age dialect,
Peered from every burrow-mouth.
                                                         The world
Came to an end at bullocks
Huddled behind gates, knee-deep in quag,
Under the huddled rainy hills. A bellow
Shaking the soaked oak-woods tested the limits.
And beside the boots, the throbbing gutter –
A thin squandering of blood-water –
Searched for the river and the sea.

And this was what we had chosen finally.
Remembering it, I see it all in a bubble:
Strange people, in a closed brilliance,
Laughing and crying soundlessly,
Gazing out of the transparency
At a desolation. A rainy wedding picture
On a foreign grave, among lilies –
And just beneath it, unseen, the real bones
Still undergoing everything.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

OS NARCISOS
Lembra da colheita dos narcisos?
Ninguém mais lembra, mas eu lembro.
Sua filha vinha de braços cheios, alegre e animada,
Nos ajudando a colher. Ela esqueceu.
Não lembra nem de você. E nós vendemos todos.
Parece um sacrilégio, mas vendemos.
Estávamos tão pobres assim? O velho Stoneman da mercearia,
Olhar de proprietário, pressão alta, tez roxa de beterraba
(Foi sua última chance,
Morreu na mesma onda de frio que você),
Nos convenceu. Toda primavera
Ele os comprava, sete pence a dúzia,
"É tradição da casa".

Além do quê, ainda não sabíamos se estava em nossos planos
Possuir alguma coisa. Mas era mais a nossa fome
De tirar lucro de tudo.
Ainda nômades – ainda estranhos
A tudo que era nosso. Os narcisos
Eram um brinde inesperado da escritura,
Tesouro encontrado. Brotavam simplesmente,
E não paravam de brotar.
Como se viessem do céu e não da terra.
Nossa vida ainda era um saque à nossa sorte.
Éramos mortais. E não sabíamos
Que os narcisos são um clarão fugaz
Do eterno. Não percebemos neles
O vôo nupcial da efêmera mais rara –
A nossa vida!
                        Para nós, eram uma sorte adicional.
Nunca entendemos que era a bênção derradeira.
Assim, vendemos todos. Cuidávamos da venda
Como se fôssemos empregados
De uma floricultura. Você trabalhava,
Curvando-se na chuva de abril – seu último abril.
Nós dois, recurvos lado a lado, entre os silvos suaves
Da multidão de caules, medas úmidas a balançar-se em dança
Como vestidos de meninas –
Libélulas recém-abertas, frágeis, úmidas,
Abertas antes do tempo.

Empilhamos as luzes tênues numa bancada de carpinteiro,
Distribuímos folhas entre as dúzias –
Folhas-lâminas molengas, maleáveis, arfando, prata-zinco –
Num balde d`água mergulhamos seus traseiros 
Ovais em carne viva,
E vendemos todos, sete pence a penca –

Feridas de vento, espasmos da terra escura,
Com seus metais inodoros,
Chama purificando o frio pétreo da sepultura funda
Como se gelo respirasse –

Vendemos todos, para murchar.
Brotavam mais do que poderíamos colher.
Por fim, exaustos, perdemos nossa tesoura,
Que fora presente de casamento.

Desde então, todo março eles brotam de novo
Dos mesmos bulbos, o mesmo choro de bebê
Da terra a degelar,
Bailarinas a dançar ainda sem música,
A estremecer nas asas frias do ano.
No mesmo vagalhão de memória, trêmulos
Eles retornam e esquecem você, curvada
Entre cortinas de chuva num abril sombrio,
A lhes cortar os caules.

Mas em algum lugar, sua tesoura lembra. Onde quer que esteja.
Aqui, em algum lugar, as lâminas abertas,
A cada abril que passa
Ela desce mais fundo
Na terra – âncora, cruz de ferrugem.

.

DAFFODILS
Remember how we picked the daffodils?
Nobody else remembers, but I remember.
Your daughter came with her armfuls, eager and happy,
Helping the harvest. She has forgotten.
She cannot even remember you. And we sold them.
It sounds like sacrilege, but we sold them.
Were we so poor? Old Stoneman, the grocer,
Boss eyed, his blood-pressure purpling to beetroot
(It was his last chance,
He would die in the same great freeze as you),
He persuaded us. Every Spring
He always bought them, sevenpence a dozen,
'A custom of the house'.

Besides, we still weren't sure we wanted to own
Anything. Mainly we were hungry
To convert everything to profit.
Still nomads – still strangers
To our whole possession. The daffodils
Were incidental gilding of the deeds,
Treasure trove. They simply came,
And they kept on coming.
As if not from the sod but falling from heaven.
Our lives were still a raid on our own good luck.
We knew we'd live for ever. We had not learned
What a fleeting glance of the everlasting
Daffodils are. Never identified
The nuptial flight of the rarest ephemera –
Our own days!
                           We thought they were a windfall.
Never guessed they were a last blessing.
So we sold them. We worked at selling them
As if employed on somebody else's
Flower-farm. You bent at it
In the rain of that April – your last April.
We bent there together, among the soft shrieks
Of their jostled stems, the wet shocks shaken
Of their girlish dance-frocks –
Fresh-opened dragonflies, wet and flimsy,
Opened too early.

We piled their frailty lights on a carpenter's bench,
Distributed leaves among the dozens –
Buckling blade-leaves, limber, groping for air, zinc-silvered –
Propped their raw butts in bucket water,
Their oval, meaty butts,
And sold them, sevenpence a bunch –

Wind-wounds, spasms from the dark earth,
With their odourless metals,
A flamy purification of the deep grave's stony cold
As if ice had a breath –

We sold them, to wither.
The crop thickened faster than we could thin it.
Finally, we were overwhelmed
And we lost our wedding-present scissors.

Every March since they have lifted again
Out of the same bulbs, the same
Baby-cries from the thaw,
Ballerinas too early for music, shiverers
In the draughty wings of the year.
On that same groundswell of memory, fluttering
They return to forget you stooping there
Behind the rainy curtains of a dark April,
Snipping their stems.

But somewhere your scissors remember. Wherever they are.
Here somewhere, blades wide open,
April by April
Sinking deeper
Through the sod – an anchor, a cross of rust.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

UM FILMEZINHO
Foi feito não para doer,
Mas para lembrar um momento alegre,
Por gente ainda jovem demais
Para saber o que é a memória.

Agora virou uma arma perigosa, bomba-relógio,
Espécie de bomba corpórea, a longo prazo.
É só um filme, uns poucos fotogramas de você pulando,
Poucos segundos, aos dez anos, pulando ainda.

Um cinza mio turvo, misto de névoa e borrão,
Este objeto tem um estopim sutil, menos estopim
Que freqüência sintonizada, um detonador elétrico
Do que jaz no seu tumulo dentro de nós.

E a dor possível dessa explosão
É mais que a idéia do horror, é um suor sutil
Cobrindo a pele de repente, um retesar de músculos
Para uma coisa que já aconteceu.

.

A SHORT FILM
It was not meant to hurt.
It had been made for happy remembering
By people who were still too young
To have learned about memory.

Now it is a dangerous weapon, a time-bomb.
Which is a kind of body-bomb, long-term, too.
Only film, a few frames of you skipping, a few seconds,
You aged about ten there, skipping and still skipping.

Not very clear grey, made out of mist and smudge,
This thing has a fine fuse, less a fuse
Than a wavelength attuned, an electronic detonator
To what lies in your grave inside us.

And how that explosion would hurt
Is not just an idea of horror but a flash of fine sweat
Over the skin-surface, a bracing of nerves
For something that has already happened.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

APREENSÕES
A sua escrita era também o seu temor –
Às vezes seu terror – de que todos
Os seus presentes de casamento, seus sonhos, seu marido
Seriam levados de você
Pelos gnomos do terror. A sua máquina de escrever
Seria levada. Sua máquina de costura. Os seus filhos.
Tudo seria levado.
Esse medo era da cor da sua escrivaninha,
Você quase conhecia seus traços.
Sua textura era como pele, dava para acariciá-la,
Sentir seu gosto no café com leite.
Fazia um som como o da máquina de escrever.
Tinha seus próprios ídolos, onde se ocultava –
A sua sereia de terracota em cima do console.
A sua panela de cobre de fazer fondue. Sua roupa de cama.
          Suas cortinas.
Você olhava para essas coisas. Sabia que ele estava lá.
Ele escondia-se na sua caneta Schaeffer –

O lugar predileto dele. Sempre que escrevia
Você parava, no meio de uma palavra,
Para olhá-lo mais de perto, negro, gordo,
Entre os seus dedos –
O medo crescente, que a qualquer momento
Explodiria e levaria de você
Marido, filhos, corpo, vida.
Você o via ali, na sua caneta.

Também ela alguém levou.

.

APPREHENSIONS
Your writing was also your fear,
At times it was your terror, that all
Your wedding presents, your dreams, your husband
Would be taken from you
By the terror's goblins. Your typewriter
Would be taken. Your sewing-machine. Your children.
All would be taken.
The fear was the colour of your desk-top,
You almost knew its features.
That grain was like its skin, you could stroke it.
You could taste it in your milky coffee.
It made a noise like your typewriter.
It hid in its own jujus –
Your mantelpiece mermaid of terracotta.
Your coppery fondue pan. Your linen.
        Your curtains.
You stared at these. You knew it was there.
It hid in your Schaeffer pen –

That was its favourite place. Whenever you wrote
You would stop, mid-word,
To look at it more closely, black, fat,
Between your fingers –
The swelling terror that would any moment
Suddenly burst out and take from you
Your husband, your children, your body, your life.
You could see it, there, in your pen.

