William Butler Yeats - poeta irlandês

William Butler Yeats
William Butler Yeats, mais conhecido por W.B. Yeats  nasceu em Dublin em 13 de junho de 1865 no condado de Kildare de pai irlandês e mãe anglo-irlandesa. A família era dedicada às artes (o pai e irmão eram pintores e as irmãs faziam parte do movimento Arts and Crafts) mudando-se para Londres em 1870 mas devido a razões financeiras mudaram-se para Dublin, em 1880. Yeats frequentou a escola até 1883 quando começou a escrever poesia.
Os seus primeiros poemas assim como o ensaio The Poetry of Sir Samuel Ferguson foram publicados em 1885 na Dublin University Review. Entre 1884 e 1886 ele frequentou a Metropolitan School of Arts.  As suas primeiras influencias poéticas foram inspiradas por mitos e folclore irlandeses e o seu grande modelo foi Percy Bysshe Shelley.
Quando a família regressou a Londres Yeats resolve fundar o Rhymer’s Club juntamente com Ernest Rhys em 1890. No ano de 1889 conhece Maud Gonne, uma jovem herdeira que estava envolvida com o movimentos nacionalista irlandês, a quem Yeats se declarou quatro vezes sem ser correspondido. Em 1896, Yeats foi apresentado a Lady Gregory uma apaixonada pelo nacionalismo que influenciou Yeats a focar-se em temas relacionados com a Irlanda.
Yeats, ao lado de Lady Gregory, Martyn e George Moore estabeleceu a Sociedade Nacional teatral Irlandesa e compraram um edifício em Dublin que se tornou o Abbey Theatre estreando em Dezembro de 1904. Em 1902 Yeats ajudou a fundar uma editora, Dun Emer Press, que publicaria peças de escritores ligados ao avivamento Celta. A editora mudou de nome para Cuala Press e até fechar as portas em 1946 publicou trabalhos de Yeats.
Em 1913, Yeats conheceu o poeta norte americano Ezra Pound que se tornou no secretário particular de Yeats. Através de Pound, Yeats conheceu o teatro japonês Noh que usaria como modelo dos dramas aristocráticos que desejava criar. A primeira destas peças foi At the Hawk’s Well . Por esta altura as preocupações políticas de Yeats mudaram da esfera cultural e a sua postura aristocrática mostrou uma vontade de ignorar o folclore popular. As suas inclinações políticas manifestaram-se no poema September 1913. E mais tarde, no poema Easter 1916, Yeats falha ao reconhecer os méritos dos líderes do Easter Rising por causa das suas origens humildes.
Em 1917, Yeats casou com Georgie Hyde-Lees e em 1922 foi nomeado para o Seanad Éireann onde teve um papel relevante. Como figura política ele descreveu-se como “um sorridente homem publico de 60 anos”, como pode ler-se no poema de 1927 Amongst School Children. Deixou o senado em 1928 por razões de saúde.
Apesar das sua inclinações políticas serem conhecidas como ambíguas, por um lado Yeats mostrou admiração por Mussolini, no entanto ao escrever a Pablo Neruda sobre o convite para visitar Madrid, em 1937, Yeats defendeu a República e refutou o fascismo. Em 1923, Yeats recebeu o prêmio Nobel da literatura “pela sua poesia sempre inspirada que de uma forma muito artística dá expressão ao espírito da nação.”
Nos seus últimos poemas e peças, Yeats deixa de lado os temas políticos e inspira-se no universo pessoal, incluindo os seus filhos e a experiência de envelhecer. Ele passa muito do seu tempo no estrangeiro. O autor foi muito produtivo  nos últimos anos da sua vida, e em 1938 frequenta o Abbey Theatre pela última vez para assistir à encenação da sua peça Purgatory. A sua autobiografia intitulada Autobiografias de William Butler Yeats foi publicada no mesmo ano. Vem a morrer no Hotel Idéal Séjour na França em 28 de janeiro de 1939, o último poema foi The Black Tower e no epitáfio vê-se repetido o fim de um dos seus poemas: “ Lança um olhar frio à vida, à morte; cavaleiro, passa ao lado!”
No cemitério de Sligo, onde foi enterrado foi erguida uma estátua e um memorial em sua honra.
:: Fonte: Veronica Karvat (acessado em 28.6.2016).
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"às vezes deparamos com um volume que está tão acima da média que é impossível resistir à tentação de predizer um belo futuro para seu autor"
- Oscar Wilde escreveu em 1889 sobre 'William Butler Yeats'. in: W. B. Yeats: poemas. [organização, prefácio, tradução e anotação Paulo Vizioli]. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.


William Butler Yeats
OBRA DE W. B. YEATS EM PORTUGUÊS
Poesia
:: Poemas de W. B. Yeats. [organização, introdução e tradução Péricles Eugênio da Silva]. São Paulo: Art Editora, 1987.
:: Poemas. W. B. Yeats. [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Edição bilíngue. Coleção Gato Maltês, 18. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988.
:: W. B. Yeats: poemas. [organização, prefácio, tradução e notas Paulo Vizioli]. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.
:: W.B.Yeats: uma antologia. [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Lisboa-Portugal: Editora Assírio & Alvim, 1996.
:: Tudo que vive é sagrado, William Yeats & D H Lawrence. [tradução Mário Alves Coutinho]. Belo Horizonte: Crisálida, 2001.
:: Os pássaros brancos e outros poemas. W. B. Yeats. [tradução Maria de Lourdes Guimarães e Laureano Silveira]. Lisboa: Relógio d'Água, 2012.

Teatro
:: Teatro. William Butler Yeats. [tradução Paulo Mendes Campos]. Coleção dos Prêmios Nobel de Literatura. Editora Delta, 1963; Editora Opera Mundi, 1973.

Ensaio
:: Uma visão. W. B. Yeats. ensaio. [tradução Ana Luísa Faria]. Lisboa: Relógio D’Água, 1994. 
:: Ouvir o incenso: introduções e ensaios. W. B. Yeats. [tradução Cecília Rego Pinheiro]. Lisboa | Cotovia: Fundação Oriente, 1999.

Antologia (participação)
:: 20 poetas ingleses. ensaio. [autor e tradutor Bezerra de Freitas]. Rio de Janeiro: Editora A Noite, 1948.
:: O torso e o gato - o melhor da poesia universal. [seleção, organização e tradução Ivo Barroso]. Rio de Janeiro: Editora Record, 1991.
:: 22 ingleses modernos — Antologia poética. [organização, tradução e notas de Jorge Wanderley]. edição bilíngue. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1993. 
:: Poesia alheia: 124 poemas traduzidos. [tradução e organização Nelson Ascher]. edição bilíngue. Rio de Janeiro: Imago, 1998. 
:: Poesia da recusa. [organização e tradução Augusto de Campos]. edição bilíngue. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.


William Butler Yeats  in New York in 1932.
POEMAS SELECIONADOS DE W. B. YEATS (EDIÇÃO BILÍNGUE)

EM TRADUÇÃO DE AUGUSTO DE CAMPOS

O prazer do difícil 

O prazer do difícil tem secado
A seiva em minhas veias. A alegria
Espontânea se foi. O fogo esfria
No coração. Algo mantém cerceado
Meu potro, como se o divino passo
Já não lembrasse o Olimpo, a asa, o espaço,
Sob o chicote, trêmulo, prostrado,
E carregasse pedras. Diabos levem
As peças de sucesso que se escrevem
Com cinqüenta montagens e cenários,
O mundo de patifes e de otários
E a guerra cotidiana com seu gado,
Afazer de teatro, afã de gente.
Juro que antes que a aurora se apresente
Eu descubro a cancela e abro o cadeado.

1910

.

The Fascination of What’s Difficult

The fascination of what's difficult
Has dried the sap out of my veins, and rent
Spontaneous joy and natural content
Out of my heart. There's something ails our colt
That must, as if it had not holy blood
Nor on Olympus leaped from cloud to cloud,
Shiver under the lash, strain, sweat and jolt
As though it dragged road metal. My curse on plays
That have to be set up in fifty ways,
On the day's war with every knave and dolt.
Theatre business, management of men.
I swear before the dawn comes round again
I'll find the stable and pull out the bolt.

1910

- William Butler Yeats, em "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Nenhuma Tróia a mais

Por que culpá-la se ela encheu meus dias
De mágoa, ou se incitou às tropelias
Os ignorantes e jogou com vidas,
Pondo as vielas contra as avenidas,
Quando eles tinham ousadia e flama?
Como fugir a essa pulsão funesta
Que a nobreza fez simples como a chama?
Beleza como um arco tenso, raça
Estranha a uma era como esta,
E cruel, de tão alta e singular?
Que poderia ela contra a graça?
Que Tróia a mais teria que incendiar?

1910

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No second Troy

Why should I blame her that she filled my days
With misery, or that she would of late
Have taught to ignorant men most violent ways,
Or hurled the little streets upon the great,
Had they but courage equal to desire?
What could have made her peaceful with a mind
That nobleness made simple as a fire,
With beauty like a tightened bow, a kind
That is not natural in an age like this,
Being high and solitary and most stern?
Why, what could she have done being what she is?
Was there another Troy for her to burn?

1910

- William Butler Yeats, em "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Leda e o Cisne

Um baque surdo. A asa enorme ainda se abate
Sobre a moça que treme. Em suas coxas o peso
Da palma escura acariciante. O bico preso
À nuca, contra o peito o peito se debate. 

Como podem os pobres dedos sem vigor

Negar à glória e à pluma as coxas que se vão
Abrindo e como, entregue a tão branco furor,
Não sentir o pulsar do estranho coração?

Um frêmito nos rins haverá de engendrar

Os muros em ruína, a torre, o teto a arder
E Agamemnon, morrendo.
Ela, tão sem defesa,

Violentada pelo bruto sangue do ar,

Se impregnaria de tal força e tal saber
Antes que o bico inerte abandonasse a presa?

1923

.

Leda and the Swan

A sudden blow: the great wings beating still
Above the staggering girl, her thighs caressed
By the dark webs, her nape caught in his bill,
He holds her helpless breast upon his breast.

How can those terrified vague fingers push

The feathered glory from her loosening thighs?
And how can body, laid in that white rush,
But feel the strange heart beating where it lies?

A shudder in the loins engenders there

The broken wall, the burning roof and tower
And Agamemnon dead. 
Being so caught up,

So mastered by the brute blood of the air

Did she put on his knowledge with his power
Before the indifferent beak could let her drop?

1923

- William Butler Yeats, em "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Navegando para Bizâncio

I


Aquela não é terra para velhos. Gente 

Jovem, de braços dados, pássaros nas ramas 
— Gerações de mortais — cantando alegremente,
Salmão no salto, atum no mar, brilho de escamas,
Peixe, ave ou carne glorificam ao sol quente 
Tudo o que nasce e morre, sêmen ou semente. 
Ao som da música sensual, o mundo esquece 
As obras do intelecto que nunca envelhece. 

II


Um homem velho é apenas uma ninharia, 

Trapos numa bengala à espera do final, 
A menos que a alma aplauda, cante e ainda ria 
Sobre os farrapos do seu hábito mortal; 
Nem há escola de canto, ali, que não estude
Monumentos de sua própria magnitude. 
Por isso eu vim, vencendo as ondas e a distância, 
Em busca da cidade santa de Bizâncio. 

III


Ó sábios, junto a Deus, sob o fogo sagrado, 

Como se num mosaico de ouro a resplender, 
Venham do fogo santo, em giro espiralado, 
E tornem-se mestres-cantores do meu ser. 
Rompam meu coração, que a febre faz doente 
E, acorrentado a um mísero animal morrente, 
Já não sabe o que é; arranquem-me da idade 
Para o lavor sem fim da longa eternidade. 

IV


Livre da natureza não hei de assumir 

Conformação de coisa algum natural, 
Mas a que o ourives grego soube urdir 
De ouro forjado e esmalte de ouro em tramas
Para acordar do ócio o sono imperial; 
Ou cantarei aos nobres de Bizâncio e às damas,
Pousado em ramo de ouro, como uma passa-
Ro, o que passou e passará e sempre passa. 

1927

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Sailing to Byzantium


I


That is no country for old men. The young

In one another's arms, birds in the trees,
— Those dying generations — at their song,
The salmon-falls, the mackerel-crowded seas,
Fish, flesh, or fowl, commend all summer long
Whatever is begotten, born, and dies.
Caught in that sensual music all neglect
Monuments of unageing intellect.

II


An aged man is but a paltry thing.

A tattered coat upon a stick, unless
Soul clap its hands and sing, and louder sing
For every tatter in its mortal dress,
Nor is there singing school but studying
Monuments of its own magnificence;
And therefore I have sailed the seas and come
To the holy city of Byzantium.

III


O sages standing in God's holy fire

As in the golden mosaic of a wall,
Come from the holy fire, perne in a gyre
And be the singing-masters of my soul.
Consume my heart away; sick with desire
And fastened to a dying animal
It knows not what it is; and gather me
Into the artifice of eternity.

IV


Once out of nature I shall never take

My bodily form from any natural thing,
But such a form as Grecian goldsmiths make
Of hammered gold and gold enamelling
To keep a drowsy Emperor awake;
Or set upon a golden bough to sing
To lords and ladies of Byzantium
Of what is past, or passing, or to come.

1927

- William Butler Yeats, em "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Bizâncio
As imagens febris do dia se desfazem; 
Os guardas imperiais, bêbados, jazem;
Noite sem som, sombras noctívagas se alongam  
Da catedral e do seu gongo; 
À luz de estrela ou lua um domo desmerece
Tudo o que é humanidade, 
Mera complexidade
As veias, fúria e lama, em toda humana espécie. 

Diante de mim a imagem, homem ou fantasma, 
Mais sombra que homem, mais imagem que fantasma: 
Pois a bobina de Hades, múmia desatada, 
Solta as curvas da estrada; 
Boca sem hausto, boca ressequida,
Chama boca sem som; 
Eu louvo o sobre-humano; 
Eu o nomeio vida-em-morte ou morte-em-vida. 

Milagre, artesanato de ouro ou ave, 
Mais milagre que artesanato ou ave, 
Plantado em ramo de ouro halo- estrelado, 
Canta alto, como os galos de Hades,
Ou pela luz amargurado infama,
Em metal esplendor, 
Ave comum ou flor,
Complexidades naturais de sangue e lama. 

À meia-noite o chão do Imperador se inflama.
Chamas que ninguém viu nascer, flamas sem chama,
Que a água não calma, chamas que se chamam
Às sangue-natas almas clamam.
Da fúria e da complexidade elas se alteiam 
E morrem dessa dança, 
Nesse transe em que as lança
A agonia das chamas que nunca incendeiam.

No dorso de um golfinho em sangue e lama, 
Alma após alma! Irrompem na onda em flama,
Forjas do Imperador – o seu tesouro! 
Mármores dançam no chão de ouro 
E às fúrias da complexidade vêm domar,
Essas imagens que eram, 
E outras imagens geram, 
Golfinho-roto, gongo-amargurado mar.

1930
.

Byzantium
The unpurged images of day recede;
The Emperor's drunken soldiery are abed;
Night resonance recedes, night-walkers' song
After great cathedral gong;
A starlit or a moonlit dome disdains
All that man is,
All mere complexities,
The fury and the mire of human veins.

Before me floats an image, man or shade,
Shade more than man, more image than a shade;
For Hades' bobbin bound in mummy-cloth
May unwind the winding path;
A mouth that has no moisture and no breath
Breathless mouths may summon;
I hail the superhuman;
I call it death-in-life and life-in-death.

Miracle, bird or golden handiwork,
More miracle than bird or handiwork,
Planted on the star-lit golden bough,
Can like the cocks of Hades crow,
Or, by the moon embittered, scorn aloud
In glory of changeless metal
Common bird or petal
And all complexities of mire or blood.

At midnight on the Emperor's pavement flit
Flames that no faggot feeds, nor steel has lit,
Nor storm disturbs, flames begotten of flame,
Where blood-begotten spirits come
And all complexities of fury leave,
Dying into a dance,
An agony of trance,
An agony of flame that cannot singe a sleeve.

Astraddle on the dolphin's mire and blood,
Spirit after spirit! The smithies break the flood,
The golden smithies of the Emperor!
Marbles of the dancing floor
Break bitter furies of complexity,
Those images that yet
Fresh images beget,
That dolphin-torn, that gong-tormented sea.

1930
- William Butler Yeats, em "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

Berenice
Sonhei que a noite se fez luz
E, aberto o céu de par em par,
Que os meus cabelos eu depus
Sobre um sepulcro inscrito: Amar.
E alguém levou-os sem que que visse
Num grande turbilhão de ar
E foi pregar uma fogueira
No céu da noite – a cabeleira
Branca, a brilhar, de Berenice.

1929

.

Her dream

I dreamed as in my bed I lay,
All night's fathomless wisdom come,
That I had shorn my locks away
And laid them on Love's lettered tomb:
But something bore them out of sight
In a great tumult of the air,
And after nailed upon the night
Berenice's burning hair.

1929

- William Butler Yeats, em "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

A torre

I
W. B. Yeats - 1904
O que farei com esta absurdidade, 
Esta caricatura, coração?
Decrepitude atada à minha idade
Como à cauda de um cão?
Jamais terei sentido
Tão grande, tão apaixonada, tão incrível  
A fantasia, nem houve olhos e ouvido 
Que mais quisessem o impossível – 
Não, nem quando menino, com inseto ou anzol, 
Ou mais humilde verme, no alto de Ben Bulben, 
Eu tinha a desfrutar todo um dia de sol. 
Devo mandar às favas minha Musa,
Ter Platão ou Plotino por amigo,
Até que fantasia, olho e ouvido 
Cedam à mente e virem escalpelo
Da idéia abstrata; ou ser escarnecido 
Por uma lata presa ao tornozelo.

II
Passo pelas muralhas e reconto
Os alicerces de uma casa e o ponto
Onde a árvore, como um dedo sujo, sai do chão,
E solto a imaginação.
À luz do dia declinante apelo às 
Memórias e retinas
De antigas árvores ou ruínas –
Que eu gostaria de inquirir a todas elas.

Atrás do monte, Mrs. French viveu, e um dia
–Todos os castiçais e candeias que havia
A iluminar o mogno escuro e o vinho –, 
Um servidor que se fazia de adivinho
Dos caprichos da dama do condado
Com as tesouras do jardim cortou as 
Orelhas de um granjeiro ousado 
E as trouxe em prato recoberto, como broas.
Na juventude ouvi, mais de uma vez, a
Canção sobre uma bela camponesa
Que vivia num áspero recanto.
Louvavam sua tez e seu encanto
Lembrando que quando ela aparecia,
Ébrios da própria fantasia,
Os granjeiros juntavam-se na praça,
Tanto a canção gabava a sua graça.
Alguns, enlouquecidos com o canto
Ou com os brindes que a louvavam tanto,
Ergueram-se da mesa, decididos
A testar a miragem e os sentidos.
Mas um trocou a lua da poesia
Pela luz veraz luz do dia –
A música mexeu com o seu prumo,
No pântano de Cloone se foi, sem rumo.