Somebody took that too.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

VIDA ONÍRICA
Como se ao dormir a cada noite você entrasse
Na tumba do seu pai
Você tinha medo de olhar, ou de lembrar no dia seguinte
O que tinha visto lá. Quando lembrava
Seus sonhos eram um mar coalhado de cadáveres,
Atrocidades de campo de extermínio, amputações em massa.

O seu sono era como um santuário sangrento.
A relíquia sacra
Era a perna gangrenosa e decepada de seu pai.
Não admira que você temesse o sono.
Não admira que acordasse dizendo: “Chega de sonhos.”

Qual era a liturgia
Daquele culto noturno,
Do qual você era a sacerdotisa?
Aqueles poemas eram fragmentos dele, resgatados?

Sua vigília era uma segurança atormentada
A que você tentava se apegar – sem saber
O que a havia assustado,
Nem de onde seus poemas a seguiam
Com pés grudentos de sangue. A cada noite
Eu a hipnotizava, dando-lhe
Calma, coragem, compreensão.
Ajudava? A cada noite você descia outra vez
Naquela cripta de templo,
Aquela caverna privada, primeva,
Abóbada pública do amor filial.
A noite inteira você vagava inconsciente
À beira da fenda

Inalando o oráculo
Que só prenunciava conclusões.

Membros vivos decepados.
Fumaça de incinerador de hospital
Mendigos de feira com pernas decepadas,
Câmara de gás e o forno
Da guerra cinematográfica – tudo isso
Era a anatomia do seu Deus do Sono,
Olhos azuis com eletrodos insones
Nas suas têmporas

A preparar sua Festa da Expiação.

.

DREAM LIFE
As if you descended in each night's sleep
Into your father's grave
You seemed afraid to look. or to remember next morning
What you had seen. When you did remember
Your dreams were of a sea clogged with corpses,
Death-camp atrocities, mass amputations.

Your sleep was a bloody shrine, it seemed.
And the sacred relic ofit
Your father's gangrenous, cut-off leg.
No wonder you feared sleep.
No wonder you woke, saying: 'No dreams.'

What was the liturgy
Of that nightly service, that cult
Where you were the priestess?
Were those poems your salvaged fragments of it?

Your day-waking was a harrowed safety
You tried to clirig to – not knowing
What had frightened you
Or where your poetry followed you from
With its blood-sticky feet. Each night
I hypnotized calm into you,
Courage, understanding and calm.
Did it help? Each night you descended again
Into the temple-crypt,
That private, primal cave
Under the public dome of father-worship.
All night you lolled unconscious
Over the crevasse

Inhaling the oracle
That spoke only conclusions.

Hackings-off of real limbs,
Smoke of the hospital incinerator,
Carnival beggars on stumps,
The gas-chamber and the oven
Of the camera's war – all this
Was the anatomy of your God of Sleep,
His blue eyes – the sleepless electrodes
In your temples

Preparing his Feast of Atonement.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

LUZ PERFEITA
Eis você, em toda a sua inocência,
Sentada entre os narcisos, como se posasse
Para um retrato intitulado “Inocência”.
A luz perfeita no seu rosto o ilumina
Como um narciso. Como um daqueles narcisos,
Seria seu único abril sobre a terra
Entre os narcisos. Nos seus braços,
Feito um urso de pelúcia, o seu segundo filho,
Poucas semanas de vida inocente.
Mãe e filho, como a Sagrada Família.
E ao seu lado, rindo para você,
A sua filha, dois anos recém-feitos. Como um narciso
Você vira o rosto para ela, dizendo algo.
Suas palavras se perderam na câmara.
                                                              E o conhecimento
Dentro do outeiro onde você está sentada,
Cercado de uma vala, feito um forte, maior que a sua casa,
Não alcançou a foto. E o seu momento seguinte,
Vindo a você como um soldado de infantaria
A retornar lentamente da terra de ninguém,
Arcando com algum peso, jamais chegou –
Apenas esvaiu-se nessa luz perfeita.

.

PERFECT LIGHT
There you are, in all your innocence,
Sitting among your daffodils, as in a picture
Posed as for the title: 'Innocence'.
Perfect light in your face lights it up
Like a daffodil. Like any one of those daffodils
It was to be your only April on earth
Among your daffodils. In your arms,
Like a teddy bear, your new son,
Only a few weeks into his innocence.
Mother and infant, as in the Holy portrait.
And beside you, laughing up at you,
Your daughter, barely two. Like a daffodil
You turn your face down to her, saying something.
Your words were lost in the camera.
                                                           And the knowledge
Inside the hill on which you are sitting,
A moated fort hill, bigger than your house,
Failed to reach the picture. While your next moment,
Coming towards you like an infantryman
Returning slowly out of no-man's-land,
Bowed under something, never reached you—
Simply melted into the perfect light.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

O CAÇADOR DE COELHOS
Era maio. Como foi que começou? O que
Pôs a nu os nossos gumes? Que súbita virada
Da lâmina da lua nos levou nessa manhã, tão cedo,
A tirar sangue um do outro? O que fizera eu? Algum
Mal-entendido. Inacessível
Em sua fúria de dibuk, você jogou
No carro as crianças e partiu. Com certeza
Planejáramos algum passeio
A algum lugar na costa, uma viagem de família –
E assim você saiu com o carro.
                                                    Lembro
Pensar: Ela vai fazer uma loucura. À força
Abria porta e sentei-me ao seu lado.
Seguimos para o oeste. Oeste. Estradas estreitas
Da Cornualha, lembro, uma trégua tensa,
Você olhando fixamente, olhar de ferro,
Para alguma remota paisagem destruída
De alguma guerra imaginária. Eu simplesmente
A acompanhava, carregava crianças,
Esperava que você voltasse ao normal.
Tentamos encontrar a costa. Você
Deblaterava contra a ganância dos ingleses,
Mania de cercar todos os acessos à costa,
Escondendo o mar das estrelas, de todo o interior.
Chegando, execrou a imundície de nossas praias.
Aquele dia era das fúrias. Vasculhei o mapa,
Investigando fazendas e reinos privados.
Por fim, uma passagem. Era um dia limpo,
Em pleno maio. Eu comprara comida em algum lugar.
Atravessamos um campo, recebemos nos rostos
O sopro azul da brisa marinha. Penhasco coberto de tojos,
Sarças, ravinas densas de carvalhos. Encontramos

Um nicho quase no alto do penhasco.
Achei o lugar perfeito. Você alimentava as crianças
Com sua carranca germânica, áspera como um elmo,
Intraduzível. Perplexo, eu assistia a tudo
Feito uma mosca pousada do outro lado da vidraça
Do meu próprio drama familiar. Você não quis ficar deitada,
Indolente, idéia detestável.
Aquele prato chato varrido de ventos não era um oceano.
Você cismou de ir embora, e foi. E eu
Segui atrás, como um cachorro, costeando a beira do penhasco,
Atravessando um bosque de carvalhos emaranhado pelo vento –
E encontrei uma armadilha.
Brilho de fio de cobre, corda parda, engenho humano,
Recém-armada. Sem dizer palavra
Você a destruiu e a lançou no mato.
Fiquei pasmo. Fiel
Aos meus deuses rurais – vi
A profanação de uma sagrada armadilha.
Você viu dedos rudes, sangue nas cutículas,
Em torno de um caneco de cerveja. Eu via
Pobreza rural tentando garantir
O almoço de domingo. Você via os olhos tenros
Da vítima indefesa, eu via uma prática
Sacramentada pelo costume. Você via as armadilhas
E as destruía uma por uma, lançando-as
Entre as árvores. Eu vi você arrancando
Brotos precários, preciosos, da minha tradição,
Concessões conseguidas a duras penas,
Ao preço de enforcamentos e degredos,
Para poder viver da terra. Você gritava: “Assassinos!”
E chorava, com uma raiva
Que pouco se importava com os coelhos. Presa
Num cubículo, ansiando por ar,
Você estava fora de meu alcance, eu não conseguia ouvi-la,
Muito menos entendê-la.
                                           Naquelas armadilhas
Você pegara algo.
Seria alguma coisa em mim, noturna
E por mim desconhecida? Ou seria
Seu próprio eu, condenado, torturado, chorando
E sufocando? Fosse o que fosse,
Os dedos terríveis, hipersensíveis
Dos seus versos se fecharam em torno dela e
Sentiram-na viva. Os poemas, como vísceras ainda quentes,
Desceram suaves sobre as suas mãos.

.