Estranho, esta canção a fez um cego,
Mas, quanto mais eu penso, mas eu nego
Que seja estranho; a tragédia, considero,
Teve início com outro cego, Homero, 
E Helena, que traiu a nós, viventes.
Ah, que da luz de sol a lua 
Um único raio flua,
Pois se eu vencer, farei mentes dementes.

E eu mesmo criei Hanrahan 
E o carreguei, bêbado ou não pela manhã,
De um dos muitos chalés da vizinhança.
Às ordens de um ancião, como criança,
Trombou, tombou, tateou, pra lá, pra cá, 
Joelhos rotos por compensação
E o horrível esplendor de uma paixão. 
Coisas que imaginei há vinte anos já:

A turma carteava num canteiro;
E quando foi a vez do trapaceiro,
Ele tratou as cartas com tal arte
Que fez das suas um carteado à parte:
Cães de caça tomaram o lugar
Das cartas, e uma foi lebre.
Hanrahan, em sua lebre,
Seguiu-lhes o ladrido até chegar...

Até onde chegou não sei – já basta! 
Devo lembrar alguém de alma tão gasta
Que nem a orelha do inimigo, exposta,
Nem a canção faria mais disposta. 
Uma figura que virou legenda 
Ela à qual não sobrou um só vizinho 
Para contar-lhe as pedras do caminho –
Proprietário falido da vivenda.

Antes da perdição, por muitos anos,
Guerreiros rudes, botas couraçadas,
Mãos de ferro, subiram as escadas 
Estreitas, e alguns deles que os arcanos
Da Memória preservam, imortais,
Com altos gritos, vista acesa,
Vêm-nos roubar o sono e a paz
E os seus dados ressoam sobre a mesa.

Invoco a todos, venha toda a gente:
O velho desmontado ou indigente;
O cego e errante arauto da beleza;
Hanrahan, que um jogral tomou por presa
Pelos campos sem Deus; e essa mulher
Que orelhas, mas que ouvido, quer;
O afogado de amor por uma loa
Das Musas más na lama da lagoa.

Os velhos – ricos, pobres, homens ou mulheres –,
Que andaram por aqui, passaram esta porta, 
Em público ou privado, acaso deblateram
Como eu contra a velhice agora?
Mas encontrei uma resposta nesse clã
Tão impacientes para ir embora;
Pois vão; mas deixem-me Hanrahan,
Que eu necessito de sua múltipla memória.

Velho fauno, um amor em cada esquina,
Extrai de tua mente toda a mina,
Tudo o que no sepulcro descobriste,
Pois sabes computar cada loucura,
Cada cega imersão, cada imprevisto,
Sonho de ser que um suave olhar atrai,
Ou um toque ou um ai,
Ao labirinto de outra criatura.

Acaso a fantasia é compelida
À mulher ganha ou à mulher perdida?
Se à que perdeste, admite o teu esbulho: 
Por mera covardia ou por orgulho,
Pseudoconsciência ou sutileza vaga,
Refugiste de um grande labirinto,
E se a memória volve o sol é extinto
Por um eclipse e o dia já se apaga.

III
É tempo do meu testamento.
Eu lego aos que ficam de pé
E vão contra a corrente até
O alto da fonte e cedo
Lançam o anzol, sem medo
Da pedra gotejante. Lego
O orgulho que carrego:
O orgulho dos que não tem fé
Na Causa ou no Estado,
Nem nos tiranos que escarravam
Nem nos escravos escarrados.
De gente como os Burke e Grattan
Que dá – recusando a recusa,
Orgulho como o da manhã
Quando a luz jorra profusa,
Ou o da cornucópia cheia
Ou da chuva que aflora
Quando o rito é só areia,
Ou o do ciúme – na hora
Em que ele fixa o olhar
Num reflexo da aurora
Escolhendo um recanto
Do lago para alçar
O seu último canto. 
Meu credo aqui proclamo.
Eu zombo de Plotino
E a Platão eu exclamo:
Morte e vida eram nada
Até o homem fazê-las
E lhes dar um destino
Com as armas e a carga 
Da sua alma amarga.
Sim, sol e lua e estrelas.
Proclamo, sem receio,
Que, mortos, vamos retornar
Para criar o devaneio
De um Paraíso translunar.

Eu preparei a minha meta
Com a culta arte italiana,
Pedras da Grécia soberana,
Imagens de poeta,
Palavras de mulher,
Amor e desengano,
Tudo o que o homem quer
Para o seu sobre-humano 
Sonho-espelho de ser.

No oco do tronco as gralhas 
Gritam juntando a rama.
Galho após galho, empilham.
A ave-mãe com carinho 
Ali fará sua cama 
Para aquecer o ninho.

Eu lego o orgulho e a fé 
Aos que ficam de pé,
Galgam o alto do monte 
Para lançar o anzol
Na linha do horizonte. 
Desse metal fui feito 
Até ser alquebrado 
Por este ofício estreito.

Preparo a alma, agora,
Votando-a ao estudo
Numa douta demora,
Até o fim de tudo.
Sangue que deteriora,
Desgaste da memória,
Estancamento mudo.
Ou, ainda pior,
A morte dos que outrora
Foram grandes, do olhar
Que fez sustar o alento –
Como as nuvens no ar 
Quando o sol cai e um lento
Grito de ave ressoa 
Na sombra que se escoa.

1926
.

The Tower

I
What shall I do with this absurdity –
O heart, O troubled heart - this caricature,
Decrepit age that has been tied to me
As to a dog's tail?
Never had I more
Excited, passionate, fantastical
Imagination, nor an ear and eye
That more expected the impossible –
No, not in boyhood when with rod and fly,
Or the humbler worm, I climbed Ben Bulben's back
And had the livelong summer day to spend.
It seems that I must bid the Muse go pack,
Choose Plato and Plotinus for a friend
Until imagination, ear and eye,
Can be content with argument and deal
In abstract things; or be derided by
A sort of battered kettle at the heel.

 II
I pace upon the battlements and stare
On the foundations of a house, or where
Tree, like a sooty finger, starts from the earth;
And send imagination forth
Under the day's declining beam, and call
Images and memories
From ruin or from ancient trees,
For I would ask a question of them all.

Beyond that ridge lived Mrs. French, and once
When every silver candlestick or sconce
Lit up the dark mahogany and the wine,
A serving-man, that could divine
That most respected lady's every wish,
Ran and with the garden shears
Clipped an insolent farmer's ears
And brought them in a little covered dish.

Some few remembered still when I was young
A peasant girl commended by a song,
Who'd lived somewhere upon that rocky place,
And praised the colour of her face,
And had the greater joy in praising her,
Remembering that, if walked she there,
Farmers jostled at the fair
So great a glory did the song confer.
And certain men, being maddened by those rhymes,
Or else by toasting her a score of times,
Rose from the table and declared it right
To test their fancy by their sight;
But they mistook the brightness of the moon
For the prosaic light of day –
Music had driven their wits astray –
And one was drowned in the great bog of Cloone.

Strange, but the man who made the song was blind;
Yet, now I have considered it, I find
That nothing strange; the tragedy began
With Homer that was a blind man,
And Helen has all living hearts betrayed,
O may the moon and sunlight seem
One inextricable beam,
For if I triumph I must make men mad.

And I myself created Hanrahan
And drove him drunk or sober through the dawn
From somewhere in the neighbouring cottages.
Caught by an old man's juggleries
He stumbled, tumbled, fumbled to and fro
And had but broken knees for hire
And horrible splendour of desire;
I thought it all out twenty years ago:

Good fellows shuffled cards in an old bawn;
And when that ancient ruffian's turn was on
He so bewitched the cards under his thumb
That all but the one card became
A pack of hounds and not a pack of cards,
And that he changed into a hare.
Hanrahan rose in frenzy there
And followed up those baying creatures towards –

O towards I have forgotten what – enough!
I must recall a man that neither love
Nor music nor an enemy's clipped ear
Could, he was so harried, cheer;
A figure that has grown so fabulous
There's not a neighbour left to say
When he finished his dog's day:
An ancient bankrupt master of this house.

Before that ruin came, for centuries,
Rough men-at-arms, cross-gartered to the knees
Or shod in iron, climbed the narrow stairs,
And certain men-at-arms there were
Whose images, in the Great Memory stored,
Come with loud cry and panting breast
To break upon a sleeper's rest
While their great wooden dice beat on the board.

As I would question all, come all who can;
Come old, necessitous. half-mounted man;
And bring beauty's blind rambling celebrant;
The red man the juggler sent
Through God-forsaken meadows; Mrs. French,
Gifted with so fine an ear;
The man drowned in a bog's mire,
When mocking Muses chose the country wench.

Did all old men and women, rich and poor,
Who trod upon these rocks or passed this door,
Whether in public or in secret rage
As I do now against old age?
But I have found an answer in those eyes
That are impatient to be gone;
Go therefore; but leave Hanrahan,
For I need all his mighty memories.

Old lecher with a love on every wind,
Bring up out of that deep considering mind
All that you have discovered in the grave,
For it is certain that you have
Reckoned up every unforeknown, unseeing
plunge, lured by a softening eye,
Or by a touch or a sigh,
Into the labyrinth of another's being;

Does the imagination dwell the most
Upon a woman won or woman lost?
If on the lost, admit you turned aside
From a great labyrinth out of pride,
Cowardice, some silly over-subtle thought
Or anything called conscience once;
And that if memory recur, the sun's
Under eclipse and the day blotted out.