THE RABBIT CATCHER
It was May. How had it started? What
Had bared our edges? What quirky twist
Of the moon’s blade had set us, so early in the day,
Bleeding each other? What had I done? I had
Somehow misunderstood. Inaccessible
In your dybbuk fury, babies
Hurled into the car, you drove. We surely
Had been intending a day’s outing,
Somewhere on the coast, an exploration —
So you started driving.
                                        What I remember
Is thinking: She’ll do something crazy. And I ripped
The door open and jumped in beside you.
So we drove West. West. Cornish lanes
I remember, a simmering truce
As you stared, with iron in your face,
Into some remote thunderscape
Of some unworldly war. I simply
Trod accompaniment, carried babies,
Waited for you to come back to nature.
We tried to find the coast. You
Raged against our English private greed
Of fencing off all coastal approaches,
Hiding the sea from roads, from all inland.
You despised England’s grubby edges when you got there.
The day belonged to the furies. I searched the map
To penetrate the farms and private kingdoms.
Finally a gateway. It was a fresh day,
Full May. Somewhere I’d brought food.
We crossed a field and came to the open
Blue push of sea-wind. A gorse cliff,
Brambly, oak-packed combes. We found
An eyrie hollow, just under the cliff-top.
It seemed perfect to me. Feeding babies,
Your Germanic scowl, edged like a helmet,
Would not translate itself. I sat baffled.
I was a fly outside on the window-pane
Of my own domestic drama. You refused to lie there
Being indolent, you hated it.
That flat, draughty plate was not an ocean.
You had to be away and you went. And I
Trailed after like a dog, along the cliff-top field-edge,
Over a wind-matted oak-wood —
And I found a snare.
Copper-wire gleam, brown cord, human contrivance,
Sitting new-set. Without a word
You tore it up and threw it into the trees.

I was aghast. Faithful
To my country gods — I saw
The sanctity of a trapline desecrated.
You saw blunt fingers, blood in the cuticles,
Clamped around a blue mug. I saw
Country poverty raising a penny,
Filling a Sunday stewpot. You saw baby-eyed
Strangled innocents, I saw sacred
Ancient custom. You saw snare after snare
And went ahead, riving them from their roots
And flinging them down the wood. I saw you
Ripping up precarious, precious saplings
Of my heritage, hard-won concessions
From the hangings and transportations
To live off the land. You cried: ‘Murderers!’
You were weeping with a rage
That cared nothing for rabbits. You were locked
Into some chamber gasping for oxygen
Where I could not find you, or really hear you,
Let alone understand you.
                                            In those snares
You’d caught something.
Had you caught something in me,
Nocturnal and unknown to me? Or was it
Your doomed self, your tortured, crying,
Suffocating self? Whichever,
Those terrible, hypersensitive
Fingers of your verse closed round it and
Felt it alive. The poems, like smoking entrails,
Came soft into your hands.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

O DEUS DAS ABELHAS
Quando você pediu abelhas, nem sonhei
Que era porque seu pai emergia do poço.

Limpei a velha colmeia, você pintou-a
De branco, com flores e corações vermelhos, e azulões. 

Assim, você virou a abadessa
Do convento das abelhas.

Mas quando você punha os alvos paramentos,
O véu, as luvas, eu não a imaginei noiva.

Naquele maio, no pomar, naquele verão, os castanheiros
Quentes, trêmulos, se inclinavam sobre nós,

Suas mãos imensas, enluvadas, renovando
A oferta que eu nunca soube aceitar.

Você, porém, se debruçava sobre as abelhas
Como se debruçava sobre o pai.

Sua página, um enxame escuro
Aglomerado sob a flor iluminada.

Você e seu pai, ali no meio de tudo,
Pesando no seu pescoço esguio.

Vi que eu lhe dera uma coisa
Que a levara embora numa nuvem de guturais –

A nuvem negra dos seus novos eus
A cultivar seu halo dourado.

Você não queria que eu fosse, mas as suas abelhas
Tinham vontade própria.

Você queria o mel, queria aquelas flores grandes
Coalhadas como colostro, e frutas que eram tal qual bebês.

Mas as abelhas davam ordens geométricas –
Os planos de seu pai eram prussianos.

Quando a primeira abelha tocou-me os cabelos
Você olhava para dentro da caverna do trovão.

Essa que foi à frente embrenhou-se, esforçou-se, picou –
E, atingiu o alvo.

E eu sai feito um coelho lebre baleado
Entre os projeteis a zumbir ao sol

Enquanto elas lançavam seus volts, seus eletrodos latejantes,
Bem no alvo.

Seu rosto queria me salvar
Do que fora decidido.

Você correu a mim, despindo o véu de sonhos
E as luvas à prova de fantasmas,

Mas ao parar onde eu julgava estar seguro,
Arrancando dos cabelos

Abelhas grudentas e evisceradas,
Uma única abelha, como uma flecha cega,

Veio voando do alto da casa
E se pregou à minha testa, chamando tropas de reforço

Quem logo vieram –
Fanáticas pelo Deus delas, o Deus das abelhas,

Surdos aos seus apelos como as estrelas fixas
No fundo do poço.

.

THE BEE GOD
When you wanted bees I never dreamed
It meant your Daddy had come up out of the well.

I scoured the old hive, you painted it,
White, with crimson hearts and flowers, and bluebird

So you became the Abbess
In the nunnery of the bees.

But when you put on your white regalia,
Your veil, your gloves, I never guessed a wedding.

That Maytime, in the orchard, that summer,
The hot, shivering chestnuts leaned towards us,

Their great gloved hands again making their offer
I never know how to accept.

But you bowed over your bees
As you boired over your Daddy.

Your page a dark swarm
Clinging under the lit blossom.

You and your Daddy there in the heart of it,
Weighing your slender neck.

I saw I had given you something
That had carried you off in a cloud of gutturals –

The thunderhead of your new selves
Tending your golden mane.

You did not want me to go but your bees
Had their own ideas.

You wanted the honey, you wanted those big blossoms
Clotted like first milk, and the fruit like babies.

But the bees' orders were geometric –
Your Daddy's plans were Prussian.

When the first bee touched my hair
You were peering into the cave of thunder.

That outrider tangled, struggled, stung –
Marking the target.

And I was flung like a headshot jackrabbit
Through sunlit whizzing tracers

As bees planted their volts, their thudding electrodes,
In on their target.

Your face wanted to save me
From what had been decided.

You rushed to me, your dream-time veil off,
Your ghost-proof gloves off,

But as I stood there, where I thought I was safe,
Clawing out of my hair

Sticky, disembowelled bees,
A lone bee, liked a blind arrow,

Soared over the housetop and down
And locked onto my brow, calling for helpers

Who came –
Fanatics for their God, the God of the Bees,

Deaf to your pleas as the fixed stars
At the bottom of the well.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

IMITAÇÃO DE CRISTO
Você não queria imitar Cristo. Embora o seu pai
Fosse o seu Deus e não houvesse outro, você não
Queria imitar Cristo. Embora você caminhasse
No amor do seu pai. Embora você visse
A sua mãe como uma estranha.
Por que ela a procurava
Senão para afastá-la do seu pai?
Quando os grandes olhos dela se baixavam,
Uma lua tão próxima
A prometer a terra, você via
O seu destino, e exclamava
Afasta-te de mim. Você não queria
Imitar Cristo. Você queria
Estar com o seu pai
Onde ele estivesse. E o seu próprio corpo
Era um obstáculo. E a sua família
Quem era sangue do seu sangue
Era também um fardo. E um deus
Que não fosse seu pai
Era um deus falso. Mas você não
Queria imitar Cristo.

.

BEING CHRISTLIKE
You did not want to be Christlike. Though your father
Was your God and there was no other, you did not
Want to be Christlike. Though you walked
In the love of your father. Though you stared
At the stranger your mother.
What had she to do with you
But tempt you from your father?
When her great hooded eyes lowered
Their moon so close
Promising the earth you saw
Your fate and you cried
Get thee behind me. You did not
Want to be Christlike. You wanted
To be with your father
In wherever he was. And your body
Barred your passage. And your family
Who were your flesh and blood
Burdened it. And a god
That was not your father
Was a false god. But you did not
Want to be Christlike.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

A PRAIA
Você queria soltar-se, como uma enguia em novembro.
Precisava do mar. Sobre as praias de Westcountry
Eu sabia pouco mais do que você.
Estamos cercados, disse eu, por praias magníficas.
Você já vira os penhascos – aquela encosta recortada e torta
Perto de Hartland, onde colhemos amoras
Na primeira semana sonâmbula de seu êxtase
Com o seu irmão. Mas agora você precisava de uma praia
Como se ansiasse por uma droga. A abstinência de subcorrentes
A cegava, sufocava. Escurecia a escuridão já escura.
Como era imunda a Inglaterra!  Só mesmo o mar
Para areá-la. Os sais do oceano purgariam você.
Você queria ser lavada, areada, quarada.
Aquela "jóia na cabeça" – a extensão trovejante, luminosa
De espuma em Nauset. O desproposito de caranguejos
E corrupios. Como ânsia de oxigênio,
Você sonhava antigos verões americanos, a pele negra de sol –
Alguma profecia perdida em algum lugar. A Inglaterra
Era tão pobre! Seria a tinta preta mais barata? Por que eram pretos
Todos os carros ingleses? Para esconder a sujeira?
Ou para serem respeitáveis, como os chapéus-coco
E os guarda-chuvas? Todo veículo era um carro fúnebre.
O trânsito, um remanescente silencioso
Do interminável enterro de Vitória –
O funeral da cor, da luz, da vida!
Londres, morgue de imundice inglesa.
Nossa única forma de arte nativa – o depressionismo!
E por que todo mundo usava roupas
Deliberadamente encardidas?
Sujas a ponto de parecer camuflagem? "Ah,
Não nos recuperamos", expliquei, "das trincheiras,
Dos trajes de combate, dos abrigos antiaéreos. "

Porém eu me lembrava do choque inicial
De ver a borda de Manhattan a rodar
Do tombadilho do Queen Elizabeth –
Um carrossel de automóveis americanos.
Por toda parte a grande flor da liberdade!
O beija-flor de luz na retina!
Então a dor estranha, vergonhosa, de acordar
Da hibernação da guerra, tolhido, despindo
Meu hábito – a privação envergada
Com o orgulho besta de uma praça desmobilizada,
Convalescência de quem ainda não voltou ao mundo.

Agora eu queria lhe mostrar uma praia
Que instalasse uma outra jóia na sua cabeça,
E a elevasse, como um leve choque elétrico,
A uma Inglaterra bem diversa –
Um Avalon cuja faixa de freqüência eu detinha
Como um cristal no fundo da cabeça.

Não sei por quê, optei por Woolacombe Sands.
Eu já vira essa extensão de espuma enevoada,
Mas só do outro lado da baía, do promontório Baggy,
Onde o falcão subia, o tubarão mergulhava,
A foca surgia, e o brilho do mar
Era franzido, plissado, bordado
No pondo de cruz da flora do rochedo –
Original brilhante das miniaturas de Hilliard.

Você entrou em crise no final do dia. Chegamos à tardinha
Após uma hora enevoada num aguaceiro de novembro
Com carros negros espirrando água na pista esburacada.
A chuva cessara. Três ou quatro outros carros
Aguardavam vultos a pé – remotos, envoltos em capas.
A iluminação do estacionamento dava o toque final de desânimo.
O mar, aparvalhado após a chuva, remexia-se, próximo,
Desenxabido. No céu
Os destroços do poente, de um azul quase negro, desabavam lentamente,
Inóspitos como uma estufa fria,
Em meio às cinzas mortas
De uma ruína sem telhado. Você não quis sair do carro.
Inacessível, por trás da sua máscara,
Você contemplava o oceano traidor.
Andei até a água. Uma onda chocha
Ergueu-se um pouco e espatifou-se. E com um silvo débil
Cuspiu bolas negras de óleo e detritos indistintos.

Era isso, pois, o inverso da deslumbrante Nauset.
O outro lado da moeda – avesso de um oceano que caíra
Com a face do sonho para baixo. A meus pés, em meio à espuma,
A outra face, a real, me contemplava.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

THE BEACH
You lashed for release, like a migrant eel in November.
You needed the sea. I knew not much more
About Westcountry beaches thaN you did.
We are surrounded, I said, bu magnificent beaches.
You'd seen the cliffs - a slashed and titled gorge
Near Hartland, where we'd picked blackberries
That first somnambulist week of your ecstasy
With your brother. But now you needed a beach
Like your drug. Your undertow withdrawal
Blinded and chocked you. It darkened a darkness darker.
England was so filthy! Only the sea
Could scour it. Your ocean salts would scour you.
You wanted to be washed, scoured, sunned.
That 'jewel in the head' - your flashing thunderclap miles
Of Nauset surf. The slew of horse-shoe crabs
And sand-dollars. You craved like oxygen
American earlier summers, yourself burnt dark -
Some prophecy mislaid, somehow. England
Was so poor! Was black paint cheaper? Why
Were English cars all black - to hide the filth?
Or to stay respectable, like bowlers
And umbrellas? Every vehicle a hearse.
The traffic procession a hushing leftover
Of Victoria's perpetual funeral Sunday -
The funeral of colour and light and life!
London a morgue of dinge - English dinge.
Our sole indigenous art-form - depressionist!
And why were everybody's
Garments so deliberately begrimed?
Grubby-looking, like camouflage? 'Alas!
We have never recovered,' I said, 'from our fox-holes,
Our trenches, our fatigues, and our bomb-shelters.'

But I remembered my shock of first sighting
The revolving edge of Manhattan
From the deck of the Queen Elizabeth -
That merry-go-round palette of American cars.
Everywhere the big flower of freedom!
The humming-bird of light at the retina!
Then the weird shameful pain of uncrumpling
From wartime hibernation, cramped, unshucking
My utility habit - deprivation
Worn with the stupid pride of demob outfit,
A convalescence not quite back into the world.

Now I wanted to show you such a beach
Would set inside your head another jewel,
And lift you like the gentlest electric shock
Into an altogether other England -
An Avalon for which I had the wavelength,
Deep inside my head a little crystal.

For some reason I'd fixed on Woolacombe Sands.
I had seen that mile of surf in its haze
But only across the bay from Baggy headland
here the peregrine went over and the shark under,
And the seal came in, and the sea-flash
Was gathered and crimped, tucked and crewelled
Into the needlework by the cliff-top flora -
A brilliant original for Hilliard's miniatures.

Your crisis came late in the day. It was dusk when we got there
After a steamed-up hour of November downpour
And black cars sploshing through pot-hole puddles.
The rain had stopped. Three or four other cars
Waited for walkers - distant and wrapped in their dowds.
A car-park streetlamp made the whole scene hopeless.
The sea moved near, stunned after the rain,
Unperforming. Above it
The blue-black heap of the West collapsed slowly,
Comfortless as a cold iron stove
Standing among dead cinders
In some roofless ruin. You refused to get out.
You sat behind your mask, inaccessible -
Staring towards the ocean that had failed you.
I walked to the water's edge. A dull wave
Managed to lift and flop. Then a weak hiss
Rolled black oil-balls and pushed at obscure spewage.

So this was the reverse of dazzling Nauset.
The flip of the coin - the flip of an ocean fallen
Dream-face down. And here, at my feet, in the suds,
The other face, the real, staring upwards.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

SONHADORES
Não fomos nós que a achamos – ela nos encontrou.
Pelo faro. Seu Fado
Farejou o nosso rastro
E nos juntou, como quem combina ingredientes
Para um experimento. Sua Fábula
Requisitou você, e a mim, e a ela própria,
Títeres para um espetáculo.

Ela fascinou você. Os olhos dela a acariciavam,
Vertiam para você um brilho lacrimoso.
Naquela voz de joalheira de Kensington
Havia um toque de alemão, a subcorrente oculta
Do seu sussurro ancestral da Floresta Negra –
Com uma suavidade untuosa de campo de extermínio.
Quando ela de repente arregalou os olhos,
Protuberantes, estrangulados, você ficou chocada.
Era surpresa fingida.
Mas nela você viu mulheres enforcadas, sufocando-se,
E quando ela a escutava, vendo-a através da fumaça,
A íris cinza, de contorno negro, um pouco sinistra,
Era um lobo da Floresta Negra, filha de bruxa
Saída de um conto de Grimm.

Cautelosa, você a cultivou,
Seu lado judeu, sua beleza de muitos sangues,
Como se fosse ela o sonho do seu eu sonhado,
Negrume reluzente, jóia mística da Europa.
Criatura vinda de além do lado da sua luminária de leitura.
Quem era essa Lilith de abortos
A tocar os cabelos dos seus filhos
Com unhas tigradas?
Com sua impostação da Harrod`s, mutilações de Hitler,
Ela fazia-lhe companhia, limpando a horta de cebolas.
Um sabra veterana da Juventude Hitlerista. O pai
Era médico do Balé Bolshoi.

Também ela era impotente.
Nenhum de nós conseguiu despertar.
O pesadelo contemplava as papoulas.
Úmida de rímel de fuligem,
Com suas sedas cor de chama e pulseiras de ouro,
Ligeiramente imunda de mistério erótico –
Uma germânica
Israelense russa com olhar demoníaco
Entre cortinas de cabelos negros de mongol.

Após uma única noite em nossa casa
Ela contou seu sonho. Um peixe gigante, um lúcio,
Tinha um olho redondo, dourado, e dentro dele
Um feto humano latejava –
Você sentiu espanto, e talvez também inveja.

Recusei-me a interpretar. Vi
Que a sonhadora dentro dela
Se apaixonou por mim, sem que ela soubesse.
Nesse momento, o sonhador em mim
Se apaixonou por ela, e eu sabia.

.

DREAMERS
We didn’t find her – she found us.
She sniffed us out. The Fate she carried
Sniffed us out
And assembled us, inert ingredients
For its experiment. The Fable she carried
Requisitioned you and me and her,
Puppets for its performance.

She fascinated you. Her eyes caressed you,
Melted a weeping glitter at you.
Her German the dark undercurrent
In her Kensington jeweller’s elocution
Was your ancestral Black Forest whisper –
Edged with a greasy, death-camp, soot-softness.
When she suddenly rounded her eyeballs,
Popped them, strangled, she shocked you.
lt was her mock surprise.
But you saw hanged women choke, dumb, through her,
And when she listened, watching you, through smoke,
Her black-ringed grey iris, slightly unnatural,
Was Black Forest wolf, a witch’s daughter
Out of Grimm.

Warily you cultivated her,
Her Jewishness, ser many-blooded beauty,
As if your dream of your dream-self stood there,
A glittering blackness, Europe’s mystical jewel.
A creature from beyond the fringe of your desk-lamp.
Who was this Lilith of abortions
Touching the hair of your children
With tiger-painted nails?
Her speech Harrods, Hitlers mutilations
Kept you company, weeding the onions.
An ex-Nazi Youth Sabra. Her father
Doctor to the Bolshoi Ballet.