 III
It is time that I wrote my will;
I choose upstanding men
That climb the streams until
The fountain leap, and at dawn
Drop their cast at the side
Of dripping stone; I declare
They shall inherit my pride,
The pride of people that were
Bound neither to Cause nor to State,
Neither to slaves that were spat on,
Nor to the tyrants that spat,
The people of Burke and of Grattan
That gave, though free to refuse –
pride, like that of the morn,
When the headlong light is loose,
Or that of the fabulous horn,
Or that of the sudden shower
When all streams are dry,
Or that of the hour
When the swan must fix his eye
Upon a fading gleam,
Float out upon a long
Last reach of glittering stream
And there sing his last song,
And I declare my faith:
I mock plotinus' thought
And cry in plato's teeth,
Death and life were not
Till man made up the whole,
Made lock, stock and barrel
Out of his bitter soul,
Aye, sun and moon and star, all,
And further add to that
That, being dead, we rise,
Dream and so create
Translunar paradise.
I have prepared my peace
With learned Italian things
And the proud stones of Greece,
Poet's imaginings
And memories of love,
Memories of the words of women,
All those things whereof
Man makes a superhuman
Mirror-resembling dream.

As at the loophole there
The daws chatter and scream,
And drop twigs layer upon layer.
When they have mounted up,
The mother bird will rest
On their hollow top,
And so warm her wild nest.

I leave both faith and pride
To young upstanding men
Climbing the mountain side,
That under bursting dawn
They may drop a fly;
Being of that metal made
Till it was broken by
This sedentary trade.

Now shall I make my soul,
Compelling it to study
In a learned school
Till the wreck of body,
Slow decay of blood,
Testy delirium
Or dull decrepitude,
Or what worse evil come –
The death of friends, or death
Of every brilliant eye
That made a catch in the breath –
Seem but the clouds of the sky
When the horizon fades;
Or a bird's sleepy cry
Among the deepening shades. 

1926
- William Butler Yeats, em "Poesia da recusa". [organização e tradução Augusto de Campos]. Coleção signos 42. São Paulo: Editora Perspectiva, 2006.

§

William Butler Yeats

EM TRADUÇÃO DE PAULO VIZIOLI

A Ilha Lacustre de Innisfree

Vou levantar-me e ir agora, e vou-me para Innisfree,
E lá farei uma choça com barro e vimes torcidos;
Terei feijão, nove filas; e abelhas terei ali;
E estarei só, na clareira entre os zumbidos.

E lá vou achar a paz, paz que pinga devagar,

Que pinga dos véus da aurora para onde cricrila o grilo;
A meia-noite ali brilha; o meio-dia é esbrasear;
E o poente... pintarroxos vêm cobri-lo.

Vou levantar-me e ir agora, porque sempre, noite e dia,

Ouço o marulho das águas que no lago vêm e vão;
Se na estrada me detenho, ou sobre a calçada fria,
Escuto-o bem, lá dentro do coração.

1892

.

The lake isle of innisfree
I will arise and go now, and go to Innisfree,
And a small cabin build there, of clay and wattles made;
Nine bean rows will I have there, a hive for the honeybee,
And live alone in the bee-loud glade.

And I shall have some peace there, for peace comes dropping slow,
Dropping from the veils of the morning to where the cricket sings;
There midnight's all a-glimmer, and noon a purple glow,
And evening full of the linnet's wings.

I will arise and go now, for always night and day
I hear the water lapping with low sounds by the shore;
While I stand on the roadway, or on the pavements gray,
I hear it in the deep heart's core.

1892
- William Butler Yeats, em "W. B. Yeats - poemas". [organização, prefácio, tradução e notas Paulo Vizioli]. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

§

A segunda vinda
Rodando em giro cada vez mais largo,
O falcão não escuta ao falcoeiro;
Tudo esboroa; o centro não segura;
Mera anarquia avança sobre o mundo,
Maré escura de sangue avança e afoga
Os ritos da inocência em toda parte;
Os melhores vacilam, e os piores
Andam cheios de irada intensidade.

Aí vem por certo uma revelação.
Por certo próxima é a Segunda Vinda.
Segunda Vinda! Digo essas palavras,
E do Spiritus Mundi vasta imagem
Turba-me a vista: ao longe, no deserto,
Um corpo de leão com rosto de homem,
O olhar vazio e duro como o sol,
As lerdas coxas move, enquanto em torno
Rondam sombras de pássaros coléricos.
Retorna a escuridão; mas ora eu sei
Que a vinte séculos de sono pétreo
Vexou o pesadelo de um bercinho;
E que rude animal, chegado o tempo,
Arrasta-se a Belém para nascer?
.

The second coming
Turning and turning in the widening gyre
The falcon cannot hear the falconer;
Things fall apart; the centre cannot hold;
Mere anarchy is loosed upon the world,
The blood-dimmed tide is loosed, and everywhere
The ceremony of innocence is drowned;
The best lack all conviction, while the worst
Are full of passionate intensity.
Surely some revelation is at hand;
Surely the Second Coming is at hand.
The Second Coming! Hardly are those words out
When a vast image out of Spiritus Mundi
Troubles my sight: somewhere in sands of the desert
A shape with lion body and the head of a man,
A gaze blank and pitiless as the sun,
Is moving its slow thighs, while all about it
Reel shadows of the indignant desert birds.
The darkness drops again; but now I know
That twenty centuries of stony sleep
Were vexed to nightmare by a rocking cradle,
And what rough beast, its hour come round at last,
Slouches towards Bethlehem to be born?
- William Butler Yeats, em "W. B. Yeats - poemas". [organização, prefácio, tradução e notas Paulo Vizioli]. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

§

Os cisnes selvagens de Coole
O arvoredo refulge no esplendor do outono,
Nas veredas do bosque está seco o terreno,
O lago no crepúsculo de outubro
Espelha um céu sereno;
Nas águas, entre as pedras transbordando,
Cinquenta e nove cisnes vão-se em bando.
Já venho aqui por dezenove outonos,
Pelo que pude contar;
Mal terminei, voou o grupo todo
Para no azul se espalhar,
Girando em voltas descontínuas e grandiosas
Com asas clamorosas.
Tenho observado essas brilhantes criaturas,
E sinto no peito uma chaga.
Tudo mudou desde que, ouvindo no crepúsculo
Esse badalo de asa nesta plaga
Pela primeira vez cortar o espaço,
Pisava mais leve o meu passo.

Incansáveis ainda, amante junto a amante,
Remam no frio da amável correnteza
Ou escalam os ares;
Nos corações o tempo não lhes pesa;
Emoção ou conquista, aonde quer que vão,
São sempre o seu quinhão.
Mas agora deslizam na água calma
Com sua beleza e mistério.
Em meio a que caniços construirão?
Junto a que lago serão nosso refrigério,
Quando eu, despertando num aurora,
Notar que se foram embora?
.

The wild swans at Coole
The trees are in their autumn beauty, 
The woodland paths are dry, 
Under the October twilight the water 
Mirrors a still sky; 
Upon the brimming water among the stones 
Are nine-and-fifty swans. 

The nineteenth autumn has come upon me 
Since I first made my count; 
I saw, before I had well finished, 
All suddenly mount 
And scatter wheeling in great broken rings 
Upon their clamorous wings. 

I have looked upon those brilliant creatures, 
And now my heart is sore. 
All's changed since I, hearing at twilight, 
The first time on this shore, 
The bell-beat of their wings above my head, 
Trod with a lighter tread. 

Unwearied still, lover by lover, 
They paddle in the cold 
Companionable streams or climb the air; 
Their hearts have not grown old; 
Passion or conquest, wander where they will, 
Attend upon them still. 

But now they drift on the still water, 
Mysterious, beautiful; 
Among what rushes will they build, 
By what lake's edge or pool 
Delight men's eyes when I awake some day 
To find they have flown away? 
- William Butler Yeats, em "W. B. Yeats - poemas". [organização, prefácio, tradução e notas Paulo Vizioli]. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

§

O pescador 
Mesmo lembrando o sardento
Homem de cinza com vara
Que sobe a um lugar cinzento
Com roupas de Connemara
E na aurora vai pescar,
Já faz tempo que procuro
Ante os olhos invocar
Esse homem simples e puro.
Eu tinha olhado de frente
O que eu esperava que fosse
Escrever pra minha gente
E aquilo que o mundo trouxe:
Os vivos que dão desgosto,
O morto que era um amigo,
O covarde no seu posto,
O insolente sem castigo,
Canalha algum intimado
Enquanto um ébrio o aclamar,
O engraçadinho açodado
Com seu chiste mais vulgar,
O esperto que traz nos lábios
Algum bordão de palhaço,
O espaço que falta aos sábios
E a grande Arte sem espaço.

Por desprezo a essa plateia,
Há um ano do calendário,
De repente tive a ideia
De um homem imaginário,
Com o rosto bem sardento
E roupas de Connemara,
Onde a espuma da corrente
Escurece a pedra clara,
A dobrar o punho em riste
Quando o anzol lança risonho;
Um homem que não existe,
Um homem que é apenas sonho;
E, antes que velho, anuncio:
“Vou lhe escrever qualquer hora
Um poema talvez frio
E candente como a aurora”.

.

The fischerman
Although I can see him still— 
The freckled man who goes 
To a gray place on a hill 
In gray Connemara clothes 
At dawn to cast his flies— 
It's long since I began 
To call up to the eyes 
This wise and simple man. 
All day I'd looked in the face 
What I had hoped it would be 
To write for my own race 
And the reality: 
The living men that I hate, 
The dead man that I loved, 
The craven man in his seat, 
The insolent unreproved— 
And no knave brought to book 
Who has won a drunken cheer— 
The witty man and his joke 
Aimed at the commonest ear, 
The clever man who cries 
The catch cries of the clown, 
The beating down of the wise 
And great Art beaten down. 