She was helpless too.
None of us could wake up.
Nightmare looked out at the poppies.
She sat there, in her soot-wet mascara,
In flame-orange silks, in gold bracelets,
Slightly filthy with erotic mystery –
A German
Russian Israeli with the gaze of a demon
Between curtains of black Mongolian hair.

After a single night under our roof
She told her dream. A giant fish, a pike
Had a globed, golden eye, and in that eye
A throbbing suman foetus –
You were astonished, maybe envious.

I refused to interpret. I saw
The dreamer in her
Had fallen in love with me and she did not know it.
That moment the dreamer in me
Fell in love with her, and I knew it.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

O MELRO
Você era carcereira do seu assassino –
E portanto prisioneira.
E sendo eu seu protetor e enfermeiro
Também era minha a pena.

Você fingia sentir-se protegida.
Eu a alimentava
Sob o seu olhar modorrento, olhar
De criança amamentada.

Você atiçava a ira do prisioneiro
Pela fenda da fechadura –
Depois subia de um salto só
A escada curva e escura.

Rostos enormes ardiam à janela.
Você exclamou: “Olha!”
Apontando para um melro que arrancava
Da terra uma minhoca.

A grama era um papel em branco aguardando
Um relatório de prisão.
Quem escreveria o quê, nesta página,
Isso eu não sabia, não.

A fera rondava a porta da fornalha
Com sua garra de diabo.
Era a pena da caneta, a escrever:
Errado é certo, certo é errado.

.

THE BLACKBIRD
You were the jailer of your murderer –
Which imprisoned you.
And since I was your nurse and your protector
Your sentence was mine too.

You played at feeling safe. As I fed you
You ate and drank and swallowed
Sliding me sleepy looks, like a suckling babe,
From under your eyelids.

You fed your prisoner's rage, in the dungeon,
Through the keyhole –
Then, in a single, stung bound, came back up
The coiled, unlit stairwell.

Giant poppy faces flamed and charred
At the window. 'Look!'
You pointed and a blackbird was lugging
A worm from its bottleneck.

The lawn lay like the pristine waiting page
Of a prison report.
Who would write what upon it
I never gave a thought.

A dumb creature, looping at the furnace door
On its demon's prong,
Was a pen already writing
Wrong is right, right wrong.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

BRASÍLIA
Você voltou
Com seu elmo de aço. Indefesos
Fomos levados à força ao tribunal, à sua arena,
Amordaçados no silêncio.
Risos contidos de horror
E a gota de suor no sulco da espinha.
Você pronunciou
As três sentenças. Sequer um sussurro
No silêncio.
O seu grande amor falara.
Só mesmo o crime mais horrível
Teria merecido
A lâmina de relâmpago
Que então desceu. Ofuscados,
Todos tossiam no ozônio.
Até os cães se estarreceram. E o mesmo raio
Arrebatou você  para o Céu.
Alguns criados lá do Coliseu
Carregaram o corpo do seu pai.
Outro leva a cabeça dele. A sua mãe
Sai trôpega, para o espanto geral, carregando
Sua própria cabeça.
Outros carregam a mim e a minha.

E desde então, por todo o seu império,
Tal como o espectro maternal que toda noite
Carpia pelas ruas de Tenochtitlán
Pouco antes de Cortés a destruir –
Suas efígies gritam do alto de seus plintos,
De olhos secos. Sem lágrimas, os seus retratos
Choram nos livros.

.

BRASILIA
You returned
In your steel helm. Helpless
We were dragged into court, your arena,
Gagged in the hush.
Titterings of horror
And the bead of sweat in the spine’s furrow.
You delivered
The three sentences. Not a whisper
In the hush.
Your great love had spoken.
Only the most horrible crime
Could have brought down
The blade of lightning
That descended then. Dazzled,
All coughed in the ozone.
Even the dogs were stunned. And the same flash
Snatched you up into Heaven.
Some Colosseum flunkeys
Carry out your father’s body.
Another carries his head. Your mother
Stands, and to huge amazement
Staggers out, carrying her own head.
Other flunkeys carry me and mine.

Every day since, throughout your Empire,
Like the motherly wraith who nightly
Wailed through the streets of Tenochtitlán
Just before Cortés ended it –
Your effigies cry out on their plinths,
Dry-eyed. Your portraits, tearlessly,
Weep in the books.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

A ESTÁTUA
Teu pai voltara para ouvir
Tudo que você tinha contra ele.
Ficou perplexo. Onde você
Arranjou essas palavras senão
Nos ferrões das abelhas? Para os outros,
O mel. Para ele, o arco de Cupido
Modificado em Peenemünde
Via Brueghel. Inerme
E inerte, mudo e morto,
Teve que ouvir aquilo tudo
Sendo cravado nele até as pernas.
E suportar não a estaca
Cravada no peito, e sim o poste
Na praça central, nele amarrado,
Nu em pêlo, peito crivado de flechas
No bronze da poesia imorredoura.

Assim, o seu grito de libertação
Concretizou-se no seu pai
Como silêncio e sacrifício. Cada flecha
Pregava nele uma estrela
Da sua constelação. Uma arma
Dentada e gigantesca –
A estátua dele, distorcida
Como um estilhaço de granada
Tirado da velha ferida. Rejeitada
Pelo seu corpo. Seu pai
Um fardo enfim largado. As suas palavras
Feito fagócitos ferozes, a libertar você
Da dor insuportável.
Você, curada, desapareceu
Da forma imortal,
Monumental,
Da sua chaga: o corpo do seu pai
Cheio de flechas suas. Mas era seu também
O sangue que secava sobre ele.

.

THE CAST
Daddy had come back to hear
All you had against him. He
Could not believe it. Where
Did you get those words if not
In the tails of his bees? For others
The honey. For him, Cupid's bow
Modified in Peenemünde
Via Brueghel. Helpless
As weightless, voiceless as lifeless,
He had to hear it all
Driven into him up to the feathers,
He had to stand the stake
Not through his heat, but upright
In the town square, him tied to it
Stark naked full of those arrows
In the bronze of immortel poesy.

So your cry of deliverance
Materialized in his
Sacrificed silence. Every arrow
Nailing him there a star
In your constellation. The giant
Chunk of jagged weapon –
His whole distorted statue
Like a shard of shrapnel
Eased out of yor old wound. Rejected
By your body. Daddy
No long to be borne. Your words
Like phagocytes, ridding you with a roar
Of the heavy pain.
Healed you vanished
From the monumental
Immortal form
Of your injury: your Daddy's
Body full of your arrows. Though it was
Your blood that dried on him.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

A VENTRÍLOQUA
Nos abraçamos corpo a corpo
      E embolados caímos.
No quarto escuro, sua boneca
      Acordou com um grito.

Eu corria, você no meu colo,
      Por um bosque medonho.
A boneca gritava para o mundo:
      Papai era um monstro.

Você soluçava em meu ombro,
      Eu cruzando o rio a tiritar.
A boneca exibiu a sua mãe –
      O monstrengo do fim do mar.

Você deitada na cama,
      E eu à porta trancada, à escuta.
No telhado, a boneca gritava
      Que eu estava com uma puta.

À noite, a boneca entrou à força,
      Matou você e, satisfeita,
Bradou aos céus que por fim
      A justiça fora feita.
.

THE VENTRILOQUIST
We caught each other by the body
     And fell in a heap.
Your doll in the dark bedroom woke
     With her scream a whip.

With your arms around my neck
     I ran through a thorny wood.
The doll screamed after us, to the world,
     Daddy was no good.

You sobbed against my chest.
     I waded the river’s freeze.
The doll had put your Mummy on show —
     The Kraken of the seas.

As you lay on the bed
     I leaned to lock the door.
The doll sat on the roof and screamed
     I was with a whore.

The doll broke in that night
     Killed you and was gone
Screaming at the stars to look
     And see Justice done.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

VIDA APÓS A MORTE
O que posso lhe dizer que você não saiba
Sobre a vida após a morte?

Os olhos do seu filho, que nos preocuparam
Com o epicanto eslavo e asiático
Tal como você, mas que viriam a se tornar
Tão perfeitamente os seus olhos,
Viravam jóias úmidas,
Dura substância da mais pura dor,
Quando eu lhe dava de comer na cadeirinha alta.
As garras enormes da angústia retorciam
O pano úmido de seu rosto, espremendo lágrimas.
Mas a boca traía você – aceitando
A colher na minha mão desencarnada
Vinda da vida que a você sobrevivera.

A cada dia, a irmã dele se tornava
Mais e mais pálida, com a ferida
Que ela não via, não tocava nem sentia,
E que eu envolvia no casaco azul bretão.

À noite, acordado em meu corpo,
Eu era o Enforcado,
O nervo do pescoço arrancado, o tendão
Que prendia a base do meu crânio
Ao ombro esquerdo
Rasgado, duro de nódulos tensos –
Eu pensava que a explicação da dor
Era estar meu espírito pendendo
De um gancho sob o músculo do pescoço.

Ejetados da vida
Fazíamos nós três um silêncio profundo
Cada um na sua cama.

Eram os lobos que nos confortavam.
Sob a lua de fevereiro e, depois, de março,
O zoológico se aproximara.
E apesar da cidade
Os lobos nos consolavam. Duas ou três vezes por noite
Ficavam longos minutos
Cantando. Nos encontravam na cama.
E os dingos da Austrália, e os guarás do Brasil –
Todos uniram suas vozes
Às da cinzenta alcatéia boreal.