Maybe a twelve-month since 
Suddenly I began, 
In scorn of this audience, 
Imagining a man, 
And his sun-freckled face 
And gray Connemara cloth, 
Climbing up to a place 
Where stone is dark with froth, 
And the down turn of his wrist 
When the flies drop in the stream— 
A man who does not exist, 
A man who is but a dream; 
And cried, “Before I am old 
I shall have written him one 
Poem maybe as cold 
And passionate as the dawn.”
- William Butler Yeats, em "W. B. Yeats - poemas". [organização, prefácio, tradução e notas Paulo Vizioli]. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

§



Páscoa 1916

Encontrava os seus vívidos semblantes

Quando voltavam ao cair da noite

De escritório ou balcão, entre o cinzento

Do casario do século dezoito.

Saudava-os com aceno de cabeça

Ou palavras corteses e vazias,

Não concluindo sem lembrar primeiro

Um chiste ou caso em tom de menoscabo

Capaz de divertir um companheiro

Sentado ao pé do fogo lá do clube,

Pois enxergava toda aquela gente

Vestida de arlequim – assim como eu;

Tudo mudou, mudou completamente:

Terrível beleza nasceu.



Ah, aquela mulher passava o dia
Na boa vontade de ignorância atroz,
E a noite inteira discutia,
Até esganiçar a voz.
Que voz se comparava à maravilha
Da sua, quando jovem e formosa
Galopava no encalço da matilha?
Este homem por sua vez tinha uma escola,
E o cavalo com asas cavalgava;
Este outro, auxiliar seu e amigo, flama
Igual nutria, e já desabrochava;
Talvez tivesse conquistado fama
Com sua sensibilidade rara
E o pensamento ameno e vigoroso.
Enfim, aquele outro homem eu sonhara
Um bêbado grosseiro e pretensioso.
Com pessoas que próximas me estão
Ele fora em verdade bem cruel;
Entretanto, eu o incluo na canção,
Porque também deixou o seu papel
Nesta comédia inconsequente;
Também mudança trágica sofreu,
E transformou-se inteiramente:
Terrível beleza nasceu.
Corações onde um só desígnio medra,
Seja no inverno ou na estação estiva,
Mudam-se por encanto numa pedra
Que turba o fluxo da corrente viva.
O cavalo a chegar da estrada além,
O cavaleiro, o pássaro que avança
De trambolhante nuvem para nuvem,
Minuto por minuto têm mudança;
Altera-se minuto por minuto
A sombra se uma nuvem na corrente;
Escorrega na margem uma pata,
E um cavalo chapinha mais à frente;
Chamando o macho para o seu reduto,
Mergulha a ave do brejo em rebuliço;
Todos vivem, minuto por minuto;
A pedra está no meio de tudo isso.

Um sacrifício prolongado
Pode mudar em pedra o coração.
Quando terá bastado?
Este é o quinhão do Céu, nosso quinhão:
Apenas sussurrar nome por nome,
Qual mãe chamando o filho com doçura
Depois que o sono finalmente doma
Seus membros após tanta travessura.
E não é só o anoitecer, o ocaso?
Oh não, não é o anoitecer, foi morte;
E não foi morte inútil por acaso?
Pois talvez a Inglaterra nos liberte
E a palavra que deu seja mantida.
De seu sonho sabemos o bastante:
Eles sonharam, e hoje estão sem vida;
E não foi um amor avassalante
Que os arrastou para a fatalidade?
Vou expô-lo em meu verso ...
MacDonagh e MacBride,
E Connolly e Pearse,
Agora e para a frente,
Onde se usar o verde que era seu,
Mudaram, e mudaram totalmente:
Terrível beleza nasceu.

25 setembro 1916



.


Easter, 1916
I have met them at close of day   
Coming with vivid faces 
From counter or desk among grey   
Eighteenth-century houses. 
I have passed with a nod of the head   
Or polite meaningless words,   
Or have lingered awhile and said   
Polite meaningless words, 
And thought before I had done   
Of a mocking tale or a gibe   
To please a companion 
Around the fire at the club,   
Being certain that they and I   
But lived where motley is worn:   
All changed, changed utterly:   
A terrible beauty is born. 

That woman's days were spent   

In ignorant good-will, 
Her nights in argument 
Until her voice grew shrill. 
What voice more sweet than hers   
When, young and beautiful,   
She rode to harriers? 
This man had kept a school   
And rode our wingèd horse;   
This other his helper and friend   
Was coming into his force; 
He might have won fame in the end,   
So sensitive his nature seemed,   
So daring and sweet his thought. 
This other man I had dreamed 
A drunken, vainglorious lout. 
He had done most bitter wrong 
To some who are near my heart,   
Yet I number him in the song; 
He, too, has resigned his part 
In the casual comedy; 
He, too, has been changed in his turn,   
Transformed utterly: 
A terrible beauty is born. 

Hearts with one purpose alone   

Through summer and winter seem   
Enchanted to a stone 
To trouble the living stream. 
The horse that comes from the road,   
The rider, the birds that range   
From cloud to tumbling cloud,   
Minute by minute they change;   
A shadow of cloud on the stream   
Changes minute by minute;   
A horse-hoof slides on the brim,   
And a horse plashes within it;   
The long-legged moor-hens dive,   
And hens to moor-cocks call;   
Minute by minute they live:   
The stone's in the midst of all. 

Too long a sacrifice 

Can make a stone of the heart.   
O when may it suffice? 
That is Heaven's part, our part   
To murmur name upon name,   
As a mother names her child   
When sleep at last has come   
On limbs that had run wild.   
What is it but nightfall? 
No, no, not night but death;   
Was it needless death after all? 
For England may keep faith   
For all that is done and said.   
We know their dream; enough 
To know they dreamed and are dead;   
And what if excess of love   
Bewildered them till they died?   
I write it out in a verse— 
MacDonagh and MacBride   
And Connolly and Pearse 
Now and in time to be, 
Wherever green is worn, 
Are changed, changed utterly:   
A terrible beauty is born.

September 25, 1916

- William Butler Yeats, em "W. B. Yeats - poemas". [organização, prefácio, tradução e notas Paulo Vizioli]. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.



§

Sem segunda Tróia
Por que culpá-la por encher minha existência
De miséria e, mais tarde, enquanto a ação expande,
Aos ignorantes ensinar a violência,
Ou atirar rua pequena contra grande,
Mesmo sem a coragem que o anelar reclama?
Como seria tranquila, com aquela mente
Que a nobreza moldou singela como a flama?
Ou com o encanto do arco retesado, um ente
Não natural em nosso mundo, por seu jeito
Muito severo e sempre altivo e singular?
Ora, sendo como é, que mais teria feito?
Havia nova Tróia para ela queimar?



1916

.



No second Troy

Why should I blame her that she filled my days

With misery, or that she would of late

Have taught to ignorant men most violent ways,

Or hurled the little streets upon the great,

Had they but courage equal to desire?

What could have made her peaceful with a mind

That nobleness made simple as a fire,

With beauty like a tightened bow, a kind

That is not natural in an age like this,

Being high and solitary and most stern?

Why, what could she have done being what she is?

Was there another Troy for her to burn?

1916
- William Butler Yeats, em "W. B. Yeats - poemas". [organização, prefácio, tradução e notas Paulo Vizioli]. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

§

Uma manta 
Para o meu canto fiz manta
Bordada com fantasias
De antigas mitologias
Do calcanhar à garganta;
E os tolos em seu proveito
Exibiram sua beleza
Como se a tivessem feito.
Canção, aceita o ocorrido:
Existe maior proeza
No andar despido.
.

A coat
I made my song a coat
Covered with embroideries
Out of old mythologies
From heel to throat;
But the fools caught it,
Wore it in the world’s eyes
As though they’d wrought it.
Song, let them take it,
For there’s more enterprise
In walking naked.
- William Butler Yeats, em "W. B. Yeats - poemas". [organização, prefácio, tradução e notas Paulo Vizioli]. São Paulo: Companhia das Letras, 1992.

§

WB Yeats in 1925
EM TRADUÇÃO DE NELSON ASCHER

Um aviador irlandês prevê a morte

Encontrarei meu fim no meio

das nuvens de algum céu sobejo;

os que combato, eu não odeio.

também não amo os que protejo;

Kiltartan Cross é meu país,

seus pobres são a minha gente,

nada a fará mais infeliz

do que já era, ou mais contente.

Não é por lei ou por dever,

turba ou políticos, que luto,

mas pelo afã de me entreter,

a sós, nas nuvens em tumulto.

Tudo na mente foi pesado:

nada que espere ou que recorde

vale-me a pena comparado

com esta vida ou esta morte.
.

Na Irish Airman foresees his Death
I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above:
Those that I fight I do not hate
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartant’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law nor duty bade me fight,
Nor public men, nor cheering crowds.
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breast the years behind
In balance with this life, this death.
- William Butler Yeats, em "Poesia alheia: 124 poemas traduzidos". [tradução e organização Nelson Ascher]. edição bilíngue. Rio de Janeiro: Imago, 1998. 

§

EM TRADUÇÃO DE IVO BARROSO

E daí?
Estudante, os mais íntimos colegas
Já viam nele um grande gênio então;
Ele também; e agiu segundo as regras
Passando em claro as suas noites negras.
E daí? canta a sombra de Platão.
Seus escritos lhe dão notoriedade;
Ao cabo de alguns anos ganha tão
Bem que não passa mais necessidades;
Seus amigos, amigos de verdade.
E daí? canta a sombra de Platão.
Seus sonhos todos vêm à luz do dia:
Casa boa, mulher, filhos, carrão,
Horta e pomar onde tudo crescia,
Poetas e Sábios sobre ele choviam.
E daí? canta a sombra de Platão.
Obra completa, já maduro, tosse:
"Meu projeto de jovem concluí;
Que os tolos clamem; um senão que fosse;
Pois algo ao nível do perfeito eu trouxe."
E a voz mais alto: E daí? E daí?

1936
.