Com suas vozes prolongadas, os lobos
Nos embalavam, enredavam,
A prantear você, e a nós,
Nos envolvendo em suas vozes, nós deitados
Na sua morte, na neve já caída, a cair.

E o meu corpo afundava na velha história
Dos lobos cantando na floresta
Para dois bebês, que em pleno sono
Ficaram órfãos
Junto ao cadáver da mãe.

.

LIFE AFTER DEATH
What can I tell you that you do not know
Of the life after death?

Your son’s eyes, which had unsettled us
With your Slavic Asiatic
Epicanthic fold, but would become
So perfectly your eyes,
Became wet jewels,
The hardest substance of the purest pain
As I fed him in his high white chair.
Great hands of grief were wringing and wringing
His wet cloth of face. They wrung out his tears.
But his mouth betrayed you – it accepted
The spoon in my disembodied hand
That reached through from the life that had survived you.

Day by day his sister grew
Paler with the wound
She could not see or touch or feel, as I dressed it
Each day with her blue Breton jacket.

By night I lay awake in my body
The Hanged Man
My neck-nerve uprooted and the tendon
Which fastened the base of my skull
To my left shoulder
Torn from its shoulder-root and cramped into knots –
I fancied the pain could be explained
If I were hanging in the spirit
From a hook under my neck-muscle.

Dropped from life
We three made a deep silence
In our separate cots.

We were comforted by wolves.
Under that February moon and the moon of March
The Zoo had come close.
And in spite of the city
Wolves consoled us. Two or three times each night
For minutes on end
They sang. They had found where we lay.
And the dingos, and the Brazilian-maned wolves –
All lifted their voices together
With the grey Northern pack.

The wolves lifted us in their long voices.
They wound us and enmeshed us
In their wailing for you, their mourning for us,
They wove us into their voices. We lay in your death.
In the fallen snow, under falling snow.

As my body sank into the folk-take
Where the wolves are singing in the forest
For two babes, who have turned, in their sleep,
Into orphans
Beside the corpse of their mother.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

LIBERDADE DE EXPRESSÃO
No dia em que você faria sessenta anos,
À luz do bolo, Ariel senta-se na sua mão.
Você lhe dá de comer uvas, uma negra, a outra verde,
Saídas de seus lábios prontos para um beijo.
Por que você está tão séria? Todos riem

Como se aliviados, todos os aqui reunidos –
Amigos antigos e novos,
Escritores famosos, a sua corte de inteligências brilhantes,
E editores e doutores e professores,
Olhos pregados de riso feliz – até mesmo

As papoulas tardias riem, uma delas perde uma pétala.
Tremem os pavios das velas,
Tentando conter sua alegria. E a sua mãe
Ri em sua clínica geriátrica. Os seus filhos
Riem em lados opostos do mundo. O seu pai

Ri no fundo do caixão. E as estrelas,
Decerto as estrelas também riem às bandeiras desgarradas.
E Ariel –
Sim, e Ariel?
Ariel está feliz de estar aqui.

Só eu e você não sorrimos.

.

FREEDOM OF SPEECH
At your sixtieth birthday, in the cake’s glow,
Ariel sits on your knuckle.
You feed it grapes, a black one, then a green one,
From between your lips pursued like a kiss.
Why are you so solemn? Everybody laughs

As if grateful, the whole reunion—
Old friends and new friends,
Some famous authors, your court of brilliant minds,
And publishers and doctors and professors,
Their eyes creased in delighted laughter—even

The late poppies laugh, one loses a petal.
The candles tremble their tips
Trying to contain their joy. And your Mummy
Is laughing in her nursing home. Your children
Are laughing from opposite sides of the globe. Your Daddy

Laughs deep in his coffin. And the stars,
Surely the stars, too, shake with laughter.
And Ariel—
What about Ariel?
Ariel is happy to be here.

Only you and I do not smile.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

RETRATO DE OTTO
Você parado diante do quadro-negro: pastor
Luterano frustrado. Sua concepção
Do Céu e Terra e Inferno radicalmente
Modificada pela comuna da colmeia.

Para a sua rigidez prussiana, será um choque
Quase impossível de exprimir em poesia
Ver-se tão envolvido comigo –
Um choque e tanto, ao emergir do seu caixão

Dor de cara comigo no túnel escuro
Onde vim à procura da sua filha.
Você o julgava o mausoléu de sua família.
Jamais imaginei, por mais oculta a nossa culpa,

O seu fantasma inseparável da minha sombra, enquanto
As palavras de sua filha puderem estremecer uma chama.
No fim ela já mal conseguia distinguir-nos.
O seu retrato, aqui, podia ser o do meu filho.

Entendo – você jamais poderia libertá-la.
Eu era um mito por demais tardio para substituí-lo.
Neste submundo, amigo, o coração dela se abriga.
Inseparáveis, aqui teremos que ficar.

Tudo perdoado e em comum –
Não que eu a veja atrás de você, onde o encaro,
Mas como Owen, em seu negro poema,
Debaixo da batalha, na catacumba,

Dormindo com seu alemão como se a sós.

.

A PICTURE OF OTTO
You stand there at the blackboard: Lutheran
Minister manqué. Your idea
Of Heaven and Earth and Hell radically
Modified by the honey-bee's commune.

A big shock for so much of your Prussian backbone
As can be conjured into poetry
To find yourself so tangled with me –
Rising from your coffin, a big shock

To meet me face to face in the dark adit
Where I have come looking for your daughter.
You had assumed this tunnel your family vault.
I never dreamed, however occult our guilt,

Your ghost inseparable from my shadow
As long as your daughter's words can stir a candle.
She could hardly tell us apart in the end.
Your portrait, here, could be my son's portrait.

I understand – you never could have released her.
I was a whole myth too large to replace you.
This underworld, my friend, is her heart's home.
Inseparable, here we must remain,

Everything forgiven and in common –
Not that I see her behind you, where I face you,
But like Owen, after his dark poem,
Under the battle, in the catacomb.

Sleeping with his German as if alone.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

DEDOS
Quem há de lembrar os seus dedos?
Vivos, alados? Eles voavam
Com a luz do seu olhar.
Ao piano, arranhando sucessos dos anos quarenta.
Executavam um número por conta própria,
Fantoches cômicos. Você cuidava apenas
De guiá-los até as teclas certas.
Mas enquanto você falava, e os seus olhos
Indicavam o seu grau de entusiasmo,
Os dedos saltitavam, traçavam acrobacias aéreas.
Lembravam aves tropicais, a exibir-se
Em posturas sexuais, pulando, dando cambalhotas,
Fazendo coisas estranhas no ar, tombando à terra.
As danças dos seus excessos!
Cheios de toques ágeis, práticos – tão precisos.
Pensando seus próprios pensamentos, empurrando com carícias
O batom para os cantos dos lábios.

Esguios agentes da sua perícia,
A saltitar sobre as teclas da máquina de escrever,
Possuídos por espíritos infantis, travessos,
Fosse o que fosse que fizessem, dança ou pantomima,
Atuando num compasso generoso de espressivo.

Eu me lembro dos seus dedos. E os dedos
Da sua filha me lembram os seus
Em tudo que eles fazem.
Os dedos dela obedecem e homenageiam os seus,
Os lares e penates da nossa casa.

.

FINGERS
Who will remember your fingers?
Their winged life? They flew
With the light in your look.
At the piano, stomping out hits from the forties,
They performed an incidental clowning
Routine of their own, deadpan puppets.
You were only concerned to get them to the keys.
But as you talked, as your eyes signalled
The strobes of your elation.
They flared, flicked balletic aerobatics.
I thought of birds in some tropical sexual
Play of display, leaping and somersaulting.
Doing strange things in the air, and dropping to the dust.
Those dancers of your excess!
With such deft, practical touches – so accurate.
Thinking their own thoughts caressed like lightning
The lipstick into your mouth corners.

Trim conductors of your expertise,
Cavorting at your typewriter,
Possessed by infant spirit, puckish,
Who, whatever they did, danced or mimed it
In a weightless largesse of espressivo.

I remember your fingers. And your daughter's
Fingers remember your fingers
In everything they do.
Her fingers obey and honour your fingers,
The Lares and Penates of our house.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§

VERMELHO
O vermelho era sua cor.
Se não o vermelho, o branco. Mas era no vermelho
Que você se envolvia.
Vermelho-sangue. Seria mesmo sangue?
Ou ocre, para aquecer os mortos?
Hematita para imortalizar
Os ossos da família, legado precioso.

Quando por fim se fez a sua vontade
Ficou vermelho o nosso quarto. Um tribunal.
Escrínio fechado para jóias. Tapete de sangue
Com padrão de formas escuras, coaguladas.
As cortinas – veludo vermelho-rubi.
Torrentes de sangue puro a cair do teto.
As almofadas também. O mesmo tom
De carmesim em carne viva no poial da janela.
Uma célula a pulsar. Altar asteca – templo.

Só as estantes escapavam para o branco.

E pela janela se avistavam
Papoulas finas, frágeis, franzinas
Como pele sobre sangue,
Sálvias, das quais seu pai tirou seu nome,
Como sangue jorrando de um talho,
E rosas, últimos coágulos do coração,
Catastróficas, arteriais, condenadas.

A sua saia rodada de veludo, um lanho de sangue,
Tom generoso de borgonha.
Os seus lábios de um carmesim fundo, fendido.

Você exultava com o vermelho.
Para mim era carne viva – como as bordas
Duras feito gaze de uma ferida a cicatrizar.
Nele eu sentia a veia aberta, o brilho encrostado.

Você pintava tudo de branco, e depois
Salpicava de rosas, para derrotá-lo,
Se debruçava sobre o branco, gotejando rosas,
Chorando rosas, e mais rosas,
E por vezes, entre elas, um pequeno azulão.

O azul era melhor para você. Azul de asas.
Sedas azuis de San Francisco, cor de martim-pescador,
Envolviam sua gravidez
Em carícias de crisol.
Azul era seu espírito bom – não um espectro sinistro,
E sim um guardião, elétrico, solícito.

No abismo de vermelho
Você se ocultava do branco de osso, de hospital.

Mas era azul a jóia que você perdeu.

.

RED
Red was your colour.
If not red, then white. But red
Was what you wrapped around you.
Blood-red. Was it blood?
Was it red-ochre, for warming the dead?
Haematite to make immortal
The precious heirloom bones, the family bones.

When you had your way finally
Our room was red. A judgement chamber.
Shut casket for gems. The carpet of blood
Patterned with darkenings, congealments.
The curtains – ruby corduroy blood,
Sheer blood-falls from ceiling to floor.
The cushions the same. The same
Raw carmine along the window-seat.
A throbbing cell. Aztec altar – temple.

Only the bookshelves escaped into whiteness.

And outside the window
Poppies thin and wrinkle-frail
As the skin on blood,
Salvias, that your father named you after,
Like blood lobbing from the gash,
And roses, the heart's last gouts,
Catastrophic, arterial, doomed.

Your velvet long full skirt, a swathe of blood,
A lavish burgandy.
Your lips a dipped, deep crimson.

You revelled in red.
I felt it raw – like crisp gauze edges
Of a stiffening wound. I could touch
The open vein in it, the crusted gleam.

Everything you painted you painted white
Then splashed it with roses, defeated it,
Leaned over it, dripping roses,
Weeping roses, and more roses,
Then sometimes, among them, a little bluebird.

Blue was better for you. Blue was wings.
Kingfisher blue silks from San Francisco
Folded your pregnancy
In crucible caresses.
Blue was your kindly spirit – not a ghoul
But electrified, a guardian, thoughtful.

In the pit of red
You hid from the bone-clinic whiteness.

But the jewel you lost was blue.
- Ted Hughes em "Cartas de aniversário". [tradução de Paulo Henriques Britto]. Edição bilíngüe. Rio de Janeiro: Record, 1999.

§
Sylvia Plath, Ted Hughes and baby Frieda


Sobre o poema “A ÚLTIMA CARTA”
Inédito até 2010 (quando foi resgatado do acervo da British Library e preparado para publicação no periódico New Statesman), “A última carta” se dispõe a lidar diretamente com o suicídio de Plath. O poema evoca o derradeiro encontro entre Ted e Sylvia, ocorrido poucos dias antes da morte da poeta. De acordo com a versão nele apresentada, Sylvia teria escrito um bilhete endereçado a Ted, com possível alusão ao suicídio. Postada na manhã de sexta, a correspondência deveria ter chegado às mãos do destinatário após sua morte, mas, por obra do eficiente serviço postal inglês, acabou por ser entregue no mesmo dia. A crer na narrativa do poema, Ted teria se dirigido à casa de Sylvia, onde ela queimou o bilhete, “com um estranho sorriso”. A publicação de “A última carta” gerou grande polêmica, tanto no que diz respeito à versão dos fatos apresentada por Ted Hughes, como no que pertine à edição póstuma de textos incompletos pertencentes ao espólio de um escritor. Quer se considere verídica ou fantasiosa a narrativa de Hughes, “A última carta” é um poema que, embora incompleto, contém inegáveis qualidades imagísticas e emocionais.

A ÚLTIMA CARTA
O que aconteceu naquela noite? Tua última noite.
Dupla, tripla exposição*
De tudo. Viva eu te vi pela última vez
No cair da tarde de sexta-feira
A queimar no cinzeiro com um estranho sorriso
A carta a mim endereçada. Atrapalhei teus planos?
A surpresa chegou antes do previsto?
Minha resposta foi rápida demais?
Uma hora mais tarde e terias rumado
Para onde eu não te pudesse encontrar
E eu teria me afastado de tua porta fechada e vermelha
A que ninguém abriria
Com tua carta na mão,
Um raio que não conseguiu chegar à terra.
Isso para mim teria sido um tratamento de choque
Que se repetiria durante todo o final de semana
Quando eu a lesse ou nela simplesmente pensasse.
Isso teria reordenado meu pensamento e minha vida
O tratamento que planejavas necessitava de tempo
Não posso imaginar como
Teria suportado aquele fim de semana.
Não posso imaginar. Tinhas já tudo planejado?
Tua mensagem chegou bem depressa até mim – no mesmo dia,
Sexta à tarde, postada pela manhã.
Expediram-na os demônios que sempre prevalecem
Esse foi mais um dos lances de má sorte
Que contra ti cometeu o correio
E que se acrescentou a teu fardo. Saí rapidamente pela neve
Já azulada em fevereiro. Anoitecia em Londres.
Chorei de alívio quando abriste a porta.
Confusão de enigmas em solução. Lágrimas precoces
Que não pude interpretar, que fracassaram ao comunicar
Sua verdadeira importância. Porém, o que disseste
Sobre as cinzas ainda fumegantes dessa carta
Destruída com tanto cuidado, com tanta calma,
Permitiu que eu partisse, que eu te deixasse
Para soprares as cinzas de teu plano, do cinzeiro
Sobre o qual te debruçarias para que eu lesse
O número de telefone do médico.
Minha fuga
Converteu-se em assombração
Desesperançado e insone, com todos os sonhos exauridos.
E eu só queria tornar a capturá-los, só queria
Cair em algum lugar fora desse vazio.
Dois dias sem fazer nada. Dois dias grátis.
Dois dias fora de qualquer calendário, mas roubados
Do mundo
Para além da realidade, dos sentimentos e dos nomes.
Minha vida amorosa tomou posse. Minha entorpecida vida amorosa
Com suas duas agulhas loucas,**
Tecendo sua rosa, perfurando e puxando com força
Na tapeçaria sua tatuagem sangrenta
Em algum lugar dentro de mim, atrás de meu umbigo,
Traçando esse brasão confuso,
Duas agulhas loucas cruzando os pontos,
Escolhendo entre meus nervos
Em função de suas cores, a me remodelar
Por dentro de minha pele, uma refazendo a outra
Como uma autocaricatura,
Seu obsessivo entrar e sair. Duas mulheres
Cada uma com uma agulha.
Naquela noite
Minha Susan dellarobbia.*** Movimentei-me
Com a circunspecção
De uma chama num pavio. Toda minha fúria
Era um esforço abandonado para explodir
O velho globo sobre o qual as sombras dobram
Meu rastro denunciador de cinzas. Corri
De um lado a outro, olhando para trás, um filme invertido,
Rumo ao quê? Fomos até Rugby Street
Onde tu e eu começamos.****
Por que fomos lá? Com tantos lugares
Por que fomos lá? A perversidade
Na arte de nosso destino
Ajustou seus refinamentos para ti, para mim,
Para Susan. Jogo solitário
A que se entregava o Minotauro daquele labirinto*****
Incluindo até mesmo Helen, no apartamento térreo.
Reparaste nela: personagem para um conto.
Não a conheceste. Poucos a conheceram
A não ser através dos ouvidos e da máscara delirante
De seu cão pastor-alemão. Tu nem mesmo a viste de relance.
Apenas te encolheste
Quando o cão demente lançou seu peso
Contra a porta enquanto deslizávamos pelo corredor
E o ouvíamos a engasgar em seu infinito ódio alemão.
Naquela noite de domingo ela deixou a porta aberta
Uns poucos centímetros
Susan saudou aqueles olhos negros, o infeliz
Sobrepeso e o rosto cativante que apareceram
Por trás da corrente do trinco. A porta se fechou.
Ouvimo-la a consolar o carcereiro
Dentro de sua cela, o canil, onde, dias depois,
Ela sufocou com gás a feroz criatura e a si mesma.
Eu e Susan passamos aquela noite
Em nosso leito nupcial. Não havia visto esta cama
Desde que nela nos deitamos em nossa primeira noite.
Não a levei de volta para minha cama.
Ocorrera-me que, com o final de semana,
Poderias aparecer, uma visita surpresa.
Apareceste, para tamborilar em minha sombria janela?
Permaneci com Susan, escondendo-me de ti,
Em nosso leito nupcial – o mesmo de que
Três anos depois a levariam para morrer
Naquele mesmo hospital onde, dentro de doze horas,
Eu te encontraria morta.
Na manhã de segunda
Levei-a ao trabalho, no centro,
E então estacionei meu veículo ao norte de Euston Road
E retornei para onde o telefone me esperava.
O que aconteceu naquela noite, em tuas horas,
Ninguém o sabe, é como se nunca tivesse acontecido.
A cumulação de toda tua vida,
Como um esforço inconsciente, como um nascimento
A fazer avançar a membrana de cada lento instante
Para o interior do seguinte, ocorreu
Como se não pudesse ocorrer
Como se não estivesse ocorrendo. Quantas vezes
Tocou o telefone em meu quarto vazio,
Tu a ouvir o toque no aparelho –
E de um lado e de outro da linha a memória
De um toque de telefone a se desvanecer
Na mente, como se já morta. Conto as vezes
Que possas ter caminhado até a cabine telefônica
No final de Saint George’s Terrace.******
Ali estás sempre que olho, saindo
De Fitzroy Road,******* atravessando
Por entre as margens abarrotadas de açúcar sujo.
Em teu longo sobretudo negro
Tua trança enrolada na parte de trás do cabelo
Andas mas não consegues mover-te, ou acordar,
E já ninguém mais anda,
Andando pela balaustrada sob Primrose Hill********
Rumo à cabine telefônica nunca alcançada.
Antes da meia-noite. Depois da meia-noite. Novamente.
Novamente. Novamente. E, às raias da alvorada, novamente.
Em que posição dos ponteiros do relógio
Foi que fizeste tua última tentativa
Já bem além de minha capacidade de escutá-la, que sacudiste
O travesseiro daquela cama vazia? Uma última vez
Tocaste suavemente em meus livros e em meus papéis?
Quando cheguei o telefone dormia.
O travesseiro inocente. Meu quarto dormia,
Cheio da nívea luz matinal.
Acendi o fogo. Saquei meus papéis.
Mal tinha começado a escrever quando o telefone
Estremeceu, num alarme tagarela,
Recordando tudo. Em minha mão ele se recuperou.
E depois uma voz que soava como uma arma escolhida
Ou uma injeção medida
Friamente pronunciou as quatro palavras
No fundo de meu ouvido: “Sua esposa está morta”.