What then?
His chosen comrades thought at school
He must grow a famous man;
He thought the same and lived by rule,
All his twenties crammed with toil;
"What then?" sang Plato's ghost. "What then?"
Everything he wrote was read,
After certain years he won
Sufficient money for his need,
Friends that have been friends indeed;
"What then?" sang Plato's ghost. "What then?"
All his happier dreams came true —
A small old house, wife, daughter, son,
Grounds where plum and cabbage grew,
poets and Wits about him drew;
"What then?" sang Plato's ghost. "What then?"
"The work is done," grown old he thought,
"According to my boyish plan;
Let the fools rage, I swerved in naught,
Something to perfection brought";
But louder sang that ghost, "What then?"

1936
- William Butler Yeats, em "O torso e o gato - o melhor da poesia universal". [seleção, organização e tradução Ivo Barroso]. Rio de Janeiro: Editora Record, 1991.

§

EM TRADUÇÃO DE PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA

Quando fores velha
Quando já fores velha, e grisalha, e com sono,
Pega este livro: junto ao fogo, a cabecear,
Lê com calma; e com os olhos de profundas sombras
Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.

Muitos amaram-te horas de alegria e graça,
Com amor sincero ou falso amaram-te a beleza;
Só um, amando-te a alma peregrina em ti,
De teu rosto a mudar amou cada tristeza.

E curvando-te junto à grade incandescente,
Murmura com amargura como o amor fugiu
E caminhou montanha acima, a subir sempre,
E o rosto em multidão de estrelas encobriu.
.

When you are old
When you are old and grey and full of sleep,
And nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep;
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
- William Butler Yeats, em "Poemas de W. B. Yeats". [organização, introdução e tradução Péricles Eugênio da Silva]. São Paulo: Art Editora, 1987.

§

EM TRADUÇÃO DE JOSÉ AGOSTINHO BAPTISTA

Para ser gravado numa pedra em Thoor Ballylee
Eu, o poeta William Yeats,
Com velhas tábuas de moinho e lousas verde-mar,
E ferro forjado na forja de Gort,
Restaurei esta torre para a minha esposa George;
Possam estes sinais permanecer
Quando tudo for ruínas outra vez.
.

To be carved on a stone at Thoor Ballylee
I, the poet William Yeats,
With old mill boards and sea-green slates,
And smithy work from the Gort forge,
Restored this tower for my wife George;
And may these characters remain
When all is ruin once again.
- William Butler Yeats, em "W.B.Yeats: uma antologia". [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Lisboa-Portugal: Editora Assírio & Alvim, 1996.

§

Morte
Nem temor nem esperança assistem
Ao animal agonizante;
O homem que seu fim aguarda
Tudo teme e espera;
Muitas vezes morreu,
Muitas vezes de novo se ergueu.
Um grande homem em sua altivez
Ao enfrentar assassinos
Com desdém julga
A falta de alento;
Ele conhece a morte até ao fundo —
O homem criou a morte.
.

Death
Nor dread nor hope attend
A dying animal;
A man awaits his end
Dreading and hoping all;
Many times he died,
Many times rose again.
A great man in his pride
Confronting murderous men
Casts derision upon
Supersession of breath;
He knows death to the bone –
Man has created death.
- William Butler Yeats, em "W.B.Yeats: uma antologia". [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Lisboa-Portugal: Editora Assírio & Alvim, 1996.

§

A rosa na cruz do tempo
Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias!
Aproxima-te, vem até mim, enquanto de outrora os tempos canto:
O de Cuchulain, em luta com a maré inclemente;
O do Druida sombrio, filho dos bosques, de olhos calmos,
Esse que alimentou os sonhos de Fergus e a indizível ruína;
É a tua tristeza o que antiquíssimas estrelas
Dançando com sandálias de prata sobre o mar,
Cantam em sua alta e solitária melodia.
Aproxima-te pois, agora que já não me cega o destino do homem,
E posso encontrar sob os ramos do amor e do ódio,
E nas mais simples coisas que vivem apenas um dia,
A eterna beleza errante, errando ainda. 

Aproxima-te, vem até mim, vem — Ah, deixa-me algum espaço
Que de seu hálito a rosa encha!
Que não seja eu quem não ouve o que implora;
O verme indefeso e oculto em seu pequeno esconderijo,
A ratazana que entre as ervas de mim foge,
E a terrível esperança mortal que labuta e morre;
Que seja eu quem ouve as estranhas coisas ditas
Por Deus aos luminosos corações dos mortos antigos,
E aprende essa língua que os homens ignoram.
Vem até mim; antes de partir queria o
Velho Eire cantar e cantar de outrora os tempos:
Rosa vermelha, Rosa altiva, triste Rosa dos meus dias.
.

To the rose upon the rood of time
Red Rose, proud Rose, sad Rose of all my days! 
Come near me, while I sing the ancient ways: 
Cuchulain battling with the bitter tide; 
The Druid, grey, wood-nurtured, quiet-eyed, 
Who cast round Fergus dreams, and ruin untold; 
And thine own sadness, whereof stars, grown old 
In dancing silver-sandalled on the sea, 
Sing in their high and lonely melody. 
Come near, that no more blinded by man's fate, 
I find under the boughs of love and hate, 
In all poor foolish things that live a day, 
Eternal beauty wandering on her way. 

Come near, come near, come near—Ah, leave me still 
A little space for the rose-breath to fill! 
Lest I no more hear common things that crave; 
The weak worm hiding down in its small cave, 
The field-mouse running by me in the grass, 
And heavy mortal hopes that toil and pass; 
But seek alone to hear the strange things said 
By God to the bright hearts of those long dead, 
And learn to chaunt a tongue men do not know. 
Come near; I would, before my time to go, 
Sing of old Eire and the ancient ways: 
Red Rose, proud Rose, sad Rose of all my days. 
- William Butler Yeats, em "W.B.Yeats: uma antologia". [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Lisboa-Portugal: Editora Assírio & Alvim, 1996.

§

A rosa do mundo
Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.

1893 
.

The rose of the world
WHO dreamed that beauty passes like a dream?
For these red lips, with all their mournful pride,
Mournful that no new wonder may betide,
Troy passed away in one high funeral gleam,
And Usna's children died.

We and the labouring world are passing by:
Amid men's souls, that waver and give place
Like the pale waters in their wintry race,
Under the passing stars, foam of the sky,
Lives on this lonely face.

Bow down, archangels, in your dim abode:
Before you were, or any hearts to beat,
Weary and kind one lingered by His seat;
He made the world to be a grassy road
Before her wandering feet.

1893 
- William Butler Yeats, em "W.B.Yeats: uma antologia". [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Lisboa-Portugal: Editora Assírio & Alvim, 1996.

§

Oh, não ames demasiado tempo 
Amada, não ames demasiado tempo; 
Eu amei tanto, tanto 
E fui passando de moda 
Como uma velha canção.

Ao longo desses anos da nossa juventude 
Não podíamos distinguir 
O nosso pensamento do pensamento alheio 
Porque tão unidos éramos apenas um.

Mas em breve, breve instante ela mudou -
Oh, não ames demasiado tempo 
Ou irás passando de moda 
Como uma velha canção.
.

O do not love too long
SWEETHEART, do not love too long:
I loved long and long,
And grew to be out of fashion
Like an old song.
All through the years of our youth
Neither could have known
Their own thought from the other's,
We were so much at one.
But O, in a minute she changed -
O do not love too long,
Or you will grow out of fashion
Like an old song.
- William Butler Yeats, em "W.B.Yeats: uma antologia". [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Lisboa-Portugal: Editora Assírio & Alvim, 1996.

§

Tudo pode tentar-me
Tudo pode tentar-me a que me afaste deste ofício do verso: 
Outrora foi o rosto de uma mulher, ou pior - 
As aparentes exigências do meu país regido por tolos; 
Agora nada melhor vem à minha mão Do que este trabalho habitual. 
Quando jovem, Não daria um centavo por uma canção 
Que o poeta não cantasse de tal maneira 
Que parecesse ter uma espada nos seus aposentos; 
Mas hoje seria, cumprido fosse o meu desejo, 
Mais frio e mudo e surdo que um peixe.
.

All Things can tempt me 
ALL things can tempt me from this craft of verse:  
One time it was a woman’s face, or worse—  
The seeming needs of my fool-driven land;  
Now nothing but comes readier to the hand  
Than this accustomed toil. When I was young,
I had not given a penny for a song  
Did not the poet sing it with such airs  
That one believed he had a sword upstairs;  
Yet would be now, could I but have my wish,  
Colder and dumber and deafer than a fish.

1916 
- William Butler Yeats, em "W.B.Yeats: uma antologia". [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Lisboa-Portugal: Editora Assírio & Alvim, 1996.

§

Novas para o oráculo de Delfos

I
Aí jazem os felizes e estranhos velhotes, 
Aí o orvalho de prata, 
E as grandes águas suspiram de amor, 
E o vento suspira também. 
Niamh, a que os homens elege, inclina-se suspirando 
Junto a Oisin, sobre a relva; 
Também aí em seu coro de amor suspira 
O alto Pitágoras. 
Com pedaços de sal no peito, 
Chega Plotino e olha em redor, 
Estira-se, boceja um pouco, 
E aí jaz, suspirando também.

II
Todos eles montam um golfinho 
E nas barbatanas apoiados, 
Esses Inocentes revivem a sua morte, 
De novo se abrem suas feridas. 
Em êxtase riem-se as águas pois 
Belos são os gritos e são estranhos,
E eles dançam com passos ancestrais, 
E os brutos golfinhos mergulham 
Até que em certa alcantilhada baía onde 
A vau passa o coro do amor 
Arremessando as sagradas coroas de louros, 
Se desembaraçam de suas cargas.