.

LAST LETTER
What happened that night? Your final night.
Double, treble exposure
Over everything. Late afternoon. Friday.
My last sight of you alive.
Burning your letter to me, in the ashtray,
With that strange smile. Had I bungled your plan?
Had it surprised me sooner than you purposed?
Had I rushed it back to you too promptly?
One hour later – you would have been gone
Where I could not have traced you.
I would have turned from your locked red door
That nobody would open
Still holding your letter,
A thunderbolt that could not earth itself.
That would have been electric shock treatment
For me.
Repeated over and over, all weekend,
As often as I read it, or thought of it.
That would have remade my brains, and my life.
The treatment that you planned needed some time.
I cannot imagine
How I would have got through that weekend.
I cannot imagine. Had you plotted it all?
Your note reached me too soon – that same day,
Friday afternoon, posted in the morning.
The prevalent devils expedited it.
That was one more straw of ill-luck
Drawn against you by the Post-Office
And added to your load. I moved fast,
Through the snow-blue, February, London twilight.
Wept with relief when you opened the door.
A huddle of riddles in solution. Precocious tears
That failed to interpret to me, failed to divulge
Their real import. But what did you say
Over the smoking shards of that letter
So carefully annihilated, so calmly,
That let me release you, and leave you
To blow its ashes off your plan – off the ashtray
Against which you would lean for me to read
The Doctor’s phone-number.
My escape
Had become such a hunted thing
Sleepless, hopeless, all its dreams exhausted,
Only waiting to be recaptured, only
Wanting to drop, out of its vacuum.
Two days of dangling nothing. Two days gratis.
Two days in no calendar, but stolen
From no world,
Beyond actuality, feeling, or name.
My love-life grabbed it. My numbed love-life
With its two mad needles,
Embroidering their rose, piercing and tugging
At their tapestry, their bloody tattoo
Somewhere behind my navel,
Treading that morass of emblazon,
Two mad needles, criss-crossing their stitches,
Selecting among my nerves
For their colours, refashioning me
Inside my own skin, each refashioning the other
With their self-caricatures,
Their obsessed in and out. Two women
Each with her needle.
That night
My dellarobbia Susan. I moved
With the circumspection
Of a flame in a fuse. My whole fury
Was an abandoned effort to blow up
The old globe where shadows bent over
My telltale track of ashes. I raced
From and from, face backwards, a film reversed,
Towards what? We went to Rugby St
Where you and I began.
Why did we go there? Of all places
Why did we got there? Perversity
In the artistry of our fate
Adjusted its refinements for you, for me
And for Susan. Solitaire
Played by the Minotaur of that maze
Even included Helen, in the ground-floor flat.
You had noted her – a girl for a story.
You never met her. Few ever met her,
Except across the ears and raving mask
Of her Alsatian. You had not even glimpsed her.
You had only recoiled
When her demented animal crashed its weight
Against her door, as we slipped through the hallway;
And heard it chocking on infinite German hatred.
That Sunday night she eased her door open
Its few permitted inches.
Susan greeted the black eyes, the unhappy
Overweight, lovely face, that peeped out
Across the little chain. The door closed.
We heard her consoling her jailor
Inside her cell, its kennel, where, days later,
She gassed her ferocious kupo, and herself.
Susan and I spent that night
In our wedding bed. I had not seen it
Since we lay there on our wedding day.
I did not take her back to my own bed.
It had occurred to me, your weekend over,
You might appear – a surprise visitation.
Did you appear, to tap at my dark window?
So I stayed with Susan, hiding from you,
In our own wedding bed – the same from which
Within three years she would be taken to die
In that same hospital where, within twelve hours,
I would find you dead.
Monday morning
I drove her to work, in the City,
Then parked my van North of Euston Road
And returned to where my telephone waited.
What happened that night, inside your hours,
Is as unknown as if it never happened.
What accumulation of your whole life,
Like effort unconscious, like birth
Pushing through the membrance of each slow second
Into the next, happened
Only as if it could not happen,
As if it was not happening. How often
Did the phone ring there in my empty room,
You hearing the ring in your receiver –
At both ends the fading memory
Of a telephone ringing, in a brain
As if already dead. I count
How often you walked to the phone-booth
At the bottom of St George’s terrace.
You are there whenever I look, just turning
Out of Fitzroy Road, crossing over
Between the heaped up banks of dirty sugar.
In your long black coat,
With your plait coiled up at the back of your hair
You walk unable to move, or wake, and are
Already nobody walking
Walking by the railings under Primrose Hill
Towards the phone booth that can never be reached.
Before midnight. After midnight. Again.
Again. Again. And, near dawn, again.
At what position of the hands on my watch-face
Did your last attempt,
Already deeply past
My being able to hear it, shake the pillow
Of that empty bed? A last time
Lightly touch at my books, and my papers?
By the time I got there my phone was asleep.
The pillow innocent. My room slept,
Already filled with the snowlit morning light.
I lit my fire. I had got out my papers.
And I had started to write when the telephone
Jerked away, in a jabbering alarm,
Remembering everything. It recovered in my hand.
Then a voice like a selected weapon
Or a measured injection,
Coolly delivered its four words
Deep into my ear: ‘Your wife is dead.’

* Na linguagem fotográfica chama-se dupla ou tripla exposição quando a película é exposta, mais de uma vez, a imagens diferentes, que se sobrepõem. Trata-se de efeito artístico que gera uma aura fantasmagórica na fotografia.
** É possível pensar que na imagem das duas mulheres com suas agulhas loucas se encontra uma alusão ao comportamento emocionalmente instável de Sylvia Plath e Assia Wevill.
*** Seria a poeta Susan Alliston, segundo Melvyn Bragg, um dos responsáveis pelo estabelecimento do texto e pela publicação do poema. O verso contém, ainda, uma possível menção à família de escultores florentinos della Robbia (Luca, Andrea e Giovanni), famosos pela graça, pela perfeição e pela sedução de suas figuras.
**** Em março de 1956, na véspera de viajar para Paris, Sylvia Plath visitou Ted Hughes, que então residia no número 18 da Rugby Street – conforme se lê no poema “18 Rugby Street”, incluído em Birthday letters, livro de poemas publicado poucos meses antes da morte do poeta.
***** A imagem da casa de Rugby Street como um labirinto também está presente no poema “18 Rugby Street”. Em certo momento, lê-se: “É mal-assombrada!/Quem entra nunca sai completamente!/Quem entra penetra um labirinto”.
****** Próximo à Primrose Hill Road, portanto dentro do perímetro evocado pela geografia sentimental do poema.
******* Sylvia Plath se matou na casa número 23 desta rua londrina. O endereço tem uma tradição literária, pois, antes de Sylvia, nele residiu o poeta W. B. Yeats.
******** Nesta região de Londres situava-se um dos endereços de Sylvia e Ted quando casados: 3 Chalcot Square. Posteriormente, já separados, Sylvia voltou a habitar nas cercanias, em Fitzroy Road.

- Ted Hughes 'Poesia, Poesia Estrangeira'. [tradução e notas de Marcus Salgado]. Academia Brasileira de Letras, Revista Brasileira nº 69, ano XVIII, outubro-dezembro, 2011. p. 278-291.


Richard Murphy, Douglas Dunn, Philipp Larkin, Ted Hughes (1970)


Stephen Spender, W. H. Auden, Ted Hughes, T. S. Eliot, and
Louis MacNeice -  1960 - photo © Mark Gerson



Ver sobre Sylvia Plath:
Sylvia Plath - reminiscência e memória



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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). Ted Hughes - poemas. Templo Cultural Delfos, abril/2018. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
____
** Página atualizada em 19.4.2018.




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