III
Formosa adolescência que uma ninfa desnudou, 
Peleu olha Tétis fixamente. 
Os seus membros são delicados como pálpebras, 
O Amor cegou-o com lágrimas; 
Mas o ventre de Tétis escuta. 
Pela encosta da montanha, 
Da caverna de Pã, intolerável música cai. 
Imunda cabeça de cabra, braço brutal assomam, 
Ventre, ombro, nádega, 
Cintilando como peixes; ninfas e sátiros 
Copulam na espuma.
.

News for the Delphic Oracle

I
There all the golden codgers lay,
There the silver dew,
And the great water sighed for love,
And the wind sighed too.
Man-picker Niamh leant and sighed
By Oisin on the grass;
There sighed amid his choir of love
Tall pythagoras.
plotinus came and looked about,
The salt-flakes on his breast,
And having stretched and yawned awhile
Lay sighing like the rest.

II
Straddling each a dolphin's back
And steadied by a fin,
Those Innocents re-live their death,
Their wounds open again.
The ecstatic waters laugh because
Their cries are sweet and strange,
Through their ancestral patterns dance,
And the brute dolphins plunge
Until, in some cliff-sheltered bay
Where wades the choir of love
Proffering its sacred laurel crowns,
They pitch their burdens off.

III 
Slim adolescence that a nymph has stripped,
Peleus on Thetis stares.
Her limbs are delicate as an eyelid,
Love has blinded him with tears;
But Thetis' belly listens.
Down the mountain walls
From where pan's cavern is
Intolerable music falls.
Foul goat-head, brutal arm appear,
Belly, shoulder, bum,
Flash fishlike; nymphs and satyrs
Copulate in the foam.
- William Butler Yeats, em "W.B.Yeats: uma antologia". [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Lisboa-Portugal: Editora Assírio & Alvim, 1996.

§

FORTUNA CRÍTICA DE W. B. YEATAS
William Butler Yeats
ANDRADE, Kátia Maria Silva de.. Lendo William Butler Yeats em Português: uma análise descritivo-comparativa de traduções de peças irlandesas. (Dissertação Mestrado em Letras e Lingüística). Universidade Federal da Bahia, UFBA, 2007.
ANNUNCIAÇÃO, Viviane Carvalho da.. Larrissy, Edward. W.B. Yeats Irish Writers in their time. ABEI Journal (São Paulo), v. 13, p. 193-197, 2011.
AVILA, Myriam Correa de Araujo .. William Butler Yeats. In: Léa Masina; Ricardo Barberena; Vinícius Carneiro. (Org.). Guia de Leitura: 100 poetas que você precisa ler. 1ª ed., Porto Alegre: L&PM, 2015, v. 1, p. 287-289.
AZERÊDO, Genilda. An Old Song Resung and Revisited: W. B. Yeats. ABEI Journal (São Paulo), São Paulo, v. 5, p. 307-312, 2003.
BASTOS, Gustavo. WB Yeats, o maior poeta de língua inglesa do século 20 (parte 1). in: Seculo Diário, 16.4.2016. Disponível no link. (acessado em 27.6.2016).
BASTOS, Gustavo. WB Yeats, o maior poeta de língua inglesa do século 20 (parte 2). in: Seculo Diário, 16.4.2016. Disponível no link. (acessado em 27.6.2016).
BOSI, Viviana.. Em William Butler Yeats, a fascinação do que é difícil. Folha de São Paulo, São Paulo, 6 fev. 1988.
BOSI, Viviana.. Yeats: no limiar do dia. Folhetim. Folha de São Paulo, São Paulo, 22 maio 1987.
BROWN, T. (Org.); BOSI, A. (Org.); MUTRAN, Munira H (Org.); IZARRA, L. P. Z. (Org.). Yeats and Dance & A Poesia é Ainda Necessária?. 1ª ed., São Paulo: Humanitas/Cátedra de Estudos Irlandeses W.B.Yeats, 2010. v. 1. 110p.
CAMATI, Anna Stegh.. Tension of Opposites in Yeats's At the Hawk's Well.. Fragmenta Literária, v. 2, p. 97-125, 1981.
CANTARINO, Geraldo. Uma ilha chamada Brasil: o paraíso irlandês no passado brasileiro. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.
CORSI, Edson Manzan. Modalidade do estranho na poesia de William Butler Yeats. (Dissertação Mestrado em Letras e Linguística). Universidade Federal de Goiás, UFG, 2010. Disponível no link. (acessado em 27.6.2016).
CORSI, Edson Manzan. A presença do Ocultismo na poesia de W. B. Yeats. Revista Critério, v. 1, p. 1, 2009.
DOLHNIKOFF, Luis. Os vórtices e vértices de W. B. Yeats. in: Cronópios, 14.6.2007. Disponível no link. (acessado em 28.6.2016).
FRANÇA NETO, Alípio Correia de; MILTON, John. Literatura inglesa. Curitiba: IESDE Brasil S.A, 2009. 
FREITAS, Viviane Ramos de.. W.B. Yeats: The Man and the Echo. ARIS Journal, v. 1, p. 37-38, 2013.
GARCIA, Wladimir Antônio da Costa.. "Yeats: Vacillation". In: Anais do Minicolóquio "(Mal)dita Poesia: Homenagem a Haroldo de Campos". Florianópolis, 2003.
IZARRA, Laura Patricia Zuntini de.. Narrativas de la diáspora irlandesa bajo la Cruz del Sur. 1ª ed., Buenos Aires: Corregidor, 2010. v. 1. 244p.
IZARRA, Laura Patricia Zuntini de (ed.) Da Irlanda para o Brasil. São Paulo: Humanitas, 2011.
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LIMA, Geraldo Ferreira de.. Pessoa e Yeats: do 'outrar-se'do Livro do Desassossego ao 'revelar-se'de Autobiographies. Quinto Império (Salvador), Salvador: Gabinete Português, n.5, p. 103-127, 1995.
William Butler Yeats
LIMA, Geraldo Ferreira de. J. M. Synge e W. B. Yeats no Abbey Theatre: Drama Rural versus Drama Poético-Imaginativo. In: XXVIII SENAPULLI, 1996, Ouro Preto. Literatura e Cinema. São José do Rio Preto: ABRAPUI-UFOP, 1996. p. 257-261.
LUNA, Sandra; VIEIRA, B. R. L. . O sacrifício mítico na peça The Countess Cathleen, de Willia Butler Yeats.. Interdisciplinar: Revista de Estudos em Língua e Literatura, v. 21, p. 133-144, 2014.
MUTRAN, Munira Hamud. Álbum de Retratos: George Moore, Oscar Wilde e William Butler Yeats no fim do século XIX - um momento cultural. (Livre-docência). Universidade de São Paulo, USP, 2000.
MUTRAN, Munira Hamud. Álbum de Retratos - George Moore, Oscar Wilde e William Butler Yeats no Fim do Século XIX: um momento cultural. 1ª ed., São Paulo: Humanitas/ FAPESP, 2002. v. 1. 272p.
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RAMOS, Luiz Fernando.. W. B. Yeats and Gordon Craig: Collaborations and rehearsals towards the theatre of the future. ABEI Journal (São Paulo), v. 17, p. 21, 2015.
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RIBEIRO, Vanessa Sofia Graça.. Hanrahan, o Ruivo: Tradução, análise e comentário de seis contos de W. B. Yeats. (Dissertação Mestrado em Estudos Anglo-Americanos: Variante de Tradução Literária). Faculdade de Letras - Universidade do Porto, 2014. Disponível no link. (acessado em 28.6.2016).
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SOUSA, Raimundo. Impactos da homocultura finissecular na formação literária de William Butler Yeats. Revista SOLETRAS, v. 29, p. 98-116, 2015.
SOUSA, Raimundo. Representações espe(ta)culares: bioescritura e biopolítica em William Yeats. Travessias (UNIOESTE. Online), v. 11, p. 1-20, 2015.
SOUSA, Raimundo; LAGUARDIA, Adelaine. Confissões de um heterossexual assumido: paradoxos da heteronormatividade na autoescritura de William Butler Yeats. Caderno Seminal Digital (Rio de Janeiro), v. 21, p. 30-67, 2014.
SOUSA, Raimundo; TOLENTINO, Magda Velloso Fernandes de.. A mulher em Yeats: alegoria da identidade irlandesa. In: V Congresso de Produção Científica da UFSJ, 2006, São João del-Rei/MG. V Congresso de Produção Científica da UFSJ, 2006.
VIANA, Maria Rita Drumond. Trazendo os ramos adequados para um ninho de águia: uma exploração das cartas de W. B. Yeats. (Tese Doutorado em Estudos Linguísticos e Literários em Inglês). Universidade de São Paulo, USP, 2015.
VIANA, Maria Rita Drumond. Penance for Passionate Sin and the Memory of a Crime: Yeats and the Metaphors of Evil. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, 2009.
VIANA, Maria Rita Drumond. No Oscar Ruled the Table: Yeats's Role in the Rehabilitation of Wilde's Reputation. (Mongrafia Graduação em Letras). Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, 2009.
VIANA, Maria Rita Drumond. 'Your Bones Shall Never Rest Easy': the Cultural Politics of Yeats´s Body (of Writing). Études Anglaises, v. 68, p. 496-508, 2015.
VIANA, Maria Rita Drumond. Joyce and Yeats, Yes: A Report on the VIII James Joyce Italian Foundation Conference in Rome, Italy, 2-3 February 2015. James Joyce Quarterly, v. 50, p. 939-942, 2013.
VIANA, Maria Rita Drumond. Sin and Crime as Metaphors for the Representation of Evil in Yeats's The Countess Cathleen and Purgatory. Em Tese (Belo Horizonte. Impresso), v. 15, p. 206, 2010.
VIANA, Maria Rita Drumond. Violence and Violation: The Rape In Yeats's 'Leda And The Swan'. Estação Literária, v. 6, p. 52-61, 2010.
VIANA, Maria Rita Drumond. As Cartas do Jovem W. B. Yeats e o Meio Literário Anglo-Irlandês dos Anos 1880. In: IV Seminário Nacional de Literatura e Cultura, 2012, São Cristóvão. Anais do IV Seminário Nacional de Literatura e Cultura. São Cristóvão, 2012. v. 4. p. 1-10.
William Butler Yeats
VIEIRA, Bruno Rafael de Lima. Intitulada O Folclórico E O Político No Teatro De Yeats: Estética Romântica E Nacionalismo Em The Countess Cathleen. (Dissertação Mestrado em Letras). Universidade Federal da Paraíba, UFPB, 2015.
VIEIRA, Bruno Rafael de Lima. Entre a Cruz e o Inferno: Implicações Políticas e Religiosas em The Countess Cathleen, de W.B. Yeats. In: Ana Graça Canan; Marcelo da Silva Amorim. (Org.). Bloomsday 2014 - ensaios. 1ª ed., Natal: Edufrn, 2015, v. 1, p. 15-254.
VILELA, Lucia Helena de Azevedo. Tesouros alquímicos: transtextualidade em J. G. Rosa e W. B. Yeats. (Tese Doutorado em Literatura Comparada). Universidade Federal de Minas Gerais, UFMG, 1996.
VILELA, Lucia Helena de Azevedo. Alchemical Treasures: Transtextuality In J. G. Rosa e W. B. Yeats. ABEI: Newletter, São Paulo, v. 12, p. 11-12, 1997.
VILELA, Lucia Helena de Azevedo. Tesouros Alquímicos: Transtextualidade Em J. G. Rosa e W. B. Yeats. Em Tese, Belo Horizonte, v. 1, p. 11-22, 1997.
VILELA, Lucia Helena de Azevedo. Real e Imaginário em Rosa e Yeats. In: Georg Otte; Silvana Pessôa. (Org.). Mosaico crítico: ensaios sobre literatura contemporânea. Belo Horizonte: Autêntica, 1999, v. 1, p. 47-54.
VILELA, Lucia Helena de Azevedo. Cuchulain e Riobaldo: percursos transculturais em Rosa e Yeats. In: XXIII Senapulli, 1991, Belo Horizonte. XXIII Senapulli: Anais, 1996. v. 1. p. 298-302.
VILELA, Lucia Helena de Azevedo. The Osiris Myth in Yeats's Poetry. In: XXIII Senapulli, 1991, Belo Horizonte. XXIII Senapulli: Literatura, História e Mito, 1991. v. 1. p. 129-132.



William Butler Yeats
CRONOLOGIA DE W. B. YEATS
1865 - Nasce em Georgeville, Dublin, William Butler Yeats, no dia 13 de Junho.
1867 - A família muda-se para Londres.
1875 - Matricula-se na Godolphin School de Hammersmith.
1880 - A família regressa à Irlanda. Yeats faz os estudos secundários em Dublin.
1881 - Apaixona-se pela sua prima Laura Johnston.
1883 - Ingressa na Escola de Arte de Dublin.
1885 - Aparecem os seus primeiros poemas na Dublin University Review. Conhece Katharine Tynan e John O'Leary.
1887 - A família regressa a Londres. Yeats liga-se a certas entidades teosóficas.
1888 - A família vende as suas terras na Irlanda.
1889 - Publica The Wanderings of Oisin and Other Poems. Edita Fairy and Folk Tales of the Irish Paesantry. Apaixona-se por Maud Gonne.
1890 - Aparece o famoso poema «A Ilha do Lago de Innisfree».
1891 - É fundado o Rhymer's Club. Inicia a sua amizade com Johnson e Dowson. Primeira proposta de casamento a Maud Gonne. Funda a London Irish Literary Society. Nesse mesmo ano funda com O'Leary como presidente, a National Literary Society em Dublin.
1892 - Publica The Countess Kathleen and Various Legends and Lyrics.
1893 - Edita com Ellis The Works of William Blake.
1894 - Primeira visita a Paris. Nova proposta de casamento a Maud Gonne.
1895 - Partilha uma casa com Arthur Symons.
1897 - Publica The Secret Rose.
1898 - Concebe a idéia do Irish Theatre com Lady Gregory e Edward Martyn.
William Butler Yeats
1899 - Publica The Wind Among the Reeds. Nova proposta de casamento a Maud Gonne.
1902 - Assume a presidência da Irish National Dramatic Society.
1903 - Maud Gonne casa-se com John MacBride. Yeats visita os EUA, onde realiza algumas conferências.
1904 - É inaugurado o Abbey Theatre. Yeats assume várias tarefas que o afastam da criação.
1906 - Publica Poems 1895-1905.
1907 - Visita a Itália com Lady Gregory e o filho desta.
1908 - São publicados os seus Collected Works, em oito volumes.
1910 - Publica The Green Helmetand Other Poems.
1912 - Passa alguns dias com Maud Gonne na Normandia. Conhece Ezra Pound.
1914 - Publica Responsibilities. Completa a primeira parte de Autobio-graphies. Visita os E UA.
1915 - Recusa um título honorífico que lhe é oferecido pelo Governo.
1916 - Passa o Inverno na companhia de Ezra Pound. Dá-se o levantamento da Páscoa (Easter rising). Escreve Easter 1916.
1917 - Compra o castelo de Ballylee. Casa-se com Georgie Hyde-Lees.
1918 - Visita Sligo (Irlanda).
1919 - Nasce em Dublin, no mês de Fevereiro, a sua filha Anne Yeats. Visita Oxford.
1920 - Nova viagem aos EUA.
1921 - Nasce-lhe o filho Michael, em Agosto.
1922 - Adquire a casa de Merrion Square em Dublin. O seu pai morre em New York. É nomeado senador do novo Estado Irlandês.
1923 - É-lhe outorgado o Prêmio Nobel.
1924 - Termina o livro A Vision. Visita a Sicília.
1925 - Visita Roma e Milão. Publicai Vision.
1927 - Adoece gravemente de uma infecção pulmonar. Viaja a Algeciras, Sevilha e Cannes.
1928 - Publica The Tower. Vende a casa de Dublin.
1929 - Visita Rapallo onde vive Ezra Pound.
1930 - Escreve o poema Byzantium.
1931 - Words for Music, Perhaps. É doutorado pela universidade de Oxford. Morre Lady Gregory. É fundada a Irish Academy of Letters.
1933 - The Winding Stair and Other Poems.
1934 - Viaja até Maiorca. Colabora na tradução dos Upanishadspaxa. inglês.
1936 - Adoece gravemente. Regressa a Dublin.
1937 - Edita o Oxford Book of Modern Verse (1892-1935).
1938 - Visita pela última vez o Abbey Theatre. Recebe Maud Gonne em Dublin.
1939 - Morre a 28 de Janeiro. É sepultado em Roquebrune. São publicados os Last Poems. O corpo será trasladado para Sligo, Irlanda, em 1948.
:: Fonte: "Cronologia". in: W.B.Yeats: uma antologia. [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Lisboa-Portugal: Editora Assírio & Alvim, 1996.


Com o tempo a sabedoria

Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma;
Ao longo dos enganadores dias da mocidade,
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores;
Agora posso murchar no coração da verdade.
.

The coming of wisdom with me

Though leaves are many, the root is one;
Through all the lying days of my youth
I swayed my leaves and flowers in the sun;
Now I may wither into the truth. 
- William Butler Yeats, em "Poemas. W. B. Yeats". [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Coleção Gato Maltês, 18. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988.



William Butler Yeats & Georgie Hyde-Lees - 1920

W.B. Yeats and Georgie - family

Parto da paixão
Quando a flamejante e angélica porta se abre num tumulto de alaúdes, 
Quando imortal paixão respira em mortal argila, 
O nosso coração suporta o flagelo, a coroa de espinhos, o caminho 
Povoado de rostos amargos, a ferida das mãos, a ferida dos flancos, 
A esponja pesada de vinagre, as flores junto ao rio Kedron; 
Sobre ti inclinados soltaremos os cabelos 
Para que leve perfume se desprenda, cheio de orvalho, 
Lírios da esperança em sua mortal palidez, rosas de apaixonado sonho.
.

The travail of passion 
WHEN the flaming lute-thronged angelic door is wide;  
When an immortal passion breathes in mortal clay;  
Our hearts endure the scourge, the plaited thorns, the way  
Crowded with bitter faces, the wounds in palm and side,  
The hyssop-heavy sponge, the flowers by Kidron stream:
We will bend down and loosen our hair over you,  
That it may drop faint perfume, and be heavy with dew,  
Lilies of death-pale hope, roses of passionate dream. 

1899
- William Butler Yeats, em "Poemas. W. B. Yeats". [selecção e tradução de José Agostinho Baptista]. Coleção Gato Maltês, 18. Lisboa: Assírio & Alvim, 1988.


AMIZADES LITERÁRIAS
Victor Plarr, Thomas Sturge Moore, William Butler Yeats, Wilfrid Scawen Blunt, Ezra Pound, Richard Aldington, and F. S. Flint
 - Photograph: Fitzwilliam Museum, Cambridge


WB Yeats and TS Eliot - 1925 - Photograph: Hulton/Getty 


W.B. Yeats and Oliver St. John Gogarty, 1924


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Como citar:
FENSKE, Elfi Kürten (pesquisa, seleção e organização). William Butler Yeats - poeta irlandês. Templo Cultural Delfos, junho/2016. Disponível no link. (acessado em .../.../...).
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** Página atualizada em 29.6.2016.




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